Se ele não der ouvidos a eles, comunique à igreja; e, se nem à igreja ele der ouvidos, que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos.
1. Introdução
O irmão não ouviu a sós nem diante de testemunhas. O terceiro passo é levar o caso à igreja. E, se ele também não ouvir a igreja, Jesus diz: "que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos".
A frase final tem duas leituras opostas. Numa, é a exclusão: o irmão passa a ser tratado como alguém de fora. Na outra, é uma ironia: no Evangelho de Mateus, Jesus come com cobradores de impostos, elogia a fé de pagãos, e o próprio Mateus era cobrador. O texto não decide entre as duas.
2. Contexto Histórico e Cultural
O pagão e o cobrador de impostos: os dois de fora
Para um judeu da Galileia do século I, as duas figuras resumiam quem estava fora da comunidade, cada uma por um motivo.
O pagão era o não judeu. Não estava na aliança, não guardava a Lei, comia o que ela proibia e prestava culto a outros deuses. O contato com ele não era proibido, e o comércio era diário, mas havia limites. Comer à mesa de um pagão e entrar na casa dele eram coisas que um judeu observante evitava. Pedro diz isso com todas as letras em Atos 10:28, ao entrar na casa do centurião Cornélio: "vocês sabem que não é permitido a um judeu associar-se a um estrangeiro nem entrar na casa dele". E em Gálatas 2:12, o mesmo Pedro deixa de comer com os cristãos não judeus em Antioquia quando chegam os enviados de Tiago.
O cobrador de impostos era judeu, mas trabalhava para o poder de fora e tinha fama de extorquir. O estudo de Mateus 9:9 explica o sistema de arrecadação e o desprezo que ele gerava. O que acrescenta a este versículo são as regras que a lei judaica posterior fixou sobre esses homens, e que mostram até onde ia a exclusão.
A Mishná (a coleção de leis judaicas organizada por volta do ano 200) diz que, se cobradores de impostos entram numa casa, a casa fica impura (Tohorot 7:6). Permite fazer a um cobrador uma declaração falsa sob juramento, para escapar da cobrança (Nedarim 3:4). Proíbe aceitar troco da caixa de um cobrador, e até esmola tirada dela (Bava Qamma 10:1). E o Talmude (a compilação de discussões rabínicas fechada por volta do século VI) põe os cobradores entre os que não podem servir de testemunha em tribunal (Sanhedrin 25b).
São textos posteriores a Jesus, e alguns refletem a situação depois da guerra contra Roma. Mas dão a medida do que a palavra evocava: alguém com quem não se come, cuja casa não se frequenta, cujo dinheiro não se toca e cuja palavra não vale.
O par em Mateus
Mateus junta as duas figuras mais de uma vez. No Sermão da Montanha, elas servem de exemplo do comportamento comum que o discípulo deve superar: os cobradores de impostos amam quem os ama (Mateus 5:46), e os pagãos só saúdam os seus e oram com repetições vazias (Mateus 5:47, na forma dos manuscritos antigos, e Mateus 6:7). Nos dois casos, são o termo de comparação negativo.
3. Análise Teológica do Versículo
"Se ele não der ouvidos a eles"
O verbo muda. Nos versículos 15 e 16, era "ouvir". Agora é um composto que significa recusar-se a ouvir, fazer de conta que não ouviu. A recusa deixou de ser simples desacordo e virou fechamento.
"comunique à igreja"
"Igreja" aqui não é a instituição universal, nem um prédio. É a assembleia dos discípulos que se reúne num lugar, o grupo local onde o irmão e o ofendido convivem. O sentido da palavra e o fato de Mateus ser o único evangelho que a põe na boca de Jesus estão tratados no estudo de Mateus 16:18.
O versículo não diz quem na igreja recebe o caso. Não fala de líderes, anciãos nem juízes. Diz "à igreja", e o que vem a seguir, "se nem à igreja ele der ouvidos", supõe que a comunidade também fala com ele. O terceiro passo não é um julgamento com sentença; é uma terceira tentativa, agora com todos.
"e, se nem à igreja ele der ouvidos"
O "nem" mostra a escalada: não ouviu um, não ouviu três, não ouve a comunidade inteira. Só depois disso vem a frase final.
