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Gênesis 18:14

✍️ Por Alberto Adriano·18 de agosto de 2026·⏱️ 58 min de leitura·👁 9 acessos
Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR? No tempo determinado voltarei a você, por esta época, no ano que vem, e Sara terá um filho.”
Tenda de beduíno ao entardecer junto a árvores antigas, com um casal idoso à entrada e a planície ao fundo.

Estudo


Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR? No tempo determinado voltarei a você, por esta época, no ano que vem, e Sara terá um filho.”

1. Introdução

Esta é a frase mais citada de todo o ciclo de Abraão, e uma das mais citadas da Bíblia inteira.

Ela aparece em cartazes, em pregações, em mensagens de consolo enviadas a quem está em hospital. Costuma vir traduzida como uma garantia geral: para Deus nada é difícil.

Dois problemas acompanham esse uso, e os dois valem ser examinados com calma.

O primeiro é de vocabulário. A palavra hebraica que se traduz por "difícil demais" não fala primariamente de dificuldade. Fala do que é extraordinário, do que ultrapassa a capacidade de quem age, do que está fora do alcance. "Difícil" é uma aproximação razoável e incompleta, e o leitor tem o direito de saber disso.

O segundo é de uso. A pergunta é retórica, e retórica ela permanece. Ela afirma que nada está fora do alcance do SENHOR. Ela não afirma que tudo o que se pede será concedido — e a própria Bíblia registra pedidos negados, alguns deles feitos por gente que ela apresenta como fiel.

O versículo tem ainda uma segunda metade, quase sempre esquecida em favor da primeira: a promessa recebe uma data. Não é uma garantia solta no tempo. É um compromisso com prazo.

E termina com quatro palavras em hebraico que não têm verbo nenhum.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde estamos na cena

Convém situar a frase antes de examiná-la, porque o cenário muda o que ela significa.

Três homens chegaram à tenda de Abraão junto aos carvalhos de Manre, no calor do dia. Foram recebidos com uma hospitalidade que o texto descreve em detalhe quase excessivo: água para os pés, um novilho, pão feito na hora, coalhada e leite.

Depois de comerem, perguntam por Sara. Um deles anuncia que ela terá um filho no ano seguinte. O narrador informa, com precisão de quem monta uma cena de teatro, que ela escutava à entrada da tenda, atrás.

O versículo 11 acrescenta a informação clínica: os dois eram velhos, e Sara já não tinha o ciclo das mulheres. A porta biológica é fechada pelo texto antes de a promessa ser repetida.

Ela ri por dentro. É interpelada. E então vem esta frase.

Ou seja: a pergunta não é resposta a um pedido. Ninguém pediu nada. Ela é resposta a uma dúvida sobre uma promessa que já havia sido feita — e feita mais de uma vez. Esse dado é decisivo para o uso correto do versículo, e voltaremos a ele.

A pergunta retórica no mundo antigo

Vale uma palavra sobre o instrumento, porque ele é usado com frequência nas literaturas do Antigo Oriente Próximo e nós o manejamos de outro jeito.

Uma pergunta retórica não busca informação. Ela transfere a resposta para quem ouve, obrigando o interlocutor a formulá-la por conta própria. Quem responde por dentro fica comprometido com a resposta.

O Antigo Testamento usa muito esse recurso nos discursos divinos. O caso mais extenso é o dos capítulos finais de Jó, em que Deus responde ao homem com dezenas de perguntas seguidas e nenhuma afirmação direta.

Aqui a técnica é a mesma, em escala mínima: uma pergunta de quatro palavras em hebraico, dirigida a Abraão, sobre o riso de Sara, com Sara escutando atrás do pano.

O tempo marcado e o calendário

A segunda metade do versículo trabalha com uma palavra do vocabulário do calendário, e convém explicar o fundo.

Israel media o tempo por ciclos agrícolas e por festas fixas. As festas eram chamadas por um termo que significa, literalmente, encontro marcado: dia combinado, ponto no calendário em que uma coisa acontece porque foi determinado que acontecesse.

O mesmo termo nomeia a tenda em que Moisés se encontrava com Deus no deserto, e que as traduções chamam de tenda do encontro ou tabernáculo da congregação.

É essa palavra que aparece aqui. A promessa não recebe uma data qualquer: recebe uma data com o vocabulário de quem marca festa e de quem marca audiência.

Vale acrescentar o funcionamento prático de uma sociedade sem relógio nem calendário civil unificado. Marcava-se o tempo pela colheita, pela estação das chuvas, pela tosquia, pelo retorno das aves. Dizer "por esta época, no ano que vem" é o modo natural de fixar um prazo em um mundo assim — não é vagueza, é a precisão disponível.

Quem está falando

O capítulo alterna sujeitos de um modo que causa desconforto e deve ser registrado como o dado que é.

Às vezes o texto diz "os homens", no plural, três deles. Às vezes diz "o SENHOR", no singular. E no capítulo seguinte chegam a Sodoma dois anjos, não três.

As leituras correntes são três. Que o SENHOR é um dos três, e os outros dois seguem para Sodoma. Que os três são mensageiros, e o SENHOR fala por meio deles. Que a narrativa costura camadas de origens diferentes, e a costura ficou aparente.

Não é possível decidir com o texto na mão, e este comentário não vai decidir. Registro a alternância, porque ela pesa também sobre a frase deste versículo: quem pergunta "existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR?" fala do SENHOR na terceira pessoa.

Jeremias e o campo comprado dentro de uma cidade cercada

A mesma pergunta, com a mesma raiz hebraica, reaparece num dos momentos mais escuros da história de Judá, e o contexto merece ser contado, porque explica muito.

Corre o ano de 587 antes da era comum, aproximadamente. O exército babilônico cerca Jerusalém. Jeremias está preso no pátio da guarda, no palácio, por ter dito que a cidade cairia.

Nesse cenário, um primo aparece e lhe oferece um campo em Anatote — terra que os babilônios já ocupavam ou estavam prestes a ocupar. Jeremias compra. Pesa a prata, assina a escritura diante de testemunhas, e manda guardar os documentos num vaso de barro para que durem muitos dias.

Depois, ele reza. E na oração diz que nada é difícil demais para quem fez os céus e a terra. E a resposta divina devolve a mesma pergunta: existe, por acaso, algo difícil demais para mim?

Repare no que está em jogo nos dois lugares. Não é a produção de um espetáculo. É a possibilidade de um futuro em situação sem saída: um velho de cem anos e uma mulher que passou da menopausa; uma escritura de compra guardada num vaso enquanto a cidade queima.

Esse é o ambiente natural da frase no Antigo Testamento, e ele é bem mais sóbrio do que o uso que se faz dela.

3. Análise Teológica do Versículo

"Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR?"

O hebraico é hayippalé me-YHWH davar — quatro palavras, contando a partícula de pergunta grudada na primeira.

Cada uma delas merece exame, e a primeira merece mais que as outras.

A raiz que não significa "difícil"

O verbo vem da raiz pl', escrita com três consoantes que se costumam transcrever como pê, lâmede e álefe.

Essa raiz não fala primariamente de esforço. Fala do que é extraordinário, do que está fora do alcance, do que ultrapassa a medida de quem tenta.

Vale ver o que ela produz no restante da língua.

Dela vem o substantivo pele, que as traduções vertem por maravilha ou prodígio. É a palavra do cântico do mar, quando o povo canta perguntando quem é como o SENHOR, "autor de maravilhas".

Dela vem o plural nifla'ot, os feitos extraordinários, que os salmos usam o tempo todo para as obras de Deus na criação e na libertação do Egito.

E dela vem o nome que Isaías atribui à criança prometida, e que a tradição cristã lê em referência ao Messias: Maravilhoso, que é literalmente essa mesma palavra.

Ou seja: o campo da raiz é o do assombro, não o do trabalho pesado.

Portanto, quando a tradução diz "difícil demais", ela oferece uma aproximação. Boa aproximação, porque o que ultrapassa a capacidade de alguém é, para essa pessoa, difícil. Mas aproximação.

A pergunta literal seria mais ou menos: "existe alguma coisa extraordinária demais, a ponto de ficar fora do alcance, quando se trata do SENHOR?"

Digo isso com todas as letras porque muda o tom da frase. Não se está perguntando se Deus se cansa. Está-se perguntando se existe alguma região do possível onde ele não chegue.

A mesma raiz aplicada a seres humanos

Um dado que ajuda muito a calibrar o sentido: a raiz também é usada para o limite humano, e nesses casos as traduções portuguesas escolhem palavras bem diferentes.

