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Mateus 15:10

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✍️ Por Alberto Adriano·1 de setembro de 2026·⏱️ 27 min de leitura·👁 45 acessos
E, chamando a multidão, disse-lhes: “Ouçam e entendam.
Homem de vestes antigas em pé num descampado à beira de um lago, com a mão erguida chamando lavradores e pescadores que se aproximam, enquanto ao fundo alguns homens de vestes finas observam à distância.

Estudo


E, chamando a multidão, disse-lhes: “Ouçam e entendam.

1. Introdução

Muda o público, e é a coisa mais importante que acontece neste versículo.

Do versículo 1 até aqui, a conversa era entre Jesus e uma delegação de especialistas em lei religiosa vinda de Jerusalém. Discutia-se lavagem de mãos, votos, tradição dos anciãos — assunto de gente formada no assunto. Agora Jesus se vira e chama o povo.

Os interpelados não são despedidos e não recebem resposta. A questão que eles levantaram vai ser resolvida, mas diante de outra plateia, e essa mudança de plateia é ela mesma uma afirmação sobre a natureza da questão.

Três coisas pedem exame. O verbo de "chamando" não é o de chamar alguém para conversar: é o de convocar, e a análise do original mostra em que companhia ele aparece no evangelho. Quem era essa multidão, o que sabia e o que não tinha acesso a saber é assunto do contexto histórico. E os dois verbos da ordem — ouvir e entender — são, em grego, exatamente os dois verbos de um oráculo célebre de Isaías, ali negados e aqui mandados fazer.

2. Contexto Histórico e Cultural

Quem estava na multidão

A Galileia do primeiro século era uma região rural de aldeias pequenas em torno de dois centros urbanos, Séforis e Tiberíades. A gente que se juntava para ouvir Jesus vinha das aldeias: lavradores, pescadores do lago, artesãos, diaristas, mulheres e crianças. Gente que trabalhava com as mãos e que, no verão, tinha os dias ocupados.

Uma multidão assim é, antes de tudo, um custo. Cada pessoa parada ali é uma hora de trabalho que não foi feita. Isso costuma escapar à leitura devocional, que imagina ouvintes ociosos; o público de Jesus estava pagando para escutar.

O que essa gente sabia e o que não podia saber

A questão em disputa no capítulo é técnica. Envolve saber o que a Lei escrita determina, o que a tradição oral acrescentou, como se resolve um caso em que as duas colidem e que autoridade decide. É matéria de especialista.

E o leigo galileu tinha acesso limitado a ela. As estimativas de alfabetização na Palestina do período variam bastante entre os pesquisadores, e nenhuma é alta — a maior parte da população não lia. O contato com a Escritura se dava pelo ouvido, na leitura pública da sinagoga aos sábados, seguida de tradução oral para o aramaico, que era a língua falada. Ouvia-se o texto; não se conferia o texto.

A tradição oral, então, era ainda mais inacessível: não estava escrita em lugar nenhum, vivia na memória dos mestres e se aprendia por convivência longa com eles. Quem não estudava com um mestre não tinha como saber o que ela dizia, muito menos discuti-la.

É esse desnível que dá peso ao gesto do versículo. Jesus não está apenas mudando de plateia: está levando a um público sem acesso à matéria uma disputa que, pelas regras do campo, só os que têm acesso poderiam julgar.

Ensinar ao ar livre

Havia dois lugares para ensinar religião naquele mundo, e eles não eram equivalentes.

Um era a sinagoga, e o círculo de discípulos em torno de um mestre. Espaço estruturado, com autoridade reconhecida, público selecionado e método próprio de transmissão.

O outro era o espaço aberto: a beira do lago, a encosta, a praça da aldeia, o caminho. Ali não havia porteiro. Quem passasse podia parar, e quem parasse ouvia o mesmo que todos os outros. Mateus situa nesse espaço os grandes blocos de ensino de Jesus — o Sermão da Montanha numa encosta, as parábolas à beira-mar, este episódio em algum ponto da região de Genesaré.

