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Mateus 17:20

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✍️ Por Alberto Adriano·14 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 42 acessos
Jesus lhes respondeu: “Por causa da incredulidade de vocês. Eu asseguro: se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. E nada será impossível para vocês.
Jesus sentado com os discípulos ao pé de um monte, segurando entre os dedos um grão minúsculo, enquanto aponta com a outra mão para a montanha atrás deles.

Estudo


Jesus lhes respondeu: “Por causa da incredulidade de vocês. Eu asseguro: se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. E nada será impossível para vocês.

1. Introdução

Os discípulos perguntaram por que não conseguiram. A resposta vem em duas partes, e as duas incomodam.

A primeira é a causa: "por causa da incredulidade de vocês". Não foi a força do demônio, nem a técnica, nem o pai. Foi falta de fé — e nos próprios discípulos.

A segunda é a promessa: com fé do tamanho de um grão de mostarda, poderiam mandar um monte mudar de lugar, e nada seria impossível para eles.

Entre as duas há um contraste que o versículo não explica. A causa da falha foi a incredulidade, e ao mesmo tempo basta uma fé do tamanho da menor semente. Não se exige muita fé; exige-se que ela esteja lá. O problema, então, não é de tamanho.

Três outras questões atravessam o versículo: por que discípulos que seguiam Jesus são chamados, aqui, de incrédulos; o que a imagem do monte queria dizer para quem a ouvia; e qual é o limite de "nada será impossível".

2. Contexto Histórico e Cultural

"Arrancar montanhas": uma expressão conhecida

A imagem de mover um monte não foi inventada por Jesus nem era entendida ao pé da letra. No mundo judaico ela funcionava como expressão para o que parece impossível, e a literatura rabínica guarda o uso de forma muito clara.

No Talmude da Babilônia (a grande compilação de discussões rabínicas, fechada por volta do século VI), o tratado Berakhot, na folha 64a, conta a disputa entre dois mestres do século IV pela direção de uma academia. Um deles, Rav Yosef, era chamado de "Sinai", porque sabia de cor toda a tradição. O outro, Rabbah, era chamado de "arrancador de montanhas", porque tinha o raciocínio mais afiado da geração: desmontava argumentos que pareciam inabaláveis. A pergunta enviada aos sábios da terra de Israel foi: quem deve ter precedência, o Sinai ou o arrancador de montanhas?

No mesmo Talmude, o tratado Sanhedrin, na folha 24a, diz de outro mestre, Resh Lakish, que quem o via estudando tinha a impressão de vê-lo arrancar montanhas e esfregar uma na outra.

Esses textos são posteriores ao evangelho, e não se pode dizer que a expressão rabínica e a de Jesus sejam a mesma. Mas mostram que "mover montanhas" era, no judaísmo, uma maneira de falar do que ultrapassa o normal — e nunca uma descrição de engenharia.

O monte nos profetas

A Bíblia hebraica já dava ao monte o papel de obstáculo e de símbolo do que é firme demais para ser mudado.

Em Zacarias 4:7, a reconstrução do templo depois do exílio parecia impossível, e a palavra do SENHOR diz a Zorobabel: "Quem é você, ó grande monte? Diante de Zorobabel você se tornará uma planície." O monte é a dificuldade; a promessa é que ela será aplainada.

Em Isaías 54:10, o monte é o contrário: a coisa mais estável que existe. "Os montes podem se retirar e as colinas ser removidas, mas o meu amor leal não se afastará de você." Mover montes é a imagem do que não acontece.

Os dois usos juntos explicam a força da frase de Jesus. O monte é ao mesmo tempo o obstáculo e o que não se move.

Paulo conhecia o dito

Há um dado que mostra que a frase circulava cedo entre os cristãos. Em 1 Coríntios 13:2, escrita por volta do ano 55, antes dos evangelhos, Paulo diz: "ainda que eu tenha fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei".

