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Mateus 21:20

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 19 acessos
Ao verem isso, os discípulos ficaram admirados e perguntaram: “Como a figueira secou tão depressa?”
Um grupo de discípulos de túnica parados numa estrada de pedra, olhando espantados para uma figueira de galhos secos e folhas murchas, com a luz da manhã e as muralhas de Jerusalém ao fundo.

Estudo


Ao verem isso, os discípulos ficaram admirados e perguntaram: “Como a figueira secou tão depressa?”

1. Introdução

Os discípulos veem a figueira secar diante deles e fazem a pergunta mais simples possível: como foi tão depressa? O versículo é curto e carrega uma das divergências mais claras entre os evangelhos. Em Mateus, a árvore seca "na mesma hora", e os discípulos assistem; em Marcos, ninguém vê nada no momento, e a árvore só é encontrada seca na manhã seguinte.

Mateus usa aqui uma palavra para "imediatamente" que não usa em nenhum outro lugar do livro. Os discípulos se admiram, mas a admiração deles pergunta pelo modo, não pelo sentido. E ninguém, em Mateus, chama o gesto de maldição.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como os antigos contavam a ordem dos fatos

A pergunta que este versículo impõe — a árvore secou na hora ou no dia seguinte? — é antiga, e a resposta depende do que se esperava, na época, de quem narrava a vida de alguém.

A primeira notícia que se tem sobre a escrita de um evangelho já trata disso. Papias, bispo de Hierápolis na primeira metade do século II, cujo livro se perdeu, é citado por Eusébio de Cesareia na História Eclesiástica (livro III, capítulo 39). Segundo ele, Marcos, que foi intérprete de Pedro, escreveu com exatidão tudo o que lembrava das palavras e dos atos do Senhor, "mas não em ordem". Papias não acha isso um defeito; diz que Marcos não errou ao escrever algumas coisas tal como se lembrava, porque o cuidado dele era não omitir nada e não dizer nada falso. Já no começo do século II, portanto, a ordem dos episódios não era a medida da verdade de um evangelho.

A biografia antiga e a compressão

Os evangelhos se parecem, na forma, com as biografias greco-romanas, as "vidas" de homens ilustres. O grande autor do gênero é Plutarco (escritor grego do fim do século I), que compôs dezenas de vidas paralelas de gregos e romanos. Comparando as vidas em que Plutarco conta o mesmo acontecimento mais de uma vez, os estudiosos encontram nele, com frequência, recursos que hoje pareceriam descuido: dois fatos de dias diferentes contados como se fossem um só, uma ação de vários atribuída a um, um intervalo apagado para que a cena fique mais clara.

Michael Licona (estudioso norte-americano do Novo Testamento) dedicou um livro inteiro a essa comparação, Por que há diferenças nos evangelhos? (2017). A tese é que os evangelistas usam as mesmas técnicas de Plutarco, e que a compressão do tempo é uma delas. Aplicada ao versículo: Mateus teria juntado num só momento o que Marcos espalha por dois dias. A tese tem críticos — há quem ache que ela explica demais e serve para harmonizar qualquer coisa —, mas tem a vantagem de apoiar a explicação no que os autores antigos de fato faziam.

Agostinho e a harmonia dos evangelhos

Os cristãos perceberam cedo que os evangelhos não coincidem. No fim do século II, Taciano (escritor cristão vindo da Síria) fundiu os quatro numa narrativa única, o Diatessaron (“através dos quatro”), que foi lido por séculos nas igrejas de língua siríaca. Quem funde é obrigado a escolher, e a figueira obrigava a escolher entre um dia e dois.

Por volta do ano 400, Agostinho de Hipona escreveu Sobre a concordância dos evangelistas, a primeira obra dedicada a enfrentar as diferenças uma por uma. No livro II, capítulo 68, ele trata exatamente deste caso. A solução dele é que a árvore secou de fato no momento em que foi amaldiçoada, mas os discípulos só a viram seca no dia seguinte, e que Mateus, contando tudo de uma vez, juntou o que aconteceu em dias diferentes. Agostinho acrescenta que eles não viram a árvore secando, e sim já completamente seca.

