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Mateus 21:21

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 15 acessos
Jesus respondeu: “Digo a vocês a verdade: se tiverem fé e não duvidarem, não só farão o que foi feito à figueira, mas também poderão dizer a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e assim acontecerá.
Vista do alto do Monte das Oliveiras ao amanhecer: à esquerda, do outro lado do vale, a esplanada do templo de Jerusalém; à direita, ao longe no deserto, o brilho do Mar Morto; em primeiro plano, Jesus fala a um grupo de discípulos ao lado de uma figueira seca.

Estudo


Jesus respondeu: “Digo a vocês a verdade: se tiverem fé e não duvidarem, não só farão o que foi feito à figueira, mas também poderão dizer a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e assim acontecerá.

1. Introdução

Os discípulos perguntaram como a figueira secou tão depressa, e Jesus não responde à pergunta. Responde com uma promessa: se eles tiverem fé e não duvidarem, farão o mesmo que foi feito à árvore, e mais — dirão a "este monte" que se lance no mar, e assim acontecerá.

A imagem do monte removido já apareceu em Mateus, longe de Jerusalém. O que é próprio deste versículo são três coisas: a figueira entra na promessa, e com ela um poder de destruir; o verbo da dúvida é outro, e o seu sentido é disputado; e o "este" aponta para um monte concreto, num lugar de onde se viam, ao mesmo tempo, o templo e o mar.

2. Contexto Histórico e Cultural

Onde a frase foi dita

A cena se passa na estrada de Betânia a Jerusalém, de manhã. Betânia fica na encosta leste do Monte das Oliveiras, e o caminho para a cidade sobe a serra e desce pelo outro lado, até o vale do Cedrom. Em algum ponto desse trajeto, entre a figueira e a cidade, Jesus diz "este monte".

Do alto do Monte das Oliveiras, a uns 800 metros de altitude, duas coisas estão à vista. A oeste, do outro lado do vale e um pouco abaixo, a esplanada do templo, inteira. A leste, ao fundo do deserto da Judeia, o Mar Morto, uns 400 metros abaixo do nível do mar e a pouco mais de vinte quilômetros em linha reta. O Mediterrâneo fica a mais de cinquenta quilômetros a oeste, atrás da serra. Quem dizia ali "este monte" e "o mar" falava de coisas que, num dia claro, se podiam apontar com a mão.

Dois montes frente a frente

O templo também era um monte, e tinha nome de monte. A Mishná (a compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) dedica um tratado inteiro às medidas do templo, chamado Middot (“medidas”). Ele começa a descrição do recinto assim: "O Monte da Casa tinha quinhentos côvados por quinhentos côvados" (Middot 2:1). Har ha-Bayit (“o Monte da Casa”) é o nome judaico da esplanada até hoje. Isaías já falava do "monte da casa do SENHOR" que seria elevado acima dos montes (Isaías 2:2).

Os dois montes estavam ligados por um ritual. O mesmo tratado conta que todos os muros do templo eram altos, menos o do lado leste, e explica por quê: o sacerdote que queimava a novilha vermelha (o rito de purificação de Números 19) ficava de pé no alto do Monte das Oliveiras e precisava olhar diretamente para a entrada do santuário no momento de aspergir o sangue (Middot 2:4). Outro tratado, Parah (“a novilha”), descreve uma rampa em arcos, construída do Monte da Casa ao Monte das Oliveiras, por onde saíam o sacerdote, a novilha e os ajudantes (Parah 3:6), e Middot 1:3 menciona o portão leste por onde passava esse cortejo.

Os textos são posteriores ao evangelho e descrevem o templo de memória, depois da destruição; os detalhes da rampa podem ser idealizados. Mas registram uma geografia que não mudou: o Monte das Oliveiras era o lugar de onde se olhava o templo de frente, e um rito do templo dependia disso. Quem estava naquela encosta e dizia "este monte" podia estar falando de qualquer um dos dois.

