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Mateus 15:8

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 52 acessos
‘Este povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.
Homens de vestes antigas orando de pé diante do pátio do Templo de Jerusalém ao amanhecer, de lábios entreabertos e olhar disperso.

Estudo


‘Este povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.

1. Introdução

Começa a citação. Daqui até o fim do versículo 9, quem fala é Isaías — pela boca de Jesus, e contra os homens que vieram de Jerusalém.

A primeira metade do oráculo desenha uma pessoa dividida em duas partes que não se encontram. De um lado, a boca e os lábios: o que se diz, o que se reza, o que se canta. Do outro, o coração, que está em outro lugar. Entre os dois, uma distância que o texto mede com uma palavra — "longe".

Três coisas pedem exame, cada uma no seu lugar. O que exatamente um judeu do primeiro século fazia com a boca por motivo religioso, e quanto isso ocupava do dia dele, é assunto do contexto histórico. A palavra traduzida por "coração" não significa em hebraico o que significa hoje em português, e essa diferença muda a acusação inteira: a análise do original cuida disso, junto com as pequenas divergências entre a versão grega e a hebraica deste trecho. E o que se conclui de tudo isso — inclusive por que o texto diz "este povo" e não "meu povo" — é matéria da análise teológica.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quanto se falava com Deus num dia comum

A acusação recai sobre a boca e os lábios, e para medi-la é preciso saber o quanto a religião de Israel funcionava por eles.

Funcionava muito. Duas vezes por dia, de manhã e ao anoitecer, o judeu piedoso recitava o Shemá — as palavras de Deuteronômio 6:4-9, começadas por "Ouve, ó Israel: o SENHOR nosso Deus é o único SENHOR". A recitação não era opcional nem espontânea: era obrigação diária, com texto fixo e hora marcada.

Havia também as bênçãos. A prática judaica multiplicou fórmulas curtas de agradecimento a serem ditas em cada ocasião: antes de comer pão, antes de beber vinho, ao ver um relâmpago, ao ouvir uma notícia ruim, ao vestir roupa nova. Cada uma começa do mesmo jeito — "Bendito sejas tu, SENHOR nosso Deus, rei do universo" — e o efeito prático é que praticamente nenhum ato do dia passava sem uma frase dirigida a Deus.

E havia o Templo, com o serviço diário de manhã e de tarde, os salmos cantados pelos levitas, as três festas anuais que traziam multidões a Jerusalém. O culto era sonoro, e boa parte dele era texto pronunciado.

Ou seja: a acusação não atinge quem faz pouco. Atinge exatamente quem faz muito — e faz certo, na hora certa, com as palavras certas.

O texto que a acusação contradiz

Há uma ironia que só aparece quando se sabe o que era o Shemá. A oração recitada duas vezes ao dia continua, logo depois da primeira frase, assim: "Amarás o SENHOR teu Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças" (Deuteronômio 6:5).

Isto é: o texto que a boca repetia todo dia era justamente o que exigia o coração. A acusação de Isaías não vem de fora da religião de Israel para reclamar de excesso de rito. Vem de dentro, e usa contra o culto a exigência que o próprio culto recitava.

O que estava em jogo quando o oráculo foi dito

O trecho pertence a um momento em que Jerusalém decidia o seu destino político. A cidade estava sob pressão assíria, e a discussão real era se confiava no Egito ou não. O culto continuava impecável durante a discussão — e é essa simultaneidade que o profeta ataca. O rito não estava sendo abandonado; estava sendo cumprido enquanto a decisão de verdade era tomada em outro lugar.

Vale notar o que isso implica sobre o alvo. O oráculo não foi dito a gente descuidada da religião: foi dito a um povo que mantinha o culto em funcionamento numa emergência nacional.

Setecentos anos depois

No tempo de Jesus o Templo estava em plena atividade e passava por uma reforma monumental, iniciada por Herodes, o Grande, que ainda não tinha terminado. O movimento fariseu, por sua vez, trabalhava para levar a santidade do Templo para dentro das casas, aplicando à mesa comum as regras de pureza dos sacerdotes.

Nada disso é descuido religioso. É o contrário — é intensificação. E é sobre essa intensificação que o oráculo é aplicado, o que dá à citação um alcance incômodo: nem o zelo protege da acusação, porque não é de falta de zelo que ela trata.

