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Gênesis 50:17

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 44 acessos
‘Assim dirão a José: Perdoe, por favor, a transgressão e o pecado de seus irmãos, pois lhe fizeram mal.’ Agora, pois, perdoe a transgressão dos servos do Deus de seu pai.” E José chorou enquanto lhe falavam.
José em pé no salão do governador, de cabeça baixa e olhos marejados, enquanto homens diante dele repetem uma mensagem.

Estudo


‘Assim dirão a José: Perdoe, por favor, a transgressão e o pecado de seus irmãos, pois lhe fizeram mal.’ Agora, pois, perdoe a transgressão dos servos do Deus de seu pai.” E José chorou enquanto lhe falavam.

1. Introdução

Aqui está o conteúdo da mensagem, e ele é o único pedido de perdão explícito de todo o Gênesis.

A frase tem duas camadas, e a segunda é a mais reveladora. Primeiro vem o que Jacó teria mandado dizer: “perdoe a transgressão e o pecado de seus irmãos”. Depois, terminada a citação, os irmãos falam por conta própria — e repetem o pedido trocando uma palavra. Deixam de ser “irmãos” e passam a ser “servos do Deus de seu pai”.

O vocabulário do pedido é o mais forte que o hebraico tem para nomear uma ofensa: duas palavras diferentes empilhadas, e o verbo do perdão que, na Bíblia, quase sempre tem Deus por sujeito. É o que prepara a resposta de José dois versículos adiante.

E o versículo termina com uma informação de três palavras: José chorou enquanto lhe falavam. É a última vez que o Gênesis registra o choro dele — e o texto, como das outras vezes, não diz por quê.

2. Contexto Histórico e Cultural

“O Deus de seu pai”

A expressão não é um modo de falar. No mundo dos patriarcas, cada casa tinha uma relação própria com a divindade, e essa relação era identificada pelo antepassado: o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de meu pai. O funcionamento dessa religião de família aparece nos estudos de Gênesis 31:53 e Gênesis 46:1, e não é preciso reabri-lo aqui.

O que interessa neste versículo é o uso que os irmãos fazem dela.

Numa sociedade em que a divindade era vinculada à casa, dizer-se servo do deus de alguém era uma declaração de pertencimento — e, com ela, uma declaração de obrigação recíproca. Quem serve ao mesmo deus está sob as mesmas regras, e o que se faz contra ele é feito também diante dele.

Note a formulação exata: não dizem “servos do nosso Deus”, nem “servos do Deus de nosso pai”. Dizem “servos do Deus de seu pai” — passando por José para chegar a Jacó, e por Jacó para chegar a Deus.

É possível ler isso como humildade extrema: eles não reivindicam nada em nome próprio, nem sequer a fé. E é possível ler como cálculo: colocam o Deus de José como testemunha do pedido, o que torna a recusa mais cara. As duas leituras são defensáveis e não se excluem.

Como se pedia perdão

Não havia, para uma ofensa dentro da família, instância a que recorrer. O acerto era privado, e por isso dependia inteiramente da posição em que cada parte se colocava.

A linguagem dessas situações no Antigo Oriente Próximo é reconhecível: quem pede se apequena, quem é pedido é engrandecido. As cartas de súditos a senhores usam fórmulas fixas de rebaixamento — o assunto é tratado no estudo de Gênesis 43:28 —, e a lógica é sempre a mesma. Reconhecer a distância é a maneira de pedir sem parecer exigir.

Os irmãos seguem esse desenho à risca. Empilham as palavras da ofensa, não atenuam nada, e se posicionam abaixo. É um pedido tecnicamente perfeito.

Há uma peculiaridade, porém, que a comparação com aquelas cartas deixa clara. Nelas, quem pede é o inferior e quem concede é o superior por posição social. Aqui, a superioridade de José é dupla: ele é o governador do Egito e é a parte lesada. As duas coisas se somam, e não há nada no arranjo antigo que dê aos irmãos qualquer contrapeso.

O choro de um homem em público

Convém desfazer um mal-entendido moderno. Chorar diante de outros não era, naquele mundo, sinal de fraqueza masculina nem quebra de decoro. O choro tinha funções sociais reconhecidas — no luto, no reencontro, na súplica — e o Antigo Testamento registra homens chorando com frequência, sem uma linha de constrangimento.

