Em vão, porém, me adoram, ensinando como doutrinas mandamentos de homens’.”
1. Introdução
Fecha-se a citação, e o oráculo entrega o veredito: aquele culto não produz nada.
A frase tem duas partes. A primeira julga o resultado — "em vão". A segunda diz a causa: o que se ensina ali é ordem humana apresentada como doutrina. Juntas, elas transferem o alvo da acusação. Até o versículo 8 falava-se de um povo que se aproximava; aqui fala-se de quem ensina.
E é justamente aqui que está o achado deste trecho, que a análise do original desenvolve por inteiro: esta metade do oráculo, na Bíblia hebraica, diz outra coisa. Mateus cita a tradução grega, e a versão grega difere do hebraico em três pontos, um deles decisivo. Não é dado para esconder do leitor, e também não é escândalo — mas muda o que se pode afirmar a partir do versículo, e a análise teológica trata dessa consequência.
O contexto histórico reconstrói o que era ensinar religião naquele mundo, porque a palavra "ensinando" tinha ali um significado técnico que hoje se perdeu.
2. Contexto Histórico e Cultural
Ensinar era fazer decorar
A palavra "ensinando" cai num mundo em que ensinar tinha método próprio, e sem reconstruí-lo a acusação parece dirigida a professores de catecismo.
A transmissão da tradição oral judaica era, antes de tudo, memorização. O nome que mais tarde designaria a primeira grande coletânea dessa tradição, Mishná, vem de uma raiz hebraica que significa repetir. O discípulo repetia a formulação do mestre até fixá-la palavra por palavra; o mestre corrigia o desvio; e a corrente de transmissão era, ela mesma, parte da autoridade da regra — uma norma valia porque se sabia por quantas bocas ela tinha passado desde o Sinai.
Convém não tratar esse sistema com desdém. Ele preservou um corpo jurídico e devocional inteiro sem depender de bibliotecas, atravessou a destruição do Templo e produziu uma cultura de precisão textual rara na Antiguidade. O alvo do versículo não é a memorização, nem a existência de mestres.
A fragilidade do método
O que o sistema tem de frágil é estrutural, e vale nomear com cuidado: a formulação decorada chega ao discípulo pronta, sem a discussão que a produziu. Quem aprendeu de cor recebeu a conclusão, não o caminho.
Com o passar das gerações, isso apaga uma distinção importante. Uma norma que veio da Lei escrita e uma norma que veio da decisão de um mestre chegam ao aluno na mesma voz, com a mesma cadência, dentro da mesma corrente. Nada, na forma como são transmitidas, avisa qual é qual. É essa indistinção que a expressão "mandamentos de homens" nomeia.
Quem é o escriba
Os interlocutores da cena, apresentados no versículo 1, são fariseus e escribas. O escriba não é um copista subalterno: é o profissional do texto — quem sabe ler, quem sabe citar, quem resolve casos por comparação com o precedente e quem forma discípulos. Em vocabulário de hoje, seria jurista, teólogo e professor na mesma pessoa.
A acusação atinge essa profissão no ponto de identidade dela. Não diz "vocês vivem mal"; diz que o conteúdo que eles transmitem é humano. Para quem organizou a vida inteira em torno de ensinar a norma certa, não há acusação pior.
De onde vem a Bíblia grega
A citação que Jesus faz vem da Septuaginta, e como ela foi feita explica boa parte do que a análise do original vai mostrar.
A tradução começou em Alexandria, no Egito, no século III antes de Cristo, para uma comunidade judaica numerosa que já falava grego e não lia mais hebraico com desenvoltura. Uma lenda antiga, registrada na Carta de Aristeias, conta que setenta e dois sábios fizeram o trabalho — daí o nome, do latim septuaginta, setenta. A lenda vale pelo que revela do prestígio da obra, não como relato histórico.
O trabalho não foi feito de uma vez nem por um só critério. Cada livro teve o seu tradutor, e os estilos variam muito: alguns colam no hebraico a ponto de forçar o grego, outros traduzem com liberdade considerável. O tradutor de Isaías está entre os mais livres de todos — é reconhecido pelos especialistas como alguém que interpretava enquanto traduzia, resolvendo por conta própria construções difíceis. Esse dado é a chave para entender o que se verá adiante.
