Jesus repreendeu o demônio, que saiu do menino, e desde aquele momento ele ficou curado.
1. Introdução
A cura é contada em uma linha.
Depois de dois versículos de relato do pai e um de queixa, o desfecho vem sem descrição: Jesus repreende, o demônio sai, o menino fica curado. Não há gesto, não há palavra de ordem registrada, não há reação da multidão.
Três pontos centrais aparecem.
O primeiro é a brevidade. Marcos gasta vários versículos com convulsões, gritos e um menino que parece morto. Mateus resume tudo em três verbos.
O segundo é a palavra "demônio". O pai falou de doença, com o nome da lua; o texto fala de demônio. É a primeira vez que a palavra aparece no episódio, e ela não vem da boca de ninguém: vem do próprio evangelho.
O terceiro é o fecho: "ficou curado". O texto descreve a saída de um demônio com o verbo da cura. As duas descrições do caso — a do pai e a do texto — terminam juntas na mesma frase.
Este estudo registra as duas sem harmonizar e sem escolher.
2. Contexto Histórico e Cultural
Sintoma e agente no mesmo diagnóstico
Para o leitor moderno, "doença" e "demônio" são explicações que se excluem: ou uma coisa, ou outra. Para boa parte do mundo antigo não era assim. A mesma descrição de um mal podia trazer, lado a lado, a observação exata do sintoma e o nome do ser invisível que o causava.
O documento mais antigo e mais claro disso vem da Babilônia. É um grande manual de diagnóstico médico em quarenta tabuinhas de argila, conhecido pelo título sumério Sa-gig ou pelo babilônico Sakikku, que quer dizer "todas as doenças". A tradição babilônica atribuía a organização da obra a um erudito chamado Esagil-kin-apli, que viveu por volta do século XI a.C. A tabuinha 26 da série, numa cópia de meados do primeiro milênio a.C. hoje no Museu Britânico, é dedicada à "doença da queda".
O texto é uma lista de casos, e cada caso tem a mesma estrutura: se o doente apresenta tais sinais, o mal é tal. A observação dos sintomas é minuciosa. Um dos casos descreve o doente que, sentado, tem o olho desviado para o lado, o lábio contraído, a saliva escorrendo, e a mão, a perna e o tronco do lado esquerdo sacudindo "como um carneiro recém-abatido". Neurologistas que estudaram a tabuinha no século XX reconheceram nela descrições precisas de diversos tipos de crise.
E, na mesma lista, o manual atribui os ataques a agentes: um demônio da queda, um espírito de morto, a "mão" de determinado deus. Diz, por exemplo, que se o demônio cai sobre o doente muitas vezes num mesmo dia, há um número de ataques a partir do qual a vida dele não será poupada.
Para o médico babilônico não havia contradição. O sintoma era o que se via; o agente era o que explicava. O mesmo texto fazia as duas coisas.
O que isso ilumina, e o que não prova
A tabuinha não diz nada sobre a natureza do caso do menino, e seria abuso usá-la para isso. Ela não prova que o menino tinha epilepsia, nem que o demônio seja só um modo antigo de falar.
O que ela mostra é que o formato do episódio de Mateus — o pai que descreve sintomas, o texto que nomeia um demônio — correspondia a um modo de pensar a doença que atravessou o antigo Oriente por mais de mil anos. O leitor do primeiro século não sentia a tensão que o leitor moderno sente ao passar do versículo 15 para o 18.
"Repreender" um espírito
O verbo "repreender", aplicado a um demônio, também tem história. A raiz hebraica equivalente, usada para Deus que repreende o mar, está examinada no estudo de Gênesis 37:10. O que interessa aqui é o uso dessa linguagem para expulsar espíritos, que aparece num texto judaico anterior ao Novo Testamento.
Entre os manuscritos encontrados nas cavernas de Qumran, junto ao mar Morto, está o chamado Apócrifo do Gênesis (um reconto em aramaico de histórias do Gênesis, do século I a.C. ou pouco antes). Ele amplia o episódio de Gênesis 12, em que o faraó toma Sara e é ferido por pragas. No reconto, um espírito mau aflige o faraó e a casa dele. Abraão ora, impõe as mãos sobre a cabeça do rei, e o espírito é "repreendido" e afastado dele — com o verbo aramaico da mesma raiz de "repreender".
