Mas os fariseus, ouvindo isso, disseram: “Este só expulsa os demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios.”
1. Introdução
Acabara de acontecer algo impossível de ignorar. Jesus curou um homem cego e mudo, possuído por um demônio, e as multidões, atônitas, começaram a perguntar em voz alta: "Não será este o Filho de Davi?" (12:22-23). A pergunta é grave: "Filho de Davi" era título messiânico. O milagre estava empurrando o povo para uma conclusão que os líderes religiosos não podiam admitir. É nesse ponto que entra o versículo 24. Diante do fato que ninguém negava, os fariseus escolhem uma saída: "Este só expulsa os demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios."
Vale prestar atenção no que eles fazem e no que não fazem. Não dizem que a cura não aconteceu. Não acusam Jesus de fraude nem de truque. Reconhecem, por implicação, que o poder é real — e o reatribuem à fonte oposta. Não é uma refutação; é uma difamação. Este estudo procura ler o versículo sem caricatura e sem sensacionalismo: entender quem é "Belzebu" e por que a etimologia do nome é disputada, o que significa "príncipe dos demônios", por que a estratégia dos líderes foi reatribuir em vez de negar, e por que essa acusação específica é o gatilho que leva Jesus, poucos versículos adiante, ao dito mais severo dos Evangelhos — a blasfêmia contra o Espírito (12:31-32).
2. Contexto Histórico e Cultural
No mundo do primeiro século, exorcismos não eram raros nem exclusivos de Jesus. Havia exorcistas judeus (o próprio Jesus os menciona no versículo 27), e a crença em possessão demoníaca era amplamente compartilhada. O que impressionava nos exorcismos de Jesus não era o gesto em si, mas a autoridade direta com que os realizava, sem fórmulas, encantamentos ou invocação de nomes superiores. Um caso como o do versículo 22 — cego e mudo, portanto sem os canais habituais de comunicação com o exorcista — era tido como especialmente difícil, o tipo de cura que reforçava a pergunta messiânica da multidão.
Os fariseus eram um movimento de leigos devotos, zelosos da Torá e da tradição oral, com forte influência sobre o povo. É importante dizer, sem generalizar: o texto acusa estes líderes, num confronto concreto, e não "os judeus" como povo. Jesus, a multidão admirada, o homem curado e os próprios discípulos eram todos judeus. O conflito aqui é interno ao judaísmo do período, entre um mestre galileu e um grupo de líderes que via nele uma ameaça — não um choque entre religiões. Ler o versículo como munição antijudaica é distorcer tanto a cena quanto a intenção de Mateus.
O nome "Belzebu" carrega uma história antiga. Em 2 Reis 1:2-3, o rei Acazias, ferido, manda consultar "Baal-Zebube, deus de Ecrom" — uma divindade filisteia. A forma hebraica ali, Ba'al Zevuv, significa "senhor das moscas", e há boa razão para suspeitar que seja uma deformação zombeteira feita pelos escribas de Israel: rebaixar o "senhor" (Baal) de um povo pagão a "senhor das moscas". No tempo de Jesus, o nome já circulava como designação de uma potência demoníaca superior, e no versículo 24 aparece na forma grega Beelzeboul — cuja terminação em "-boul" abre a discussão etimológica que veremos adiante.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas os fariseus, ouvindo isso"
O "mas" é adversativo e proposital. Mateus contrasta duas reações ao mesmo milagre: a multidão que se admira e pergunta pelo Filho de Davi (12:23), e os líderes que reagem em sentido contrário. O que dividiu as reações não foi o fato — ambos o presenciaram — mas a disposição do coração diante dele. "Ouvindo isso" liga a acusação diretamente à pergunta messiânica do povo: é justamente a possibilidade de Jesus ser o Messias que os líderes precisam neutralizar.
"Este só expulsa os demônios..."
O pronome "Este" (grego houtos) tem um tom desdenhoso, como quem se recusa a dizer o nome. E note o que a frase concede: eles admitem que ele "expulsa os demônios". O exorcismo não está em disputa. A acusação inteira se constrói sobre a aceitação do fato. Essa é a chave teológica da cena: os líderes não podem negar a obra, então atacam a fonte. É uma manobra de reatribuição — mesma evidência, origem invertida.
