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Mateus 12:22

✍️ Por Alberto Adriano·24 de julho de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 21 acessos
Então lhe trouxeram um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou, de modo que o mudo passou a falar e a ver.
Jesus cura um homem endemoninhado, cego e mudo, que passa a falar e a ver - a cura tripla de Mateus 12:22 que serve de gatilho para a controversia de Belzebu.

Estudo


Então lhe trouxeram um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou, de modo que o mudo passou a falar e a ver.

1. Introdução

Mateus 12:22 é a faísca que acende um dos maiores incêndios teológicos do Evangelho. Depois de apresentar Jesus como o Servo manso de Isaías (12:18-21), Mateus narra, em uma única frase densa, um milagre triplo: "Então lhe trouxeram um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou, de modo que o mudo passou a falar e a ver." Em poucas palavras, um homem que não enxergava, não falava e — segundo a leitura da época — estava sob domínio demoníaco é restaurado por completo. O resultado é imediato e verificável pela multidão: ele fala e vê.

O versículo não fica isolado. Ele é o gatilho da chamada "controvérsia de Belzebu" (12:22-30). A cura provoca duas reações opostas: o espanto maravilhado da multidão, que começa a perguntar se Jesus não seria o "Filho de Davi" (12:23), e a acusação venenosa dos fariseus, que atribuem o exorcismo ao poder de "Belzebu, príncipe dos demônios" (12:24). Todo o debate sobre a origem do poder de Jesus — Espírito de Deus ou potência demoníaca — nasce deste único milagre. Por isso vale lê-lo com atenção e honestidade: sem caricaturar a visão de mundo antiga que enxergava demônios por trás da cegueira e da mudez, e sem fingir certezas que o texto, sozinho, não oferece.

2. Contexto Histórico e Cultural

No mundo do primeiro século, a doença e a possessão não eram categorias tão separadas como hoje. A medicina antiga não conhecia as causas orgânicas de muitas enfermidades — infecções, lesões neurológicas, deficiências sensoriais de nascença — e, num universo povoado por espíritos, era natural atribuir a origem de males inexplicáveis a forças sobrenaturais. Cegueira, surdez, mudez, epilepsia e transtornos mentais eram, com frequência, associados à ação de demônios. Esse é o pano de fundo cultural do versículo: o homem é descrito como "endemoninhado" e, ao mesmo tempo, "cego e mudo", num único quadro em que a possessão e a deficiência aparecem entrelaçadas.

É importante ler isso com equilíbrio. Nem tudo o que os antigos chamavam de possessão corresponderia, na linguagem médica de hoje, a uma "doença"; nem tudo o que hoje diagnosticamos organicamente era, para eles, simples possessão. O próprio Evangelho de Mateus distingue às vezes entre "curar os enfermos" e "expulsar demônios" (por exemplo, 10:8), o que mostra que os autores bíblicos não fundiam automaticamente toda doença com atuação demoníaca. Aqui, porém, os dois planos aparecem juntos: a narrativa apresenta um caso em que o exorcismo e a restauração dos sentidos coincidem. O grau de certeza sobre a exata relação entre o demônio e a enfermidade neste caso específico é algo que o texto não detalha — e a honestidade histórica pede que reconheçamos essa reserva, em vez de forçar uma explicação médica moderna ou, no extremo oposto, transformar a cena num espetáculo sensacionalista.

Havia ainda um forte pano de fundo messiânico. Os profetas anunciavam que, nos dias da salvação, "os olhos dos cegos se abririam" e "a língua do mudo cantaria" (Isaías 35:5-6). Exorcistas judeus existiam e atuavam (o próprio Jesus alude a "vossos filhos" que expulsam demônios, 12:27), mas a combinação de expulsar o demônio e, no mesmo ato, devolver a visão e a fala tinha um peso simbólico: soava como cumprimento das promessas messiânicas. É essa ressonância que faz a multidão perguntar, logo a seguir, se Jesus não seria o Filho de Davi.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então lhe trouxeram um endemoninhado"

O homem não vem sozinho — é trazido. Sua condição o incapacitava: cego, não via o caminho; mudo, não podia pedir ajuda por palavras. Depende inteiramente de outros para chegar a Jesus. Teologicamente, a cena retrata a impotência total do necessitado e a iniciativa alheia (a dos que o trazem e, sobretudo, a de Jesus) como o que abre a porta da restauração. O verbo "trouxeram" (grego prosēnechthē, "foi trazido/apresentado") coloca o homem na posição de quem recebe, não de quem conquista.

