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Mateus 20:17

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✍️ Por Alberto Adriano·29 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 19 acessos
Quando estava subindo para Jerusalém, Jesus chamou à parte os doze discípulos e, no caminho, disse-lhes:
Jesus reúne os doze discípulos à beira de uma estrada de terra que sobe entre montes áridos, enquanto ao fundo uma caravana de peregrinos segue rumo a Jerusalém

Estudo


Quando estava subindo para Jerusalém, Jesus chamou à parte os doze discípulos e, no caminho, disse-lhes:

1. Introdução

O último trecho de estrada do evangelho começa aqui, e começa com um verbo de subida.

Jesus está subindo para Jerusalém, e no meio do caminho separa do grupo maior os doze e fala com eles a sós. É a terceira vez que anuncia a própria morte, e será a mais minuciosa das três — mas isso pertence aos dois versículos seguintes. Este traz a moldura: o verbo técnico da peregrinação, o gesto de tomar alguém à parte e o lugar escolhido para a notícia, que não é uma sala nem um monte, é a estrada.

2. Contexto Histórico e Cultural

Subir não era modo de dizer

Três vezes por ano, segundo Deuteronômio 16:16, todo homem de Israel devia comparecer diante do SENHOR: na Páscoa, na festa das Semanas e na festa das Tendas. O deslocamento tinha nome próprio no hebraico posterior — aliyah la-regel (“a subida do pé”, isto é, a subida a pé, feita nas três festas) — e o verbo dela era sempre o mesmo: subir. Nunca “ir a Jerusalém”, nunca “viajar até o templo”. O que Mateus 16:21 já registrou sobre a altitude e a posição política da cidade não se repete aqui; este versículo usa o verbo como termo de ofício religioso, e não como observação de relevo.

A marca ficou nos títulos de quinze salmos. Os Salmos 120 a 134 trazem no alto a expressão shir ha-ma'alot (“cântico das subidas”, em hebraico), e os mestres judeus ligaram o número quinze aos quinze degraus que, segundo a Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200), subiam do átrio das mulheres ao átrio de Israel. A relação é dos rabinos, não do texto dos salmos, e é discutida — mas mostra que “subida” tinha virado categoria litúrgica.

Como era a subida de verdade

A Mishná descreve o procedimento no tratado Bikkurim, que trata da entrega das primícias. As povoações de uma mesma região se juntavam na cidade principal e passavam a noite na praça. Ao amanhecer, o encarregado dava o grito de partida com uma frase de Jeremias 31:6 — “Levantem-se, subamos a Sião, ao SENHOR nosso Deus”. Ia um boi à frente, com os chifres dourados e uma coroa de oliveira na cabeça; uma flauta tocava até o grupo se aproximar de Jerusalém. Na chegada, os oficiais e os tesoureiros do templo saíam ao encontro, e os artesãos da cidade paravam o trabalho para saudar: “Irmãos nossos, homens de tal lugar, sejam bem-vindos em paz” (Mishná Bikkurim 3:2-4).

Esse texto é posterior a Jesus e descreve uma cerimônia específica, não a viagem de qualquer peregrino. Mas ele documenta o formato: a subida era coletiva, organizada, ruidosa e festiva. Quem estava na estrada em época de festa estava dentro de uma multidão em movimento.

Sobre o tamanho dessa multidão, a única fonte antiga com números é Flávio Josefo (historiador judeu do primeiro século, que escreveu para leitores romanos depois da guerra): ele afirma que numa Páscoa foram abatidos 255.600 cordeiros e chega, a partir disso, a mais de dois milhões e meio de pessoas na cidade. Nenhum historiador moderno aceita a conta — Jerusalém não tinha onde pôr essa gente, e as estimativas hoje discutidas ficam entre algumas dezenas e poucas centenas de milhares. O aproveitável não é a cifra: é que Josefo precisou de números enormes para dar a impressão do que era a cidade na festa.

A estrada e a caravana

O último trecho, de Jericó até a cidade, sobe cerca de mil metros em vinte e sete quilômetros de deserto (item 4). Nenhum peregrino que fizesse esse percurso precisava que lhe explicassem a palavra “subir”.

Ninguém fazia esse caminho sozinho. Viajava-se por grupos de família e de aldeia, e Lucas 2:44 dá a medida do tamanho deles: os pais de Jesus andaram um dia inteiro supondo que o menino estivesse “entre os companheiros de viagem”. Um grupo em que se perde uma criança por um dia é um grupo grande.