3. Análise Teológica do Versículo

"Este povo"

Duas palavras, e já há uma escolha nelas.

Quem fala é Deus, e Deus não diz "meu povo". Diz "este povo", como quem aponta de longe para um grupo do qual mantém distância. A expressão volta em Isaías outras vezes com a mesma frieza — o profeta é mandado falar "a este povo" no capítulo 6, e o capítulo 8 usa a fórmula duas vezes. E ela tem antecedente antigo: em Êxodo 32:9, diante do bezerro de ouro, Deus fala a Moisés de "este povo" e o chama de povo de dura cerviz.

É um recuo, e ele responde ao movimento contrário descrito na frase seguinte. Enquanto o povo se aproxima, Deus se afasta na maneira de nomeá-lo. As duas coisas acontecem na mesma linha.

Há também o alcance. Isaías fala de um povo inteiro, não de uma classe de especialistas. Jesus aplica a frase a fariseus e escribas, e a análise do versículo anterior mostra como essa operação funciona. Vale registrar o que ela custa: a acusação, na origem, era coletiva, e quem a lê hoje como se atingisse apenas um grupo de líderes religiosos está usando só metade dela.

"se aproxima de mim com a boca"

A imagem é de movimento. Aproximar-se de Deus é o que o culto faz: sobe-se a Jerusalém, entra-se no Templo, chega-se ao altar. O verbo pertence ao vocabulário do santuário, e o oráculo o utiliza para descrever o que estava acontecendo de fato — as pessoas estavam se aproximando, e não fingindo aproximar-se.

O que a frase faz é acrescentar um complemento que estraga tudo: aproxima-se com a boca. O movimento é real, e é parcial. Uma parte da pessoa chegou, o resto ficou.

Convém não ler isso como acusação de mentira. Ninguém está dizendo que o povo simulava a devoção; está-se dizendo que a devoção acontecia só onde as palavras acontecem. O que a boca fez, fez de verdade.

"e me honra com os lábios"

Boca e lábios, na mesma frase, com o mesmo sentido geral. A repetição não é descuido: a poesia hebraica funciona assim, dizendo duas vezes a mesma coisa com palavras diferentes, e o efeito é de insistência.

Mas há um detalhe que a insistência esconde e que vale desencavar. O verbo é "honrar" — e é o mesmo verbo do quinto mandamento, que Jesus citou no versículo 4 e cuja anulação denunciou no versículo 6.

A montagem do argumento fica visível quando se percebe isso. Nos versículos 4 a 6, os fariseus não honram os pais. No versículo 8, o povo honra a Deus só com os lábios. É a mesma palavra nos dois pontos, e nos dois a honra falhou pelo mesmo motivo — ela não desceu do discurso para a prática. Honrar, no vocabulário bíblico, custa alguma coisa; honra que não custa não é honra.

Que Jesus tenha escolhido este oráculo por causa dessa coincidência de palavra é leitura possível e não demonstrável. O texto não comenta. O que se pode afirmar é que a coincidência está lá, e que ela amarra as duas metades da resposta dele.

"mas o seu coração está longe de mim"

Esta é a frase da acusação, e ela é quase sempre mal lida.

A leitura corrente entende "coração longe" como falta de sentimento: o culto foi feito sem emoção, sem fervor, de forma mecânica. Daí a aplicação que se ouve em quase todo púlpito — é preciso sentir o que se canta, orar com o coração, não repetir por repetir.

O problema é que a palavra hebraica traduzida por "coração" não designa o lugar do sentimento. Designa o lugar da decisão: é onde se pensa, se pesa e se escolhe. A análise do original mostra o percurso da palavra. A consequência para a leitura é grande, e é esta: o oráculo não está reclamando de frieza. Está dizendo que aquelas pessoas decidiam as suas vidas em outro lugar que não Deus, enquanto o culto seguia em dia.

Traduzida assim, a acusação fica muito mais dura — e muito mais verificável. Não é preciso perguntar a ninguém o que sentiu na oração da manhã. Basta olhar onde as decisões daquela vida são efetivamente tomadas, e em nome de quê. No caso dos interpelados, o versículo 6 já respondeu: o dispositivo do voto mostrou onde a deliberação deles estava.