No Deuteronômio há uma lei sobre causas judiciais complicadas. O texto trata do caso em que uma questão é extraordinária demais para o juiz local, e manda levá-la ao lugar que o SENHOR escolher. A tradução que usamos verte a expressão por "quando alguma coisa te for oculta em juízo".

Alguns capítulos adiante, o mesmo livro afirma que o mandamento não é extraordinário demais para o ouvinte, isto é, não está acima da capacidade dele. A tradução verte por "não te é encoberto".

E um salmo diz que o conhecimento de Deus é "maravilhoso demais" para o orante, alto demais para que ele o alcance.

Três passagens, a mesma raiz, três soluções de tradução: oculta, encoberto, maravilhoso demais.

Isso é informação útil e raramente dada ao leitor. O que a raiz descreve é uma relação entre uma coisa e uma capacidade: aquilo que fica acima do alcance de quem tenta. Aplicada ao juiz de aldeia, produz "causa difícil demais". Aplicada ao orante, produz "conhecimento inalcançável". Aplicada a Deus, produz uma pergunta cuja resposta esperada é: nada.

A preposição, que é mais estranha do que parece

A segunda palavra é me-YHWH — a preposição min grudada ao nome divino.

Min significa, em primeiro lugar, "de", "a partir de", "para longe de". E é também a preposição com que o hebraico faz comparações, já que a língua não tem uma forma própria de comparativo.

Daí a construção poder ser entendida de mais de um jeito, e o ponto é discutido entre os tradutores.

Um modo: "há coisa extraordinária demais em relação ao SENHOR?", isto é, acima da capacidade dele.

Outro: "há coisa que se afaste do SENHOR, fora do alcance dele?", com a preposição marcando distância.

A diferença é pequena e o resultado prático é o mesmo. Registro porque a construção não é a que um falante de português esperaria, e porque a tradução "para o SENHOR" alisa uma aspereza da sintaxe.

"alguma coisa" — que também quer dizer "alguma palavra"

A terceira palavra é davar, e aqui há uma ambiguidade real, que as traduções são obrigadas a desfazer e que o hebraico mantém aberta.

Davar significa palavra. E significa coisa, assunto, negócio, acontecimento.

Os dois sentidos convivem em todo o Antigo Testamento. Quando o texto diz que "veio a palavra do SENHOR" a um profeta, é davar. Quando diz "esta é a coisa que farás", também é davar. Os dez mandamentos são chamados, em hebraico, de "as dez palavras".

Essa dupla face não é acidental na mentalidade do texto. Uma palavra dita por Deus é um acontecimento; não há distância entre o que ele diz e o que passa a existir.

Aplicando ao versículo, temos duas leituras possíveis, e as duas cabem.

Primeira: "existe alguma coisa extraordinária demais para o SENHOR?" — pergunta sobre o poder em geral.

Segunda: "existe alguma palavra extraordinária demais para o SENHOR?" — pergunta sobre aquela promessa específica, a que acabou de ser dita e de que Sara riu. Seria algo como: existe alguma promessa grande demais para ele cumprir?

A segunda leitura tem a seu favor o contexto imediato, porque o assunto em pauta é exatamente uma fala anunciada e recebida com riso.

A primeira tem a seu favor o uso posterior da frase na própria Bíblia.

Não é possível decidir, e a rigor talvez não seja necessário: em hebraico as duas coisas são a mesma palavra, e o texto não escolheu.

A partícula de pergunta e o que ela espera ouvir

A frase abre com ha-, a partícula interrogativa, colada ao verbo.

Em hebraico, esse tipo de pergunta costuma esperar resposta negativa quando o contexto a torna óbvia. É o mesmo mecanismo do português: quem pergunta "por acaso alguém duvida disso?" já disse que ninguém duvida.

Ou seja: a construção não pede informação. Ela declara, na forma de pergunta, que não existe nada fora do alcance.

E declara para Abraão. É bom manter isso à vista, porque a frase circula hoje como se tivesse sido dita a Sara, ou ao leitor. Ela foi dita ao marido, sobre o riso da mulher, com a mulher escutando atrás da tenda.

A mesma pergunta em Jeremias, e o que ela cobre lá

A raiz reaparece com a mesma força em Jeremias 32, e o paralelo é dos mais próximos que existem no Antigo Testamento.

O profeta está preso no pátio da guarda enquanto a Babilônia cerca Jerusalém. Ele acaba de comprar um campo em terra que o inimigo vai tomar, e guardou a escritura num vaso de barro.

Na oração que faz em seguida, diz: tu fizeste os céus e a terra com o teu grande poder, e não há coisa alguma que seja difícil para ti. A palavra é a nossa.

E a resposta divina, alguns versículos depois, devolve a frase em forma de pergunta: existe, por acaso, algo difícil demais para mim?

Repare no que a pergunta cobre nos dois lugares.

Não cobre a produção de prodígios avulsos. Cobre a possibilidade de haver futuro onde a situação já está tecnicamente encerrada: um casal velho demais para gerar; um país que está sendo desmontado por um império.

Registro ainda uma diferença que costuma passar batida. Em Jeremias 32:17 quem afirma é o profeta, em oração. Em Jeremias 32:27 quem pergunta é Deus. A frase circula nos dois sentidos, de baixo para cima e de cima para baixo — e vale notar que, logo depois de dizer que nada é difícil demais para Deus, Jeremias recebe como resposta o anúncio de que a cidade será entregue aos caldeus.

Isso é dado importante e desconfortável. A afirmação de que nada está fora do alcance divino aparece, ali, imediatamente antes da confirmação de uma catástrofe. Ela não funciona como promessa de que o mal será evitado.

Zacarias, e a mesma raiz duas vezes na mesma frase

Há um terceiro texto que raramente entra nessa discussão e que é dos mais interessantes.

Depois do exílio, Zacarias transmite uma pergunta divina sobre a restauração de Jerusalém, construída com a nossa raiz repetida: se isso é extraordinário demais aos olhos do restante do povo naqueles dias, seria também extraordinário demais aos meus olhos?

A construção é elegante e diz uma coisa precisa. O que está em jogo não é se a coisa é grande. É de quem são os olhos que a medem.

A mesma restauração é, ao mesmo tempo, extraordinária demais para a percepção humana e não extraordinária para Deus. A raiz é relacional: mede a distância entre a coisa e a capacidade de quem olha.

Isso confirma, por outro caminho, o que já se disse sobre o vocabulário: não se está falando de esforço, e sim de alcance.

A Septuaginta, e o eco em Lucas

Aqui está um dos dados mais bonitos do versículo, e ele exige precisão para não virar exagero.

A tradução grega antiga do Antigo Testamento, feita a partir do século terceiro antes da era comum e conhecida como Septuaginta, verteu esta pergunta com o verbo adynateo, ser impossível, e com o substantivo rhema, que é a escolha grega corrente para traduzir davar e que conserva a mesma dupla face: palavra e coisa.

Séculos depois, no primeiro capítulo do evangelho de Lucas, um anjo anuncia a Maria o nascimento de um filho em circunstâncias impossíveis, ela pergunta como aquilo se dará, e a resposta termina com uma frase que a nossa tradução verte por "para Deus nada será impossível".

O grego dessa frase usa o mesmo verbo adynateo e o mesmo substantivo rhema da Septuaginta de Gênesis 18:14.

Isso significa que o eco é textual, e não apenas temático. Não se trata de dois textos que falam do mesmo assunto: trata-se das mesmas palavras gregas, na mesma construção, em duas cenas de anúncio de nascimento improvável.

Convém marcar o limite com clareza, porque este é o ponto em que os comentários costumam esticar o dado.

O que se pode afirmar: as palavras coincidem, e a coincidência é notável.

O que é leitura, muito plausível e não demonstrável: que Lucas tenha citado o texto de propósito, contando com um leitor capaz de reconhecer a alusão e de ligar Maria a Sara. É muito plausível porque Lucas conhece bem a Septuaginta, imita o estilo dela nos capítulos iniciais e enche o relato da infância de alusões ao Antigo Testamento. Não é demonstrável porque o evangelho não diz que está citando, e porque um autor de língua grega poderia formar essa frase sem estar pensando em Gênesis.

Registro também um detalhe de tradução que se perde em português: como rhema traduz davar, a frase de Lucas conserva a mesma ambiguidade do hebraico. "Nenhuma palavra será impossível da parte de Deus" e "nenhuma coisa será impossível" são a mesma frase grega.

