De modo que a multidão se admirava, ao ver os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos vendo; e glorificaram o Deus de Israel.
1. Introdução
Este é o versículo que decide a leitura do bloco inteiro, e ele decide por causa de três palavras no fim da frase.
A multidão vê o que aconteceu, admira-se e glorifica — não "a Deus", como em outros lugares deste mesmo evangelho, mas "o Deus de Israel". A diferença parece mínima e não é: duas palavras a mais mudam o ponto de vista de quem fala.
Se a leitura estiver certa, a consequência é grande. A multidão dos versículos 30 a 38 seria majoritariamente estrangeira, e a alimentação que vem a seguir seria uma refeição de gentios, logo depois do episódio em que uma mulher de fora teve de arrancar uma migalha a custo de argumento. A tese é forte, é bem fundamentada e não é consenso — a análise teológica expõe os dois lados e não decide.
Antes disso, porém, há três coisas menores e mais firmes na primeira metade do versículo: a lista repetida fora de ordem, o único item dela que não recebe verbo, e um jogo entre "ver" e "cegos vendo" que o grego arma e o português desmancha.
2. Contexto Histórico e Cultural
Como se identificava um deus no mundo antigo
A frase "o Deus de Israel" pressupõe uma paisagem religiosa em que existem vários deuses reconhecíveis e é preciso dizer de qual se fala. Essa era a paisagem normal do Mediterrâneo antigo.
Cada cidade, cada povo e cada santuário tinha a sua divindade titular, e a maneira corrente de nomeá-la era pelo vínculo: a deusa dos efésios, o deus dos filisteus, o senhor de tal cidade. Inscrições, tratados e cartas antigas usam essa gramática o tempo todo. Um fenício de Tiro diria "Melcart, senhor de Tiro"; um habitante da Decápole nomearia o Zeus da sua cidade. Dentro dessa gramática, "o Deus de Israel" é a maneira óbvia de quem está fora referir-se ao Deus daquele povo: não é fórmula de desprezo, é a fórmula do registro.
A mesma fórmula na boca de israelitas
Aqui está a contraprova, e ela precisa vir antes de qualquer conclusão, porque sem ela a leitura vira militância.
A expressão é frequentíssima na Bíblia hebraica em contextos internos. A bênção "Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel" fecha o Salmo 41, o Salmo 72 e o Salmo 106 — isto é, três dos cinco livros em que o Saltério se divide. Salomão a usa na oração de dedicação do Templo, em 1 Reis 8:15 e 8:23. Davi a usa em 1 Crônicas 29:10. E Zacarias, sacerdote judeu, abre o cântico de Lucas 1:68 exatamente assim.
Portanto: um judeu podia dizer, dizia e diz "o Deus de Israel", sobretudo em registro de bênção formal. Quem apresentar a fórmula como marca exclusiva de estrangeiros está errado, e o erro é verificável em qualquer concordância.
A confissão do estrangeiro, que é um gênero
Dito isso, há um segundo uso, e ele é literariamente marcado. A Bíblia hebraica tem uma série de cenas em que alguém de fora reconhece o Deus de Israel, e essas cenas seguem um padrão.
Raabe, em Jericó, diz aos espias que o SENHOR deles é Deus em cima nos céus e embaixo na terra, em Josué 2:11. Os filisteus, com a arca capturada e uma praga em curso, referem-se repetidamente ao "Deus de Israel" e acabam por devolvê-la, em 1 Samuel 5 e 6. Os marinheiros do navio de Jonas, depois da tempestade, temem ao SENHOR e oferecem sacrifício, em Jonas 1:16. Ciro, no édito de Esdras 1:2-3, manda reconstruir a casa "do Deus que está em Jerusalém".
E há um caso que merece destaque neste capítulo, porque combina estrangeiro, cura e confissão. Naamã, general sírio, é curado da sua doença de pele ao mergulhar sete vezes no Jordão, volta ao profeta e declara: "Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel", em 2 Reis 5:15.
O paralelo é notável e o seu limite precisa ser dito: ele mostra que a sequência cura de estrangeiro seguida de confissão do Deus de Israel é padrão conhecido, e não que Mateus 15:31 seja um caso dele. Mostra que, se for, o leitor antigo o reconheceria imediatamente.
O que era "glorificar a Deus" na prática
A expressão não descreve um sentimento: descreve um ato verbal público, dizer em voz alta alguma coisa que atribui a Deus o que aconteceu. No ambiente judaico esse ato tinha forma consagrada — a bênção, iniciada por "Bendito sejas tu, SENHOR", que a tradição rabínica multiplicou para ocasiões específicas, inclusive para acontecimentos extraordinários.
