Então Pedro se aproximou e lhe perguntou: “Senhor, quantas vezes meu irmão pode pecar contra mim que eu deva perdoá-lo? Até sete vezes?”
1. Introdução
Jesus acabou de ensinar como corrigir o irmão que peca contra você (Mateus 18:15-17). Pedro faz a pergunta que vem logo depois: e se ele pecar de novo? E de novo?
Ele mesmo propõe um número: sete vezes. Para a época, era uma proposta generosa. A pergunta trata o perdão como coisa que se conta, e é essa conta que a resposta de Jesus, no versículo seguinte, vai desmontar.
2. Contexto Histórico e Cultural
A regra das três vezes
Os comentários cristãos repetem há séculos que os rabinos mandavam perdoar três vezes, e não uma quarta. Por isso o "sete" de Pedro soaria generoso: mais do que o dobro do que se esperava.
A regra vem do Talmude da Babilônia (a grande coleção de debates rabínicos, fechada por volta do século VI), no tratado Yoma ("O Dia", dedicado ao Dia da Expiação). Conferido o texto, ela está lá em duas formas, e nenhuma diz exatamente o que se costuma atribuir a ela.
A primeira, em Yoma 86b, é de Rabi Yosei bar Yehuda, mestre do fim do século II. Ela fala do perdão de Deus, não do perdão entre pessoas: quem comete a mesma falta é perdoado na primeira, na segunda e na terceira vez; na quarta, não. As provas citadas são Amós 2:6 ("por três transgressões de Israel, e pela quarta, não desviarei seu castigo") e Jó 33:29 ("Deus faz tudo isto duas ou três vezes com o ser humano").
A segunda, em Yoma 87a, é de Rabi Yosei bar Hanina, do século III. Ela fala de quem pede perdão: não precisa pedir mais de três vezes. Depois do terceiro pedido, espera-se que o ofendido ceda. A prova é Gênesis 50:17, onde os irmãos de José pedem perdão com três "por favor" seguidos.
Nenhuma das duas manda o ofendido perdoar só três vezes. O que se pode dizer com segurança é mais modesto: o número três aparece no ensino rabínico como a medida do perdão repetido, tanto do lado de Deus quanto do lado de quem pede. E as duas formas são registradas depois de Jesus, por mestres que viveram um e dois séculos mais tarde. Se a medida já circulava no tempo de Pedro, é hipótese plausível, não fato documentado.
O que já era regra no tempo de Pedro
Há um texto mais antigo no mesmo tratado. A Mishná (a primeira coleção escrita da lei oral judaica, de por volta do ano 200) diz, em Yoma 8:9, que o Dia da Expiação apaga as faltas contra Deus, mas não as faltas contra o próximo — essas, só depois de o ofensor fazer as pazes com quem ofendeu.
Ou seja: o perdão entre pessoas era um assunto à parte, com regras próprias, e não se resolvia no templo. A pergunta de Pedro está dentro desse assunto.
3. Análise Teológica do Versículo
"Então Pedro se aproximou e lhe perguntou"
Jesus acabou de falar de um procedimento: conversar a sós, depois com testemunhas, depois diante da igreja (Mateus 18:15-17). Tudo isso supõe uma falta só, tratada até o fim. Pedro pergunta pelo caso que o procedimento não cobre: o irmão que ouve, faz as pazes e volta a pecar.
É de novo Pedro quem fala pelos outros, como em Mateus 15:15 e Mateus 17:24-25. Mateus não diz se ele pergunta em nome do grupo ou por conta própria.
"Senhor, quantas vezes meu irmão pode pecar contra mim"
A pergunta passa do plural ao singular. No versículo 15, Jesus dizia "se o seu irmão pecar contra você". Pedro repete a frase na primeira pessoa: "meu irmão", "contra mim". O ensino geral vira caso pessoal.
"Irmão", aqui, não é parente de sangue. No capítulo inteiro, é o membro da comunidade dos discípulos. Pedro não pergunta sobre o inimigo, o estrangeiro ou o romano. Pergunta sobre quem está do lado de dentro — e é aí que a ofensa repetida costuma acontecer.
A pergunta também não fala de arrependimento. Em Lucas 17:3-4, o dito paralelo põe a condição: "se ele se arrepender, perdoa-lhe", "se sete vezes ao dia voltar a ti, dizendo: Estou arrependido". Em Mateus, Pedro não menciona se o irmão pede perdão, e Jesus, no versículo seguinte, também não. O texto não diz se a condição está subentendida ou se foi deixada de fora de propósito. É uma diferença real entre os dois evangelhos, e ela pesa na leitura do perdão sem limite.
"que eu deva perdoá-lo?"
