Mas Jesus os chamou e disse: “Vocês sabem que os governantes dos gentios os dominam, e as autoridades exercem poder sobre eles.
1. Introdução
Jesus não responde à indignação: chama o grupo inteiro e começa a falar de reis. E não ensina nada de novo — abre com "vocês sabem", isto é, apela ao que qualquer galileu sob Roma sabia por viver.
Os dois verbos da frase são compostos com um prefixo de força. Não dizem governar nem conduzir: dizem pesar em cima. Um deles é o mesmo que a Bíblia grega usa no mandato de Gênesis 1:28, e o outro não aparece em nenhum texto grego conhecido antes deste.
Marcos e Lucas contam a mesma fala com alterações que mudam o alvo da crítica. As três versões estão no cânon, e nenhuma anula as outras.
2. Contexto Histórico e Cultural
O poder chegava em cadeia, e cada elo devia ao de cima
Para quem estava naquela estrada, "os governantes dos gentios" não era abstração. Era uma sequência com endereço: o imperador em Roma; o legado da Síria, que tinha as legiões; o governador romano da Judeia, com poder de condenar à morte; e, ao norte, um governante local que tinha o título por concessão romana. Ninguém nessa fila mandava por direito próprio. Cada um mandava porque alguém acima o autorizara, e podia perder o cargo do mesmo jeito que o recebera.
Esse arranjo tem consequência que o versículo pressupõe. Em governo por delegação, quem exerce o poder no lugar não responde a quem obedece: responde a quem o nomeou. É por isso que a cobrança de impostos podia ser arrematada, que o arrematante tinha interesse em arrecadar acima da cota, e que reclamar do agente significava reclamar com o fiador dele, longe.
Roma criou um tribunal permanente para esse problema
A prova mais dura da direção da força não vem de moralista nenhum: vem da lei romana. Em 149 antes de Cristo, uma lei proposta pelo tribuno Calpúrnio Pisão criou em Roma o primeiro tribunal permanente da história da cidade, e o assunto dele era um só — a devolução do dinheiro que magistrados romanos tinham extorquido dos provinciais. O nome do procedimento era repetundae ("coisas a serem reclamadas de volta", em latim).
Pare nisso um instante. O primeiro tribunal fixo de Roma não foi criado para homicídio nem para traição: foi criado porque governadores espremiam as províncias que administravam, com regularidade suficiente para exigir uma instância própria. O Estado que delegava o poder reconheceu, em lei, qual era o risco normal da delegação.
O caso clássico está documentado por inteiro. Em 70 antes de Cristo, Cícero (Marco Túlio Cícero, orador e político romano do século I antes de Cristo) acusou Gaio Verres, que tinha governado a Sicília por três anos, de saques, extorsões, venda de sentenças e confisco de obras de arte. As peças dessa acusação — as Verrinas — são o retrato mais detalhado que sobreviveu de um governador provincial em ação, e Verres partiu para o exílio antes do fim do processo.
O tribunal era composto por senadores, isto é, pela mesma classe de onde saíam os governadores, e absolvições eram frequentes — a sua existência não prova que funcionasse. Prova o que aqui importa: o peso descendo sobre o provincial não era desvio de caráter de alguns homens, era comportamento previsto do sistema, com nome jurídico e rito próprio.
"Os grandes"
A segunda metade do versículo nomeia outra camada, que no grego se chama simplesmente "os grandes". Bengel (Johann Albrecht Bengel, erudito luterano alemão do século XVIII) e Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) identificam nela os ministros de Estado, e anotam que eram "muitas vezes mais imperiosos que os próprios senhores" — observação que combina com o desenho da delegação. Quem exerce poder emprestado tende a exercê-lo com mais rigor do que quem o possui, porque precisa demonstrar a quem o emprestou que o está usando.
O mecanismo pelo qual essas patentes eram concedidas, com registro escrito e assento ao lado do rei, está no estudo de Mateus 20:21.