E aqui está o que amarra a citação ao argumento. Jesus não precisa ler corações. Ele apontou uma prática, mostrou o que ela produz, e usa o oráculo para nomear a estrutura do que apontou. A prova do coração distante foi dada antes, em forma de conduta.

Uma última observação sobre a palavra "longe". Ela é espacial, e completa a figura montada no início do versículo: um se aproxima, o outro está longe. A distância não é medida em sentimento — é medida entre o lugar onde o rito é praticado e o lugar onde a vida é decidida.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

O SENHOR

É ele quem fala. Isso costuma passar despercebido porque a frase chega ao leitor pela boca de Jesus, citando Isaías: são três vozes encaixadas. Mas o "mim" do versículo — "se aproxima de mim", "longe de mim" — é Deus, e a acusação é feita em primeira pessoa por quem está sendo cultuado.

Este povo

Os habitantes de Judá e de Jerusalém no fim do século VIII antes de Cristo. Não um grupo dissidente, não uma seita: a população que sustentava o Templo e cumpria o calendário religioso. A acusação é feita a um povo religiosamente em ordem.

Os fariseus e escribas de Jerusalém

Os destinatários da aplicação feita por Jesus, identificados no versículo anterior. Recebem, no primeiro século, uma acusação escrita no oitavo.

O Templo

Cenário implícito dos dois lados da cena. Em Isaías, é para lá que o povo se aproxima. No tempo de Jesus, está de pé, ampliado pela obra iniciada por Herodes, o Grande, e é o centro para o qual convergem as três festas anuais de peregrinação.

Jerusalém

A cidade do oráculo e a cidade de onde vieram os interpelados. Foi acusada de culto vazio enquanto negociava com o Egito, e volta a ser acusada, sete séculos depois, enquanto discute regras de pureza. O lugar é o mesmo nas duas pontas.

A Septuaginta

O texto de onde a citação sai. Neste versículo a diferença em relação ao hebraico é pequena, e a análise do original a registra; no versículo seguinte, ela será grande.

5. Pontos de Ensino

O zelo não protege da acusação

Quem é atingido aqui não é o descuidado, e sim o cumpridor. O oráculo foi dito a um povo com o culto em dia, e aplicado a homens que dedicavam a vida a saber como cumprir a lei com exatidão. Isso desmonta a defesa mais comum contra a crítica religiosa, que é apontar o próprio esforço.

Uma parte da pessoa pode chegar sem que o resto vá junto

O versículo não descreve alguém parado do lado de fora. Descreve alguém que entrou pela metade. É uma condição mais difícil de perceber do que a ausência, porque produz todos os sinais externos da presença.

A honra que não custa nada não é honra

O mesmo verbo que o quinto mandamento usa para os pais aparece aqui para Deus, e falha nos dois casos pelo mesmo motivo. Honrar, no vocabulário bíblico, envolve entregar alguma coisa — tempo, dinheiro, cuidado. Palavra sozinha não passa no teste em nenhum dos dois endereços.

Deus também se afasta na frase

"Este povo", e não "meu povo". Enquanto se descreve uma aproximação de mentira, quem fala toma distância no modo de nomear. É detalhe pequeno e é a parte mais fria do versículo.

A acusação é verificável, e é por isso que serve

Se o problema fosse falta de sentimento, ninguém poderia examiná-lo em ninguém, nem em si mesmo com honestidade. Sendo o problema o lugar onde as decisões são tomadas, há por onde olhar: as decisões deixam rastro.

6. Aspectos Filosóficos

O de dentro e o de fora

O versículo afirma alguma coisa que a filosofia discute há séculos: que existe um interior de uma pessoa, que ele pode estar em desacordo com o que ela faz, e que esse desacordo é conhecível. Sem esses três pressupostos a frase não tem sentido.

Os autores que se seguem entram como instrumento de leitura, e a responsabilidade pela aproximação é do comentarista. Nem Isaías nem Mateus discutem teoria da mente.

Agostinho: a verdade mora no homem interior

A tradição que o versículo alimentou no Ocidente tem um marco claro. Agostinho, no século IV, faz da interioridade o caminho de acesso a Deus: numa fórmula célebre de A Verdadeira Religião, escreve que não se deve sair para fora, e sim voltar a si, porque é no homem interior que habita a verdade.

