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Mateus 18:22

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 12 min de leitura·👁 38 acessos
Jesus respondeu: “Eu não digo a você até sete, mas até setenta vezes sete.
Jesus sentado numa casa de Cafarnaum, respondendo a Pedro com a mão aberta, enquanto os outros discípulos escutam em volta.

Estudo


Jesus respondeu: “Eu não digo a você até sete, mas até setenta vezes sete.

1. Introdução

Pedro propôs sete. Jesus recusa o número e responde com outro: "setenta vezes sete".

O grego da frase pode querer dizer 490 ou 77, e não há como decidir. Em qualquer das duas contas, o número passa do ponto em que alguém consegue contar as vezes que perdoou o mesmo irmão. A frase também devolve, pelo avesso, a conta de vingança de Lameque, em Gênesis 4:24.

2. Contexto Histórico e Cultural

Como a frase foi lida: 490 ou 77

A tradição de leitura se dividiu desde cedo, e a divisão chegou às traduções de hoje.

Agostinho (bispo de Hipona, no norte da África, morto em 430) leu 77. No Sermão 83, ele liga o número à genealogia de Jesus em Lucas 3:23-38, que conta setenta e sete gerações de Jesus até Deus, passando por Adão. Para ele, o número abrangia todas as gerações da humanidade, e portanto todos os pecados. A ligação é engenhosa e é dele; o texto de Mateus não a sugere.

A tradição das Bíblias protestantes clássicas leu 490. A King James (a tradução inglesa de 1611) diz "setenta vezes sete", e a Almeida, a tradução portuguesa mais antiga, diz o mesmo. É também a forma que ficou no português falado: "perdoar setenta vezes sete".

Boa parte das traduções inglesas modernas voltou a 77 ("seventy-seven times"), por causa da Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, anterior a Cristo), que usa exatamente a mesma expressão grega para traduzir o "setenta e sete" de Lameque. O argumento está no item 10.

A ABC mantém "setenta vezes sete", que é a leitura ao pé da letra do grego, e deixa a ambiguidade para o estudo.

O 490 como número de libertação

Há um dado que dá peso à leitura de 490, e ele vem do tempo de Jesus.

A Lei previa, a cada sete anos, o perdão das dívidas entre israelitas (Deuteronômio 15:1-2), e a cada sete vezes sete anos, o jubileu, em que a terra voltava à família e os escravos por dívida eram soltos (Levítico 25:10). O livro de Daniel conta o tempo até o fim do pecado em "setenta semanas" de anos: setenta vezes sete (Daniel 9:24).

Um texto de Qumran (a comunidade do mar Morto, com escritos dos séculos II a.C. a I d.C.) junta essas peças. O chamado 11Q13, ou Rolo de Melquisedeque, anuncia para o fim dos tempos uma grande "libertação", citando justamente o perdão das dívidas de Deuteronômio 15:2 e o jubileu de Levítico 25. E situa essa libertação no fim do décimo jubileu: dez vezes quarenta e nove anos, 490.

Ou seja: no judaísmo do tempo de Jesus, 490 era um número pensável como o tempo de um perdão completo, e de um perdão descrito como perdão de dívidas. A parábola que começa no versículo 23 é sobre uma dívida perdoada. Se Jesus tinha esse cálculo em mente, o texto não diz. É uma leitura possível, não uma prova de que a conta certa seja 490.

3. Análise Teológica do Versículo

"Jesus respondeu: 'Eu não digo a você até sete'"

A resposta começa por uma recusa. Jesus repete as palavras de Pedro, "até sete", e as nega.

O "Eu não digo a você" tem o tom de quem corrige. É o mesmo movimento das frases do Sermão da Montanha, "vocês ouviram que foi dito… eu, porém, digo a vocês" (Mateus 5:21-44): Jesus cita a medida conhecida e põe a sua no lugar.

O que é recusado é o número de Pedro, e com ele a ideia de que a pergunta tinha uma resposta numérica razoável.

"mas até setenta vezes sete"

Quantas vezes, afinal: 77 ou 490? O grego admite as duas contas (ver o item 10). Há duas leituras, e cada uma traz consigo um eco diferente.

Primeira leitura: 77 vezes, e a resposta é o avesso de Lameque. Em Gênesis 4:24, Lameque se gaba de que será vingado setenta e sete vezes, onde Caim era vingado sete. Pedro diz sete; Jesus diz setenta e sete. Os dois números são os mesmos do canto de Lameque, na mesma ordem. Nessa leitura, a resposta pega a medida da vingança sem limite e a transforma na medida do perdão.

Segunda leitura: 490 vezes, e a resposta é um número fora de qualquer conta. Setenta vezes sete é o número de Daniel 9:24 e dos dez jubileus (ver o item 2). Nessa leitura, o eco é o do tempo completo de libertação, e a resposta combina com a parábola de dívida perdoada que vem logo depois.

Não é possível decidir. As duas leituras são antigas, as duas se apoiam no grego, e os dois ecos são reais. O que o texto garante é o que as duas têm em comum.

