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Gênesis 31:53

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de setembro de 2026·⏱️ 29 min de leitura·👁 45 acessos
Que o Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós.” E Jacó jurou pelo Temor de Isaque, seu pai.
Dois homens de vestes antigas frente a frente diante de um monte de pedras, um com o braço erguido e o outro com a mão sobre o peito, ao anoitecer.

Estudo


Que o Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós.” E Jacó jurou pelo Temor de Isaque, seu pai.

1. Introdução

Esta é a última coisa que Labão diz na Bíblia.

Ele fecha o acordo do único modo que faltava: chamando Deus para julgar. E fecha com uma frase sobre a qual se discute há séculos.

Três pontos organizam a leitura.

O primeiro é a disputa central. Labão nomeia o Deus de Abraão e o Deus de Naor, e o verbo hebraico traduzido por "julgue" está no plural em algumas leituras. Isso sugeriria dois deuses distintos, um de cada lado da família. Outras leituras o tomam como singular.

O segundo é o que a discussão envolve. Não é questão de gramática apenas. Envolve o que se sabe sobre a religião da família na Mesopotâmia, os deuses domésticos que Raquel furtou, e a maneira como tratados antigos convocavam os deuses das duas partes.

O terceiro é o que o próprio texto entrega sem comentar: Jacó não jura pelo nome que Labão propôs. Ele jura pelo Temor de Isaque, seu pai — título tratado no versículo 42, e que aqui só interessa por uma razão: ele exclui Naor.

A disputa não se resolve, e este estudo não vai fingir que resolve. Os argumentos dos dois lados estão apresentados abaixo.

2. Contexto Histórico e Cultural

De onde vem a família

Há um texto bíblico que não costuma ser lembrado e que muda tudo neste versículo.

Josué 24:2 diz: "Além do rio habitaram antigamente os pais de vocês, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses."

É uma afirmação direta, feita pelo próprio Josué diante do povo reunido, e ela nomeia exatamente as três pessoas que aparecem neste versículo — Abraão, Naor e o pai dos dois. A família de onde saiu Israel servia a outros deuses antes de sair.

Isso não é acusação nem descoberta moderna: está no cânon, dito em assembleia, e serve de base para o apelo que Josué faz em seguida, quando pede ao povo que escolha a quem servir.

O ramo de Abraão partiu. O ramo de Naor ficou. Labão é bisneto de Naor e vive em Harã — cidade conhecida na Antiguidade por um santuário importante do deus da lua.

Os deuses da casa de Labão

O próprio capítulo já forneceu o dado, e ele pesa nesta discussão.

Raquel furtou os deuses domésticos do pai, no versículo 19. Labão perseguiu a caravana e revistou as tendas atrás deles. E o que ele diz, no versículo 30, é textual: "por que furtaste os meus deuses?"

No plural, e chamando-os de seus.

Isso não decide a questão deste versículo — imagens domésticas podiam ter função de herança e de proteção da casa, e o assunto pertence ao versículo 19 —, mas estabelece o quadro. Quem fala aqui é um homem que, poucas horas antes, chamou de "meus deuses" um conjunto de imagens.

Como tratados antigos convocavam os deuses

Este é o dado de fundo que torna a leitura de dois deuses não apenas possível, mas natural.

Nos tratados entre reinos do antigo Oriente Próximo, cada parte trazia os próprios deuses para a lista de testemunhas. Um tratado entre um rei hitita e um rei sírio nomeia os deuses dos dois lados, um após o outro, e todos são convocados a punir quem romper.

Ninguém achava isso contraditório. O procedimento pressupunha que cada povo tinha os seus, e que o acordo ficava mais firme quanto mais divindades fossem chamadas.

Se é isso que Labão está fazendo, a frase dele é a fórmula padrão de um tratado: o teu Deus e o meu, que julguem entre nós.

"O Deus do pai"

A expressão que aparece no fim da primeira metade do versículo tem uma história própria.

Nos textos dos patriarcas, Deus é identificado com frequência pela ligação a um antepassado: o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, o Deus de meu pai. É assim em Gênesis 26:24, em Gênesis 28:13 e no versículo 42 deste capítulo.