E vale a comparação com outra frase do Novo Testamento que costuma ser confundida com esta. Quando Jesus diz que para os seres humanos certas coisas são impossíveis, mas para Deus tudo é possível, o vocabulário grego é outro. O tema é aparentado; o eco textual não é o mesmo.

O guarda-corpo: a frase não é um cheque em branco

Aqui é preciso ser direto, porque é o ponto em que a pregação corrente atropela o texto com mais frequência.

A pergunta afirma uma coisa: que nada está fora do alcance do SENHOR.

Ela não afirma outra: que tudo o que se pede será concedido.

São duas afirmações diferentes, e a distância entre elas é a distância entre poder e vontade. Dizer que alguém é capaz de fazer algo não é dizer que vai fazer.

A própria Bíblia fecha essa porta, e com exemplos que ela mesma escolheu preservar.

Moisés pede para entrar na terra prometida, e o pedido é negado; o texto registra a negativa e a razão dela, e Moisés morre olhando a terra do outro lado do rio.

Davi jejua e passa noites no chão pelo filho doente; a criança morre no sétimo dia. O texto narra a súplica e narra a morte, sem suavizar nem uma coisa nem a outra.

E Paulo escreve que pediu três vezes que lhe fosse tirado um espinho na carne, e que a resposta foi outra: a graça basta, e o poder se aperfeiçoa na fraqueza. O espinho ficou.

Três pedidos, três negativas, e nenhum dos três textos sugere que faltou poder.

Há ainda um detalhe do próprio contexto que costuma ser ignorado e que é decisivo para o uso da frase. Aqui, ninguém pediu nada.

Abraão não fez pedido. Sara não fez pedido. A promessa foi dada por iniciativa divina, repetida por iniciativa divina, e a pergunta responde a uma dúvida sobre uma palavra já empenhada.

Ou seja: no lugar em que nasce, a frase é uma garantia sobre uma promessa específica, e não uma regra geral sobre pedidos.

Isso não a diminui. Faz outra coisa: devolve a ela o peso que tem. Uma promessa dada por Deus não encontra obstáculo capaz de anulá-la — nem a idade, nem a biologia, nem o riso de quem a ouviu.

Quanto ao que fazer com a frase diante de um pedido pessoal, o honesto é dizer que ela sustenta a esperança e não sustenta a garantia. Quem promete mais do que isso em nome deste versículo está pondo na boca do texto uma coisa que ele não disse, e a conta chega depois, cobrada por quem rezou e não recebeu.

"No tempo determinado voltarei a você,"

Passemos à segunda metade, que costuma ser lida às pressas.

O hebraico é lammo'ed ashuv elekha.

A palavra mo'ed vem de uma raiz que significa marcar encontro, combinar. Um mo'ed é um ponto do calendário fixado de antemão: dia marcado, hora combinada, lugar de encontro.

É a palavra técnica das festas de Israel. O calendário do Levítico chama as festas anuais de mo'adim do SENHOR: datas que não dependem de circunstância, porque foram determinadas.

E é a palavra da tenda do encontro, o santuário portátil do deserto, chamado em hebraico de ohel mo'ed — a tenda do lugar marcado, onde Deus e Moisés se encontravam.

Note-se que a palavra vem com artigo: não é "num tempo determinado", é "no tempo determinado". O prazo já existia. Foi anunciado no versículo 10 desta mesma cena, e antes disso no capítulo 17, quando o texto diz que a aliança seria estabelecida com Isaque, que Sara daria à luz "por este tempo no ano seguinte".

Ou seja: a promessa é datada, e a data é repetida três vezes em dois capítulos.

Vale pensar no efeito disso. Uma promessa com data é uma promessa que pode ser conferida. Ela se expõe. Se o prazo passar e nada acontecer, o anúncio fica desmentido pelo calendário.

O verbo ashuv é "voltarei", da raiz shuv, a mesma que os profetas usam para a conversão, no sentido de dar meia-volta e retornar.

Registro uma observação que o texto permite e não confirma: o retorno anunciado aqui não é narrado depois. Não há uma cena em que os visitantes voltem à tenda um ano mais tarde. O que o capítulo 21 diz é que o SENHOR visitou Sara como havia dito, e que o menino nasceu no tempo determinado — usando de novo o vocabulário do prazo.

Há quem entenda que a visita do capítulo 21 é o cumprimento deste "voltarei". Há quem entenda que a promessa de retorno é uma fórmula de despedida sem exigência de nova aparição. Não há consenso, e o texto não esclarece.

"por esta época, no ano que vem,"

O hebraico é ka'et hayyah, e é uma das expressões mais discutidas do capítulo.

Ao pé da letra: "conforme o tempo vivo", ou "como o tempo que vive".

Ninguém sabe ao certo por que se diz assim. As propostas correntes são três, e vale expor as três.

A primeira entende a expressão como "por esta mesma época do ano que vem", tomando "vivo" no sentido de o tempo que volta a correr até chegar ao mesmo ponto. É como quase todas as traduções vertem.

A segunda entende "quando o tempo reviver", isto é, na mesma estação, quando o ano voltar a esta altura — leitura próxima da primeira, com ênfase no ciclo agrícola.

A terceira, minoritária, liga o "vivo" à criança que estará viva, entendendo algo como "no tempo devido, com vida".

Não é possível decidir, e as duas primeiras dão praticamente o mesmo resultado prático.

O que é seguro é o paralelo mais próximo, e ele é ótimo. A mesma expressão aparece no segundo livro dos Reis, quando o profeta Eliseu anuncia à mulher de Suném, que não tinha filhos e cujo marido era velho, que ela abraçaria um filho "segundo o tempo da vida".

A cena é irmã desta em quase tudo: o anúncio de um nascimento improvável, o hóspede que fala em nome de Deus, a mulher que reage com descrença. E a resposta dela é: não mintas para tua serva.

Duas mulheres sem filhos, dois anúncios com a mesma fórmula de prazo, duas reações de desconfiança. O paralelo é forte e vale registrá-lo, sem transformá-lo em prova de dependência literária entre os textos, que é discutida.

"e Sara terá um filho."

Aqui está a curiosidade sintática que fecha o versículo, e ela é notável.

O hebraico é ul-Sarah ven: três palavras, e nenhum verbo.

Ao pé da letra: "e para Sara, um filho".

O hebraico dispensa o verbo "ser" em frases desse tipo, de modo que a construção é gramaticalmente normal. Mas o efeito, no fecho de um discurso, é de uma economia impressionante.

A pergunta grandiosa sobre o alcance de Deus é seguida de três palavras sem verbo, que dizem apenas a quem pertence o menino.

Repare também em quem é nomeada. A fala é dirigida a Abraão, na segunda pessoa — "voltarei a você" —, mas o desfecho é dela. E ela está atrás da tenda, escutando.

É a mesma posição do versículo 10. Duas vezes, na mesma cena, uma promessa a respeito dela é anunciada ao marido enquanto ela ouve de fora. O texto registra a posição de escuta com precisão e não comenta.

Note-se ainda o que não é dito: o menino não é nomeado aqui. O nome já havia sido dado no capítulo 17, quando Deus disse que ele se chamaria Isaque. Nesta cena, ele é apenas "um filho".

Quanto à assimetria entre o riso de Abraão, no capítulo 17, e o riso de Sara, tratada no versículo anterior a este: o problema é real, as harmonizações correntes não cobrem os dados, e o lugar de examiná-lo é o versículo 13, e não aqui.

O que interessa a este versículo é outra coisa, e é o que o fecha: a promessa que Sara ouviu com riso é repetida, com prazo, e sem que o riso mude uma vírgula do conteúdo.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A raiz pl' — três consoantes que designam o extraordinário, o que ultrapassa a capacidade, o que fica fora do alcance. Dela vêm pele, maravilha, e nifla'ot, os prodígios. "Difícil demais" é aproximação, não equivalente.

Davar — palavra e coisa ao mesmo tempo. A pergunta do versículo pode ser sobre o poder em geral ou sobre aquela promessa específica; o hebraico não escolhe.

Mo'ed — o tempo determinado. É a palavra das festas fixas do calendário e da tenda do encontro, o santuário do deserto. Aqui, vem com artigo: o prazo já havia sido dado.

Ka'et hayyah — "conforme o tempo vivo". Expressão discutida; entende-se em geral como "por esta época no ano que vem". Reaparece no anúncio de Eliseu à mulher de Suném.

Sara — nomeada no fecho da fala, embora a fala seja dirigida ao marido. Está atrás da tenda, escutando, na mesma posição do versículo 10.