É esse pano de fundo que dá peso ao gesto do versículo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) supõe que Jesus tenha levado os doze a algum lugar reservado à beira da estrada. Meyer (Heinrich Meyer, exegeta alemão do século XIX) recorre a Eutímio Zigabeno, comentarista bizantino do século XII, que registrava a razão mais simples: havia outras pessoas viajando com eles, e o que Jesus tinha a dizer não era para elas. Numa estrada de peregrinação em semana de Páscoa, separar doze homens do resto exigia um ato deliberado.

3. Análise Teológica do Versículo

“Quando estava subindo para Jerusalém”

A subida já começou. O verbo está numa forma que descreve ação em curso, não plano para depois — e é aqui que a diferença entre as edições gregas muda a cena, porque o texto crítico traz “estando a ponto de subir”, e a ABC segue o Textus Receptus, que traz “subindo” (item 10).

Onde eles estão, o capítulo não diz. Mateus 19:1 os colocou na Judeia, do outro lado do Jordão; Jericó só aparece em Mateus 20:29. Entre um ponto e outro há o vau do rio e a planície. Quer dizer: o anúncio é feito antes da escalada propriamente dita, no trecho plano, quando a cidade ainda não está à vista.

Isso muda o estatuto de Jerusalém dentro do evangelho. Desde Mateus 16:21 ela era um destino nomeado, um ponto num discurso; agora é um lugar de que se está a poucos dias. A frase não acrescenta informação sobre a cidade — acrescenta proximidade, que era o que faltava para o anúncio parar de ser uma tese.

E há o que Mateus deixou de fora. Marcos 10:32, no mesmo ponto da narrativa, escreve que estavam na estrada subindo para Jerusalém, que Jesus ia adiante deles, que eles se espantavam e que os que o seguiam iam com medo. Mateus não tem nada disso: nem o homem à frente, nem o espanto, nem o medo. Em lugar de um que caminha na frente e um grupo atrás, Mateus tem um que para e reúne.

Duas leituras se apresentam para a ausência. Primeira leitura: é abreviação, e Mateus corta detalhes de cena com frequência, sem intenção nenhuma. Segunda leitura: Mateus adia o medo e prefere aqui a imagem da aproximação. Não é possível decidir entre as duas, mas o efeito é verificável: no lugar da distância entre ele e eles, Mateus põe a proximidade.

“Jesus chamou à parte os doze discípulos”

Só se separa quem está no meio de gente. O gesto pressupõe a multidão que o item 2 descreveu, e é a primeira coisa que o versículo informa sobre o público do anúncio: ele foi construído por exclusão.

A expressão “os doze discípulos” não é neutra em Mateus. Ela aparece três vezes no evangelho inteiro: em Mateus 10:1, quando ele lhes dá autoridade sobre os espíritos imundos; em Mateus 11:1, quando termina de lhes dar instruções; e aqui. Depois deste versículo o grupo passa a ser chamado só de “os doze” — e em Mateus 26:14 e 26:47 a expressão serve para dizer “um dos doze”, que é Judas. O nome do grupo sobrevive; a inteireza dele, não. É uma observação sobre o vocabulário de Mateus, e não uma afirmação de que ele tenha planejado esse efeito.

Há também uma simetria com o capítulo 16, e ela é exata. Em Mateus 16:22, depois do primeiro anúncio, Pedro toma Jesus à parte para repreendê-lo e impedir a coisa. Aqui Jesus toma os doze à parte para anunciá-la. O mesmo gesto, na direção contrária: da primeira vez, alguém puxou Jesus para fora do grupo a fim de calar a notícia; desta, ele puxa o grupo para fora da multidão a fim de dizê-la. Os dois verbos gregos são da mesma família, o que reforça o paralelo sem provar intenção (item 10).

Restringir o público também define o gênero da fala. Isso não é pregação: é informação operacional dada a quem vai estar presente. Ele não está tentando ganhar ninguém para uma causa, nem produzindo efeito sobre uma audiência. Duas explicações são defensáveis, e os comentaristas se dividem entre elas. A primeira é de prudência: anunciar em voz alta, dentro de uma multidão em festa, que o homem que vinha sendo saudado como filho de Davi seria condenado à morte, era oferecer às autoridades a acusação pronta e expor todos os presentes. A segunda é de destinatário: quem precisava saber era quem estaria na cena. Gill e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) preferem a segunda. O texto não escolhe.