"que era cego e mudo"

A dupla deficiência isola o homem do mundo em duas frentes: ele não recebe (não vê) e não se comunica (não fala). É o retrato de uma existência murada por dentro e por fora. A tradição da época lê essa condição como ligada à possessão demoníaca, e o texto a apresenta assim, sem discutir mecanismos. Aqui convém a honestidade: o texto afirma a associação entre o domínio do demônio e a cegueira/mudez, mas não explica em que medida uma coisa causava a outra. Ler isso com sobriedade significa nem reduzir tudo a superstição antiga, nem construir uma demonologia detalhada que o versículo não autoriza.

"e Jesus o curou"

O verbo é etherapeusen ("curou"), a mesma raiz de "terapia". Curiosamente, Mateus usa o vocabulário da cura, e não apenas o do exorcismo, para descrever o que Jesus fez — sinal de que, na cena, libertar do demônio e sarar a enfermidade formam um único ato de restauração. A ação é de Jesus, direta e soberana: nenhum ritual longo, nenhuma fórmula elaborada é registrada. Ele cura, e pronto. Esse poder concentrado e imediato é justamente o que provocará a pergunta sobre sua origem.

"de modo que o mudo passou a falar e a ver"

O resultado é apresentado como consequência ("de modo que") e é imediatamente verificável: o homem fala e . Note a ordem e a plenitude — a restauração não é parcial. As duas faculdades perdidas retornam. Teologicamente, é um sinal messiânico em ato: a promessa de Isaías 35:5-6 ("os olhos dos cegos se abrirão... a língua do mudo cantará") acontece diante da multidão. O milagre não é apenas um alívio individual; é um sinal público de que o Reino de Deus está irrompendo na pessoa de Jesus.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus — o agente da cura. Age com autoridade direta, sem fórmulas mágicas. É o poder concentrado em sua pessoa que dispara toda a controvérsia seguinte: de onde vem essa autoridade sobre os demônios?

O homem endemoninhado, cego e mudo — a figura restaurada. Incapaz de ver, falar ou vir por conta própria, é o retrato do ser humano totalmente dependente. Sua cura pública torna-se prova visível diante de todos: ele fala e vê onde antes havia silêncio e escuridão.

Os que o trouxeram — não nomeados, mas essenciais. Sem eles, o homem não teria chegado a Jesus. Representam a mediação da comunidade que carrega o necessitado até a fonte da cura.

A multidão — a testemunha maravilhada. É ela que, no versículo seguinte (12:23), reage com espanto e formula a pergunta messiânica: "Não será este o Filho de Davi?" A cura muda a percepção do povo sobre a identidade de Jesus.

Os fariseus — ainda não falam neste versículo, mas surgem logo depois (12:24) com a acusação de que Jesus expulsa demônios "por Belzebu". São o polo oposto da multidão: diante do mesmo fato, atribuem-no ao mal.

O evento — a cura tripla (exorcismo, visão e fala) que serve de gatilho para a controvérsia de Belzebu (12:22-30), um dos debates mais intensos do Evangelho sobre a origem do poder de Jesus.

5. Pontos de Ensino

A restauração é integral — Jesus não devolve só a visão ou só a fala, mas as duas, e liberta o homem do que o dominava. Ensina que a obra de Deus alcança a pessoa por inteiro: corpo, comunicação e o que a aprisiona por dentro.

Quem não pode vir é trazido — o homem chega porque outros o carregam. Ensina o valor da mediação: há quem só encontre a cura porque alguém o conduz até ela. A fé da comunidade abre caminho para o impotente.

O mesmo fato gera reações opostas — diante da cura, a multidão se maravilha e os fariseus acusam. Ensina que o milagre não força a fé: o coração já disposto vê sinal de Deus; o coração endurecido vê ameaça, e chega a chamar de mal o bem evidente.