Nas Confissões ele leva isso adiante e chega a um paradoxo importante. O interior é o lugar do encontro, mas não é transparente ao próprio dono: Agostinho descreve a memória como um campo vasto de que ele mesmo não tem o inventário, e conclui que Deus lhe é mais íntimo do que ele é de si mesmo. Ou seja: o de dentro existe, é decisivo — e é parcialmente opaco a quem o carrega.

Aplicado ao versículo, isso produz um resultado desconfortável. Se o coração pode estar longe sem que o próprio interessado saiba, então a pergunta "o meu coração está perto?" não tem resposta confiável vinda de dentro. A introspecção, sozinha, não resolve.

Wittgenstein: um processo interior precisa de critérios exteriores

No século XX, Ludwig Wittgenstein atacou o problema pelo outro lado. Nas Investigações Filosóficas, publicadas em 1953, ele examina o que garante o sentido das palavras que usamos para estados internos — dor, intenção, entendimento, esperança — e chega a uma tese resumida numa frase seca: um processo interior precisa de critérios exteriores.

A tese não nega que exista vida interior. Nega que o significado das palavras que a descrevem se sustente sem nada de observável. Se "o coração está longe" não tivesse absolutamente nenhum sinal fora da pessoa, a expressão não teria como ser aprendida, ensinada nem contestada — seria um ruído que cada um interpretaria à sua maneira.

A objeção parece ameaçar o versículo, e faz o contrário: mostra por que ele funciona. Porque a acusação, no texto, não é feita por leitura de almas. Ela é feita depois de cinco versículos apontando uma prática concreta e o que ela produzia. O critério exterior está lá, e é a conduta.

O que os dois juntos deixam de pé

De Agostinho fica que o interior é real e não é transparente. De Wittgenstein fica que só se sabe dele pelo que aparece. Cruzados, os dois dão exatamente o método que o texto pratica: não se pergunta ao coração onde ele está — observa-se o que a vida faz e conclui-se dali.

Isso tem um custo, e é honesto declará-lo. Um método assim erra em dois sentidos: pode condenar quem faz pouco por circunstância, e pode absolver quem age bem por conveniência. Nenhum dos dois filósofos resolve o problema, e o versículo tampouco. O que o texto oferece não é um instrumento infalível de medida — é a recusa de aceitar a palavra como prova de si mesma.

7. Aplicações Práticas

A oração decorada

Quem reza sempre as mesmas palavras acaba rezando-as sem prestar atenção. É experiência universal de qualquer tradição com liturgia fixa, e costuma vir acompanhada de culpa: a sensação de estar fazendo exatamente o que este versículo condena.

Vale desfazer o mal-entendido, porque ele é sério. A acusação do oráculo não é sobre repetição nem sobre distração. Se fosse, atingiria toda oração decorada, e o próprio Jesus ensinou uma para ser repetida. O que está em causa é outra coisa: a direção da vida de quem reza.

Na prática, isso desloca a pergunta que o fiel se faz. Em vez de "eu senti alguma coisa quando rezei?", a pergunta útil é "aquilo que eu rezo tem alguma influência sobre o que eu decido?". A primeira pergunta produz culpa e nada mais; a segunda tem resposta, e a resposta pode mudar alguma coisa.

Onde procurar a resposta

O próprio versículo indica o lugar, e não é dentro. A prova do coração distante, na cena, foi uma conduta: o dispositivo que deixava o pai velho sem sustento.

O exame que decorre disso é concreto e desconfortável. Onde vai o dinheiro. Como se resolve um conflito quando ninguém está olhando. O que acontece quando o que a fé pede colide com o que o interesse pede. Nenhuma dessas perguntas é sobre sentimento, e todas têm resposta verificável.

Há um alívio nisso, e vale dizê-lo: quem se acusa de ter o coração longe porque não sente nada na igreja está usando um critério que o texto não usa. E há um peso, também: quem se tranquiliza porque sente muito está usando o mesmo critério errado do outro lado.

Quando a intensidade religiosa cresce e a vida não muda

O versículo tem uma aplicação específica para os momentos de fervor. Existe um estado, comum em qualquer comunidade religiosa, em que a atividade aumenta muito — mais culto, mais estudo, mais serviço, mais linguagem devota — sem que nada mude nas relações concretas de quem participa.