Abraão — o interlocutor. A pergunta sobre o riso da mulher é feita a ele, e não a ela.

Jeremias 32 — o profeta preso no pátio da guarda, com Jerusalém cercada, compra um campo em terra ocupada e diz que nada é difícil demais para Deus; a resposta divina devolve a mesma pergunta com a mesma raiz.

Zacarias 8:6 — a raiz repetida na mesma frase, opondo o que é extraordinário demais aos olhos do povo ao que seria extraordinário aos olhos de Deus.

A Septuaginta — a tradução grega antiga do Antigo Testamento, que verte esta pergunta com o verbo adynateo e o substantivo rhema.

Lucas 1:37 — a frase dita a Maria reproduz essas mesmas palavras gregas, em outro anúncio de nascimento improvável. O eco é textual; a intenção de citar é leitura plausível e não demonstrável.

A mulher de Suném — segundo livro dos Reis, capítulo 4: sem filhos, marido velho, anúncio de nascimento com a mesma fórmula de prazo, e a resposta "não mintas para tua serva".

Moisés, Davi e Paulo — os três pedidos negados que a própria Bíblia registra, e que impedem ler esta pergunta como garantia de atendimento.

5. Pontos de Ensino

A palavra hebraica não é "difícil". A raiz fala do extraordinário e do que fica fora do alcance, não de esforço. A tradução corrente é aproximação.

A mesma raiz descreve o limite humano. A causa complicada demais para o juiz, o mandamento que não está acima da capacidade do ouvinte, o conhecimento alto demais para o orante.

Davar é palavra e coisa. A pergunta pode ser sobre uma promessa específica ou sobre o poder em geral, e o hebraico mantém as duas em aberto.

A pergunta é retórica. Ela declara, em forma de pergunta, que nada está fora do alcance — e obriga quem ouve a formular a resposta por dentro.

Ninguém pediu nada nesta cena. A frase responde a uma dúvida sobre uma promessa já dada, não a uma petição. Isso muda o modo de usá-la.

Poder não é o mesmo que vontade. A frase afirma capacidade; ela não afirma que todo pedido será atendido, e a própria Bíblia registra pedidos negados.

A promessa recebe data. O tempo determinado é dito com a palavra das festas fixas e da tenda do encontro, e vem com artigo: o prazo já existia.

Uma promessa datada pode ser conferida. Ela se expõe ao calendário, e é isso que a separa de uma consolação vaga.

Em Jeremias, a frase antecede uma catástrofe. Logo depois de ouvir que nada é difícil demais para Deus, o profeta recebe a confirmação de que a cidade cairá.

Lucas 1:37 repete as palavras gregas da Septuaginta daqui. O eco é textual. Que a citação seja proposital é leitura muito plausível, e não demonstrável.

O fecho não tem verbo. Três palavras em hebraico: "e para Sara, um filho". A promessa mais concreta do capítulo é também a mais econômica.

6. Aspectos Filosóficos

Três impossíveis diferentes, e a frase só trata de um

Convém separar coisas que o uso corrente mistura, porque a confusão entre elas produz discussões inúteis.

Há o impossível lógico: o quadrado redondo, o círculo com quinas. Não é uma coisa difícil de fazer; é uma descrição que se anula ao ser enunciada. Não há objeto ali para ser feito.

Há o impossível físico: viajar mais rápido que a luz, envelhecer para trás. É coisa que se pode imaginar, mas que as leis conhecidas do mundo excluem.

E há o impossível de capacidade: aquilo que está acima da força de quem tenta. O peso que não consigo levantar não é impossível em si — é impossível para mim.

A raiz hebraica deste versículo trabalha na terceira faixa. Ela mede a distância entre uma coisa e uma capacidade, e é por isso que serve tanto para o juiz que não dá conta de uma causa quanto para o orante que não alcança o conhecimento de Deus.

Aplicada ao SENHOR, produz uma pergunta cuja resposta esperada é que não existe distância nenhuma.

Vale registrar que o texto não está discutindo o impossível lógico. As perguntas escolásticas famosas — se Deus pode criar uma pedra que não consiga erguer, e coisas do gênero — nascem de uma tradição filosófica posterior e de outro vocabulário. Ler o hebraico como se ele respondesse a elas é anacronismo, e um comentário honesto deve dizê-lo.

O que a narrativa afirma e o que o sistema afirma

Aqui está uma diferença de método que vale explicar ao leitor, porque ela organiza boa parte das discussões sobre Deus.

O Antigo Testamento raramente enuncia atributos. Ele conta episódios e faz perguntas. Quando quer dizer que Deus é capaz, mostra uma velha dando à luz e pergunta se alguma coisa está fora do alcance.

A teologia posterior, formada em contato com a filosofia grega, faz o contrário: define um atributo, chama-o de onipotência, e depois procura os textos que o sustentam.

Os dois procedimentos têm valor, e não são a mesma coisa. Um atributo definido é uma afirmação geral, que vale sempre e em toda parte. Uma pergunta feita dentro de uma cena é uma afirmação situada, dita a alguém, sobre alguma coisa.

A frase deste versículo é do segundo tipo. Transformá-la em premissa de um sistema é operação legítima, e ela deixa de fora aquilo que a cena carrega: a tenda, a velhice, o riso, a data marcada.

Registro como leitura minha. O texto simplesmente pergunta, e segue.

Poder e vontade, e a distância entre os dois

Este é o ponto em que mais se sofre com o versículo, e ele merece ser dito devagar.

Dizer que alguém pode fazer uma coisa não é dizer que vai fazer. São afirmações de tipos diferentes: uma descreve capacidade, a outra descreve decisão.

Todo mundo aplica essa distinção sem hesitar nas relações humanas. Um pai capaz de comprar um brinquedo pode não comprar. Um médico capaz de operar pode entender que não deve. Ninguém conclui, da recusa, que faltava capacidade.

Quando se trata de Deus, a distinção evapora com uma facilidade suspeita. Quem reza e não recebe é levado a concluir uma de duas coisas: que Deus não podia, o que contradiz a frase, ou que a falha foi sua, o que é cruel e frequentemente falso.

A terceira possibilidade é a que o texto deixa em pé, e a que a pregação costuma calar: podia, e não fez, e a razão não foi informada.

A Bíblia convive com isso melhor do que nós. Ela registra os pedidos negados sem se explicar. Moisés não entra na terra. O filho de Davi morre. O espinho de Paulo continua onde estava, e a resposta que ele recebe muda de assunto: fala de graça suficiente e de força na fraqueza, não de remoção.

Nenhum desses textos sugere impotência. Todos eles recusam a equação simples entre poder e atendimento.

Uma promessa com data

Vale pensar no que muda quando se marca um prazo.

Uma promessa sem data não pode ser desmentida. Ela sempre pode estar a caminho, e por isso nunca fracassa — mas, pelo mesmo motivo, nunca se cumpre de modo verificável. É segura porque é vazia.

Uma promessa com data faz o contrário: expõe-se. Se o prazo passa e nada acontece, o anúncio fica desmentido pelo calendário, e quem o fez fica desmentido junto.

O que este versículo faz é do segundo tipo, e a data é repetida com insistência: no tempo determinado, por esta época, no ano que vem. O capítulo 17 já havia dito o mesmo, e o versículo 10 desta cena também.

Ou seja: a narrativa aceita o risco. E o capítulo 21 fecha a conta, dizendo que o menino nasceu no tempo que havia sido dito.

Convém não transformar isso em prova de historicidade, porque quem conta a história é o mesmo texto que registrou a promessa. Mas vale como observação sobre o gênero de esperança que o Antigo Testamento cultiva: uma esperança que aceita prazo, e não uma disposição interior indefinida.

O consolo que fere

Uma observação sobre o uso desta frase entre pessoas, porque ela é dita todos os dias a gente em sofrimento.

Quem diz "para Deus nada é impossível" a alguém à espera de um resultado quase sempre quer o bem. E, com frequência, produz o contrário.

O motivo é aritmético. Se nada é impossível e mesmo assim a coisa não aconteceu, sobra uma pergunta que o consolo criou e não responde: por que não aconteceu. E as respostas disponíveis para quem foi consolado assim costumam ser autodestrutivas — faltou fé, faltou merecimento, faltou insistência.

O texto não autoriza nenhuma dessas conclusões. Ele afirma alcance, não obrigação.

