Mas esse tipo de demônio não sai senão pela oração e pelo jejum.”
1. Introdução
O versículo acrescenta uma segunda resposta à pergunta dos discípulos: "esse tipo de demônio não sai senão pela oração e pelo jejum".
Três pontos centrais aparecem.
O primeiro é um problema de manuscrito. Este versículo não está nos manuscritos gregos mais antigos do Evangelho de Mateus, entre eles o Sinaítico e o Vaticano, do século IV. Está no Textus Receptus, o texto grego que a tradução ABC segue, e por isso aparece aqui. Muitas Bíblias modernas o põem entre colchetes ou em nota de rodapé, e pulam do versículo 20 para o 22. É uma questão de cópia, não de doutrina, e o item 2 a expõe por inteiro.
O segundo é o conteúdo. A frase fala de "tipos" de demônio e diz que um deles só sai com oração e jejum. Isso levanta perguntas: que tipo é esse, e por que Jesus, que acabou de expulsá-lo, não orou nem jejuou na cena?
O terceiro é a relação com o versículo 20. Se a fé do tamanho de um grão de mostarda basta e nada é impossível, por que um tipo de demônio precisaria de algo mais? Com o versículo 21, Mateus dá duas respostas; sem ele, dá uma.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como o Novo Testamento chegou até nós
Nenhum livro do Novo Testamento sobreviveu no original escrito pelo autor. O que existe são cópias, feitas à mão durante quase quinze séculos, antes da imprensa. Hoje se conhecem mais de cinco mil manuscritos gregos do Novo Testamento, inteiros ou em fragmentos, além de milhares de cópias de traduções antigas em latim, siríaco, copta e outras línguas.
Copiar à mão produz diferenças. A imensa maioria é miúda: grafia, ordem de palavras, um artigo a mais ou a menos. Algumas são maiores: uma frase, às vezes um versículo inteiro. O trabalho de comparar as cópias para chegar o mais perto possível do texto original chama-se crítica textual. É uma disciplina técnica, praticada tanto por estudiosos cristãos quanto por não cristãos, e não tem nada de ataque à fé.
O que dizem os manuscritos sobre Mateus 17:21
O versículo não aparece em:
o Códice Sinaítico, na forma em que o copista original o escreveu. É um manuscrito grego da Bíblia inteira, do século IV, encontrado no mosteiro de Santa Catarina, no Sinai, no século XIX. Um revisor posterior acrescentou o versículo na margem;
o Códice Vaticano, também do século IV, guardado na Biblioteca do Vaticano há pelo menos cinco séculos;
o Códice de Koridethi, manuscrito grego do século IX, de um grupo de cópias com características antigas;
e em testemunhos das traduções mais antigas: parte dos manuscritos da tradução latina anterior a Jerônimo, as versões siríacas antigas e a tradução copta do sul do Egito.
O versículo aparece em:
o Códice Efraimita e o Códice de Beza, ambos do século V;
o Códice de Washington, do fim do século IV ou do V;
a grande maioria dos manuscritos gregos medievais, os da chamada tradição bizantina, copiados no Império Bizantino;
e a Vulgata, a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV, que foi a Bíblia do Ocidente por mais de mil anos.
Ou seja: a omissão tem os dois manuscritos gregos mais antigos e traduções muito antigas; a presença tem manuscritos quase tão antigos, a Vulgata e o peso numérico da tradição posterior.
A explicação mais aceita
A explicação que a maioria dos estudiosos adota é que o versículo não fazia parte do texto original de Mateus e entrou por influência de Marcos.
O argumento tem três partes.
A primeira é o paralelo. Em Marcos 9:29, a resposta de Jesus à mesma pergunta é: "esse tipo não pode sair senão pela oração". A frase de Mateus 17:21 é quase a mesma. Os copistas conheciam os quatro evangelhos de cor e tendiam a completar um com o outro. É um fenômeno bem documentado, que os estudiosos chamam de harmonização: igualar passagens paralelas.
A segunda é a falta de motivo para a omissão. Se o versículo estivesse no original, seria difícil explicar por que manuscritos de regiões e línguas tão diferentes — gregos, latinos, siríacos, coptas — o teriam deixado cair do mesmo modo. O acréscimo se explica facilmente; a omissão, não.