"...por Belzebu, o príncipe dos demônios"
A acusação é dupla. Primeiro, atribui o poder de Jesus a Belzebu; segundo, define Belzebu como "príncipe dos demônios" (archōn tōn daimoniōn) — o chefe, o comandante das potências das trevas. A lógica dos líderes é: se ele domina demônios, é porque serve ao mais alto deles. O que eles chamam de discernimento é, na verdade, uma inversão: o Espírito de Deus é rebatizado de poder demoníaco. Jesus responderá a isso primeiro pela lógica (um reino dividido não se sustenta, 12:25-26) e depois pela teologia (se é pelo Espírito de Deus que ele expulsa demônios, então o Reino chegou, 12:28).
O nó teológico: o ponto de virada
É honesto reconhecer o peso deste versículo na estrutura do capítulo. Até aqui, a hostilidade contra Jesus vinha crescendo — a controvérsia do sábado, a decisão de matá-lo (12:14). Mas a acusação de Belzebu é qualitativamente diferente. Não é discordar de uma interpretação da Lei; é olhar para uma obra visivelmente boa e libertadora e chamá-la de satânica. É por causa desta acusação específica que Jesus pronuncia o dito sobre a blasfêmia contra o Espírito (12:31-32): o pecado imperdoável não é uma dúvida sincera nem uma pergunta honesta, mas a inversão deliberada e endurecida que chama de diabólico o que se sabe ser de Deus. O versículo 24 é a semente; os versículos 31-32 são o fruto.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os fariseus — os acusadores nesta cena. Movimento de leigos devotos, zelosos da Lei e influentes sobre o povo. Aqui reagem à pergunta messiânica da multidão com uma tática de contenção: em vez de negar o milagre, redefinem sua origem. Representam a liderança que se sente ameaçada e escolhe difamar em vez de investigar.
A multidão — o contraste. Admiram-se diante da cura e ousam perguntar se Jesus não seria o Filho de Davi (12:23). Sua reação, ainda que hesitante, aponta na direção certa; a dos líderes, na oposta. O povo comum, aqui, enxerga melhor do que os especialistas religiosos.
O homem curado — cego, mudo e endemoninhado (12:22), agora restaurado. Não fala no versículo 24, mas é a evidência viva sobre a qual toda a discussão se ergue. Sua cura é tão inegável que nem os acusadores tentam contestá-la.
Belzebu — não uma pessoa presente na cena, mas o nome invocado. Designação de uma potência demoníaca superior, com raiz no "Baal-Zebube" de Ecrom (2 Reis 1). Aqui funciona como o suposto patrono do poder de Jesus, o "príncipe dos demônios" a quem os líderes o vinculam.
O evento — a acusação pública. Diante de um milagre que empurrava o povo para a fé messiânica, os líderes lançam uma explicação alternativa que preserva sua posição. É um momento de bifurcação: o mesmo fato que gera adoração numa parte gera difamação na outra.
5. Pontos de Ensino
Negar não é a única forma de rejeitar — os líderes não negam o milagre; reatribuem-no. Ensina que a incredulidade nem sempre nega os fatos — às vezes os aceita e apenas troca a explicação. Rejeitar a luz pode vestir a roupa da análise.
A difamação como fuga da evidência — sem poder refutar a obra, atacam a fonte. Ensina o mecanismo antigo de desqualificar a pessoa quando não se pode desqualificar o argumento. Chamar o bem de mau é mais fácil do que enfrentar o que ele exige de nós.
O mesmo fato, reações opostas — a multidão se admira; os líderes acusam. Ensina que a evidência, sozinha, não converte: o que decide a reação é a disposição de quem observa. Diante de uma mesma obra, um coração se abre e outro se fecha.
Poder revela lealdades — os líderes assumem que quem domina demônios serve ao chefe deles. Ensina, por contraste, a pergunta que Jesus levanta: o poder que liberta não pode vir de quem escraviza. A obra denuncia a sua verdadeira origem.
Há um limite perigoso — esta acusação prepara o dito sobre a blasfêmia contra o Espírito. Ensina, com sobriedade, que chamar deliberadamente de diabólico o que se reconhece como divino é o endurecimento mais grave que o coração pode alcançar.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo expõe um problema clássico do conhecimento: o que fazer quando a interpretação de um fato depende mais da disposição do intérprete do que do fato em si? Líderes e multidão viram exatamente a mesma cura. A diferença de conclusão não veio de dados diferentes, mas de estruturas prévias diferentes de aceitação. Os fariseus tinham um compromisso — com sua autoridade, sua leitura da Lei, sua posição — que tornava certa conclusão (Jesus é o Messias) inadmissível de antemão. Diante do inadmissível, a mente busca qualquer explicação que preserve o compromisso. "Belzebu" é essa explicação. Filosoficamente, é um exemplo cristalino de como a razão pode ser colocada a serviço de uma conclusão já decidida, em vez de conduzir a ela.