O limite deste pano de fundo
Nada disso descreve em detalhe como a Galileia era administrada, e o tribunal de extorsão em Roma ficava a um mundo de distância de quem ouviu a frase. O que o material estabelece é mais modesto: "os governantes" e "os grandes" tinham referência concreta, e o abuso da posição delegada era assunto documentado, não suspeita. Quem lê a frase como crítica genérica ao poder perde o que ela tem de descrição.
3. Análise Teológica do Versículo
"Mas Jesus os chamou"
Ele chama todos. Não separa os dois irmãos para uma conversa particular, não repreende os dez, não decide quem tinha razão. A indignação do versículo anterior fica sem resposta — e é assim que ela é respondida, porque o que vem a seguir se dirige a quem pediu e a quem se ofendeu com o pedido, no mesmo plural. O verbo é o de chamar para junto de si, aquele com que Mateus marca as convocações que precedem ensino decisivo; a análise dele está no estudo de Mateus 15:10.
"Vocês sabem"
A frase abre por um apelo, não por uma revelação: o verbo grego está na forma do saber já adquirido. Vocês têm essa informação; ela não está sendo dada agora.
Isso muda o gênero do que vem. Não é ensinamento sobre o mundo, é lembrança de um mundo que os ouvintes habitavam. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lê assim — "vocês sabem que tais honras são costumeiras entre as nações" —, e o efeito é pôr a prova fora do argumento: quem duvidar precisa olhar em volta, não discutir teologia.
A consequência é incômoda: se eles sabiam, o pedido dos dois lugares foi feito por quem conhecia o modelo. Não se pediu ingenuamente algo que por acaso se parecia com a corte de um rei — pediu-se a corte de um rei.
"os governantes dos gentios os dominam"
O verbo traduzido por "dominam" é um composto, e o prefixo é o achado do versículo. Ele não significa governar, administrar nem conduzir. O grego tinha o verbo simples para isso, e não é o que está escrito aqui: o que está escrito é o verbo carregado de um prefixo que indica movimento de cima para baixo e exercício de força. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) traduz por "senhorear sobre eles"; o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chama o que a palavra descreve de "domínio absoluto e opressivo". Bengel (Johann Albrecht Bengel, erudito luterano alemão do século XVIII) resume o que o prefixo faz: distingue o uso legítimo da autoridade do seu abuso frequente.
Não é pouco. A frase não descreve o governo; descreve o peso do governo. É a autoridade acontecendo de um modo determinado, e é esse modo que Jesus nomeia.
O objeto mudou
Esse verbo composto tem uma história na Bíblia grega, e ela é desconfortável: é a palavra do mandato sobre a criação em Gênesis 1:28 — "encham a terra e a subjuguem" — e é a palavra que Deus aplica a si mesmo em Jeremias 3:14. As ocorrências estão no item 10. O que muda em Mateus 20:25 não é a palavra: é o objeto. Lá, a terra e o que se move sobre ela; aqui, pessoas. Tratar gente como matéria a subjugar é a descrição exata do que o verbo faz.
Se Mateus pretendeu a alusão a Gênesis não é possível decidir, e nenhum comentarista antigo a explora. A coincidência das palavras, porém, é verificável em qualquer edição da Bíblia grega, que era a Bíblia lida em grego naquele tempo.
"e as autoridades exercem poder sobre eles"
O segundo verbo é outro composto, com o mesmo prefixo de força sobre outra raiz — a de "autoridade". E é raríssimo: fora deste dito não se conhece ocorrência dele em grego.
A repetição do prefixo nos dois verbos é o desenho da frase. Dois membros, dois sujeitos diferentes, dois verbos diferentes, e o mesmo prefixo nos dois. O que se repete não é a palavra: é a direção.
Onde a ABC escreve "as autoridades", o grego tem "os grandes" — e dois versículos adiante quem quiser "se tornar importante" quer, no original, tornar-se grande, a mesma palavra. A tradução ganha em clareza e perde essa dobradiça, que o item 10 recupera.