Estudiosos do século XX propuseram que essa fórmula reflete um modo antigo de religião familiar, em que cada clã se ligava a uma divindade específica, protetora daquela linhagem, identificada pelo nome do antepassado que primeiro a encontrou. A proposta é conhecida e continua discutida; nem todos a aceitam, e ela não é demonstrável a partir dos textos disponíveis.

O que se pode observar sem entrar na discussão é o uso. Quando o Gênesis quer dizer de qual Deus se trata, ele o faz nomeando uma pessoa — e é exatamente isso que Labão faz duas vezes nesta frase.

3. Análise Teológica do Versículo

"Que o Deus de Abraão e o Deus de Naor"

Dois nomes, ligados por um "e", cada um precedido pela mesma palavra: Deus.

Abraão e Naor são irmãos, filhos de Terá, conforme Gênesis 11:26-27. Um partiu para Canaã; o outro permaneceu na Mesopotâmia. Jacó descende do primeiro, Labão do segundo.

Ou seja: Labão está nomeando o antepassado de cada lado da mesa. É o gesto correto num tratado — cada parte traz o seu.

A pergunta que o versículo levanta é se "o seu" quer dizer a mesma coisa nos dois casos.

"o Deus do pai deles"

Esta frase puxa na direção contrária, e é o principal argumento de quem lê um Deus só.

O pai de Abraão e de Naor é Terá. Ao acrescentar "o Deus do pai deles", Labão parece recuar uma geração e apontar para uma origem comum: os dois ramos vêm do mesmo homem, e o Deus é o mesmo.

Se a frase for lida assim, ela funciona como correção do que veio antes — como quem diz "o Deus de Abraão e o Deus de Naor, que é um só, o do pai dos dois".

Há uma complicação. A frase não aparece na tradução grega antiga do Antigo Testamento nem em parte da tradição manuscrita hebraica, e a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) a considera provavelmente um acréscimo posterior.

Isso não é irrelevante. Se a frase for acréscimo, ela pode ser justamente a tentativa antiga de resolver o problema que o versículo cria — alguém teria escrito, na margem ou no texto, o esclarecimento que faltava. E, nesse caso, o argumento a favor de um Deus só se enfraquece, porque passaria a ser opinião de um copista, e não de Labão.

Não é possível decidir. Registre-se apenas que o principal argumento de um lado repousa sobre um trecho cuja origem é discutida.

"julgue entre nós"

Aqui está o centro da disputa, e ela é sobre uma terminação de verbo.

No texto hebraico corrente, o verbo está na terceira pessoa do plural: julguem. A palavra traduzida por Deus, em hebraico, tem forma gramaticalmente plural, mas quando se refere ao Deus de Israel costuma vir acompanhada de verbo no singular — e é justamente essa combinação que caracteriza o uso bíblico.

Aqui a combinação é outra. E daí o argumento.

O argumento a favor de dois deuses

Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) formula assim: como Labão junta o nome de Deus a um verbo no plural, parece que ele considerava o Deus de Abraão diferente do Deus de Naor.

O raciocínio é direto. Se fossem o mesmo, o esperado seria o singular, como no restante do livro. O plural aponta para dois sujeitos.

Três coisas reforçam esse lado.

A primeira é o próprio capítulo, no versículo 30, onde Labão fala em "os meus deuses", no plural e na primeira pessoa.

A segunda é Josué 24:2, que afirma que a família de Terá servia a outros deuses do outro lado do rio — e Labão é o ramo que ficou lá.

A terceira é a prática dos tratados, em que nomear os deuses das duas partes era o procedimento normal.

Matthew Poole (teólogo inglês do século XVII) resume o que muitos comentaristas concluem: Labão junta ídolos ao Deus verdadeiro. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) leem do mesmo modo e acrescentam que Jacó recusou essa mistura.

O argumento a favor de um Deus só

Ele existe, é sério, e desmonta a ideia de que a gramática resolve a questão.

O ponto é o seguinte: o hebraico bíblico usa, sim, verbo no plural com a palavra Deus em passagens que se referem inequivocamente ao Deus de Israel.

Em Gênesis 20:13, na boca do próprio Abraão, a construção é literalmente "quando Deus me fizeram peregrinar" — verbo no plural. Em Gênesis 35:7, ao explicar o nome do altar em Betel, o texto diz que ali "Deus se manifestaram" a Jacó, também no plural. Há outros casos.