“e, no caminho, disse-lhes”

O lugar do ensinamento é a estrada, e em Mateus isso é exceção. Ele ensina num monte em Mateus 5:1, de dentro de um barco em Mateus 13:2, numa casa em Mateus 13:36, no templo em Mateus 21:23. O terceiro anúncio da paixão não ganha nenhum desses cenários: ganha o trajeto.

Não há introdução, não há “ouçam”, não há ninguém que se assente. Ele caminha e diz. A fala e os pés apontam para o mesmo endereço, e dos três anúncios este é o único em que isso acontece.

Falta, por fim, a reação. Em Mateus 16:22 Pedro protesta; em Mateus 17:23 os discípulos ficam muito tristes. Aqui Mateus não registra nada — e a cena seguinte é o pedido de dois tronos. Se o silêncio é lacuna de composição ou se é o ponto, permanece em aberto. O que fica ao leitor é a sequência: eles ouvem o itinerário completo até a cruz e, logo depois, perguntam sobre assentos.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os doze

Esta é a última cena de Mateus em que eles agem como um corpo indiviso. No versículo 20 dois deles saem do conjunto pela mão da mãe; no versículo 24 os outros dez se indignam com esses dois; em Mateus 26:14 um deles vai por conta própria aos chefes dos sacerdotes. O grupo que aqui é levado à parte para ouvir o itinerário inteiro será, dali em diante, sempre contado por subtração.

Judas está dentro desse círculo. Ele ouve o nome das autoridades a quem Jesus será entregue antes de procurá-las. Mateus não comenta o fato, não faz nenhuma ligação entre as duas cenas e não indica que uma prepare a outra — quem quiser a ligação está lendo por conta própria.

Onde eles estão

O último endereço dado foi Mateus 19:1: a região da Judeia do outro lado do Jordão, isto é, a Peréia, a faixa a leste do rio. O próximo será Mateus 20:29, na saída de Jericó. Entre os dois está o vau do Jordão, e é aí que este versículo acontece.

A subida de Adumim

É o nome bíblico do desfiladeiro por onde a estrada sai de Jericó e ganha a montanha de Judá, citado na demarcação de fronteiras de Josué 15:7 e 18:17. São vinte e sete quilômetros de deserto sem povoação e praticamente sem água, com cerca de mil metros de desnível. A fama do trecho como lugar de assalto sobreviveu na parábola de Lucas 10:30, e a topografia explica por que a palavra “subida” entrou no nome do lugar.

O terceiro anúncio

Os três anúncios de Mateus acontecem em três lugares, e os lugares andam numa direção só. O primeiro é em Cesareia de Filipe, junto às nascentes do Jordão, no extremo norte (Mateus 16:21). O segundo é na Galileia (Mateus 17:22). O terceiro é na estrada de subida, a poucos dias da cidade. A geografia dos três avisos acompanha a aproximação do fato.

A festa

Mateus 26:2 datará a Páscoa em dois dias, contando a partir da cena de Betânia. Quer dizer: a subida deste versículo é a subida da Páscoa, feita junto com todos os que subiam para a Páscoa, e o calendário da festa e o calendário da execução são o mesmo calendário.

5. Pontos de Ensino

A notícia já tinha sido dada duas vezes

Ninguém neste grupo está ouvindo aquilo pela primeira vez. Isso desmonta a explicação mais cômoda para o que vem depois — o pedido dos tronos, o sono no Getsêmani, a fuga — que é a de que eles não sabiam. Sabiam, com detalhe crescente, e não estavam prontos. Informação e preparo são coisas diferentes, e o evangelho mostra a distância entre as duas sem tentar cobri-la.

Reservar não é esconder

O que se diz a doze pessoas não é o que se oculta de todas. A restrição aqui tem forma de confiança, não de sigilo: o grupo recebe o que a multidão não recebe porque é o grupo que vai estar dentro da cena. A distinção vale para qualquer lugar em que alguém tenha de decidir a quem contar o que sabe.

O ensino pode acontecer no trajeto

Não houve sala, assento, hora marcada nem introdução. A conversa mais grave deste capítulo é dita caminhando. A imagem contraria o hábito de esperar a hora certa, o lugar apropriado e o clima favorável para dizer o que precisa ser dito.