O que muda em qualquer das duas contas

Setenta e sete ou quatrocentos e noventa: ninguém perdoa o mesmo irmão tantas vezes e continua contando. Quem chegou à septuagésima ofensa perdoada e anotou todas as anteriores não perdoou nenhuma — só adiou a cobrança.

Por isso a resposta não funciona como um teto mais alto. Um teto de 490 seria só uma versão mais paciente da proposta de Pedro. Jesus usa um número, mas o número serve para tornar a conta inútil.

Há um detalhe que confirma a leitura. Jesus mantém a palavra "até". Formalmente, ainda há um limite. Mas é um limite que nenhuma convivência real alcança, e é por isso que ele pode ser dito: o exagero é o recurso, como em "a trave no seu olho" (Mateus 7:3) ou no camelo que passa pelo fundo da agulha (Mateus 19:24).

O que a resposta não diz

Ela não fala do arrependimento do irmão, como a pergunta de Pedro também não falava. Ela não diz o que é perdoar: se é esquecer, voltar a confiar, desistir de cobrar ou deixar de sentir raiva. E não suspende o que Jesus acabou de ensinar nos versículos 15 a 17, sobre corrigir quem erra, a sós e depois diante de outros. No capítulo, a correção e o perdão estão lado a lado, e o texto não mostra como os dois se combinam na prática.

O que Jesus faz em seguida é contar uma história. O "Por isso" do versículo 23 mostra que a parábola é a explicação da resposta.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jesus

Responde a Pedro na mesma conversa, em Cafarnaum, e prolonga a resposta com a parábola dos versículos 23 a 35. É a última parábola do discurso do capítulo 18.

Pedro

O discípulo que propôs sete vezes, no versículo anterior. Ele não volta a falar até o fim do capítulo.

Lameque

Personagem de Gênesis 4, descendente de Caim, que se gaba de uma vingança "setenta e sete vezes" maior que a de Caim. Não é citado pelo nome no versículo; está presente pelo número. Quem ele é e o que o seu canto significa estão no estudo de Gênesis 4:24.

5. Pontos de Ensino

O perdão não é administrado por quota

Jesus recusa o sete de Pedro e responde com um número que ninguém consegue contar na convivência real.

O grego deixa a conta em aberto

77 ou 490: o texto admite as duas, e o sentido da resposta não depende da escolha.

O perdão sem limite convive, no capítulo, com a correção

Os versículos 15 a 17 não são revogados. O texto não explica como os dois se ajustam.

6. Aspectos Filosóficos

O perdão tem condições, ou não tem limite?

O filósofo norte-americano Charles Griswold, no livro Forgiveness: A Philosophical Exploration ("Perdão: uma exploração filosófica", 2007), defende que o perdão pleno entre pessoas tem condições. O ofensor precisa reconhecer que foi ele, repudiar o que fez, mostrar que entende o mal que causou, arrepender-se e comprometer-se a mudar. Sem isso, diz Griswold, o que acontece pode ser algo valioso — desistir da raiva, deixar para lá —, mas não é perdão no sentido completo. O perdão sem condições, para ele, corre o risco de virar tolerância com o mal.

O modelo dele tem uma consequência direta para este versículo. Quem promete mudar e repete a mesma ofensa pela sétima vez enfraquece a própria promessa. Na lógica de Griswold, a repetição é justamente o que torna o perdão cada vez mais difícil de justificar. Pedro, com o seu "até sete", está mais perto de Griswold do que de Jesus.

A resposta de Jesus, em Mateus, não menciona nenhuma das condições. Não fala de arrependimento, de reparação ou de promessa. Só fala de quantas vezes. Lida ao lado de Griswold, ela fica mais dura: ou o perdão que Jesus pede é outra coisa que não o perdão pleno do filósofo, ou as condições estão subentendidas, como estão em Lucas 17:4. O versículo não decide entre as duas, e as duas leituras têm defensores.

7. Aplicações Práticas

Parar de contar

A resposta tem uma aplicação bem concreta: a conta das ofensas antigas. Quem, numa briga com o cônjuge, o irmão ou o sócio, puxa a lista de tudo o que já perdoou mostra que a lista estava guardada. O versículo não pede que se esqueça o que aconteceu. Pede que o perdão de ontem não vire munição hoje.

Perdoar não é deixar de corrigir

O mesmo capítulo manda conversar com quem erra, a sós e depois com testemunhas (Mateus 18:15-17). Perdoar setenta vezes sete não obriga ninguém a fingir que a ofensa não existiu, nem a ficar calado diante dela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Na ofensa número 491, o perdão acaba?

Ninguém lê assim, e a própria forma da frase impede: se fosse para contar até 490, a conta de Pedro teria só ficado maior. Mas o texto usa um número, e não "sempre". A escolha de um número exagerado, no lugar da palavra "sempre", é parte do efeito.

Perdoar sempre significa aceitar tudo?

O versículo não diz. Ele trata do perdão ao irmão que peca contra você, e não trata de proteção contra quem faz mal de forma continuada, nem de consequências legais. Transformar a frase em regra para todas essas situações é ir além do que ela diz.