A escolha do lugar não é neutra em nenhuma cultura, e não era naquela. Ensino em espaço aberto é ensino que não se pode controlar: não há como escolher quem entra, nem como impedir que o que foi dito seja repetido adiante.

A prática de tratar a lei entre pares

Do outro lado, o debate sobre a lei religiosa era assunto entre profissionais. Discutia-se num círculo de gente qualificada, com regras próprias de argumentação, e a decisão que saía dali chegava ao povo já pronta, na forma de norma a cumprir.

Não é acusação: é como funcionava, e como funciona ainda hoje qualquer campo técnico. O leigo recebe a conclusão, não o debate. O que o versículo faz é romper esse arranjo num ponto específico — e vale reter que romper era, ali, tão anormal quanto seria hoje um médico discutir com a fila de espera o diagnóstico que os colegas dele acabaram de fechar.

3. Análise Teológica do Versículo

"E, chamando a multidão"

O verbo não é o de chamar alguém para conversar. É o de convocar — o mesmo com que, no evangelho, Jesus reúne os doze para lhes dar autoridade e com que um senhor manda trazer à sua frente o servo devedor para a sentença. A análise do original mostra onde mais ele aparece. O que interessa aqui é o efeito: a multidão não se aproximou por curiosidade, foi chamada.

E vale reparar em quem some da frase. Os fariseus e escribas não são despedidos, não respondem, não recebem conclusão. Simplesmente deixam de ser o destinatário. É uma forma de encerrar uma conversa que não passa por vencê-la.

O gesto tem um antecedente incômodo dois versículos antes. O oráculo citado falava de um povo que se aproximava de Deus pela metade — e agora é uma multidão que Jesus aproxima de si. O texto não comenta a aproximação das duas cenas, e afirmar que ela é intencional seria ir além do que se pode mostrar. Mas ela está na página.

"Ouçam e entendam"

Duas ordens, e a segunda é estranha. Ouvir se manda: basta parar e prestar atenção. Entender não parece coisa que se possa mandar — ou se entende, ou não.

A estranheza se desfaz quando se descobre de onde vêm as duas palavras. Em grego, elas são exatamente os dois verbos de um dos oráculos mais duros da Bíblia: o texto em que Isaías é enviado a pregar a um povo que ouvirá sem entender, e cuja pregação vai deixar esse povo mais surdo, não menos (Isaías 6:9-10). Ali os verbos estão negados e no futuro: ouvireis e não entendereis. Aqui estão afirmados e no imperativo: ouçam e entendam.

A demonstração de que são as mesmas palavras é matéria da análise do original, e ela é verificável. O que decorre disso para a leitura é o seguinte.

Mateus conhecia esse oráculo muito bem: citou-o por inteiro dois capítulos antes, no discurso das parábolas (Mateus 13:14-15), e é a única vez em que o faz. Dizer "ouçam e entendam" nos termos exatos daquele texto é mandar desfazer o que ele descrevia. A condenação era de que o povo ouviria sem entender; a ordem é que ouça e entenda.

Que a alusão seja deliberada é leitura, não fato, e é preciso dizê-lo. A favor: a citação por extenso dois capítulos antes, o par de verbos intacto, e o fato de este capítulo já vir citando o mesmo profeta. Contra: ouvir e entender formam um par corrente na literatura sapiencial grega, e a coincidência poderia ser fórmula comum. A leitura é plausível, provavelmente deliberada, e o efeito existe de todo modo para quem tem os dois textos.

Repare na moldura que se forma. Nos versículos 8 e 9, Isaías é citado às claras sobre uma religião que não chega ao coração. No versículo 10, o mesmo profeta está por baixo, sobre um povo que não chega ao entendimento. Duas descrições do mesmo problema cercando a cena em que o público muda.

O que a mudança de público significa

Aqui está o ponto teologicamente mais denso do versículo, e ele precisa ser dito com cuidado para não virar slogan.

A questão levantada no versículo 1 era técnica, e pelas regras do campo só especialistas poderiam decidi-la. Ao levá-la à multidão, Jesus faz uma afirmação implícita sobre a natureza dela: aquilo que está em jogo não é matéria de perito. É coisa que um lavrador pode julgar, se lhe for dita com clareza.