Um gentio não teria essa fórmula. Teria, quando muito, uma aclamação, e é isso que os relatos de cura dos santuários gregos registram: a proclamação pública do poder do deus. O versículo não diz o que a multidão falou — diz só o verbo, e por isso não permite decidir entre a bênção e a aclamação.
A população da margem oriental não era compartimentada
Para avaliar o versículo é preciso ter em mente que "gentio" e "judeu", naquela faixa, não eram compartimentos estanques. A região a leste e a nordeste do lago tinha cidades de constituição grega, aldeias de população mista e comunidades judaicas estabelecidas; Josefo, historiador judeu do primeiro século, descreve tensões e convivência em várias delas. Havia ainda os simpatizantes — gentios atraídos pelo monoteísmo e pela ética judaica, frequentadores de sinagoga sem conversão plena, que o livro de Atos chama de "tementes a Deus".
Essa categoria intermediária desfaz a dicotomia. Um temente a Deus diria "o Deus de Israel" com naturalidade, porque a expressão descreve exatamente a sua posição: reconhece aquele Deus e não pertence àquele povo. A pergunta "esta multidão é judaica ou pagã?" pode estar mal formulada para a realidade social da região — e o texto, que não descreve ninguém, não oferece meio de refiná-la.
3. Análise Teológica do Versículo
"De modo que a multidão se admirava"
A frase abre com uma conjunção de resultado, e não de finalidade. O que se descreve não é o objetivo das curas: é o efeito que elas produziram. Gramaticalmente, o versículo inteiro é subordinado ao anterior — ele não narra um fato novo, mede a repercussão do fato já narrado.
O verbo da reação é o do espanto diante do que excede a expectativa, e ele não carrega, por si, adesão religiosa. Em Mateus admiram-se os discípulos, as multidões, os adversários derrotados numa discussão e Pilatos diante do silêncio do réu. Admirar-se não implica crer, e o texto não diz que aquela gente creu.
"ao ver"
Aqui está um jogo que o grego faz e o português desmancha. O mesmo verbo aparece duas vezes no versículo: a multidão está "vendo", e o último item da lista dos curados são os cegos "vendo". A frase termina com a repetição exata da palavra com que a descrição começou.
O efeito é o de um espelho. Quem enxergava olha; quem não enxergava passa a olhar; e o verbo é um só. Os que sempre viram são descritos com o mesmo termo que descreve os que acabaram de receber a visão — e o que os primeiros fazem com o que veem é admirar-se e glorificar.
Não convém carregar demais a observação: o verbo é comuníssimo, e a repetição pode ser economia de vocabulário. O dado é registrável como leitura possível, e não como afirmação sobre a intenção do autor. Vale lembrar, de todo modo, que o versículo 14 deste capítulo falou de "guias cegos de cegos" em sentido moral, e que aqui a cegueira é física — o evangelho usa o mesmo campo nos dois planos sem sinalizar a passagem.
"os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos vendo"
A ordem mudou. No versículo 30 a sequência foi mancos, cegos, mudos, aleijados; aqui é mudos, aleijados, mancos, cegos — os dois pares trocaram de lugar em bloco. Se isso é composição deliberada, variação para evitar repetição literal ou acaso, não é possível decidir; repetir uma lista com a ordem alterada é recurso conhecido na prosa antiga, e produz efeito de moldura.
Mais interessante é que três dos quatro itens recebem verbos de ação e um não recebe. Os mudos estão falando, os mancos andando, os cegos vendo: três verbos, cada um nomeando exatamente a função que faltava.
Os aleijados, porém, não recebem verbo. Recebem um adjetivo: "sãos". A construção muda no meio da lista.
A razão provável é simples e é linguística. Para as outras três condições existe uma função perdida que pode ser nomeada por um verbo — falar, andar, ver. Para um membro atrofiado ou mutilado não existe verbo equivalente; o que se pode dizer é que o membro voltou a estar íntegro. A língua não oferece a forma, e o autor usa o adjetivo.
Mas o adjetivo escolhido tem história dentro do próprio evangelho. Em Mateus 12:13, na cura do homem da mão ressequida, o texto diz que a mão "foi restituída sã como a outra" — mesma palavra. E aquela cena aconteceu numa sinagoga, num sábado, no meio de uma controvérsia com os fariseus sobre o que é lícito fazer no dia de descanso.