É um dos poucos textos judaicos antigos que mostram um homem expulsando um espírito, e o verbo usado é o de "repreender". Estudiosos do Novo Testamento, desde um artigo clássico de Howard Clark Kee (estudioso norte-americano do Novo Testamento) sobre a linguagem dos exorcismos em Marcos, publicado em 1968, observaram que o verbo grego dos evangelhos corresponde a esse vocabulário. Repreender não era advertir; era a palavra de autoridade que submete um poder.
3. Análise Teológica do Versículo
"Jesus repreendeu"
A tradução ABC diz "repreendeu o demônio". O grego diz "repreendeu-o", com um pronome que pode se referir ao menino ou ao demônio, e o item 10 mostra por quê. Marcos 9:25 e Lucas 9:42 não deixam dúvida: dizem que Jesus repreendeu o espírito imundo. Mateus deixa a frase mais aberta.
A leitura que a ABC fez é a mais natural, porque a oração seguinte diz que o demônio saiu. Mas vale registrar que, no grego de Mateus, a repreensão tem um objeto indefinido, e que a palavra "demônio" só aparece depois do verbo.
O verbo, em si, é o da palavra de autoridade: o mesmo com que Jesus repreendeu os ventos e o mar em Mateus 8:26. O item 2 mostra o uso desse vocabulário para espíritos. O que o versículo não traz são as palavras da repreensão. Marcos 9:25 cita a ordem inteira: "Espírito mudo e surdo, eu lhe ordeno: saia dele e nunca mais entre nele." Mateus não cita nada. O leitor sabe que houve uma ordem, e não sabe qual.
"o demônio"
Aqui está o achado do versículo, e ele precisa ser tratado com cuidado nos dois sentidos.
O pai, no versículo 15, descreveu uma doença: o menino é atingido pela lua, sofre, cai no fogo e na água. Não falou de espírito. Agora o texto, na sua própria voz, diz que havia um demônio e que ele saiu. Mateus é o único dos três evangelhos em que essas duas vozes não coincidem, como mostra o estudo de Mateus 17:15.
O texto usa artigo definido — "o demônio" — como se o leitor já soubesse de qual se trata. Não houve apresentação. Mateus supõe que o leitor liga a doença descrita pelo pai ao demônio nomeado agora.
Mateus não acha que toda doença é demônio
Há um dado do próprio evangelho que impede uma leitura simplista, e ele corta nas duas direções.
Em Mateus 4:24, a lista dos que eram trazidos a Jesus separa "os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos". Os lunáticos — a mesma palavra do pai no versículo 15 — estão numa categoria diferente da dos endemoninhados. Em Mateus 10:1, a autoridade dada aos discípulos é "sobre os espíritos imundos" e também "para curarem toda enfermidade", de novo separando as duas coisas.
Ou seja: Mateus não trabalha com a ideia de que toda doença seja obra de demônio. Sabe distinguir. E, neste caso, escolhe dizer que havia um.
Isso tem duas consequências. A primeira é que não se pode dizer que o evangelho chamava de demônio qualquer epilepsia por falta de categoria médica: a categoria "lunático" existia e ele a usa em outro lugar como coisa diferente. A segunda é que também não se pode ler este versículo como ensino geral de que a epilepsia é possessão: o mesmo evangelho mostra lunáticos que são só lunáticos. A atribuição é deste caso.
As leituras em disputa
Diante disso, as leituras se dividem, e é honesto apresentá-las sem escolher.
A primeira lê o texto como diz: havia um espírito, que produzia no menino sintomas parecidos com os de uma doença, e Jesus o expulsou. A favor, é o que Mateus afirma na própria voz, e os três evangelhos concordam que houve expulsão. Contra, nada no texto — a objeção vem de fora dele, da medicina moderna.