"que ele seja para você"
O "você" está no singular. A frase se dirige ao mesmo "você" do versículo 15, o irmão que começou o processo, e não à igreja.
Isso muda a leitura mais do que parece. O versículo não diz "a igreja o expulse". Diz como a relação entre os dois passa a ser. Se a comunidade inteira deve fazer o mesmo, o versículo não afirma. O versículo 18, com o "vocês" no plural, dá à comunidade a autoridade de ligar e desligar, e muitos leitores entendem que é ali que a decisão coletiva aparece.
"como o pagão e o cobrador de impostos"
O que significa tratar um irmão como um pagão e um cobrador de impostos? Há duas leituras, e elas vão em sentidos opostos.
Primeira leitura: é a exclusão. O pagão e o cobrador eram, para os ouvintes, os de fora: gente com quem não se come e que não pertence à comunidade (item 2). Tratar o irmão assim é deixar de tratá-lo como irmão. O próprio Mateus usa o par como exemplo negativo no Sermão da Montanha. E Paulo, em 1 Coríntios 5:11-13, manda não comer com o membro que persiste num pecado grave e "expulsar o mau do meio de vocês". Nessa leitura, o versículo descreve um afastamento real, o último recurso depois de três tentativas.
Segunda leitura: é uma ironia. No Evangelho de Mateus, o pagão e o cobrador de impostos não são só os de fora; são os de fora que Jesus vai buscar. Ele come com cobradores de impostos e é criticado por isso (Mateus 9:10-11), é chamado "amigo de publicanos e pecadores" (Mateus 11:19), e diz que os cobradores de impostos entram no Reino antes dos líderes religiosos (Mateus 21:31). Ele se admira da fé de um centurião romano (Mateus 8:10) e da de uma mulher cananeia (Mateus 15:28), e o evangelho termina mandando fazer discípulos de todas as nações (Mateus 28:19). E o homem a quem a tradição atribui o evangelho é chamado, na lista dos Doze, "Mateus, o cobrador de impostos" (Mateus 10:3). Nessa leitura, tratar o irmão como pagão e cobrador é tratá-lo como Jesus tratou essas pessoas: como alguém a ser ganho de novo.
O texto não decide. A primeira leitura tem a seu favor o sentido que as palavras tinham para os ouvintes e o uso do par no Sermão da Montanha. A segunda tem a seu favor o resto do evangelho e o fio do próprio capítulo, que vem da ovelha procurada e do irmão a ser "ganho".
Há um dado que as duas leituras precisam levar em conta. O versículo não diz "que ele seja um inimigo", nem "entregue-o", nem "não fale mais com ele". A categoria escolhida é a de quem está fora, e não a de quem está perdido para sempre. E, logo depois, Pedro pergunta quantas vezes deve perdoar, e a resposta é "setenta vezes sete" (Mateus 18:21-22).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A igreja
A assembleia local dos discípulos. É a segunda e última vez que a palavra aparece nos evangelhos, depois de Mateus 16:18.
O pagão
O não judeu, de fora da aliança. No grego, uma palavra formada de "nação", "povo": alguém "das nações".
O cobrador de impostos
O judeu que arrecadava taxas para o poder estrangeiro ou para os governantes locais, malvisto como colaborador e extorsionário.
Mateus
Não aparece no versículo, mas pesa sobre ele. Em Mateus 9:9 é chamado quando estava "sentado na coletoria de impostos", e em Mateus 10:3 é apresentado como "Mateus, o cobrador de impostos". A tradição cristã antiga lhe atribui o evangelho.
O irmão
O mesmo dos versículos 15 e 16, que agora recusou ouvir três vezes.
5. Pontos de Ensino
A comunidade é o último passo, não o primeiro
O caso só chega à igreja depois da conversa a sós e da conversa com testemunhas.
A igreja também fala com o irmão
O terceiro passo é mais uma tentativa de ser ouvido, agora por todos.
A frase final muda a relação, não apaga a pessoa
"Como o pagão e o cobrador de impostos" põe o irmão fora do círculo, mas numa categoria que, em Mateus, Jesus foi buscar.