Quem sofre o verbo
Os pronomes importam: "os dominam", "sobre eles" retomam "os gentios". Os governantes dominam as próprias nações — o peso não é exercido sobre um povo estrangeiro, é exercido sobre os governados.
Isso desarma uma leitura fácil: Jesus não descreve a opressão de Israel por Roma, que seria a queixa esperada de um pregador galileu. Descreve como o poder funciona dentro de qualquer nação, inclusive naquela em que o governante é da terra. A frase não tem inimigo nacional.
O que Jesus não diz
Ele não diz que os governantes são ilegítimos. Não manda desobedecer, não convoca a derrubá-los, não afirma que deveriam parar, não usa a palavra pecado. Descreve — e a proibição do versículo seguinte recai sobre "vocês", não sobre eles. Essa contenção foi lida em direções opostas ao longo da história, o que já mostra que o versículo não decide a questão política. O que ele decide é interno: seja como for lá fora, aqui dentro não será assim.
Os três evangelhos mudam o alvo da crítica
A mesma fala aparece nos outros dois evangelhos com diferenças que não são de estilo.
Marcos 10:42 escreve "os que são tidos por governantes das nações", acrescentando um termo de distância: não são governantes, são reputados governantes. A crítica de Marcos atinge o título.
Lucas 22:25 faz o contrário: usa os dois verbos sem o prefixo de força — governam, têm autoridade, sem carga nenhuma — e acrescenta o que os outros não têm: "e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores". A crítica de Lucas atinge o nome bonito que o poder dá a si mesmo.
Mateus, com os dois compostos e sem ressalva sobre títulos, atinge o modo. Três alvos, portanto: o título, o nome, a maneira. Não há como decidir qual versão está mais perto da fala original, e resolver isso por decreto apagaria informação.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Quem é chamado
Os doze, sem exceção. O versículo anterior havia partido o grupo em dois e dez; a convocação refaz a soma. Tiago e João estão entre os chamados, e Judas Iscariotes também.
"Os gentios"
A palavra designa, em Mateus, os povos que não são Israel, e o evangelho a emprega como régua de comparação para o que não se deve fazer: em Mateus 6:7 os gentios repetem palavras vãs na oração, em Mateus 6:32 buscam as coisas que o Pai já sabe serem necessárias, e em Mateus 18:17 o irmão que não ouve a comunidade passa a ser tratado como um deles. Mateus 20:25 entra nessa série, e é a única em que o termo de comparação é político.
Não é insulto étnico nem afirmação de superioridade de sangue: é o modo como um autor judeu marca a diferença entre dois modos de viver. O próprio evangelho encerra com a ordem de ir a todas as nações, com a mesma palavra no plural.
Os gentios de seis versículos antes
Aqui está um dado de composição que só aparece na leitura contínua do capítulo. Em Mateus 20:19, no anúncio da paixão, Jesus diz que será entregue "aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem". Em Mateus 20:25 ele diz que "os governantes dos gentios os dominam".
A mesma palavra, no mesmo capítulo, a seis versículos de distância. Quem ouve a segunda frase acabou de ouvir que esses gentios vão matá-lo. O açoite e a cruz são justamente o exercício do peso que o verbo deste versículo descreve — e Jesus fala do assunto como quem já sabe o que vai receber dele. Mateus não faz a ligação; ela está na sequência das palavras.
O poder gentio já tinha aparecido no evangelho
Não é a primeira vez que Mateus põe autoridade estrangeira em cena. Um rei manda matar crianças em Mateus 2:16. Um oficial com cem soldados debaixo de si explica em Mateus 8:9 como funciona a cadeia de comando, e usa essa experiência como argumento de fé. Em Mateus 17:24-27 há a cobrança de um tributo. A novidade deste versículo não é o assunto: é a palavra escolhida para o que esse poder faz.
Onde e quando
Na estrada para Jerusalém, entre o terceiro anúncio da paixão e a chegada a Jericó. É conversa de caminho, em movimento, e não discurso em lugar de ensino — nem sinagoga, nem monte, nem casa.