3. Análise Teológica do Versículo
"Em vão, porém, me adoram"
Três palavras carregam a sentença: em vão.
O que elas dizem não é que a adoração seja falsa. O verbo afirma que ela existe — aquelas pessoas reverenciam a Deus, e o texto não põe isso em dúvida em nenhum momento. O que se nega é o resultado. O culto acontece e não chega a lugar nenhum.
É uma acusação estranha, e vale demorar nela. Não estamos diante de idolatria, nem de descrença, nem de fingimento. Estamos diante de uma religião correta que gira no vazio. E isso é mais grave do que qualquer das três alternativas, porque as três têm remédio conhecido — converter-se, crer, parar de mentir — e esta não tem: quem está em vão está fazendo tudo certo.
O "porém" marca a virada. O versículo anterior descreveu a divisão entre a boca e o coração; este tira a conclusão. Uma coisa decorre da outra: culto separado da deliberação da vida não produz efeito.
"ensinando como doutrinas mandamentos de homens"
Aqui a acusação muda de endereço, e é a mudança mais importante do versículo.
Até agora o sujeito era "este povo" — uma população inteira, acusada de aproximar-se pela metade. Agora o sujeito são os que ensinam. Deixamos o terreno da devoção mal orientada e entramos no da responsabilidade de quem forma os outros.
E o que se acusa não é o conteúdo do ensino, e sim o estatuto que ele recebe. A frase não diz que os mandamentos de homens sejam ruins. Diz que estão sendo ensinados como doutrina — isto é, apresentados com a autoridade que só a palavra de Deus teria. O problema é a etiqueta, não o produto.
Isso precisa ser sublinhado, porque a leitura corrente erra aqui. Regras humanas são necessárias em qualquer religião organizada: horários, formatos, costumes, decisões práticas que a Escritura não prevê. Nada nesta frase as condena. O que ela condena é a operação pela qual uma decisão humana perde a etiqueta de humana e passa a circular como se viesse de Deus.
Repare que essa operação quase nunca é feita por alguém. Ela acontece: uma decisão é tomada por um motivo prático, é transmitida sem o motivo junto, e três gerações depois ninguém sabe mais que houve uma decisão. O contexto histórico deste estudo mostra por que o método de ensino da época favorecia exatamente isso.
Um dado que muda o que se pode afirmar
Há um ponto que a honestidade obriga a registrar aqui, e que a análise do original desenvolve com todos os dados.
Esta segunda metade do oráculo, na Bíblia hebraica, não diz isto. O hebraico não tem "em vão"; e onde o grego diz "ensinando", com quem ensina como sujeito, o hebraico tem uma forma passiva, que fala do que foi ensinado a alguém. Ou seja: no hebraico, a acusação recai sobre gente cuja reverência virou lição decorada — sobre os alunos. No grego, ela recai sobre os professores.
A consequência para a leitura é direta, e não é pequena. A aplicação que Jesus faz — dirigida a escribas e fariseus, os mestres oficiais — encaixa exatamente na versão grega. Na versão hebraica ela precisaria de um passo a mais.
É preciso dizer isso sem transformá-lo em escândalo nem em prova de nada. A tradução grega era Escritura para quem lia em grego, e citá-la num debate público era normal. Também não adianta a manobra oposta, a de garantir que as duas versões "dizem a mesma coisa": não dizem. Dizem coisas diferentes sobre o mesmo fenômeno, e quem tem as duas diante de si enxerga mais do que quem tem uma só. O hebraico diagnostica de onde veio aquela reverência; o grego julga o que ela produz.
O que fica estabelecido
Somando as duas metades, o versículo estabelece três coisas.
Que existe culto sincero e inútil — a sinceridade não é a variável que decide.
Que a inutilidade tem causa identificável, e a causa é de ensino: aprende-se como palavra de Deus o que é decisão de gente.