Pedro não pergunta se deve perdoar. Isso ele já dá por certo. Pergunta até quando. A dúvida não é sobre o perdão, é sobre o limite dele.
E uma pergunta sobre o limite supõe que o limite existe. Quem pergunta "quantas vezes" imagina uma conta: cada ofensa perdoada é um registro, e em algum momento o saldo se esgota. É essa ideia, e não o número, que a resposta vai atacar.
"Até sete vezes?"
Pedro responde à própria pergunta. Por que ele escolhe sete? Há duas leituras.
Primeira leitura: sete é um número alto, e Pedro se acha generoso. Se a medida conhecida era três (ver o item 2), Pedro mais que dobra. Ele esperaria ouvir que foi longe o bastante.
Segunda leitura: sete é o número da medida cheia. Na Bíblia, sete é a conta completa: os sete dias, o sétimo ano, "sete vezes" como castigo inteiro (Levítico 26:18). Pedro estaria dizendo "perdoar por completo" e perguntando se isso basta.
As duas leituras não se excluem, e o texto não permite decidir entre elas. Nas duas, Pedro põe um teto. Um teto alto, mas um teto.
O "sete" tem ainda um eco que o leitor da Bíblia ouve: é o número da vingança de Caim em Gênesis 4:24, contra os setenta e sete de Lameque. A resposta de Jesus retoma esse par, e o que ele faz com ele é assunto do versículo 22.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Pedro
Simão, pescador de Cafarnaum, chamado por Jesus de Pedro. No Evangelho de Mateus, é quem mais pergunta e quem mais responde em nome dos Doze. É a terceira vez, desde Mateus 17:24, que ele aparece em primeiro plano: com os cobradores do imposto, em casa com Jesus, e agora com esta pergunta.
O irmão
No capítulo 18, "irmão" é o outro discípulo, o membro da comunidade. Não tem nome nem rosto: é qualquer um dos de dentro.
Onde a cena acontece
O texto não muda de lugar desde Mateus 17:24-25: Jesus e os discípulos estão em Cafarnaum, e a conversa começou "em casa". O capítulo 18 inteiro é um só discurso, dito ali, e a pergunta de Pedro o interrompe no meio.
5. Pontos de Ensino
O perdão entre irmãos não é tratado como opcional
Pedro não pergunta se deve perdoar. Pergunta quantas vezes. O dever é o ponto de partida.
A pergunta traz embutida a ideia de um limite
"Quantas vezes" supõe uma conta que se esgota. A resposta de Jesus vai tratar da conta, não só do número.
Mateus não põe o arrependimento na pergunta
Lucas 17:3-4 põe. A diferença fica aberta para o leitor.
6. Aspectos Filosóficos
A pergunta de Pedro levanta uma questão antiga: o perdão pode ser medido? Se pode, ele funciona como um crédito, que se concede até certo ponto e depois acaba. Se não pode, perde a proteção que o limite dava a quem é ofendido sempre pelo mesmo. Pedro fica do lado da medida, e sua proposta é razoável: sete vezes é muito mais do que a maioria concede. O versículo não responde à questão; ele a coloca, e deixa a resposta para Jesus.
7. Aplicações Práticas
Quando a ofensa é sempre do mesmo
A pergunta de Pedro não é sobre a grande traição. É sobre a ofensa pequena e repetida, de alguém próximo, que volta depois de cada reconciliação. É a situação mais comum em família, no trabalho e em qualquer grupo que convive muito. Quem se pega contando — "já é a quarta vez" — está fazendo a pergunta de Pedro, e vale saber que ela foi feita, e a quem.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Pedro esperava ser elogiado?
O texto não diz. A proposta de sete é generosa, e a resposta de Jesus começa com um "não". Se Pedro se surpreendeu, Mateus não registra.
O irmão que peca sete vezes está arrependido?
A pergunta não diz, e a resposta também não. Em Lucas 17:4 o arrependimento é explícito; em Mateus, não aparece. Se o perdão de Mateus 18 vale também para quem não pede perdão, é questão discutida entre os intérpretes.
9. Conexão com Outros Textos
O caso que Pedro está prolongando
Mateus 18:15 — "Se o seu irmão pecar contra você, vá corrigi-lo a sós, entre você e ele. Se ele lhe der ouvidos, você ganhou o seu irmão."
O dito paralelo em Lucas, com o arrependimento
Lucas 17:3 — "Olhai por vós. E se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; e se ele se arrepender, perdoa-lhe."
Lucas 17:4 — "E se pecar contra ti sete vezes ao dia, e se sete vezes ao dia voltar a ti, dizendo: Estou arrependido. Perdoa-lhe."
As provas da regra das três vezes
Amós 2:6 — "Assim diz o SENHOR: Por três transgressões de Israel, e pela quarta, não desviarei seu castigo; porque vendem o justo em troca de dinheiro, e o pobre por um par de sapatos."