Note-se que ele não diz isso. Não há nenhuma frase declarando que os especialistas perderam a competência. O que há é um gesto, e o gesto afirma sozinho.

E há um segundo efeito, prático. O que se diz diante de uma multidão não volta atrás. Some a possibilidade de negociar a formulação entre pares, de matizá-la, de deixá-la em suspenso até que se chegue a um acordo. A frase que vem no versículo seguinte vai circular pelas aldeias na versão em que foi dita.

O limite, e ele é importante

Uma leitura popular precisa ser barrada aqui, porque é sedutora e o texto não a sustenta: a de que os doutores rejeitam a verdade e o povo simples a reconhece.

Mateus não constrói a multidão assim. Ela se admira do ensino (Mateus 7:28), é descrita como gente cansada e sem pastor (Mateus 9:36), é alimentada duas vezes sem decidir nada, aclama Jesus na entrada em Jerusalém — e, no fim, é persuadida pelos chefes a pedir a soltura de Barrabás e a morte de Jesus (Mateus 27:20-25). É a mesma palavra e o mesmo tipo de personagem.

O arco, portanto, não é o de um povo confiável contra uma elite corrompida. É o de um conjunto humano influenciável nos dois sentidos, que recebe o ensino quando é chamado a recebê-lo e pede a morte quando é convencido a pedi-la.

A convocação deste versículo, então, não é declaração de que a maioria acerta. É afirmação de que aquela questão específica está ao alcance de quem não é do ramo. As duas coisas são bem diferentes, e confundi-las produz uma leitura que o próprio evangelho desmente vinte capítulos adiante.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A multidão

Personagem recorrente em Mateus, e o mais mal compreendido do evangelho. Aparece dezenas de vezes, sempre como coletivo sem nome: gente do campo e das aldeias que segue Jesus pela Galileia.

O percurso dela no livro não é de progresso. Admira-se do ensino no fim do Sermão da Montanha, é objeto de compaixão por andar "como ovelhas que não têm pastor", é alimentada duas vezes, aclama a entrada em Jerusalém — e, no capítulo 27, é persuadida a pedir a morte de Jesus. Quem lê o evangelho inteiro não pode tratá-la como instância confiável, e quem lê só este versículo tende a fazê-lo.

Os fariseus e escribas de Jerusalém

Presentes na cena e ausentes da frase. Não há notícia de que tenham ido embora, e o versículo 12 mostrará que ouviram o que foi dito e se ofenderam. Continuam ali — sem serem mais o destinatário.

Os discípulos

Fora de cena neste versículo. Voltarão no versículo 12, para relatar a Jesus a reação dos fariseus, e no 15, para pedir a explicação que a multidão não pediu. É um dado curioso: quem foi convocado a entender não pergunta nada; quem não foi convocado pede explicação.

Isaías

Presente por duas vias. Citado às claras nos versículos 8 e 9, e presente sem citação neste versículo, nos dois verbos da ordem. É o profeta que atravessa o capítulo inteiro.

O lugar

O texto não informa. Pela indicação de Mateus 14:34, a cena se passa em algum ponto da região de Genesaré, na margem noroeste do lago da Galileia. Não se diz se é dentro de uma casa, numa praça ou em campo aberto — e o silêncio importa, porque a convocação de uma multidão pressupõe espaço para ela caber.

5. Pontos de Ensino

Uma questão pode ser tirada das mãos dos especialistas

Não por decreto, e sim por gesto: mudando quem ouve. Ao levar ao povo uma disputa de direito religioso, Jesus afirma na prática que aquele assunto não pertence a um campo fechado. É a afirmação mais forte do versículo, e ela é feita sem uma palavra.

Falar em público é abrir mão do controle

O que se diz entre pares pode ser corrigido, matizado ou retirado. O que se diz diante de uma multidão sai andando. Escolher o espaço aberto é escolher perder o poder sobre a própria formulação.