Ou seja: o único termo da lista que não é verbo é justamente o que reaparece de uma controvérsia anterior com o mesmo partido religioso que abre o capítulo 15. Registro a conexão como observação de vocabulário. Que Mateus a tenha construído é hipótese; que a palavra seja a mesma é verificável.
Há ainda um ponto que a leitura devocional costuma exagerar e convém conter. "Sãos" não diz que membros amputados foram recriados. O adjetivo significa "em bom estado, íntegro", e cobre desde a recuperação funcional até a restauração completa. O que aconteceu concretamente, o texto não descreve — nem aqui, nem no versículo 30, nem em lugar nenhum deste bloco. Quem afirma mais está preenchendo lacuna.
"e glorificaram o Deus de Israel"
Chega-se ao ponto, e convém desmontá-lo devagar, porque é o achado do bloco e porque a tentação de exagerá-lo é grande.
Esta é a única ocorrência de "o Deus de Israel" em Mateus. Em todo o evangelho, ninguém mais fala assim.
E o evangelho tem uma cena de comparação quase perfeita. Em Mateus 9:8, depois da cura do paralítico, "as multidões, vendo isso, se admiraram e glorificaram a Deus, que dera tal autoridade aos homens". O mesmo verbo, no mesmo tempo, na mesma posição, precedido do mesmo verbo de admiração e do mesmo particípio de ver. E lá o objeto é simplesmente "Deus".
Ponha-se as duas frases lado a lado e o acréscimo salta. Num caso, "glorificaram a Deus". No outro, "glorificaram o Deus de Israel". O mesmo autor escreveu as duas.
A pergunta que isso levanta é direta: por que qualificar? A resposta mais econômica é que se qualifica quando é preciso distinguir. Quem tem um só Deus não precisa dizer de que povo ele é; quem convive com vários precisa.
O argumento inteiro, com os seus apoios
A tese de que esta multidão é majoritariamente gentia — e portanto de que a alimentação que vem a seguir é uma refeição de pagãos — apoia-se em cinco indícios, de pesos muito diferentes.
O principal é a fórmula deste versículo, e a sua força vem menos do uso geral da expressão do que da comparação com Mateus 9:8: o evangelista tinha a forma curta e usou a longa exatamente aqui. O mais concreto é a travessia do versículo 39, que leva Jesus de barco para os limites de Magadã, na margem ocidental — travessia desnecessária se ele já estivesse nela, e argumento que não depende de nenhum outro evangelho. Somam-se a esses o itinerário de Marcos 7:31, que faz o retorno passar pelo meio da Decápole; a composição do capítulo, que põe uma cena de atendimento em massa logo depois do episódio em que a extensão da missão para fora de Israel é o assunto explícito; e os números da refeição, diferentes dos do capítulo 14, que a tradição interpretativa antiga associa às nações.
O que pesa contra, e pesa de verdade
Nenhum argumento sério sobrevive sem ser confrontado com o que o contraria, e aqui o que contraria pesa.
A fórmula é judaica também: fecha três livros do Saltério, está na oração de Salomão e abre o cântico de um sacerdote no Templo. Mateus não escreve Decápole em ponto nenhum do evangelho, e argumentar a partir de Marcos é usar um texto para preencher a lacuna de outro — o silêncio dele é, ele mesmo, um dado. O versículo 24 está sete linhas antes, com a declaração mais restritiva da missão em todo o livro, e um autor que a escreve pode muito bem escrever "o Deus de Israel" para marcar que a multidão é Israel. A população daquela margem era mista, com gentios simpatizantes para quem a fórmula seria a mais natural do mundo. E o argumento dos números é circular: só funciona depois de aceita a conclusão que deveria sustentar, e Mateus nunca explica cifra nenhuma — em Mateus 16:9-10 elas aparecem como dados de memória, sem uma palavra de interpretação.
Formulação final, com o grau de certeza
A leitura de que esta multidão é majoritariamente gentia é forte e bem fundamentada: explica a escolha da fórmula aqui em contraste com Mateus 9:8, explica a travessia do versículo 39, encaixa na composição do capítulo e é coerente com o itinerário de Marcos. É a leitura que dá conta do maior número de dados.
E ela não é consenso. Depende de combinar Mateus com Marcos num ponto em que Mateus se cala; depende de tratar como marcador uma expressão que também é litúrgica judaica; e tem contra si a declaração restritiva do versículo 24, no mesmo capítulo.