Se o plural fosse prova de politeísmo, esses versículos provariam demais.

Acrescente-se a isso a tradução grega antiga, feita a partir do século III a.C., que traz o verbo no singular — o que indica que tradutores judeus daquela época leram a frase como referência a um só.

E acrescente-se a frase "o Deus do pai deles", que, se for original, aponta explicitamente para a unidade.

Onde isso deixa a questão

Deixa em aberto, e é honesto dizê-lo com todas as letras.

A gramática, sozinha, não decide: o plural com a palavra Deus ocorre em contextos que não admitem leitura politeísta. O contexto, sozinho, também não decide: ele favorece a leitura de dois deuses, mas o contexto não impõe formas verbais.

O que se pode afirmar com segurança é bem menos, e ainda assim vale: a frase é ambígua no original, foi lida das duas maneiras desde a Antiguidade, e a ambiguidade não é invenção de comentarista moderno — a tradução grega já a resolveu numa direção, e o texto hebraico corrente permite a outra.

Não há como decidir com o material disponível.

"E Jacó jurou pelo Temor de Isaque, seu pai"

Aqui está o dado que o texto oferece sozinho, sem comentário e sem explicação. Ele vale mais do que qualquer argumento gramatical.

Labão propôs uma fórmula: o Deus de Abraão e o Deus de Naor. Jacó tinha diante de si o gesto óbvio, que era jurar por ela.

Não jurou.

Ele jurou pelo Temor de Isaque, seu pai — título divino que ele já havia usado no versículo 42, e cujo sentido é discutido ali. O que interessa neste ponto não é o significado do título, e sim quem ele deixa de fora.

Naor não está nele. A fórmula de Jacó não recua até o tronco comum, não menciona o ramo que ficou na Mesopotâmia e não nomeia nada que Labão pudesse reivindicar como seu. Ela vai apenas até o pai dele.

Labão ampliou; Jacó estreitou.

O Gênesis não diz por quê. Não registra objeção, não critica a fórmula do sogro, não explica a escolha. Simplesmente coloca as duas frases uma ao lado da outra e passa para o versículo seguinte.

Uma leitura possível — e é leitura, não afirmação do texto — é que Jacó tenha percebido a ambiguidade e recusado assumir compromisso sob uma fórmula que talvez incluísse outro deus. Keil e Delitzsch leem assim, e a leitura é defensável.

Outra leitura, mais econômica, é que ele simplesmente jurou pelo nome que usava, sem nenhum cálculo. Um homem jura pelo que é dele, e o que é dele é o Deus do próprio pai.

As duas explicam o dado. Nenhuma se impõe.

O que resta, e não depende de escolher entre elas, é a assimetria: os dois selam o mesmo pacto invocando fórmulas diferentes. É o mesmo que aconteceu no versículo 47, quando cada um deu ao monte um nome na própria língua — e talvez seja o retrato mais exato do que este acordo é. Duas partes que combinam o mesmo, cada uma nos próprios termos, sem exigir que a outra adote os seus.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Abraão

Avô de Jacó, filho de Terá, o homem que saiu de Harã em direção a Canaã. Nesta cena aparece apenas como nome numa fórmula — o antepassado que identifica de qual Deus se fala.

Vale lembrar que ele também já havia feito um acordo de não agressão com um estrangeiro, em Gênesis 21:22-32, e que também ali houve juramento.

Naor

Irmão de Abraão. O ramo dele permaneceu na Mesopotâmia, e é dele que descendem Betuel, Labão, Rebeca, Lia e Raquel.

Gênesis 22:20-24 traz a lista dos filhos dele, e Gênesis 24:10 chama Harã de "cidade de Naor". É a única vez em todo o Gênesis em que o nome dele aparece numa fórmula religiosa.

Note a complicação familiar: Jacó descende de Abraão pelo pai e de Naor pela mãe, Rebeca. As duas linhas se cruzam nele.

Terá

Pai de Abraão e de Naor, e provavelmente o "pai deles" mencionado no versículo. Gênesis 11:31 conta que foi ele quem partiu de Ur com a família e parou em Harã, onde morreu.

Josué 24:2 o nomeia expressamente entre os que serviam a outros deuses do outro lado do rio.