Entender é comandado, e isso é uma pressuposição sobre quem ouve

Só se manda fazer o que se supõe que a pessoa possa fazer. A ordem de entender, dirigida a lavradores e pescadores a respeito de uma questão de especialistas, pressupõe que eles sejam capazes disso. É um voto de confiança embutido no imperativo.

Ouvir e entender não são a mesma coisa

A ordem tem duas partes porque a primeira não garante a segunda. É um dado sobre a comunicação religiosa que atravessa a Bíblia inteira: audiência não é compreensão, e a maior parte do que se prega é ouvida sem ser entendida.

Não responder também é uma resposta

A pergunta dos fariseus fica sem réplica direta. Jesus não a vence, não a concede e não a descarta em palavras: simplesmente muda de interlocutor. Há situações em que continuar respondendo é aceitar a moldura do adversário, e a saída é trocar o terreno.

6. Aspectos Filosóficos

Quem tem competência para julgar?

O gesto do versículo levanta uma pergunta que a filosofia política discute desde o começo dela: há assuntos em que só o especialista pode opinar, e assuntos em que qualquer pessoa pode? E, se há, quem traça a linha entre uns e outros?

O que segue é aproximação do comentarista com um debate antigo, e não leitura do que Mateus quis dizer. O evangelho não discute teoria política e não conhece os conceitos que virão.

O mito de Protágoras

A formulação clássica do problema está num diálogo de Platão, o Protágoras, escrito no século IV antes de Cristo. Sócrates levanta uma objeção prática: quando os atenienses precisam construir um navio, chamam os construtores navais, e ninguém aceita palpite de leigo; mas quando se trata dos negócios da cidade, qualquer cidadão sobe à tribuna e é ouvido. Se governar é uma arte, por que só nessa arte se dispensa o perito?

Protágoras responde com uma história. No começo, os homens tinham as artes técnicas e não sabiam viver juntos: reuniam-se e se destruíam. Zeus então mandou Hermes distribuir entre eles o respeito ao outro e o senso de justiça — mas com uma instrução expressa: não como as demais artes, entregues a poucos, e sim a todos. E acrescentou uma cláusula dura: quem não fosse capaz de participar delas deveria ser eliminado da cidade, como uma doença.

A conclusão que Protágoras tira é exatamente a que interessa aqui. Numa questão de técnica, o leigo cala. Numa questão sobre o que é justo, todos têm assento, porque sem essa capacidade repartida por todos não haveria cidade nenhuma. A competência para julgar o justo não é profissão.

A posição contrária, no mesmo autor

Convém não simplificar: Platão, que escreveu o diálogo, não concorda com Protágoras. Na República ele defende o oposto — governar é a mais difícil das artes, e deve caber a quem passou a vida se preparando para ela. O argumento é o mesmo do navio, levado até o fim: se ninguém entrega o leme a quem não sabe navegar, por que entregar a cidade a quem não estudou o que é justo?

A disputa entre as duas posições nunca foi encerrada, e reaparece inteira em qualquer discussão contemporânea sobre plebiscito, júri popular ou opinião pública em assunto técnico.

Onde o versículo entra

Aos olhos dos interpelados, a questão do capítulo era técnica: sabe-se qual regra se aplica estudando a tradição, e quem não estudou não tem o que dizer. Ao convocar a multidão, Jesus reclassifica o assunto — trata como questão sobre o justo aquilo que os especialistas tratavam como questão de perícia.

A reclassificação, e não a resposta, é o que o gesto contém. Ele não diz que o povo saiba mais; diz que aquele assunto é do tipo em que o povo tem assento. É a posição de Protágoras aplicada ao direito religioso.

O que a comparação não autoriza

Três limites, e todos importam.

O primeiro: Protágoras fundamenta o assento de todos numa capacidade repartida por igual, e o versículo não fundamenta coisa nenhuma. Há um gesto, e o texto não explica por que a multidão poderia julgar. Atribuir-lhe uma doutrina da igualdade seria acrescentar o que não está lá.

O segundo: quem convoca não é um cidadão entre outros propondo deliberação. É alguém que chama com autoridade, e a análise do original mostra o peso do verbo. A cena não é uma assembleia; é um mestre falando a um público que ele reuniu.