A subida é literal antes de ser figura

O costume de ler “subir a Jerusalém” como imagem espiritual apaga o que a expressão tinha de concreto: mil metros de ladeira, poeira, calor e um grupo grande andando junto. A leitura figurada só é honesta depois que a literal foi levada a sério.

6. Aspectos Filosóficos

Doze homens ouvem, à beira de uma estrada, o que vai acontecer no fim dela. Ouvem com todas as palavras, pela terceira vez, e três versículos depois pedem cargos. O problema que isso levanta não é de informação: é de percepção. Por que uma pessoa pode receber um dado exato, entendê-lo como frase e não vê-lo?

Charles Péguy (1873-1914) fez dessa pergunta a régua do seu trabalho. Filho de uma consertadora de cadeiras de Orleans, chegou às melhores escolas da França por bolsa, foi socialista e defensor de Dreyfus, e de 1900 até morrer publicou praticamente sozinho uma revista, os Cahiers de la Quinzaine (“Cadernos da Quinzena”), em que escrevia longos ensaios sem concessão a ninguém. Voltou ao catolicismo sem voltar à prática dos sacramentos, e em junho de 1912 cumpriu a pé uma promessa feita à beira da cama de um filho doente: cento e quarenta quilômetros de ida e volta até a catedral de Chartres, atravessando a planície da Beauce — caminhada de que saiu o seu poema mais conhecido. Morreu em 5 de setembro de 1914, com um tiro na cabeça, nas primeiras horas da batalha do Marne.

Em Notre jeunesse (“A nossa juventude”, 1910) ele escreveu a frase que interessa a este versículo: é preciso sempre dizer o que se vê; sobretudo é preciso sempre, e isso é mais difícil, ver o que se vê. A construção tem duas metades, e o peso está na segunda. Dizer é um esforço; ver é o esforço maior. Péguy não estava falando de gente mal informada — estava falando de gente que tem o dado na mão e não o reconhece, porque reconhecê-lo custaria demais.

Aplicado à cena, o resultado é exato. Jesus faz a primeira parte: ele diz o que vê, e diz três vezes, com detalhe crescente. A dificuldade não está do lado de quem fala. Está do lado de quem ouve, e não por falta de dados — eles têm todos.

Há um segundo achado de Péguy que este capítulo confirma em três versículos. No mesmo livro de 1910 ele formulou que tudo começa em mística e termina em política. A frase não é cínica: descreve uma degradação que ele considerava normal e observável — o que nasce como adesão inteira a algo acaba convertido em disputa por posição dentro daquilo. Entre o versículo 19 e o versículo 21 essa passagem acontece na velocidade máxima possível. A mística é o anúncio da paixão; a política é o pedido de dois assentos, um à direita e outro à esquerda.

O limite

Péguy é um poeta e ensaísta francês do começo do século XX, e ler o versículo com as categorias dele é leitura nossa, não algo que o texto afirme. Duas ressalvas. A primeira: Mateus não julga os doze neste ponto — não escreve que não viram, não escreve nada. Quem diz que eles não viram está inferindo da cena seguinte. A segunda: a fórmula da mística que termina em política é observação sobre movimentos e instituições, não sobre a alma de duas pessoas, e aplicá-la ao pedido da mãe dos filhos de Zebedeu é usá-la fora do tamanho para o qual foi feita.

Dentro desses limites, o que fica é um critério útil para ler o resto do capítulo: a distância entre ter a informação e vê-la não se fecha com mais informação. Foi tentado três vezes.

7. Aplicações Práticas

Dizer a quem vai ter de carregar

A cena tem um formato reconhecível: alguém que sabe o que vem, um grupo que vai ser afetado, e a decisão de contar antes. Quem administra uma empresa que vai fechar, quem recebeu um diagnóstico, quem sabe que a casa vai ser vendida, está diante da mesma escolha. O versículo não ensina a fórmula, mas mostra três decisões tomadas: contar antes, contar a quem vai estar dentro do fato, e contar completo — e a terceira é a mais difícil, porque o desejo de poupar, aparando o pior de uma notícia, costuma transformar o aviso em surpresa dobrada.

A conversa reservada não é conspiração

Há uma suspeita moderna contra tudo o que se diz a portas fechadas. O versículo mostra o uso legítimo: informação que pertence a quem vai viver o acontecimento não precisa ser gritada para ser honesta. O teste é simples e está na cena — a restrição existia para proteger os ouvintes e o que ia ser dito, não para esconder deles.