Isaque

Pai de Jacó, vivo neste momento — morrerá em Gênesis 35:28-29, com cento e oitenta anos, depois do retorno do filho.

É por ele que Jacó jura, e o título usado aparece só neste capítulo, nos versículos 42 e 53. Não há outro lugar na Bíblia em que Deus seja chamado assim.

Labão

Esta é a última fala dele em toda a Bíblia. Depois deste versículo ele aparece uma vez mais, no 55, beijando os netos e as filhas antes de partir — e some.

Ao longo do capítulo ele mencionou Deus várias vezes: no versículo 24, contando o sonho; no 29, dizendo que o Deus do pai de Jacó lhe falara; no 49, invocando o nome próprio do Deus de Israel; no 50, chamando-o de testemunha; e agora, nesta fórmula dupla.

Que retrato religioso o conjunto dessas falas compõe é justamente o que se discute, e o texto não conclui nada a respeito.

5. Pontos de Ensino

A mesma palavra nem sempre nomeia a mesma coisa

Labão e Jacó usam a palavra "Deus" no mesmo acordo, e é possível que estejam apontando para coisas diferentes.

Esse é um problema que atravessa qualquer conversa sobre convicções. A palavra compartilhada dá a impressão de entendimento, e a impressão pode ser falsa por muito tempo antes que alguém perceba.

O sinal de alerta costuma ser prático: as duas pessoas concordam em tudo enquanto falam em geral, e divergem assim que se trata de decidir algo concreto.

Jurar pelo que é seu

Jacó não adota a fórmula do sogro. Jura pelo nome que usa.

Sem discussão, sem discurso, sem recusar o acordo. Ele apenas não repete o que não é dele.

É uma postura útil em qualquer ambiente em que se pede adesão a formulações alheias. Não é preciso brigar com a palavra do outro para não assumi-la.

Ambiguidade que não se resolve

Há textos que continuam ambíguos depois de tudo examinado, e este é um deles.

A tentação, diante disso, é escolher uma leitura e apresentá-la como se fosse a única. É mais confortável para quem escreve e para quem lê.

O preço dessa comodidade é alto: quem descobre depois que havia outra leitura defensável passa a desconfiar de tudo o que foi dito antes. Registrar a dúvida custa menos.

Um acordo não exige credo comum

Os dois selam o mesmo pacto com fórmulas religiosas diferentes, e o pacto funciona.

Nada foi exigido em matéria de convicção. Cada um jurou como jurava, e o compromisso valeu para os dois — e foi cumprido.

É um dado a considerar antes de transformar convergência de crença em pré-requisito para acordo prático entre pessoas.

Gente cujo retrato religioso não fecha

Labão fala de sonhos enviados por Deus, usa o nome próprio do Deus de Israel, chama-o de testemunha — e chama de "meus deuses" as imagens que perdeu.

O texto não organiza isso e não o condena. Apresenta um homem cujas falas não formam um sistema coerente.

Isso é mais realista do que qualquer retrato arrumado, e vale como advertência contra a pressa de classificar a fé alheia a partir de uma frase isolada.

6. Aspectos Filosóficos

Quantos deuses cabem numa frase

O versículo põe, sem querer, uma pergunta que a filosofia da religião tratou muito: a passagem entre crer em vários deuses e crer em um só é uma linha nítida, ou uma faixa em que as duas coisas convivem?

O texto que enfrentou isso de modo mais influente é a História Natural da Religião, de David Hume (1711-1776), filósofo escocês, publicada em 1757.

O que Hume sustenta

O livro é uma investigação sobre a origem da crença religiosa, e a tese central contraria o que se supunha na época dele.

A religião, argumenta Hume, não começou em monoteísmo. Começou em politeísmo — e não por raciocínio sobre a ordem do mundo, mas por medo e esperança diante das causas desconhecidas dos acontecimentos que afetam a vida das pessoas: a doença, a colheita, a tempestade, a guerra.

Diante do que não controla, o ser humano personifica. Atribui vontade, humor e intenção às forças que o cercam, porque essa é a única maneira que conhece de lidar com o que age sobre ele. Daí nascem os muitos deuses, cada um encarregado de uma parte da experiência.

