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Mateus 17:17

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 20 min de leitura·👁 30 acessos
Respondeu Jesus: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam-me o menino aqui.”
Jesus de pé, com expressão grave, voltado para um grupo de discípulos e uma multidão, com a mão estendida indicando que tragam alguém até ele.

Estudo


Respondeu Jesus: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam-me o menino aqui.”

1. Introdução

O pai terminou de falar. Jesus responde — e a primeira coisa que diz não é para o pai.

O versículo tem duas partes que parecem não combinar.

A primeira é um desabafo: "Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los?" São duas perguntas sem resposta, no tom de quem está no limite.

A segunda é uma ordem: "Tragam-me o menino aqui." Seca, prática, imediata.

Entre as duas está o problema central do versículo: a quem a queixa é dirigida? Aos discípulos que falharam, à multidão, ao pai, a todos? O texto não diz, e as leituras se dividem.

E há o detalhe que torna a frase mais pesada do que parece: "até quando estarei com vocês" é dita num evangelho que começa chamando Jesus de "Deus conosco" e termina com a promessa "estou com vocês todos os dias".

2. Contexto Histórico e Cultural

A presença que não encontra lugar

A pergunta "até quando estarei com vocês?" supõe que quem fala veio de fora, está entre os homens por um tempo e não pertence ao lugar. O judaísmo do período tinha uma imagem pronta para isso, e ela ajuda a entender o que um ouvinte da época poderia ouvir.

É a figura da Sabedoria personificada — a Sabedoria de Deus apresentada como uma mulher que sai em busca de morada entre os homens. O livro de Provérbios já a mostra gritando nas praças e sendo desprezada, em Provérbios 1:20-25.

O texto mais claro está no chamado 1 Enoque (conjunto de escritos judaicos atribuídos ao patriarca Enoque, compostos entre os séculos III e I a.C., que não entraram na Bíblia judaica nem na da maioria das igrejas). No capítulo 42, lê-se que a Sabedoria saiu para morar entre os filhos dos homens e não encontrou onde habitar; então voltou ao seu lugar e sentou-se entre os anjos. A injustiça, ao contrário, achou quem a recebesse.

Outro escrito do mesmo período, o Eclesiástico (livro de sabedoria judaico do século II a.C., escrito por Jesus ben Sira, que faz parte da Bíblia católica), conta o contrário: no capítulo 24, a Sabedoria procura repouso entre os povos e recebe ordem de armar a sua tenda em Jacó. Ali ela encontra casa.

Por que isso interessa a Mateus

As duas versões mostram que a pergunta "onde a Sabedoria vai morar, e se vai ficar" era pergunta viva no judaísmo do tempo. E Mateus é o evangelho que mais aproxima Jesus dessa figura. Em Mateus 11:19, depois de reclamar da geração que não aceitou nem João nem o Filho do homem, Jesus diz que "a sabedoria é justificada pelos seus filhos". Em Mateus 23:34-39, fala como quem enviou profetas e quis reunir os filhos de Jerusalém, e anuncia que a casa ficará deserta.

Ler a queixa deste versículo à luz dessa tradição é hipótese de estudiosos, não afirmação do texto: Mateus não cita 1 Enoque e não fala aqui de sabedoria. O que a comparação oferece é um pano de fundo em que a frase faz sentido completo. Quem veio de Deus e não encontra acolhida pergunta até quando vai ficar.

O mestre que se cansa dos alunos

Há um pano de fundo mais simples e igualmente real. A relação entre mestre e discípulos, no judaísmo do período, era convivência de anos. O discípulo seguia o mestre, servia-o, observava como ele fazia as coisas. A tradição rabínica posterior guarda muitas histórias de mestres impacientes com alunos lentos — e de alunos que só entendiam depois.

O que torna este versículo diferente não é a impaciência, que era esperada. É o horizonte de tempo. O mestre comum ensina até o aluno aprender. Este fala como quem sabe que o tempo de ensinar está acabando. O capítulo anterior já anunciou a morte em Jerusalém, e o versículo 22 vai repeti-la.