O texto admite que o processo pode falhar
Depois de três tentativas, o irmão pode continuar sem ouvir. O versículo não finge que tudo se resolve.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo expõe o problema de toda comunidade que quer ser acolhedora e ter limites ao mesmo tempo. Sem nenhum limite, quem persiste em ferir os outros permanece como se nada houvesse, e a comunidade perde a capacidade de dizer o que é. Com limites rígidos, ela se fecha em si e esquece para que existe. A frase de Jesus escolhe uma categoria que resolve e não resolve: o irmão fica fora, mas fora no lugar de onde, segundo o mesmo evangelho, se vem para dentro. O limite existe, e não é o fim da história.
7. Aplicações Práticas
Siga a ordem
Levar uma queixa ao grupo inteiro antes de conversar com a pessoa é pular dois passos. Muitos conflitos em igrejas, famílias e equipes chegam à fase pública sem ter passado pela conversa a sós.
Aceite que uma relação pode mudar
Depois de tentativas sérias, o versículo admite que a relação com alguém deixe de ser o que era. Isso não é falta de amor; é reconhecer que o outro recusou ouvir três vezes. Mudar a relação não obriga a tratá-lo como inimigo.
Não feche a porta de vez
Qualquer que seja a leitura adotada, o capítulo continua com a pergunta de Pedro sobre o perdão. Tratar alguém como "de fora" não impede que ele volte, nem dispensa de perdoar.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O versículo autoriza expulsar alguém da igreja?
É uma leitura possível, e foi assim que muitas tradições cristãs o usaram, junto com 1 Coríntios 5. Mas o versículo fala no singular ("seja para você") e não descreve a expulsão. A decisão coletiva é deduzida do versículo 18.
Jesus falaria de "igreja" antes de ela existir?
É discutido. Uns entendem que a palavra reflete a comunidade de Mateus, que já existia quando o evangelho foi escrito. Outros lembram que por trás dela pode estar uma palavra aramaica comum para "assembleia", usada também para o povo reunido de Israel.
Que pecado justificaria chegar a esse ponto?
O texto não diz. Não há lista de pecados graves nem distinção entre ofensas leves e pesadas. O que leva à frase final não é o tamanho do pecado, e sim a recusa repetida de ouvir.
9. Conexão com Outros Textos
Os mesmos dois no Sermão da Montanha
Mateus 5:46 — "Pois, se vocês amam os que os amam, que recompensa terão? Não fazem os publicanos também o mesmo?"
Mateus 6:7 — "E quando vocês orarem, não fiquem repetindo palavras vãs como os pagãos, pois pensam que serão ouvidos por muito falarem."
Aqui, as duas figuras são o exemplo do que o discípulo não deve ser.
Os mesmos dois à mesa de Jesus
Mateus 9:10 — "E aconteceu que, estando Jesus reclinado à mesa na casa, eis que muitos publicanos e pecadores vieram e se reclinaram à mesa com Jesus e os seus discípulos."
Mateus 21:31 — "Qual dos dois fez a vontade do pai?" "O primeiro", responderam. Disse-lhes Jesus: "Digo a vocês a verdade: os cobradores de impostos e as prostitutas estão entrando à frente de vocês no Reino de Deus."
Mateus 10:3 — "Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu;"
Duas instruções de Paulo
1 Coríntios 5:11 — "Mas agora escrevo a vocês que não se associem com quem, dizendo-se irmão, for imoral, ou avarento, ou idólatra, ou caluniador, ou beberrão, ou ladrão. Com esse, nem sequer comam."
2 Tessalonicenses 3:14-15 — "Se alguém não obedecer ao que dizemos nesta carta, notem bem quem é e não se associem com ele, para que fique envergonhado. Mas não o considerem inimigo; antes, advirtam-no como irmão."
As duas leituras do versículo têm apoio em Paulo: a primeira na carta aos coríntios, a segunda na advertência aos tessalonicenses de que o afastado continua irmão.
Um judeu entre pagãos
Atos 10:28 — "E lhes disse: 'Vocês sabem que não é permitido a um judeu associar-se a um estrangeiro nem entrar na casa dele. Mas Deus me mostrou que não devo chamar ninguém de impuro ou imundo.'"