Vale acrescentar um dado do contexto que muda bastante a aplicação. No lugar em que a frase nasce, ela não é dita a quem pede: é dita a quem já recebeu uma promessa e duvidou dela. O objeto da garantia não é um desejo humano; é uma palavra divina previamente empenhada.

Usar a frase para sustentar a esperança de que Deus pode agir é fiel ao texto. Usá-la para garantir um resultado específico não é, e cobra caro de quem acreditou.

Ler um texto pelo texto anterior

O eco entre esta pergunta e a frase dita a Maria levanta uma questão de método que vale desenvolver, porque ela reaparece em toda a Bíblia.

Os autores do Novo Testamento liam o Antigo, e na maior parte das vezes o liam em grego, na Septuaginta. Quando escreviam, as palavras daquela tradução vinham junto.

Às vezes a citação é explícita: o texto avisa que está citando. Outras vezes é uma alusão, em que se reaproveitam as palavras sem aviso, contando com um leitor capaz de reconhecê-las.

O caso de Lucas 1:37 é do segundo tipo, e é forte, porque não se trata de tema parecido, e sim das mesmas duas palavras gregas na mesma construção.

Isso exige do intérprete duas disciplinas ao mesmo tempo.

A primeira é reconhecer o eco, porque ignorá-lo empobrece a leitura. A cena de Maria ganha profundidade enorme quando se percebe que a resposta dada a ela repete a resposta dada sobre Sara.

A segunda é não converter o eco em demonstração. Que Lucas tenha aludido de propósito é hipótese muito plausível; que ele tenha aludido de propósito não é fato provado, e um comentário que apaga essa diferença ensina o leitor a confundir uma coisa com a outra.

Vale generalizar o cuidado. Boa parte do que se apresenta como "a Bíblia interpretando a Bíblia" é, na verdade, o intérprete ligando pontos — às vezes muito bem, às vezes não. Dizer qual é qual é parte do trabalho.

Nada fora do alcance, e a catástrofe logo em seguida

Fecho com o dado que mais me incomoda no conjunto das ocorrências, e que raramente é mencionado.

Em Jeremias, a afirmação de que nada é difícil demais para Deus aparece na boca do profeta, em oração, e a resposta divina que vem depois não anuncia livramento. Anuncia que a cidade será entregue aos caldeus, e que o povo irá para o exílio.

Só bem depois é que a mesma resposta chega ao ponto da restauração e da volta, e é lá que a pergunta é devolvida com a nossa raiz.

Ou seja: a frase, naquele texto, convive com a destruição. Ela não impede a queda de Jerusalém. Ela sustenta a compra de um campo que só fará sentido do outro lado da queda.

Registro isso como o testemunho mais sóbrio do que a frase significa dentro da Bíblia. Não é a promessa de que o pior não acontecerá. É a afirmação de que o pior não é a última palavra, e de que quem faz a promessa continua tendo alcance depois dele.

É bem menos do que a pregação corrente oferece. E é bem mais firme, porque não depende de o desastre não acontecer.

7. Aplicações Práticas

Conferir a palavra antes de usar o versículo como prova

A tradução diz "difícil demais". O hebraico usa uma raiz que fala do extraordinário e do que fica fora do alcance, a mesma que produz as palavras traduzidas por maravilha e prodígio. A mesma raiz descreve a causa complicada demais para o juiz de aldeia e o conhecimento alto demais para o orante do salmo.

"Difícil" é aproximação razoável e incompleta. Quem lê só a tradução acaba imaginando uma discussão sobre esforço, quando a discussão é sobre alcance.

Vale como hábito para qualquer versículo que você use para sustentar alguma coisa. Antes de fazer de uma frase o alicerce de uma convicção, convém saber se a palavra decisiva dela é mesmo o que a sua tradução sugere. Isso não exige saber hebraico: exige comparar traduções e consultar quem sabe, o que hoje custa alguns minutos.

Poder não é promessa

A pergunta afirma que nada está fora do alcance do SENHOR. Ela não afirma que tudo o que se pede será concedido, e as duas afirmações são de tipos diferentes.

A própria Bíblia registra pedidos negados a gente que ela apresenta como fiel: Moisés não entra na terra, o filho de Davi morre depois de sete dias de súplica, o espinho de Paulo continua onde estava. Nenhum desses textos sugere que faltou poder.

Aplique isso ao modo como você reza e ao modo como interpreta o que não veio. A conclusão de que faltou fé é a mais disponível e quase sempre a mais destrutiva. A possibilidade que o texto mantém aberta é outra: podia, não fez, e a razão não foi informada. Conviver com essa terceira alternativa é mais difícil do que escolher culpado, e é mais honesto.

Repare em quem está falando com quem

A frase é dita a Abraão, a respeito do riso de Sara, com Sara escutando atrás da tenda. Ninguém, nesta cena, havia pedido coisa alguma: a promessa foi dada por iniciativa divina e repetida por iniciativa divina.

Isso significa que a garantia recai sobre uma palavra já empenhada, e não sobre um desejo humano apresentado em oração.

Vale como método de leitura em geral. Quase toda frase da Bíblia foi dita por alguém, a alguém, dentro de uma situação. Extraí-la disso é possível e às vezes necessário, e o preço é perder o que ela estava fazendo ali. Antes de aplicar um versículo a si mesmo, convém perguntar quem falou, com quem, e sobre o quê — três perguntas que evitam a maior parte dos abusos.

Prazos transformam esperança em compromisso

A promessa vem com data: no tempo determinado, por esta época, no ano que vem. A palavra usada é a das festas fixas do calendário e da tenda do encontro, e vem com artigo, remetendo a um prazo já anunciado antes.

Uma promessa datada aceita ser conferida. Se o prazo passa e nada acontece, ela fica desmentida.

Isso vale para o que você promete a outras pessoas. "Um dia a gente resolve isso", "assim que der", "em breve" são fórmulas que protegem quem promete e deixam quem espera sem nada nas mãos. Uma data é um risco assumido, e é justamente por isso que ela vale. Repare em quantas das suas promessas têm prazo e em quantas foram formuladas de modo a nunca poderem ser cobradas.

Comprar um campo em cidade cercada

A mesma pergunta reaparece em Jeremias, e o cenário é o oposto do consolo fácil. Jerusalém está sitiada, o profeta está preso, e ele compra um terreno em território que o inimigo vai ocupar. Pesa a prata, assina diante de testemunhas e manda guardar a escritura num vaso de barro para durar muito tempo.

É nessa situação que ele diz que nada é difícil demais para Deus — e a resposta divina que vem em seguida confirma que a cidade cairá.

Repare no formato dessa confiança. Ela não consiste em esperar que o desastre não venha. Consiste em fazer, hoje, um gesto concreto e caro que só fará sentido do outro lado do desastre. É bem mais exigente do que otimismo, e bem mais resistente, porque não depende de o pior ser evitado.

Cuidado ao dizer esta frase a quem está sofrendo

"Para Deus nada é impossível" é das frases mais ditas em quarto de hospital e em velório. Quem a diz costuma querer o bem.

O efeito, com frequência, é o contrário. Se nada é impossível e a coisa não aconteceu, cria-se uma pergunta que o consolo não responde — e as respostas que sobram para quem foi consolado assim atacam a própria pessoa.

Antes de usar a frase, vale pensar em como ela soará daqui a três meses, se o resultado for o pior. O que sustenta alguém no longo prazo não é a garantia de um desfecho, é a companhia de quem fica. Uma frase que promete mais do que o texto diz costuma ser paga por quem a recebeu, e não por quem a disse.

O eco não é a prova

A frase dita a Maria repete, em grego, as mesmas duas palavras com que a tradução antiga verteu esta pergunta de Gênesis. O eco é textual, e é notável: não são temas parecidos, são as mesmas palavras na mesma construção, em duas cenas de anúncio de nascimento improvável.

Que Lucas esteja citando de propósito é leitura muito plausível — ele conhece bem aquela tradução e enche os capítulos iniciais de alusões ao Antigo Testamento. Não é demonstrável, porque ele não avisa que está citando.

Guarde a distinção entre reconhecer uma ligação e provar uma intenção. Ela vale muito além da Bíblia: em discussões de família, de trabalho e de política, boa parte dos conflitos nasce de tratar uma leitura plausível dos motivos alheios como se fosse fato apurado. Reconhecer o padrão é útil; declarar que sabe a intenção quase nunca é.

A promessa mais concreta é a que tem menos palavras

O versículo termina com três palavras em hebraico e nenhum verbo: "e para Sara, um filho". Depois da pergunta grandiosa sobre o alcance de Deus, o fecho é essa economia.