O uso do choro nos encontros de família dentro do Gênesis é tratado no estudo de Gênesis 33:4, e este versículo não acrescenta fundo cultural novo.

O que ele acrescenta é o contrário: aqui quem chora é o homem com poder, diante de quem lhe pede, e o Gênesis não fornece nenhuma pista sobre o sentido do gesto. É o item 3 que trata desse silêncio.

3. Análise Teológica do Versículo

“Assim dirão a José”

A frase que abre o versículo é a fórmula com que se instruía um mensageiro sobre o que dizer — o funcionamento dela está no estudo de Gênesis 44:6.

O que importa aqui é a estrutura que ela cria. Quem fala é o mensageiro; as palavras que ele repete são dos irmãos; e as palavras que os irmãos repetem são atribuídas a Jacó. São três camadas entre José e a fonte, e a fonte está morta.

“Perdoe, por favor”

Este é o único pedido de perdão explícito do Gênesis, e ele aparece duas vezes no mesmo versículo.

Vale medir o que isso significa num livro de cinquenta capítulos cheios de conflitos familiares. Caim não pede perdão. Jacó não pede perdão a Esaú — manda presentes, se prostra sete vezes, chama-o de senhor, e não diz a palavra. Os filhos de Jacó não pediram perdão pelo massacre de Siquém. Judá não pede perdão a Tamar; diz que ela foi mais justa que ele, o que é outra coisa.

A palavra aparece aqui, no fim do livro, na boca de mensageiros, dentro de uma citação de um homem morto.

O verbo usado é o de levantar, carregar: perdoar, em hebraico, é tirar um peso de cima de alguém e assumi-lo (o campo da palavra está no item 10). Não é esquecer nem declarar que nada houve. É pegar o que está posto sobre o devedor e passar para si.

E há um dado que o item 10 documenta e que muda a leitura do capítulo inteiro: essa combinação de palavras — carregar transgressão e pecado — é a que a Bíblia usa para descrever o que Deus faz, na fórmula de Êxodo 34:7. Os irmãos estão pedindo a José, com as palavras exatas, aquilo que o Antigo Testamento atribui a Deus.

Guarde isso. Dois versículos adiante, a primeira coisa que José responde é uma pergunta sobre estar ou não no lugar de Deus.

“a transgressão e o pecado de seus irmãos”

Duas palavras, e não são sinônimos empilhados por ênfase vazia.

A primeira é a mais pesada que o hebraico tem para ofensa entre pessoas: designa a ruptura deliberada de uma relação, a revolta de quem devia lealdade. A segunda é a palavra comum do pecado, a falta cometida, o erro contra o que se devia fazer.

Postas juntas, cobrem o ato inteiro: houve traição e houve falta. Nada é minimizado, nada é chamado de mal-entendido.

É preciso reconhecer a qualidade do pedido. Ele não pede compreensão, não explica circunstâncias, não invoca a juventude, o ciúme ou a provocação dos sonhos. Nomeia o ato com as duas palavras mais fortes disponíveis e pede que o peso seja retirado.

Repare, porém, em quem chama os irmãos de irmãos. É a citação atribuída a Jacó — na voz do pai, eles são “seus irmãos”. Em nome próprio, na segunda metade do versículo, eles não usarão essa palavra.

“pois lhe fizeram mal”

A frase repete, quase palavra por palavra, o que os irmãos disseram entre si em Gênesis 50:15 — o mesmo verbo do tratamento dado a alguém, a mesma palavra para mal.

O dado é ambíguo e vale registrá-lo sem forçá-lo. Pode ser sinal de que a mensagem foi composta por eles, que repetiram a própria formulação; pode ser apenas a maneira como o Gênesis mantém o vocabulário de uma cena. Não é possível decidir, e o estudo de Gênesis 50:16 mostra por que a questão fica em aberto.

O que se pode afirmar é o efeito sobre o leitor: a suposta ordem de Jacó soa com a voz dos filhos.

“Agora, pois, perdoe a transgressão dos servos do Deus de seu pai”

Aqui a citação termina e eles falam por si. É a única frase do versículo que é indiscutivelmente deles, e é onde está o achado.

Compare as duas metades:

— na voz do pai: “a transgressão e o pecado de seus irmãos”;
— na voz deles: “a transgressão dos servos do Deus de seu pai”.

A palavra “irmãos” desaparece. Quando falam em nome próprio, os filhos de Jacó não se apresentam a José como irmãos dele. Apresentam-se como servos — e nem sequer servos dele, mas do Deus do pai dele.