A solução é engenhosa, mas tem um custo: o "como secou tão depressa?" de Mateus supõe que eles perceberam a rapidez, o que é mais fácil de entender se assistiram.

O caminho oposto: multiplicar os fatos

Mil anos depois, a mesma pressão produziu o resultado contrário. Andreas Osiander (reformador luterano de Nuremberg) publicou em 1537 uma harmonia dos evangelhos em que, para que nenhum detalhe de nenhum evangelista ficasse "errado", ele multiplicava os acontecimentos. O caso mais famoso é o das negações de Pedro: como os evangelhos variam nos interlocutores, Osiander concluiu que Pedro negou Jesus seis vezes. Aplicado à figueira, o método levaria a duas árvores, ou a dois momentos de seca.

Entre a compressão de Agostinho e a multiplicação de Osiander está o problema inteiro: quando dois relatos não batem, quem conta melhor, e o que significa "contar certo"?

3. Análise Teológica do Versículo

“Ao verem isso”

Em Mateus, os discípulos veem. O que eles veem é a árvore secando — ou já seca — no próprio momento da palavra. Em Marcos, o momento é só de ouvir: "e os seus discípulos ouviram isso" (Marcos 11:14). A visão vem no dia seguinte: "de manhã, ao passarem, viram a figueira seca desde as raízes" (Marcos 11:20).

A diferença não é pequena. Em Marcos, há uma noite entre a palavra e o efeito, e no meio dessa noite está a expulsão dos vendilhões do templo. Em Mateus, palavra e efeito são o mesmo instante, e os discípulos são testemunhas oculares. A cena de Marcos pede que o leitor ligue as coisas; a de Mateus mostra tudo de uma vez.

“os discípulos ficaram admirados”

Em Mateus, quem costuma se admirar são as multidões, diante das curas (Mateus 9:33; 15:31), ou os adversários, diante de uma resposta (Mateus 22:22), ou Pilatos, diante do silêncio (Mateus 27:14). Os discípulos se admiram só duas vezes no livro: aqui e no barco, quando o vento e o mar obedecem (Mateus 8:27).

As duas cenas são milagres sobre a natureza, e as duas terminam numa pergunta. Mas as perguntas são diferentes. No barco: "Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?" Aqui: "Como a figueira secou tão depressa?" A primeira pergunta é sobre a pessoa; a segunda, sobre o fenômeno. Os discípulos que no capítulo 8 se perguntavam quem era Jesus, e no capítulo 16 já o confessaram como o Cristo, perguntam agora pelo mecanismo.

A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) observa que eles viram no gesto um ato de poder, e não um sinal. É uma leitura possível: ninguém pergunta por que a árvore foi condenada, nem o que ela significa. E Jesus, ao responder, também não explica a árvore; fala da fé deles.

“e perguntaram”

Em Marcos, quem fala é Pedro, e fala por memória: "Pedro, lembrando-se, disse: Mestre, olhe! A figueira que o senhor amaldiçoou secou" (Marcos 11:21). Mateus tira Pedro e põe o grupo. Tira também a lembrança, que não é necessária quando tudo aconteceu diante dos olhos. E tira a palavra "amaldiçoou".

Em todo o relato de Mateus, ninguém chama o gesto de maldição. Jesus diz "Nunca mais nasça fruto de você"; os discípulos perguntam como a árvore secou; Jesus responde sobre a fé. O nome com que a cena ficou conhecida — "a figueira amaldiçoada" — vem de Marcos. Mateus conta o mesmo gesto sem lhe dar esse nome. Se isso foi escolha deliberada, o texto não diz; o efeito é que, em Mateus, a cena se apresenta como sentença e demonstração, não como imprecação.

“Como a figueira secou tão depressa?”

Aqui está a divergência. Mateus: a árvore secou "na mesma hora", e os discípulos se espantam com a rapidez. Marcos: a árvore foi encontrada seca na manhã seguinte, e o espanto de Pedro é por ela ter secado, não pela velocidade.