O terceiro é o mais sério, e vem do próprio evangelho. Mateus mostra essa mesma multidão sendo convencida, no fim do livro, a pedir a morte de Jesus. Quem quiser usar este versículo como argumento a favor do juízo popular tem de explicar o capítulo 27 — e não há explicação boa. O que fica de pé é bem mais modesto: naquela questão, aquele público foi julgado capaz. Não se conclui daí que todo público o seja em toda questão.

7. Aplicações Práticas

Pedir a versão em linguagem comum

Há um teste prático embutido neste versículo, e ele funciona em qualquer campo: pedir que o argumento técnico seja dito de modo que um leigo atento possa julgá-lo.

O resultado costuma ser revelador. Boa parte dos argumentos sobrevive à tradução e fica mais clara; é sinal de que a complexidade era do assunto. Outra parte não sobrevive — e aí há dois casos possíveis, que precisam ser distinguidos com honestidade. Existem questões genuinamente técnicas, em que a simplificação destrói o conteúdo, e quem exige linguagem simples nesses casos está exigindo que o problema seja outro. E existem argumentos que só se sustentam enquanto ficam no vocabulário fechado, porque a fragilidade deles aparece assim que são ditos com palavras comuns.

A diferença entre os dois casos não está no grau de dificuldade, e sim no que acontece quando se pergunta "quem é prejudicado por isso?". Numa questão realmente técnica, essa pergunta tem resposta clara e o especialista a dá sem hesitar. No outro caso, a pergunta é tratada como fora de lugar.

Trocar o interlocutor quando a conversa está travada

Jesus não vence a discussão com os fariseus: muda de público. Há um uso legítimo desse movimento e um uso desonesto, e vale saber separá-los.

É legítimo quando a discussão está presa a uma moldura que favorece um dos lados e não há como refutá-la por dentro. Continuar respondendo, ali, é aceitar as regras do outro. Mudar o terreno recoloca a questão.

É manobra quando o objetivo é fugir de um argumento que não se sabe responder e buscar plateia mais fácil de convencer. A diferença aparece no que se faz depois da mudança: quem tinha razão diz a mesma coisa no novo terreno, com outras palavras; quem estava fugindo muda também o conteúdo.

Aqui, o critério é fácil de aplicar: o que Jesus vai dizer à multidão no versículo seguinte é mais duro do que tudo o que ele disse aos fariseus, não menos.

Não confundir ter ouvido com ter entendido

A ordem tem duas partes porque a primeira não produz a segunda automaticamente, e isso tem consequência prática para quem fala e para quem ouve.

Para quem ouve: a sensação de concordância não é entendimento. É perfeitamente possível assentir com um argumento e não conseguir reconstruí-lo depois — e um teste barato de verificação é tentar dizê-lo em voz alta a outra pessoa, sem repetir as palavras originais.

Para quem fala: o silêncio da plateia não é sinal nenhum. Nesta cena, quem foi convocado a entender não faz pergunta nenhuma, e são os discípulos, que não haviam sido convocados, os que voltam depois pedindo explicação. Público calado costuma ser público que não entendeu e não quer dizer.

Falar de modo que possa ser repetido

O que se diz em público circula sem quem disse. Não há como acompanhar a frase e corrigi-la a cada nova boca, e por isso a formulação precisa aguentar sozinha a viagem.

Isso muda o modo de dizer as coisas em qualquer contexto de alcance amplo. A frase que só funciona com o tom de voz, o contexto e a presença de quem a proferiu vai chegar deformada ao terceiro ouvinte. A que se sustenta sozinha chega inteira — e é por isso que quem tem algo sério a dizer costuma dizê-lo curto.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A multidão já estava ali durante a discussão?

Mateus não diz. O verbo indica que ela foi chamada, o que sugere que não estava ao alcance da voz; mas chamar também pode significar aproximar quem estava a alguma distância. Marcos, no relato paralelo, escreve "chamando de novo a multidão", o que pressupõe uma convocação anterior. Mateus não tem esse "de novo". Não é possível decidir.