O monte nas esperanças de Israel

O Monte das Oliveiras tinha também o seu lugar nas expectativas do fim: Zacarias 14:4 anuncia que, no dia do SENHOR, os pés de Deus pousarão sobre ele e o monte se partirá ao meio. O texto e o seu peso para o leitor de Mateus estão no estudo de Mateus 21:1. Para este versículo, basta notar a diferença: em Zacarias, o monte se move porque Deus pisa nele; aqui, porque um discípulo fala.

3. Análise Teológica do Versículo

“Jesus respondeu: Digo a vocês a verdade”

A pergunta foi "como a figueira secou tão depressa?". A resposta não diz como. Não fala de poder divino, nem de natureza, nem da árvore. Passa direto para os discípulos: o que importa não é o mecanismo do que viram, mas o que eles mesmos poderão fazer. A fórmula solene que abre a frase marca o que vem como afirmação garantida por quem fala.

“se tiverem fé e não duvidarem”

Marcos tem a mesma promessa com duas diferenças. Ele começa com "Tenham fé em Deus" (Marcos 11:22) e diz, depois, que quem falar ao monte "não deve duvidar no seu coração, mas crer que acontecerá o que diz" (Marcos 11:23). Mateus tira o "em Deus" e tira o "coração". Fica uma fé sem objeto declarado, e uma condição dupla: ter fé e não duvidar.

A omissão do "em Deus" não significa que Mateus pense numa fé em si mesma, ou na própria palavra. O contexto inteiro é de discípulos falando com o mestre, e o versículo seguinte põe a fé dentro da oração. Mas significa que a frase de Mateus, isolada, pode ser lida como fé no próprio poder de dizer — e foi assim lida, ao longo da história, por quem fez dela uma técnica.

O "não duvidarem" é o centro da condição. A tradução comum supõe que o verbo grego significa "duvidar" no sentido moderno: hesitar, não ter certeza. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) o explica como a dúvida que vem de questionar e discutir. Mas o sentido da palavra é disputado. Fora do Novo Testamento, ela significa "separar, distinguir, julgar" e, na voz média, "disputar com alguém". Há estudiosos que negam que ela tenha significado "duvidar" alguma vez, e leem aqui algo como "não entrarem em disputa" ou "não ficarem divididos". A discussão de palavra está no item 10; para o sentido, as duas leituras convergem num ponto: o oposto da fé, aqui, não é a ignorância, é a divisão interior — estar com um pé em cada lado. A leitura de que a "incredulidade" do capítulo 17 é justamente essa fé dividida, e que se apoia nesta frase, está no estudo de Mateus 17:20.

“não só farão o que foi feito à figueira”

Esta frase é só de Mateus. Marcos passa da figueira direto para o monte; Mateus põe a figueira dentro da promessa. Os discípulos farão "o que foi feito à figueira" — no grego, literalmente, "a coisa da figueira".

Isso cria um problema que os comentários costumam pular. O que foi feito à figueira não foi uma cura. Foi uma destruição. A promessa, em Mateus, inclui o poder de fazer secar. Como ler isso?

Primeira leitura: a figueira é só o exemplo menor, o degrau para o monte — o "não só… mas também" aponta para isso. Mas não explica por que Mateus quis um exemplo de destruição, quando podia ter ficado com o monte, como Marcos.

Segunda leitura: os discípulos participarão do anúncio do juízo. Orígenes (teólogo de Alexandria do século III) já lia assim: os discípulos que falam a palavra de Cristo fazem secar as árvores estéreis. Depende, porém, de uma interpretação da figueira que Mateus não explicita.

Terceira leitura: o poder prometido é real, e inclui o castigo. O Novo Testamento conhece dois episódios em que apóstolos estão ligados a um efeito de castigo imediato: Safira cai morta diante de Pedro (Atos 5:10) e o mago Elimas fica cego pela palavra de Paulo (Atos 13:11). Nos dois, Lucas usa a mesma palavra de Mateus para "na mesma hora". Mas em nenhum lugar um discípulo faz secar uma árvore ou destrói alguma coisa por vontade própria, e quando Tiago e João propõem fazer descer fogo do céu sobre uma aldeia que não os recebeu, Jesus os repreende (Lucas 9:54-55).