E que a responsabilidade principal é de quem transmite. É o único ponto de toda a controvérsia em que a acusação sai do que os fariseus fazem e vai para o que eles produzem nos outros.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os escribas
São o alvo direto desta metade da acusação. Formavam uma categoria profissional, não um partido: os especialistas em ler, interpretar e ensinar a Lei. Ensinar não era para eles uma atividade entre outras — era a função que os definia.
Os fariseus
O partido que fazia da instrução religiosa um projeto de transformação do povo. A intenção declarada era boa: levar a santidade do Templo para dentro das casas, o que só se conseguia ensinando a todos como fazer. A acusação deste versículo atinge esse projeto no seu instrumento.
Os tradutores de Alexandria
Personagens invisíveis desta cena, e decisivos nela. Foram eles que puseram em grego o oráculo que Jesus cita, e a forma como o traduziram é o que dá à frase o gancho que Jesus usa. O responsável pela tradução de Isaías é reconhecido como um dos mais livres do conjunto.
Alexandria
A cidade fundada por Alexandre no delta do Nilo, o maior centro intelectual do mundo helenístico e sede de uma comunidade judaica enorme e de língua grega. É de lá que sai a Bíblia que o Novo Testamento cita.
O rolo de Isaías de Qumran
Encontrado em 1947 na primeira gruta de Qumran, junto ao mar Morto, é o manuscrito bíblico completo mais antigo que se conhece — copiado provavelmente no século II antes de Cristo, mais de mil anos antes das cópias hebraicas que se tinha até então. Traz este oráculo, e o traz substancialmente na forma hebraica conhecida. O testemunho dele fecha uma porta importante, e a análise do original explica qual.
Isaías
O autor do oráculo, e o profeta cuja voz continua sendo emprestada a Jesus desde o versículo 7. A frase que ele diz em seguida, no versículo 14 do capítulo 29, anuncia que a sabedoria dos sábios vai perecer — e não é citada aqui.
5. Pontos de Ensino
Existe culto sincero e inútil
É o ponto mais duro do versículo, e o que menos se prega. A adoração não é acusada de falsa: é acusada de não produzir. Quem procura garantir o valor do próprio culto pela sinceridade com que o pratica está usando um critério que este versículo descarta.
O problema não é a regra humana, é a etiqueta
Nenhuma religião funciona sem decisões que a Escritura não tomou. O erro nomeado aqui é outro e mais sutil: a decisão humana que perde o carimbo de humana e passa a circular como se fosse de Deus. Uma regra honesta sobre a própria origem não está sob acusação nenhuma.
Quem ensina responde pelo que ensinou
A acusação sai do comportamento dos acusados e vai para o efeito que eles produzem em terceiros. É o único momento da controvérsia em que isso acontece, e ele estabelece uma responsabilidade que não existe para quem apenas obedece.
A conclusão decorada é o ponto cego
Quando se aprende de cor, aprende-se o resultado sem o percurso que levou até ele. Isso torna a formulação impossível de examinar por quem a recebeu — não há como discutir uma conclusão cujas razões nunca foram transmitidas junto.
A Escritura chega por tradução, e isso tem consequências
Este versículo é a demonstração prática disso: a acusação, na forma em que Jesus a faz, apoia-se numa versão do texto. Não é motivo de alarme — é motivo de humildade sobre o quanto de uma leitura depende de escolhas feitas por gente que traduziu.
6. Aspectos Filosóficos
A ação certa que não vale nada
"Em vão me adoram." A frase afirma que existe conduta correta, cumprida por gente sincera, sem valor nenhum. É uma afirmação estranha, e ela tem um lugar preciso na filosofia moral.
A comparação que se segue é do comentarista, e serve para pensar o problema — não para atribuí-lo ao texto. Nem Isaías nem Mateus formulam teoria moral.
Kant: agir conforme o dever não é agir por dever
Immanuel Kant fez dessa distinção o começo da sua ética. Na Fundamentação da Metafísica dos Costumes, de 1785, ele separa duas coisas que se parecem por fora e não são a mesma: a ação que está de acordo com o dever e a ação feita por causa do dever.