A terceira é a tendência dos copistas a acrescentar o jejum. O próprio Marcos 9:29 tem o mesmo problema: nos manuscritos mais antigos, entre eles de novo o Sinaítico e o Vaticano, a frase diz só "pela oração", e "e pelo jejum" aparece em cópias posteriores. O mesmo acontece em outros lugares. Em 1 Coríntios 7:5, o Textus Receptus diz "para se dedicarem ao jejum e à oração", e os manuscritos antigos dizem só "à oração". Em Atos 10:30, o Textus Receptus põe Cornélio "jejuando" quando teve a visão, e os manuscritos antigos não trazem o jejum. A igreja dos primeiros séculos dava grande valor ao jejum, e é plausível que copistas o acrescentassem onde lhes parecia faltar.
O argumento do outro lado
Há quem defenda que o versículo é original, e o argumento merece ser dito. Ele está em testemunhos antigos, do século V, e numa enorme quantidade de cópias. E a omissão poderia ter uma causa: um copista que achasse a frase redundante depois do versículo 20, ou que não visse sentido em exigir jejum quando o próprio Jesus não jejuou na cena, poderia tê-la cortado. Os defensores do texto majoritário bizantino e do Textus Receptus sustentam essa posição.
É posição minoritária entre os editores críticos. Não há consenso completo, mas a balança da pesquisa pende para o acréscimo.
Por que a ABC traz o versículo
O Textus Receptus ("texto recebido") é a edição grega do Novo Testamento que nasceu em 1516, quando o humanista holandês Erasmo de Roterdã publicou em Basileia o primeiro Novo Testamento grego impresso. Erasmo trabalhou com poucos manuscritos, quase todos medievais, da tradição bizantina. As edições seguintes, de Robert Estienne e de Teodoro de Beza, seguiram essa base, e o nome "texto recebido" vem do prefácio de uma edição holandesa de 1633. Foi esse o texto das traduções protestantes clássicas, entre elas a de João Ferreira de Almeida.
Os manuscritos Sinaítico e Vaticano só foram publicados e estudados a fundo no século XIX, mais de trezentos anos depois de Erasmo. Por isso o Textus Receptus traz o versículo, e as edições críticas modernas, que se apoiam nesses manuscritos, não o trazem.
A tradução ABC declara seguir o Textus Receptus e, por coerência, conserva o versículo. Este estudo o comenta como parte do texto que a ABC traduz, e ao mesmo tempo registra com clareza que ele tem apoio mais fraco nos manuscritos antigos do que os versículos em volta.
Por que o número 21 continua existindo
Um detalhe que costuma confundir o leitor: nas Bíblias que omitem o versículo, a numeração salta do 20 para o 22. É porque a divisão em versículos, feita por Robert Estienne em 1551 (ver o estudo de Mateus 15:35), usou um texto que trazia a frase. Quando as edições modernas a retiraram, mantiveram os números para que as referências continuassem valendo em todas as Bíblias.
3. Análise Teológica do Versículo
Antes de ler a frase, é preciso manter à vista o que o item 2 mostra: o versículo provavelmente entrou no Evangelho de Mateus por influência de Marcos 9:29. Isso não muda o que ele diz, e não o torna falso — a frase está em Marcos, e é de Jesus também lá. Muda o lugar dela: a leitura abaixo é a do texto que a ABC traduz, e cada ponto vale com essa ressalva.
"Mas esse tipo de demônio"
A palavra "tipo" pressupõe uma classificação. Se há "esse tipo", há outros. A frase supõe que os demônios não são todos iguais, e que alguns resistem mais.
O texto não diz o que define "esse tipo". Pode ser o que causa quedas e convulsões, como o do menino; pode ser o que torna a pessoa muda, como Marcos 9:17 descreve; pode ser uma categoria mais ampla. Não é possível decidir, e toda tentativa de montar a partir daqui uma lista de categorias de demônios vai além do que o versículo sustenta. Mateus 12:45 fala de espíritos "piores" que outros, e é só.
O "mas" inicial liga a frase ao versículo 20, e a liga como restrição: a fé move montes, mas este tipo exige algo mais. A tensão entre as duas frases é o problema do versículo.
"não sai senão"
A construção é absoluta: nenhum outro meio funciona. Não se diz "sai mais facilmente com", mas "só sai com".
E o sujeito é o demônio. A frase não diz que os discípulos precisam orar e jejuar para ter poder. Diz que o demônio não sai sem isso. O foco está no que é necessário para a saída, não numa qualificação do exorcista — ainda que as duas coisas estejam ligadas.
"pela oração e pelo jejum"
Aqui estão as três dificuldades do versículo.