O que se pode afirmar é que Mateus não suavizou a promessa: ela inclui a figueira. E que o resto do Novo Testamento, quando mostra esse poder em ação, o mostra raro, ligado a casos graves, e nunca a pedido de quem se sente contrariado.

“mas também poderão dizer a este monte”

O dito do monte já tinha sido dito em Mateus, depois da cura do menino, ao pé de outro monte (Mateus 17:20). A pergunta que é só deste versículo é a do demonstrativo: que monte é "este", aqui?

Primeira leitura: o Monte das Oliveiras. É o monte em que eles estão, ou que acabaram de atravessar. Bengel (Johann Albrecht Bengel, comentarista alemão do século XVIII) e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) o identificam assim. Para quem lia Zacarias, era também o monte que se partiria no dia do SENHOR (item 2). William Lane (comentarista norte-americano de Marcos, 1974) é dos que veem nessa lembrança uma camada da frase: o que Zacarias esperava de Deus, os discípulos poderiam pedir pela fé. Mas Mateus não cita Zacarias aqui.

Segunda leitura: o monte do templo. Da estrada, do outro lado do vale, estava o Monte da Casa. O Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX) já admitia que Jesus apontasse para o Moriá, "coroado pelo templo glorioso". Estudiosos modernos foram mais longe: em Marcos, onde a figueira emoldura a expulsão dos vendilhões, o monte lançado ao mar seria o próprio templo, e a promessa seria um anúncio do seu fim. A favor: a cena está cercada pelo templo — a expulsão na véspera, a pergunta sobre a autoridade logo depois (Mateus 21:23). E em Mateus o anúncio de que "não vai ficar aqui pedra sobre pedra" (Mateus 24:2) é seguido, no versículo seguinte, por Jesus sentado no Monte das Oliveiras: os dois montes ficam frente a frente na própria narrativa. Contra: ninguém, nos evangelhos, entende a frase assim, e a promessa é feita como encorajamento aos discípulos, não como sentença contra o templo.

Terceira leitura: é só uma maneira de falar. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) lê o dito como imagem natural para vencer o que parece impossível, sem monte determinado. A favor: o mesmo dito aparece em Mateus 17:20, longe de Jerusalém, e em Paulo como fórmula (1 Coríntios 13:2). Contra: o "este" é demonstrativo de proximidade, e o lugar, aqui, torna a escolha do monte tudo menos indiferente.

Os antigos foram para outro lado. Orígenes leu o monte como Satanás, lançado no abismo cada vez que alguém chega à fé. Agostinho de Hipona propôs uma leitura que mostra como a figueira se transformou em argumento contra os judeus: o monte seria o próprio Cristo, "lançado" pelos judeus entre os pagãos, como num mar, quando o Evangelho passou a outros povos. A leitura de Agostinho quer falar da missão aos gentios, mas o faz pondo "os judeus" como sujeito coletivo do ato de rejeitar — o mesmo deslizamento da figueira lida como sinagoga. Não há nada no versículo que a autorize.

Não é possível decidir entre as três leituras modernas. O que se pode afirmar é que, dita naquele trecho do caminho, a frase tinha diante dela os dois montes, e que o leitor de Mateus, que acabou de ver a expulsão no templo, dificilmente ouviria "este monte" como coisa neutra.

“‘Levante-se e atire-se no mar’”

No capítulo 17, a ordem ao monte era "Vá daqui para lá" (Mateus 17:20): mudar de lugar. Aqui é outra: ser erguido e lançado ao mar. Não é deslocamento; é desaparecimento. A forma do dito acompanha o contexto: ao lado de uma árvore que acaba de morrer, o monte também não muda de lugar — acaba.

Os dois verbos estão, no grego, numa forma passiva: "seja erguido e seja lançado". A ABC os traduz como reflexivos, "levante-se e atire-se", o que é natural em português. Mas a passiva deixa aberto quem ergue e quem lança. Em muitos ditos de Jesus, a passiva sem agente indica Deus como quem age; é leitura possível aqui, e muda o sentido: o discípulo fala, mas não é ele quem remove.

