Quando eles saíam de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus.
1. Introdução
A cena muda de lugar. O capítulo vinha de uma conversa reservada entre Jesus e os doze, e agora se abre para a estrada: uma cidade que se deixa para trás e uma massa de gente que se forma atrás dele.
Jericó era a última povoação antes da subida para Jerusalém, e o caminho que sai dela atravessa deserto. Mateus registra três coisas numa linha: a saída, o tamanho do ajuntamento e o fato de que ele foi atrás de Jesus.
Guarde o terceiro dado. Essa multidão vai voltar em dois versículos, e não como companhia.
2. Contexto Histórico e Cultural
Havia duas Jericós, e as duas estavam de pé
Este é o dado que a leitura moderna quase sempre perde. No primeiro século existiam, a poucos quilômetros uma da outra, duas cidades com esse nome.
A primeira é a Jericó antiga, o monte artificial que hoje se chama Tell es-Sultan, junto à fonte que alimenta o oásis. É a cidade de Josué 6, e no primeiro século o sítio já era ruína e memória, com povoado modesto em volta da fonte.
A segunda ficava cerca de dois quilômetros ao sul, na boca do Uádi Qelt — o desfiladeiro por onde desce a água que vem das montanhas da Judeia. Ali os reis hasmoneus construíram um conjunto de palácios de inverno, e Herodes o Grande os ampliou e refez. O arqueólogo israelense Ehud Netzer, da Universidade Hebraica de Jerusalém, escavou esse conjunto a partir de 1973 e voltou a ele entre 1998 e 2000: apareceram palácios em terraços nas duas margens do uádi, piscinas, banhos de imersão ritual, jardins e um sistema de aquedutos que trazia água de longe. O lugar se chama Tulul Abu el-Alayiq. Era uma estação de inverno da corte, e foi lá que Herodes morreu, segundo Flávio Josefo, o historiador judeu do primeiro século.
Quem saía de uma dessas cidades estava, em boa medida, entrando na outra. Guarde isso: ele volta no item 3.
Por que havia corte de inverno num oásis
Jericó fica no fundo da fenda do Jordão, e no inverno é morna enquanto Jerusalém congela. Mas o que fazia dela um patrimônio era o que crescia ali.
O oásis produzia tamareiras em quantidade e produzia bálsamo — a resina aromática que os romanos chamavam de opobálsamo, usada em perfume e em medicina, e que valia mais, por peso, do que quase qualquer outra mercadoria agrícola do império. As plantações eram monopólio da coroa e depois passaram para o governo romano. Josefo descreve o lugar em termos quase religiosos: quem chamasse aquela região de divina, escreve ele, não se enganaria.
Jericó era cidade de sacerdotes
Aqui entra um dado do Talmude que muda a paisagem humana do versículo. O tratado Ta'anit, na folha 27a, discute a organização das vinte e quatro turmas de sacerdotes que se alternavam no serviço do Templo e registra que doze delas estavam em Jericó. Quando chegava a vez de uma turma subir, metade dos seus homens subia do resto do país e metade subia de Jericó, levando água e comida para os irmãos que iam servir em Jerusalém.
Ou seja: a estrada que sai de Jericó para Jerusalém não era só rota de peregrino. Era linha de abastecimento do Templo, percorrida com regularidade por gente do ofício sacerdotal. Grau de certeza: o texto rabínico foi posto por escrito séculos depois e idealiza o funcionamento do Templo, de modo que os números merecem reserva; que Jericó tivesse população sacerdotal grande é, porém, coisa aceita e coerente com a distância — um dia de caminho.
A soleira
Daqui até Jerusalém não há mais povoação nenhuma: começa o deserto, e a estrada sobe cerca de mil metros — o trecho está descrito no estudo de Mateus 20:17. O que interessa para a paisagem deste versículo é a consequência prática. Jericó era o último lugar em que um viajante comia, dormia e se juntava a outros antes de encarar a escalada, e por isso a saída da cidade concentrava, na semana da festa, o maior movimento de pé do ano naquela região.