E a promessa é nomeada em favor de quem está fora da conversa, escutando atrás do pano.

Repare no contraste entre o volume de palavras e o tamanho do compromisso, nas suas próprias conversas. Discursos longos costumam anunciar pouco; compromissos reais costumam caber em uma linha, com nome, objeto e prazo. Quando alguém fala muito e não diz o que vai fazer, quando, e para quem, provavelmente não vai fazer.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A tradução "difícil demais" está errada?

Não está errada; está aproximada. A raiz hebraica designa o que é extraordinário, o que ultrapassa a capacidade, o que fica fora do alcance de quem tenta. Dela vêm as palavras traduzidas por maravilha e por prodígio. Como aquilo que ultrapassa a capacidade de alguém é, para essa pessoa, difícil, a tradução funciona — mas empurra o leitor para uma ideia de esforço que o hebraico não tem.

A mesma raiz aparece aplicada a seres humanos?

Aparece, e ajuda a entender o sentido. O Deuteronômio a usa para a causa judicial complicada demais para o juiz local, que por isso deve ser levada ao santuário, e para dizer que o mandamento não está acima da capacidade do ouvinte. Um salmo a usa para o conhecimento de Deus, alto demais para o orante alcançar. A nossa tradução verte esses casos por "oculta", "encoberto" e "maravilhoso demais" — três soluções para a mesma raiz.

O que a palavra davar acrescenta à pergunta?

Uma ambiguidade que o hebraico mantém e que a tradução é obrigada a desfazer. Davar significa palavra e também coisa, assunto, acontecimento. A pergunta pode ser "existe alguma coisa fora do alcance do SENHOR?" ou "existe alguma palavra fora do alcance dele?", isto é, alguma promessa grande demais para ser cumprida. As duas leituras cabem, e o contexto imediato, em que se acabou de rir de uma promessa, favorece a segunda.

A pergunta espera resposta?

Não. É pergunta retórica, aberta pela partícula interrogativa hebraica, do tipo que já traz a resposta embutida. O efeito do recurso é transferir a formulação para quem ouve: quem responde por dentro fica comprometido com a própria resposta. O Antigo Testamento usa muito esse instrumento nos discursos divinos, e o exemplo mais extenso é a resposta a Jó, feita quase toda de perguntas.

A quem a frase foi dita?

A Abraão. A pergunta sobre o riso de Sara é dirigida ao marido, e ela está atrás da tenda, escutando, na mesma posição do versículo 10. O versículo termina nomeando-a, sem que ela tenha sido interpelada diretamente. Registro o dado sem extrair dele mais do que ele diz.

Então a frase garante que Deus vai atender o que eu peço?

Não garante, e este é o ponto em que a pregação corrente mais atropela o texto. A pergunta afirma que nada está fora do alcance do SENHOR — afirma capacidade. Ela não afirma disposição a atender todo pedido. Além disso, na cena em que nasce, ninguém pediu nada: a promessa foi dada e repetida por iniciativa divina, e a garantia recai sobre uma palavra já empenhada.

A Bíblia registra pedidos negados?

Registra, e sem suavizar. Moisés pede para entrar na terra prometida e ouve que não entrará. Davi jejua e passa noites no chão pelo filho doente, e a criança morre no sétimo dia. Paulo escreve que pediu três vezes que lhe tirassem um espinho da carne e recebeu outra resposta: a graça basta, e o poder se aperfeiçoa na fraqueza. Nenhum desses textos sugere que faltou poder.

Onde mais essa pergunta aparece no Antigo Testamento?

Em Jeremias 32, duas vezes, e em Zacarias 8. Em Jeremias o cenário é o cerco de Jerusalém: o profeta, preso no pátio da guarda, compra um campo em terra que os babilônios vão ocupar, e diz em oração que nada é difícil demais para Deus; a resposta divina devolve a pergunta. Em Zacarias a raiz aparece duas vezes na mesma frase, opondo o que é extraordinário demais aos olhos do povo ao que seria extraordinário aos olhos de Deus.

Em Jeremias a frase impede a catástrofe?

Não impede, e vale dizê-lo com clareza. Logo depois da oração em que o profeta afirma que nada é difícil demais, a resposta divina confirma que a cidade será entregue aos caldeus e o povo irá para o exílio. A promessa de restauração vem depois disso, e não em lugar disso. Ali, a frase convive com a destruição: ela sustenta a compra de um campo que só fará sentido do outro lado da queda.

O que significa "no tempo determinado"?

A palavra hebraica é mo'ed, que vem de uma raiz que significa marcar encontro. É o termo técnico das festas fixas do calendário de Israel e o nome da tenda do encontro, o santuário do deserto. Aqui vem com artigo: não é "num tempo determinado", é "no tempo determinado", remetendo ao prazo já anunciado no versículo 10 e antes disso no capítulo 17.

E "por esta época, no ano que vem"?

O hebraico é ka'et hayyah, literalmente "conforme o tempo vivo". A expressão é discutida. A leitura mais aceita entende "por esta mesma época do ano que vem"; outra entende "quando o tempo reviver", isto é, na mesma estação; uma terceira, minoritária, liga o "vivo" à criança. Não é possível decidir, e as duas primeiras dão o mesmo resultado prático.

Essa fórmula de prazo aparece em outro lugar?

Aparece, no anúncio que Eliseu faz à mulher de Suném, no segundo livro dos Reis. Ela não tinha filhos, o marido era velho, e o profeta diz que ela abraçaria um filho segundo o tempo da vida. A resposta dela é "não mintas para tua serva". O paralelo entre as duas cenas é forte; se há dependência literária entre os textos, é questão discutida e não decidida.

Lucas 1:37 está citando este versículo?

O eco é textual, e isso é mais do que semelhança de tema. A tradução grega antiga verteu esta pergunta com o verbo adynateo e o substantivo rhema, e a frase dita a Maria usa as mesmas duas palavras na mesma construção. Que Lucas tenha aludido de propósito é leitura muito plausível, porque ele conhece bem aquela tradução e enche os capítulos iniciais de alusões. Não é demonstrável, porque ele não avisa que está citando.

E a frase "para Deus tudo é possível", dos evangelhos, é a mesma coisa?

É aparentada no tema e diferente no vocabulário. Quando Jesus diz que para os seres humanos certas coisas são impossíveis mas para Deus tudo é possível, o grego empregado é outro. O eco textual com a tradução grega de Gênesis está em Lucas 1:37, não ali.

Por que o fim do versículo chama atenção?

Porque são três palavras em hebraico e nenhum verbo: "e para Sara, um filho". O hebraico dispensa o verbo "ser" nesse tipo de frase, de modo que a construção é normal; o efeito, no fecho de um discurso, é de economia impressionante. Depois da pergunta sobre o alcance de Deus, o desfecho é uma frase mínima, em favor da mulher que está escutando de fora.

9. Conexão com Outros Textos

Jeremias 32:17Ah Senhor DEUS! Eis que tu fizeste os céus e a terra com teu grande poder, e com teu braço estendido; não há coisa alguma que seja difícil para ti;

A mesma raiz hebraica, agora na boca do profeta, em oração, dentro de Jerusalém cercada. A afirmação vem depois de ele comprar um campo em terra que o inimigo vai tomar.

Jeremias 32:27Eis que eu sou o SENHOR, Deus de toda carne: Existe, por acaso, algo difícil demais para mim?

A pergunta devolvida por Deus, com a mesma raiz e a mesma forma interrogativa daqui. É o paralelo mais próximo do versículo em todo o Antigo Testamento — e o que vem logo depois dela é o anúncio de que a cidade cairá.

Zacarias 8:6Assim diz o SENHOR dos exércitos: Se isto era extraordinário demais aos olhos do restante do povo naqueles dias, seria também extraordinário demais aos meus olhos? Diz o SENHOR dos exércitos.

A raiz repetida duas vezes na mesma frase, mostrando que ela mede uma relação: a mesma coisa pode estar fora do alcance de uns olhos e não estar fora do alcance de outros.

Deuteronômio 17:8Quando alguma coisa te for oculta em juízo entre sangue e sangue, entre causa e causa, e entre chaga e chaga, em negócios de litigio em tuas cidades; então te levantarás e recorrerás ao lugar que o SENHOR teu Deus escolher;

A mesma raiz aplicada ao limite humano: a causa complicada demais para o juiz local. Note-se como a tradução escolhe aqui a palavra "oculta".