O sinal aponta além de si — a cura cumpre a promessa de Isaías 35 e faz a multidão pensar no "Filho de Davi". Ensina que os atos de Jesus não são fins em si mesmos, mas sinais que revelam quem ele é.

Honestidade diante do mistério — o texto entrelaça possessão e enfermidade sem explicar o mecanismo. Ensina a virtude de afirmar o que o texto afirma e reconhecer o que ele não esclarece, sem inventar certezas nem descartar o relato com desprezo.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo coloca de frente uma questão que atravessa a história do pensamento: a relação entre a causa natural e a causa espiritual dos males humanos. A visão de mundo do primeiro século enxergava, por trás de muitas enfermidades, a atuação de agentes pessoais — demônios. A modernidade, ao contrário, tende a explicar cegueira e mudez por causas orgânicas: lesões, malformações, doenças. O texto nos obriga a pensar em como lidar com essa distância. Uma leitura madura não precisa nem impor a demonologia antiga a todo caso de doença, nem ridicularizar os antigos como ingênuos. Cada época interpreta o sofrimento com as categorias de que dispõe; reconhecer isso é um exercício de humildade epistemológica, não de descrença.

Há também a questão do problema da interpretação dos sinais. O mesmo evento — um homem que passa a ver e falar — é lido de dois modos incompatíveis: obra do Espírito de Deus ou obra de Belzebu. Isso mostra que os fatos não interpretam a si mesmos; sempre chegam a nós já enquadrados por uma pré-compreensão. A multidão, aberta, lê o sinal como messiânico; os fariseus, comprometidos com sua rejeição, leem o mesmo sinal como demoníaco. Filosoficamente, é uma ilustração viva de como a disposição prévia do intérprete condiciona o que ele "vê" no dado. Nenhum milagre é tão evidente que dispense a decisão do coração.

Por fim, convém nomear com franqueza o grau de certeza. Que o Evangelho apresenta a cena como cura real e como sinal messiânico: isso é claro no texto (certeza alta quanto à intenção do autor). Já a natureza precisa da condição do homem — quanto era "possessão", quanto era enfermidade orgânica, e como as duas se relacionavam — permanece fora do alcance do relato, que não a descreve nesses termos (certeza baixa quanto à explicação médica ou demonológica detalhada). A postura honesta guarda essas gradações e resiste tanto ao reducionismo que nega o extraordinário quanto ao sensacionalismo que exagera o macabro.

7. Aplicações Práticas

A primeira aplicação nasce da figura de quem é trazido. Há pessoas que, por circunstância, dor ou limitação, não conseguem "chegar" sozinhas — nem à ajuda, nem à fé, nem à esperança. O versículo valoriza os que carregam o outro até a fonte da cura. Ser esse tipo de presença — quem conduz, acompanha, abre caminho para o que não pode andar sozinho — é uma vocação concreta. Ninguém se restaura no vácuo; quase sempre alguém precisou trazer.

A segunda toca a restauração da comunicação. O homem estava mudo e cego: não podia se expressar nem receber o mundo. Ao ser curado, "passou a falar e a ver". Muita gente vive murada por dentro — incapaz de dizer o que sente, fechada ao que a cerca. A cena convida a buscar e a oferecer o que devolve a voz e a visão: escuta, acolhimento, palavras que reabrem a comunicação. Restaurar em alguém a capacidade de falar e de enxergar sua própria vida é participar do tipo de obra que Jesus fez.

A terceira brota do contraste entre a multidão e os fariseus. Diante do mesmo bem evidente, uns se maravilham e outros acusam. Isso interpela a nossa disposição interior: com que coração recebemos o bem que acontece diante de nós? É fácil, por orgulho ferido ou preconceito, chamar de suspeito ou de mal aquilo que deveríamos reconhecer como bom. A aplicação é um exame: cultivar o coração que sabe se admirar e agradecer, em vez do coração que, para não ter de mudar, desqualifica o bem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. O que significa Mateus 12:22?

Narra a cura de um homem endemoninhado que era cego e mudo. Jesus o restaura por completo, de modo que ele volta a falar e a ver. É um milagre triplo — libertação do demônio, recuperação da visão e da fala — que serve de gatilho para a controvérsia de Belzebu (12:22-30), na qual se debate a origem do poder de Jesus.