A passagem para um só, na descrição de Hume, não vem por descoberta. Vem por elogio. Entre os muitos, um vai sendo exaltado acima dos outros por quem depende dele, e o exagero da adoração acaba lhe atribuindo tudo — até que os demais deixem de ter função.

E há uma tese complementar, que ele chama de fluxo e refluxo: as sociedades oscilam entre os dois estados. O deus único, elevado demais, torna-se distante; a distância é preenchida por intermediários, santos, gênios, imagens; e o politeísmo volta por baixo.

Onde os dois se encontram

Este versículo é um dos raríssimos lugares da Bíblia em que a fronteira entre um e vários fica visível dentro de uma única frase — e visível na gramática, não em declarações de princípio.

O que se discute aqui não é se Labão era politeísta ou monoteísta. É se a frase dele permite distinguir uma coisa da outra. E a resposta honesta, exposta no item 3, é que não permite com segurança.

É exatamente a zona que Hume descreve: um espaço em que as categorias não se aplicam com limpeza porque a própria prática religiosa não as separava.

O contexto do capítulo acompanha. Labão fala de um sonho enviado por Deus, invoca o nome próprio do Deus de Israel, chama-o de testemunha do acordo — e, poucas horas antes, chamou de "meus deuses" um conjunto de imagens de que sentiu falta. Nada nisso é apresentado pelo texto como contradição, e é possível que não fosse contradição para ele.

Onde a aproximação não vale

E aqui é preciso frear com firmeza, porque o risco de forçar é grande.

O primeiro limite é de escala. Hume propõe um esquema de desenvolvimento para a religião humana inteira, construído a partir de leituras de historiadores antigos e de raciocínio de gabinete, sem trabalho de campo e sem material arqueológico. O esquema foi muito contestado, e a maior parte dos estudiosos hoje o trata como especulação de época, não como reconstrução histórica. Um versículo não confirma nem refuta uma tese desse porte, e usá-lo como prova seria exatamente o tipo de salto que este estudo procura evitar.

O segundo limite é de direção. A Bíblia conta a história ao contrário da de Hume: o Gênesis apresenta um chamado a Abraão que o tira de onde estava, e Josué 24:2 registra que a família servia a outros deuses antes disso. Na lógica do texto, o movimento não é de acúmulo para simplificação, e sim de saída — alguém é chamado para fora de um mundo. Não é possível decidir entre as duas descrições com os dados disponíveis, e é justo registrar que elas são incompatíveis.

O terceiro limite é de disposição. Hume escreve com hostilidade declarada à religião popular, que ele considera fruto de medo e de ignorância das causas. O Gênesis não está avaliando nada aqui — registra a fala de Labão sem elogio e sem condenação, e nem sequer comenta a fórmula que Jacó preferiu.

O quarto limite é o mais simples e o mais decisivo. O versículo não descreve um desenvolvimento: descreve um homem, num dia, dizendo uma frase. Não há aí nenhuma teoria sobre a origem da religião, e transformar um caso isolado em ilustração de um processo de séculos é precisamente o erro que a leitura cuidadosa deve barrar.

O que sobra

Sobra uma constatação modesta, e ela é do comentarista.

Hume ajuda a entender por que a pergunta deste versículo é tão difícil de responder: porque a exigência de distinguir claramente entre um deus e vários é uma exigência posterior, feita a um texto que talvez não a tivesse em mente ao registrar a fala.

Ele não ajuda a responder a pergunta, e não pretende. A ambiguidade continua no lugar em que estava, e a honestidade recomenda deixá-la lá.

7. Aplicações Práticas

Verificar se a palavra comum significa o mesmo

Duas pessoas usam o mesmo termo e supõem entendimento. Às vezes é verdade e às vezes não é.

Acontece com "respeito", "justiça", "compromisso", "família" — e acontece com "Deus". O caso deste versículo é apenas o mais antigo registrado.

A providência prática é pedir exemplo em vez de definição. Perguntar o que a pessoa faria numa situação concreta revela em poucos minutos o que a discussão sobre o conceito não revelaria em horas.

Não assinar embaixo da fórmula do outro

Jacó fecha o acordo sem repetir a frase do sogro. Não recusa o pacto, não discute a fórmula, não faz discurso: simplesmente jura com as próprias palavras.