Há também uma reflexão sobre a irrefutabilidade das acusações de má-fé. Reatribuir a fonte de um poder é uma jogada quase impossível de contestar por evidência: qualquer novo milagre pode ser reatribuído da mesma forma, num regresso sem fim. É a lógica da suspeita total, que se blinda contra qualquer prova. Jesus não responde entrando nesse jogo; responde expondo a incoerência interna dele (um reino dividido contra si mesmo se autodestrói) e recolocando a questão no terreno da lealdade e do fruto. A filosofia aprende aqui algo sobre os limites da argumentação: contra quem decidiu não ser convencido, mais evidência não resolve; só a mudança da disposição resolve.
Convém, por fim, marcar o grau de certeza. Que os líderes reatribuíram o poder de Jesus em vez de negar o milagre é o que o texto afirma com clareza — certeza alta. Já a motivação interna deles (medo da perda de autoridade, ciúme, cegueira sincera ou má-fé consciente) o versículo não descreve em detalhe; podemos inferi-la do contexto, mas com humildade. E a etimologia exata de "Belzebu", como veremos, é objeto de disputa genuína. A honestidade filosófica pede que se distinga o que a cena mostra (a reatribuição) do que apenas se deduz (os motivos) e do que permanece incerto (a raiz do nome).
7. Aplicações Práticas
A primeira aplicação toca o modo como reagimos ao bem que nos incomoda. Nem sempre rejeitamos a verdade negando-a; às vezes a aceitamos e apenas trocamos sua explicação, para não termos de mudar. Vale examinar-se: quando alguém faz um bem inegável, mas de um jeito ou de um lugar que nos desagrada, qual é o primeiro impulso — reconhecer, ou logo buscar um motivo oculto que desqualifique? A tática de "achar a fonte errada" para não lidar com a obra boa é mais comum, e mais nossa, do que gostamos de admitir.
A segunda toca a difamação como arma. Quando não conseguimos responder ao argumento de alguém, é tentador atacar a pessoa; quando não podemos negar o feito, é tentador insinuar a intenção. Os líderes fizeram isso com Jesus da forma mais extrema possível. A aplicação é dupla: cuidar para não ser quem difama — trocar o enfrentamento honesto das ideias pela desqualificação de quem as diz — e ter serenidade quando formos alvo disso. Se ao próprio Jesus atribuíram poder demoníaco, quem o segue não deve se surpreender ao ver o bem que faz sendo lido com a pior das intenções.
A terceira toca o endurecimento gradual. A acusação de Belzebu não surgiu do nada; foi o ponto a que uma hostilidade crescente chegou. O coração raramente endurece de um salto; endurece por etapas, cada uma tornando a próxima mais fácil. A aplicação é vigilância: perceber os pequenos passos em que começamos a chamar de ruim o que sabemos ser bom, apenas porque admitir o contrário nos custaria caro. O caminho para o irreconhecível começa com concessões pequenas à má-fé — e é ali, cedo, que ele se interrompe.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
1. O que significa Mateus 12:24?
Após Jesus curar um endemoninhado cego e mudo, a multidão se pergunta se ele não seria o Messias (o "Filho de Davi"). Os fariseus, para neutralizar essa conclusão, respondem que Jesus só expulsa demônios porque está a serviço de "Belzebu, o príncipe dos demônios". O versículo registra o momento em que os líderes, sem poder negar o milagre, reatribuem seu poder a uma fonte demoníaca — uma difamação que se tornará o gatilho do dito sobre a blasfêmia contra o Espírito.
2. Quem é "Belzebu"?
É o nome de uma potência demoníaca superior, aqui identificada como "o príncipe dos demônios". A raiz remonta a "Baal-Zebube, deus de Ecrom" (2 Reis 1:2-3), uma divindade filisteia. No grego do versículo, aparece como Beelzeboul. No tempo de Jesus, o nome já era usado para designar o chefe das forças das trevas, praticamente um equivalente de Satanás — como o próprio Jesus deixa claro ao responder falando do reino de Satanás dividido (12:26).