É nesse trânsito que o versículo põe você. A multidão de Mateus 20:29 não é um público que veio ver um prodígio — é gente que está indo para o mesmo lugar.
3. Análise Teológica do Versículo
“Quando eles saíam de Jericó”
Comece pelo “eles”. O pronome não tem antecedente nesta frase: quem vinha andando desde Mateus 20:17 era Jesus com os doze, chamados à parte no caminho. São eles que saem. A multidão só aparece na segunda metade do versículo, como sujeito novo — primeiro o grupo pequeno em movimento, depois a massa que se agrega.
E aqui está a primeira divergência entre os evangelhos neste trecho. Ela é real e não vale esconder.
Mateus escreve que a cena acontece na saída de Jericó, e Marcos 10:46 diz a mesma coisa. Lucas 18:35 escreve o contrário: aconteceu quando Jesus se aproximava de Jericó. Os comentaristas clássicos não disfarçam o problema — Meyer fala expressamente de discrepância, e a Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) chama a diferença de notável.
Quatro leituras estão em circulação. Cada uma resolve algo e paga um preço.
Primeira leitura: foram dois milagres diferentes. É a solução de Agostinho, no tratado em que ele compara os quatro evangelhos, De consensu evangelistarum (“Sobre a concordância dos evangelistas”, escrito por volta do ano 400). No livro II, capítulo 65, ele argumenta que ninguém aceitaria a ideia de contradição entre os evangelistas a menos que preferisse crer que o evangelho é mentiroso em vez de crer que houve dois prodígios semelhantes em circunstâncias semelhantes — um na chegada, outro na saída. O preço: é solução por multiplicação. Ela funciona sempre, para qualquer par de relatos, e por isso mesmo não distingue os casos em que há duas cenas dos casos em que há duas versões de uma.
Segunda leitura: as duas Jericós. Como havia a cidade velha e a cidade herodiana a dois quilômetros dela, Jesus podia estar saindo de uma e chegando à outra no mesmo instante, e os três evangelistas estariam todos certos. A leitura é engenhosa e o dado arqueológico é firme. O preço, que raramente se diz: nenhum dos três evangelistas menciona duas cidades, nenhum deles distingue uma da outra em qualquer lugar, e dois quilômetros num oásis contínuo não são uma fronteira que um viajante registrasse. A solução explica a possibilidade física e não explica por que os textos ficaram assim.
Terceira leitura: o verbo de Lucas não indica direção. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) observa que o termo grego de Lucas expressa proximidade de um lugar, e que estar perto de Jericó cabe tanto para quem vai como para quem vem. O preço: é leitura gramaticalmente possível, mas Lucas emprega o mesmo verbo em outros lugares com sentido claro de aproximação, e o próprio Lucas põe o episódio de Zaqueu, dentro da cidade, depois deste, em Lucas 19:1 — o que dá à sequência dele uma direção inequívoca.
Quarta leitura: é um episódio só, e o lugar foi o detalhe que variou. É a posição mais corrente entre os estudiosos modernos, e o Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) já a admitia em outras palavras quando escreveu que nos cansamos em vão querendo harmonizar cada pequeno detalhe. O preço: ela exige aceitar que a transmissão do episódio não conservou tudo com precisão de mapa.
Não é possível decidir entre as quatro. E o mais honesto que se pode dizer é o que sobra de pé quando a discussão acaba: os três evangelhos concordam que foi em Jericó, que houve grito, que o grito trouxe o título “Filho de Davi”, que alguém tentou calar quem gritava e que houve cura. A divergência é sobre em que ponto da cidade. Quem transmitiu esses textos tinha como uniformizar o detalhe e não uniformizou — e isso é um dado sobre o cuidado da transmissão, não um defeito dela.
“uma grande multidão”
Mateus escreve no singular. Uma multidão, não várias.