9. Conexão com Outros Textos

A conta de Lameque

Gênesis 4:24 — "Se Caim será vingado sete vezes, Lameque o será setenta e sete vezes."

Os mesmos dois números, sete e setenta e sete, na boca de quem se vinga.

O paralelo em Lucas

Lucas 17:4 — "E se pecar contra ti sete vezes ao dia, e se sete vezes ao dia voltar a ti, dizendo: Estou arrependido. Perdoa-lhe."

Em Lucas, o número é sete por dia, e o arrependimento está na frase.

Setenta vezes sete como tempo de libertação

Daniel 9:24 — "Setenta semanas estão determinadas sobre teu povo e sobre tua santa cidade, para acabar a transgressão, para encerrar o pecado, para expiar a maldade, e para trazer a justiça eterna; para selar a visão e a profecia, e para ungir o Santo dos santos"

Levítico 25:10 — "E santificareis o ano cinquenta, e apregoareis liberdade na terra a todos os seus moradores: este vos será jubileu; e voltareis cada um à sua possessão, e cada qual voltará à sua família."

O perdão recebido e o perdão dado

Mateus 6:14 — "Porque, se vocês perdoarem às pessoas as suas ofensas, também o seu Pai celestial perdoará a vocês;"

Colossenses 3:13 — "Suportai-vos uns aos outros, e perdoai-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro. Como o Senhor vos perdoou, assim também fazei."

10. Original Grego e Análise

Texto em português

Jesus respondeu: “Eu não digo a você até sete, mas até setenta vezes sete.

Texto grego (Textus Receptus)

λέγει αὐτῷ ὁ Ἰησοῦς, Οὐ λέγω σοι ἕως ἑπτάκις, ἀλλ’ ἕως ἑβδομηκοντάκις ἑπτά.

Transliteração

legei autō ho Iēsous, Ou legō soi heōs heptakis, all’ heōs hebdomēkontakis hepta.

Diferenças entre manuscritos

Nenhuma que mude o sentido. O Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) e os manuscritos mais antigos trazem as mesmas palavras.

Análise palavra por palavra

λέγει αὐτῷ ὁ Ἰησοῦς — legei autō ho Iēsous, "diz-lhe Jesus". Presente de legō, "dizer", usado para narrar uma fala passada. O recurso é comum em Mateus e dá à resposta um tom imediato.

Οὐ λέγω σοι — ou legō soi, "não digo a você". O mesmo verbo, agora na boca de Jesus e negado. O singular "a você" responde a Pedro, não ao grupo.

ἕως ἑπτάκις — heōs heptakis, "até sete vezes". Repetição exata das duas palavras finais de Pedro no versículo 21.

ἀλλ’ — all’, "mas". Forma abreviada de alla, a conjunção que corrige o que foi dito antes: "não isto, mas aquilo".

ἕως ἑβδομηκοντάκις ἑπτά — heōs hebdomēkontakis hepta, "até setenta vezes sete".

A expressão tem duas palavras de número, e é daí que vem a ambiguidade. Hebdomēkontakis é um advérbio, "setenta vezes", com o mesmo sufixo -akis de heptakis. Hepta é o número "sete", sem sufixo nenhum.

Lida pela gramática comum, a frase multiplica: "setenta vezes o sete", 490. Se Jesus quisesse dizer 77, o esperado seria outra forma, como um advérbio único para "setenta e sete vezes", ou os dois números com o sufixo das vezes.

Só que a Septuaginta (a tradução grega do Antigo Testamento, feita antes de Cristo) usa exatamente estas duas palavras, hebdomēkontakis hepta, em Gênesis 4:24. E ali o hebraico não deixa dúvida: shiv'im veshiv'ah, "setenta e sete". Ou seja, havia pelo menos um uso conhecido, e dentro da Bíblia grega, em que a expressão queria dizer 77.

Os dois argumentos são fortes, e é por isso que o assunto é discutido até hoje. A gramática puxa para 490; o precedente da Septuaginta puxa para 77, e com o reforço de que o par "sete / setenta e sete" é o mesmo de Gênesis 4:24. As gramáticas de referência do grego do Novo Testamento registram as duas possibilidades. Não há consenso.

Também não ajuda voltar ao que Jesus teria dito em aramaico. Se a fala foi em aramaico, o original não sobreviveu; o que temos é o grego de Mateus, e é nele que a ambiguidade está.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A resposta não aumenta o teto de Pedro; ela tira a utilidade da conta. Com 77 ou com 490, o número passa do ponto em que se consegue perdoar e continuar anotando.

A ambiguidade do número é real e não precisa ser resolvida para a frase funcionar. Uma leitura ouve Lameque ao contrário; a outra ouve o tempo completo da libertação. As duas cabem no grego e no resto da Bíblia.

O versículo deixa sem resposta o que é perdoar. Não diz se exige arrependimento, nem como convive com a correção do irmão. Para isso, Jesus não dá uma definição: conta uma história, a partir do versículo 23.

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