Duas leituras se oferecem. A primeira é que eles não se julgam em condição de invocar o parentesco: quem vendeu um irmão perdeu o direito de usar a palavra. A segunda é que a posição de servo é mais segura — um irmão pode ser cobrado como igual, um servo é objeto de clemência.

O texto não decide, e as duas podem estar operando juntas. O fato observável é este: no versículo seguinte eles se declararão escravos, e a linha entre uma coisa e outra já está traçada aqui.

Repare também no que a segunda formulação perde. Ela cita apenas a primeira palavra da dupla — a transgressão — e deixa de fora o pecado. Não é possível saber se a abreviação tem intenção; o efeito é que o pedido feito em nome próprio é um pouco menor que o pedido atribuído ao pai.

“E José chorou enquanto lhe falavam”

Sete palavras em português, quatro em hebraico, e o Gênesis não diz mais nada.

É o último choro de José no livro, e o último choro registrado no Gênesis. A série inteira fica assim: Gênesis 42:24, quando se afasta dos irmãos que não o reconheceram; Gênesis 43:30, quando vê Benjamim e se tranca no quarto; Gênesis 45:2, quando se dá a conhecer e chora tão alto que os egípcios ouvem; Gênesis 45:14, no pescoço de Benjamim; Gênesis 46:29, no reencontro com o pai; Gênesis 50:1, sobre o rosto do pai morto; e aqui.

Cada uma dessas ocorrências pertence ao estudo do seu versículo, e registrá-las juntas serve a um só propósito: mostrar que o choro acompanha José do começo ao fim da história, e que este é o ponto final da série.

Agora o essencial, e é uma recusa. O Gênesis não diz por que ele chorou.

Não escreve que chorou de tristeza, de alívio, de raiva, de compaixão ou de decepção. Não escreve que chorou porque o pai foi usado, nem porque os irmãos ainda tinham medo, nem porque enfim ouviu o que esperava havia décadas. Não há advérbio, não há explicação, não há uma linha de comentário.

Todas as interpretações que circulam sobre esse choro são leituras de comentaristas, e é assim que devem ser apresentadas. Nenhuma delas se apoia em algo escrito no versículo, porque no versículo não há nada além do verbo.

Este comentário não vai escolher entre elas nem propor mais uma. O texto reserva o interior de José e o mantém reservado até o fim; interpretar o choro é preencher exatamente o espaço que o Gênesis deixou fechado.

“enquanto lhe falavam”

Duas observações sobre esse detalhe, e as duas são de gramática simples, sem consequência doutrinária.

A primeira: o choro é simultâneo à fala, não posterior a ela. Ele não ouve, pensa e chora. Chora enquanto ainda estão falando — ou seja, antes do fim do pedido.

A segunda: o verbo está no plural. Quem fala são vários. Se os mensageiros eram mais de um, são eles; se a mensagem foi trazida pelos próprios irmãos, são os irmãos — e nesse caso a chegada do versículo 18 seria um segundo movimento da mesma cena. O Gênesis não esclarece, e o estudo de Gênesis 50:16 expõe a discussão.

O que o versículo não diz

Não diz que José perdoou. Não diz que ele respondeu aos mensageiros. Não diz que aceitou a mensagem como verdadeira nem que a rejeitou.

Entre o pedido e a resposta há apenas um homem chorando, e uma cena inteira — a prostração do versículo 18 — antes de ele abrir a boca.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jacó, na citação

Aparece aqui como autor de palavras que o Gênesis não registrou em vida. É a segunda metade do problema exposto no estudo de Gênesis 50:16, e a questão continua em aberto.

Na fala atribuída a ele, os culpados são chamados de “seus irmãos” — o parentesco é afirmado pela voz do pai, e por ninguém mais.

Os que falam

O texto usa o plural: “enquanto lhe falavam”. Não identifica quem são — mensageiros ou os próprios irmãos —, e não diz quantos.

Os irmãos

Nesta altura eles se autodenominam “servos do Deus de seu pai”. É a designação que escolhem para si na única frase do versículo que lhes pertence com certeza.

José

Governador do Egito, e a única pessoa em cena com poder de decisão. Neste versículo ele não fala. A resposta virá em Gênesis 50:19, depois de os irmãos chegarem em pessoa.