Parece pormenor e não é. Em Mateus 19:2, poucos parágrafos antes na narrativa, o mesmo evangelho registrou “grandes multidões” no plural — grupos que se somam, chegam e saem. Aqui é diferente: um ajuntamento, contado como um. E quando esse ajuntamento voltar, no versículo 31, ele vem com artigo definido: a multidão. Em grego o artigo, nessa posição, retoma o que já foi apresentado. Não é outra gente.
Segue-se disto algo que o capítulo inteiro depende e que nenhuma tradução deixa ver: os que repreendem os dois cegos, dois versículos adiante, são exatamente os que aqui estão indo atrás de Jesus. Não é leitura piedosa nem suspeita moral. É a gramática do texto.
“seguiu Jesus”
O verbo é o do discipulado. Mateus o usa quando Pedro deixa a rede, quando o cobrador de impostos se levanta da mesa, quando o homem rico é convidado a vender o que tem — e usa o mesmo verbo para descrever massa de gente caminhando atrás. Os dois usos convivem no evangelho sem que ele os separe, e isso está tratado no estudo de Mateus 19:2.
O que é próprio deste capítulo é a distribuição. A palavra aparece aqui, para a multidão, e reaparece no último versículo do capítulo, para os dois homens curados, que “o seguiram”. A mesma palavra, duas vezes, para duas coisas que o capítulo não iguala — e Mateus não avisa qual delas é qual. O leitor recebe o verbo e o sujeito, e nada mais.
O que o versículo não diz
Não diz por que a multidão se formou. Não diz se veio pelo que ouviu falar dele, se veio porque já ia para a festa e ele passou a caminhar na mesma direção, ou se veio das duas coisas. Não diz que eram discípulos, não diz que creram e não diz que ficaram.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus e os doze
O grupo que sai de Jericó é o que Mateus 20:17 mostrou chamado à parte no caminho. São eles o “eles” do versículo.
A multidão
É um personagem, e é o personagem que este versículo apresenta. Mateus lhe dá dimensão (“grande”), número gramatical (uma só) e um ato (seguir). Nos dois versículos seguintes ela recebe voz, e a voz será uma ordem de silêncio. Ninguém dentro dela é nomeado, ninguém fala em nome próprio, e ela não volta a aparecer no capítulo depois do versículo 31.
Jericó
Oásis no fundo do vale do Jordão, a cerca de dez quilômetros a oeste do rio. A cidade velha é a primeira que Israel toma na travessia, em Josué 6, e é dela que sai Raabe. A cidade nova, de palácios, é obra dos hasmoneus continuada por Herodes. Jericó também é o cenário da despedida de Elias e do primeiro sinal de Eliseu, em 2 Reis 2 — de modo que, no repertório de quem lia a Escritura, o lugar já era ponto de passagem e de sucessão antes de ser estrada de Páscoa.
É a única vez em que Mateus escreve o nome dessa cidade.
Herodes o Grande
Aparece aqui só como construtor e como morto: os palácios de inverno que dão a Jericó do primeiro século a sua forma são dele, e foi ali que ele morreu. Nada disso está no versículo; é o que sustenta a paisagem que o versículo pressupõe.
5. Pontos de Ensino
Acompanhar não é aderir
O versículo registra um grande número de pessoas andando atrás de Jesus e não diz uma palavra sobre o que elas pensavam. Duas linhas adiante, o mesmo grupo age — e age contra dois homens que pedem socorro. Andar junto e estar de acordo são coisas separáveis, e o texto as separa sem comentar.
O texto conta o número e não o transforma em veredito
“Grande multidão” é informação de escala. Mateus a dá e para. Não há elogio ao tamanho do séquito nem crítica a ele. Quem lê com atenção percebe que o evangelho está montando uma cena, não emitindo um juízo — e que o juízo, se vier, virá dos fatos que ele narra em seguida.