3. Por que a etimologia do nome é disputada?
Porque as formas variam. Em 2 Reis, o hebraico traz Zevuv, "moscas" — daí "senhor das moscas" (Baal-Zebube), possivelmente uma deformação zombeteira feita por escribas israelitas para rebaixar o deus pagão. Mas o Novo Testamento grego traz Beelzeboul, com "-boul", que muitos ligam a zevul, "morada" ou "exaltação" — daí "senhor da morada (celestial)" ou "senhor exaltado". Há ainda quem relacione "-boul" a "esterco". Não há consenso, e a franqueza pede reconhecer: o sentido exato da segunda parte do nome tem certeza apenas média.
4. Por que os líderes não negaram o milagre?
Porque provavelmente não podiam. A cura era pública e inegável, e a própria multidão a testemunhara. Negar o fato os desmoralizaria. A saída mais eficaz era aceitar a obra e atacar a origem: sim, ele expulsa demônios, mas pelo poder do chefe dos demônios. É uma estratégia de reatribuição — mais difícil de refutar do que uma negação, porque não disputa a evidência, apenas sua interpretação.
5. O que significa "príncipe dos demônios"?
No grego, archōn tōn daimoniōn: o "governante" ou "chefe" das potências demoníacas. A palavra archōn indica autoridade e comando. A acusação supõe uma hierarquia nas trevas, com Belzebu no topo, e insinua que Jesus opera com licença desse chefe. É justamente essa suposição que Jesus desmonta: um reino dividido contra si mesmo — Satanás expulsando Satanás — não teria como se manter (12:25-26).
6. Qual a diferença entre a reação da multidão e a dos líderes?
Ambos viram o mesmo milagre. A multidão se admirou e se aproximou da fé, perguntando pelo Filho de Davi. Os líderes recuaram para a difamação. A diferença não estava nos fatos, mas na disposição de cada coração diante deles. É um dos ensinos mais fortes da cena: a evidência, sozinha, não decide a resposta — a abertura ou o endurecimento de quem observa é que decide.
7. Essa acusação tem relação com o "pecado imperdoável"?
Sim, relação direta. É por causa desta acusação que Jesus pronuncia, poucos versículos adiante, o dito sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo (12:31-32). Chamar de demoníaca uma obra que se reconhece como do Espírito de Deus é a inversão que ele descreve como imperdoável — não uma dúvida sincera ou uma pergunta honesta, mas o endurecimento deliberado que rebatiza a luz de trevas. O versículo 24 é a semente desse dito.
8. O texto autoriza uma leitura antijudaica?
Não, e é importante afirmá-lo. A acusação parte de um grupo específico de líderes, num confronto concreto. Jesus, a multidão que o admirava, o homem curado e os discípulos eram todos judeus. O conflito é interno ao judaísmo do primeiro século. Transformar "os fariseus desta cena" em "os judeus" como povo é uma distorção que o próprio texto desmente. A crítica aqui é ao endurecimento de certos líderes, não a uma etnia ou religião.
9. Como Jesus respondeu a essa acusação?
Em duas frentes. Primeiro, pela lógica: se Satanás expulsa Satanás, seu reino está dividido e não se sustenta (12:25-26); e, se os próprios discípulos dos fariseus também expulsam demônios, por qual poder o fazem (12:27)? Depois, pela teologia: "se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, é chegado a vós o Reino de Deus" (12:28). A obra que os líderes chamaram de demoníaca é, na verdade, o sinal de que o Reino chegou.
10. Quais são as principais lições de Mateus 12:24?
Que a rejeição da verdade nem sempre a nega — às vezes a aceita e apenas troca sua explicação; que a difamação é o refúgio de quem não pode refutar a obra; que a mesma evidência gera reações opostas conforme o coração de quem a vê; e que há um caminho de endurecimento que, levado ao fim, chama de diabólico o que sabe ser de Deus. Diante disso, a pergunta é pessoal: o bem que me confronta, eu reconheço, ou procuro uma fonte errada para não ter de me render a ele?