O exemplo dele é um comerciante que não engana o cliente inexperiente. A conduta é irrepreensível. Mas se ele não engana porque a honestidade lhe traz freguesia, então agiu por interesse, e a ação, embora correta, não tem valor moral nenhum — teria sido exatamente a mesma se o interesse mandasse o contrário. A correção exterior não distingue o honesto do calculista, porque os dois fazem o mesmo gesto.
Kant chama a primeira coisa de legalidade e a segunda de moralidade. Legalidade é conformidade com a regra; moralidade é o motivo pelo qual se cumpre a regra. E a consequência é dura: pela conduta observada, nunca se pode ter certeza de qual das duas está em jogo, nem nos outros nem em si mesmo.
Aplicado ao versículo, o par explica o que "em vão" quer dizer. Aquele culto tem legalidade completa: a hora certa, a fórmula certa, a reverência real. O que se nega é que ele tenha a outra coisa. É a mesma estrutura da acusação, formulada em vocabulário filosófico dois mil e quinhentos anos depois.
Kant contra o culto que substitui a conduta
Há um segundo texto de Kant que toca este versículo ainda mais de perto, e é bem menos conhecido. Em A Religião nos Limites da Simples Razão, de 1793, ele examina o que chama de falso serviço a Deus: a convicção de que existe alguma coisa que se possa fazer para agradar a Deus além de levar uma vida boa.
A tese é radical e vale enunciá-la sem suavizar. Para Kant, tudo o que alguém acredite poder fazer para tornar-se agradável a Deus, fora da conduta moral, é ilusão religiosa e culto falso. Ritos, fórmulas, disciplinas devocionais: nada disso é condenado como prática, mas é condenado como meio de agradar. Quando passa a ocupar esse lugar, torna-se aquilo que o versículo chama de vão.
A proximidade com o oráculo é evidente e é preciso marcar imediatamente onde ela termina. Kant conclui que a religião se reduz à moral, e o texto bíblico não conclui isso: o oráculo não diz que o culto seja dispensável, diz que aquele culto não produzia. Isaías fala em nome de um Deus que quer ser adorado, o que é exatamente o que Kant considera ilusão. As duas críticas se sobrepõem no diagnóstico e se separam no que propõem.
O ponto em que o versículo vai além de Kant
Há ainda uma diferença que joga a favor do texto, e vale registrá-la.
Kant localiza o problema na intenção de cada um, e por isso a sua ética é notoriamente difícil de aplicar: ninguém tem acesso confiável aos próprios motivos, e ele mesmo reconhece que jamais se pode ter certeza de ter agido por dever. O versículo localiza o problema em outro lugar — no ensino. Diz o que produziu aquele culto vazio: aprendeu-se como palavra de Deus o que era decisão de gente.
Isso é examinável de fora, e é a diferença prática entre as duas críticas. Perguntar "qual foi o meu motivo?" costuma não levar a nada. Perguntar "de onde veio esta regra que eu cumpro, e quem decidiu que ela vale?" tem resposta, e a resposta pode ser encontrada em documento.
7. Aplicações Práticas
Descobrir a origem do que se cumpre
A acusação do versículo tem uma tradução prática direta e bastante rara: separar, no que se pratica, o que veio do texto do que veio de decisão de alguém.
O exercício é simples de descrever e trabalhoso de fazer. Toma-se uma prática qualquer da própria comunidade religiosa — um formato de culto, uma exigência de conduta, um requisito para participar de alguma coisa — e procura-se a base dela. Às vezes a base aparece e é textual. Às vezes é uma decisão tomada num contexto que já não existe. E às vezes ninguém sabe: a prática está lá porque sempre esteve.
Achar que a base é humana não condena a prática. Muita coisa útil não tem base bíblica nenhuma e não precisa ter. O que o versículo condena é a prática humana que se apresenta como divina — e o remédio, portanto, não é abolir, é reetiquetar. Uma regra que se sabe humana pode ser discutida, adaptada e abandonada quando deixa de servir. É exatamente isso que ela perde ao subir de categoria.