Deuteronômio 30:11Porque este mandamento que eu te intimo hoje, não te é encoberto, nem está longe:

A mesma raiz negada: o mandamento não está acima da capacidade do ouvinte. Terceira solução de tradução para a mesma palavra, agora "encoberto".

Salmos 139:6Teu conhecimento é maravilhoso demais para mim, tão alto que não posso alcançá -lo.

A raiz descrevendo o que ultrapassa o alcance de quem olha — desta vez traduzida por "maravilhoso demais", que é a solução mais próxima do sentido básico.

Êxodo 15:11Quem como tu, SENHOR, entre os deuses? Quem como tu, magnífico em santidade, Terrível em louvores, autor de maravilhas?

O substantivo formado sobre a mesma raiz, no cântico do mar. É o campo do assombro, e não o do esforço.

Jó 42:2Eu sei que tudo podes, e nenhum de teus pensamentos pode ser impedido.

A mesma convicção em outro vocabulário, dita por um homem que acabou de perder tudo e de ouvir dezenas de perguntas retóricas em vez de explicações.

Gênesis 18:10Então disse: De certo voltarei a ti segundo o tempo da vida, e eis que Sara, tua mulher, terá um filho.

A mesma promessa, com a mesma fórmula de prazo, quatro versículos antes. É por isso que o "tempo determinado" aparece aqui com artigo: o prazo já havia sido dado.

Gênesis 17:21Mas meu pacto estabelecerei com Isaque, ao qual Sara te dará à luz por este tempo no ano seguinte.

A terceira ocorrência do mesmo prazo, um capítulo antes, e o lugar em que o menino já havia recebido nome. Aqui, ele é apenas "um filho".

2 Reis 4:16E ele lhe disse: A este tempo segundo o tempo da vida, abraçarás um filho. E ela disse: Não, senhor meu, homem de Deus, não mintas para tua serva.

A mesma fórmula de prazo em outro anúncio de nascimento improvável, com outra mulher sem filhos e outro hóspede que fala em nome de Deus — e com uma reação de desconfiança tão direta quanto o riso de Sara.

Lucas 1:37Pois para Deus nada será impossível.

A frase dita a Maria reproduz, em grego, as mesmas duas palavras com que a tradução antiga verteu esta pergunta. O eco é textual; a intenção de citar é leitura muito plausível e não demonstrável.

Números 20:12E o SENHOR disse a Moisés e a Arão: Porquanto não crestes em mim, para santificar-me aos olhos dos filhos de Israel, portanto, não poreis esta congregação na terra que lhes dei.

O primeiro dos pedidos negados que impedem ler esta pergunta como garantia de atendimento. Moisés insiste depois, e a resposta continua a mesma.

2 Samuel 12:18E ao sétimo dia morreu o menino; mas seus servos não ousavam fazer-lhe saber que o menino era morto, dizendo entre si: Quando o menino ainda vivia, lhe falávamos, e não queria ouvir nossa voz: pois quanto mais mal lhe fará, se lhe dissermos que o menino está morto?

Sete dias de jejum e súplica de um rei, e a criança morre. O texto narra as duas coisas sem explicar nenhuma.

2 Coríntios 12:9Mas ele me disse: “Minha graça te basta, porque meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Por isso, com muito prazer, eu me orgulharei nas minhas fraquezas, para que o poder de Cristo habite em mim.

Três pedidos, e uma resposta que muda de assunto em vez de conceder. Nada ali sugere falta de poder — e o espinho fica.

Gênesis 21:2E concebeu e deu à luz Sara a Abraão um filho em sua velhice, no tempo que Deus lhe havia dito.

O fecho da conta. O narrador faz questão de registrar que o nascimento se deu no prazo anunciado, usando de novo o vocabulário do tempo marcado.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Existe alguma coisa difícil demais para o SENHOR? No tempo determinado voltarei a você, por esta época, no ano que vem, e Sara terá um filho.”

Texto hebraico

הֲיִפָּלֵא מֵיְהוָה דָּבָר לַמּוֹעֵד אָשׁוּב אֵלֶיךָ כָּעֵת חַיָּה וּלְשָׂרָה בֵן

Transliteração

hayippalé me-YHWH davar lammo'ed ashuv elekha ka'et hayyah ul-Sarah ven

Palavra por palavra

הֲ (ha-) — partícula de pergunta

É a partícula interrogativa do hebraico, escrita colada à palavra seguinte. Não tem tradução própria em português: o que ela faz é transformar a frase em pergunta.

Quando o contexto torna a resposta óbvia, ela introduz perguntas retóricas, do tipo que já traz a resposta embutida. É o caso aqui.

יִפָּלֵא (yippalé) — "é extraordinário demais", "está fora do alcance"

Verbo da raiz pl', na forma passiva e reflexiva que a gramática hebraica chama de nifal, terceira pessoa masculina do singular.

A raiz designa o extraordinário, o que ultrapassa a capacidade, o que fica fora do alcance de quem tenta. Não se trata, em primeiro lugar, de trabalho pesado, e sim de distância entre uma coisa e uma capacidade.

Dela vêm o substantivo pele, maravilha ou prodígio, que aparece no cântico do mar; o plural nifla'ot, os feitos extraordinários, corrente nos salmos; e o nome que Isaías atribui à criança prometida, traduzido por Maravilhoso.

A mesma forma verbal aparece aplicada ao limite humano: o mandamento que não está acima da capacidade do ouvinte, no Deuteronômio, e o conhecimento de Deus alto demais para o orante, no salmo. A tradução portuguesa desses lugares alterna entre "encoberto", "oculto" e "maravilhoso demais".

Por isso "difícil demais" é aproximação. Ela funciona, porque o que ultrapassa a capacidade de alguém é difícil para essa pessoa, e desloca a pergunta para o campo do esforço, que não é o campo da raiz.

מֵיְהוָה (me-YHWH) — "da parte do SENHOR"

A preposição min — "de", "a partir de", "para longe de" — grudada ao nome próprio de Deus, escrito com as quatro consoantes que a tradição judaica não pronuncia e que as traduções portuguesas representam por SENHOR em maiúsculas.

Min é também a preposição com que o hebraico faz comparações, já que a língua não tem forma própria de comparativo. Dizer "grande de alguém" é dizer "maior que alguém".

Daí a construção admitir mais de um entendimento, e o ponto ser discutido: "extraordinário demais em relação ao SENHOR", isto é, acima da capacidade dele; ou "distante do SENHOR, fora do alcance dele". A diferença prática é pequena, e a tradução "para o SENHOR" alisa uma aspereza da sintaxe.

דָּבָר (davar) — "palavra", "coisa"

Um dos substantivos mais usados do Antigo Testamento, e um dos mais largos.

Significa palavra, fala, discurso. E significa coisa, assunto, negócio, acontecimento. Os dois sentidos convivem ao longo de todo o cânon: é davar a palavra do SENHOR que vem ao profeta, e é davar a coisa que se manda fazer. Os dez mandamentos são chamados, em hebraico, de "as dez palavras".

Essa dupla face não é acidente da língua. Na mentalidade do texto, uma palavra dita por Deus é um acontecimento, e não há intervalo entre o que ele diz e o que passa a existir.

Aplicada aqui, a ambiguidade é real e as traduções são obrigadas a escolher: "existe alguma coisa extraordinária demais para o SENHOR?" ou "existe alguma palavra extraordinária demais para ele?", isto é, alguma promessa grande demais para ser cumprida. O contexto imediato, em que se acabou de rir de uma promessa, favorece a segunda; o uso posterior da frase favorece a primeira. Não é possível decidir, e o hebraico não escolheu.

לַמּוֹעֵד (lammo'ed) — "no tempo determinado"

A preposição le com o artigo, mais o substantivo mo'ed.

Mo'ed vem de uma raiz que significa marcar encontro, combinar. Designa um ponto do calendário fixado de antemão: dia marcado, hora combinada, ocasião determinada.

É o termo técnico das festas anuais de Israel, que o Levítico chama de mo'adim do SENHOR — datas que não dependem de circunstância porque foram determinadas. E é a palavra da tenda do encontro, ohel mo'ed, o santuário portátil do deserto.

Note-se o artigo: não é "num tempo determinado", é "no tempo determinado". O prazo já havia sido anunciado no versículo 10 desta cena, e antes disso no capítulo 17.

אָשׁוּב (ashuv) — "voltarei"

Verbo shuv, voltar, retornar, dar meia-volta, na primeira pessoa do singular.

É uma das raízes mais carregadas do Antigo Testamento. Os profetas a usam para a conversão, no sentido concreto de dar meia-volta e retornar ao ponto de partida.