A segunda lê o demônio como a linguagem com que o mundo antigo explicava uma doença grave, no formato que o item 2 mostra na Babilônia: sintoma e agente no mesmo diagnóstico. A favor, a descrição do pai corresponde ao quadro da epilepsia. Contra, o próprio Mateus distingue lunáticos de endemoninhados, o que enfraquece a ideia de que ele simplesmente não tinha outra palavra.
A terceira observa a composição: Mateus conservou a fala do pai com vocabulário médico e o desfecho com vocabulário de exorcismo, sem ajustar um ao outro, talvez porque recebeu as duas coisas da tradição e manteve ambas. A favor, as diferenças em relação a Marcos. Contra, é explicação sobre como o texto foi feito, e não resolve o que o texto afirma.
Não é possível decidir a partir do texto. O que se pode afirmar é o que ele afirma: o pai descreveu uma doença; Mateus, na sua própria voz, disse que havia um demônio; Jesus agiu; o menino ficou curado. Diagnosticar epilepsia por cima do versículo 18 é apagar o texto. Tratar o pai como se tivesse falado de possessão é apagar o versículo 15.
"que saiu do menino"
A saída é contada sem nenhum efeito visível. Marcos 9:26-27 descreve o espírito gritando, sacudindo o menino com violência e deixando-o como morto, a ponto de muitos dizerem que ele tinha morrido; Jesus o toma pela mão e o levanta. Lucas 9:42 diz que o demônio o jogou no chão e o convulsionou antes de sair.
Mateus não traz nada disso. O demônio sai, e pronto. O efeito é o de uma autoridade que não encontra resistência: não há luta.
E o menino é chamado, pela primeira vez, de "menino". O pai disse "filho"; o texto, depois da cura, diz "menino". A palavra grega pode indicar criança e também rapaz jovem.
"e desde aquele momento ele ficou curado"
O fecho usa o verbo da cura, não o da libertação. É o mesmo verbo com que o pai tinha pedido, no versículo 16, e com que os discípulos não conseguiram: curar.
E a fórmula "desde aquela hora" é uma marca de Mateus. Ela fecha a cura da filha da cananeia em Mateus 15:28 — que também era um caso de demônio, e também termina com "ficou curada" — e a da mulher com hemorragia em Mateus 9:22. Em Mateus 8:13, o servo do centurião é curado "naquela mesma hora". A fórmula diz duas coisas: a cura foi imediata e foi permanente.
O resultado é que o versículo reúne as duas descrições numa frase só. "O demônio saiu" é linguagem de exorcismo; "ficou curado" é linguagem de doença. Mateus não escolhe entre elas. Usa as duas, uma depois da outra, para o mesmo acontecimento.
O que o versículo não diz
Não diz como a multidão reagiu. Lucas 9:43 diz que todos ficaram maravilhados com a grandeza de Deus. Não diz que o menino foi devolvido ao pai, como Lucas 9:42 registra. Não diz o que o pai fez nem se voltou a falar. Mateus fecha a cena pública aqui e passa, no versículo seguinte, para a conversa em particular.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jesus
Age sem que o texto registre palavra, gesto ou contato. Só o verbo "repreendeu".
O demônio
Nomeado aqui pela primeira vez no episódio, pelo próprio texto. Mateus não o descreve nem lhe dá fala. Marcos 9:25 o chama de "espírito mudo e surdo".
O menino
O filho do homem que se ajoelhou no versículo 14. Chamado de "menino" a partir daqui. Curado "desde aquele momento".
Os documentos antigos citados
Sakikku ("todas as doenças") — manual babilônico de diagnóstico em quarenta tabuinhas, organizado segundo a tradição por Esagil-kin-apli, por volta do século XI a.C. A tabuinha 26 trata da "doença da queda".
Apócrifo do Gênesis — manuscrito aramaico encontrado em Qumran, que reconta histórias do Gênesis e inclui a expulsão de um espírito mau do faraó por Abraão.