Esse estado é justamente o que o oráculo descreve, e por isso ele é mais difícil de detectar do que a indiferença. A indiferença dá sinais; a intensificação parece a solução. Um sinal razoável de alerta é a desproporção: quando o crescimento da atividade religiosa não vem acompanhado de nenhuma mudança verificável no trato com as pessoas mais próximas, vale examinar o que está de fato crescendo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que a citação não bate exatamente com a de uma Bíblia hebraica?

Porque Mateus cita a Septuaginta, a tradução grega, e não o hebraico. Não é peculiaridade desta passagem: é o padrão do Novo Testamento, escrito em grego para gente que lia a Bíblia em grego. Neste versículo as diferenças são pequenas e a análise do original as expõe; no versículo seguinte serão grandes.

Isso quer dizer que Jesus citou errado?

Não. Citar a versão grega era o normal, e ninguém no primeiro século consideraria isso um defeito — a Septuaginta era Escritura para a maior parte dos judeus que liam em grego. A pergunta que fica em aberto é outra e mais técnica: se a divergência entre as duas versões deriva de erro de tradução, de escolha interpretativa do tradutor ou de um texto hebraico diferente do que chegou até nós. Não é possível decidir.

Se o coração é o lugar da decisão, o sentimento não conta para nada?

Conta, mas não é o que está sendo medido aqui. A Bíblia hebraica tem vocabulário próprio para emoção, e não é a palavra usada neste versículo. Dizer que a acusação não é sobre sentimento não equivale a dizer que a religião deva ser fria — equivale a dizer que a temperatura do sentimento não serve de prova em nenhuma direção.

A acusação é ao povo ou aos líderes?

Na origem, ao povo inteiro; na aplicação de Jesus, aos líderes presentes. As duas coisas estão no texto e é preciso segurar as duas. Quem lê só a aplicação transforma o oráculo numa crítica ao clero e se exclui dela; quem lê só a origem perde a força da acusação feita a quem tem responsabilidade.

Existe alguma proteção contra isso?

O texto não oferece nenhuma, e é significativo que não ofereça. Não há rito, fórmula ou disciplina que garanta que o coração acompanhe a boca — se houvesse, ela mesma poderia ser cumprida com a boca. O que há é o exame do resultado, que precisa ser refeito e nunca fica pronto.

Mateus e Marcos citam o oráculo do mesmo jeito?

Praticamente. Marcos 7:6 traz a mesma frase, com pequenas diferenças de forma. A citação circulava provavelmente já fixada no uso cristão primitivo, o que explica a semelhança entre os dois evangelhos neste ponto.

9. Conexão com Outros Textos

O oráculo e o que vem depois dele

Isaías 29:13 — o texto citado, na íntegra, incluindo a segunda metade que o versículo seguinte reproduz.

Boca e lábios contra o coração

Ezequiel 33:31 — "com a boca mostram muito amor, mas o coração segue a avareza". O paralelo mais próximo, e o mais explícito quanto ao destino real da deliberação.

Jeremias 12:2 — "estás perto na boca deles, porém longe dos seus rins". A mesma oposição, com outro órgão no lugar do coração.

Salmo 78:36-37 — "lisonjeavam-no com a boca e com a língua lhe mentiam; o coração deles não era reto para com ele". O caso recontado na história do deserto.

O coração como sede da decisão

Deuteronômio 6:5 — amar a Deus "de todo o teu coração". A exigência que o Shemá recitava duas vezes ao dia.

1 Samuel 16:7 — "o homem vê o que está diante dos olhos, porém o SENHOR olha para o coração". O contraste entre os dois modos de avaliar.

Jeremias 17:9-10 — "enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso; quem o conhecerá?" — seguido de "eu, o SENHOR, esquadrinho o coração". O texto que declara o interior opaco ao próprio dono.

Culto correto e vida decidida em outro lugar

1 Samuel 15:22 — "obedecer é melhor do que sacrificar".

Isaías 1:11-17 — "de que me serve a multidão dos vossos sacrifícios?", seguido de "aprendei a fazer o bem". A crítica do mesmo profeta, no primeiro capítulo do livro.

Oseias 6:6 — "misericórdia quero, e não sacrifício". Mateus é o evangelho que mais volta a esta frase, citando-a em Mateus 9:13 e em Mateus 12:7.