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Se ele não der ouvidos a eles, comunique à igreja; e, se nem à igreja ele der ouvidos, que ele seja para você como o pagão e o cobrador de impostos.
Texto grego (Textus Receptus)
ἐὰν δὲ παρακούσῃ αὐτῶν, εἰπὲ τῇ ἐκκλησίᾳ· ἐὰν δὲ καὶ τῆς ἐκκλησίας παρακούσῃ, ἔστω σοι ὥσπερ ὁ ἐθνικὸς καὶ ὁ τελώνης.
Transliteração
ean de parakousē autōn, eipe tē ekklēsia; ean de kai tēs ekklēsias parakousē, estō soi hōsper ho ethnikos kai ho telōnēs.
Análise palavra por palavra
ἐὰν δὲ παρακούσῃ αὐτῶν — ean de parakousē autōn, "se ele não der ouvidos a eles".
Parakouō é formado de para, "ao lado, à margem", e akouō, "ouvir". Pode significar "ouvir por acaso, entreouvir", como em Marcos 5:36, e também "não dar atenção, desobedecer", que é o sentido aqui. É o único lugar de Mateus onde o verbo aparece, e ele substitui o simples akouō dos versículos 15 e 16. Na Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento), traduz a recusa de ouvir, como em Ester 3:3 e 3:8.
εἰπὲ τῇ ἐκκλησίᾳ — eipe tē ekklēsia, "comunique à igreja", literalmente "diga à assembleia". Eipe é o imperativo aoristo de "dizer". O verbo é o mais simples possível: não "acuse", não "denuncie", só "diga".
Ekklēsia é "assembleia", o povo convocado e reunido. A palavra e o seu uso em Mateus estão analisados no estudo de Mateus 16:18. Aqui, o contexto aponta para a assembleia local, a que se reúne e pode falar com o irmão.
ἐὰν δὲ καὶ τῆς ἐκκλησίας παρακούσῃ — ean de kai tēs ekklēsias parakousē, "e, se nem à igreja ele der ouvidos". Kai, "também, até", dá o sentido de "nem mesmo". A repetição do verbo marca a terceira recusa.
ἔστω σοι — estō soi, "seja para você". Imperativo presente da terceira pessoa de "ser": "que ele seja". Soi, "para você", é singular. A ABC traduz ao pé da letra, "que ele seja para você", e guarda o singular.
ὥσπερ — hōsper, "como, assim como". Introduz a comparação. O irmão não se torna pagão; passa a ser tratado como um.
ὁ ἐθνικὸς — ho ethnikos, "o pagão". Adjetivo derivado de ethnos, "nação, povo", que no plural, ta ethnē, designava os povos não judeus. Ethnikos é "o das nações", o gentio. A palavra só aparece quatro vezes no Novo Testamento, e três estão em Mateus: aqui, em Mateus 6:7 e, conforme os manuscritos, em Mateus 5:47.
καὶ ὁ τελώνης — kai ho telōnēs, "e o cobrador de impostos". De telos, "taxa, imposto", e ōneomai, "comprar": literalmente, "o que compra os impostos", porque o direito de arrecadar era arrematado.
Os dois substantivos têm artigo e estão ligados por "e": "o pagão e o cobrador". O artigo é genérico, indica o tipo e não uma pessoa determinada. A ABC guarda o artigo e o "e": "o pagão e o cobrador de impostos".
11. Conclusão
Do que se viu, o versículo leva a três conclusões.
A comunidade entra por último, e entra falando. O caso chega à igreja só depois de duas conversas menores, e a igreja também tenta ser ouvida. O terceiro passo continua sendo uma tentativa de ganhar o irmão.
A frase final muda a relação, e é dita a quem foi ofendido. "Seja para você" está no singular. O versículo descreve como o ofendido passa a tratar quem recusou ouvir três vezes; a decisão da comunidade vem no versículo seguinte.
"Como o pagão e o cobrador de impostos" tem dois sentidos que o texto não separa. Para os ouvintes, eram os de fora, com quem não se comia. No evangelho de um cobrador de impostos, eram também os de fora que Jesus foi buscar. A exclusão e a busca ficam juntas na mesma frase, e o capítulo segue direto para o perdão.