Registro uma observação que o texto permite e não confirma: o retorno anunciado aqui não é narrado depois. Não há cena em que os visitantes voltem à tenda um ano mais tarde. O capítulo 21 diz que o SENHOR visitou Sara como havia falado. Há quem entenda que a visita é o cumprimento deste "voltarei", e há quem entenda que a promessa de retorno é fórmula de despedida sem exigência de nova aparição. Não há consenso.

אֵלֶיךָ (elekha) — "a você"

A preposição de direção com sufixo de segunda pessoa masculina do singular.

O destinatário é Abraão, e o masculino singular do sufixo confirma. A fala inteira é dirigida a ele, embora termine falando dela.

כָּעֵת חַיָּה (ka'et hayyah) — "por esta época", literalmente "conforme o tempo vivo"

A preposição ke, "conforme", com o substantivo et, tempo, seguido do adjetivo hayyah, viva.

A expressão é discutida e ninguém sabe ao certo por que se diz assim. A leitura mais aceita entende "por esta mesma época do ano que vem"; outra entende "quando o tempo reviver", isto é, na mesma estação do ciclo agrícola; uma terceira, minoritária, liga o adjetivo à criança que estará viva. As duas primeiras dão praticamente o mesmo resultado.

A mesma fórmula aparece no anúncio que Eliseu faz à mulher de Suném, no segundo livro dos Reis, em cena muito parecida com esta.

וּלְשָׂרָה בֵן (ul-Sarah ven) — "e para Sara, um filho"

Conjunção, preposição le, o nome próprio, e o substantivo ben, filho.

Não há verbo nenhum. O hebraico dispensa o verbo "ser" nesse tipo de frase, de modo que a construção é gramaticalmente normal — o efeito, no fecho de um discurso, é de economia notável.

A preposição le marca posse ou destino: o filho é para ela, dela. E o menino não é nomeado aqui; o nome já havia sido dado no capítulo 17.

Nota — a tradução grega antiga e o eco em Lucas

Vale registrar, porque é dado de história do texto e porque explica uma das ligações mais citadas entre os dois Testamentos.

A Septuaginta, tradução grega do Antigo Testamento feita a partir do século terceiro antes da era comum, verteu esta pergunta com o verbo adynateo, ser impossível, e com o substantivo rhema, que é a escolha corrente para traduzir davar e que conserva a mesma dupla face de palavra e coisa.

No primeiro capítulo do evangelho de Lucas, a frase dita a Maria no anúncio de outro nascimento improvável usa esse mesmo verbo e esse mesmo substantivo, na mesma construção.

Ou seja: o eco é textual, e não apenas temático. Não são dois textos sobre o mesmo assunto; são as mesmas palavras gregas.

O limite precisa ser marcado. Que Lucas cite de propósito é leitura muito plausível — ele conhece bem a Septuaginta, imita o estilo dela nos capítulos iniciais e enche o relato da infância de alusões ao Antigo Testamento. Não é demonstrável, porque o evangelho não avisa que está citando e porque um autor de língua grega poderia formar a frase sem pensar em Gênesis.

Registro também o que se perde em português: como rhema traduz davar, a frase de Lucas conserva a ambiguidade do hebraico. "Nenhuma palavra será impossível da parte de Deus" e "nenhuma coisa será impossível" são a mesma frase em grego.

Nota — o que a pergunta afirma e o que ela não afirma

Uma nota teológica, porque este é o versículo mais citado do ciclo e o mais mal usado.

A pergunta afirma que nada está fora do alcance do SENHOR. É uma afirmação sobre capacidade.

Ela não afirma que todo pedido será atendido. É outra afirmação, sobre disposição, e o texto não a faz.

Dois dados do próprio contexto sustentam a distinção. O primeiro: ninguém pediu nada nesta cena. A promessa foi dada e repetida por iniciativa divina, e a pergunta responde a uma dúvida sobre uma palavra já empenhada. O segundo: em Jeremias, onde a mesma raiz reaparece, a afirmação vem imediatamente antes da confirmação de que Jerusalém cairá.

E a própria Bíblia registra pedidos negados a gente que ela apresenta como fiel — Moisés, Davi, Paulo. Nenhum desses textos sugere que faltou poder.

Registro como leitura do texto, e como a mais sóbria que ele permite: a frase sustenta a esperança e não sustenta a garantia. Prometer mais do que isso em nome dela é pôr na boca do texto o que ele não disse, e a conta é paga por quem rezou e não recebeu.

11. Conclusão

Tudo neste versículo depende de uma raiz de três consoantes que a nossa tradução verte por "difícil demais" e que quer dizer outra coisa. O campo dela é o do extraordinário: aquilo que ultrapassa a capacidade, que fica acima do alcance de quem tenta. Dela saem as palavras que os salmos usam para os prodígios e o nome que Isaías dá à criança prometida, Maravilhoso. A mesma raiz descreve a causa complicada demais para o juiz de aldeia e o conhecimento inalcançável do salmo — sempre medindo a distância entre uma coisa e uma capacidade. Aplicada ao SENHOR, produz uma pergunta cuja resposta esperada é que distância nenhuma existe.

A segunda palavra da pergunta é davar, que significa ao mesmo tempo palavra e coisa, e o hebraico não escolhe entre as duas. Pode-se ler "existe alguma coisa fora do alcance do SENHOR?" e pode-se ler "existe alguma promessa grande demais para ele cumprir?" — e a segunda leitura tem a seu favor o que acabou de acontecer na tenda, onde uma promessa foi recebida com riso. As duas cabem, e o texto as manteve juntas porque em hebraico são a mesma palavra.

A frase reaparece com a mesma raiz em dois lugares que valem mais do que qualquer explicação teórica. Em Zacarias, ela vem duplicada numa única sentença, opondo o que é extraordinário demais aos olhos do povo ao que seria extraordinário aos olhos de Deus — prova de que a raiz é relacional. E em Jeremias, ela é dita dentro de Jerusalém cercada, por um profeta preso que acabou de comprar um campo em terra que o inimigo vai ocupar e de mandar guardar a escritura num vaso de barro. Ali, a afirmação de que nada é difícil demais não impede nada: logo depois dela vem a confirmação de que a cidade cairá. Esse é o ambiente natural da frase no Antigo Testamento, e ele é bem mais sóbrio do que o uso corrente.

Daí decorre o cuidado que este comentário insiste em oferecer, porque é o ponto que a pregação atropela com mais frequência: a pergunta afirma alcance, não obrigação. Dizer que alguém é capaz de fazer não é dizer que fará, e essa distinção, que todos aplicam sem hesitar às relações humanas, evapora com facilidade suspeita quando o sujeito é Deus. A própria Bíblia fecha a porta com exemplos que ela mesma preservou: Moisés não entra na terra, o filho de Davi morre depois de sete dias de súplica, o espinho de Paulo não é retirado e a resposta que ele recebe muda de assunto. Nenhum desses textos sugere falta de poder. E há um dado do contexto que quase ninguém menciona: nesta cena, ninguém pediu nada. A garantia recai sobre uma palavra já empenhada, e não sobre um desejo apresentado em oração.

A metade esquecida do versículo é a que dá data à promessa. O tempo determinado é dito com a palavra das festas fixas do calendário e da tenda do encontro, e vem com artigo, remetendo a um prazo anunciado antes — três vezes em dois capítulos. Uma promessa datada aceita ser conferida: se o prazo passa e nada acontece, ela fica desmentida pelo calendário. A narrativa assume esse risco, e o capítulo 21 faz questão de registrar que o menino nasceu no tempo que havia sido dito. A fórmula do prazo, "conforme o tempo vivo", é discutida e reaparece no anúncio de Eliseu à mulher de Suném, em cena irmã desta, com outra mulher sem filhos que também respondeu com desconfiança.

E o fecho, depois de tudo isso, são três palavras em hebraico sem nenhum verbo: "e para Sara, um filho". A pergunta grandiosa sobre o alcance de Deus termina na frase mais econômica possível, dita ao marido e a respeito da mulher que está atrás da tenda, escutando de fora — a mesma posição do versículo 10. Sobra dessa cena um dado que não costuma ser dito: a promessa que ela ouviu com riso é repetida com prazo, e o riso não altera nem uma vírgula do conteúdo. Quanto ao eco desta frase na resposta dada a Maria, o texto grego repete aqui as mesmas palavras da tradução antiga — o que é fato — e que a citação seja proposital é leitura muito plausível, mas não demonstrada.

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Gênesis 18:14

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