E "o mar"? Lido no lugar, é o Mar Morto, visível a leste do Monte das Oliveiras; o Pulpit Commentary pensa no Mediterrâneo; Gill nota apenas que o mar ficava a muitas milhas. Lido como imagem, o mar é o lugar de onde nada volta — como a manada que se precipita no mar em Gadara (Mateus 8:32) e a pedra de moinho que afunda com quem a leva ao pescoço (Mateus 18:6). As duas leituras não se excluem: um monte jogado num mar real é, de todo modo, um monte que sumiu.

“e assim acontecerá”

A promessa termina sem restrição. Marcos diz "será feito para ele"; Mateus diz simplesmente "acontecerá". O verbo é o mesmo que, no versículo 19, Jesus usou para negar que o fruto "nascesse" da figueira. A palavra que impediu o fruto de vir a ser é a mesma que garante que o monte deixará de ser.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Responde aos discípulos ainda diante da figueira seca, na estrada de Betânia para Jerusalém.

Os discípulos

O grupo que perguntou no versículo 20. São eles os destinatários da promessa, no plural: "se tiverem fé", "farão", "poderão dizer".

“Este monte”

Não identificado no texto. As candidaturas são o Monte das Oliveiras, onde a cena se passa, e o Monte do Templo, do outro lado do vale do Cedrom (item 3).

O mar

Também não identificado. O mais próximo e visível do Monte das Oliveiras é o Mar Morto, a leste. O Mediterrâneo fica a oeste, longe da vista.

Os paralelos

Marcos 11:22-23 traz a promessa com "tenham fé em Deus" e "não duvidar no seu coração", sem a menção à figueira. Mateus 17:20 traz o dito do monte em outra forma ("vá daqui para lá"), depois da cura do menino. Lucas 17:6 o traz com uma amoreira que se planta no mar.

Os intérpretes citados

Orígenes, teólogo de Alexandria do século III. Agostinho de Hipona, bispo do norte da África, morto em 430. Bengel, Gill e Ellicott, comentaristas dos séculos XVIII e XIX. William Lane, comentarista de Marcos. Peter Spitaler, estudioso do grego do Novo Testamento, no item 10. Nikolai Berdiaev, filósofo russo, no item 6.

5. Pontos de Ensino

1. Jesus não responde ao "como". A pergunta pelo mecanismo do milagre fica sem resposta. O que ele oferece é uma promessa sobre os próprios discípulos.

2. O contrário da fé, aqui, é a divisão. A condição não é saber mais nem sentir mais; é não estar dividido entre crer e não crer, ou não estar em disputa com aquilo em que se crê.

3. Mateus pôs a figueira dentro da promessa. O poder prometido inclui o que foi feito à árvore, e isso não é cura. O resto do Novo Testamento mostra esse lado do poder raro, grave e nunca ao serviço de quem se sente contrariado.

4. "Este" é uma palavra de lugar. Dita na encosta do Monte das Oliveiras, de frente para o Monte do Templo, a frase não aponta para um monte qualquer. Qual dos dois, o texto não diz.

5. O monte não muda de lugar: some. A forma do dito aqui não é a do capítulo 17. Ao lado de uma árvore morta, o monte também acaba no mar.

6. Leituras antigas podem ensinar o que não fazer. A leitura de Agostinho, que faz "os judeus" lançarem Cristo ao mar dos povos, mostra como um texto sobre fé pode ser convertido em acusação coletiva.

6. Aspectos Filosóficos

Mover montanhas: magia ou criação?

O versículo promete que uma palavra dita com fé pode agir sobre a natureza: secar uma árvore, lançar um monte ao mar. Essa é, ponto por ponto, a promessa que a magia sempre fez. O mago também diz e acontece. A pergunta filosófica que o versículo levanta é se a fé de que Jesus fala é uma forma superior de magia — o poder de dominar o mundo pela palavra certa — ou outra coisa. Nikolai Berdiaev passou boa parte da vida tentando separar as duas.