Jó 33:29 — "Eis que Deus faz tudo isto duas ou três vezes com o ser humano,"
Gênesis 50:17 — "'Assim dirão a José: Perdoe, por favor, a transgressão e o pecado de seus irmãos, pois lhe fizeram mal.' Agora, pois, perdoe a transgressão dos servos do Deus de seu pai." E José chorou enquanto lhe falavam."
O sete da vingança
Gênesis 4:15 — "O SENHOR, porém, lhe respondeu: 'Por isso, quem matar Caim sofrerá sete vezes a vingança.' Então o SENHOR pôs um sinal em Caim, para que não o ferisse quem o encontrasse."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Então Pedro se aproximou e lhe perguntou: “Senhor, quantas vezes meu irmão pode pecar contra mim que eu deva perdoá-lo? Até sete vezes?”
Texto grego (Textus Receptus)
Τότε προσελθὼν αὐτῷ ὁ Πέτρος εἶπε, Κύριε, ποσάκις ἁμαρτήσει εἰς ἐμὲ ὁ ἀδελφός μου, καὶ ἀφήσω αὐτῷ; ἕως ἑπτάκις;
Transliteração
Tote proselthōn autō ho Petros eipe, Kyrie, posakis hamartēsei eis eme ho adelphos mou, kai aphēsō autō? heōs heptakis?
Diferenças entre manuscritos
O Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) e os manuscritos mais antigos trazem o mesmo texto neste versículo. A única diferença é de grafia (eipe e eipen, a mesma palavra).
Análise palavra por palavra
Τότε — tote, "então". O advérbio favorito de Mateus para ligar uma cena à anterior. Não marca tempo exato; marca sequência.
προσελθὼν αὐτῷ — proselthōn autō, "tendo-se aproximado dele". Particípio de proserchomai, "aproximar-se", verbo que Mateus usa dezenas de vezes para quem chega até Jesus com um pedido ou uma pergunta. No versículo 1 do capítulo, os discípulos também "se aproximaram".
Κύριε — Kyrie, "Senhor". Vocativo de kyrios. Na boca dos discípulos, é o tratamento respeitoso a Jesus. A mesma palavra será, na parábola que vem, o título do rei credor (Mateus 18:25-27).
ποσάκις — posakis, "quantas vezes". Advérbio de pergunta sobre a frequência, formado com o sufixo -akis, que em grego faz os advérbios de "vezes": heptakis, "sete vezes"; hebdomēkontakis, "setenta vezes". Mateus só o usa aqui e em Mateus 23:37 ("quantas vezes eu quis reunir os seus filhos").
ἁμαρτήσει εἰς ἐμὲ — hamartēsei eis eme, "pecará contra mim". Futuro de hamartanō, "pecar", o verbo que originalmente significava "errar o alvo". A construção com eis, "contra", é a mesma do versículo 15 no Textus Receptus ("se o seu irmão pecar contra você"). Pedro repete a expressão de Jesus e troca "você" por "mim".
ὁ ἀδελφός μου — ho adelphos mou, "o meu irmão". Adelphos é o irmão de sangue e, por extensão, o membro de um mesmo grupo. No capítulo 18, é o segundo sentido.
καὶ ἀφήσω αὐτῷ — kai aphēsō autō, "e eu o perdoarei". Futuro de aphiēmi, o verbo de "soltar", "deixar ir", que é também o verbo de perdoar dívidas e pecados; o seu sentido está no estudo de Mateus 6:12, item 10.
A construção merece nota. O grego não diz "quantas vezes ele pecará para que eu o perdoe", e sim "quantas vezes ele pecará e eu o perdoarei?". São duas frases lado a lado, ligadas por "e", à maneira hebraica. A tradução "que eu deva perdoá-lo" explicita o que o "e" deixa implícito.
ἕως ἑπτάκις — heōs heptakis, "até sete vezes". Heōs, "até", marca o limite. Heptakis, de hepta, "sete", com o sufixo das vezes. A Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita antes de Cristo) usa a mesma palavra em Gênesis 4:24, para a vingança de Caim.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
O perdão entre irmãos entra na conversa como dever, não como escolha. Pedro não discute se deve perdoar. A dúvida que ele traz é só sobre o limite.
A proposta de Pedro era alta, e ainda assim era um teto. Sete vezes ultrapassa a medida de três que o ensino rabínico registrou depois. Mas continua sendo um número, e um número supõe que a conta um dia fecha.
Mateus deixa o arrependimento de fora. Lucas o põe na frase; Mateus não. O que isso significa para a resposta de Jesus fica em aberto já aqui.