Os fariseus foram embora?

Não. O versículo 12 mostra os discípulos avisando Jesus de que eles se ofenderam com o que ouviram, o que só faz sentido se continuavam por perto. A cena tem, portanto, dois públicos: um convocado e outro que ficou escutando sem ser chamado.

O que muda em relação a Marcos?

Quatro coisas, todas pequenas e todas na direção da economia. Marcos tem "de novo", que Mateus não tem. Marcos tem "ouvi-me", com o pronome que faz do próprio Jesus o objeto da escuta; Mateus escreve o imperativo sem complemento, e o que se deve ouvir fica apontando para a frase que vem depois. Marcos tem "todos"; Mateus não. E o primeiro verbo, em Mateus, está numa forma que sugere ação continuada — algo como "estejam ouvindo" —, enquanto em Marcos aponta um ato pontual. O que Mateus não escreve é dado, e não se deve importar o "todos" de Marcos para dentro dele.

Por que mandar entender, se entender não depende de vontade?

Depende em parte, e é essa parte que a ordem alcança. Não se manda ter a percepção; manda-se fazer o que a torna possível — parar, atender, não descartar antes da hora, trabalhar a informação em vez de recebê-la de passagem. E há a origem da fórmula: os dois verbos vêm de um oráculo em que aparecem negados, e mandá-los no imperativo é desfazer a negação.

Isso quer dizer que Jesus confiava mais no povo do que nos doutores?

O texto não autoriza essa conclusão, e o evangelho a desmente adiante. O que o gesto afirma é que aquela questão estava ao alcance de quem não era do ramo — o que é bem diferente de dizer que o povo julga melhor. A mesma multidão pedirá a morte de Jesus no capítulo 27.

Este versículo encerra a controvérsia ou começa outra coisa?

As duas coisas, e é por isso que ele é uma dobradiça. Encerra o bloco iniciado no versículo 1 sem responder à pergunta feita, e abre o bloco dos versículos 11 a 20, em que a resposta virá por outro caminho — não sobre lavar as mãos, mas sobre o que de fato contamina alguém.

9. Conexão com Outros Textos

O oráculo por baixo dos dois verbos

Isaías 6:9-10 — "ouvindo, ouvireis e não entendereis; vendo, vereis e não percebereis". Na versão grega, os dois verbos são exatamente os deste versículo, ali negados.

Mateus 13:14-15 — a citação por extenso desse mesmo oráculo, no discurso das parábolas. É a única vez em que Mateus o cita, e está dois capítulos antes desta cena.

Atos 28:26-27 — Paulo, em Roma, aplica o mesmo oráculo aos que o ouviram. O texto fecha o livro dos Atos.

O verbo "entender" em Mateus

Mateus 13:19, 23 — quem ouve a palavra e não entende, e quem ouve e entende. A parábola do semeador faz do entendimento o critério que separa os terrenos.

Mateus 13:51 — "entendestes todas estas coisas?". A pergunta com que Jesus fecha o discurso das parábolas.

Mateus 16:12 — os discípulos finalmente entendem que o fermento dos fariseus era a doutrina deles. O verbo reaparece pouco depois desta cena, e para dizer que a lição do capítulo 15 foi absorvida.

O verbo da convocação

Mateus 10:1 — Jesus convoca os doze e lhes dá autoridade. O mesmo verbo, no ato que institui o grupo.

Mateus 18:2 — chama uma criança e a põe no meio deles.

Mateus 18:32 — o senhor convoca o servo devedor para lhe dar a sentença.

Atos 13:2 — o Espírito separa Barnabé e Saulo "para a obra a que os tenho chamado". A mesma raiz, na cena que inaugura a missão.

A multidão como personagem

Mateus 7:28 — admira-se do ensino ao fim do Sermão da Montanha.

Mateus 9:36 — "andavam cansados e desamparados, como ovelhas que não têm pastor".

Mateus 27:20-25 — persuadida pelos chefes, pede Barrabás e a morte de Jesus. O contrapeso obrigatório de qualquer leitura otimista deste versículo.