O Deus de Jacó

Invocado, não presente. Os irmãos o trazem para a conversa como quem chama uma testemunha, e não como quem se dirige a ele: não há oração nem sacrifício nesta cena.

Onde e quando

No Egito, depois do retorno do sepultamento (Gênesis 50:14). O intervalo entre o enterro e esta cena não é informado.

5. Pontos de Ensino

Um pedido de perdão bem feito nomeia o ato

A mensagem não diz “sentimos muito pelo que aconteceu”. Diz a palavra da traição e a palavra da falta, e acrescenta “fizeram mal a você”.

Há aqui um modelo de linguagem: o pedido que não atenua, não explica e não distribui a culpa é o único que dá ao ofendido alguma coisa concreta para responder.

Pedir perdão é reconhecer que a decisão não é sua

Quem pede entrega ao outro o poder de conceder ou não. É por isso que pedir perdão é difícil, e não porque exija humildade em abstrato: exige aceitar ficar à espera de uma resposta que não se controla.

Os irmãos fazem isso do modo mais protegido possível — por mensageiro, e apoiados no pai. Ainda assim, entregam a decisão.

O nome que damos a nós mesmos diante de quem ofendemos

Eles trocam “irmãos” por “servos”. É um detalhe pequeno e revela o essencial: quem se sente em dívida costuma abrir mão do vínculo antes de ser mandado embora dele.

Vale como observação sobre nós mesmos. Muita relação não se rompe pela recusa de quem foi ofendido, e sim pelo recuo antecipado de quem ofendeu.

Perdoar é assumir um peso, não fingir que não existe

A palavra hebraica do perdão é a de levantar e carregar. Quem perdoa não declara que o dano evaporou; ele fica com o prejuízo e desiste da cobrança.

Isso desmonta a ideia de que perdoar é barato ou automático. O custo não desaparece — muda de dono.

Há coisas que o texto guarda

O Gênesis diz que José chorou e não diz por quê. A tentação de preencher é grande, e a disciplina de não preencher faz parte de ler bem.

Nem toda passagem tem uma lição a extrair de cada frase. Algumas registram um fato humano e o deixam intacto.

6. Aspectos Filosóficos

Pedir perdão entrega poder a quem se teme

Há uma inversão curiosa no gesto dos irmãos, e ela merece ser vista de frente.

Eles têm medo de que José exerça poder sobre eles. E a coisa que fazem, para se proteger, é reconhecer formalmente que ele tem esse poder. O pedido de perdão só faz sentido se dirigido a alguém que poderia negar — e ao pedir, eles constituem José em juiz do caso.

Quem pede perdão não neutraliza a ameaça: submete-se a ela e espera. Não há maneira de pedir sem passar por aí.

Só a vítima tem alguma coisa a conceder

Daí decorre uma restrição que costuma ser ignorada, e é importante.

O perdão não é uma opinião favorável sobre um ato: é a renúncia a uma reivindicação. Renunciar a uma reivindicação só pode fazer quem a possui — ou seja, quem foi lesado.

Terceiros podem se compadecer, podem pedir clemência, podem até esquecer o assunto. O que não podem é perdoar no lugar de quem sofreu o dano, porque não têm nada a abrir mão. É por isso que soa falso quando alguém perdoa em nome de outra pessoa: a operação não está disponível para ele.

Este versículo respeita a regra ao máximo. O pedido é dirigido ao ofendido, e a ninguém mais — nem ao pai, enquanto vivo, nem a Deus.

O que fica pendente

Resta uma dificuldade que o versículo abre e não fecha, e que o capítulo tratará adiante.

Se a ofensa foi só contra José, ele pode perdoá-la inteira. Mas o vocabulário que os irmãos escolheram é o vocabulário do pecado — a palavra que a Bíblia usa para a falta cometida também diante de Deus. E, se o ato tem essa segunda dimensão, então há uma parte dele que não está à disposição de José, por mais que ele queira concedê-la.

O pedido, tal como formulado, pede mais do que uma pessoa pode dar. Dois versículos adiante, José dirá exatamente isso, com outras palavras.

7. Aplicações Práticas

Como se pede desculpa de verdade

A mensagem oferece um roteiro que funciona: nomeia o ato sem eufemismo, reconhece o dano do ponto de vista de quem o sofreu, e não pede compreensão — pede perdão, que é outra coisa.