Andar junto não é saber a mesma coisa

Doze homens subiam a mesma estrada, no mesmo passo, na mesma direção, e um deles sabia o que estava fazendo ali. Isso acontece em qualquer grupo que se move: família, equipe, igreja. A aparência de acordo é produzida pela direção comum, e ela esconde diferenças enormes de compreensão. Quem lidera um grupo assim não pode concluir, do fato de todos andarem juntos, que todos entenderam.

O que não se tira daqui

Não se tira uma técnica de anúncio de má notícia, nem a garantia de que contar antes evita o que vem. Os doze ouviram e, na cena seguinte, pediram cargos; no Getsêmani, dormiram. O aviso completo, dado três vezes, não produziu prontidão. É honesto registrar isso: o versículo mostra uma escolha correta, não uma escolha eficaz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Mateus diz que eles entenderam?

Não. Ele não escreve nem que entenderam nem que não entenderam. Lucas 18:34, no mesmo ponto, afirma que eles não compreenderam nada, que a palavra lhes estava encoberta e que não sabiam do que se falava. Mateus cala, e depois mostra o pedido dos tronos. As duas maneiras produzem o mesmo resultado na leitura, por caminhos diferentes: uma declara a incompreensão, a outra a deixa aparecer.

Por que três anúncios, se o conteúdo é o mesmo?

Porque o conteúdo não é o mesmo. Cada um acrescenta peça: o primeiro dá o lugar e os responsáveis, o segundo dá o modo pelo qual aquilo começa, o terceiro dá os estrangeiros e a cruz. A comparação item por item é matéria dos versículos 18 e 19. O que este versículo acrescenta à série é a distância: dos três, é o único dito na direção do acontecimento.

Havia alguma chance de ele não subir?

O versículo não coloca a pergunta, e o evangelho não a responde em nenhum lugar de modo direto. Duas coisas, porém, estão no texto e convivem: em Mateus 16:21 a morte é apresentada como necessária, sem que se diga quem impõe a necessidade; e em Mateus 26:39, no Getsêmani, ele pede que o cálice passe. Um texto que descreve o desfecho como necessário e ainda registra o pedido para que ele não aconteça não trata a necessidade como automatismo. Não se pode afirmar mais do que isso a partir daqui.

9. Conexão com Outros Textos

A fórmula “os doze discípulos” em Mateus

Mateus 10:1 — “Chamando a si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e curarem toda enfermidade e toda doença.”

Mateus 11:1 — “Quando Jesus terminou de dar instruções aos seus doze discípulos, partiu dali para ensinar e pregar nas cidades deles.”

As duas outras ocorrências. Numa ele entrega poder; na outra, encerra um bloco de ensino. Aqui, entrega o itinerário.

E o que sobra da fórmula depois

Mateus 26:14 — “Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi aos chefes dos sacerdotes”

Mateus 26:47 — “Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos doze. Com ele vinha uma grande multidão armada de espadas e porretes, enviada pelos chefes dos sacerdotes e pelos anciãos do povo.”

Nas duas o número serve para localizar um homem dentro do grupo, e o homem é o mesmo.

O gesto invertido

Mateus 16:22 — “Pedro o tomou à parte e começou a repreendê-lo: ‘Longe disso, Senhor! Isso jamais te acontecerá!’”

Depois do primeiro anúncio, o discípulo puxa o mestre para fora do grupo a fim de calar a notícia. Antes do terceiro, o mestre puxa o grupo para fora da multidão a fim de dizê-la.

As outras conversas reservadas de Mateus

Mateus 17:1 — “Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago, e os levou à parte, a um monte alto.”

Mateus 24:3 — “Depois, sentado no monte das Oliveiras, os discípulos se aproximaram dele em particular e perguntaram: ‘Diga-nos, quando vão acontecer essas coisas? E qual será o sinal da sua vinda e do fim dos tempos?’”

Uma visão e uma pergunta sobre o fim. O reservado deste versículo é o único em que a iniciativa é dele e o assunto é a própria morte.

A cena que Mateus não escreveu

Marcos 10:32 — “E estavam na estrada, subindo para Jerusalém, e Jesus ia adiante deles; e eles se espantavam, e os que o seguiam iam com medo. E, tomando de novo consigo os doze, começou a dizer-lhes as coisas que lhe haviam de sobrevir.”