3. Análise Teológica do Versículo

"Respondeu Jesus"

Ele responde ao pai, que acabou de falar. Mas o que diz a seguir não é resposta ao pedido. É uma queixa sobre outra coisa. A resposta ao pedido só vem no fim do versículo, na ordem de trazer o menino.

"Ó geração incrédula e perversa!"

A palavra "geração" como veredito sobre um tipo de gente, e a acusação de Mateus 16:4, estão examinadas no estudo daquele versículo. O que é próprio daqui são os dois adjetivos e a pessoa gramatical.

Em Mateus 16:4, a geração era "má e adúltera", e Jesus falava dela na terceira pessoa, como quem descreve um grupo de fora. Aqui ele se dirige a ela: "Ó geração". E os adjetivos mudam. "Incrédula" descreve quem não tem fé; "perversa", quem está torto, desviado do caminho reto.

A primeira palavra é decisiva para o episódio inteiro. É a mesma raiz que voltará no versículo 20, na resposta à pergunta dos discípulos. Ali, a sós, Jesus dirá aos discípulos: "por causa da incredulidade de vocês". Se a queixa do versículo 17 e a explicação do versículo 20 usam a mesma palavra, o texto está dizendo que os discípulos, naquele momento, estavam do lado da geração.

A interjeição "Ó" também merece nota. Em todo o Evangelho de Mateus, Jesus a usa só duas vezes. A outra é em Mateus 15:28: "Ó mulher, grande é a sua fé!" — dita à cananeia. As duas únicas exclamações do evangelho são sobre fé: uma para elogiar a de uma estrangeira, outra para lamentar a falta dela entre os de dentro.

A quem a frase é dirigida?

Aqui está a questão do versículo, e o texto não a resolve.

A leitura mais comum aponta os discípulos. A favor: foram eles que falharam, o fracasso acabou de ser relatado, e a explicação do versículo 20 fala da fé deles. Contra: a palavra "geração" é ampla demais para nove homens, e em Mateus ela sempre designa um grupo maior.

A segunda leitura aponta a multidão, ou o povo em geral. A favor: "geração" é o termo de Jesus para os contemporâneos que não creem, e a cena é pública. Contra: a multidão não fez nada neste episódio; não foi ela que tentou e falhou.

A terceira aponta o pai. A favor: é a ele que Jesus responde. Contra: a frase está no plural — "vocês" —, e Mateus, diferentemente de Marcos 9:23-24, não põe em dúvida a fé do pai em nenhum momento.

A quarta junta todos: a queixa é sobre um estado geral de falta de fé que atravessa a multidão, o pai e, naquele momento, os próprios discípulos. É a leitura mais ampla e a que menos força o texto.

Não é possível decidir. O que se pode afirmar é que o plural exclui que a frase seja só para o pai, e que o uso da mesma palavra no versículo 20 torna impossível excluir os discípulos.

"Até quando estarei com vocês?"

Este é o achado próprio do versículo.

A expressão "até quando" tem na Bíblia dois donos habituais. Um é o orante que se queixa a Deus: "Até quando, SENHOR?", pergunta o Salmo 13. O outro é Deus que se queixa do povo. Em Números 14:11, depois da recusa de entrar na terra, Deus pergunta a Moisés: "Até quando este povo me desprezará? Até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que fiz?" E em Números 14:27: "Até quando suportarei esta comunidade má?"

A frase de Jesus tem a estrutura da segunda: é queixa de cima para baixo, sobre gente que viu sinais e não creu. Números 14:11 fala até de não crer. O leitor que conhecia o texto de Números ouvia aqui Jesus falando no registro em que Deus fala do povo no deserto. Que Mateus quisesse esse efeito é leitura possível; o eco verbal é real.

O "estar com vocês" num evangelho sobre presença

A pergunta pesa mais em Mateus do que em qualquer outro evangelho, por causa das duas pontas do livro.