A primeira é a cena. Jesus acabou de expulsar o demônio sem orar e sem jejuar. Mateus 17:18 descreve só uma repreensão. Se a oração e o jejum fossem um procedimento a executar no momento, Jesus não o executou. Por isso a maioria dos leitores entende a frase como descrição de uma vida, e não de um ritual: quem vive em oração e jejum está em condição de enfrentar o que os discípulos não enfrentaram. É uma leitura razoável. O texto não a explicita.
A segunda é o próprio Evangelho de Mateus. Em Mateus 9:14-15, os discípulos de João perguntam por que os discípulos de Jesus não jejuam, e Jesus responde que os convidados do casamento não jejuam enquanto o noivo está com eles; jejuarão quando ele lhes for tirado. O estudo daquele versículo trata da imagem. O que interessa aqui é a consequência: segundo Mateus, os discípulos não jejuavam enquanto Jesus estava com eles, e isso era aprovado. Ser cobrados, agora, por falta de jejum criaria uma contradição dentro do evangelho. Quem defende o versículo pode responder que a frase fala do futuro, da missão depois da partida de Jesus; é resposta possível, mas o texto não a dá.
A terceira é o versículo 20. Lá, a causa do fracasso foi a incredulidade, e a promessa foi que nada seria impossível para quem tivesse fé do tamanho de um grão de mostarda. Aqui, a causa passa a ser a falta de oração e jejum, e para um tipo específico. As duas respostas podem ser lidas juntas — a oração e o jejum como o que alimenta a fé, e a fé como o que dá sentido à oração —, e é assim que a tradição cristã as leu por séculos. Mas é preciso reconhecer que a leitura conjunta é construção do leitor. Lidas lado a lado, as duas frases dão duas explicações diferentes para o mesmo fracasso.
O que o problema de manuscrito explica
As três dificuldades têm uma explicação comum, e ela é a mais simples.
Mateus, usando Marcos, trocou a resposta de Marcos — "esse tipo só sai pela oração" — por outra, a da fé e do grão de mostarda. Era uma resposta completa. Copistas posteriores, conhecendo Marcos, acrescentaram ao fim a resposta que Mateus tinha deixado de lado, com o jejum que já tinha entrado em cópias de Marcos. O resultado foi um Mateus com duas respostas encadeadas, e as tensões nasceram da soma.
É hipótese, mas é a que explica ao mesmo tempo os manuscritos e as dificuldades de leitura. E ela não tira nada de ninguém: a frase sobre a oração continua sendo palavra de Jesus em Marcos 9:29, onde está com apoio pleno dos manuscritos, pelo menos na forma "pela oração".
O que se pode afirmar
O versículo, com ou sem o problema de texto, liga a eficácia contra o mal a uma vida de dependência de Deus. Oração e jejum são, na Bíblia, as duas formas clássicas de dizer, com a palavra e com o corpo, que não se tem força própria. Nesse sentido, o versículo 21 e o versículo 20 apontam para o mesmo lugar: o fracasso dos discípulos não foi de técnica, foi de confiança. O que não se pode afirmar é que Mateus tenha escrito a segunda frase.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus e os discípulos
A mesma cena do versículo 20: a conversa em particular depois da cura.
"Esse tipo de demônio"
Não definido. Refere-se ao que afligia o menino. Marcos 9:25 o chama de "espírito mudo e surdo".
Os manuscritos citados
Códice Sinaítico — manuscrito grego do século IV, com a Bíblia inteira, encontrado no mosteiro de Santa Catarina, no monte Sinai. Hoje, a maior parte está na Biblioteca Britânica, em Londres.
Códice Vaticano — manuscrito grego do século IV, na Biblioteca do Vaticano.
Códice Efraimita — manuscrito grego do século V, reaproveitado na Idade Média para copiar sermões de Efrém, o Sírio, por cima do texto bíblico raspado.
Códice de Beza — manuscrito grego e latino do século V, que pertenceu ao reformador Teodoro de Beza e hoje está em Cambridge.
Os editores
Erasmo de Roterdã — humanista holandês (c. 1466-1536), editor do primeiro Novo Testamento grego impresso, em 1516.
Robert Estienne — impressor francês do século XVI, editor do Novo Testamento grego e autor da divisão em versículos.
Os textos paralelos
Marcos 9:29 traz a mesma resposta, "pela oração", e, em parte dos manuscritos, "e pelo jejum". Lucas 9 não tem a pergunta dos discípulos nem a resposta.
