Todas as multidões ficaram admiradas e diziam: "Não será este o Filho de Davi?"
1. Introdução
Jesus acabara de curar um homem cego e mudo que estava dominado por um demônio, devolvendo-lhe de uma só vez a fala e a visão (12:22). O efeito sobre quem assistia foi imediato e profundo. O versículo 23 registra a reação da multidão: "Todas as multidões ficaram admiradas e diziam: Não será este o Filho de Davi?" É uma pergunta breve, quase murmurada, mas carregada de expectativa messiânica. Diante de um milagre tão completo, o povo começa a suspeitar que aquele homem pudesse ser o Messias esperado.
O versículo é uma dobradiça no capítulo. De um lado, ele fecha o milagre com o espanto do povo; de outro, prepara a explosão de hostilidade dos fariseus, que virá no versículo seguinte (12:24), quando estes atribuirão o mesmo feito ao poder de Belzebu. Entre a pergunta hesitante da multidão e a acusação venenosa dos líderes abre-se todo o drama da controvérsia sobre a fonte do poder de Jesus. Este estudo procura ler a cena com honestidade: entender por que o título "Filho de Davi" surge justamente após um exorcismo, o que a forma da pergunta grega revela sobre a fé titubeante do povo, e o que se pode e o que não se pode afirmar com segurança sobre o pano de fundo judaico dessa expectativa.
2. Contexto Histórico e Cultural
No judaísmo do Segundo Templo, "Filho de Davi" era um título densamente messiânico. Ele remetia à promessa que Deus fizera a Davi por meio do profeta Natã: "Suscitarei depois de ti a tua semente... e confirmarei o seu reino... e estabelecerei o trono do seu reino para sempre" (2 Samuel 7:12-13). Os salmos alimentavam essa esperança — o Salmo 89 celebra o pacto com Davi e a perpetuidade de sua descendência, e os Salmos de Salomão, escritos cerca de um século antes de Jesus, pediam a Deus que levantasse "o filho de Davi" para reinar sobre Israel e purificar Jerusalém. Chamar alguém de "Filho de Davi" era, portanto, aventar que ele fosse o rei ungido que restauraria o trono e o povo.
Há, porém, um detalhe que a pergunta da multidão ilumina de modo especial. Por que o título brota justamente após um exorcismo, e não após um discurso régio ou um ato de poder político? Aqui entra uma tradição do judaísmo do Segundo Templo que ligava o filho de Davi ao poder sobre os demônios — não Davi diretamente, mas Salomão, o filho de Davi por excelência. Segundo escritos judaicos do período (como o Testamento de Salomão e relatos preservados pelo historiador Flávio Josefo), Salomão, o rei sábio, teria recebido de Deus autoridade sobre os espíritos maus, conhecendo fórmulas e o poder de expulsá-los e curar as enfermidades que causavam. Josefo (Antiguidades 8.2.5) descreve exorcismos feitos "segundo os métodos de Salomão" e afirma que essa arte permanecia forte entre os judeus de seu tempo. Havia, assim, no imaginário popular, uma associação entre o "filho de Davi" — na figura de Salomão — e o domínio sobre demônios e doenças.
É preciso, no entanto, medir o grau de certeza dessa ligação. Que existia uma tradição de Salomão exorcista no judaísmo do Segundo Templo é bem documentado (Josefo e escritos posteriores dão testemunho). Que a multidão de Mateus 12:23 tinha essa tradição conscientemente em mente ao dizer "Filho de Davi" é uma inferência plausível e defendida por muitos estudiosos, mas não algo que o texto afirme explicitamente. Trata-se de uma reconstrução histórica razoável, não de uma certeza documental. O que o próprio versículo mostra com clareza é apenas o encadeamento: cura de um endemoninhado, seguida da pergunta se aquele curador seria o Filho de Davi. A hipótese salomônica ilumina bem esse encadeamento, e por isso vale mencioná-la, mas com a franqueza de dizer que ela é interpretação, não dado explícito.