5. Pontos de Ensino
O argumento se apoia em experiência, não em doutrina
"Vocês sabem" é o único apoio que Jesus usa. Não cita profeta, não invoca mandamento, não diz "está escrito". Põe a prova onde todos podem conferi-la, e quem duvidar do diagnóstico terá de duvidar da própria vida sob Roma. É um modo de ensinar: há verdades que não precisam de autoridade externa, precisam de atenção.
O problema não é haver autoridade, é a direção dela
Os dois verbos descrevem força que desce. Nenhuma palavra do versículo condena a existência de quem manda, e o versículo seguinte não dissolve a hierarquia — reordena quem está em cima. Confundir uma coisa com a outra produz as duas caricaturas mais comuns desta passagem: a que a lê como elogio da desorganização e a que a lê como bênção da ordem estabelecida.
O mesmo verbo serve para a terra e para as pessoas
A palavra que descreve os governantes das nações é a que a Bíblia grega usa no mandato sobre a criação. Aplicada a gente, ela diz o que faz: trata pessoas como matéria a dominar. O ensino prático está aí, e não é sobre política — é sobre o que acontece quando alguém deixa de ser interlocutor e passa a ser objeto de administração.
A igreja aplicou a frase a si mesma
1 Pedro 5:3 proíbe aos anciãos, com o mesmo verbo, fazer ao rebanho o que os governantes fazem às nações. A primeira geração cristã não guardou esta frase como crítica ao mundo de fora: usou-a como regra de conduta interna. Quem a emprega hoje apenas para julgar governos inverte o endereço que o Novo Testamento já lhe tinha dado.
Três testemunhos não se reduzem a um
Marcos, Lucas e Mateus contam este dito com alvos diferentes. Um leitor que precise de uma versão única para se sentir seguro vai escolher uma e apagar duas, e perderá o que o conjunto oferece.
6. Aspectos Filosóficos
A pergunta que a cena levanta
O versículo descreve o poder por um verbo de direção: ele desce e pesa. Daí um problema que a filosofia política trabalhou muito — mandar e dominar são a mesma coisa em graus diferentes, ou são coisas de naturezas distintas? A resposta decide o que a frase seguinte pode querer dizer. Se toda autoridade é domínio atenuado, "não será assim entre vocês" só pode significar a abolição da autoridade. Se são coisas diferentes, a frase recusa uma e conserva a outra.
Yves Simon: autoridade e domínio não diferem em grau
Yves Simon (1903-1961, filósofo francês que ensinou nos Estados Unidos) tratou desse problema três vezes, em livros escritos em inglês: Natureza e funções da autoridade (1940), Filosofia do governo democrático (1951) e Uma teoria geral da autoridade, publicado em 1962, depois da morte dele.
A distinção que ele propõe é simples de enunciar e tem consequências longas. Simon separa duas famílias de funções da autoridade. A primeira existe por deficiência: a criança obedece porque ainda não sabe julgar; o ignorante aceita o testemunho de quem sabe; o indisciplinado é constrangido porque não faz por conta própria o que deveria. São funções substitutivas — alguém decide no lugar de quem, por ora, não pode decidir — e têm uma propriedade decisiva: diminuem à medida que a deficiência diminui.
A segunda família é de outra espécie. Um grupo de pessoas igualmente competentes e bem-intencionadas, reunidas para um fim comum, ainda precisa de alguém que decida — porque há vários caminhos bons para o mesmo fim e a ação conjunta exige que se escolha um. Aqui a autoridade não supre falta nenhuma. Simon chama isso de função essencial, e a conclusão que tira é contraintuitiva: ela não desaparece com o aperfeiçoamento das pessoas, cresce, porque quanto mais rica a vida comum, mais coisas há a coordenar.
O domínio, no vocabulário dele, é a substituição da razão de quem obedece pela força de quem manda. Pertence inteiramente ao primeiro grupo, o das funções que existem por deficiência — e é a pior delas, porque não trabalha para se tornar dispensável.