Os relatos também diferem no calendário inteiro. Em Marcos, a semana tem três dias nesse trecho: no primeiro, Jesus entra na cidade, olha o templo e sai; no segundo, condena a árvore e expulsa os vendilhões; no terceiro, a árvore é vista seca. Em Mateus, são dois: a entrada e a expulsão no mesmo dia (Mateus 21:10-12), a árvore e o seu fim na manhã seguinte. Mateus não só acelera a figueira; reorganiza a semana.

As leituras da divergência são quatro.

Primeira: Mateus comprimiu o tempo. A árvore secou no momento, mas só foi vista no dia seguinte, e Mateus juntou as duas coisas numa cena. É a solução de Agostinho (item 2), retomada por Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e pelo Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX). A favor: a compressão era técnica comum das biografias antigas. Contra: a pergunta "tão depressa?" é estranha na boca de quem só viu o resultado um dia depois.

Segunda: algo começou a ser visto na hora. Ellicott (Charles John Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) sugere que o início do secamento pode ter sido notado por alguns no momento, e o fim, no dia seguinte. A favor: concilia as duas versões sem atribuir erro a nenhuma. Contra: não está em nenhum dos dois textos; é uma terceira história, montada para salvar as duas.

Terceira: Mateus intensifica o milagre, como faz em outros lugares. É um hábito documentado do evangelho. Em Marcos, Jairo diz que a filha "está morrendo" (Marcos 5:23); em Mateus, ele diz "acaba de morrer" (Mateus 9:18). Em Marcos, os discípulos no barco ficam espantados porque "o coração deles estava endurecido" (Marcos 6:52); em Mateus, eles adoram Jesus como Filho de Deus (Mateus 14:33). Mateus encurta o intervalo e aumenta o efeito. Nessa leitura, o "na mesma hora" é parte do mesmo estilo. A favor: o padrão é real. Contra: explica a forma da narração, não o que aconteceu.

Quarta: o imediato serve à lição. Em Mateus, a resposta de Jesus é dada na hora, diante da árvore ainda à vista: "não só farão o que foi feito à figueira" (Mateus 21:21). Para que a lição sobre a fé tenha diante dela o efeito da palavra, o efeito precisa estar ali. Mateus faz a pergunta e a resposta acontecerem no mesmo lugar. A favor: explica por que a cena foi montada assim. Contra: é leitura sobre a intenção, que o texto não declara.

O que se pode afirmar é que os dois relatos não coincidem, e que nenhuma harmonização dá conta deles sem acrescentar algo que nenhum dos dois diz. A divergência é um dado. Ela mostra que os evangelistas contavam a mesma tradição com liberdade sobre o tempo e a ordem, e que essa liberdade não incomodava os primeiros leitores, como Papias deixa claro (item 2). Não é possível decidir, a partir dos textos, quanto tempo a árvore levou para secar.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os discípulos

O grupo inteiro, sem nomes. São eles que veem e perguntam. Em Marcos, o porta-voz é Pedro (Marcos 11:21); Mateus o tira da cena.

A figueira

A árvore da estrada entre Betânia e Jerusalém, condenada no versículo anterior. Agora seca.

O tempo

A manhã do segundo dia de Jesus em Jerusalém, segundo a cronologia de Mateus. Em Marcos, a cena equivalente se passa na manhã do terceiro dia.

Os paralelos

Marcos 11:20-21 conta a descoberta da árvore seca "desde as raízes" no dia seguinte, com a fala de Pedro. Lucas e João não têm o episódio.

As pessoas citadas

Papias, bispo de Hierápolis, na Ásia Menor, no começo do século II, conhecido só por citações. Eusébio de Cesareia, historiador da igreja do século IV, que o cita. Plutarco, biógrafo grego do fim do século I. Taciano, autor do Diatessaron, a primeira fusão dos quatro evangelhos, no fim do século II. Agostinho de Hipona, bispo do norte da África, morto em 430. Andreas Osiander, reformador luterano de Nuremberg no século XVI. Michael Licona, estudioso norte-americano contemporâneo. Pável Florenski, padre e matemático russo, no item 6.