Honrar

Êxodo 20:12 — o mandamento de honrar pai e mãe, com o mesmo verbo que aqui aparece dirigido a Deus. É o elo entre as duas metades da resposta de Jesus.

Malaquias 1:6 — "se eu sou pai, onde está a minha honra?". O profeta que junta explicitamente a honra devida ao pai e a devida a Deus.

O paralelo

Marcos 7:6 — a mesma citação, com diferenças mínimas de forma.

10. Original Grego e Análise

Texto em português

‘Este povo se aproxima de mim com a boca e me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim.

Texto grego

Ἐγγίζει μοι ὁ λαὸς οὗτος τῷ στόματι αὐτῶν, καὶ τοῖς χείλεσίν με τιμᾷ· ἡ δὲ καρδία αὐτῶν πόρρω ἀπέχει ἀπ’ ἐμοῦ.

Transliteração

Engizei moi ho laos houtos tō stomati autōn, kai tois cheilesin me tima; hē de kardia autōn porrō apechei ap’ emou.

Uma nota antes da análise: a frase é mais curta em algumas Bíblias

O texto acima é o da tradição bizantina, que passa ao Textus Receptus ("texto recebido", em latim — a edição grega do século XVI de que descende a tradução ABC usada aqui). As edições críticas modernas trazem uma forma mais curta, apoiadas nos manuscritos Sinaítico e Vaticano, do século IV: elas omitem o primeiro membro — "este povo se aproxima de mim com a boca" — e começam a citação diretamente em "com os lábios me honra".

A explicação corrente é que a forma longa seria um acerto posterior de copistas que conheciam o oráculo de Isaías inteiro e completaram a citação. Trabalha a favor disso a regra segundo a qual a leitura mais curta tende a ser a original, já que acrescentar é mais comum do que suprimir. A hipótese é majoritária e plausível, mas não é unânime, e a tradição bizantina que traz a forma longa é ampla.

Nas duas formas o sentido é o mesmo, e a análise abaixo segue a forma longa, que é a da tradução ABC.

Análise palavra por palavra

Ἐγγίζει — engizei, "aproxima-se". Presente do indicativo, ação em curso: não é algo que aconteceu uma vez, é o que está acontecendo. O verbo vem de engys, "perto", e no grego bíblico pertence ao vocabulário do culto — é o verbo de quem chega ao santuário. A Carta aos Hebreus o usará no mesmo campo, ao falar de aproximar-se de Deus.

ὁ λαὸς οὗτος — ho laos houtos, "este povo". Laos é a palavra que a Septuaginta reserva, quase sempre, para Israel enquanto povo de Deus, em oposição a ethnē, as demais nações. Dizer "este povo", com o demonstrativo, é usar o termo da eleição e esfriá-lo com o gesto de apontar.

τῷ στόματι αὐτῶν — tō stomati autōn, "com a boca deles". Stoma é a boca como órgão da fala. O caso é o do instrumento: a boca é o meio pelo qual a aproximação se dá.

Há aqui uma irregularidade que passa despercebida em português. "Povo" está no singular e o pronome está no plural — literalmente, "este povo se aproxima com a boca deles". A construção vem do hebraico, onde o coletivo alterna entre singular e plural com naturalidade, e é sinal de que o texto grego traduz de perto o original.

τοῖς χείλεσίν με τιμᾷ — tois cheilesin me tima, "com os lábios me honra". Cheilos é o lábio, e a repetição de boca e lábios é o modo hebraico de dizer duas vezes a mesma coisa com palavras diferentes.

O verbo é timaō, e é o dado que amarra o capítulo. É o mesmo verbo do quinto mandamento citado no versículo 4 — "honra teu pai e tua mãe" — e o mesmo cuja negação aparece no versículo 6. A honra devida aos pais e a honra devida a Deus são, no grego deste trecho, a mesma palavra.

ἡ δὲ καρδία αὐτῶν — hē de kardia autōn, "mas o coração deles". Aqui está a palavra decisiva, e ela precisa de cuidado.

No hebraico de Isaías o termo é lev, e o campo de sentido dele não coincide com o da nossa palavra "coração". Em português, coração é sede do sentimento: seguir o coração é seguir o que se sente. Na Bíblia hebraica, lev é antes de tudo o lugar onde se pensa e se decide. Coração puro é intenção honesta, não emoção limpa. Coração duro é vontade obstinada, não frieza. Endurecer o coração é decidir contra, não deixar de sentir.