Não é possível decidir com o material disponível. O que se pode fazer é dizer qual leitura é mais forte, por quê, e onde ela deixa de ser demonstrável: apresentá-la como fato seria passar inferência por informação, e descartá-la seria ignorar indícios que convergem.
Um detalhe que os dois lados costumam esquecer
A multidão glorifica a Deus. Não glorifica Jesus, que sequer é mencionado no versículo.
Isso é constante em Mateus quando o sujeito é a multidão. Já os discípulos, no capítulo anterior, dentro do barco, fazem outra coisa: adoram Jesus e dizem "verdadeiramente tu és o Filho de Deus", em Mateus 14:33. O evangelho mantém com cuidado essa distinção de perspectiva — as multidões reconhecem a ação de Deus através de alguém, e o círculo íntimo formula quem é esse alguém. Sobre o que aquela gente pensava a respeito de quem a curara, o texto se cala inteiramente.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A multidão
É o sujeito dos dois verbos do versículo: admira-se e glorifica. É a mesma dos versículos 30 e 32, e o personagem coletivo mais importante do bloco.
Os quatro grupos, agora em estado invertido
Os mesmos do versículo anterior, descritos pelo que passaram a poder fazer. Continuam sem nome, sem número e sem fala individual.
Note-se a mudança de posição gramatical: no versículo 30 eram objeto direto dos verbos da multidão; aqui aparecem em orações reduzidas, com verbos próprios — falando, andando, vendo. Pela primeira vez no bloco eles são sujeito de alguma coisa, ainda que dentro de uma subordinada. A cura, no texto, aparece também como uma mudança de função sintática.
Jesus
Não é mencionado. Nem por nome, nem por pronome. O versículo inteiro transcorre sem referência a ele — o que é notável num relato de milagre. O sujeito da cura desapareceu da frase, e o que ocupa o lugar é o efeito. Só no versículo 32 ele reaparece, e reaparece falando.
Israel, como nome no evangelho
Mateus usa "Israel" doze vezes, e duas dessas ocorrências merecem atenção ao lado do versículo 31. Em Mateus 8:10 e em 9:33, quem fala de Israel fala de dentro: "em Israel" é o horizonte de comparação de quem pertence. Aqui a construção é outra — não "em Israel", mas "o Deus de Israel". A diferença entre situar-se dentro de um povo e nomear o Deus desse povo é sutil e é real.
O evento: uma reação, e não um fato novo
Nada acontece neste versículo além da reação. Do ponto de vista da composição, porém, é o mais informativo do bloco, porque é o único que diz alguma coisa sobre quem estava ali. Todos os outros descrevem o que se fez; este descreve o que se disse — e é pela fala que a identidade de um grupo se deixa entrever.
5. Pontos de Ensino
O verbo "ver" abre e fecha a descrição
A multidão está vendo; o último item da lista são os cegos vendo. Mateus tinha outros verbos de visão e usou o mesmo duas vezes. O efeito de espelho está no texto; a intenção é hipótese.
Um dos quatro itens não recebe verbo, e a exceção tem explicação
Mudos falam, mancos andam, cegos veem — três funções recuperadas, três verbos. Os aleijados recebem um adjetivo: "sãos". Não há verbo, em língua nenhuma, para voltar a ter o membro íntegro. E o adjetivo escolhido é o mesmo de Mateus 12:13, na cura da mão ressequida em dia de sábado, diante dos fariseus.
"Sãos" não afirma reconstituição de membros amputados
O adjetivo significa "íntegro, em bom estado", e cobre desde recuperação funcional até restauração completa. O texto não descreve o que aconteceu fisicamente, aqui nem no versículo anterior. Quem detalha está preenchendo lacuna.
A comparação decisiva é com Mateus 9:8
Lá, uma multidão galileia se admirou e glorificou a Deus. Aqui, glorificaram o Deus de Israel. Mesmo verbo, mesmo tempo, mesma sequência de admiração e de visão — e um acréscimo que só se justifica quando é preciso especificar de qual Deus se fala. É o indício mais forte da tese gentílica, e é interno ao evangelho.
A fórmula, sozinha, não prova nada
"Deus de Israel" fecha três livros do Saltério, está na oração de Salomão e abre o cântico de um sacerdote judeu em Lucas 1:68. Quem a apresenta como marcador exclusivo de gentios comete erro verificável em qualquer concordância.
A multidão glorifica a Deus, não Jesus
É constante em Mateus quando o sujeito é a multidão. O reconhecimento da identidade de Jesus fica com o círculo íntimo, como em Mateus 14:33. O versículo não diz nada sobre o que aquela gente pensava a respeito de quem os curara.