Os paralelos
Marcos 9:20-27 narra a cura com detalhes: convulsão, diálogo com o pai sobre a fé, ordem ao espírito, menino como morto, Jesus o levanta pela mão. Lucas 9:42-43 traz a convulsão, a devolução do menino ao pai e o espanto de todos.
5. Pontos de Ensino
A autoridade de Jesus não precisa de espetáculo
Mateus conta a cura em três verbos. Não há luta, não há fórmula registrada, não há demora. A brevidade é a mensagem: o que os discípulos não conseguiram, ele resolve sem esforço visível.
O texto conserva as duas descrições
O pai falou de doença; o texto fala de demônio e termina dizendo "ficou curado". O evangelho não força uma descrição a engolir a outra, e o leitor honesto também não deve forçar.
Nem toda doença é demônio
O próprio Mateus distingue lunáticos de endemoninhados em Mateus 4:24. O versículo fala deste caso, e não autoriza a leitura de que a epilepsia, ou qualquer doença, seja possessão.
A cura é completa
"Desde aquele momento" indica que o mal não voltou. O texto não fala de melhora gradual nem de recaída.
O pedido do pai foi atendido nos termos dele
Ele pediu que o filho fosse curado. O texto termina dizendo que foi curado. O que quer que tenha sido o mal, o pai recebeu exatamente o que pediu.
6. Aspectos Filosóficos
Duas descrições do mesmo acontecimento
O versículo põe diante do leitor uma questão que a filosofia conhece bem: um mesmo fato pode admitir duas descrições verdadeiras, em linguagens diferentes, sem que uma elimine a outra? "O demônio saiu" e "ficou curado" descrevem o mesmo instante.
Há quem pense que toda explicação de outra ordem deve ser traduzida para a linguagem da ciência, ou descartada. Há quem pense o contrário: que a linguagem religiosa diz algo que a médica não alcança. O texto não entra nessa disputa, mas a antecipa, ao usar as duas linguagens na mesma frase sem constrangimento. O que ele recusa, na prática, é a ideia de que seja preciso escolher uma para o fato existir.
7. Aplicações Práticas
Não ler este versículo como diagnóstico
Uma família que tem alguém com epilepsia não encontra aqui autorização para tratar a doença como possessão, nem para trocar o neurologista pelo exorcista. O próprio Mateus separa lunáticos de endemoninhados em outro lugar. Usar o versículo para estigmatizar pessoas com crises convulsivas é ler o texto contra ele mesmo.
Não descartar a oração por causa da medicina
O movimento contrário também é possível: quem vive a doença em linguagem médica pode achar que não há mais lugar para pedir a Deus. O versículo reúne as duas coisas — o demônio saiu, o menino ficou curado. Orar por um doente e levá-lo ao médico não são atitudes concorrentes.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Então o menino não era epilético?
O texto não responde nesses termos. O pai descreveu sintomas com o nome da lua; o evangelho disse que havia um demônio. Não é possível, a partir do texto, confirmar nem descartar nenhuma das duas coisas, e este estudo não faz diagnóstico.
Por que Mateus conta a cura de modo tão breve?
É o hábito dele em muitas curas: reduzir o relato ao essencial. Aqui, a brevidade também põe em destaque o contraste com o fracasso dos discípulos e deixa espaço para a conversa dos versículos seguintes, que é onde o episódio concentra o ensino.
Jesus repreendeu o menino ou o demônio?
O grego de Mateus usa um pronome que admite as duas leituras. A oração seguinte e os paralelos de Marcos e Lucas indicam que o repreendido é o demônio, e é assim que a ABC traduz.
O que Jesus disse ao repreender?
Mateus não registra. Marcos 9:25 traz a ordem: "Espírito mudo e surdo, eu lhe ordeno: saia dele e nunca mais entre nele."
A cura foi definitiva?
A fórmula "desde aquele momento" indica que sim. Marcos 9:25 acrescenta a ordem de não voltar a entrar.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma cura nos outros evangelhos
Marcos 9:25-27 — "Quando Jesus viu que a multidão vinha correndo, repreendeu o espírito imundo, dizendo: Espírito mudo e surdo, eu lhe ordeno: saia dele e nunca mais entre nele. O espírito gritou, sacudiu-o com violência e saiu. O menino ficou como morto, a ponto de muitos dizerem: Morreu. Mas Jesus o tomou pela mão e o levantou, e ele se pôs de pé."