A geografia faz parte do sentido
Jericó é a última cidade antes do descampado. A partir deste versículo não há mais povoação até Jerusalém. Quem estava naquela estrada estava comprometido com a subida — e quem ficava sentado na beira dela ficava para trás de um jeito bem concreto.
O mesmo trajeto, dois destinos
A multidão subia para a festa. Jesus subia para o que acabara de descrever aos doze, três versículos antes. As duas viagens coincidem no trecho de estrada e não coincidem em mais nada, e o evangelho deixa a coincidência de pé sem desfazê-la.
6. Aspectos Filosóficos
O que um comportamento visível prova sobre quem o pratica?
O versículo entrega um ato e nega o interior. Muita gente andou atrás de Jesus, e Mateus não escreve uma sílaba sobre o que passava na cabeça dessa gente. O leitor recebe a conduta e fica sem o motivo — e a pergunta filosófica que nasce daí é exatamente a que a cena pede: de fora, quanto se pode deduzir de um comportamento?
Havel e a placa na quitanda
O tratamento mais preciso dessa pergunta foi escrito por um dramaturgo. Václav Havel (1936-2011), que viria a ser o primeiro presidente da Tchecoslováquia depois do regime comunista, publicou em 1978 o ensaio O poder dos sem-poder, e no centro dele está um exemplo minúsculo.
Um quitandeiro põe na vitrine, entre as cebolas e as cenouras, o cartaz “Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!”. Por que põe? Não porque tenha pensado no assunto. Põe porque é o que se faz, porque o cartaz chegou junto com a mercadoria, porque não pôr dá problema. E aqui vem a observação que abre o ensaio: a mensagem real do cartaz não é o que está escrito nele. A mensagem real é “eu obedeço e, portanto, tenho o direito de ser deixado em paz”.
Havel tira disso uma consequência incômoda. O sistema em que ele vivia não precisava que ninguém acreditasse em nada. Precisava que todos participassem. O ato era tudo o que se pedia, e o ato cumprido não provava convicção nenhuma — de modo que ninguém, nem de fora nem de dentro, sabia mais o que o vizinho pensava.
O que isso faz com este versículo
Corta as duas leituras fáceis ao mesmo tempo. A primeira é a piedosa: se muitos seguiam, muitos criam. A segunda é a cínica: se depois eles mandam calar dois mendigos, já iam ali por curiosidade ou por interesse. As duas preenchem o vazio que Mateus deixou de propósito, e nenhuma delas tem base no texto.
O que se pode afirmar é o que a conduta comporta: aquela gente estava andando na mesma direção. Participação é o que a cena prova, e participação é uma informação mais pobre do que parece. Dois versículos adiante, a mesma multidão dá uma ordem — e, pela mesma lógica, ninguém precisava ter opinião formada sobre dois cegos para entrar no coro que os manda calar. Foi por isso que o ato saiu sem autor.
Os limites, e são três
O primeiro é de situação. Havel descreve um gesto feito sob coação, num Estado policial; ninguém naquela estrada era obrigado a caminhar. O que se transfere é a lógica da distância entre o ato e o que ele prova, não a política.
O segundo é de propósito. O ensaio de Havel é intervenção política, escrita para mostrar que um regime assim se sustenta na participação diária e pode, por isso, ser desmontado pela recusa de uma pessoa só. Mateus não diz nada parecido, e ler isso aqui seria emprestar ao texto um programa que ele não tem.
O terceiro é do próprio texto. Ele não descreve o interior de ninguém — nem da multidão, nem dos doze, nem dos dois homens do versículo seguinte. Toda afirmação sobre o que aquelas pessoas pensavam é reconstrução, e é justo dizer isso antes de fazê-la.