6. Aspectos Filosóficos
O limite desta leitura
A leitura abaixo é filosófica, e por isso mesmo é de fora. Mateus não teoriza sobre valor, sobre prova nem sobre inferência: registra uma reação em três palavras.
Glória é reputação ou é peso?
A palavra grega que se traduz por glória significava, no uso comum, opinião, parecer, reputação — está na raiz de "ortodoxia" e de "paradoxo". Os tradutores da Bíblia grega a recrutaram para verter um termo hebraico cuja raiz é "peso". A análise do original examina esse percurso; o que interessa aqui é o problema que a soma das duas coisas cria.
Reputação e peso são categorias opostas. Reputação é o que os outros pensam de alguém: existe na cabeça de terceiros e varia com eles. Peso é propriedade do próprio objeto: existe independentemente de quem observa. Ao juntar as duas numa palavra só, o vocabulário bíblico produziu uma tensão que atravessa o tema inteiro.
É a mesma tensão que a filosofia moral discute sob outros nomes. De um lado, a posição de que o valor é conferido: algo vale porque alguém o valoriza, e fora das avaliações humanas não há valor nenhum — é a linha que vai de David Hume, para quem o juízo moral exprime um sentimento do observador e não uma propriedade do objeto, até as éticas contemporâneas que tratam o valor como projeção. Do outro, a posição de que o valor é encontrado: existe antes do juízo, e o juízo acerta ou erra a seu respeito.
Glorificar, no sentido do versículo, pertence claramente ao segundo campo: não é conferir importância, é admiti-la. E a distinção tem consequência prática imediata. Se glória é reputação, ela se administra — constrói-se, cultiva-se, defende-se. Se glória é peso, ela se constata. Boa parte da religiosidade preocupada em "dar glória" opera silenciosamente no primeiro registro, como se o peso dependesse do volume da aclamação.
Quando indícios fracos somados valem alguma coisa
Nenhum dos cinco argumentos a favor da leitura gentílica é conclusivo isoladamente. Juntos, formam um caso respeitável. Vale examinar por que isso funciona, porque o raciocínio é usado o tempo todo e quase nunca é explicitado.
Ele tem nome. Gilbert Harman batizou-o em 1965 de inferência à melhor explicação: diante de vários dados, aceita-se provisoriamente a hipótese que os explicaria melhor do que qualquer concorrente. Não é dedução — a conclusão pode ser falsa com todas as premissas verdadeiras —, e é assim que se trabalha em história, em medicina, em investigação criminal e na maior parte da ciência empírica.
A força do procedimento vem da independência entre os indícios. Se eles apontam na mesma direção sem derivarem uns dos outros, a coincidência entre eles é improvável caso a hipótese seja falsa. A palavra decisiva é independentes: cinco ecos de uma voz só não valem mais do que uma voz.
Aqui alguns são de fato independentes. A travessia de barco do versículo 39 não tem relação nenhuma com a escolha de uma fórmula no versículo 31, e o itinerário de Marcos é outro documento. Outros não são: os números da refeição só apontam para gentios se já se aceitar a chave simbólica, que por sua vez pressupõe o que se quer provar.
A disciplina consiste em fazer essa contabilidade honestamente. Feita a separação, o caso continua bom e fica menor do que parecia — e é por isso que uma defesa com três argumentos independentes é mais forte do que uma com sete, dos quais quatro são ecos.
7. Aplicações Práticas
Reparar em como as pessoas nomeiam as coisas
Toda a leitura deste versículo depende de duas palavras acrescentadas a um nome. Não do que a multidão fez, não do que ela sentiu: de como ela chamou aquilo que reconheceu.
O mesmo vale em qualquer conversa. As pessoas revelam a sua posição menos pelo que afirmam do que pelas qualificações que julgam necessárias. Quem diz "a nossa empresa" e quem diz "a empresa em que trabalho" estão descrevendo o mesmo lugar e ocupando posições diferentes. Quem diz "a igreja" e quem diz "a igreja deles"; quem diz "meu país" e quem diz "esse país".
A aplicação não é psicologia de bolso. É escutar com mais atenção o que o interlocutor sente necessidade de explicitar, porque ali está a informação sobre onde ele se coloca — informação que ele quase nunca daria se fosse perguntado diretamente. E vale também a inversa: prestar atenção às próprias qualificações, que denunciam pertencimentos e distâncias que talvez ainda não se tenha admitido.