2. Por que o homem é descrito ao mesmo tempo como endemoninhado, cego e mudo?

Porque, na visão de mundo do primeiro século, doenças inexplicáveis — como cegueira e mudez de causa desconhecida — eram frequentemente associadas à ação de demônios. O texto apresenta a condição do homem nesse quadro cultural, entrelaçando possessão e enfermidade, sem detalhar em que medida uma causava a outra. É honesto reconhecer que o versículo afirma a associação, mas não explica o mecanismo.

3. Toda doença, na Bíblia, é causada por demônios?

Não. O próprio Mateus às vezes distingue entre "curar os enfermos" e "expulsar demônios" (por exemplo, 10:8), o que mostra que os autores bíblicos não fundiam automaticamente toda enfermidade com possessão. Neste caso específico, os dois planos aparecem juntos, mas isso não pode ser generalizado para toda doença. A leitura equilibrada evita tanto o reducionismo (negar o extraordinário) quanto o exagero (ver demônio em tudo).

4. Qual o grau de certeza sobre a relação entre o demônio e a enfermidade aqui?

Convém ser franco. Que o Evangelho apresenta a cena como cura real e como sinal messiânico tem certeza alta — está no texto. Já a natureza exata da condição do homem — quanto era "possessão", quanto era enfermidade orgânica, e como as duas se ligavam — o relato não descreve, e por isso o grau de certeza sobre esse ponto é baixo. A postura honesta afirma o que o texto afirma e reconhece como aberto o que ele não esclarece.

5. O que torna essa cura um "sinal messiânico"?

A ligação com a profecia de Isaías 35:5-6: "os olhos dos cegos se abrirão... a língua do mudo cantará." Ao devolver visão e fala num mesmo ato, Jesus realiza diante da multidão exatamente o que os profetas anunciavam para os dias da salvação. Por isso a multidão, logo a seguir, pergunta se ele não seria o "Filho de Davi" (12:23): o milagre soa como cumprimento das promessas.

6. Por que essa cura gera uma controvérsia?

Porque o poder de Jesus sobre o demônio é tão evidente que exige uma explicação, e as reações se dividem. A multidão se maravilha e pensa no Messias; os fariseus, incapazes de negar o fato, atribuem-no a "Belzebu, príncipe dos demônios" (12:24). O milagre não deixa ninguém neutro: ou o poder vem de Deus, ou vem do mal. Todo o debate seguinte (12:25-30) desenrola-se a partir dessa alternativa.

7. O que significa o homem ser "trazido" a Jesus?

Cego, não via o caminho; mudo, não podia pedir ajuda. Ele depende de outros para chegar. O detalhe destaca a impotência do necessitado e o valor da mediação: alguém precisou carregá-lo até Jesus. É uma imagem da comunidade que conduz à cura aquele que não pode vir por si mesmo.

8. Por que Mateus usa o verbo "curou" para um caso de possessão?

Porque, na cena, libertar do demônio e sarar a enfermidade formam um único ato de restauração. O verbo etherapeusen ("curou", raiz de "terapia") abraça o conjunto: o homem é restaurado por inteiro. Isso reforça que, aqui, o exorcismo e a cura da cegueira/mudez não são coisas separadas, mas faces de uma mesma restauração integral.

9. Como ler esse texto sem cair em superstição nem em ceticismo?

Guardando as gradações. De um lado, não impor a demonologia antiga a todo sofrimento moderno, nem transformar a cena num espetáculo macabro. De outro, não descartar o relato com desprezo, como se os antigos fossem apenas ingênuos. Cada época interpreta o mal com as categorias de que dispõe. O leitor honesto respeita o texto, reconhece o que ele afirma e admite o que ele não explica, sem sensacionalismo.

10. Quais são as principais lições de Mateus 12:22?

Que Jesus restaura a pessoa por inteiro; que os impotentes muitas vezes chegam à cura porque outros os trazem; que o mesmo bem evidente pode ser recebido com espanto grato ou com acusação, conforme o coração; e que os milagres de Jesus são sinais que apontam para sua identidade messiânica. Diante do sinal, cada um decide o que fazer com ele.