7. Aplicações Práticas
Distinguir companhia de compromisso
Há grupos em que você está por coincidência de trajeto: o bairro, a empresa, o time, a igreja a que foi levado. Estar dentro deles não é tê-los escolhido, e o versículo mostra que a linguagem não distingue as duas coisas — o mesmo verbo cobre quem largou tudo e quem está andando na mesma estrada. Vale perguntar, sobre cada grupo de que você faz parte, qual dos dois casos é o seu. A pergunta é útil justamente porque a resposta muda o que se pode esperar de você e de quem está do seu lado.
Reparar em quem ficou na beira
A estrada deste versículo está cheia de gente indo para a festa, e nos dois versículos seguintes aparecem duas pessoas sentadas na margem dela. Quem se move em grupo tende a não ver quem está parado — e, pior, tende a tratar o parado como obstáculo. É uma aplicação de relação direta com a cena, e ela não exige nenhuma extensão moral: basta ler o que a multidão faz a seguir.
Não usar o número como argumento, e não temê-lo como acusação
Quando alguém lhe diz que muita gente pensa assim, isso não é prova de nada — e quando alguém lhe diz que você pensa como muita gente, isso também não é prova de nada. O versículo dá o número e não dá o veredito. É um bom modelo de honestidade para discussão: separe o dado de quantos da avaliação do quê.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus parou em Jericó ou passou direto?
Mateus não conta nada que tenha acontecido dentro da cidade — nomeia Jericó só para dizer que saíram dela. Lucas, ao contrário, põe na cidade o episódio de Zaqueu, com hospedagem e refeição (Lucas 19:1-10). Os dois podem estar certos: um evangelho escolhe o que narra, e o silêncio de Mateus sobre a estada não é negação dela.
O que se pode comparar é o uso do lugar. Em Lucas, Jericó é cenário de uma cena inteira. Em Mateus é soleira: o nome aparece uma vez, na saída, e serve só para situar o leitor no último trecho antes de Jerusalém.
Essa multidão é a mesma que aclama Jesus na entrada em Jerusalém?
É a pergunta mais interessante que o versículo levanta, e a resposta honesta é: provavelmente em boa parte, e não há como demonstrar. O raciocínio a favor é simples — a estrada de Jericó era a via de acesso dos peregrinos que vinham pela margem leste do Jordão, a subida leva menos de um dia, e quem estava nessa estrada ia para a mesma festa em que a entrada acontece. Bengel já fazia essa ligação no século XVIII.
Contra, há o que o texto não diz: Mateus não identifica a multidão de Mateus 21:8-9 com esta, não repete o adjetivo, não faz nenhuma remissão. E multidão, num trânsito de festa, é coisa que se refaz a cada trecho.
O que a gramática permite afirmar é mais modesto e mais firme: a multidão do versículo 29 é a mesma do versículo 31, porque o artigo definido a retoma. Do versículo 31 para o capítulo 21, é hipótese.
Por que Mateus registra que a multidão era grande?
Ele faz isso muitas vezes, e a função costuma ser de escala: dizer que houve mais do que o que será contado. Aqui há uma função adicional, própria da cena. O tamanho do grupo é o que torna verossímil o que vem depois — dois homens sentados na margem só ficam sabendo que alguém passa porque o ruído é grande, e a ordem de silêncio só tem força porque parte de muita gente ao mesmo tempo. Sem o adjetivo, os versículos seguintes perdem o mecanismo.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma cena nos outros dois evangelhos
Marcos 10:46 — “E partindo de Jericó, ele, os seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava sentado junto do caminho, mendigando.”
Marcos concorda com a saída, nomeia a multidão do mesmo jeito e acrescenta três informações que Mateus não dá: o nome do homem, o nome do pai dele e o ofício de mendigo.
Lucas 18:35 — “E aconteceu que, chegando ele perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando.”
O mesmo episódio posto na chegada, e não na saída.
Lucas 19:1 — “E, tendo Jesus entrado em Jericó, ia passando.”
O versículo que fixa a direção do relato de Lucas: para ele, o cego vem antes da entrada na cidade.