Compare com o formato mais comum entre nós: “se eu magoei você, me desculpe”. A condicional devolve ao ofendido o ônus de provar que houve dano, e transforma o pedido numa negociação sobre o tamanho do erro.

Mandar recado quando o assunto é grave

Os irmãos escolheram o caminho protegido. Não é difícil reconhecer o hábito: a mensagem escrita, o parente que serve de ponte, o pedido enviado por alguém que estava por perto.

Não há proibição nisso, e às vezes é o único caminho possível. O que a cena mostra é o limite do recurso — dois versículos depois eles vão ter de ir mesmo assim. O intermediário adia o encontro; não o substitui.

Sobre invocar terceiros

Apoiar um pedido na vontade de um parente falecido, no que a família espera ou no que seria melhor para todos é comum, e tem um custo: desloca a conversa do que você fez para o que os outros querem.

Quando o assunto é uma ofensa sua, a única voz que resolve é a sua.

Se você é quem foi ofendido

Há uma aplicação para o outro lado, e ela vem do detalhe do choro. José não responde de imediato. Entre o pedido e a resposta existe um intervalo, e o texto não o preenche com nada além de lágrimas.

Não é obrigatório ter uma resposta pronta. Receber um pedido de perdão é um acontecimento, e reagir na hora costuma produzir uma frase que não corresponde ao que se sente nem ao que se decidirá depois.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o pedido de perdão aparece só agora, no último capítulo?

O Gênesis está cheio de ofensas graves entre parentes e quase não tem pedidos de perdão. Este é o único formulado com essa palavra.

O texto não explica a raridade. Pode-se observar que, no livro, os conflitos costumam ser resolvidos por separação — Abraão e Ló, Isaque e Ismael, Jacó e Esaú, que se encontram e depois seguem para lados opostos. Aqui a separação não é possível: eles vivem da mão dele.

Os irmãos pediram perdão a Deus em algum momento?

O Gênesis não registra nada disso. Em Gênesis 42:21-22 eles reconhecem estar sendo punidos, o que pressupõe um juízo divino, mas não há oração, sacrifício nem confissão dirigida a Deus em nenhum ponto da história.

Aqui invocam o Deus do pai de José como quem invoca uma testemunha, não como quem se dirige a ele. É uma ausência que atravessa toda a narrativa e que o texto não comenta.

Faz diferença que o pedido tenha vindo por mensageiro?

Para o conteúdo, não: as palavras são as mesmas que diriam em pessoa. Para a cena, faz — e o próprio capítulo mostra, porque a resposta de José só vem depois de eles chegarem e se prostrarem.

O texto não diz que ele se recusou a responder ao recado. Diz apenas que chorou, e passa para a chegada deles.

Se José já os havia tratado bem por dezessete anos, o perdão não estava dado?

Essa é a pergunta que o capítulo inteiro trabalha, e o versículo seguinte a torna mais aguda. O tratamento estava dado; a palavra, não.

Se isso equivale a perdão, ou se falta alguma coisa que só a palavra dá, o Gênesis não resolve — e o estudo de Gênesis 50:20 mostra que ele não resolve de propósito.

9. Conexão com Outros Textos

A fórmula do perdão divino, com as mesmas três palavras

Êxodo 34:6-7 — “SENHOR, SENHOR Deus compassivo e clemente, tardio em irar-se e grande em bondade e verdade; que guarda a bondade a milhares, que perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado.”

O verbo é o mesmo que os irmãos usam, e as palavras da ofensa também. É a passagem que mede a dimensão do pedido feito a José.

O que os irmãos disseram entre si

Gênesis 50:15 — “Talvez José nos odeie e nos retribua todo o mal que lhe fizemos.”

A mensagem repete o vocabulário da conversa privada, e o estudo daquele versículo trata do que isso pode e não pode significar.

A primeira admissão, ainda sem a palavra “perdão”

Gênesis 42:21 — “Sem dúvida estamos sendo punidos por causa do nosso irmão. Vimos a angústia da sua alma quando nos implorava, e não o ouvimos.”

Perdão pedido a um homem, em outro lugar do Antigo Testamento

1 Samuel 25:28 — “Perdoa, peço-te, a transgressão da tua serva; porque o SENHOR certamente fará ao meu senhor casa firme.”

Abigail usa o mesmo verbo e a mesma palavra para ofensa, dirigindo-se a Davi. É o paralelo mais próximo, e mostra que a fórmula circulava entre pessoas, não só na oração.