5. Pontos de Ensino
A Bíblia chegou por cópias, e isso não é segredo
O versículo mostra que o texto do Novo Testamento foi transmitido à mão e tem diferenças entre as cópias. Reconhecer isso é honestidade, não ameaça à fé.
Variante de manuscrito não é mudança de doutrina
Nada do que a igreja crê sobre oração, jejum ou poder sobre o mal depende deste versículo. Oração e jejum são ensinados em Mateus 6 com apoio pleno dos manuscritos.
A oração é a resposta de Jesus em Marcos
Mesmo que a frase não seja original em Mateus, ela é palavra de Jesus em Marcos 9:29. O ensino continua disponível ao leitor.
O poder contra o mal vem de dependência, não de técnica
Oração e jejum são formas de reconhecer que a força não é própria. Lido assim, o versículo aponta para o mesmo lugar que o versículo 20.
Não transformar a frase em fórmula
Jesus expulsou o demônio sem orar e sem jejuar na cena. O versículo não descreve um procedimento a executar no momento, e não autoriza ninguém a montar rituais a partir dele.
6. Aspectos Filosóficos
O que é o texto, quando as cópias diferem
O versículo levanta uma questão que vai além dele: quando duas cópias de um texto antigo discordam, qual delas é "o texto"? A que foi escrita primeiro, mesmo que ninguém a tenha lido por séculos? Ou a que foi lida, pregada e crida por gerações?
A crítica textual responde pela origem: busca o que o autor escreveu. A tradição de uma comunidade tende a responder pelo uso: o texto é o que ela recebeu. A tradução ABC, ao seguir o Textus Receptus e registrar a variante, fica entre as duas respostas. E a pergunta não é só de estudiosos: todo leitor que abre duas Bíblias e encontra um versículo em uma e não na outra está diante dela.
7. Aplicações Práticas
Quando a sua Bíblia e a do vizinho diferem
Muita gente descobre, por acaso, que a Bíblia de outra pessoa não tem Mateus 17:21, ou o traz entre colchetes, e fica abalada. A reação justa é a calma. Diferenças entre manuscritos existem, são conhecidas há séculos e estão documentadas com cuidado. A ausência deste versículo não apaga nada do que se ensina sobre oração e jejum, e a presença dele não acrescenta nenhuma doutrina que dependa só dele. Vale a pena ler a nota de rodapé da própria Bíblia: ela costuma explicar exatamente isso.
Não usar o versículo como hierarquia espiritual
A frase já foi usada para criar níveis: cristãos comuns que não conseguem expulsar certos males e cristãos especiais, de muito jejum, que conseguem. O versículo, com o seu problema de texto e com a cena em que o próprio Jesus não jejuou, é base frágil demais para isso. O que ele sustenta com segurança é mais simples: diante do que é maior que as próprias forças, a atitude é depender de Deus, com a palavra e com o corpo.
Jejuar e orar sem fazer disso técnica
Mateus 6:5-17 ensina a orar e a jejuar em segredo, sem exibição. Quem pratica as duas coisas encontra ali a orientação, com apoio pleno dos manuscritos. O jejum e a oração não são alavancas para obter resultados; são formas de estar diante de Deus.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Então este versículo não é Palavra de Deus?
A pergunta pede cuidado. O que a crítica textual diz é que o versículo provavelmente não fazia parte do texto original de Mateus e foi acrescentado por copistas a partir de Marcos 9:29. A frase, em si, é atribuída a Jesus em Marcos, onde tem apoio nos manuscritos, pelo menos na forma "pela oração". O que está em questão é o lugar dela, não se Jesus a disse.
Por que a ABC mantém o versículo?
Porque segue o Textus Receptus, a edição grega do século XVI que traz a frase. É uma escolha de base textual, e o estudo registra a variante para que o leitor saiba.
As Bíblias que omitem o versículo estão cortando a Bíblia?
Não. Elas seguem os manuscritos mais antigos, que não trazem a frase. Não houve corte; houve uma decisão sobre qual cópia está mais perto do original. As próprias Bíblias que omitem costumam trazer o versículo em nota.
Existem outros casos assim?
Sim. No próprio Evangelho de Mateus, o estudo de Mateus 16:2 trata de um trecho ausente de manuscritos antigos, e há outros versículos inteiros no Novo Testamento com o mesmo problema. São casos conhecidos e catalogados.