O que isso ilumina no versículo
A distinção desfaz o falso dilema que costuma ser imposto a esta passagem. Os dois verbos de Mateus 20:25 descrevem, na linguagem de Simon, funções que se instalaram e se perpetuaram: força aplicada de cima, sem horizonte em que se torne desnecessária. E o versículo seguinte não diz "entre vocês não haverá quem decida" — diz que a coisa descrita não se reproduzirá ali.
Com isso, os dois erros mais comuns de leitura ficam visíveis. O primeiro é ler a passagem como recusa da autoridade, o que a torna inaplicável a qualquer grupo que precise agir junto — e o próprio Jesus reconhece precedência entre os discípulos em outros lugares. O segundo é ler a descrição do versículo 25 como neutra, mero retrato de como as coisas são, o que esvazia o "assim" da frase seguinte. A leitura que a distinção sustenta fica no meio: a autoridade permanece, a maneira cai.
Há ainda um ganho que interessa ao capítulo inteiro. Se a autoridade essencial é a que coordena para um fim comum, quem a exerce está definido pelo fim e não pela posição — o que prepara o passo do versículo 26, onde a grandeza passa a ser medida pelo serviço prestado ao grupo. Não é paradoxo retórico: decorre de tratar a autoridade como função, e não como patamar.
Onde a cena resiste ao filósofo
Simon escreve para defender o governo democrático moderno, com Tomás de Aquino ao fundo e os regimes totalitários do século XX à vista. Nada disso está em Mateus, e a distinção que ele propõe é discutida: há quem sustente que toda autoridade contém coação em germe e que a separação é mais conceitual do que real.
O limite do texto também precisa ficar dito, porque foi violado muitas vezes neste versículo. Dele se extraíram programas políticos opostos entre si — uns leram a legitimação da autoridade constituída, com o argumento de que Jesus descreve sem condenar; outros leram a condenação de raiz de todo domínio. Que a frase sustente as duas leituras com igual dificuldade é a melhor prova de que ela não decide a questão política. Decide a regra interna do grupo que ouve, e é só isso que se pode afirmar com segurança.
7. Aplicações Práticas
Onde a frase foi endereçada primeiro
1 Pedro 5:3 usa o verbo deste versículo para proibir aos anciãos o que os governantes fazem às nações. A aplicação mais antiga desta frase é interna: ela serve para examinar quem tem autoridade dentro de uma comunidade cristã, não para julgar governos. Quem a cita apenas em discussão política está usando-a no endereço menos apoiado pelo Novo Testamento.
Um teste concreto para quem manda em alguém
Os dois verbos descrevem força que desce. Há um sinal simples de que isso está acontecendo, e ele é verificável: quem obedece traz informação ruim para você ou esconde? Em estrutura em que o peso desce, o subordinado aprende que o custo de relatar um problema é maior que o custo de omiti-lo — e a partir daí quem manda passa a governar com informação filtrada. Não é preciso mau caráter para chegar a isso. Basta a direção.
O segundo sinal é o que acontece quando alguém discorda. Se discordar custa o lugar na fila, o silêncio não é concordância: é cálculo.
Autoridade por delegação responde para cima
No arranjo que o versículo descreve, quem exerce o poder no lugar deve o cargo a quem está acima, e não a quem obedece. Isso vale em qualquer organização com chefia intermediária, e tem consequência prática: reclamar com o intermediário raramente resolve, porque não é a você que ele deve o posto. Reconhecer isso evita tanto a ingenuidade de esperar dele o que ele não pode dar quanto a injustiça de atribuir-lhe uma maldade que é do desenho.
O nome bonito merece desconfiança
Lucas 22:25 registra que esses homens eram chamados benfeitores. A observação prática que sai disso é modesta e serve todo dia: o título que uma autoridade dá a si mesma informa o que ela quer que se pense dela, não o que ela faz. O que ela faz se mede pela direção — quem carrega o peso no fim da cadeia.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Jesus está condenando os governos ou apenas descrevendo-os?