Tudo o que Mateus resumiu em três verbos.
Lucas 9:42 — "Enquanto o menino se aproximava, o demônio o lançou ao chão e o convulsionou. Mas Jesus repreendeu o espírito imundo, curou o menino e o devolveu ao pai."
Lucas também une as duas linguagens: repreendeu o espírito e curou o menino.
Mateus distingue as categorias
Mateus 4:24 — E a sua fama se espalhou por toda a Síria; e traziam-lhe todos os que sofriam, acometidos de diversas enfermidades e tormentos: os endemoninhados, os lunáticos e os paralíticos; e ele os curava.
Lunáticos e endemoninhados como grupos diferentes.
Mateus 10:1 — Chamando a si os seus doze discípulos, Jesus deu-lhes autoridade sobre os espíritos imundos, para os expulsarem e curarem toda enfermidade e toda doença.
Espíritos e doenças separados na mesma comissão.
A mesma fórmula de fecho
Mateus 15:28 — Então Jesus lhe respondeu: “Ó mulher, grande é a sua fé! Seja feito para você como você quer.” E desde aquela hora a sua filha ficou curada.
Outro caso de demônio fechado com o verbo da cura.
Mateus 9:22 — E Jesus, virando-se e vendo-a, disse: Tenha bom ânimo, filha; a sua fé a curou. E desde aquela hora a mulher ficou curada.
A fórmula numa cura sem demônio.
O mesmo verbo para o mar
Mateus 8:26 — Ele lhes disse: “Por que vocês estão com tanto medo, homens de pouca fé?” Então se levantou, repreendeu os ventos e o mar, e houve grande calmaria.
A repreensão que submete o que está fora da ordem.
Um endemoninhado que era cego e mudo
Mateus 12:22 — Então lhe trouxeram um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou, de modo que o mudo passou a falar e a ver.
Outro caso em que Mateus diz "curou" para um endemoninhado.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Jesus repreendeu o demônio, que saiu do menino, e desde aquele momento ele ficou curado.
Texto grego
Καὶ ἐπετίμησεν αὐτῷ ὁ Ἰησοῦς, καὶ ἐξῆλθεν ἀπ᾽ αὐτοῦ τὸ δαιμόνιον· καὶ ἐθεραπεύθη ὁ παῖς ἀπὸ τῆς ὥρας ἐκείνης.
Transliteração
Kai epetimēsen autō ho Iēsous, kai exēlthen ap' autou to daimonion; kai etherapeuthē ho pais apo tēs hōras ekeinēs.
Análise palavra por palavra
ἐπετίμησεν — epetimēsen, "repreendeu". Aoristo de epitimaō.
A formação do verbo e a sua distribuição nos evangelhos estão no estudo de Mateus 16:22. Aqui basta dizer que é a palavra de autoridade que manda parar, usada para ventos, febres e demônios.
αὐτῷ — autō, "a ele". Pronome no caso dativo, masculino ou neutro.
Aqui está uma ambiguidade real. Autō pode ser masculino, e então se refere ao menino, pais, que é masculino. Ou pode ser neutro, e então se refere ao demônio, daimonion, que é neutro. A forma do dativo é a mesma nos dois gêneros.
O demônio só é nomeado na oração seguinte. A leitura que toma o pronome como "o demônio" é a mais natural — e é a da ABC e da maioria das traduções —, porque é ele que sai. Mas o grego de Mateus não fecha a questão, ao contrário de Marcos 9:25 e Lucas 9:42, que nomeiam o espírito como objeto da repreensão.
ὁ Ἰησοῦς — ho Iēsous, "Jesus". O sujeito vem depois do verbo e do pronome, na ordem normal da narrativa grega.