Quem foi Berdiaev

Berdiaev (1874-1948) foi marxista na juventude, voltou-se para o cristianismo ortodoxo, foi expulso da Rússia soviética em 1922 no chamado "navio dos filósofos" e viveu o resto da vida perto de Paris. O centro do seu pensamento é a liberdade, que ele punha acima de tudo, até da ordem do mundo. O livro em que ele trata da magia é O sentido do ato criador (1916).

A magia pertence à necessidade

Em O sentido do ato criador, Berdiaev dedica um capítulo à magia e ao ocultismo, e a tese dele é surpreendente. A magia, para ele, não é o contrário da ciência; é a sua irmã mais velha. As duas querem o mesmo: poder sobre a natureza. As duas funcionam do mesmo modo: descobrem as leis ocultas que regem as coisas e as usam. O mago que pronuncia a fórmula e o engenheiro que aciona a máquina estão, ambos, dentro do reino da necessidade. Mandam no mundo obedecendo às regras dele.

O ato criador é outra coisa. Ele não manipula o que existe segundo as suas leis; faz surgir o que não estava contido nelas. Para Berdiaev, o homem foi chamado a ser cocriador com Deus — não a administrar o mundo como ele é, mas a acrescentar ao mundo algo novo, que nasce da liberdade e não da necessidade. Por isso a magia, por mais espetacular que seja, é para ele uma forma de escravidão: o mago depende da fórmula, e quem depende da fórmula não é livre.

O que isso diz do versículo

Lida com essa distinção, a promessa de Jesus pode ser entendida de dois modos.

No primeiro, ela é magia: existe uma condição técnica — ter fé e não duvidar — e quem a cumpre obtém o efeito, como quem acerta a fórmula. É a leitura que, na história, fez da fé uma técnica de obter resultados, e o versículo, sem o "em Deus" que Mateus omitiu, se presta a ela.

No segundo, ela é liberdade: a fé não é técnica para fazer o mundo obedecer, mas a participação numa liberdade maior que a do mundo, e por isso capaz de fazer surgir o que não estava previsto. O critério que Berdiaev oferece para distinguir as duas é preciso: a magia busca poder sobre as coisas; a criação busca algo novo e bom que antes não existia. Quem quer mover o monte para mostrar que pode está do lado da magia.

A própria cena complica a distinção, e é honesto dizê-lo. O que foi feito à figueira não criou nada; destruiu. E o monte, nesta forma do dito, também não muda de lugar: some no mar. Se o critério de Berdiaev é fazer surgir o novo, o exemplo que Mateus oferece é, à primeira vista, o contrário. A saída possível é ler a destruição como sinal — o fim de algo estéril para que outra coisa surja —, mas isso já é interpretação da figueira, não dado do texto.

O limite

Berdiaev não comenta este versículo, e a aproximação é nossa. Ele também foi acusado, com razão, de fazer da liberdade um absoluto tão grande que a própria ordem moral parece estreita perto dela. O que o pensamento dele oferece ao versículo é uma pergunta útil e uma distinção: diante de qualquer promessa de poder pela fé, perguntar se ela serve para dominar o que existe ou para fazer surgir o que é bom. O texto de Mateus não faz essa distinção. A história da sua leitura mostra que ela faz falta.

7. Aplicações Práticas

Fé não é fórmula

A condição "não duvidarem" é a parte do versículo mais fácil de transformar em arma. Quando ela vira técnica, quem não obteve passa a ser culpado de ter duvidado. O dano dessa leitura, e a resistência de Mateus a ela, estão no estudo de Mateus 21:22. Aqui basta dizer o que o versículo pede: não um esforço para expulsar toda hesitação, mas uma confiança que não esteja em disputa consigo mesma.

O poder e a contrariedade

A promessa inclui "o que foi feito à figueira". Quem tem alguma forma de poder — de palavra, de autoridade, de influência — é tentado a usá-lo contra o que o contraria. A repreensão a Tiago e João, que queriam fogo do céu sobre uma aldeia que os recusou, é o comentário que o próprio Novo Testamento faz a essa tentação.