Chamar para ouvir

Deuteronômio 6:4 — "Ouve, ó Israel". O imperativo que abre a oração que todo judeu recitava, e o modelo de toda convocação à escuta na Bíblia.

Provérbios 8:1-5 — a Sabedoria clama nos altos, junto às portas da cidade, dirigindo-se aos simples. O modelo sapiencial do ensino em espaço público.

O paralelo

Marcos 7:14 — "e, chamando de novo a multidão, dizia-lhes: ouvi-me todos, e entendei".

10. Original Grego e Análise

Texto em português

E, chamando a multidão, disse-lhes: “Ouçam e entendam.

Texto grego

Καὶ προσκαλεσάμενος τὸν ὄχλον, εἶπεν αὐτοῖς, Ἀκούετε καὶ συνίετε·

Transliteração

Kai proskalesamenos ton ochlon, eipen autois, Akouete kai syniete.

Análise palavra por palavra

προσκαλεσάμενος — proskalesamenos, "tendo chamado a si". Particípio no tempo do fato acabado, e na forma média — aquela em que a ação recai de algum modo sobre o próprio sujeito. Daí o "a si": não é chamar para um lugar qualquer, é chamar para perto de quem chama.

O verbo é composto de pros ("para junto de") mais kaleō ("chamar"), e o grego oferecia alternativas mais neutras que não foram usadas: kaleō sozinho, phōneō (chamar em voz alta), ou simplesmente dirigir-se a alguém.

A companhia que ele mantém no evangelho define o registro. É o verbo com que Jesus reúne os doze antes de lhes dar autoridade (Mateus 10:1); com que chama a criança e a põe no meio (Mateus 18:2); com que, na parábola, o senhor manda trazer à sua frente o servo devedor para a sentença (Mateus 18:32); e com que reúne os discípulos antes do ensino sobre a autoridade (Mateus 20:25). Fora de Mateus, é o verbo do Espírito ao separar Barnabé e Saulo para a missão (Atos 13:2).

O padrão é consistente: trata-se de convocação feita por quem tem posição para convocar. Isso muda a temperatura da cena. A multidão não se juntou por curiosidade; foi chamada, e o gesto tem a mesma forma do gesto com que se reúnem os doze.

τὸν ὄχλον — ton ochlon, "a multidão". Ochlos designa a aglomeração de gente comum, sem organização e sem nome. Não é laos, a palavra da eleição, que a Bíblia grega reserva quase sempre a Israel enquanto povo de Deus — e que é justamente a palavra usada no versículo 8, na citação do profeta.

A troca merece registro. Dois versículos antes, "este povo"; aqui, "a multidão". Se a diferença é significativa ou apenas reflete o vocabulário próprio de cada frase — uma citando o profeta, a outra narrando a cena — não é possível decidir. O dado fica anotado.

Também não é dēmos, a palavra grega do povo enquanto corpo político que delibera, nem plēthos, a massa numerosa. Ochlos é o mais indefinido dos termos disponíveis.

εἶπεν αὐτοῖς — eipen autois, "disse-lhes". Verbo no tempo do fato pontual, com o pronome no caso do destinatário. Fórmula comum, sem carga especial.

Ἀκούετε καὶ συνίετε — akouete kai syniete, "ouçam e entendam". Dois imperativos no presente, ambos na segunda pessoa do plural.

O primeiro verbo é akouō, ouvir, de onde vem a nossa palavra "acústica". No presente, o imperativo grego tende a indicar ação continuada ou habitual, e não um ato único — a ordem é mais "estejam ouvindo" do que "escutem isto agora".

O segundo é syniēmi, e vale desmontá-lo. É formado de syn ("junto com") mais o verbo hiēmi ("lançar, enviar"). Literalmente, portanto, é lançar coisas juntas, pôr uma ao lado da outra. Entender, nesse desenho, não é receber uma informação: é juntar pedaços até que eles formem alguma coisa.

A imagem é boa para o que se pede aqui. Os ouvintes vão receber, no versículo seguinte, uma frase curta que não explica nada por si; entendê-la exige encaixá-la no que já sabem sobre pureza, comida e Lei. Não é escutar: é montar.