3. Análise Teológica do Versículo
"Todas as multidões ficaram admiradas"
O verbo grego descreve um espanto que tira a pessoa de si, um assombro diante do inexplicável. Não é mera curiosidade: é o abalo de quem viu algo que rompe o esperado. Diante de uma cura tão radical — cego, mudo e possesso, tudo restaurado de uma vez —, a reação natural do povo é ser lançado para fora de suas categorias habituais. O espanto é o solo de onde nasce a pergunta.
"e diziam"
O tempo do verbo sugere uma fala que corre pela multidão, um murmúrio que se espalha, comentários trocados entre as pessoas. Não é uma proclamação oficial nem uma confissão pública e firme. É o burburinho de uma suspeita coletiva que ainda busca palavras.
"Não será este o Filho de Davi?"
Aqui está o coração do versículo, e a sua sutileza. A pergunta é messiânica: o povo aventa que Jesus possa ser o rei prometido da linhagem de Davi. Mas a forma da pergunta, no grego, é hesitante — introduzida por uma partícula (mēti) que, como veremos na seção do original, geralmente inclina a resposta para o "não" ou para a dúvida: algo como "será que, apesar de tudo, este não seria o Filho de Davi?". A multidão intui a verdade, sente que ali há algo de messiânico, mas não a confessa plenamente. Fica no limiar: perto o bastante para levantar a pergunta certa, longe o bastante para não dar o passo da fé.
Teologicamente, o versículo dramatiza a diferença entre perceber e reconhecer. A multidão percebe o sinal, mas hesita diante da conclusão. E essa hesitação, embora tímida, é ainda assim mais honesta que a reação dos líderes, que virá em seguida. Onde o povo pergunta com dúvida, os fariseus responderão com calúnia (12:24). O contraste é deliberado: a fé incipiente, mesmo insegura, está mais próxima da verdade do que a hostilidade que sabe explicar o milagre mas se recusa a admiti-lo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
As multidões — os que assistiram ao milagre e reagiram com espanto. Não são discípulos comprometidos nem inimigos declarados; são o povo comum, aberto ao assombro e capaz de fazer a pergunta certa, mas ainda titubeante quanto a assumi-la como confissão. Representam a fé possível, mas incompleta.
Jesus — o curador cujo ato provoca a reação. Ele não responde à pergunta neste versículo; sua identidade fica suspensa no ar, oferecida ao discernimento de quem viu. O silêncio do texto sobre a resposta de Jesus deixa a pergunta pesando sobre o leitor.
O endemoninhado cego e mudo — mencionado no versículo anterior (12:22), é a causa imediata do espanto. Sua cura total é o sinal que dispara a suspeita messiânica. Sem ele, não há pergunta.
Davi (e, ao fundo, Salomão) — Davi é o rei a quem foi prometida uma descendência eterna (2 Samuel 7); "Filho de Davi" invoca essa promessa. Ao fundo, a figura de Salomão, o filho de Davi lembrado na tradição como sábio e senhor sobre os demônios, ajuda a entender por que o título aflora após um exorcismo.
Os fariseus — ainda não falam neste versículo, mas sua sombra já se projeta. A pergunta hesitante do povo (v23) serve de contraste à acusação que eles farão no versículo seguinte (v24), atribuindo o exorcismo a Belzebu. O evangelista põe lado a lado a dúvida sincera e a rejeição hostil.
O evento — a reação pública a um milagre: espanto coletivo que se traduz numa pergunta messiânica sussurrada. É um momento de possibilidade, em que a multidão chega à beira do reconhecimento sem atravessá-la.
5. Pontos de Ensino
O sinal aponta para a identidade — a cura leva o povo a perguntar quem é Jesus. Os atos de Jesus não são espetáculos avulsos; eles levantam a questão de sua pessoa. Ensina que a obra de Deus sempre conduz, no fim, à pergunta sobre quem é o autor dela.
Intuir não é o mesmo que confessar — a multidão suspeita da verdade, mas para na dúvida. Perceber que há algo de extraordinário em Jesus é um começo, não uma chegada. Ensina que a fé pede o passo do reconhecimento, e não apenas o reconhecimento da possibilidade.
A dúvida sincera é melhor que a rejeição interessada — o povo pergunta hesitante; os líderes caluniam com segurança. Ensina que uma fé insegura, mas aberta, está mais perto do Reino do que uma incredulidade que sabe explicar o milagre só para não se render a ele.