Reparar no momento em que uma preferência vira doutrina
A passagem de decisão prática a norma sagrada acontece devagar e quase nunca é percebida enquanto ocorre. Há, porém, sinais.
O primeiro é a linguagem: quando "nós fazemos assim" vira "isto é o certo", e depois "isto é o que Deus quer". O segundo é a reação à pergunta: enquanto a regra é reconhecidamente humana, perguntar por que ela existe é uma pergunta comum; quando já subiu, a mesma pergunta soa desafio à fé. O terceiro é o desaparecimento do motivo: se ninguém na comunidade consegue mais dizer para que a regra serve, ela já deixou de ser instrumento.
Quem ensina carrega o peso extra
O versículo desloca a responsabilidade para quem transmite, e isso tem consequência prática para toda pessoa que ensina alguma coisa em contexto religioso — do púlpito à sala da escola dominical, do grupo pequeno à conversa com o filho.
A obrigação que decorre é modesta e verificável: dizer de onde vem o que se ensina. "Isto está escrito aqui" e "isto é como eu entendo" e "isto é como se faz na nossa igreja" são três frases diferentes, e a maior parte do dano nomeado pelo versículo vem de usar uma quando caberia outra. Não custa nada dizer a verdade sobre a origem, e o custo de não dizer aparece uma geração depois.
Reabrir o que se aprendeu de cor
Todo mundo carrega convicções religiosas que nunca examinou, recebidas na infância junto com o resto e nunca reabertas desde então. O versículo dá uma razão prática para revisitá-las: não porque estejam necessariamente erradas, mas porque a forma como foram recebidas — prontas, sem as razões — é a forma que produz o problema descrito aqui.
O teste é reconstruir o motivo. Se a razão de uma convicção pode ser dita em voz alta e examinada, ela está viva. Se a única resposta disponível é que sempre foi assim, o que se tem é a lição decorada de que o oráculo fala.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
"Em vão" quer dizer que o culto era falso?
Não. O verbo empregado afirma que a reverência existia, e o grego tinha palavras próprias para acusar fingimento, que não foram usadas. O que se nega é o resultado, não a autenticidade. É essa combinação — reverência verdadeira, efeito nulo — que torna o versículo difícil.
A frase "em vão me adoram" está mesmo no livro de Isaías?
Está na versão grega, que é a que Mateus cita. Não está no texto hebraico, que nesta segunda metade diz outra coisa. A análise do original expõe a diferença em detalhe, com as explicações propostas para ela e o grau de confiança de cada uma.
Isso significa que o texto foi manipulado?
Não há base para dizer isso. A tradução grega foi feita em Alexandria séculos antes de Jesus, sem relação nenhuma com a controvérsia deste capítulo, e o tradutor de Isaías traduzia com liberdade em muitas outras passagens onde nada estava em jogo. Manipulação exigiria intenção dirigida a um debate que ainda não existia. O que se pode afirmar é que a versão grega interpreta enquanto traduz — e que Jesus cita a Bíblia que a sua comunidade lia.
Os manuscritos do mar Morto resolvem a questão?
Resolvem metade dela. O rolo de Isaías da primeira gruta de Qumran, do século II antes de Cristo, traz o oráculo substancialmente na forma hebraica conhecida, sem a palavra que o grego traduz por "em vão". Isso fecha uma porta: não se pode alegar que a forma hebraica seja invenção medieval. Mas não abre outra — de onde veio a leitura grega continua sem resposta.
Jesus está condenando toda tradição religiosa?
O versículo não diz isso, e a formulação dele é precisa: o problema é ensinar regra humana como doutrina. Retire-se a etiqueta indevida e a acusação não pega. Uma comunidade que sabe quais das suas regras são decisões próprias não está descrita aqui.
Por que "mandamentos" aqui parece diferente do mandamento do versículo 3?