Os dois verbos e o oráculo de Isaías

Chega-se ao dado mais consequente do versículo, e ele é verificável em qualquer edição do texto grego.

Isaías 6:9, na Septuaginta, diz: akoē akousete kai ou mē synēte — "ouvindo, ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis". Os dois verbos são akouō e syniēmi: exatamente os dois deste versículo, na mesma ordem, com a mesma ligação entre eles. A diferença é que ali estão no futuro e negados, e aqui estão no imperativo e afirmados.

O oráculo de Isaías 6 é o envio do profeta, e é o texto mais duro do livro: ele é mandado pregar a um povo que ouvirá sem entender, e a pregação deixará esse povo mais surdo, não menos. É a passagem que as tradições judaica e cristã sempre acharam difícil, porque atribui a Deus a intenção de não ser compreendido.

Mateus a conhece bem. Cita os dois versículos por inteiro em Mateus 13:14-15, o que é raro nele — a maior parte das suas citações é curta — e é a única vez que recorre a esse trecho.

Sobre o grau de certeza: a coincidência das palavras é fato, e qualquer leitor pode conferi-la. Que Mateus tenha pretendido a alusão é leitura. O argumento a favor é forte sem ser conclusivo — a citação por extenso dois capítulos antes, o par de verbos intacto, e o capítulo 15 já citando o mesmo profeta nos versículos 8 e 9. Contra, há o fato de ouvir e entender formarem um par corrente na literatura de sabedoria em grego, o que abriria espaço para coincidência de fórmula. O honesto é dizer: a alusão é plausível, provavelmente deliberada, e o efeito de leitura existe de todo modo.

A frase inteira

A sintaxe é a mais simples possível: um particípio que situa a ação, o verbo principal, e a fala em duas palavras ligadas por "e". Nenhuma subordinada, nenhum advérbio, nenhum qualificativo.

Essa economia contrasta com tudo o que veio antes. Os versículos 3 a 9 são um argumento articulado, com citação, verdade jurídica e apoio profético. Aqui restam duas ordens de duas sílabas cada em grego. A mudança de público veio acompanhada de mudança de registro — e a frase que vem no versículo 11 será igualmente curta.

11. Conclusão

Três conclusões saem do que foi visto.

Vale começar pelo que o gesto afirma. Uma questão que os especialistas tratavam como matéria de perícia é levada, sem uma palavra de justificativa, ao julgamento de gente que nunca estudou o assunto. Conclui-se que aquilo estava sendo mal classificado: não era problema técnico, era problema sobre o justo — e sobre o justo, quem paga a conta tem assento. A afirmação é feita por ato, e um ato afirma sem precisar ser defendido.

A segunda é sobre o custo desse gesto. Ao falar em público, quem fala perde o controle sobre a própria frase: ela sai andando pelas aldeias, sem tom de voz, sem contexto e sem quem a corrija. Conclui-se que levar uma questão ao povo não é decisão retórica, é decisão irreversível — e que a formulação, a partir daí, precisa aguentar sozinha a viagem. É provavelmente por isso que o que vem a seguir cabe em uma linha.

A terceira é sobre o limite, e é a que a pregação costuma pular. Este versículo não estabelece que o povo julgue melhor do que os doutores. O mesmo evangelho mostra a mesma multidão sendo convencida, doze capítulos adiante, a pedir uma execução. Conclui-se que a confiança depositada aqui é sobre a questão, não sobre o público: aquele assunto estava ao alcance daquelas pessoas. Generalizar isso em elogio ao juízo popular é ler contra o livro.

Fica, por fim, a ironia que atravessa o capítulo. Nos versículos 8 e 9, Isaías é convocado para dizer que aquele povo se aproximava com a boca e que o ensino deles era humano. No versículo 10, o mesmo profeta reaparece sem ser nomeado, nos dois verbos de um oráculo que dizia que o povo ouviria sem entender. E é justamente esse verbo — entender — que Jesus manda a multidão fazer. A ordem é dada nas palavras exatas da sentença que a proibia.

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Mateus 15:10

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