Paulo não cita Jesus nem explica a expressão. Usa-a como coisa sabida, sabendo que os coríntios a reconheceriam. "Fé de mover montanhas" já era, vinte ou trinta anos depois da morte de Jesus, uma forma fixa de dizer "a maior fé que se possa imaginar" — e Paulo a usa para dizer que nem ela basta.

O grão de mostarda

A planta, o tamanho da semente e o uso proverbial da mostarda como medida do mínimo estão examinados nos estudos de Mateus 13:31 e 13:32. Aqui basta lembrar que o ouvinte reconhecia a imagem como a do menor grão que se semeava.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jesus lhes respondeu: Por causa da incredulidade de vocês."

A resposta começa pela causa, como a pergunta pediu. E a causa está nos discípulos. Não se fala do demônio, do tipo de caso, da multidão, do pai. O "de vocês" fecha todas as outras saídas.

A palavra escolhida é dura. "Incredulidade" não é fé fraca; é falta de fé. E ela ecoa duas passagens do próprio evangelho.

A primeira é a do versículo 17. A queixa diante da multidão foi contra uma "geração incrédula". Agora, a sós, a mesma palavra é aplicada aos discípulos. O que parecia dito sobre os de fora era também sobre os de dentro.

A segunda é Mateus 13:58. Em Nazaré, Jesus "não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles". É a mesma expressão. Nazaré não creu, e os milagres não aconteceram; os discípulos não creram, e a expulsão não aconteceu. O paralelo põe os discípulos, naquele momento, do mesmo lado da cidade que rejeitou Jesus.

Em outras cenas, Mateus usa para os discípulos uma palavra mais branda, "pouca fé", examinada nos estudos de Mateus 14:31 e 16:8, e é essa a palavra que os manuscritos mais antigos trazem também aqui, como mostra o item 10. O Textus Receptus, que a ABC segue, traz a mais dura.

Incrédulos, mas discípulos

A dureza cria uma pergunta: como chamar de incrédulos homens que deixaram tudo para seguir Jesus e que tinham recebido autoridade dele?

A leitura mais natural é que a palavra descreve o ato, não a vida inteira. Naquela tentativa, diante daquele menino, eles agiram sem confiar. Talvez tenham tratado a autoridade de Mateus 10:1 como algo que possuíam, e não como algo que dependia de alguém; talvez tenham olhado para a gravidade do caso e duvidado. O texto não diz como a falta se manifestou. Diz que ela existiu.

Isso importa porque desfaz a ideia de que a fé é um estado adquirido de uma vez. Os mesmos discípulos que creram o bastante para seguir podem, num caso concreto, não crer. A incredulidade não é só dos de fora.

O contraste com o grão de mostarda

Aqui está o problema do versículo. A causa da falha foi a incredulidade. E a frase seguinte diz que bastaria uma fé do tamanho de um grão de mostarda — a menor coisa que se semeava.

O contraste é preciso. Jesus não diz "faltou fé suficiente" nem "a fé de vocês era pequena demais para este caso". Diz que faltou fé, e que o mínimo teria bastado. A distância entre o fracasso e o sucesso não era de quantidade: era entre nenhuma e alguma.

As leituras se dividem sobre o que isso significa.

A primeira toma a frase ao pé da letra: naquele momento não havia fé nenhuma em ação, e mesmo um pouco teria resolvido. A favor, é o que as palavras dizem. Contra, soa excessivo para quem vinha seguindo Jesus.

A segunda lê a incredulidade como fé dividida, que confia e duvida ao mesmo tempo — como a de Pedro em Mateus 14:30-31, que andou sobre a água e afundou quando olhou o vento. Nesse caso, o grão de mostarda seria uma fé pequena, mas inteira. O problema não seria o tamanho, e sim a mistura. A favor, Mateus 21:21 repete o dito do monte com a condição "se não duvidarem". Contra, a palavra "incredulidade" é mais forte que "dúvida".

A terceira lê a frase como argumento retórico: Jesus usa a medida mínima justamente para mostrar que a questão não é de medida. Não se trata de acumular fé; trata-se de tê-la de verdade.