A transgressão como revolta contra um senhor

2 Reis 8:20 — “Nos dias dele, Edom se revoltou contra o domínio de Judá e constituiu um rei sobre si.”

O verbo dessa revolta política é da mesma raiz da palavra que os irmãos escolhem para nomear o que fizeram.

O choro anterior, no mesmo capítulo

Gênesis 50:1 — “Então José se lançou sobre o rosto de seu pai, chorou sobre ele e o beijou.”

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

‘Assim dirão a José: Perdoe, por favor, a transgressão e o pecado de seus irmãos, pois lhe fizeram mal.’ Agora, pois, perdoe a transgressão dos servos do Deus de seu pai.” E José chorou enquanto lhe falavam.

Texto hebraico

כֹּה־תֹאמְרוּ לְיוֹסֵף אָנָּא שָׂא נָא פֶּשַׁע אַחֶיךָ וְחַטָּאתָם כִּי־רָעָה גְמָלוּךָ וְעַתָּה שָׂא נָא לְפֶשַׁע עַבְדֵי אֱלֹהֵי אָבִיךָ וַיֵּבְךְּ יוֹסֵף בְּדַבְּרָם אֵלָיו׃

Transliteração

koh-tomeru le-Yosef anna sa na pesha achecha vechattatam ki-ra'ah gemalucha; ve'attah sa na lefesha avdei Elohei avicha. Vayyevk Yosef bedabberam elav.

Análise palavra por palavra

כֹּה־תֹאמְרוּ — koh-tomeru, “assim direis”.

Fórmula de instrução ao mensageiro. O estudo de Gênesis 44:6 trata do funcionamento dessa convenção; aqui basta registrar que ela marca o início de um texto destinado a ser repetido palavra por palavra.

אָנָּא — anna, “ah, por favor!”.

É uma partícula de súplica, rara e intensa. Não é o “por favor” de cortesia: é a interjeição de quem implora.

Aparece na oração de Moisés depois do bezerro de ouro, em Êxodo 32:31, e na súplica do Salmo 118:25 — “ó SENHOR, salva-nos” —, o versículo de onde vem a palavra que a tradição cristã guardou na forma “hosana”.

É palavra de oração. Os irmãos abrem o pedido a José com o vocabulário com que se fala a Deus.

שָׂא נָא — sa na, “perdoa, por favor”. Raiz nasa, no imperativo, com a partícula de suavização.

Esta é a palavra central do versículo, e o campo dela é concreto: nasa significa levantar, erguer, carregar, transportar. É o verbo de quem levanta os olhos (Gênesis 13:10), de quem carrega um fardo, de quem transporta uma carga.

O sentido de perdoar nasce dessa imagem física: a ofensa é um peso que está sobre alguém, e perdoar é levantar esse peso e ficar com ele. Não é declarar que o peso não existe.

A partícula que acompanha o imperativo — na — abranda a ordem e a transforma em rogo. É a diferença entre “perdoe” e “perdoe, por favor”.

A construção reaparece na segunda metade do versículo, e com uma diferença que vale notar: na primeira vez o objeto vem direto, e na segunda vem introduzido por uma preposição. As duas construções existem em hebraico e o sentido é o mesmo; alguns leem na segunda um tom ligeiramente mais indireto, mas o dado é discutido e não sustenta conclusão.

פֶּשַׁע — pesha, “transgressão”.

É a palavra mais grave do vocabulário hebraico da ofensa. O sentido de base não é moral, e sim político: pesha é a revolta de um vassalo contra o senhor, a ruptura de uma relação de lealdade.

É com essa palavra que 1 Reis 12:19 diz que Israel se revoltou contra a casa de Davi, e que 2 Reis 8:20 diz que Edom se revoltou contra Judá.

Aplicada a uma ofensa entre irmãos, ela diz que houve mais do que um dano: houve quebra de vínculo. O que os irmãos reconhecem, ao escolher essa palavra, não é ter feito uma coisa ruim — é ter rompido a lealdade devida.

וְחַטָּאתָם — vechattatam, “e o pecado deles”. Raiz chata.

A raiz significa errar o alvo, não acertar o caminho. Juízes 20:16 a usa no sentido literal, para atiradores de funda que não erravam o alvo por um fio de cabelo.

É a palavra comum e ampla para pecado, e cobre desde a falta involuntária até o crime deliberado. Ao lado de pesha, funciona como fecho: primeiro o nome duro, depois o nome geral, e entre os dois não sobra nada de fora.

