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Mateus 5:21

✍️ Por Alberto Adriano·3 de agosto de 2025·⏱️ 12 min de leitura·👁 828 acessos
Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: “Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento”.
Tábuas dos Dez Mandamentos com o sexto mandamento em foco, ilustrando Mateus 5:21

Estudo


Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. 

1. Introdução

Aqui começa a primeira das seis "antíteses" do Sermão do Monte — aquelas frases construídas no padrão "ouvistes que foi dito... mas eu vos digo". Jesus toma o sexto mandamento, "não matarás", e o usa como ponto de partida para mostrar, na prática, o que significa a "justiça maior" que ele havia exigido no versículo 20. Este primeiro versículo apresenta o lado "ouvistes que foi dito"; o versículo seguinte trará o "eu porém vos digo".

O mandamento citado é conhecido de todos: não cometer homicídio, sob pena de julgamento. Ninguém discordaria. O ponto de Jesus não será negar isso, mas ir além da letra até a raiz — mostrar que o homicídio começa muito antes da mão que mata, no coração que despreza. Antes de reinterpretar, porém, ele recita fielmente aquilo que o povo já ouvira. É importante notar: ele parte da Lei, não contra ela.

2. Contexto Histórico e Cultural

A fórmula "ouvistes que foi dito aos antigos" merece atenção. "Os antigos" são as gerações de Israel que receberam a Lei por meio de Moisés. O verbo "ouvistes" aponta para a cultura oral da época: a maioria do povo não lia a Lei diretamente, mas a ouvia lida e interpretada nas sinagogas pelos escribas e mestres. Jesus, portanto, não cita apenas o texto bíblico, mas também o modo como ele era transmitido e ensinado.

O mandamento "não matarás" é o sexto do Decálogo, registrado em Êxodo 20:13 e Deuteronômio 5:17. Ele proíbe tirar ilegitimamente a vida humana, e o seu fundamento está na dignidade do ser humano, feito à imagem de Deus (Gênesis 1:27; 9:6). No Israel antigo, o homicídio era crime capital, julgado pelos tribunais locais e pela comunidade, conforme prescrições detalhadas na própria Lei (por exemplo, Números 35). "Será réu do julgamento" ecoa essa realidade jurídica concreta.

Há uma sutileza no que Jesus recita. O mandamento original diz "não matarás" e o julgamento correspondente. Mas a tradição, ao repetir o preceito, tendia a reduzi-lo ao ato consumado: enquanto você não matasse de fato, estaria cumprindo o mandamento. É contra essa leitura minimalista — a que se contenta em não cometer o crime externo — que Jesus vai reagir no versículo seguinte, recolocando o mandamento no seu alcance pleno.

3. Análise Teológica do Versículo

"Ouvistes o que foi dito aos antigos"

A abertura indica que Jesus se dirige ao entendimento corrente da Lei, tal como era ensinado pelas autoridades religiosas. A referência aos "antigos" aponta para os antepassados de Israel, que receberam a lei de Deus por meio de Moisés, e situa o contexto histórico. A frase evoca a tradição oral que predominava na cultura judaica, na qual escribas e fariseus interpretavam e transmitiam os mandamentos ao longo das gerações.

"Não cometerás homicídio"

É o sexto dos Dez Mandamentos, registrado em Êxodo 20:13 e Deuteronômio 5:17. Constitui uma lei moral fundamental que proíbe tirar ilegitimamente a vida humana. A proibição ressalta a santidade da vida, fundada na crença de que o ser humano traz a imagem de Deus (Gênesis 1:27). É um padrão moral universal que reflete a justiça e a retidão de Deus.

"qualquer um que cometer homicídio será réu do julgamento"

Este trecho reflete as consequências legais sob a Lei de Moisés, em que o homicídio era crime capital. No antigo Israel, o culpado enfrentava julgamento por meio da comunidade ou dos tribunais locais (Números 35:30-31). A consequência representava tanto a responsabilidade legal quanto o mandato divino, já que Deus atua como juiz último das ações humanas. Jesus usa isso para introduzir um entendimento mais profundo da justiça, que ultrapassa o mero cumprimento legal.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Jesus Cristo — aquele que fala neste versículo, pregando o Sermão do Monte, um momento decisivo do seu ministério.

Os antigos — o povo de Israel que recebeu a Lei por meio de Moisés, representando o contexto histórico dos mandamentos do Antigo Testamento.

Lugares

O Sermão do Monte — o cenário em que Jesus expõe a Lei, acentuando o espírito, e não apenas a letra, dos mandamentos.

Eventos

A Lei de Moisés — o contexto original do mandamento "não matarás", parte dos Dez Mandamentos.

O julgamento — a consequência prevista para quem comete homicídio, indicando responsabilidade tanto terrena quanto diante de Deus.

5. Pontos de Ensino

O coração da Lei

Jesus ressalta que a Lei não trata apenas das ações externas, mas da condição interior do coração.