O verbo e o sujeito, no mesmo evangelho
Mateus 19:2 — “Grandes multidões o seguiram, e ele as curou ali.”
O plural, um capítulo antes. É a comparação que mostra que o singular deste versículo não é descuido de estilo.
Mateus 20:34 — “Cheio de compaixão, Jesus tocou nos olhos deles. Imediatamente eles recuperaram a visão e o seguiram.”
O mesmo verbo no fim do capítulo, com dois homens por sujeito.
Jericó na Escritura
Josué 6:1 — “Ora, Jericó estava rigorosamente fechada por causa dos filhos de Israel; ninguém saía nem entrava.”
A primeira cidade da travessia, e a única da Bíblia hebraica que aparece fechada assim.
2 Reis 2:4 — “E Elias lhe disse: Eliseu, fica-te aqui, porque o SENHOR me enviou a Jericó.”
O ponto de partida da última viagem de Elias, com os discípulos de profeta que moravam ali.
Deuteronômio 34:3 — “E o sul, e a campina do Jordão, a cidade das palmeiras, até Zoar.”
Jericó designada pelo que a distinguia: as palmeiras do oásis. É parte do que Moisés vê do monte, sem entrar.
Hebreus 11:30 — “Pela fé caíram os muros de Jericó, sendo rodeados durante sete dias.”
A única menção do Novo Testamento à cidade fora dos evangelhos.
A viagem que este versículo continua
Mateus 20:17 — “Quando estava subindo para Jerusalém, Jesus chamou à parte os doze discípulos e, no caminho, disse-lhes:”
A viagem que este versículo continua, e o grupo que é o “eles” da primeira frase.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Quando eles saíam de Jericó, uma grande multidão seguiu Jesus.
Texto grego (Textus Receptus)
Καὶ ἐκπορευομένων αὐτῶν ἀπὸ Ἰεριχὼ, ἠκολούθησεν αὐτῷ ὄχλος πολύς.
Transliteração
kai ekporeuomenōn autōn apo Ierichō, ēkolouthēsen autō ochlos polys.
Análise palavra por palavra
ἐκπορευομένων αὐτῶν — ekporeuomenōn autōn, “estando eles a sair”. Particípio presente médio-passivo no genitivo plural, acompanhado do pronome no mesmo caso. A construção é o que os gramáticos chamam de genitivo absoluto: uma oração inteira posta no genitivo para dizer em que circunstância o principal acontece. O português resolve isso com “quando” ou com gerúndio, e a tradução da ABC escolheu o “quando”.
O tempo presente do particípio importa. Ele não diz que saíram e depois a multidão se formou; diz que as duas coisas são simultâneas. A cena acontece em movimento, na saída — e é por isso que o local exato é tão escorregadio quando se compara com Lucas.
O verbo é ekporeuomai, composto de ek (“de dentro para fora”) com poreuomai (“ir, caminhar”). Ele ocorre seis vezes em Mateus, e a distribuição é curiosa: em Mateus 4:4 são as palavras que saem da boca de Deus, em Mateus 15:11 e em Mateus 15:18 é o que sai da boca e do coração do homem, e em Mateus 17:21 são os espíritos que saem. Isto é, quase sempre o verbo descreve algo que procede de dentro de alguém. Só em dois lugares ele descreve gente andando: em Mateus 3:5, quando as multidões saem para João Batista, e aqui. São os dois únicos casos em que o que sai é um grupo de pessoas, e os dois têm multidão em cena.
ἀπὸ Ἰεριχὼ — apo Ierichō, “de Jericó”. A preposição apo marca afastamento a partir de um ponto: sair de junto de, vir de. O nome da cidade é indeclinável em grego, como quase todo topônimo semítico transposto sem adaptação, e a forma vem da versão grega do Antigo Testamento, que já grafava assim o hebraico Yericho.