Estar inteiro

O que a condição pede é não estar dividido. Não é preciso esperar montes no mar para que isso tenha aplicação: decisões tomadas pela metade, compromissos assumidos com um pé fora, orações feitas sem esperar resposta são a forma comum da divisão interior. O versículo dá nome a ela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que Jesus não explicou como a figueira secou?

O texto não diz. A resposta muda de assunto, e isso por si é uma indicação: para Mateus, o interesse da cena não estava no mecanismo do milagre, e sim no que ele revelava sobre a fé dos discípulos.

O mar é o Mar Morto?

Se a frase foi dita no Monte das Oliveiras, o Mar Morto era o mar à vista. Mas o dito existia antes desta cena, em outras formas, e o mar pode ser apenas a imagem do lugar de onde nada volta. As duas leituras são possíveis.

Se o monte é o templo, Jesus estava anunciando a destruição de 70?

É o que sustentam os que leem "este monte" como o Monte do Templo. O templo foi destruído pelos romanos no ano 70, cerca de quarenta anos depois. Mas o versículo não fala de destruição feita por Deus nem pelos romanos; fala do que os discípulos poderão dizer com fé. A leitura exige que a promessa seja ao mesmo tempo encorajamento e anúncio velado, e o texto não confirma nem exclui isso.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma promessa em Marcos

Marcos 11:22-23 — “Jesus respondeu: Tenham fé em Deus. Eu lhes asseguro que, se alguém disser a este monte: Levante-se e lance-se no mar, e não duvidar no seu coração, mas crer que acontecerá o que diz, assim lhe será feito.”

Com "em Deus", com "no coração", sem a figueira. As três diferenças que Mateus produz.

Montes que caem no mar

Salmo 46:2-3 — “Por isso não temeremos, ainda que a terra se transforme e os montes se abalem no coração dos mares; ainda que as águas rujam e espumem, e os montes tremam com a sua fúria.”

O salmo de Sião: os montes desabam no mar, e a cidade de Deus permanece. Lida ao lado de "este monte" dito diante do templo, a imagem se inverte — e é provável que nenhum dos ouvintes tenha feito a ligação. Fica como eco, não como fonte.

Apocalipse 8:8 — “O segundo anjo tocou a trombeta, e algo como uma grande montanha ardendo em fogo foi lançado no mar.”

A única outra passagem do Novo Testamento em que um monte é "lançado no mar", com o mesmo verbo. Ali é juízo cósmico.

Jeremias 51:25 — “Eis que estou contra você, ó monte destruidor, diz o SENHOR, que destrói toda a terra. Estenderei a mão contra você, o farei rolar das rochas e farei de você um monte queimado.”

Babilônia chamada de "monte". Nos profetas, um poder pode ser um monte, e o monte pode ser derrubado por Deus.

O monte do templo

Mateus 24:2 — “Mas ele lhes disse: ‘Vocês veem tudo isto? Eu afirmo a vocês: não vai ficar aqui pedra sobre pedra; tudo será derrubado.’”

O anúncio do fim do templo, dito ao sair dele e comentado, no versículo seguinte, já sentado no Monte das Oliveiras.

O verbo da dúvida em outros lugares

Tiago 1:6 — “Mas peça com fé, sem duvidar nada; pois quem duvida é como a onda do mar, levada e agitada pelo vento.”

O mesmo verbo, e também o mar — mas agora como imagem de quem duvida. O mar que engole o monte é o mesmo que joga de um lado para outro o homem dividido.

O poder e os seus limites

Atos 13:11 — “Agora a mão do Senhor está contra você; você ficará cego e não verá o sol por algum tempo. No mesmo instante caíram sobre ele névoa e escuridão, e ele andava procurando quem o guiasse pela mão.”

Um dos raros castigos imediatos ligados à palavra de um apóstolo — e com prazo: "por algum tempo".

Lucas 9:54-55 — “Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: Senhor, quer que mandemos descer fogo do céu para consumi-los? Mas Jesus, voltando-se, os repreendeu.”