Ira e ódio

Essas emoções são a semente do homicídio. Os cristãos são chamados a tratar dessas questões do coração antes que se manifestem em ações destrutivas.

Responsabilidade

O julgamento terreno e o divino são reais. O crente deve viver ciente da sua responsabilidade diante de Deus e das pessoas.

Transformação por Cristo

Só por meio de Cristo o crente cumpre de fato a Lei, pois é ele quem transforma o coração e a mente para alinhá-los à vontade de Deus.

Pacificação

Como seguidores de Cristo, somos chamados a ser pacificadores, trabalhando ativamente para resolver conflitos e promover a reconciliação.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo introduz uma pergunta que a ética discute até hoje: uma lei deve punir apenas o ato consumado, ou também aquilo que o gera? O direito humano, por necessidade prática, costuma julgar o ato — não é possível prender alguém pelo que sente. Jesus, porém, não está montando um código penal; está revelando a vontade de Deus, que alcança o interior. Ao recitar "não matarás... será réu do julgamento", ele expõe o limite da leitura que para no crime externo e prepara o salto para a raiz.

Há aqui um princípio moral profundo: o ato exterior é a ponta de um processo interior. Ninguém mata sem antes desprezar, odiar, desumanizar o outro no coração. A tradição se contentava em julgar o resultado; Jesus vai apontar para a causa. Com grau razoável de certeza, esse é o sentido da antítese que se inicia: não abolir o mandamento, mas segui-lo até a sua origem, onde a lei humana não alcança, mas a de Deus sim.

Por fim, a fórmula "ouvistes que foi dito... eu porém vos digo" — que começa aqui — levanta a questão da autoridade. Jesus não diz "Moisés errou" nem "a Lei está superada". Ele coloca a sua palavra ao lado da Lei como quem tem autoridade para declarar o sentido pleno dela. Isso é filosoficamente notável: o intérprete se apresenta como aquele que conhece a intenção original do Legislador.

7. Aplicações Práticas

Não se contentar em "não fazer o pior". É fácil se achar justo por nunca ter matado ninguém. O versículo, à luz do que vem a seguir, convida a olhar mais fundo: a fidelidade a Deus não se mede só pelos crimes que evitamos.

Levar a sério a vida humana. O mandamento se funda na dignidade de cada pessoa como imagem de Deus. Isso muda o modo de tratar os outros muito antes de qualquer violência física.

Ler a Lei pela intenção, não só pela letra. Jesus mostra que cumprir um mandamento é honrar aquilo que Deus quis com ele, e não apenas escapar da sua punição por um triz.

Reconhecer a responsabilidade diante de Deus. Além dos tribunais humanos, há um juízo que alcança o que ninguém vê. Viver ciente disso dá seriedade às atitudes íntimas, e não só às públicas.

Preparar o coração para o que vem. Este versículo é a rampa para o versículo 22. Antes mesmo de ouvir sobre a ira, vale perguntar: onde, no meu interior, já mora o desprezo que Deus condena?

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Qual é o significado de Mateus 5:21?

É a primeira parte de uma antítese: Jesus recita fielmente o mandamento "não matarás" e o julgamento a ele ligado, para em seguida (versículo 22) mostrar que a vontade de Deus vai além do ato, alcançando a raiz que produz o homicídio.

2. Como o versículo aprofunda o mandamento "não matarás"?

Ele ainda não aprofunda; prepara o aprofundamento. Ao citar a leitura corrente, que parava no ato consumado, Jesus arma o contraste para revelar, logo depois, que a ira e o desprezo já ferem o mandamento no coração.

3. Que atitudes Jesus passará a abordar além do ato físico de matar?

A ira contra o irmão e o insulto que o despreza. O versículo 22 mostrará que essas atitudes interiores já colocam a pessoa sob juízo, porque são a semente da qual o homicídio brota.

4. Como o versículo pode nos guiar a lidar com a ira de modo bíblico?

Ensinando a tratar o problema na raiz. Se o homicídio começa no coração, então a paz também começa ali: reconhecendo e desarmando o desprezo antes que ele cresça.

5. Que conexões com o Antigo Testamento aparecem aqui?

O mandamento vem de Êxodo 20:13 e Deuteronômio 5:17, e o seu fundamento remonta a Gênesis 9:6 — a vida humana é sagrada porque o homem é imagem de Deus. Jesus não inventa uma regra nova; aprofunda uma antiga.

6. Como isso deve influenciar as nossas relações e a resolução de conflitos?

Levando-nos a agir antes que o ressentimento vire ruptura. Se Deus se importa com o coração, cuidar das relações é cuidar de algo que a ele diz respeito, e não um detalhe menor.

7. O que o versículo revela sobre o modo de Jesus interpretar a Lei?

Que ele parte da Lei, e não contra ela: recita o mandamento com fidelidade antes de expor o seu alcance pleno. A sua interpretação vai da letra à intenção, sem abolir a letra.