Por que Jesus não orou nem jejuou para expulsar o demônio?
O texto não diz. A leitura mais comum é que a frase descreve uma vida de oração e jejum, e não um procedimento a ser feito no momento. Também é possível que a dificuldade seja um efeito do acréscimo: numa passagem que originalmente não falava de jejum, a frase acrescentada ficou sem correspondência na cena.
Os discípulos deveriam ter jejuado?
Em Mateus 9:15, Jesus diz que os discípulos não jejuam enquanto o noivo está com eles. Cobrar jejum deles durante a presença de Jesus cria tensão com esse texto. Não é possível resolver a tensão só com o versículo 21.
9. Conexão com Outros Textos
A frase no seu lugar de origem
Marcos 9:28-29 — "Quando Jesus entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que nós não conseguimos expulsá-lo? Ele respondeu: Esse tipo só pode sair pela oração."
A resposta de Jesus em Marcos, na forma dos manuscritos mais antigos. Cópias posteriores acrescentam "e pelo jejum".
O jejum que também entrou em outros lugares
1 Coríntios 7:5 — "Não se recusem um ao outro, a não ser de comum acordo e por algum tempo, para se dedicarem à oração."
O Textus Receptus diz "ao jejum e à oração".
Atos 10:30 — "Cornélio respondeu: Há quatro dias, a esta hora, eu estava orando em minha casa, às três da tarde."
O Textus Receptus acrescenta que ele estava "jejuando".
O jejum enquanto o noivo está presente
Mateus 9:15 — E Jesus lhes disse: Podem, por acaso, os convidados do casamento ficar tristes enquanto o noivo está com eles? Mas dias virão em que o noivo lhes será tirado, e então jejuarão.
O texto que torna difícil a cobrança de jejum aos discípulos durante a presença de Jesus.
Oração e jejum em Mateus
Mateus 6:5 — E quando você orar, não seja como os hipócritas, pois eles gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelas pessoas. Em verdade eu lhes digo: eles já receberam a sua recompensa.
Mateus 6:16 — E quando vocês jejuarem, não fiquem com o rosto abatido como os hipócritas, pois eles desfiguram o rosto para mostrar às pessoas que estão jejuando. Em verdade eu lhes digo: eles já receberam a sua recompensa.
O ensino sobre as duas práticas, com apoio pleno dos manuscritos.
Oração e fé juntas
Mateus 21:22 — Tudo o que vocês pedirem em oração, se crerem, receberão.”
Logo depois do dito do monte em Mateus 21:21, a oração aparece unida à fé. É o mais perto que Mateus chega, com apoio seguro, de juntar as respostas dos versículos 20 e 21.
Espíritos que diferem entre si
Mateus 12:45 — Então vai e traz consigo outros sete espíritos piores do que ele, e eles entram e passam a morar ali. E o fim daquele homem se torna pior do que o começo. Assim também acontecerá com esta geração perversa."
A única outra passagem de Mateus que supõe diferença de grau entre espíritos.
O jejum de Jesus
Mateus 4:2 — E, depois de jejuar quarenta dias e quarenta noites, teve fome.
O jejum que precede o confronto com o tentador, no começo do ministério.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas esse tipo de demônio não sai senão pela oração e pelo jejum.”
Texto grego
τοῦτο δὲ τὸ γένος οὐκ ἐκπορεύεται εἰ μὴ ἐν προσευχῇ καὶ νηστείᾳ.
Transliteração
touto de to genos ouk ekporeuetai ei mē en proseuchē kai nēsteia.
Uma nota textual
O texto acima é o do Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue). O versículo inteiro está ausente dos manuscritos gregos mais antigos e, por isso, das edições críticas modernas. O problema, com os manuscritos e as explicações, está exposto no item 2.
Análise palavra por palavra
τοῦτο — touto, "este, esse". Demonstrativo neutro, concordando com genos. Aponta para o caso que acabou de acontecer.
δὲ — de, "mas, e". Conjunção de ligação que, conforme o contexto, marca continuação ou contraste. Depois da promessa de que nada seria impossível, a ABC a traduz como contraste: "mas".
τὸ γένος — to genos, "o tipo, a espécie".
Genos significa "raça, família, descendência, espécie, categoria". Vem da raiz de ginomai, "nascer, vir a ser", a mesma de genea, "geração", do versículo 17. Dela vêm "gênero", "gene", "genealogia".