O poder de destruir, pedido pelos discípulos, recusado por Jesus.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus respondeu: “Digo a vocês a verdade: se tiverem fé e não duvidarem, não só farão o que foi feito à figueira, mas também poderão dizer a este monte: ‘Levante-se e atire-se no mar’, e assim acontecerá.

Texto grego (Textus Receptus)

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς, Ἀμὴν λέγω ὑμῖν, ἐὰν ἔχητε πίστιν, καὶ μὴ διακριθῆτε, οὐ μόνον τὸ τῆς συκῆς ποιήσετε, ἀλλὰ κἂν τῷ ὄρει τούτῳ εἴπητε, Ἄρθητι, καὶ βλήθητι εἰς τὴν θάλασσαν, γενήσεται.

Transliteração

Apokritheis de ho Iēsous eipen autois, Amēn legō hymin, ean echēte pistin, kai mē diakrithēte, ou monon to tēs sykēs poiēsete, alla kan tō orei toutō eipēte, Arthēti, kai blēthēti eis tēn thalassan, genēsetai.

O Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue) coincide, neste versículo, com as edições críticas no que afeta o sentido. Conferido no Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

Ἀποκριθεὶς δὲ ὁ Ἰησοῦς εἶπεν αὐτοῖς — apokritheis de ho Iēsous eipen autois, “e, respondendo, Jesus lhes disse”. Apokritheis é o particípio aoristo passivo de apokrinomai, “responder”.

Ἀμὴν λέγω ὑμῖν — amēn legō hymin, “em verdade lhes digo”.

ἐὰν ἔχητε πίστιν — ean echēte pistin, “se tiverem fé”. Condição possível, com ean e subjuntivo. Pistin sem complemento: Mateus não diz "fé em Deus", como Marcos 11:22 (echete pistin theou).

καὶ μὴ διακριθῆτε — kai mē diakrithēte, “e não duvidarem”.

Diakrithēte é o subjuntivo aoristo passivo de diakrinō, formado de dia, “através, entre”, e krinō, “separar, julgar”. O sentido básico é "separar uma coisa da outra", e daí "distinguir", "decidir entre", "julgar". Esse é o sentido com que a palavra aparece em Mateus 16:3, "discernir a aparência do céu", cujo estudo a analisa nesse uso.

Na voz média e passiva, o verbo ganha outro valor. No grego clássico e no da época, significa "entrar em disputa com alguém", "discutir": é o sentido de Atos 11:2, em que os de Jerusalém "discutiam" com Pedro, e de Judas 9, em que o arcanjo Miguel "disputava" com o diabo. Mas em vários textos do Novo Testamento — Mateus 21:21, Marcos 11:23, Romanos 4:20, Romanos 14:23, Tiago 1:6, Judas 22 e talvez Atos 10:20 — os dicionários dão um sentido diferente: "duvidar", "hesitar", "vacilar". A explicação habitual é que o verbo teria desenvolvido, no grego cristão, um sentido novo: a disputa interior, estar dividido entre duas decisões.

Esse "sentido novo" foi contestado. Peter Spitaler (estudioso do grego do Novo Testamento) sustentou, numa série de artigos publicados entre 2006 e 2009 nas revistas Biblica, Filología Neotestamentaria e Novum Testamentum, que não há prova de que o verbo tenha significado "duvidar" antes do Novo Testamento, e que os próprios autores cristãos antigos, que falavam grego, não o leram assim nesses versículos. Para ele, o sentido é sempre o de disputa ou contestação. Aplicada a Mateus, a leitura daria algo como "se tiverem fé e não entrarem em disputa" — com Deus, com a palavra que receberam, ou entre si.

A tese de Spitaler não é a opinião da maioria, e os dicionários continuam a registrar "duvidar". Mas ela mostra que a tradução corrente é uma escolha, não um dado. As duas leituras têm um ponto em comum: a raiz é a da separação. Quem "duvida", no sentido corrente, está separado de si mesmo; quem "disputa", está separado de quem confia. Em nenhum dos dois casos o problema é falta de informação.