Isso é aplicável em muitos ambientes. Aderir a um combinado não obriga a adotar o vocabulário de quem o propôs, e há situações em que aceitar a formulação alheia compromete mais do que o conteúdo do acordo.

O modo importa. Jacó não transformou a diferença em conflito — o que teria posto em risco tudo o que já estava construído.

Fazer acordos com quem não pensa como você

O pacto de Gileade é fechado entre duas pessoas que provavelmente não concordavam sobre o assunto mais importante da vida delas.

E funcionou. Cada uma jurou pelo que considerava sério, e as duas cumpriram.

É um argumento contra a exigência de acordo prévio de convicções antes de qualquer acerto prático — em negócios, em vizinhança, em política de condomínio, em família. O que precisa coincidir é o que foi combinado, não o que cada um crê.

Não classificar a fé alheia por uma frase

Comentaristas de várias épocas condenaram Labão a partir deste versículo, e o texto não fornece base suficiente para isso.

Vale a cautela em qualquer conversa sobre crença. As pessoas dizem coisas incoerentes sobre o que acreditam, e a incoerência de uma frase raramente descreve a vida inteira de alguém.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Afinal, Labão fala de um Deus ou de dois?

Não é possível decidir, e este estudo não decide.

Os argumentos dos dois lados estão no item 3. O da gramática é real, mas não conclui, porque o hebraico usa verbo no plural com a palavra Deus em passagens que se referem sem dúvida ao Deus de Israel. O do contexto favorece a leitura de dois, e o contexto não determina formas verbais.

Por que a tradução grega antiga traz o singular?

Porque os tradutores leram a frase como referência a um só, e traduziram de acordo.

Isso mostra como a passagem era entendida por judeus de língua grega a partir do século III a.C. É um dado importante e não é decisivo: tradutores tomam decisões, e uma decisão antiga continua sendo uma decisão.

Por que Jacó não jurou pela fórmula proposta?

O texto não explica.

Pode ter percebido a ambiguidade e recusado se comprometer sob ela; pode ter simplesmente jurado pelo nome que era o dele. As duas leituras explicam o dado, e nenhuma se impõe.

O que se pode afirmar é o fato: ele usou outra fórmula, e ela exclui Naor.

Isso significa que os patriarcas eram politeístas?

Não se pode afirmar isso a partir deste versículo, nem o contrário.

O que o texto fornece é limitado: uma frase ambígua na boca de Labão, o registro de Josué 24:2 sobre a família de Terá, e a existência de imagens domésticas na casa dele. Construir um quadro religioso completo a partir disso é ir muito além do material.

Por que Labão desaparece depois disto?

O texto não comenta. Ele beija os netos e as filhas no versículo 55, parte, e não é mencionado outra vez em nenhum livro da Bíblia.

É coerente com o acordo que acabou de firmar: a cláusula do versículo 52 previa exatamente que os dois não voltassem a se aproximar.

9. Conexão com Outros Textos

A religião da família antes do chamado

Josué 24:2 — "Além do rio habitaram antigamente os pais de vocês, Terá, pai de Abraão e pai de Naor; e serviram a outros deuses."

O texto decisivo para este versículo, e ele nomeia as mesmas três pessoas. É a própria Bíblia que registra a origem religiosa da família, sem rodeio.

Josué 24:14-15 — "Removam os deuses aos quais serviram os seus pais além do rio e no Egito, e sirvam ao SENHOR. E, se lhes parece mal servir ao SENHOR, escolham hoje a quem sirvam."

Os deuses de Labão

Gênesis 31:30 — "Por que furtaste os meus deuses?"

A pergunta de Labão a Jacó, poucas horas antes deste versículo, no plural e na primeira pessoa.

Verbo no plural com a palavra Deus

Gênesis 20:13 — "E aconteceu que, fazendo-me Deus sair errante da casa de meu pai, eu lhe disse..."

Na boca de Abraão, o verbo hebraico está no plural. É o contra-argumento mais forte para quem lê o plural deste versículo como sinal de politeísmo.

Gênesis 35:7 — "E edificou ali um altar, e chamou aquele lugar El-Betel, porquanto Deus ali se lhe tinha manifestado quando fugia da face de seu irmão."

Também com verbo no plural, e também sobre Jacó.