A frase, isolada, é descritiva: nenhum verbo de condenação, nenhuma ordem de resistir. Mas a descrição foi feita com um verbo de peso e de força, e o versículo seguinte a usa como contraexemplo — logo, ela não é neutra. A leitura que o texto sustenta é intermediária e desconfortável: descreve o mundo sem legislar sobre ele, e legisla apenas sobre o grupo que escuta.
Por que Lucas usa os verbos sem o prefixo de força?
Não é possível decidir, e três explicações circulam. Primeira: Lucas suavizou, porque escrevia para leitores dentro do mundo romano — mas contra ela pesa o fato de que é ele quem acrescenta a observação mais mordaz das três, a do título de benfeitor. Segunda: Mateus e Marcos reforçaram, e a forma simples é a mais antiga. Terceira: a fala foi dita mais de uma vez, em ocasiões diferentes, com palavras diferentes — Lucas a situa na última refeição, não na estrada.
Se os discípulos já sabiam como o poder funciona, por que pediram os dois lugares?
Porque saber como uma coisa funciona e desejá-la não se excluem. O versículo não atribui ignorância a eles — atribui conhecimento. É o oposto do que a leitura devocional costuma supor, e é mais grave: eles não confundiram o Reino com uma corte por falta de informação. Se houve mal-entendido, ele foi sobre o Reino, não sobre as cortes.
A frase vale para autoridade dentro da igreja?
O Novo Testamento responde que sim, em 1 Pedro 5:3, com o mesmo verbo. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) chega a restringir a passagem: para ele o dito se aplica a apóstolos e pastores, e não a magistrados civis. É posição discutida e tem contra si o fato de que o versículo fala expressamente dos governantes das nações. O que se pode afirmar é que o endereço primário é interno, sem que isso apague a descrição do que está fora.
Por que não há anúncio de juízo sobre esses governantes?
O recurso estava à mão e não foi usado: nenhuma ameaça, nenhum juízo sobre os reis — e o evangelho de Mateus não tem pudor de anunciar juízo quando quer. A omissão deixa a frase como diagnóstico puro, e faz todo o peso da passagem cair no "vocês" do versículo seguinte. Se o silêncio é deliberado não é demonstrável; que ele desloca o alvo, sim.
9. Conexão com Outros Textos
O mandato do primeiro capítulo da Bíblia
Gênesis 1:28 — Deus os abençoou e lhes disse: "Sejam férteis e multipliquem-se, encham a terra e a subjuguem; dominem sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus e sobre todo animal que se move sobre a terra."
Na Bíblia grega, "subjuguem" é o verbo deste versículo e "dominem" vem da raiz de "governantes". Os dois termos da primeira metade de Mateus 20:25 estão juntos aqui, com a terra por objeto.
O mesmo verbo com Deus por sujeito
Jeremias 3:14 — "Voltem, filhos rebeldes, diz o SENHOR, porque eu serei o senhor de vocês; e os tomarei, um de uma cidade e dois de uma família, e os levarei a Sião."
Na Bíblia grega o verbo é o mesmo, com Deus falando — o que impede tratar a palavra como intrinsecamente má e joga o peso todo no uso que dela se faz.
O aviso sobre o que um rei faz
1 Samuel 8:11-14 — "Este será o modo de agir do rei que reinará sobre vocês: tomará os seus filhos e os destinará aos seus carros e aos seus cavalos. Tomará as suas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará os melhores dos seus campos, das suas vinhas e dos seus olivais, e os dará aos seus servos."
O verbo que se repete ali é "tomar", cinco vezes. É a descrição da direção da força, feita séculos antes e no Antigo Testamento.
A mesma fala nos outros dois evangelhos
Marcos 10:42 — E Jesus, chamando-os, disse-lhes: "Vocês sabem que os que são tidos por governantes das nações as dominam, e os grandes deles exercem poder sobre elas."
"Tidos por governantes": Marcos põe em dúvida o título.
Lucas 22:25 — E ele lhes disse: "Os reis das nações as governam, e os que exercem autoridade sobre elas são chamados benfeitores."