No Evangelho de Mateus, genos aparece também em Mateus 13:47, na parábola da rede que recolhe peixes "de toda espécie". O uso aqui é o mesmo: uma classificação. Aplicada a demônios, a palavra supõe que eles se dividem em tipos, sem dizer quais.
A proximidade com genea, "geração", do versículo 17, é apenas de raiz; os dois termos não se referem à mesma coisa. Mas o ouvido grego percebia o parentesco.
οὐκ ἐκπορεύεται — ouk ekporeuetai, "não sai". Presente médio de ekporeuomai, composto de ek, "para fora", e poreuomai, "ir, caminhar".
O presente aqui é o das verdades gerais: não descreve este caso, mas o que costuma acontecer com esse tipo. O verbo é o de sair de dentro de algo. Em Mateus 4:4, é "toda palavra que sai da boca de Deus"; em Mateus 15:11, "o que sai da boca". Não é o verbo usado em Mateus 17:18 para a saída do demônio, que é exerchomai. A troca de verbo entre o versículo 18 e o 21 é um dos indícios, pequenos, de que a frase vem de outra fonte: o verbo de Marcos 9:29 também é outro, exelthein, e o de Mateus 17:21 não coincide com nenhum dos dois.
εἰ μὴ — ei mē, "senão, a não ser". A construção e a discussão sobre a força dela estão no estudo de Mateus 16:4. Aqui ela funciona como exceção real: nenhum outro meio, exceto este.
ἐν προσευχῇ — en proseuchē, "pela oração".
A preposição en, que normalmente significa "em", tem aqui sentido de instrumento: "por meio de". É uso frequente no grego do Novo Testamento, influenciado pelo hebraico.
Proseuchē é "oração", formado de pros, "em direção a", e euchē, "prece, voto". É a palavra geral para a oração dirigida a Deus. Mateus a usa em Mateus 21:13, "a minha casa será chamada casa de oração", e em Mateus 21:22, "tudo o que pedirem em oração, se crerem, receberão" — a frase que, logo depois do dito do monte em Mateus 21:21, junta oração e fé.
καὶ νηστείᾳ — kai nēsteia, "e pelo jejum".
Nēsteia é "jejum", do adjetivo nēstis, "em jejum", formado do prefixo negativo nē- e da raiz do verbo esthiō, "comer". Literalmente, "o não comer".
No Evangelho de Mateus, o substantivo só aparece aqui, e só no Textus Receptus. O verbo correspondente, nēsteuō, "jejuar", aparece em Mateus 4:2 (o jejum de Jesus no deserto), em Mateus 6:5-17 (o ensino sobre o jejum em segredo) e em Mateus 9:14-15 (a pergunta dos discípulos de João). No resto do Novo Testamento, o substantivo aparece em Lucas 2:37, sobre a profetisa Ana, em Atos 14:23 e 27:9, e em 2 Coríntios 6:5 e 11:27.
A mesma palavra, no mesmo lugar da frase, é a que falta nos manuscritos mais antigos de Marcos 9:29. Nos dois evangelhos, o jejum é justamente a parte da resposta com apoio mais fraco nas cópias antigas.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é de texto. A frase provavelmente não fazia parte do Evangelho de Mateus como ele foi escrito: está ausente dos manuscritos mais antigos, falta em traduções de regiões e línguas diferentes, e coincide com Marcos 9:29, de onde copistas a trouxeram. A ABC a conserva porque segue o Textus Receptus. Nenhuma das duas coisas é escândalo. É o modo como um texto antigo copiado à mão chega até nós, e a informação honesta é dizer as duas.
A segunda é de leitura. As dificuldades do versículo — Jesus que não ora nem jejua na cena, os discípulos que não jejuavam com a aprovação dele em Mateus 9:15, uma segunda causa para o fracasso logo depois de "nada será impossível" — encontram a sua explicação mais simples na soma de duas respostas que nasceram separadas. O problema de manuscrito ilumina o conteúdo, e não o contrário.
A terceira é sobre o que permanece. Com ou sem o versículo 21, o episódio termina no mesmo ponto: os discípulos falharam por falta de confiança, e o que resiste ao mal é a dependência de Deus. A oração e o jejum são as formas bíblicas de dizer isso com a palavra e com o corpo, e o ensino sobre eles não depende desta frase. O que depende dela é só uma coisa: saber se Mateus a escreveu. E sobre isso o que se pode afirmar é que, provavelmente, não.