Um dado decisivo: estas duas palavras, com o verbo nasa, formam a fórmula de Êxodo 34:7, onde se diz que Deus “perdoa a iniquidade, a transgressão e o pecado”. É a descrição clássica do perdão divino no Antigo Testamento, e as três peças estão aqui.

O pedido dos irmãos, portanto, não usa uma linguagem qualquer. Usa a linguagem que a Bíblia reserva para o que Deus faz — e é exatamente esse ponto que a resposta de José, em Gênesis 50:19, vai tocar.

כִּי־רָעָה גְמָלוּךָ — ki-ra'ah gemalucha, “pois lhe fizeram mal”.

O verbo é o mesmo que os irmãos usaram em Gênesis 50:15 — a raiz do tratamento dado a alguém, examinada no estudo daquele versículo — e a palavra para mal também. A repetição é literal.

O sufixo verbal aqui é de segunda pessoa: “trataram a você”. A frase é dirigida a José, não a um terceiro.

עַבְדֵי אֱלֹהֵי אָבִיךָ — avdei Elohei avicha, “os servos do Deus do teu pai”.

Três palavras encadeadas, cada uma dependendo da seguinte. Os irmãos não são servos de José: são servos do Deus; e o Deus é identificado pelo pai; e o pai é identificado como pai de José.

Nenhuma das três palavras estabelece vínculo direto entre eles e o homem a quem falam. O parentesco só aparece na parte atribuída a Jacó, onde a palavra usada foi achecha, “teus irmãos”. Em nome próprio, a palavra é avdei, “servos”.

No versículo seguinte, essa palavra vai piorar: de avdei, servos, para a mesma raiz aplicada de outro modo, quando disserem que estão ali como escravos.

וַיֵּבְךְּ יוֹסֵף — vayyevk Yosef, “e José chorou”. Raiz bacha.

Verbo comum do choro, na forma simples, sem qualquer qualificação. O hebraico tem meios de intensificar — em Gênesis 45:2 o texto diz que ele deu a sua voz em choro, construção que descreve o choro alto. Aqui não há nada disso.

É o registro seco de um fato, e é a última ocorrência do verbo aplicada a José em todo o Gênesis.

בְּדַבְּרָם אֵלָיו — bedabberam elav, “ao falarem eles a ele”.

Construção de simultaneidade: a preposição “em” mais o infinitivo do verbo falar, mais o sufixo de terceira pessoa do plural. Em português seria “no falarem eles”, e a nossa versão traduz por “enquanto lhe falavam”.

Duas informações saem daí. A primeira é temporal: o choro acontece durante a fala, e não depois dela. A segunda é de número: quem fala são vários, o que reabre a pergunta sobre quem levou a mensagem, discutida no estudo de Gênesis 50:16.

E o versículo termina aí. O Gênesis não acrescenta nada sobre o motivo do choro, e a análise do original confirma o que o item 3 registra: não há, na frase hebraica, nenhum elemento que indique a causa.

11. Conclusão

Do versículo se conclui, primeiro, que o único pedido de perdão explícito do Gênesis é feito com o vocabulário mais forte disponível: a palavra da revolta contra um senhor, a palavra do erro, e o verbo de carregar o peso alheio. Nada é atenuado. Os irmãos nomeiam o que fizeram com mais exatidão do que qualquer outro personagem do livro.

Conclui-se, segundo, que esse pedido, tal como formulado, pede a um homem o que a Bíblia atribui a Deus. A combinação de palavras é a de Êxodo 34:7, e ela põe José num lugar que ele recusará explicitamente dois versículos adiante. O pedido dos irmãos e a resposta dele conversam por meio desse vocabulário, e não por acaso.

Conclui-se, terceiro, que os irmãos abrem mão do parentesco no momento em que falam por si. Na voz do pai são “seus irmãos”; na voz deles, “servos”. É um recuo que eles fazem sozinhos, sem que ninguém o exija — e que se completará no versículo seguinte, quando se declararem escravos.

Conclui-se, por fim, que o texto guarda o interior de José. Ele chora enquanto falam, e o Gênesis não diz por quê. Qualquer explicação do choro é acréscimo do leitor; o livro registra o fato e o deixa fechado, como fez com tudo o que se passou entre eles nos dezessete anos anteriores.

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Gênesis 50:17

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