5. Pontos de Ensino

1. Os evangelhos não contam a mesma cena do mesmo jeito. Na hora em Mateus, no dia seguinte em Marcos. A diferença está à vista de qualquer leitor que abra os dois livros lado a lado, e não deve ser escondida.

2. Os antigos sabiam disso e não se escandalizavam. Papias, no começo do século II, já dizia que Marcos não escreveu "em ordem". A exatidão de um evangelho não era medida pelo cronômetro.

3. Harmonizar tem um preço. Toda solução que concilia os dois relatos acrescenta algo que nenhum dos dois diz. Agostinho comprimiu; Osiander multiplicou. É melhor saber o que se está acrescentando do que fingir que não se acrescenta nada.

4. A admiração pode parar no fenômeno. Os discípulos perguntam "como", não "por quê". A pergunta deles é pelo poder, não pelo sentido, e a resposta de Jesus os desloca da árvore para a fé que eles mesmos podem ter.

5. Mateus não chama o gesto de maldição. O nome popular da cena vem de Marcos. Em Mateus, ela é sentença e demonstração.

6. Aspectos Filosóficos

Duas versões que não coincidem: contradição ou antinomia?

O versículo põe o leitor diante de dois relatos do mesmo fato que não podem ser verdadeiros ao pé da letra ao mesmo tempo. A árvore não secou na hora e também no dia seguinte. Diante disso, há dois reflexos. O primeiro é eliminar a tensão, harmonizando. O segundo é usar a tensão para declarar os dois relatos falsos. Pável Florenski oferece um terceiro caminho — e, aplicado a este caso, ele ajuda sobretudo a ver os seus próprios limites.

Quem foi Florenski

Florenski (1882-1937) foi matemático, físico, padre ortodoxo e teólogo. Trabalhou na eletrificação da Rússia soviética sem tirar a batina, foi preso em 1933, mandado para o campo das ilhas Solovki e fuzilado em 1937. O seu livro principal, A coluna e o fundamento da verdade (1914), é escrito como uma série de cartas a um amigo.

A verdade como antinomia

Numa dessas cartas, dedicada à contradição, Florenski afirma que a verdade, quando se trata das realidades últimas, é antinomia. Antinomia é o par de afirmações que se contradizem para a razão e que, mesmo assim, precisam ser sustentadas juntas. Para ele, a razão humana quer verdades sem fissura, que se deixem demonstrar de ponta a ponta; mas uma verdade assim seria do tamanho da razão que a produz. Uma verdade maior que a razão aparece a ela, necessariamente, dividida em dois lados que não se fecham. O exemplo dele é o dogma cristão, que afirma Deus uno e trino, Cristo plenamente Deus e plenamente homem. Querer resolver essas tensões, dizia Florenski, é o caminho das heresias: cada uma escolhe um lado e joga fora o outro.

A consequência é uma desconfiança profunda da harmonização apressada. Quem harmoniza a qualquer preço supõe que a verdade tem de caber num desenho sem pontas, e para isso apara o que sobra.

O que isso diz sobre a figueira

À primeira vista, Florenski parece dar razão a quem prefere deixar as duas versões lado a lado, sem forçá-las a coincidir. Agostinho e Osiander, cada um a seu modo, aparam o texto para que tudo encaixe. Florenski diria que o desejo de encaixe é ele mesmo suspeito.

Mas é justamente aqui que a aproximação precisa ser feita com cuidado, porque ela pode virar uma desculpa. A antinomia de Florenski diz respeito ao mistério de Deus, não à cronologia de uma semana em Jerusalém. A questão de saber se a árvore secou em minutos ou durante a noite não é uma verdade que ultrapassa a razão; é uma questão histórica, com respostas históricas comuns — a compressão das biografias antigas, a liberdade dos evangelistas com a ordem, o estilo de Mateus. Chamar essa divergência de antinomia seria dar a um problema de narração a dignidade de um mistério, e isso blindaria qualquer erro de leitura contra o exame.