9. Conexão com Outros Textos

"Então os olhos dos cegos se abrirão, e os ouvidos dos surdos se desimpedirão... e a língua do mudo cantará." (Isaías 35:5-6)

A profecia que ilumina toda a cena. Ao devolver, num mesmo ato, a visão e a fala, Jesus realiza o que Isaías anunciara para os dias da salvação. É essa ressonância que faz o milagre soar como sinal messiânico e leva a multidão a pensar no Filho de Davi.

"Enquanto se retiravam, trouxeram-lhe um homem mudo e endemoninhado. Expulso o demônio, falou o mudo; e as multidões se admiraram." (Mateus 9:32-33)

Um caso muito parecido, poucos capítulos antes. O paralelo mostra que a cura de 12:22 não é isolada, mas integra um padrão no ministério de Jesus: exorcismo que restaura a fala e provoca o espanto das multidões — e, também ali, a acusação dos fariseus (9:34).

"Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é chegado o reino de Deus sobre vós." (Mateus 12:28)

A chave interpretativa que o próprio Jesus dará à cena, dentro da controvérsia disparada por 12:22. Ela responde à pergunta sobre a origem do seu poder: não Belzebu, mas o Espírito de Deus — e a expulsão dos demônios é sinal de que o Reino chegou.

"Não será este o Filho de Davi?" (Mateus 12:23)

A reação imediata da multidão ao milagre. Mostra o efeito direto da cura: ela reabre a questão da identidade de Jesus e o vincula à esperança messiânica davídica. O versículo 22 é a causa; o 23, o primeiro efeito.

10. Original Grego e Análise

Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): "Então lhe trouxeram um endemoninhado que era cego e mudo, e Jesus o curou, de modo que o mudo passou a falar e a ver."

Texto grego (Textus Receptus): Τότε προσηνέχθη αὐτῷ δαιμονιζόμενος, τυφλὸς καὶ κωφός· καὶ ἐθεράπευσεν αὐτόν, ὥστε τὸν τυφλὸν καὶ κωφὸν καὶ λαλεῖν καὶ βλέπειν.

Transliteração: "Tóte prosēnéchthē autō daimonizómenos, typhlòs kaì kōphós; kaì etherápeusen autón, hōste tòn typhlòn kaì kōphòn kaì laleîn kaì blépein."

Palavra a palavra

"prosēnechthē" (προσηνέχθη) — aoristo passivo de prospherō, "trazer, apresentar, conduzir até". A voz passiva é reveladora: o homem "foi trazido", não veio. Cego e mudo, ele é objeto da ação alheia. O verbo coloca a iniciativa nos que o carregam e, sobretudo, no encontro com Jesus, não no próprio necessitado. É a gramática da dependência.

"daimonizomenos" (δαιμονιζόμενος) — particípio presente passivo de daimonizomai, "estar endemoninhado, sob domínio de demônio". O tempo presente indica uma condição em curso, um estado contínuo de sujeição. É o termo técnico dos Evangelhos para a possessão. Aqui ele aparece colado à cegueira e à mudez, refletindo a visão de mundo antiga que entrelaçava possessão e enfermidade — associação que o texto apresenta, mas não detalha.

"typhlos" (τυφλός) — "cego". Designa a privação da visão. No mundo antigo, a cegueira condenava a pessoa à dependência e, muitas vezes, à mendicância. Nos Evangelhos, abrir os olhos dos cegos é um dos sinais mais carregados de sentido messiânico (cf. Isaías 35:5).

"kōphos" (κωφός) — palavra de sentido amplo: pode significar "surdo", "mudo" ou ambos, pois na experiência antiga a surdez de nascença costumava vir acompanhada da incapacidade de falar. No contexto, a ênfase recai sobre a mudez, já que o resultado da cura é o homem "passar a falar" (lalein). A amplitude do termo lembra que traduzir do grego exige atenção ao contexto, não só ao dicionário.