As três convergem num ponto, e é o que se pode afirmar: o versículo impede a leitura quantitativa. Se a fé fosse questão de quantidade, a comparação com a menor semente não teria sentido.

"Eu asseguro"

A fórmula solene que introduz os ditos mais fortes de Jesus em Mateus. Ela marca o que vem a seguir como afirmação que ele garante pessoalmente. A análise da fórmula está no estudo de Mateus 16:28.

"poderão dizer a este monte: Vá daqui para lá, e ele irá"

Três detalhes merecem atenção.

O primeiro é o verbo. A fé não empurra o monte, nem ora para que ele se mova. Diz ao monte. É a mesma forma de agir que Jesus acabou de usar: ele não tocou o menino, repreendeu o demônio com uma palavra. Os discípulos são descritos como capazes de falar com autoridade, como ele.

O segundo é o demonstrativo: "este monte". Qual? O texto não diz. Pode ser uma forma de falar, como quem aponta para qualquer monte visível. Mas o capítulo inteiro se passa ao pé de um monte, do qual Jesus e os três acabaram de descer. Se Jesus aponta para ele, a imagem ganha outra camada: o lugar da glória, do qual os discípulos que ficaram embaixo foram excluídos, é o exemplo do que a fé poderia mover. É leitura possível, e o texto não a confirma. Em Mateus 21:21, o mesmo dito é repetido perto de Jerusalém, e ali "este monte" é outro.

O terceiro é a hipérbole. A frase é deliberadamente impossível, e o item 2 mostra que o ouvinte judeu a entendia como imagem do que ultrapassa o normal. Ninguém, nos evangelhos, nos Atos ou em qualquer texto cristão antigo, é descrito removendo um monte literal. A imagem nunca foi lida como programa.

"E nada será impossível para vocês."

Aqui está o limite do afirmável, e ele precisa ser dito com cuidado.

A frase é das mais fortes do evangelho. Na Bíblia, "nada é impossível" é linguagem reservada a Deus. Em Gênesis 18:14, diante de Sara que ri da promessa de um filho na velhice, a pergunta é: "Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR?" Em Lucas 1:37, o anjo diz a Maria que "para Deus nada é impossível". Em Mateus 19:26, o próprio Jesus diz que "para Deus tudo é possível". Aqui, a mesma afirmação é aplicada aos discípulos.

Isso não pode ser lido como cheque em branco, e o próprio evangelho impede essa leitura.

O contexto é preciso: a pergunta era sobre expulsar um demônio, dentro da autoridade que eles tinham recebido em Mateus 10:1. A promessa responde a essa pergunta. Ela não diz que a fé obtém qualquer coisa que se deseje.

E o evangelho mostra o próprio Jesus pedindo algo que não foi concedido. Em Mateus 26:39, no Getsêmani, ele ora para que, "se é possível", o cálice passe dele — e não passa. Se "nada será impossível" fosse promessa de obter tudo o que se pede com fé, a oração de Jesus seria o caso mais grave de fé insuficiente do evangelho. Ninguém lê assim.

O que se pode afirmar é mais modesto e mais firme. A fé de que Jesus fala não tem limite vindo da força do obstáculo: nenhum monte é grande demais para ela. O limite vem de outro lugar — daquilo em que a fé confia, e do que esse alguém quer. O versículo não desenvolve esse segundo ponto, mas o evangelho inteiro o pressupõe.

O fio que liga o episódio

Há um encadeamento de palavras que atravessa a cena e que se fecha aqui. O pai disse que os discípulos "não puderam" curar. Os discípulos perguntaram por que "não puderam" expulsar. E a resposta termina dizendo que "nada será impossível". Em grego, os três termos são da mesma família, a do "poder". O episódio começa na impotência e termina na promessa do contrário, com a mesma raiz.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Responde em particular aos discípulos que perguntaram no versículo 19.