8. Como o versículo desafia o entendimento tradicional do homicídio?

Ao preparar a ideia de que não matar com as mãos não basta. O desafio, completado no versículo seguinte, é que o homicídio tem uma história interior que o mandamento também alcança.

9. Por que Jesus cita justamente "não matarás"?

Porque é o mandamento que todos julgam cumprir com facilidade — afinal, poucos matam. Justamente por isso ele serve para mostrar que a justiça de Deus vai mais fundo do que a consciência tranquila supõe.

9. Conexão com Outros Textos

"Não cometerás homicídio." (Êxodo 20:13)

É o próprio mandamento que Jesus cita, o sexto do Decálogo. Ele parte deste texto para revelar o seu alcance mais profundo.

"Não cometerás homicídio." (Deuteronômio 5:17)

A repetição do mandamento na segunda entrega da Lei confirma o seu peso e mostra que Jesus recita algo firmemente estabelecido em Israel.

"O que derramar sangue humano, pelo ser humano seu sangue será derramado; porque à imagem de Deus o ser humano foi feito." (Gênesis 9:6)

Aqui está o fundamento do mandamento: a vida humana é sagrada porque o homem é imagem de Deus. Matar é atentar contra algo que reflete o próprio Criador.

"Todo aquele que odeia o seu irmão é homicida. E sabeis que nenhum homicida tem a vida eterna habitando nele." (1 João 3:15)

João leva adiante o exato movimento de Jesus: liga o ódio interior ao homicídio, mostrando que a raiz e o ato são, aos olhos de Deus, da mesma família.

"Porque aquele que disse: 'Não cometerás adultério', também disse: 'Não matarás'..." (Tiago 2:11)

Tiago trata o mandamento como parte de uma Lei única e indivisível, na mesma linha em que Jesus o toma como palavra permanente de Deus.

10. Original Grego e Análise

Texto em português: Vocês ouviram o que foi dito aos antigos: “Não matarás; e quem matar estará sujeito a julgamento”.

Texto grego: Ἠκούσατε ὅτι ἐρρέθη τοῖς ἀρχαίοις Οὐ φονεύσεις· ὃς δ' ἂν φονεύσῃ ἔνοχος ἔσται τῇ κρίσει.

Transliteração: Ēkousate hoti errethē tois archaiois Ou phoneuseis· hos d' an phoneusē enochos estai tē krisei.

Análise palavra por palavra:

  • Ēkousate (ouvistes): remete à cultura oral. O povo não lia, mas ouvia a Lei lida e interpretada. Jesus dialoga com o que foi ensinado, não só com o que está escrito.
  • errethē tois archaiois (foi dito aos antigos): archaios, "antigo", designa as gerações que receberam a Lei em Moisés. Marca a distância entre o mandamento original e a leitura corrente dele.
  • Ou phoneuseis (não matarás): o verbo phoneuō designa especificamente o assassinato, o homicídio ilegítimo, e não todo tirar de vida. É a citação exata do Decálogo grego.
  • enochos estai (será réu, culpado): enochos é termo jurídico — "sujeito a", "passível de". A pessoa fica submetida à sanção prevista.
  • tē krisei (ao julgamento): krisis é o juízo, o tribunal. No contexto, o tribunal local que julgava os casos de sangue no Israel antigo.

Nota teológica: o verbo phoneuō ("assassinar") é preciso e importa para uma leitura honesta: o mandamento proíbe o homicídio ilegítimo, e não afirma, por si, um pacifismo absoluto que resolvesse questões como guerra ou legítima defesa — temas que a Escritura trata em outros lugares. Com grau razoável de certeza, o ponto de Jesus aqui não é ampliar a lista de casos proibidos, mas, no versículo seguinte, levar o mandamento à sua raiz interior. Este versículo é a metade "ouvistes que foi dito" da antítese; ele recita a Lei com fidelidade e, sem negá-la, prepara o "eu porém vos digo" que revelará que a vontade de Deus alcança o coração de onde o homicídio nasce.

11. Conclusão

Mateus 5:21 abre a primeira das grandes antíteses do Sermão do Monte. Jesus toma o mais indiscutível dos mandamentos — "não matarás" — e o recita com fidelidade, junto com o julgamento que a Lei previa. Ainda não há novidade aqui; há a preparação de uma.

Vimos que o versículo dialoga com a leitura corrente da Lei, aquela que se contentava em evitar o ato externo, e que a fórmula "ouvistes que foi dito" arma o contraste com o "eu porém vos digo" que virá. Fomos honestos ao notar que Jesus parte da Lei, e não contra ela: recita antes de aprofundar, honra antes de intensificar.

Fica a expectativa criada pelo próprio texto. Se até o mandamento que todos julgam cumprir será mostrado em toda a sua profundidade, então a justiça maior anunciada no versículo 20 vai alcançar territórios que a consciência tranquila costuma ignorar — a começar, no versículo seguinte, pela ira do coração.

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