Lucas usa os verbos simples, sem o prefixo de força, e acrescenta o nome que o poder dá a si mesmo.
A regra que a igreja tirou disto
1 Pedro 5:3 — "não como tendo domínio sobre os que vos foram confiados, mas servindo de exemplo ao rebanho."
O mesmo verbo composto, agora proibido a quem tem autoridade dentro da comunidade.
O verbo em sentido físico
Atos 19:16 — "E o homem em que estava o espírito mau saltou sobre eles, dominou-os e os venceu, de modo que fugiram daquela casa nus e feridos."
Os gentios, seis versículos antes
Mateus 20:19 — e o entregarão aos gentios para que zombem dele, o açoitem e o crucifiquem; mas no terceiro dia ele ressuscitará”.
A mesma palavra, no mesmo capítulo. O peso que o verbo de Mateus 20:25 descreve é o que vai recair sobre quem está falando.
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Mas Jesus os chamou e disse: “Vocês sabem que os governantes dos gentios os dominam, e as autoridades exercem poder sobre eles.
Texto grego
ὁ δὲ Ἰησοῦς προσκαλεσάμενος αὐτοὺς εἶπεν, Οἴδατε ὅτι οἱ ἄρχοντες τῶν ἐθνῶν κατακυριεύουσιν αὐτῶν, καὶ οἱ μεγάλοι κατεξουσιάζουσιν αὐτῶν.
Transliteração
Ho de Iēsous proskalesamenos autous eipen, Oidate hoti hoi archontes tōn ethnōn katakyrieuousin autōn, kai hoi megaloi katexousiazousin autōn.
O Textus Receptus ("texto recebido", a edição grega que a ABC segue) coincide aqui com as edições críticas. A única diferença entre as tradições é de ordem de palavras no começo da frase, sem efeito de sentido.
Análise palavra por palavra
προσκαλεσάμενος — proskalesamenos, "tendo chamado a si". Particípio do fato acabado, na forma média, de proskaleomai: pros ("para junto de") mais kaleō ("chamar"). É o verbo das convocações que precedem ensino decisivo em Mateus, e o estudo de Mateus 15:10 trata da sua distribuição no evangelho.
Οἴδατε — oidate, "vocês sabem". Segunda pessoa do plural de oida, verbo cuja forma é de tempo passado e cujo sentido é de presente: um saber já adquirido e ainda em vigor. O grego tinha outro verbo para conhecer por experiência progressiva, ginōskō; oida é a posse do dado. Não é "aprendam" nem "observem".
οἱ ἄρχοντες τῶν ἐθνῶν — hoi archontes tōn ethnōn, "os governantes das nações". Archōn é o particípio de archō, "ser o primeiro, comandar", usado como substantivo: aquele que está à frente. A palavra é elástica e cobre funções muito diferentes — chefe de sinagoga em Mateus 9:18, membro do conselho judaico em Lucas 23:13, magistrado romano, e, em João 12:31, o "príncipe deste mundo". São trinta e sete ocorrências no Novo Testamento.
κατακυριεύουσιν — katakyrieuousin, "dominam". Presente do indicativo, terceira pessoa do plural. A palavra se decompõe em kata mais kyrieuō, e cada peça importa.
Kyrieuō vem de kyrios, "senhor", e significa exercer senhorio. Existe sozinho no Novo Testamento — Romanos 6:9 diz que a morte já não tem senhorio sobre Cristo, e é o verbo que Lucas 22:25 usa nesta mesma fala. A preposição kata, em composição, acrescenta movimento para baixo e intensidade: é o mesmo prefixo de katabainō ("descer") e de katakrinō ("condenar", julgar contra alguém).
São quatro ocorrências no Novo Testamento: Mateus 20:25, Marcos 10:42, Atos 19:16 e 1 Pedro 5:3. A de Atos é reveladora, porque ali o verbo é físico — o homem possuído salta sobre os que tentavam exorcizá-lo e os subjuga. A de 1 Pedro é normativa: proíbe aos anciãos fazer isso ao rebanho.