Os discípulos

Os destinatários da resposta, no plural. O diagnóstico da incredulidade e a promessa se dirigem ao grupo.

"Este monte"

Não identificado. Pode ser expressão genérica ou referência ao monte da transfiguração, ao pé do qual a cena se passa. A identificação desse monte é assunto do estudo de Mateus 17:1.

O grão de mostarda

A semente da mostarda-preta, usada como medida proverbial do mínimo. Ver os estudos de Mateus 13:31 e 13:32.

Os mestres rabínicos citados

Rabbah e Rav Yosef, mestres da Babilônia do século IV, chamados respectivamente de "arrancador de montanhas" e "Sinai" no Talmude. Resh Lakish, mestre da terra de Israel do século III.

Josef Pieper

Filósofo católico alemão (1904-1997), autor de Sobre a fé, citado no item 6.

Os paralelos

Marcos 9:28-29 não tem este dito: responde só com a oração. Lucas 17:6 traz o grão de mostarda com uma amoreira que se arranca e se planta no mar, em outro contexto. Mateus 21:21 e Marcos 11:23 repetem o dito do monte depois da figueira seca.

5. Pontos de Ensino

A causa do fracasso estava nos discípulos

Jesus não põe a culpa no demônio, no pai ou na multidão. A resposta começa por "vocês". Quem pergunta pela causa com honestidade precisa estar pronto para ouvir isso.

A fé não é questão de quantidade

A causa da falha foi a incredulidade, e bastaria uma fé do tamanho de um grão de mostarda. A imagem desmonta a ideia de que a fé se mede e se acumula.

A incredulidade não é só dos de fora

A palavra usada para a "geração" e para Nazaré é aplicada aos discípulos. Seguir Jesus não garante que se confie nele em cada situação.

A fé age pela palavra, como Jesus age

"Poderão dizer a este monte." A fé que Jesus descreve fala com autoridade, do mesmo modo que ele acabou de falar ao demônio.

O monte é imagem, não programa

"Mover montanhas" era expressão para o que parece impossível. O versículo não promete engenharia milagrosa, e nenhum texto cristão antigo o leu assim.

"Nada será impossível" tem contexto

A promessa responde a uma pergunta sobre a missão dos discípulos. Não é garantia de obter qualquer coisa. O próprio Jesus orou no Getsêmani por algo que não lhe foi dado.

O que é impossível para os homens é linguagem de Deus

A Bíblia reserva a Deus o "nada é impossível". Aplicá-lo aos discípulos só faz sentido se a fé for participação no poder de outro, não força própria.

6. Aspectos Filosóficos

A fé como relação, não como quantidade

O versículo põe lado a lado a incredulidade como causa do fracasso e a "fé do tamanho de um grão de mostarda" como medida suficiente, e com isso desmonta a imagem mais comum da fé: a de um estoque que se tem em maior ou menor quantidade. Se o mínimo basta, a fé não é medida de volume.

Josef Pieper (filósofo católico alemão do século XX) dedicou a essa questão um livro curto e rigoroso, Sobre a fé, publicado em 1962. O ponto de partida dele é a linguagem comum. Quando alguém diz "eu creio", sempre crê em alguém e crê alguma coisa. A estrutura é dupla: há uma pessoa em quem se confia e um conteúdo que se aceita por causa dela.

O centro é a pessoa

A tese de Pieper é que o centro da fé é a pessoa, não o conteúdo. Crer é aceitar algo como verdadeiro pelo testemunho de alguém. Se eu aceito uma afirmação porque a verifiquei por conta própria, não estou crendo: estou sabendo. E se aceito só as partes do que alguém diz que me parecem plausíveis, também não creio nele — creio no meu próprio juízo, que o usa como ocasião.

Daí sai uma consequência que ilumina diretamente o versículo. A fé, para Pieper, não se deixa dividir em porções. Não se crê em alguém "um pouco". Ou se confia nele, e então se aceita o que ele diz porque é ele quem diz, ou não se confia, e o que se aceita é outra coisa. Ele descreve a fé como uma espécie de participação no conhecimento de quem sabe: quem crê vê, através do outro, o que não pode ver por si.