O Deus identificado por um antepassado

A fórmula completa, agora com os três nomes da linha escolhida — e sem Naor. É a mesma estrutura da frase de Labão, com outro conteúdo.

Gênesis 26:24 — "Eu sou o Deus de Abraão, teu pai; não temas, porque eu sou contigo."

Jurar, e por quem

Gênesis 24:3 — "para que eu te faça jurar pelo SENHOR, Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus."

Abraão exigindo juramento com fórmula precisa. Quem faz jurar escolhe o nome — e é justamente isso que Jacó não deixa Labão fazer.

Sofonias 1:5 — "e os que se prostram jurando ao SENHOR e jurando por Malcã."

A prática de jurar pelos dois ao mesmo tempo, condenada séculos depois. Vale como contraste: o que é reprovado ali é exatamente a mistura de fórmulas.

1 Reis 18:21 — "Até quando coxeareis entre dois pensamentos? Se o SENHOR é Deus, segui-o; e, se Baal, segui-o."

Elias exigindo a escolha que este versículo não faz. A distância entre os dois textos mede o quanto a questão mudou de tom ao longo do Antigo Testamento.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Que o Deus de Abraão e o Deus de Naor, o Deus do pai deles, julgue entre nós.” E Jacó jurou pelo Temor de Isaque, seu pai.

Texto hebraico

אֱלֹהֵי אַבְרָהָם וֵאלֹהֵי נָחוֹר יִשְׁפְּטוּ בֵינֵינוּ אֱלֹהֵי אֲבִיהֶם וַיִּשָּׁבַע יַעֲקֹב בְּפַחַד אָבִיו יִצְחָק׃

Transliteração

'Elohei Avraham we-'Elohei Nachor yishpetu veineinu, 'Elohei avihem; wayyishava' Ya'aqov be-fachad aviv Yitschaq.

Análise palavra por palavra

אֱלֹהֵי — 'Elohei, "Deus de". Forma ligada de Elohim.

Uma peculiaridade do hebraico está no centro da discussão deste versículo, e convém explicá-la antes de tudo.

A palavra Elohim tem forma gramaticalmente plural — a terminação é a mesma de qualquer plural masculino da língua. Mesmo assim, quando se refere ao Deus de Israel, ela leva verbo e adjetivo no singular. A primeira frase da Bíblia é o exemplo padrão: em Gênesis 1:1, Elohim é o sujeito e o verbo "criou" está no singular.

Essa combinação — sujeito de forma plural com verbo singular — é a marca do uso bíblico. A explicação corrente é que o plural aqui não conta unidades: ele indica plenitude, grandeza, totalidade, e há construções semelhantes em outras palavras do hebraico.

A mesma palavra, porém, serve para deuses no sentido comum, e aí é plural de verdade, com verbo no plural. É o que aparece no versículo 30 deste capítulo, quando Labão fala dos deuses furtados.

Ou seja: a forma da palavra não diz nada por si. Quem decide é o verbo que a acompanha — e é exatamente por isso que este versículo dá trabalho.

יִשְׁפְּטוּ — yishpetu, "julguem". Do verbo shafat, na forma Qal, terceira pessoa do plural.

Esta é a palavra em disputa, e a análise gramatical dela é direta: a terminação é a do plural masculino.

O verbo shafat significa julgar, mas com alcance maior do que a palavra portuguesa. Cobre também governar, administrar, defender a causa de alguém, fazer justiça a quem foi lesado. Dele vem shofet, o juiz, e o nome do livro de Juízes — cujos personagens eram governantes militares, não magistrados.

Aqui o sentido é o de arbitrar entre duas partes, e a construção com a preposição seguinte deixa isso claro.

Sobre o plural, o essencial já foi dito: ele é real no texto hebraico corrente, e não é decisivo. Gênesis 20:13 e Gênesis 35:7 trazem verbos no plural com Elohim em contextos que ninguém lê como politeístas — no primeiro caso, na boca do próprio Abraão. Quem usa a gramática deste versículo como prova precisa explicar aqueles.

A tradução grega antiga do Antigo Testamento traz o verbo no singular, o que registra como a frase era entendida por tradutores judeus a partir do século III a.C.

בֵינֵינוּ — veineinu, "entre nós".