Em todo o Novo Testamento a cidade aparece seis vezes: aqui, em Marcos 10:46, três vezes em Lucas (10:30, 18:35 e 19:1) e uma em Hebreus 11:30, que fala da queda dos muros. Esta é a única menção em Mateus.
ἠκολούθησεν — ēkolouthēsen, “seguiu”. Aoristo do indicativo ativo de akoloutheō, o verbo que em Mateus cobre tanto o chamado ao discipulado quanto o simples andar atrás; a palavra está analisada no estudo de Mateus 19:2, e não vale repetir aqui o que é dela.
O que é próprio deste versículo é o número gramatical. O verbo está no singular, concordando com um sujeito singular. Em Mateus 19:2 o mesmo verbo apareceu no plural, com sujeito plural. A diferença não é estilística: ela decide quem age nos versículos seguintes.
αὐτῷ — autō, “a ele”. Dativo. O verbo de seguir rege dativo em grego, e por isso não há preposição: literalmente, “seguiu-lhe”. A tradução da ABC repõe o nome (“seguiu Jesus”) porque em português o pronome ficaria ambíguo depois de “eles”.
ὄχλος πολύς — ochlos polys, “multidão grande”. Substantivo no nominativo singular, sem artigo, com o adjetivo posposto.
Três observações, e a terceira é a que carrega o capítulo.
A primeira: a ausência de artigo apresenta o sujeito como novo. É a primeira vez que essa multidão entra na narrativa; ela não tinha sido mencionada antes.
A segunda: ochlos é a palavra da gente reunida e indiferenciada, e Mateus a emprega dezenas de vezes, quase sempre no plural com polloi. O singular com polys, como está aqui, é bem menos frequente nele.
A terceira: no versículo 31 a palavra volta com artigo definido — ho ochlos, “a multidão”. No grego, o artigo nessa posição tem função de retomada: aponta para o que o leitor já conhece. Gramaticalmente, portanto, a multidão que repreende os dois cegos é esta, e não outra.
Variantes
Não há nenhuma de peso neste versículo. O Textus Receptus, o texto bizantino e as edições críticas modernas trazem as mesmas palavras na mesma ordem, com variação apenas de pontuação e de acentuação. Isso tem uma consequência para a discussão do item 3: a divergência entre Mateus, Marcos e Lucas sobre a entrada ou a saída de Jericó não vem de copista. Ela está nos evangelhos desde o texto que chegou até nós.
11. Conclusão
Deste versículo seguem-se três conclusões, e nenhuma delas é devocional.
A primeira é de método, e vale para todo o acervo: quando três relatos honestos discordam num detalhe, o detalhe se mostra, com as soluções propostas e o preço de cada uma. Jericó é o caso limpo desse problema — Mateus e Marcos põem a cena na saída, Lucas na chegada, e as quatro saídas em circulação vão da harmonização por duplicação de Agostinho até a aceitação de que o lugar foi o que variou na transmissão. Nada disso abala o episódio, que os três contam do mesmo jeito em tudo que importa. E o fato de a diferença ter sobrevivido diz algo sobre quem copiou esses textos: não uniformizou o que teria sido fácil uniformizar.
A segunda é sobre o personagem que este versículo instala. Mateus não apresenta a multidão como pano de fundo; apresenta-a como sujeito de um verbo, no singular, e o singular volta com artigo dois versículos adiante. A consequência é que o capítulo tem um ator coletivo com continuidade — ele segue, ele manda calar, ele desaparece — e que o leitor não precisa supor nada para ligar os dois atos. A ligação é gramatical.
A terceira é sobre o lugar. O versículo põe a cena no ponto exato em que a estrada deixa de ter cidade: dali até Jerusalém é subida por deserto. Quem estava caminhando estava comprometido com a chegada; quem estava sentado na margem ficava onde estava. É contra esse fundo que os dois versículos seguintes fazem sentido, e é por isso que a geografia não é ornamento neste capítulo.