A Septuaginta traduziu lev por kardia, palavra grega que já vinha carregando, além do sentido de sede do pensamento, uma inclinação afetiva. O deslizamento continuou nos séculos seguintes, e no português moderno chegou completo. O resultado é que a tradução literal está certa e a leitura corrente está errada.

É por isso que a acusação do oráculo é mais dura do que parece. Não se trata de reclamar de falta de fervor. Trata-se de dizer que a deliberação daquelas pessoas se dava longe de Deus, enquanto o culto seguia em dia.

πόρρω ἀπέχει ἀπ’ ἐμοῦ — porrō apechei ap' emou, "está longe de mim". Porrō é advérbio de distância, "longe, ao longe". O verbo apechō é composto de apo ("de, para longe de") mais echō ("ter"), e no uso intransitivo significa manter-se afastado.

Uma curiosidade que merece registro, com a cautela devida. Esse mesmo verbo aparece três vezes no capítulo 6 de Mateus, no sentido comercial de "receber por inteiro": os que praticam a devoção para serem vistos "já receberam" a sua recompensa (Mateus 6:2, 6:5, 6:16). São os únicos outros lugares do evangelho em que a palavra aparece, e nos três o assunto é o mesmo — hipócritas em ato religioso. Se há intenção nisso ou apenas coincidência de um verbo comum não é possível decidir; o dado fica registrado.

A diferença em relação ao hebraico

Neste versículo a distância entre a versão grega e o texto hebraico é pequena, e vale medi-la com precisão, porque no versículo seguinte ela será grande.

O hebraico, no Texto Massorético (a Bíblia hebraica fixada pelos copistas judeus a partir de manuscritos bem mais antigos), traz: ya'an ki niggash ha-am ha-zeh be-fiv u-vi-sfatav kibbeduni ve-libbo richaq mimmenni — "porquanto este povo se aproxima com a sua boca e com os seus lábios me honra, e o seu coração se afastou de mim".

Duas diferenças, ambas pequenas. No hebraico, a aproximação e a honra vêm juntas, feitas com boca e lábios; no grego, elas se separam em dois movimentos, um para a boca e outro para os lábios. E o verbo final muda de tempo: o hebraico diz "afastou-se", como quem descreve algo que já aconteceu; o grego diz "está longe", como quem descreve um estado atual.

Nenhuma das duas altera a acusação. O leitor que compara as duas Bíblias encontra a mesma coisa dita com arranjo levemente diferente — o que não se poderá dizer da segunda metade do oráculo.

11. Conclusão

O que foi exposto autoriza três conclusões.

A mais imediata delas desmonta a leitura corrente do versículo. Ele não fala de falta de emoção no culto, e quem o prega assim está usando a palavra "coração" no sentido português e não no sentido do texto. A acusação é sobre o lugar onde a vida é decidida, e ela é compatível com toda a emoção religiosa do mundo — inclusive com muita. Conclui-se que fervor não é prova de nada, e que a falta dele também não é.

A segunda é sobre quem está no alcance da acusação. Ela foi feita a um povo com o culto em ordem e aplicada a especialistas em cumprir a lei. Conclui-se que o esforço religioso não protege; ao contrário, é dentro dele que a divisão descrita aqui tem onde se instalar, porque produz todos os sinais externos de que está tudo bem. Quem não faz nada não é acusado neste versículo — é acusado em outros.

A terceira é sobre como a acusação pode ser feita. Se o coração é opaco, e é, ninguém tem acesso ao de ninguém, nem inteiramente ao próprio. Conclui-se que a distância só se conhece pelo rastro: pelo que a vida faz quando o rito acaba. Foi assim que Jesus procedeu — descreveu uma prática e as suas consequências antes de citar o oráculo, e não o contrário.

Resta a parte fria do versículo, que costuma passar sem comentário. Enquanto o povo se aproxima, quem fala diz "este povo" — e não "meu povo". A aproximação de mentira não deixa o outro lado indiferente: produz afastamento correspondente. O versículo descreve duas distâncias, e só uma delas é culpa de quem se aproximou.

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