O que isso faz com a incredulidade dos discípulos

Lida com essa chave, a frase de Jesus ganha coerência. Se a fé fosse um estoque, a pergunta seria quanto faltou. Mas se a fé é confiança em alguém, a pergunta é outra: em quem os discípulos confiavam quando tentaram? A incredulidade não seria falta de volume, e sim confiança posta no lugar errado — na autoridade tomada como posse, na própria experiência, ou no tamanho do mal, que olhado de frente parecia grande demais. O grão de mostarda, ao contrário, é pequeno e está voltado para a pessoa certa. Não precisa crescer para funcionar, porque não funciona pela própria força.

E fica claro também por que "nada será impossível". Se crer é participar do saber e do querer de outro, o alcance da fé é o alcance desse outro — não o de quem crê.

O limite da aproximação

Pieper escreve como filósofo, a partir da tradição católica e da análise da linguagem, e não comenta este versículo. A leitura acima aplica o pensamento dele ao texto; não atribui ao evangelho uma teoria da fé. O que a aproximação oferece é uma forma de dizer com clareza o que a imagem do grão de mostarda já sugere: que a pergunta decisiva sobre a fé não é "quanto", mas "em quem".

7. Aplicações Práticas

Parar de medir a própria fé

Muita gente vive tentando saber se tem fé suficiente, e se culpa por ter pouca a cada oração não atendida ou a cada dúvida. O versículo tira o chão dessa contabilidade: um grão de mostarda basta. A pergunta útil não é "tenho fé bastante?", mas "em quem estou confiando neste momento — em Deus ou na minha avaliação do tamanho do problema?".

Não usar o versículo contra quem sofre

Este é o uso mais danoso da frase, e ele é comum: dizer a um doente que não sarou, ou à família de alguém que morreu, que faltou fé. O próprio evangelho desautoriza isso. Jesus pediu no Getsêmani, com toda a fé possível, e o cálice não passou. "Nada será impossível" não é uma régua para medir quem foi atendido e quem não foi. Quem usa o versículo assim transforma uma promessa em acusação.

Ouvir o diagnóstico sem procurar outro culpado

A resposta começa por "vocês". Numa equipe, numa família, numa igreja, quando algo falha, a tentação é encontrar a causa fora: as circunstâncias, os outros, a dificuldade do caso. O versículo registra um mestre que diz aos seus que o problema estava neles — e que, em seguida, lhes dá uma promessa. As duas coisas vêm juntas: o diagnóstico honesto e a esperança.

Enfrentar o obstáculo pelo nome

"Dizer a este monte." A fé descrita no versículo não finge que o monte não está lá. Olha para ele e fala com ele. Diante de um problema que parece imóvel, a atitude que o texto sugere não é negar o tamanho do problema, e sim não deixar que o tamanho decida.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Então os discípulos não tinham fé nenhuma?

O texto diz "incredulidade", o que descreve falta de fé naquela tentativa. Isso não significa que os discípulos não cressem em Jesus de modo nenhum: eles o seguiam. A leitura mais natural é que a palavra fala do ato, não da vida inteira. O que o versículo deixa claro é que o que faltou não foi quantidade.

Por que outras Bíblias dizem "pouca fé"?

Porque os manuscritos gregos mais antigos trazem, neste ponto, a palavra "pouca fé". O Textus Receptus, que a ABC segue, traz "incredulidade". O item 10 registra a diferença.

Alguém já moveu um monte literal pela fé?

Não há registro disso nos evangelhos, nos Atos nem na literatura cristã antiga. A imagem era expressão conhecida para o que parece impossível, e foi entendida assim desde o início, como mostra o uso de Paulo em 1 Coríntios 13:2.

Por que o dito do monte aparece duas vezes em Mateus?