Em Mateus 1:23, o nome dado ao menino que vai nascer é Emanuel, "Deus conosco". Em Mateus 28:20, as últimas palavras de Jesus são: "estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo". Mateus é o evangelho que abre e fecha com a presença.

No meio, em Mateus 17:17, a mesma presença é posta em pergunta: até quando? A frase não nega as outras duas. Mas mostra que, dentro do relato, a convivência com Jesus na terra tinha prazo, e que ele falava sabendo disso. O capítulo 16 já anunciou a morte. A queixa soa como a de quem tem pouco tempo e vê que o essencial ainda não passou.

"Até quando terei de suportá-los?"

A segunda pergunta é mais dura que a primeira. "Estar com" descreve presença; "suportar" descreve peso.

O verbo é o de aguentar, tolerar, sustentar uma carga. Não tem o sentido de abandonar: quem suporta, continua suportando. A pergunta não anuncia que ele vai desistir. Anuncia que está pesado.

É preciso marcar o limite nas duas direções. A frase não autoriza a imagem de um Jesus irritado que perde a compostura: o versículo termina com uma ordem de socorro, sem nenhuma hesitação. E também não autoriza apagar a frase como se fosse só retórica: Mateus, que corta tanto de Marcos, conservou-a inteira.

"Tragam-me o menino aqui."

A ordem vem sem transição. A queixa não suspende o socorro, nem o condiciona. Não há "se vocês crerem", não há pergunta ao pai, não há espera.

E a construção tem um paralelo exato no próprio evangelho. Em Mateus 14:17-18, os discípulos dizem que só têm cinco pães e dois peixes, e Jesus responde: "Tragam-nos aqui para mim." Lá como aqui, os discípulos chegaram ao limite do que conseguem, e a resposta é a mesma ordem, com as mesmas palavras em grego: tragam para mim, aqui. O que eles não conseguiram resolver deve ser levado a ele.

O verbo está no plural. A ordem não é só para o pai. Alguém — os discípulos, provavelmente, ou quem estava com o menino — tem de ir buscá-lo. Os que falharam são postos para trabalhar no socorro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Responde ao relato do pai. É a única fala dele diante da multidão em todo o episódio; a explicação sobre a fé, nos versículos 20 e 21, é dada a sós aos discípulos.

Os destinatários possíveis

Os discípulos que ficaram ao pé do monte e não conseguiram curar; a multidão do versículo 14; o pai do menino. O texto não diz a quem a queixa é dirigida.

O menino

Ainda ausente. A ordem de trazê-lo indica que não estava ao lado do pai. É a primeira vez que o texto usa a palavra "menino" em vez de "filho".

A geração do deserto

Os israelitas que saíram do Egito e se recusaram a entrar na terra, em Números 14. O estudo de Mateus 16:4 trata deles como pano de fundo de "esta geração". Aqui interessa a queixa de Deus contra eles, com a mesma pergunta "até quando?".

A Sabedoria personificada

Figura dos livros de sabedoria judaicos: a Sabedoria de Deus apresentada como alguém que busca morada entre os homens. Aparece em Provérbios 1 e 8, no Eclesiástico 24 e em 1 Enoque 42.

Os paralelos

Marcos 9:19 e Lucas 9:41 trazem a mesma queixa. Lucas usa a mesma dupla de adjetivos de Mateus; Marcos só "incrédula".

5. Pontos de Ensino

A falta de fé pesa sobre Jesus

O texto não apresenta um mestre indiferente. A incredulidade ao redor é sentida como carga, e ele diz isso em voz alta.

A queixa não impede o socorro

A mesma fala que lamenta a geração termina com a ordem de trazer o menino. O desabafo e a ajuda cabem no mesmo versículo, sem que um anule o outro.

Os discípulos não estão imunes à acusação

A palavra "incrédula" voltará na explicação dada a eles. Estar perto de Jesus não coloca ninguém automaticamente fora da geração que não crê.