Porque são duas palavras gregas distintas, formadas da mesma raiz. A do versículo 3 designa a ordem enquanto ordem; a daqui designa a ordem já depositada, pronta para ser citada e transmitida. A análise do original examina a diferença. O importante é que ela não separa mandamento divino de humano: quem separa é a segunda palavra da expressão — de Deus, ou de homens.
Isto é um ataque ao judaísmo?
Não pode ser lido assim sem violência ao texto. Quem fala é judeu, cita um profeta judeu, apela à Lei judaica e discute com outros judeus sobre como cumpri-la. A acusação é interna, e o critério que ela usa vem de dentro. Tratá-la como crítica de uma religião a outra é importar um conflito que só surgiu gerações depois.
9. Conexão com Outros Textos
O oráculo e o que vem depois
Isaías 29:13 — o texto citado nos versículos 8 e 9, na versão grega.
Isaías 29:14 — a sentença imediatamente seguinte, que Jesus não cita: "perecerá a sabedoria dos seus sábios, e a inteligência dos seus prudentes se esconderá". Paulo a recolhe em 1 Coríntios 1:19. É o anúncio do fim da competência dos especialistas, colado ao versículo que os acusa.
A fórmula "mandamentos de homens"
Marcos 7:7 — a mesma citação, no relato paralelo.
Colossenses 2:22 — "segundo os mandamentos e doutrinas dos homens". Paulo retoma a expressão para criticar regras alimentares e de calendário impostas à comunidade. É a mesma palavra grega, e são as três únicas ocorrências dela em todo o Novo Testamento.
Tito 1:14 — "mandamentos de homens que se desviam da verdade". A fórmula já como categoria consolidada no vocabulário cristão primitivo.
Culto que não produz
Isaías 1:11-17 — "de que me serve a multidão dos vossos sacrifícios?". A mesma crítica, do mesmo profeta, no primeiro capítulo do livro.
Amós 5:21-24 — "aborreço, desprezo as vossas festas". A recusa mais violenta do culto no Antigo Testamento.
Miqueias 6:6-8 — a pergunta sobre com que se apresentar diante de Deus, e a resposta: praticar a justiça, amar a misericórdia, andar humildemente.
Tiago 1:26-27 — "se alguém pensa ser religioso e não refreia a língua, a sua religião é vã". O único lugar do Novo Testamento que usa a palavra "vã" aplicada à religião de alguém, e o critério que ele oferece é de conduta.
Ensinar e a responsabilidade de quem ensina
Mateus 23:15 — "percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito, e, feito, o tornais filho do inferno em dobro". O efeito do ensino sobre o aprendiz, levado ao extremo.
Tiago 3:1 — "não vos façais muitos mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo". A regra explicitada.
Lucas 11:52 — "tirastes a chave da ciência; vós mesmos não entrastes, e impedistes os que entravam". A acusação aos especialistas na versão de Lucas.
Reverência
Atos 13:50; 17:4 — o mesmo verbo grego usado neste versículo designa os gentios simpatizantes da sinagoga, os chamados tementes a Deus. Mostra que a palavra descreve reverência real, e não simulação.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Em vão, porém, me adoram, ensinando como doutrinas mandamentos de homens’.”
Texto grego
μάτην δὲ σέβονταί με, διδάσκοντες διδασκαλίας ἐντάλματα ἀνθρώπων.
Transliteração
matēn de sebontai me, didaskontes didaskalias entalmata anthrōpōn.
Análise palavra por palavra
μάτην — matēn, "em vão". Advérbio, do adjetivo mataios, que designa o que é vazio, sem efeito, sem propósito. É a mesma família de palavras que a Septuaginta usa no Eclesiastes para traduzir hevel, o famoso "vaidade das vaidades" — sopro, coisa sem consistência.
O advérbio julga o resultado, não a intenção. Não diz que a adoração seja mentirosa: diz que não chega a nada.
σέβονταί με — sebontai me, "adoram-me". O verbo é sebomai, que só existe em grego na forma média, aquela em que o sujeito está envolvido no que faz.