O que Florenski oferece, portanto, é um critério de separação. Há tensões que a razão deve resolver e tensões que deve suportar. A divergência entre Mateus e Marcos sobre o tempo pertence ao primeiro tipo: pode ser explicada, e é honesto explicá-la sem fingir que os textos dizem a mesma coisa. Já a pergunta que a cena levanta — um poder que age sobre a natureza pela palavra, e que os discípulos são chamados a partilhar — talvez pertença ao segundo, e a resposta de Jesus, no versículo seguinte, não a resolve.

O limite

Florenski não comenta este versículo, e a sua teoria da antinomia foi pensada para o dogma, não para as diferenças entre evangelhos. A aproximação é nossa. Ela não serve para santificar a contradição entre os relatos; serve para distinguir o que, num texto, é questão de método histórico e o que é questão de fé — e para impedir que uma seja usada para fugir da outra.

7. Aplicações Práticas

Ler as diferenças com honestidade

Quem lê a Bíblia com atenção vai encontrar relatos que não coincidem. Este é um dos mais simples de verificar: basta abrir Mateus 21 e Marcos 11. A reação madura não é esconder a diferença nem fazer dela uma prova de que tudo é falso. É perguntar o que cada autor quis mostrar ao contar de um jeito e não de outro. Essa disposição serve para o resto da leitura, e também fora dela: duas pessoas que contam o mesmo fato de modo diferente nem sempre estão mentindo.

Do espanto à pergunta certa

Os discípulos se espantam e perguntam pelo mecanismo. É uma reação natural, e a resposta de Jesus a desloca: em vez de explicar como a árvore secou, ele fala do que eles mesmos podem fazer se crerem. O espanto diante do extraordinário pode ficar preso ao fenômeno, ou pode virar uma pergunta sobre a própria vida. A cena registra o primeiro movimento e a resposta que empurra para o segundo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Então um dos dois evangelhos está errado?

Se "errado" significa "não conta os fatos na ordem e no tempo em que aconteceram", ao menos um deles conta de modo diferente do que aconteceu, e é provável que seja Mateus, que comprime. Mas os próprios antigos não mediam a verdade de um relato por esse critério, e Mateus não pretendia escrever um diário. Se "errado" significa "falso no que quer ensinar", a divergência não demonstra isso.

Mateus conhecia o relato de Marcos?

A maioria dos estudiosos acha que sim: Mateus usou Marcos como uma das suas fontes e reescreveu muitas passagens dele. Se for assim, a mudança do tempo foi consciente. Mas a dependência de Marcos é hipótese, a mais aceita, não um fato documentado.

Por que Mateus tirou Pedro da cena?

O texto não diz. Mateus muitas vezes põe "os discípulos" onde Marcos tem um nome, e outras vezes faz o contrário, dando a Pedro falas que Marcos não tem (Mateus 14:28-31; 15:15). Aqui, como todos viram a árvore secar, faz sentido que todos perguntem.

A figueira secou em segundos?

O texto diz "na mesma hora", e a palavra grega é a dos acontecimentos instantâneos (item 10). Não descreve o processo; diz que o efeito foi imediato e visível o bastante para causar espanto. Nada mais se pode afirmar.

Faz diferença em que dia a árvore secou?

Para a lição sobre a fé, não. Para entender como Mateus trabalhou, faz: a mudança de dia desfaz a moldura que Marcos tinha montado entre a figueira e o templo, e mostra que Mateus quis outra coisa da cena.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma cena em Marcos

Marcos 11:20-21 — “De manhã, ao passarem, viram a figueira seca desde as raízes. Pedro, lembrando-se, disse a Jesus: Mestre, olhe! A figueira que o senhor amaldiçoou secou.”

No dia seguinte, com Pedro como porta-voz, com a lembrança e com a palavra "amaldiçoou". Os três elementos que Mateus não tem.

A outra vez em que os discípulos se admiram

Mateus 8:27 — “Os homens ficaram admirados e diziam: ‘Quem é este, que até os ventos e o mar lhe obedecem?’”