9. Conexão com Outros Textos
"E Acazias... enviou mensageiros, dizendo-lhes: Ide e consultai a Baal-Zebube, deus de Ecrom, se sararei desta doença." (2 Reis 1:2-3)
A raiz do nome. É daqui que vem "Baal-Zebube", o "senhor das moscas" de Ecrom, provável deformação zombeteira de um deus filisteu. No versículo de Mateus, esse antigo nome pagão reaparece transformado em designação do "príncipe dos demônios". A conexão mostra como uma divindade estrangeira do Antigo Testamento se tornou, no imaginário do primeiro século, o rótulo da suprema potência das trevas.
"Todo reino dividido contra si mesmo acaba destruído... e, se Satanás expulsa Satanás, está dividido contra si mesmo; como subsistirá, pois, o seu reino?" (Mateus 12:25-26)
A resposta imediata. Jesus toma a acusação e a vira do avesso pela lógica: a hipótese dos líderes é autodestrutiva. A conexão é o próprio desdobramento da cena — o versículo 24 lança a acusação, e os versículos seguintes a desmontam por dentro, antes mesmo de tratar de sua teologia.
"Mas, se eu expulso os demônios pelo Espírito de Deus, logo é chegado a vós o reino de Deus." (Mateus 12:28)
A inversão teológica. O que os líderes chamaram de poder de Belzebu, Jesus identifica como poder do Espírito de Deus — e, portanto, como sinal da chegada do Reino. A conexão é decisiva: mostra exatamente o que está em jogo na acusação. Confundir o Espírito com o demônio não é um erro pequeno; é errar sobre a própria irrupção do Reino.
"Todo pecado e blasfêmia serão perdoados aos homens, mas a blasfêmia contra o Espírito não será perdoada." (Mateus 12:31-32)
O fruto da acusação. É porque os líderes atribuíram ao demônio a obra do Espírito que Jesus pronuncia este dito. A conexão fecha o arco: a difamação do versículo 24 não é um insulto qualquer, mas o gesto que define a fronteira do endurecimento imperdoável. Ler 12:24 sem 12:31-32 é perder o peso real da cena.
10. Original Grego e Análise
Texto em português (nossa tradução do Textus Receptus): “Mas os fariseus, ouvindo isso, disseram: ‘Este só expulsa os demônios por Belzebu, o príncipe dos demônios.’”
Texto grego (Textus Receptus): Οἱ δὲ Φαρισαῖοι ἀκούσαντες εἶπον, Οὗτος οὐκ ἐκβάλλει τὰ δαιμόνια εἰ μὴ ἐν τῷ Βεελζεβοὺλ ἄρχοντι τῶν δαιμονίων.
Transliteração: "Hoi dè Pharisaîoi akoúsantes eîpon, Hoûtos ouk ekbállei tà daimónia ei mḕ en tôi Beelzeboùl árchonti tôn daimoníōn."
Palavra a palavra
"Pharisaioi" (fariseus) — o grupo de líderes que faz a acusação. O nome deriva provavelmente do aramaico perishayya, "os separados", ligado à ideia de separação para a pureza e a fidelidade à Lei. Aqui o termo identifica os sujeitos da difamação — não o povo, mas uma liderança específica em confronto com Jesus.
"akousantes" (tendo ouvido) — particípio aoristo de akouō, "ouvir". Liga a acusação ao que precede: eles ouviram a multidão perguntar se Jesus não seria o Filho de Davi (12:23). A reação dos líderes é, portanto, resposta direta à possibilidade messiânica levantada pelo povo. É o que eles ouviram que precisam neutralizar.
"eipon" (disseram) — aoristo de legō/eipon, "dizer". Verbo simples, mas o tempo aoristo marca o ato pontual da declaração. Alguns manuscritos trazem o singular ou variações; o Textus Receptus fixa o plural "disseram", atribuindo a fala ao grupo como um todo, não a um indivíduo.
"houtos" (este) — pronome demonstrativo. No contexto, carrega um tom de desprezo, o "esse aí" de quem evita nomear com respeito. A escolha do demonstrativo em vez do nome "Jesus" já comunica a distância e o menosprezo dos acusadores em relação a ele.
"ouk ekballei... ei mē" (não expulsa... senão) — a construção "ouk... ei mē" significa "não... exceto", "só... por". Note o que ela concede: o verbo ekballei (presente de ekballō, "lançar para fora, expulsar") afirma que Jesus de fato expulsa os demônios. A acusação não nega o exorcismo; apenas o condiciona a uma fonte. A força da difamação está exatamente nessa concessão — admite-se a obra para se atacar a origem.