O tempo de convivência tinha fim

"Até quando estarei com vocês?" lembra que o ensino de Jesus na terra tinha prazo. Aprender não podia ser adiado indefinidamente.

O que não se resolve deve ser trazido a ele

"Tragam-me o menino aqui" repete a ordem da multiplicação dos pães. Diante do limite dos discípulos, a instrução é a mesma: levar o problema a Jesus.

6. Aspectos Filosóficos

A paciência que tem limite e continua

O versículo mostra uma forma de paciência diferente da resignação. Quem suporta e pergunta "até quando?" não finge que não pesa. Admite o limite e, na mesma frase, continua agindo.

Isso toca uma questão antiga da reflexão moral: a paciência é ausência de irritação ou é a decisão de continuar apesar dela? Uma virtude que só existe quando nada incomoda não custa nada. O texto registra um desabafo seguido de um ato de socorro, e é essa sequência que define a atitude — não a serenidade de superfície.

7. Aplicações Práticas

Dizer que pesa, e continuar

Pais, professores, cuidadores e líderes conhecem o momento em que a paciência chega ao fim da corda. O versículo não exige que se esconda isso. Jesus diz, em público, que está pesado. Mas não para de agir. A aplicação honesta não é "nunca se irrite"; é não deixar que a irritação decida se a ajuda vai ser dada. Desabafe, se precisar — e depois diga "traga aqui".

Não se excluir da crítica

Quem lê a queixa costuma pensar logo nos outros: a multidão, o mundo, "esta geração". O versículo 20 vai mostrar que a palavra servia também para os discípulos. Diante de uma crítica ampla, a pergunta útil é se ela não inclui quem está lendo.

Levar o problema a quem pode resolver

Os discípulos tentaram e não conseguiram. A ordem não é "tentem de novo"; é "tragam aqui". Há situações — uma crise que ultrapassa quem está cuidando, um caso que o grupo não dá conta — em que o gesto certo é reconhecer o limite e encaminhar, sem vergonha, a quem pode mais.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jesus perdeu a paciência?

O texto registra uma queixa forte, mas não descreve perda de controle. A mesma fala termina com uma ordem prática de socorro, e a cura acontece em seguida. O que se pode afirmar é que a frase expressa cansaço real, e que Mateus não a suavizou.

A queixa era contra o pai?

É improvável que fosse só para ele, porque o verbo está no plural. E Mateus, ao contrário de Marcos, não tem nenhuma cena em que a fé do pai seja questionada.

"Até quando estarei com vocês" anuncia a morte?

Não diretamente. A frase fala de um tempo de convivência limitado. Mas ela vem entre dois anúncios da paixão, o de Mateus 16:21 e o de Mateus 17:22, e o leitor que acompanha o capítulo percebe o prazo por trás da pergunta.

Por que Jesus não responde logo ao pedido?

Responde, no fim do versículo. A queixa vem antes, mas não adia a ação: a ordem de trazer o menino é dada na mesma fala.

Quem foi buscar o menino?

O texto não diz. A ordem está no plural, dirigida a mais de uma pessoa, mas Mateus não narra quem obedeceu. Marcos 9:20 diz apenas que o trouxeram.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma queixa nos outros evangelhos

Marcos 9:19 — "Ó geração incrédula! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam o menino a mim."

Marcos tem só um adjetivo.

Lucas 9:41 — "Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês e os suportarei? Traga aqui o seu filho."

Lucas tem os dois adjetivos de Mateus e dirige a ordem final só ao pai, no singular.

O "até quando" de Deus sobre o povo

Números 14:11 — "O SENHOR disse a Moisés: Até quando este povo me desprezará? Até quando não crerá em mim, apesar de todos os sinais que realizei no meio dele?"

A mesma pergunta, com a mesma queixa de falta de fé.

Números 14:27 — "Até quando suportarei esta comunidade má, que murmura contra mim?"

O "até quando suportarei" na boca de Deus.