ἐξῆλθεν ἀπ᾽ αὐτοῦ — exēlthen ap' autou, "saiu dele". Aoristo de exerchomai, composto de ex, "para fora", e erchomai, "ir".
O verbo é o de sair de um lugar, e nos evangelhos é o termo comum para a saída de um espírito. Mateus 12:43 o usa no dito sobre o espírito imundo que "sai de um homem". A preposição apo, "de, a partir de", indica afastamento. Autou, "dele", aqui é claramente masculino: o menino.
τὸ δαιμόνιον — to daimonion, "o demônio".
A palavra é neutra e deriva de daimōn. No grego clássico, daimōn não era palavra negativa: podia designar uma divindade, um poder divino indefinido, o destino de uma pessoa ou um espírito intermediário entre deuses e homens. Daimonion, o diminutivo neutro, significava "algo divino", "uma força sobrenatural".
Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.) a palavra passou a designar os deuses estrangeiros e os espíritos maus — o Salmo 96:5 na numeração grega diz que "todos os deuses das nações são demônios". No Novo Testamento o sentido negativo é o único. Mateus a usa cerca de dez vezes, sempre para espíritos que afligem pessoas.
O artigo definido, to, "o", apresenta o demônio como já conhecido, embora seja a primeira menção no episódio.
ἐθεραπεύθη — etherapeuthē, "foi curado, ficou curado". Aoristo passivo de therapeuō.
É o verbo da cura, examinado no estudo de Mateus 17:16. O pai o usou no pedido, e os discípulos não conseguiram realizá-lo. Aqui ele volta na voz passiva: o menino recebe a ação.
O dado importante é o vocabulário. Mateus descreve a saída de um demônio com o verbo da medicina. O mesmo acontece em Mateus 12:22, com o endemoninhado cego e mudo que Jesus "curou", e em Mateus 15:28, com a filha da cananeia que "ficou curada" — naquele caso com outro verbo grego, mas também do campo da cura.
ὁ παῖς — ho pais, "o menino".
Pais tem dois sentidos principais: "criança" (menino ou menina) e "servo, criado". É a palavra usada para o servo do centurião em Mateus 8:6-13 e para as crianças que gritam no templo em Mateus 21:15. Dela vêm "pediatria" e "pedagogia". Aqui o sentido é o de criança ou rapaz jovem, e o pai o chamara de huios, "filho". A palavra não indica idade exata.
ἀπὸ τῆς ὥρας ἐκείνης — apo tēs hōras ekeinēs, "desde aquela hora".
Hōra é "hora", mas no grego do período podia designar um momento qualquer, não uma hora de relógio. A ABC traduz "desde aquele momento".
A expressão é quase exclusiva de Mateus entre os evangelhos: a mesma fórmula fecha as curas de Mateus 9:22 e 15:28, e Mateus 8:13 tem a variante "naquela hora". Nas outras duas passagens a ABC traduziu "desde aquela hora"; o grego é idêntico nos três casos.
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que Mateus reduziu a cura ao mínimo para que ela se lesse como autoridade sem resistência. Sem convulsão, sem luta, sem fórmula, o que os discípulos não conseguiram se resolve num único gesto verbal. O contraste com o fracasso relatado dois versículos antes é o próprio argumento da cena.
A segunda é que o evangelho mantém lado a lado duas descrições do caso e as reúne numa frase: o demônio saiu e o menino ficou curado. Como Mateus distingue lunáticos de endemoninhados em outras passagens, a atribuição a um demônio não pode ser explicada como simples falta de vocabulário médico; e, pelo mesmo motivo, não pode ser transformada em ensino geral sobre a epilepsia. Vale para este caso, e é o que o texto afirma.
A terceira é que a pergunta "doença ou demônio?" é pergunta do leitor moderno, não do texto. O manual babilônico já anotava o sintoma e o agente na mesma linha, e Mateus faz o mesmo. O que o versículo sustenta com clareza é o desfecho: o pai pediu cura, e o menino foi curado desde aquele momento. O mecanismo, o texto não explica, e não é possível decidir além do que ele diz.