"ta daimonia" (os demônios) — daimonion, diminutivo de daimōn, no Novo Testamento designa os espíritos malignos, as potências que possuem e oprimem. É o objeto do exorcismo e o termo que se repete no fim do versículo ("dos demônios"), amarrando "Belzebu" a esse domínio.
"Beelzeboul" (Belzebu) — o ponto mais debatido. A forma grega termina em "-boul", e é aqui que a etimologia se divide. Uma leitura liga "-boul" ao hebraico zevul, "morada, habitação (elevada)" ou "altura", produzindo algo como "senhor da morada (celestial)" ou "senhor exaltado" — um título de aparente dignidade. Outra leitura remonta a Ba'al Zevuv, "senhor das moscas", de 2 Reis 1:2-3, provável trocadilho depreciativo dos escribas de Israel. Há ainda quem proponha ligação com "esterco" (uma zombaria ainda mais crua). O grau de certeza sobre a raiz exata é médio: sabemos que o nome designa o chefe das trevas, mas o sentido preciso de sua segunda parte permanece genuinamente disputado, e a honestidade pede não fingir consenso onde não há.
"archonti tōn daimoniōn" (príncipe dos demônios) — archōn é "governante, chefe, autoridade máxima", da raiz archē, "princípio, comando". No dativo aqui ("árchonti"), qualifica Belzebu como o governante das potências demoníacas. A expressão pressupõe uma hierarquia das trevas com um comandante no topo, e é sobre essa pressuposição que Jesus construirá sua refutação: se o chefe expulsa seus próprios súditos, seu reino se divide e cai (12:26).
Nota textual e teológica
No plano textual, o versículo é estável quanto ao sentido: Textus Receptus e edições críticas concordam no essencial — os fariseus admitem o exorcismo e atribuem seu poder a Belzebu, o príncipe dos demônios. Há variações menores na forma do nome ("Beelzeboul" é a leitura predominante; algumas tradições latinas trazem "Beelzebub", aproximando-o de 2 Reis) e no verbo de dizer, mas nenhuma altera o conteúdo da acusação. Podemos afirmar com alta segurança o que a frase faz: reatribui uma obra reconhecida.
A honestidade, porém, pede marcar dois graus de certeza. O primeiro é a etimologia de "Belzebu", já discutida: a identificação com "senhor das moscas", "senhor da morada" ou "senhor exaltado" divide os estudiosos, e afirmar uma como certa seria ir além da evidência. O segundo é o alcance da acusação. O texto mostra, com clareza, a estratégia — não negar, mas reatribuir. Já os motivos internos dos líderes (medo, ciúme, cegueira, má-fé consciente) o versículo não descreve; podem ser inferidos do contexto mais amplo, mas com prudência. Em resumo: sabemos com firmeza o que os líderes disseram e a manobra que fizeram; sobre a raiz do nome e o interior de quem acusou, guardamos as gradações — sem inflar certezas que o material não sustenta.
11. Conclusão
Mateus 12:24 é o versículo em que a hostilidade contra Jesus cruza uma linha. Até aqui, os líderes discordavam, criticavam, tramavam; agora, diante de um milagre que nem eles podem negar, escolhem chamar de demoníaca a obra que liberta um homem cego e mudo. Não é uma refutação — é uma difamação. Aceitam o fato e invertem a fonte, porque admitir a fonte verdadeira custaria alto demais. E o contraste com a multidão que se admira torna a cena ainda mais aguda: a mesma evidência que aproxima uns da fé afasta outros para a acusação. O que os separa não é o que viram, mas o que estavam dispostos a reconhecer.
Lido com honestidade — reconhecendo que a etimologia de "Belzebu" é genuinamente disputada e que os motivos íntimos dos acusadores o texto não detalha —, o versículo entrega o essencial com nitidez: há uma forma de rejeitar a verdade que não a nega, apenas a rebatiza. E há um ponto, ao fim desse caminho, em que chamar de diabólico o que se sabe ser de Deus deixa de ser erro e se torna endurecimento — a semente do dito sobre a blasfêmia contra o Espírito que virá logo adiante. Fica, então, a pergunta que a cena devolve a cada leitor: quando o bem me confronta e me custa render-me a ele, eu o reconheço pelo que é, ou procuro depressa uma fonte errada para não precisar mudar?