O Messias vem servindo, não impondo — o "Filho de Davi" se manifesta curando um pobre cego, mudo e possesso, não com pompa real. Ensina que o messianismo de Jesus se revela na misericórdia concreta, subvertendo a expectativa de um rei apenas glorioso.
A verdade pode estar num sussurro — a confissão certa vem em forma de pergunta tímida no meio da multidão. Ensina que Deus trabalha também nas intuições frágeis das pessoas comuns, e que grandes reconhecimentos podem começar num murmúrio.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo expõe a estrutura do reconhecimento humano diante da evidência. A multidão vê o mesmo fato que os fariseus verão, e no entanto reage de modo oposto. Isso mostra que a evidência, por si só, não determina a conclusão: entre o dado e a interpretação há um espaço em que operam a disposição do coração, os interesses e os medos. Filosoficamente, é o problema de que "ver" já é sempre "ver como" — nunca há um fato bruto que force sozinho a interpretação. A cura é a mesma; o significado atribuído difere radicalmente.
Há também a fenomenologia da pergunta hesitante. "Não será este o Filho de Davi?" é uma pergunta que já contém, meio escondida, a resposta que teme dar. Ela revela um modo tipicamente humano de aproximar-se de uma verdade grande: por rodeios, com uma dúvida que protege quem pergunta caso a resposta seja "sim" e mude tudo. A hesitação não é apenas ignorância; é também autodefesa diante de uma verdade que exigiria compromisso. Reconhecer Jesus como o Filho de Davi não seria um dado a mais no inventário do mundo, mas algo que reordenaria a vida de quem o reconhecesse — e por isso a pergunta recua um pouco no exato momento em que avança.
Por fim, cabe a honestidade sobre o pano de fundo histórico, sem sensacionalismo. A ligação entre "Filho de Davi", a figura de Salomão e o poder sobre os demônios é uma reconstrução plausível e bem apoiada em fontes como Josefo, mas permanece uma inferência, não um fato que o versículo declare. A postura filosoficamente honesta distingue os graus: o encadeamento cura-pergunta está no texto (certeza alta); o messianismo davídico do título é bem estabelecido (certeza alta); a associação consciente com Salomão exorcista na mente daquela multidão é interpretação razoável (certeza média). Nomear essas gradações é mais fiel à verdade do que apresentar tudo no mesmo nível de certeza.
7. Aplicações Práticas
A primeira aplicação nasce da pergunta hesitante do povo. Muitos, diante de Jesus, chegam à beira do reconhecimento e ali param, na dúvida confortável do "será que...?". O versículo interpela essa hesitação: perceber que há algo de extraordinário não basta; a fé pede o passo de confessar. Vale examinar onde, em nossa própria vida, intuímos a verdade mas evitamos assumi-la, porque assumi-la nos custaria mudança.
A segunda brota do contraste com os fariseus. A mesma cena gera, num, pergunta aberta; noutro, calúnia fechada. Isso adverte sobre como o interesse, o orgulho e o medo podem cegar diante do evidente. É um convite à sinceridade: pedir a Deus um coração que não se defenda da verdade só porque ela seria inconveniente, e reconhecer quando estamos "explicando" a obra de Deus apenas para não ter de nos render a ela.
A terceira vem do modo como o Messias se revela: curando um homem cego, mudo e oprimido. O "Filho de Davi" não aparece num trono, mas junto do miserável. Isso reorienta a expectativa de quem busca a Deus na grandeza espetacular: é no cuidado com os quebrados e esquecidos que o Reino frequentemente se mostra. Procurar e servir a Deus ali — nos pequenos, nos aflitos — é aprender a reconhecê-lo onde a multidão menos esperava um rei.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 12:23?
Após Jesus curar um homem cego, mudo e endemoninhado (12:22), a multidão fica atônita e começa a perguntar entre si: "Não será este o Filho de Davi?" O versículo registra a suspeita messiânica do povo — a intuição de que Jesus poderia ser o rei prometido da linhagem de Davi —, mas expressa de forma hesitante, como uma pergunta que ainda não ousa ser confissão.