O único outro milagre sobre a natureza em que os discípulos se admiram. Lá, a pergunta é "quem"; aqui, "como".

Mateus encurtando o tempo em outros lugares

Mateus 9:18 — “Enquanto ele lhes dizia estas coisas, eis que um chefe veio e se prostrou diante dele, dizendo: A minha filha acaba de morrer; mas vem e põe a tua mão sobre ela, e ela viverá.”

Marcos 5:23 — “e lhe suplicava muito, dizendo: Minha filhinha está morrendo. Venha impor as mãos sobre ela, para que seja curada e viva.”

Em Marcos, a morte da menina é anunciada no meio do caminho, por mensageiros; em Mateus, o pai já chega dizendo que ela morreu. É o mesmo movimento do "na mesma hora": o intervalo some.

“Na mesma hora” nas curas de Lucas

Lucas 4:39 — “Inclinando-se sobre ela, repreendeu a febre, e a febre a deixou. Na mesma hora ela se levantou e começou a servi-los.”

A mesma palavra grega de Mateus 21:19-20, usada por Lucas para a cura da sogra de Pedro. Em Lucas, o advérbio é sobretudo palavra de cura; em Mateus, só aparece na figueira.

“Num instante”, na Septuaginta

Isaías 30:13 — “Por isso esta culpa será para vocês como uma brecha prestes a cair, como uma barriga num muro alto, que desaba de repente, num instante.”

A tradução grega usa a palavra de Mateus para o desabamento repentino de um muro, imagem do juízo sobre quem confiou no que não devia. É a ocorrência da Septuaginta mais próxima, em tom, da figueira que seca.

A árvore que seca no próprio Mateus

Mateus 13:6 — “Mas, quando o sol se levantou, ela se queimou e, por não ter raiz, secou.”

O mesmo verbo de "secar", na parábola do semeador. Lá, o que seca não tinha raiz; Marcos dirá da figueira que secou "desde as raízes".

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Ao verem isso, os discípulos ficaram admirados e perguntaram: “Como a figueira secou tão depressa?”

Texto grego (Textus Receptus)

Καὶ ἰδόντες οἱ μαθηταὶ ἐθαύμασαν, λέγοντες, Πῶς παραχρῆμα ἐξηράνθη ἡ συκῆ;

Transliteração

Kai idontes hoi mathētai ethaumasan, legontes, Pōs parachrēma exēranthē hē sykē?

O texto do Textus Receptus (“texto recebido”, a edição grega do século XVI que a ABC segue) coincide aqui com o das edições críticas modernas. Foi conferido no Bible Hub e na edição de Scrivener publicada pelo eBible.

Análise palavra por palavra

Καὶ ἰδόντες — kai idontes, “e, tendo visto”. Particípio aoristo de horaō, “ver”, no plural. É o mesmo verbo com que começa o versículo anterior ("vendo uma figueira"): Jesus viu a árvore com folhas; os discípulos veem a árvore seca. A cena se fecha com o mesmo olhar com que se abriu.

οἱ μαθηταὶ — hoi mathētai, “os discípulos”. De manthanō, “aprender”: os aprendizes. O grupo, sem nome.

ἐθαύμασαν — ethaumasan, “admiraram-se”. Aoristo de thaumazō, “espantar-se, maravilhar-se”, da família de thauma, “coisa espantosa”. O verbo não tem, por si, valor positivo ou negativo: é o espanto diante do inesperado. Em Mateus, ele serve às multidões depois das curas (Mateus 9:33; 15:31), aos fariseus depois da resposta sobre o imposto (Mateus 22:22), a Pilatos diante do silêncio de Jesus (Mateus 27:14), e ao próprio Jesus diante da fé do centurião (Mateus 8:10). Os discípulos são sujeito dele só aqui e em Mateus 8:27.

λέγοντες — legontes, “dizendo”. Particípio presente de legō. A ABC traduz por "perguntaram", porque o que segue é uma pergunta.