O espanto e o medo estão em Marcos e não em Mateus. O gesto de tomar os doze consigo está nos dois.

A subida como termo religioso

Deuteronômio 16:16 — “Três vezes no ano todos os teus homens apareçam diante do SENHOR teu Deus, no lugar que ele escolher: na festa dos pães sem fermento, na festa das semanas e na festa das tendas; e não apareçam diante do SENHOR de mãos vazias.”

Jeremias 31:6 — “Porque haverá um dia em que os vigias, na montanha de Efraim, clamarão: ‘Levantem-se, subamos a Sião, ao SENHOR nosso Deus.’”

A obrigação e o grito. A segunda frase era o sinal de partida das procissões descritas na Mishná.

A caravana

Lucas 2:44 — “E, supondo que ele estivesse entre os companheiros de viagem, caminharam um dia inteiro; e o procuravam entre os parentes e conhecidos.”

A prova indireta do tamanho dos grupos que subiam às festas.

A mesma estrada, no outro sentido

Lucas 10:30 — “Um homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de assaltantes, que o despojaram, o espancaram e se foram, deixando-o quase morto.”

Ali a palavra é a inversa: descia.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Quando estava subindo para Jerusalém, Jesus chamou à parte os doze discípulos e, no caminho, disse-lhes:

Texto grego

Καὶ ἀναβαίνων ὁ Ἰησοῦς εἰς Ἱεροσόλυμα παρέλαβεν τοὺς δώδεκα μαθητὰς κατ᾽ ἰδίαν ἐν τῇ ὁδῷ, καὶ εἶπεν αὐτοῖς,

Transliteração

Kai anabainōn ho Iēsous eis Hierosolyma parelaben tous dōdeka mathētas kat' idian en tē hodō, kai eipen autois,

Três diferenças entre as edições gregas

A primeira é o verbo da subida. O Textus Receptus (a edição grega impressa no século XVI que a ABC segue) e o texto bizantino trazem kai anabainōn, “e subindo”: particípio presente, ação em curso. Westcott-Hort e Nestle trazem mellōn de anabainein, “estando a ponto de subir”: a subida ainda não começou. Na primeira leitura ele fala no meio da estrada; na segunda, antes de pisar nela.

A segunda é a palavra mathētas, “discípulos”. Nestle 1904 e Tischendorf a omitem e deixam só “os doze”; o Textus Receptus, o bizantino e Westcott-Hort a conservam. A ABC traduz “os doze discípulos” por seguir o primeiro grupo.

A terceira é a posição de en tē hodō, “no caminho”. No Textus Receptus a expressão vem antes do “e disse-lhes”, e liga-se, portanto, ao ato de tomar à parte: tomou-os à parte, na estrada, e disse. Nas edições críticas ela vem depois, e liga-se à fala: e no caminho disse-lhes. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) registra a troca de ordem como decisão da Revised Version inglesa. A consequência é pequena mas existe: num caso a estrada é onde ele os separou, no outro é onde ele falou. Nenhuma das três altera o conteúdo do anúncio; a primeira é a única que muda o instante da cena.

Análise palavra por palavra

Καὶ — kai, “e”. Conjunção. Começar a frase com “e” é hábito da narrativa grega dos evangelhos, herdado do hebraico, e não marca ligação lógica com o versículo anterior.

ἀναβαίνων — anabainōn, “subindo”. Particípio presente ativo de anabainō, formado de ana (“para cima”) e bainō (“ir, andar”). É a palavra técnica da peregrinação no grego dos judeus: a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) usa-a para verter o verbo hebraico da subida às festas, e em Isaías 2:3 traz deute kai anabōmen eis to oros kyriou, “vinde e subamos ao monte do Senhor”. O par hebraico subir/descer aplicado à geografia da terra está tratado no estudo de Gênesis 13:1; o que este versículo usa é o sentido religioso já formado.

εἰς Ἱεροσόλυμα — eis Hierosolyma, “para Jerusalém”. Esta é a forma helenizada do nome, a que Mateus usa quase sempre; a outra forma do Novo Testamento, Ierousalēm, mais próxima do hebraico e preferida por Lucas, Mateus emprega uma vez só, em Mateus 23:37.