2. Por que a multidão chama Jesus de "Filho de Davi"?
"Filho de Davi" era um título messiânico. Deus prometera a Davi uma descendência com trono eterno (2 Samuel 7:12-13), e essa esperança permeava os salmos (Salmo 89) e a literatura judaica. Chamar Jesus assim era aventar que ele fosse o Messias, o rei ungido que restauraria Israel. A cura extraordinária levou o povo a essa suspeita.
3. Por que o título aparece logo depois de um exorcismo?
Há uma tradição no judaísmo do Segundo Templo que ligava o filho de Davi ao domínio sobre os demônios — não Davi, mas seu filho Salomão, lembrado como sábio a quem Deus teria dado poder sobre os espíritos maus (Josefo, Antiguidades 8.2.5; o Testamento de Salomão). No imaginário popular, o "filho de Davi" evocava também esse senhorio sobre demônios e doenças. Por isso a cura de um endemoninhado podia, plausivelmente, despertar a pergunta se Jesus seria esse Filho de Davi. Vale notar que essa ligação é uma reconstrução histórica bem apoiada, não algo que o versículo afirme explicitamente.
4. O que quer dizer a forma da pergunta em grego?
A pergunta começa com a partícula mēti, que em grego normalmente introduz uma pergunta esperando resposta negativa ou hesitante — algo como "será que, apesar de tudo, este não seria...?". Isso mostra que a multidão não faz uma confissão firme, mas levanta uma suspeita cautelosa. O povo intui que há algo de messiânico em Jesus, mas recua diante de afirmá-lo plenamente.
5. A multidão estava confessando fé em Jesus?
Não plenamente. A pergunta hesitante mostra uma fé incipiente, no limiar: o povo percebe o sinal e faz a pergunta certa, mas para na dúvida, sem dar o passo do reconhecimento. É uma abertura, não uma decisão. Ainda assim, essa dúvida sincera contrasta favoravelmente com a reação dos líderes no versículo seguinte.
6. Qual é o contraste com os fariseus (v24)?
Enquanto a multidão pergunta com espanto e abertura, os fariseus, diante do mesmo milagre, o atribuem a Belzebu, o príncipe dos demônios (12:24). Mateus põe as duas reações lado a lado de propósito: de um lado, a dúvida sincera que se aproxima da verdade; de outro, a hostilidade que explica o milagre apenas para não ter de se render a ele. A fé insegura está mais perto do Reino do que a incredulidade interessada.
7. Qual o grau de certeza da tradição de Salomão exorcista?
Convém distinguir os planos. Que existia no judaísmo do Segundo Templo uma tradição de Salomão como senhor sobre os demônios: certeza alta, documentada por Josefo e por escritos como o Testamento de Salomão. Que "Filho de Davi" era título messiânico ligado à promessa a Davi: certeza alta. Já que aquela multidão específica associava conscientemente o exorcismo à tradição salomônica ao usar o título: inferência plausível e defendida por muitos estudiosos, mas não afirmada pelo texto — certeza média. O leitor honesto guarda essas gradações, sem sensacionalismo.
8. Por que Jesus não responde à pergunta?
O versículo deixa a pergunta suspensa; Jesus não a confirma nem a nega aqui. Em Mateus, sua identidade costuma revelar-se gradualmente, mais pelos atos do que por proclamação, e ele frequentemente evita o alarde messiânico (como em 12:16). O silêncio do texto devolve a pergunta ao leitor: cabe a cada um responder quem é aquele que cura assim.
9. O que significa esperar um Messias "Filho de Davi"?
Significava esperar um rei da linhagem davídica que restauraria o trono, libertaria e governaria Israel. Muitos imaginavam um libertador político-militar. A cena mostra que Jesus cumpre o título de modo inesperado: manifesta seu poder régio curando os oprimidos, não erguendo exércitos. O "Filho de Davi" real subverte, sem negar, a expectativa popular.
10. Quais são as principais lições de Mateus 12:23?
Que os sinais de Jesus levantam inevitavelmente a pergunta sobre quem ele é; que intuir a verdade não basta, pois a fé pede o passo do reconhecimento; que uma dúvida sincera vale mais que uma rejeição interessada; e que o Messias se revela servindo os quebrados, não impondo-se com pompa. O versículo nos deixa na posição da multidão — diante da pergunta — e espera de nós uma resposta menos hesitante.