O espanto não é adesão
A multidão se admira. O evangelho não diz que creu, que seguiu, que mudou de vida ou que se lembrou daquilo na semana seguinte.
Isso tem aplicação direta em qualquer trabalho que produza efeito emocional forte — pregação, ensino, terapia, liderança, arte. A reação intensa é gratificante para quem a provoca e é péssimo indicador de resultado. A sala que sai emocionada e a sala que sai transformada podem ser a mesma, e podem não ser, e não há como distinguir no momento.
O critério prático é temporal e chato: o que permanece trinta dias depois. Quem quiser saber se o que fez teve efeito precisa aceitar que a informação não está disponível no dia, e resistir a tomar o entusiasmo imediato como medida.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
"O Deus de Israel" prova que a multidão era pagã?
Não prova. Indica, com força considerável, e por um motivo específico: em Mateus 9:8, diante de uma multidão galileia, o mesmo autor escreveu apenas "glorificaram a Deus". A comparação interna é o argumento real, e não o uso geral da expressão. Em sentido contrário pesam o uso judaico da fórmula e a declaração restritiva do versículo 24. A leitura é forte e não é consenso.
Por que Mateus não diz simplesmente onde a cena se passa?
Não se sabe. Ele escreve "junto ao mar da Galileia" no versículo 29 e não volta ao assunto. Marcos, no lugar paralelo, especifica a Decápole.
As explicações possíveis são abreviação de estilo, desinteresse pela nomenclatura administrativa ou reserva teológica. Nenhuma é verificável. O que se pode registrar é que a lacuna é do texto, e que ela está justamente onde a discussão inteira gostaria de encontrar uma resposta.
A multidão passou a crer em Jesus?
O texto não diz. Diz que se admirou e que glorificou a Deus — e não a Jesus, que sequer é mencionado no versículo. Concluir conversão a partir de admiração é ir além do que está escrito, e o próprio evangelho registra multidões admiradas que depois desaparecem da narrativa.
Se a multidão era gentia, por que Jesus disse no versículo 24 que fora enviado só a Israel?
Essa é a tensão real do capítulo, e ela não se dissolve. As explicações que circulam são três, e nenhuma é demonstrável.
A primeira lê o versículo 24 como declaração de prioridade, e não de exclusividade, comparável à ordem "primeiro ao judeu" que aparece na literatura paulina. A segunda entende que o episódio da cananeia marca um ponto de virada dentro da narrativa, de modo que o versículo 24 descreve o que valia antes dele. A terceira observa que Mateus mantém as duas coisas em tensão de propósito ao longo do evangelho, do "não ireis pelo caminho dos gentios" de Mateus 10:5 até o "fazei discípulos de todas as nações" de Mateus 28:19, sem harmonizá-las.
A terceira leitura tem a vantagem de não suavizar nada. E permanece em aberto.
9. Conexão com Outros Textos
A comparação decisiva dentro do próprio evangelho
Mateus 9:8 — "E a multidão, vendo isso, admirou-se e glorificou a Deus, que dera tal autoridade aos homens." Mesmo verbo de admiração, mesmo particípio de ver, mesmo verbo de glorificar no mesmo tempo — e o objeto sem qualificação.
Mateus 14:33 — "Então os que estavam no barco vieram e o adoraram, dizendo: Verdadeiramente tu és o Filho de Deus." A reação do círculo íntimo, em contraste com a da multidão.
A fórmula "Deus de Israel" em lábios de israelitas
Salmo 41:13 — "Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, de eternidade em eternidade. Amém e amém." Doxologia que fecha o primeiro livro do Saltério.
1 Reis 8:15 — "Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel, que falou pela sua boca a Davi, meu pai." Salomão, na dedicação do Templo.
Lucas 1:68 — "Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, porque visitou e remiu o seu povo." Zacarias, sacerdote, no cântico do capítulo de abertura.
A fórmula em lábios de estrangeiros
2 Reis 5:15 — "Eis que agora sei que em toda a terra não há Deus senão em Israel." Naamã, general sírio, depois de curado. O paralelo mais próximo: estrangeiro, cura, confissão.
Josué 2:11 — "Porque o SENHOR vosso Deus é Deus em cima nos céus e embaixo na terra." Raabe, em Jericó.
1 Samuel 5:7-8 — "Não ficará conosco a arca do Deus de Israel." Os filisteus, com a arca capturada.
O quadro profético da restauração
Isaías 29:18 — "E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e os olhos dos cegos verão, livres da escuridão e das trevas." Cinco versículos depois do texto que Mateus 15:8-9 cita contra os fariseus.