A mesma preposição das fórmulas dos versículos 48 a 52, agora no plural de primeira pessoa: entre nós dois.

É a última aparição dela no capítulo, e ela fecha o conjunto. O monte estava entre os dois, a coluna estava entre os dois, Deus é testemunha entre os dois, e agora julga entre os dois.

אֱלֹהֵי אֲבִיהֶם — 'Elohei avihem, "o Deus do pai deles".

O sufixo é de terceira pessoa do plural — "deles" —, referindo-se a Abraão e Naor. O pai dos dois é Terá.

A frase vem depois do verbo, o que em português soa deslocado e em hebraico funciona como acréscimo explicativo: julguem entre nós — o Deus do pai deles.

Este trecho não consta da tradução grega antiga nem de parte da tradição manuscrita hebraica, e é considerado acréscimo posterior por vários estudiosos. As implicações disso estão no item 3.

וַיִּשָּׁבַע — wayyishava', "e jurou". Do verbo shava', na forma Niphal, a passiva e reflexiva do hebraico.

O verbo tem uma origem curiosa e bem estabelecida: ele se liga à raiz do número sete. Jurar, em hebraico, é literalmente algo como "seter-se" — e a explicação mais aceita associa isso à prática de confirmar um juramento com sete objetos, sete animais ou a repetição sete vezes.

O Gênesis oferece o caso que sustenta essa ligação. Em Gênesis 21:28-31, Abraão separa sete cordeiras como prova de um juramento, e o lugar recebe o nome de Berseba — que pode significar tanto "poço do juramento" quanto "poço dos sete".

A forma Niphal, aqui, indica que o sujeito se coloca sob a obrigação: quem jura vincula a si mesmo.

בְּפַחַד אָבִיו יִצְחָק — be-fachad aviv Yitschaq, "pelo Temor de seu pai Isaque".

A preposição inicial é a que introduz aquilo por que se jura, e aparece com a mesma função em Gênesis 24:3.

O título divino usado aqui só existe neste capítulo, nos versículos 42 e 53, e o que se discute a respeito dele foi tratado no versículo 42. Este estudo não reabre o assunto.

O que interessa neste ponto é apenas a composição da fórmula, e ela é simples de descrever: um único antepassado, o pai imediato de quem jura, sem menção a Abraão, sem menção a Terá e sem menção a Naor. É a fórmula mais estreita possível — e é a resposta de Jacó à fórmula mais larga que Labão acabara de propor.

11. Conclusão

Do versículo decorrem três conclusões, e a primeira delas é a de que não há conclusão.

A primeira: a frase de Labão é ambígua no original, e a ambiguidade não se resolve. A gramática favorece a leitura de dois deuses, com o verbo no plural; mas o hebraico usa esse mesmo plural em passagens que se referem sem dúvida ao Deus de Israel, inclusive na boca de Abraão. A tradução grega antiga leu singular; a frase "o Deus do pai deles" aponta para unidade, e a origem dela é discutida. Cada lado tem argumento sério e nenhum tem prova. Não é possível decidir com o material disponível, e apresentar uma das leituras como certa seria falsear o estado da questão.

A segunda: o que se pode afirmar com segurança é menor e ainda assim considerável. O texto conserva uma fórmula que permite as duas leituras, num capítulo que já registrou Labão chamando de "meus deuses" um conjunto de imagens, e num livro cujo próprio cânon afirma, em Josué 24:2, que a família de Terá servia a outros deuses. O quadro é de fronteiras religiosas menos nítidas do que a leitura devocional costuma supor — e é o próprio texto que o fornece.

A terceira decorre do que o versículo faz, e não do que discute. Labão propôs uma fórmula e Jacó não a repetiu. Jurou por um nome que exclui Naor, exclui Terá e não vai além do próprio pai. Se isso foi cautela deliberada ou apenas o hábito de jurar pelo que é seu, o Gênesis não informa — mas a escolha está registrada, e ela é o dado mais concreto do versículo.

Fica, no fecho do acordo, a mesma figura que apareceu na nomeação do monte, no versículo 47: duas partes selando exatamente o mesmo compromisso, cada uma nos próprios termos, sem que nenhuma exija da outra que adote os seus. É assim que este pacto foi construído do começo ao fim, e é assim que ele se encerra.

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Gênesis 31:53

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