9. Conexão com Outros Textos
"Quando se cumprirem os teus dias... suscitarei depois de ti a tua semente... e confirmarei o seu reino. Ele edificará uma casa ao meu nome, e confirmarei o trono do seu reino para sempre." (2 Samuel 7:12-13)
A promessa que funda o título "Filho de Davi". Deus garante a Davi uma descendência com reino eterno, e é dessa aliança que nasce a esperança messiânica davídica. Sem esse texto, a pergunta da multidão não teria peso: ela ecoa, de longe, a promessa de Natã.
"Fiz aliança com o meu escolhido; jurei ao meu servo Davi: Estabelecerei a tua descendência para sempre e edificarei o teu trono de geração em geração." (Salmo 89:3-4)
O salmo que celebra e reafirma o pacto davídico. Mostra como a promessa a Davi virou objeto de canto e esperança em Israel, mantendo viva a expectativa de um rei da sua linhagem. Ilumina o horizonte religioso de quem, diante de Jesus, murmurava "Filho de Davi".
"Mas os fariseus, ouvindo isso, disseram: Este só expulsa os demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios." (Mateus 12:24)
O contraponto imediato. Diante do mesmo milagre que fez a multidão perguntar se Jesus seria o Filho de Davi, os líderes reagem com calúnia. O paralelo evidencia a intenção de Mateus: opor a dúvida aberta do povo à rejeição hostil dos poderosos, e preparar o grande discurso sobre a fonte do poder de Jesus.
"E dois cegos... clamavam, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!" (Mateus 20:30-31)
Mais adiante, cegos invocam Jesus exatamente com o título que a multidão aqui apenas sussurra, e o ligam à misericórdia e à cura. Mostra que, no Evangelho de Mateus, "Filho de Davi" aparece com frequência junto de curas — sobretudo de cegos —, reforçando a associação entre o Messias davídico e o poder de restaurar os oprimidos.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): "Todas as multidões ficaram admiradas e diziam: Não será este o Filho de Davi?"
Texto grego (Textus Receptus): Καὶ ἐξίσταντο πάντες οἱ ὄχλοι καὶ ἔλεγον, Μήτι οὗτός ἐστιν ὁ υἱὸς Δαβίδ;
Transliteração: "Kaì exístanto pántes hoi óchloi kaì élegon, Mḗti hoûtós estin ho huiòs Dabíd?"
Palavra a palavra
"existanto" (ἐξίσταντο) — imperfeito de existēmi, literalmente "sair de si, estar fora de si". Descreve um espanto que desloca a pessoa de seu estado normal, um assombro que arrebata. O tempo imperfeito sugere ação contínua ou repetida: as multidões iam ficando atônitas, o espanto se espalhando e persistindo enquanto comentavam. É bem mais forte que "admirar-se"; é ficar pasmo diante do inexplicável.
"ochloi" (ὄχλοι) — plural de ochlos, "multidão, povo, gente comum reunida". No plural, "as multidões", reforçando que não foi reação de poucos, mas do povo em massa. São a gente simples, distinta tanto dos discípulos quanto dos líderes religiosos — os espectadores comuns, capazes de espanto sincero.
"elegon" (ἔλεγον) — imperfeito de legō, "dizer, falar". Também no imperfeito: "iam dizendo", "diziam entre si". Sugere um murmúrio que corria pela multidão, comentários trocados de boca em boca, não uma proclamação única e formal. A verdade circula como sussurro coletivo.
"mēti" (Μήτι) — partícula interrogativa que normalmente introduz uma pergunta esperando resposta negativa, ou ao menos hesitante e cautelosa. Equivale a algo como "será que, por acaso, este não seria...?" ou "não é possível que este seja...?". É a chave da nuance do versículo: a multidão não afirma, ela sonda com dúvida. Intui a possibilidade messiânica, mas a formula de modo que deixa espaço para o recuo. Não é a linguagem de uma confissão firme, e sim de uma suspeita que hesita em se comprometer.