A escolha da palavra importa, porque o grego tinha várias e nenhuma outra foi usada. Latreuō é o servir no culto; leitourgeō, o exercer função no serviço religioso; proskyneō, o prostrar-se; thyō, o sacrificar. Sebomai é o comportamento de quem reconhece algo como sagrado e age de acordo — reverência, e não rito específico.
Da mesma raiz vêm eusebeia (a piedade como virtude), asebeia (a impiedade, que em Atenas era crime público) e sebastos, o adjetivo com que o grego traduziu o título imperial latino augustus. É vocabulário de respeito socialmente visível.
No livro de Atos a mesma palavra designa os gentios que frequentavam a sinagoga sem se converter — os tementes a Deus —, e em Atos 19:27 descreve o culto a Ártemis em Éfeso, sem nenhuma ironia. Ela nomeia a reverência como conduta, seja qual for o destinatário.
Daí a consequência: o texto afirma que a reverência existia. Não há acusação de fingimento neste versículo, e o grego tinha palavras para fazê-la se fosse o caso.
διδάσκοντες διδασκαλίας — didaskontes didaskalias, "ensinando ensinos". Aqui há um jogo que se perde inteiramente em português: o verbo e o seu objeto vêm da mesma raiz. Literalmente, eles ensinam ensinamentos.
A construção é comum na Septuaginta porque imita um traço do hebraico, que costuma repetir a raiz para intensificar. O efeito, aqui, é de circuito fechado: aquela atividade produz ensino, e nada além de ensino.
ἐντάλματα ἀνθρώπων — entalmata anthrōpōn, "mandamentos de homens". A palavra entalma merece atenção. É formada da mesma raiz de entolē, o termo usado no versículo 3 para o mandamento de Deus, mas com uma terminação diferente — a que indica resultado. Entolē é a ordem enquanto ato de ordenar; entalma é a ordem já depositada, a regra pronta, aquilo que se cita e se transmite.
A escolha da palavra combina com o assunto do versículo, que é o ensino. O que se transmite não é o gesto de ordenar: é a fórmula que sobrou dele.
É palavra rara. Aparece três vezes em todo o Novo Testamento — aqui, no relato paralelo de Marcos 7:7 e em Colossenses 2:22 —, e nas três com sentido crítico.
E note-se onde está a oposição real. Não é entre duas palavras diferentes para mandamento: é entre os dois complementos. De Deus, de homens. A regra em si não é o problema; a assinatura é.
A divergência com o hebraico
Chegamos ao dado central deste versículo, e ele precisa ser exposto sem rodeio.
O Texto Massorético — a Bíblia hebraica tal como os copistas judeus a fixaram, a partir de manuscritos bem mais antigos — lê, em Isaías 29:13: wattehi yir'atam oti mitzvat anashim melummadah. Traduzido de perto: "e o temor deles por mim veio a ser mandamento de homens ensinado" — ou "decorado", conforme o valor que se dê à última palavra.
A versão grega, que Mateus reproduz, diz: "em vão me adoram, ensinando ensinos, mandamentos de homens".
Três diferenças, e a terceira é decisiva.
A primeira: nome vira verbo. No hebraico o sujeito da frase é o temor — "o temor deles por mim" — e a frase diz o que esse temor se tornou. No grego, o sujeito são as pessoas, e o verbo é de ação: elas reverenciam. A correspondência entre uma coisa e outra é plausível e é a explicação corrente: o tradutor de Isaías transforma construções com substantivo em construções com verbo em várias outras passagens. Aqui o grau de confiança é alto.
A segunda: passivo vira ativo. A palavra hebraica melummadah é uma forma passiva — descreve algo que foi ensinado a alguém, uma lição recebida e decorada. O grego tem um particípio ativo, "ensinando", com sujeito humano. Isso muda o alvo da frase: no hebraico, quem está sendo acusado é aquele cuja reverência virou lição de cor, isto é, o aluno; no grego, quem ensina.
A explicação corrente é que o tradutor tenha lido no seu exemplar uma forma ativa muito parecida, coisa perfeitamente possível numa escrita que não marcava as vogais. É hipótese razoável e não é demonstrável.