O "até quando" do orante

Salmo 13:1 — "Até quando, SENHOR? Vai esquecer-se de mim para sempre? Até quando esconderá de mim o seu rosto?"

O uso inverso da fórmula: de baixo para cima.

A presença que abre e fecha o evangelho

Mateus 1:23 — "Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e o chamarão pelo nome de Emanuel" — que, traduzido, significa: "Deus conosco".

Mateus 28:20 — ensinando-os a guardar todas as coisas que eu ordenei a vocês. E eis que estou com vocês todos os dias, até o fim do mundo. Amém.

As duas pontas do livro, entre as quais a pergunta "até quando estarei com vocês?" fica suspensa.

A mesma ordem diante do limite dos discípulos

Mateus 14:18 — Então ele disse: “Tragam-nos aqui para mim.”

A resposta aos cinco pães e dois peixes, com as mesmas palavras gregas de "tragam-me o menino aqui".

A outra exclamação

Mateus 15:28 — Então Jesus lhe respondeu: “Ó mulher, grande é a sua fé! Seja feito para você como você quer.” E desde aquela hora a sua filha ficou curada.

O único outro "Ó" de Jesus em Mateus, dito para elogiar a fé.

A geração torta

Filipenses 2:15 — "para que vocês sejam irrepreensíveis e puros, filhos de Deus sem defeito no meio de uma geração corrompida e perversa."

O mesmo adjetivo "perversa", aplicado por Paulo ao mundo em volta da comunidade.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Respondeu Jesus: “Ó geração incrédula e perversa! Até quando estarei com vocês? Até quando terei de suportá-los? Tragam-me o menino aqui.”

Texto grego

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν, Ὦ γενεὰ ἄπιστος καὶ διεστραμμένη, ἕως πότε ἔσομαι μεθ᾽ ὑμῶν; ἕως πότε ἀνέξομαι ὑμῶν; φέρετέ μοι αὐτὸν ὧδε.

Transliteração

Apokritheis de ho Iēsous eipen, Ō genea apistos kai diestrammenē, heōs pote esomai meth' hymōn? heōs pote anexomai hymōn? pherete moi auton hōde.

Análise palavra por palavra

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν — Apokritheis de ho Iēsous eipen, "respondendo, Jesus disse". A fórmula "respondeu e disse", de origem hebraica, está explicada no estudo de Mateus 16:2.

Ὦ — Ō, "ó". Interjeição usada com o vocativo, para chamar alguém com emoção.

No grego do período, o vocativo simples, sem interjeição, era o normal. O acréscimo de ō dá peso afetivo à fala — espanto, lamento ou admiração. No Evangelho de Mateus, Jesus o usa só aqui e em Mateus 15:28, "Ó mulher".

γενεὰ — genea, "geração". A palavra e os seus dois sentidos estão analisados no estudo de Mateus 16:4.

ἄπιστος — apistos, "incrédula, sem fé". Adjetivo formado de a-, prefixo de negação, mais pistos, "fiel, digno de confiança, que confia".

O prefixo de negação é o mesmo de "ateu" e "anônimo". A palavra não diz "de fé fraca"; diz "sem fé". No grego comum, apistos podia significar tanto "que não confia" quanto "que não merece confiança". No Novo Testamento, prevalece o primeiro sentido: Paulo o usa para os não cristãos, em 1 Coríntios 6:6 e 7:12-15, e João 20:27 o põe na boca de Jesus para Tomé: "não seja incrédulo, mas crente".

O substantivo da mesma família, apistia, "incredulidade", é a palavra que o Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) traz em Mateus 17:20. A ligação entre os dois versículos está feita no próprio vocabulário.

καὶ διεστραμμένη — kai diestrammenē, "e perversa". Particípio perfeito passivo de diastrephō.

O verbo é composto de dia, "através, de través", e strephō, "virar, torcer". O sentido físico é "entortar, deslocar, desviar". O particípio perfeito descreve um estado resultante: não "que está se desviando", mas "que ficou torta", "que já está deformada".