"houtos" (οὗτός) — pronome demonstrativo, "este". Aponta diretamente para Jesus, presente e visível. O demonstrativo dá imediatismo à pergunta: não se trata de uma figura distante, mas deste homem, ali, que acabou de curar diante de todos.
"estin" (ἐστιν) — presente de eimí, "é". Verbo de identidade: a pergunta é sobre ser — se este é, de fato, o Filho de Davi. Está em jogo não o que Jesus faz, mas quem ele é; o milagre apenas levantou a questão da identidade.
"huios" (υἱὸς) — "filho". Aqui em sentido de descendência e linhagem: descendente de Davi. Mas "filho de..." em hebraico e no grego bíblico carrega também a ideia de pertencer a uma categoria, herdar uma vocação. "Filho de Davi" é menos uma genealogia e mais um título: o herdeiro da promessa e do trono davídico.
"Dabid" (Δαβίδ) — transliteração grega do nome Davi, indeclinável. Invoca o rei a quem foi feita a promessa da descendência eterna (2 Samuel 7). Ao fundo do nome ressoa toda a esperança messiânica de Israel e, para a tradição do exorcismo, também a figura de seu filho Salomão, o sábio senhor sobre os demônios.
Nota textual e teológica
No plano textual, o versículo é estável. O Textus Receptus lê Δαβίδ ("Dabid"), enquanto edições críticas modernas grafam Δαυίδ ("Dauid") — diferença apenas ortográfica na transcrição do nome hebraico, sem qualquer efeito no sentido. O restante do versículo é firme na tradição manuscrita, sem variantes que alterem o conteúdo. A partícula mēti, que carrega a nuance de hesitação, está presente em toda a tradição.
No plano interpretativo, dois pontos pedem gradações honestas. Primeiro, o sentido de mēti: a maioria dos gramáticos reconhece que a partícula inclina a pergunta para o negativo ou o hesitante, e essa é a leitura amplamente aceita (certeza alta); ela sustenta a imagem de uma multidão que intui sem confessar. Segundo, o pano de fundo do título após o exorcismo. Que "Filho de Davi" é messiânico e remete à promessa davídica: certeza alta, apoiada no Antigo Testamento e na literatura judaica. Que existia uma tradição de Salomão — o filho de Davi — como senhor sobre os demônios: certeza alta, documentada por Josefo (Antiguidades 8.2.5) e pelo Testamento de Salomão. Que a multidão de 12:23 tinha essa tradição salomônica conscientemente em mente ao usar o título: inferência razoável e defendida por muitos estudiosos, mas não afirmada pelo texto — certeza média. O equilíbrio honesto reconhece o que o versículo diz (cura, seguida de pergunta messiânica hesitante) e o que é reconstrução do fundo histórico (a associação com Salomão exorcista), sem transformar a hipótese plausível em fato e sem, por outro lado, negar-lhe o valor explicativo. É essa gradação — e não a certeza artificial ou o ceticismo total — que faz justiça ao texto e à história.
11. Conclusão
Mateus 12:23 captura um instante frágil e decisivo: diante de uma cura que devolveu vista, fala e liberdade a um homem, a multidão fica fora de si de espanto e deixa escapar a pergunta certa — "Não será este o Filho de Davi?". No título ressoa toda a esperança messiânica de Israel, a promessa feita a Davi de uma descendência com trono eterno; e, ao fundo, a tradição que via no filho de Davi, na figura de Salomão, um senhor sobre os demônios, o que explica de forma plausível por que o título brotou justamente após um exorcismo. O povo chega à beira da verdade. Mas a forma da pergunta, hesitante no grego, mostra que ele para no limiar: intui sem confessar.
O versículo vive dessa tensão e a entrega ao leitor. De um lado, a dúvida sincera da multidão, que ainda assim está mais perto da verdade do que a calúnia dos líderes que virá a seguir. De outro, o convite implícito a dar o passo que o povo não deu. Lendo a cena com honestidade — afirmando o que o texto afirma, reconhecendo como reconstrução o que é reconstrução, sem sensacionalismo —, permanece a pergunta que a nós também se dirige. Aquele que cura os cegos, solta os mudos e liberta os oprimidos: quem dizemos que ele é? A multidão sussurrou a pergunta. O Evangelho espera que respondamos.