Em Mateus, o verbo da dúvida de Pedro sobre a água é outro, distazō (Mateus 14:31), que reaparece no fim do livro, quando alguns dos onze "duvidaram" diante do ressuscitado (Mateus 28:17). O evangelho tem, portanto, duas palavras para o que o português chama de dúvida, e não as mistura.

οὐ μόνον τὸ τῆς συκῆς ποιήσετε — ou monon to tēs sykēs poiēsete, “não só farão o da figueira”.

To tēs sykēs é uma construção grega muito econômica: o artigo neutro to, “o”, seguido do genitivo tēs sykēs, “da figueira”. Literalmente, "a coisa da figueira", "o caso da figueira". A ABC desdobra em "o que foi feito à figueira", que é o sentido. Poiēsete é o futuro de poieō, “fazer”. É afirmação, não possibilidade: "farão".

ἀλλὰ κἂν τῷ ὄρει τούτῳ εἴπητε — alla kan tō orei toutō eipēte, “mas, ainda que digam a este monte”.

Kan é a contração de kai ean, “e se”, “mesmo se”, “ainda que”. Tō orei toutō, “a este monte”, é a mesma expressão de Mateus 17:20, com o demonstrativo de proximidade houtos, “este aqui”. Eipēte é o subjuntivo aoristo de legō, “dizer”: um ato único de fala.

Ἄρθητι — Arthēti, “seja levantado”. Imperativo aoristo passivo de airō, “erguer, levantar, carregar, tirar”. É o verbo de "tomar a cruz" (Mateus 16:24) e de "o Reino será tirado de vocês" (Mateus 21:43). A ABC traduz "Levante-se".

καὶ βλήθητι εἰς τὴν θάλασσαν — kai blēthēti eis tēn thalassan, “e seja lançado no mar”.

Blēthēti é o imperativo aoristo passivo de ballō, “lançar, atirar”. É o verbo das árvores sem fruto "lançadas ao fogo" (Mateus 3:10; 7:19) e o mesmo de Apocalipse 8:8, a montanha "lançada no mar". A ABC traduz "atire-se".

Os dois imperativos são passivos, e a passiva sem agente expresso deixa aberto quem ergue e quem lança. O português "levante-se e atire-se" faz do monte o agente de si mesmo; o grego o deixa como quem sofre a ação. Muitos estudiosos leem nesse tipo de passiva, frequente nos ditos de Jesus, uma forma reverente de indicar a ação de Deus sem nomeá-lo. É leitura plausível aqui, não demonstrável.

Thalassa é "mar", palavra que em Mateus serve também para o lago da Galileia (Mateus 4:18).

γενήσεται — genēsetai, “acontecerá”. Futuro médio de ginomai, “vir a ser, acontecer” — o mesmo verbo de Mateus 21:19, no "nunca mais nasça fruto de você". O verbo que lá negou o vir a ser do fruto aqui o garante ao que for dito.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que Mateus fez da figueira parte da promessa. Ao acrescentar "o que foi feito à figueira", ele não deixa a cena da árvore como um episódio isolado de poder; põe esse poder, inclusive no seu lado destrutivo, nas mãos dos discípulos. E o resto do Novo Testamento mostra que esse lado foi tratado com extrema reserva.

A segunda é que a condição da promessa não é intensidade, e sim inteireza. Seja "duvidar", seja "entrar em disputa", o verbo fala de separação. O que impede o monte de se mover, nesta frase, não é a falta de força de quem fala, mas a divisão entre o que diz e aquilo em que confia.

A terceira é que "este monte" não é, aqui, uma figura sem endereço. Dita entre o Monte das Oliveiras e o Monte do Templo, com o Mar Morto à vista e a expulsão dos vendilhões na véspera, a frase carrega o lugar dentro dela. Qual dos montes Jesus apontava, o texto não decide; que o leitor de Mateus não podia ouvi-la como coisa neutra, o contexto deixa claro.

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Mateus 21:21

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