παρέλαβεν — parelaben, “tomou consigo”. Aoristo de paralambanō, composto de para (“ao lado de”) e lambanō (“tomar, receber”). O verbo aparece dezesseis vezes em Mateus, e a lista é reveladora: seis delas estão no começo do evangelho e descrevem José tomando consigo Maria e o menino (Mateus 1:20, 1:24, 2:13, 2:14, 2:20, 2:21); duas descrevem o diabo tomando Jesus consigo para levá-lo à cidade santa e ao monte alto (Mateus 4:5 e 4:8); uma é esta; e a última é Mateus 27:27, em que os soldados do governador tomam Jesus consigo para dentro do pretório — e é ali que acontece a zombaria anunciada no versículo 19 deste capítulo. O mesmo verbo cobre o gesto de proteger, o de tentar e o de prender.

Em Mateus 17:1 é ele quem toma consigo três discípulos para o monte; em Mateus 26:37, no Getsêmani, toma consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu. Este versículo é o único em que ele toma consigo os doze inteiros.

Há ainda a proximidade com Mateus 16:22, onde Pedro “o tomou à parte”: lá o verbo é proslambanō, composto do mesmo lambanō com outra preposição. São duas palavras diferentes da mesma família, o que sustenta o paralelo de gesto sem autorizar a conclusão de que Mateus o tenha construído.

τοὺς δώδεκα μαθητὰς — tous dōdeka mathētas, “os doze discípulos”. Mathētēs vem de manthanō, “aprender”, e designa quem aprende com alguém — aluno, seguidor de escola. A expressão completa, com o numeral e o substantivo, ocorre três vezes no evangelho: Mateus 10:1, 11:1 e aqui.

κατ᾽ ἰδίαν — kat' idian, “à parte, em particular”. Locução formada pela preposição kata com o feminino de idios, “próprio, particular”: literalmente “segundo o que é próprio”, isto é, em privado. Em Mateus ela aparece em Mateus 14:13 e 14:23, quando ele se retira sozinho, e em Mateus 17:1, 17:19, 20:17 e 24:3. O sentido e a etimologia da palavra estão desenvolvidos no estudo de Mateus 17:19, item 10.

ἐν τῇ ὁδῷ — en tē hodō, “no caminho”. Hodos é estrada, rota, trajeto; dela vêm “método” (meta + hodos, “o caminho para chegar a algo”) e “êxodo” (ex + hodos, “a saída”). A palavra reaparecerá no versículo 30, com os dois cegos sentados “à beira do caminho”: os que ouvem o anúncio estão na estrada andando, e os que enxergarão no fim do capítulo estão na mesma estrada, parados na margem.

καὶ εἶπεν αὐτοῖς — kai eipen autois, “e disse-lhes”. Aoristo de legō, o verbo comum de dizer. Em Mateus 16:21 o verbo do primeiro anúncio era “começou a mostrar”; no segundo, em Mateus 17:22, era “disse”. O terceiro repete o mais simples dos três.

11. Conclusão

Do que este versículo traz, decorrem quatro coisas.

A primeira é que o terceiro anúncio foi feito dentro de uma peregrinação. O verbo da subida não é imagem devocional: é o termo com que os judeus designavam a ida obrigatória às festas, e a estrada era a mesma para todos os que estavam nela. O que separa esse grupo da multidão não é o destino nem o passo — é o que um deles sabe sobre o fim da viagem.

A segunda é que a informação foi restringida de propósito, e que a restrição tem sentido inteligível. Havia risco em dizer aquilo alto, e havia um destinatário definido: quem ia estar dentro do acontecimento. As duas razões cabem juntas, e o texto não obriga a escolher.

A terceira é que o gesto de tomar à parte, no capítulo 16, tinha sido usado contra o anúncio, e aqui é usado a favor dele. O mesmo movimento serve para calar e para dizer, e a diferença está em quem o faz e para quê.

A quarta é a que o capítulo cobra logo depois. Três avisos, cada um mais detalhado, entregues em particular a doze homens, não produziram nenhum preparo: a cena seguinte é um pedido de assentos de honra. Isso não desqualifica o aviso, e não é possível decidir, a partir de Mateus, se eles simplesmente não acreditaram ou se não tinham categoria mental onde guardar a notícia. O que fica demonstrado é mais seco: saber o que vem e estar pronto para o que vem são duas coisas, e a segunda não vem de graça com a primeira.

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