"etherapeusen" (ἐθεράπευσεν) — aoristo de therapeuō, "curar, sarar, tratar" — raiz do nosso "terapia". O aoristo aponta para um ato pontual e concluído: Jesus curou, de uma vez. Chama a atenção que Mateus escolha o verbo da cura para descrever o que envolve também um exorcismo, sinalizando que libertação e sarar formam, nesta cena, um único ato de restauração integral.

"hōste" (ὥστε) — conjunção consecutiva, "de modo que, de sorte que". Introduz o resultado da cura. A estrutura é importante: primeiro o ato de Jesus, depois a consequência verificável. O grego marca com clareza que falar e ver são efeitos diretos e imediatos da cura, não fatos à parte.

"lalein" (λαλεῖν) — infinitivo presente de laleō, "falar, emitir palavras". O infinitivo presente sugere ação contínua: o homem passa a falar, e essa capacidade agora permanece. Onde havia silêncio imposto, instala-se a fala. É a restauração da comunicação, da possibilidade de se expressar e de se relacionar por palavras.

"blepein" (βλέπειν) — infinitivo presente de blepō, "ver, enxergar, olhar". Também no presente, indicando a nova condição permanente: o homem . Onde havia escuridão, instala-se a luz. Junto com lalein, compõe o retrato da restauração dupla dos sentidos, cumprindo em ato a promessa profética de olhos abertos e língua solta.

Nota textual e teológica

No plano textual, o versículo é estável: o Textus Receptus e as edições críticas concordam quanto ao sentido, sem variantes que alterem o conteúdo (há apenas pequenas diferenças de forma verbal e ordem de palavras entre manuscritos, sem impacto no significado). A frase é curta, mas densa: em uma linha, Mateus condensa exorcismo, cura da cegueira e cura da mudez, e prepara o terreno para a grande controvérsia que se segue.

No plano interpretativo, entra a questão mais delicada, e a honestidade pede gradações. O texto entrelaça, num mesmo homem, a possessão demoníaca e as deficiências de visão e fala, refletindo a visão de mundo do primeiro século, que associava males inexplicáveis à ação de espíritos. Que o Evangelho apresenta a cena como cura real e como sinal messiânico — cumprimento de Isaías 35:5-6 — tem certeza alta: é a intenção clara do autor. Já a natureza exata da condição do homem — quanto era "possessão" e quanto era enfermidade orgânica, e como as duas se relacionavam — o relato não descreve nesses termos, e por isso o grau de certeza sobre esse ponto é baixo. O leitor honesto não força uma explicação médica moderna sobre o texto antigo, nem constrói uma demonologia detalhada que o versículo não autoriza, nem descarta a cena como mera superstição. Afirma-se o que o texto afirma — a restauração integral do homem por Jesus, lida como sinal do Reino — e reconhece-se como aberto o que o texto não esclarece, sem reducionismo e sem sensacionalismo. É desse milagre, apresentado com essa sobriedade, que nascerá a pergunta decisiva do capítulo: por qual poder Jesus faz o que faz?

11. Conclusão

Mateus 12:22 concentra, em uma só frase, um milagre triplo e um divisor de águas. Um homem trazido por outros — cego, mudo e, aos olhos da época, dominado por um demônio — é restaurado por completo pela ação direta de Jesus, e passa a falar e a ver. A cura cumpre em ato a antiga promessa de Isaías 35:5-6 e soa, diante da multidão, como sinal de que o Messias chegou. Não por acaso, o povo logo pergunta: "Não será este o Filho de Davi?"

Fica também o convite à leitura honesta. O versículo entrelaça possessão e enfermidade sem explicar o mecanismo, refletindo a visão de mundo do primeiro século. O caminho maduro não é nem impor a demonologia antiga a todo sofrimento, nem ridicularizar o relato como superstição, mas guardar as gradações: alta certeza de que o texto apresenta uma restauração real e um sinal messiânico; baixa certeza sobre a natureza precisa da condição do homem, que o relato não detalha. O que permanece, límpido, é o essencial: diante do mesmo bem evidente, a multidão se maravilha e os adversários acusam. E é essa a pergunta que o milagre lança sobre cada leitor — não apenas o que aconteceu com aquele homem, mas com que coração recebemos o bem que Deus faz diante de nós, e quem reconhecemos ser aquele que abre olhos, solta línguas e liberta cativos.

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