Πῶς — Pōs, “como?”. Advérbio interrogativo de modo. Pode, em grego, ter também valor de espanto ("como é possível que…?"), e é provável que tenha os dois aqui: pergunta e exclamação ao mesmo tempo. Não é dia ti, “por quê?”, a forma que os discípulos usam em Mateus 17:19 para pedir a causa de um fracasso.

παραχρῆμα — parachrēma, “imediatamente, no mesmo instante”.

A palavra é formada de para, “junto de”, e chrēma, “coisa, negócio, assunto”. Literalmente, "junto à coisa": no ato, na hora do fato, sem intervalo. É expressão do grego comum, que o português "no ato" reproduz bem.

No Novo Testamento, aparece 18 vezes. Duas são em Mateus, aqui e no versículo anterior. As outras dezesseis são de Lucas: dez no evangelho e seis em Atos. Marcos e João não a usam nunca. Marcos tem a sua própria palavra para "imediatamente", euthys, que usa mais de quarenta vezes; Mateus, quando quer dizer "logo", costuma usar eutheōs. Que Mateus troque a sua palavra habitual por uma que só usa nesta cena é um indício, pequeno, de que ele quis marcar o instante.

Em Lucas, a palavra é sobretudo de cura: a sogra de Pedro se levanta (Lucas 4:39), o paralítico se ergue (Lucas 5:25), o sangue da mulher para (Lucas 8:44), a filha de Jairo se levanta (Lucas 8:55), a mulher encurvada se endireita (Lucas 13:13), o cego vê (Lucas 18:43). Mas não só: é também a palavra do galo que canta depois da terceira negação de Pedro (Lucas 22:60).

Em Atos, ela tem dois lados. Serve à cura do coxo na porta do templo (Atos 3:7), e serve aos castigos: Safira cai morta "no mesmo instante" (Atos 5:10), Herodes é ferido (Atos 12:23), o mago Elimas fica cego (Atos 13:11). A palavra que em Lucas marca o instante da cura marca também o instante do juízo.

Na Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita a partir do século III a.C.), parachrēma traduz o hebraico pit’om, “de repente”, em Números 12:4, Isaías 29:5 e Isaías 30:13 — nos dois textos de Isaías, a súbita queda de quem estava sob juízo. Aparece também em Sabedoria 18:17, sobre os pesadelos que assaltam de repente os egípcios na noite da morte dos primogênitos, e em 2 Macabeus 4:34 e 4:38.

Em Mateus, portanto, a única vez em que o livro usa a palavra do instante é para uma árvore que morre. Não para uma cura.

ἐξηράνθη — exēranthē, “secou”. Aoristo passivo de xērainō, o mesmo verbo do versículo anterior, analisado no estudo de Mateus 21:19. A repetição é literal: os discípulos perguntam com as mesmas palavras com que a cena foi narrada.

ἡ συκῆ — hē sykē, “a figueira”. Sujeito no fim da frase, como no versículo anterior. As duas frases terminam na mesma palavra.

A ordem do grego é: "Como imediatamente secou a figueira?". O advérbio vem antes do verbo, colado ao "como". O espanto não é por ela ter secado; é pela rapidez. A ABC preserva isso com o "tão depressa".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que Mateus e Marcos contam o mesmo episódio com tempos incompatíveis, e que nenhuma solução os torna idênticos sem acrescentar algo que nenhum dos dois diz. A divergência não precisa ser escondida nem transformada em escândalo: ela mostra como os evangelistas trabalhavam, com liberdade sobre a ordem e o tempo que os primeiros leitores conheciam e aceitavam.

A segunda é que, em Mateus, a cena foi montada para ser vista. Os discípulos assistem, perguntam na hora, e a resposta é dada com a árvore diante deles. Desaparecem a noite de intervalo, a lembrança de Pedro e a palavra "maldição"; fica uma demonstração com testemunhas, que prepara a lição do versículo seguinte.

A terceira é que a pergunta dos discípulos é menor do que o acontecimento. Eles querem saber como, não por quê. A resposta de Jesus não explica a árvore — e assim deixa claro que o centro da cena, para Mateus, não estava na figueira.

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