A terceira: aparece "em vão". Não há, no hebraico, palavra nenhuma que corresponda ao advérbio. Ele é a peça mais forte da frase grega e não tem original.
As explicações propostas são três, e não há consenso entre elas. Uma sustenta que o tradutor leu no seu exemplar uma palavra da família de tohu — o "vazio e sem forma" de Gênesis 1:2 —, que a Septuaginta verte em outros lugares por termos dessa mesma família. Outra propõe que o advérbio seja acréscimo do próprio tradutor, para tornar em grego o sentido de uma construção hebraica difícil. Outra ainda sugere que ele tenha dividido de outro modo a sequência de consoantes. Não é possível decidir com os dados disponíveis.
O que os manuscritos do mar Morto acrescentam
O grande rolo de Isaías achado na primeira gruta de Qumran foi copiado provavelmente no século II antes de Cristo — mais de mil anos antes das cópias hebraicas completas de que se dispunha até 1947. Ele traz este oráculo substancialmente na forma hebraica conhecida. Há uma variante de grafia que os especialistas discutem, e ela não fornece o termo que o grego traduz por "em vão".
O testemunho do rolo fecha uma porta e não abre outra. Fecha a alegação de que a forma hebraica seria corrupção tardia: ela já circulava séculos antes de Jesus. Não esclarece de onde saiu a leitura grega, e a questão permanece em aberto.
O que fazer com isso
Duas manobras devem ser evitadas, uma de cada lado.
A primeira é tratar o dado como prova de erro ou de fraude. A tradução grega era Escritura para quem lia em grego; não era versão adulterada de um original disponível, era o texto. Citar num debate público a Bíblia da própria comunidade é comportamento normal e não pede desculpa.
A segunda é garantir que as duas versões dizem a mesma coisa. Não dizem. Dizem coisas diferentes sobre o mesmo fenômeno: o hebraico diagnostica de onde veio aquela reverência, o grego julga o que ela produz. Reconhecer a diferença é mais interessante do que apagá-la — quem tem as duas versões diante de si enxerga o problema de dois ângulos.
O que se pode afirmar com segurança é isto: a acusação existe nas duas formas; o alvo específico — os que ensinam — depende da forma grega; e é a forma grega que Jesus cita, como citava toda a sua comunidade.
11. Conclusão
Do exame acima decorrem três conclusões.
Uma delas é sobre o que torna um culto vão. Não é a falsidade, não é a frieza, não é a falta de esforço. É a origem daquilo que se aprendeu a cumprir: regra humana recebida como palavra de Deus. Conclui-se que a pergunta a fazer diante de uma prática religiosa não é se ela é sincera nem se é antiga, mas se ela sabe de onde veio — porque uma regra honesta sobre a própria origem continua discutível, e uma regra promovida a doutrina não.
A segunda é sobre quem responde. Este é o único ponto de toda a controvérsia em que a acusação deixa de tratar do que os acusados fazem e passa a tratar do que eles produzem nos outros. Conclui-se que ensinar é atividade de risco: quem transmite uma regra sem dizer de onde ela vem entrega ao aluno uma conclusão sem as razões, e uma conclusão sem razões não tem como ser examinada depois. O dano não aparece em quem ensinou — aparece na geração seguinte.
A terceira é sobre o próprio texto que temos nas mãos. A acusação, na forma exata em que Jesus a faz, apoia-se numa tradução que diverge do hebraico em um ponto decisivo. Conclui-se que a Escritura chega a qualquer leitor por meio de escolhas feitas por gente que traduziu, e que saber disso não enfraquece a leitura: torna-a honesta. Há uma ironia no fato de o versículo que denuncia a transmissão descuidada ser justamente aquele em que a transmissão do próprio texto se torna visível.
E fica um fecho que o oráculo não diz e o profeta escreveu na linha seguinte. Isaías 29:14 anuncia que a sabedoria dos sábios vai perecer. Jesus para antes disso, e não cita. Quem tinha o texto de cor — e os seus interlocutores tinham — ouviu a continuação sem que ela precisasse ser dita.