Isaías 29:13 — "Este povo se aproxima de mim com a sua boca e me honra com os seus lábios, mas o seu coração está longe de mim." A citação que abre este mesmo capítulo de Mateus. O capítulo começa com uma metade do oráculo e termina encenando a outra — proximidade que é fato, e ligação que é hipótese, porque Mateus nunca cita o versículo 18.
O adjetivo "são" e o nome de Israel
Mateus 12:13 — "Estende a tua mão. E ele a estendeu, e foi restituída sã como a outra." Mesma palavra, na controvérsia de sábado com os fariseus.
Mateus 15:24 — "Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel." A declaração restritiva, sete versículos antes desta.
Mateus 28:19 — "Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações." O fim do evangelho, e o outro polo da tensão.
10. Original Grego e Análise
Nota sobre o idioma: este painel examina o grego — é nessa língua que Mateus foi redigido e transmitido. Neste versículo o dado grego é especialmente decisivo, porque a discussão sobre a identidade da multidão depende de uma fórmula de três palavras cujo peso só se mede comparando ocorrências no original.
Texto em português
De modo que a multidão se admirava, ao ver os mudos falando, os aleijados curados, os mancos andando e os cegos vendo; e glorificaram o Deus de Israel.
Texto grego
ὥστε τὸν ὄχλον θαυμάσαι βλέποντας κωφοὺς λαλοῦντας, κυλλοὺς ὑγιεῖς, χωλοὺς περιπατοῦντας καὶ τυφλοὺς βλέποντας· καὶ ἐδόξασαν τὸν θεὸν Ἰσραήλ.
Transliteração
hōste tòn óchlon thaumásai blépontas kōphoùs laloûntas, kylloùs hygieîs, chōloùs peripatoûntas kaì typhloùs blépontas; kaì edóxasan tòn theòn Israḗl.
Palavra por palavra
ὥστε (hōste) — "de modo que"
Conjunção consecutiva, formada sobre o relativo hōs mais a partícula te. Seguida de infinitivo, como aqui, introduz resultado efetivo, e não finalidade: o versículo não diz que as curas foram feitas para que a multidão se admirasse, e sim que ela se admirou porque aquilo aconteceu.
τὸν ὄχλον (tòn óchlon) — "a multidão"
Acusativo singular, sujeito do infinitivo — construção normal do grego, em que o sujeito de um infinitivo vai para o acusativo.
O número é o ponto de variação nos manuscritos: a edição crítica traz o singular, e parte da tradição, inclusive o texto recebido, traz o plural "as multidões". A diferença não altera o sentido, e a explicação mais provável vem da palavra seguinte.
θαυμάσαι (thaumásai) — "admirar-se"
Infinitivo aoristo de thaumázō. Da mesma raiz vem thaûma, "prodígio, maravilha", e daí, por caminho latino, o português "taumaturgo".
βλέποντας (blépontas) — "vendo"
Particípio presente ativo, acusativo plural, de blépō, "olhar, ver".
Aqui está o dado gramatical mais interessante do versículo. O sujeito é "a multidão", no singular; o particípio que a qualifica está no plural. É a concordância segundo o sentido: o coletivo é gramaticalmente um e semanticamente muitos, e o grego permite acompanhar o segundo.
Isso explica com boa probabilidade a variante manuscrita: copistas incomodados com o descompasso puseram o substantivo no plural para acertar a concordância. A leitura mais difícil — singular com particípio plural — é justamente a que um copista tenderia a corrigir, e por isso é provavelmente a original.
κωφοὺς λαλοῦντας (kōphoùs laloûntas) — "mudos falando"
Kōphós, já visto no versículo anterior, cobre em grego tanto o surdo quanto o mudo. O particípio que o acompanha desfaz a ambiguidade: laléō é "falar, emitir som articulado". Se o texto tratasse de audição, o particípio seria akoúontas, "ouvindo".
κυλλοὺς ὑγιεῖς (kylloùs hygieîs) — "aleijados sãos"
O único item da lista sem particípio. Kyllós designa o membro torto, atrofiado ou mutilado; hygiḗs é o adjetivo da saúde e da integridade — dele vem "higiene" em português.
A ausência de verbo tem explicação linguística: as outras três condições correspondem a funções nomeáveis por verbo, e um membro restituído não tem verbo próprio. Diz-se apenas que está íntegro. O mesmo adjetivo aparece em Mateus 12:13, na mão ressequida "restituída sã como a outra"; e note-se o que ele não afirma, pois descreve estado, e não processo.