Na Bíblia grega duas ocorrências pesam. Gênesis 1:28 usa o verbo no mandato dado à humanidade sobre a terra, ao lado de outro da mesma raiz de archōn — os dois termos da primeira metade deste versículo, juntos, com a criação por objeto. E Jeremias 3:14 o põe na boca de Deus a respeito do próprio povo. A palavra não é má em si: nomeia senhorio, e o que a torna o que é aqui é o objeto.
αὐτῶν — autōn, "deles". Pronome no caso que este verbo exige como complemento, retomando "as nações". Quem sofre o domínio são os próprios povos governados, e não um povo estrangeiro.
οἱ μεγάλοι — hoi megaloi, "os grandes". Adjetivo megas no plural, com artigo, usado como substantivo. Marcos 10:42 acrescenta um possessivo — "os grandes deles" —, o que deixa claro que se trata dos magnates de cada nação, e não de grandes homens em geral.
A ABC traduz por "as autoridades", que é claro e correto quanto à função. A perda é de articulação: dois versículos adiante, "quem quiser se tornar importante" é, no grego, quem quiser tornar-se megas — este mesmo adjetivo. O original faz a resposta passar por dentro da palavra do problema.
κατεξουσιάζουσιν — katexousiazousin, "exercem poder sobre". Presente do indicativo, terceira pessoa do plural. É kata, o mesmo prefixo de força, mais exousiazō, "ter autoridade", formado sobre exousia — a palavra de "autoridade" e "direito", a mesma de Mateus 28:18.
Duas ocorrências em todo o Novo Testamento: aqui e em Marcos 10:42. E os léxicos registram que o verbo não aparece na literatura grega profana — só nesta fala e nos textos que dela dependem. Se foi formado para a ocasião não é possível decidir, porque a formação de compostos com kata era produtiva em grego e o achado pode ser lacuna da documentação que sobreviveu. Meyer (Heinrich Meyer, comentarista alemão do século XIX) propõe traduzi-la por "praticam violência contra eles".
O desenho da frase
Dois membros paralelos, com sujeitos e verbos diferentes, e o mesmo prefixo nos dois verbos. O que se repete não é a palavra nem a ideia: é a direção — e é ela que o versículo seguinte inverte.
11. Conclusão
Do que foi exposto, quatro conclusões se sustentam.
A primeira: o versículo não descreve o poder, descreve uma direção. Os dois verbos são compostos com o mesmo prefixo, e o prefixo indica força que desce. Nenhuma palavra ali condena a existência de quem manda, e nenhuma absolve o modo como se manda. O que está sob crítica é a orientação, e é por isso que a frase seguinte pode proibir a orientação sem dissolver a autoridade.
A segunda: a prova do diagnóstico está fora do texto, e isso é escolha. "Vocês sabem" dispensa profeta, mandamento e citação. Jesus apoia o argumento na experiência de quem ouve, o que torna o pedido dos dois lugares mais grave, não menos: quem pediu conhecia o modelo que estava pedindo.
A terceira: a palavra escolhida tem história, e ela é desconfortável. O verbo do primeiro membro é o do mandato sobre a terra na Bíblia grega e é o verbo que Deus aplica a si mesmo em Jeremias. Não é vocabulário de maldade; é vocabulário de senhorio. O que o versículo mostra é o senhorio com o objeto trocado — e a primeira geração cristã, ao proibir a mesma coisa aos seus anciãos em 1 Pedro 5:3, entendeu que o risco era de casa.
A quarta: as três versões da fala não se reduzem a uma. Marcos duvida do título, Lucas expõe o nome bonito, Mateus nomeia a maneira. Quem quiser uma só perde duas, e a insistência em harmonizá-las por decreto apaga justamente o que o conjunto tem de informação.
Fica em aberto o que o texto não resolve: esta frase não fornece programa político, e a história provou isso ao extrair dela posições contrárias entre si. O que ela fornece com segurança é uma régua interna, e o versículo seguinte a enuncia.