A imagem é a de uma coisa que devia ser reta e foi torcida. Lucas 23:2 usa o mesmo verbo na acusação contra Jesus diante de Pilatos, "encontramos este homem pervertendo a nação". Atos 13:10 fala de "perverter os caminhos retos do Senhor". E Filipenses 2:15 aplica a mesma forma a "uma geração corrompida e perversa".

Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.), a mesma palavra aparece no Cântico de Moisés, em Deuteronômio 32:5, texto cujo papel de fundo está no estudo de Mateus 16:4. A coincidência de vocabulário com o cântico é exata.

ἕως πότε — heōs pote, "até quando". Heōs, "até", e pote, "quando".

É a fórmula com que a Septuaginta traduz o hebraico ad-matai, "até quando?", a pergunta de lamento dos salmos e da queixa de Deus em Números 14:11 e 14:27. Repetida duas vezes, dá à fala o ritmo de lamento.

ἔσομαι μεθ᾽ ὑμῶν — esomai meth' hymōn, "estarei com vocês". Futuro de eimi, "ser, estar", com a preposição meta, "com", e o pronome no plural.

O plural hymōn, "vocês", é o dado gramatical que impede que a frase seja dirigida só ao pai.

A combinação de eimi com meta é a da presença em Mateus. Em Mateus 1:23, "Emanuel" é explicado como meth' hēmōn ho theos, "conosco Deus". Em Mateus 28:20, Jesus diz egō meth' hymōn eimi, "eu com vocês estou". Aqui, a mesma construção aparece no futuro e numa pergunta de prazo.

ἀνέξομαι ὑμῶν — anexomai hymōn, "suportarei vocês". Futuro médio de anechō, com o complemento no caso genitivo.

O verbo é composto de ana, "para cima", e echō, "ter, segurar": literalmente, "sustentar no alto", "aguentar o peso". Na voz média, que indica ação que envolve o próprio sujeito, significa "suportar, tolerar, ter paciência com".

Paulo o usa várias vezes em 2 Coríntios 11, com ironia: "vocês suportam de bom grado os insensatos". E em Colossenses 3:13 e Efésios 4:2 é o verbo do "suportem-se uns aos outros". É verbo de convivência difícil, não de ruptura.

φέρετέ μοι αὐτὸν ὧδε — pherete moi auton hōde, "tragam-me o menino aqui". Imperativo presente plural de pherō, "trazer, levar"; moi, "a mim"; auton, "ele"; hōde, "aqui".

O grego diz só "tragam-no"; a ABC explicita "o menino" para clareza. O imperativo plural confirma que a ordem se dirige a um grupo.

A construção repete, quase palavra por palavra, a de Mateus 14:18, pherete moi hōde autous, "tragam-nos aqui para mim", dita sobre os pães e os peixes. O verbo, o pronome "a mim" e o advérbio "aqui" são os mesmos; muda só o objeto.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a queixa não tem destinatário único, e o texto parece querer isso. O plural exclui que seja só para o pai; a palavra "incrédula", que voltará na explicação dada aos discípulos, exclui que os discípulos fiquem de fora. O mais honesto é ler a frase como lamento sobre um estado de falta de fé que naquele momento atravessava todos os que estavam ali — inclusive os que andavam com Jesus.

A segunda é que a pergunta "até quando estarei com vocês?" introduz um prazo num evangelho construído sobre a presença. Mateus começa em "Deus conosco" e termina em "estou com vocês todos os dias". Entre uma coisa e outra, a convivência na terra tinha limite, e a queixa é dita por quem sabe que o limite está perto e que a fé dos seus ainda não se firmou.

A terceira é que o lamento não decide nada sobre o socorro. A ordem vem na mesma fala, com as mesmas palavras usadas diante dos cinco pães. O peso é dito em voz alta, e o menino é trazido. O versículo não oferece o retrato de um mestre inalterável; oferece o de alguém que sente a carga e continua a carregar.

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