Aparece aqui e em Mateus 21:21, depois da figueira que secou. É provável que fosse um dito que circulava solto e que o evangelho usou em dois contextos. Lucas 17:6 traz uma versão com uma amoreira em vez do monte.

Por que Marcos não traz esta resposta?

Em Marcos 9:29, a resposta é outra: esse tipo só sai pela oração. Mateus trocou, ou juntou, a resposta de Marcos pelo dito da fé. Se ele também conserva a resposta sobre a oração depende do versículo 21, cujo problema de manuscrito está no estudo de Mateus 17:21.

Se nada é impossível, por que tantas orações não são atendidas?

O versículo não responde a essa pergunta, e seria desonesto fingir que responde. O que se pode dizer é que a promessa vem num contexto específico — a missão dos discípulos — e que o próprio evangelho mostra Jesus pedindo algo que não recebeu. A fé, no Novo Testamento, nunca é apresentada como meio de obrigar Deus a fazer o que se quer.

9. Conexão com Outros Textos

O mesmo dito em outro momento

Mateus 21:21 — Jesus respondeu: “Digo a vocês a verdade: se tiverem fé e não duvidarem, não só farão o que foi feito à figueira, mas também poderão dizer a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e assim acontecerá.

A condição aqui é explícita: "e não duvidarem". É o apoio da leitura que entende a incredulidade como fé dividida.

Lucas 17:6 — "O Senhor respondeu: Se vocês tivessem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderiam dizer a esta amoreira: Arranque-se e plante-se no mar, e ela obedeceria."

O grão de mostarda com outra imagem do impossível.

A resposta em Marcos

Marcos 9:29 — "Ele respondeu: Esse tipo só pode sair pela oração."

A resposta que Mateus não usa aqui, ou usa só no versículo 21, conforme o manuscrito.

A incredulidade que impediu milagres

Mateus 13:58 — E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles.

A mesma expressão deste versículo, "por causa da incredulidade", dita sobre Nazaré.

A fé dividida

Mateus 14:30 — Mas, ao ver o vento forte, teve medo e, começando a afundar, gritou: “Senhor, salva-me!”

Pedro, que andou sobre a água, afunda quando olha para o vento em vez de olhar para Jesus.

O monte que se torna planície

Zacarias 4:7 — "Quem é você, ó grande monte? Diante de Zorobabel você se tornará uma planície."

O monte como obstáculo que a palavra de Deus aplaina.

A fé de mover montanhas, sem amor

1 Coríntios 13:2 — "Ainda que eu tenha o dom de profecia, conheça todos os mistérios e toda a ciência, e tenha uma fé capaz de mover montanhas, se não tiver amor, nada serei."

O dito conhecido como fórmula duas décadas depois da morte de Jesus.

Nada é impossível para Deus

Gênesis 18:14 — Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR? No tempo determinado voltarei a você, por esta época, no ano que vem, e Sara terá um filho.”

A linguagem do impossível, reservada a Deus.

Mateus 19:26 — Jesus olhou para eles e disse: “Para os homens isto é impossível, mas para Deus tudo é possível.”

O mesmo evangelho põe a possibilidade total em Deus.

O pedido que não foi concedido

Mateus 26:39 — Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: “Meu Pai, se é possível, passa de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como Tu queres”.

O limite de "nada será impossível": a oração submetida à vontade de outro.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus lhes respondeu: “Por causa da incredulidade de vocês. Eu asseguro: se vocês tiverem fé do tamanho de um grão de mostarda, poderão dizer a este monte: ‘Vá daqui para lá’, e ele irá. E nada será impossível para vocês.

Texto grego

Ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς, Διὰ τὴν ἀπιστίαν ὑμῶν· ἀμὴν γὰρ λέγω ὑμῖν, ἐὰν ἔχητε πίστιν ὡς κόκκον σινάπεως, ἐρεῖτε τῷ ὄρει τούτῳ, Μετάβηθι ἐντεῦθεν ἐκεῖ, καὶ μεταβήσεται· καὶ οὐδὲν ἀδυνατήσει ὑμῖν.