Alguns manuscritos omitem este par, e parte da tradição textual apresenta a lista com composição ligeiramente diferente. A variação existe e não afeta o conjunto.
χωλοὺς περιπατοῦντας (chōloùs peripatoûntas) — "mancos andando"
Peripatéō é composto de perí, "à volta", mais patéō, "pisar". Literalmente, "andar em volta, caminhar por aí": é o verbo do deslocamento habitual, e não o de dar um passo. O particípio não descreve o instante da cura, e sim gente circulando.
τυφλοὺς βλέποντας (typhloùs blépontas) — "cegos vendo"
O particípio é o mesmo que qualificou a multidão no início da frase. A repetição fecha o versículo com a palavra que abriu a descrição. O efeito de espelho existe no texto grego; que seja intencional é leitura possível, porque blépō é verbo comum e Mateus não sinaliza jogo nenhum.
ἐδόξασαν (edóxasan) — "glorificaram"
Aoristo do indicativo, terceira pessoa do plural, de doxázō, derivado de dóxa.
O percurso da palavra é instrutivo. No grego comum, dóxa é "opinião, parecer, fama" — está em "ortodoxia" e em "paradoxo". Os tradutores da Bíblia grega a usaram para verter o hebraico kavod ("glória", cuja raiz significa "peso, gravidade"). Daí que, no vocabulário bíblico, glorificar não seja elogiar: é reconhecer publicamente o peso de alguém.
Note-se a mudança de número: o infinitivo anterior tinha por sujeito o coletivo no singular; este verbo finito está no plural. A frase começa tratando a multidão como um e termina tratando-a como muitos.
τὸν θεὸν Ἰσραήλ (tòn theòn Israḗl) — "o Deus de Israel"
Acusativo com artigo, seguido do nome próprio sem artigo. A construção é a da fórmula grega consagrada na Bíblia grega, e não uma peculiaridade de Mateus.
Esta é a única ocorrência da expressão em Mateus. No restante do Novo Testamento, formulações equivalentes aparecem em Lucas 1:68 e em Atos 13:17.
Nota textual
Este é o versículo textualmente mais movimentado do bloco: há variação quanto ao número de "multidão", quanto à presença do par "aleijados sãos" e quanto à ordem interna da lista.
Nenhuma dessas variantes toca a fórmula final, que é estável em toda a tradição. Isso vale registrar: o elemento sobre o qual repousa a discussão mais pesada do bloco é justamente o que os manuscritos transmitem sem hesitação.
11. Conclusão
Do que foi exposto, este versículo leva a quatro conclusões.
A primeira é sobre o que ele é. Uma oração consecutiva não narra fato novo: mede a repercussão do fato anterior. Por isso o versículo é, ao mesmo tempo, o menos noticioso e o mais informativo do bloco — é o único que diz alguma coisa sobre quem estava ali, e diz pela fala, que é por onde a identidade de um grupo se deixa entrever.
A segunda é sobre o limite do que a reação prova. O verbo é o do espanto, que em Mateus descreve tanto discípulos quanto adversários e um governador romano. Espantar-se não é crer, e a multidão glorifica a Deus, não Jesus, que sequer é nomeado aqui. Sobre o que aquela gente concluiu a respeito de quem a curara, o texto não dá uma palavra.
A terceira é sobre a lista. Ela repete os quatro grupos com os pares trocados de posição e descreve cada um pelo que voltou a poder fazer. Três recebem verbos de função; o quarto recebe um adjetivo, porque não existe verbo para voltar a ter o membro íntegro. Esse adjetivo descreve estado, e não processo — e quem detalha o que aconteceu fisicamente está preenchendo lacuna, aqui e no versículo anterior.
A quarta é a que decide o bloco, e ela é uma conclusão sobre a indecisão. A leitura de que a multidão é majoritariamente gentia explica mais dados do que qualquer alternativa: a fórmula deste versículo em contraste com Mateus 9:8, a travessia de barco do versículo 39, a composição do capítulo, o itinerário de Marcos. E não fecha, porque a fórmula é também litúrgica judaica, porque Mateus nunca escreve Decápole, porque o versículo 24 está sete linhas antes e porque um dos cinco indícios é circular. Sustentar as duas coisas ao mesmo tempo — a melhor leitura disponível, e não provada — é desconfortável e é o que o material permite.