Transliteração

Ho de Iēsous eipen autois, Dia tēn apistian hymōn; amēn gar legō hymin, ean echēte pistin hōs kokkon sinapeōs, ereite tō orei toutō, Metabēthi enteuthen ekei, kai metabēsetai; kai ouden adynatēsei hymin.

Uma nota textual

O texto acima é o do Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega do século XVI que a ABC segue) e da maioria dos manuscritos gregos, os da tradição bizantina. Ele traz apistian, "incredulidade".

Os manuscritos mais antigos, entre eles o Sinaítico e o Vaticano, trazem oligopistian, "pouca fé", e é essa a leitura das edições críticas modernas e das traduções que as seguem. A palavra "pouca fé" e a sua família estão nos estudos de Mateus 14:31 e 16:8. Há ainda uma diferença menor na abertura: as edições críticas trazem "ele lhes diz", no presente, onde o Textus Receptus traz "Jesus lhes disse".

Análise palavra por palavra

Ὁ δὲ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς — Ho de Iēsous eipen autois, "e Jesus lhes disse". Aoristo de legō; a ABC traduz "Jesus lhes respondeu", porque a frase responde à pergunta do versículo 19.

Διὰ — Dia, "por causa de". Com o acusativo, a preposição indica a causa.

É a mesma preposição que forma o "por quê?" dos discípulos no versículo 19, diati, "por causa de quê?". A resposta responde na mesma forma gramatical em que foi perguntada.

τὴν ἀπιστίαν ὑμῶν — tēn apistian hymōn, "a incredulidade de vocês". Substantivo formado de a-, negação, e pistis, "fé".

É o substantivo do adjetivo apistos, "incrédula", do versículo 17: a queixa pública e a explicação particular usam a mesma família de palavras. No Evangelho de Mateus, apistia aparece também em Mateus 13:58, na mesma construção, dia tēn apistian, "por causa da incredulidade", sobre Nazaré. Em Marcos 9:24, é a palavra do pai: "Creio; ajude a minha incredulidade".

No grego comum, apistia também podia significar "desconfiança" e "infidelidade", o que se opõe a pistis nos seus dois sentidos: confiar e ser digno de confiança. No Novo Testamento prevalece o primeiro: falta de confiança.

A variante oligopistia, "pouca fé", dos manuscritos antigos, seria a única ocorrência desse substantivo no Novo Testamento.

ἀμὴν γὰρ λέγω ὑμῖν — amēn gar legō hymin, "pois em verdade lhes digo". A fórmula está examinada no estudo de Mateus 16:28. O gar, "pois", liga a promessa ao diagnóstico: ela explica por que a falta de fé foi decisiva.

ἐὰν ἔχητε πίστιν — ean echēte pistin, "se vocês tiverem fé".

Ean com o subjuntivo forma a condição que pode se realizar: "se tiverem", e não "se tivessem". A frase não descreve algo irreal; descreve uma possibilidade aberta. Echēte é o subjuntivo presente de echō, "ter". Pistin é o acusativo de pistis, "fé, confiança".

ὡς κόκκον σινάπεως — hōs kokkon sinapeōs, "como um grão de mostarda".

Hōs é "como". Kokkos é "grão, semente". Sinapi, no genitivo sinapeōs, é "mostarda" — de onde vem o nome científico do gênero Sinapis e o francês sénevé. A expressão é idêntica à da parábola de Mateus 13:31, cujo estudo analisa a planta.

O grego diz "como um grão", não "do tamanho de um grão". A ABC explicita a comparação de tamanho, que é a leitura mais comum. Alguns comentaristas propõem que a comparação seja também de natureza: uma fé como a semente, pequena mas viva, capaz de crescer. É leitura possível; o texto não decide.

ἐρεῖτε τῷ ὄρει τούτῳ — ereite tō orei toutō, "direis a este monte".

Ereite é o futuro de legō, "dizer". A ação é de fala. Orei é o dativo de oros, "monte, montanha" — a mesma palavra de Mateus 17:1 e 17:9, "um monte alto", "desciam do monte". Toutō, "este", é demonstrativo de proximidade: aponta para algo à vista.

O uso da mesma palavra do começo do capítulo, com um demonstrativo de proximidade, é o que sustenta a leitura de que Jesus aponta para o monte da transfiguração. A gramática permite; não obriga.

Μετάβηθι ἐντεῦθεν ἐκεῖ — Metabēthi enteuthen ekei, "passa daqui para lá".

Metabēthi é o imperativo aoristo de metabainō, composto de meta, "mudança", e bainō, "ir, andar". Significa "passar de um lugar a outro, mudar de lugar". Mateus usa o verbo várias vezes para o próprio Jesus que "sai dali" e vai a outro lugar, como em Mateus 11:1, 12:9 e 15:29. O verbo não é de destruição nem de arrancamento; é de deslocamento. O monte não é aniquilado: muda de lugar.

Enteuthen, "daqui", e ekei, "lá", são advérbios de lugar. A ordem é curta como a de alguém que manda um homem trocar de posição.

καὶ μεταβήσεται — kai metabēsetai, "e ele passará". Futuro médio do mesmo verbo. A obediência é descrita com o mesmo verbo da ordem.

καὶ οὐδὲν ἀδυνατήσει ὑμῖν — kai ouden adynatēsei hymin, "e nada será impossível para vocês".

Ouden, "nada". Adynatēsei é o futuro de adynateō, formado de a-, negação, e da raiz de dynamai, "poder": "não ser possível". Hymin, "para vocês".

O verbo é raro no Novo Testamento. Fora daqui, só aparece em Lucas 1:37, na frase do anjo a Maria: "para Deus nada será impossível". Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita a partir do século III a.C.), é o verbo de Gênesis 18:14, "haverá coisa impossível para o SENHOR?", e de Jó 42:2, onde Jó diz a Deus que nada lhe é impossível. O verbo pertence, na Bíblia grega, ao vocabulário do poder de Deus. Aqui é aplicado aos discípulos.

E fecha o fio do episódio. O pai disse que os discípulos "não puderam", ouk ēdynēthēsan; os discípulos perguntaram por que "não puderam", ouk ēdynēthēmen; a resposta termina em "nada será impossível", ouden adynatēsei. A mesma raiz, negada de dois modos: primeiro a impotência, depois a negação da impossibilidade.

11. Conclusão

Do que se viu, o versículo leva a quatro conclusões.

A primeira é que o fracasso dos discípulos teve causa, e a causa estava neles. Jesus não a atribui à força do demônio nem à dificuldade do caso. A palavra é "incredulidade", a mesma da queixa contra a geração e da recusa de Nazaré: o que faltou foi confiança, não técnica, e faltou justamente nos de dentro.

A segunda é que o próprio versículo impede que a fé seja pensada como quantidade. Se a causa foi a incredulidade e a medida suficiente é a da menor semente, a distância entre o fracasso e o sucesso não era de volume; era entre confiança ausente e confiança presente, ainda que mínima. A pergunta decisiva deixa de ser "quanto?" e passa a ser "em quem?" — e é esse o ponto que a análise de Josef Pieper ajuda a formular.

A terceira é que a imagem do monte não é programa. Ela usava uma expressão reconhecível para o que parece impossível, e foi entendida assim desde Paulo. O que a frase afirma é que nenhum obstáculo é grande demais para a fé por causa do tamanho dele.

A quarta é que "nada será impossível" transfere aos discípulos uma linguagem que a Bíblia reserva a Deus, e por isso só se sustenta como participação no poder de outro. O limite não é o monte; é a vontade daquele em quem se confia. O evangelho o mostra no Getsêmani, e quem transforma o versículo em régua para medir a fé de quem não foi atendido lê contra o próprio evangelho.

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Mateus 17:20

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