Por isso o Reino dos céus é como um rei que resolveu acertar as contas com os seus escravos.
1. Introdução
Para explicar o "setenta vezes sete", Jesus conta uma história. Começa com um rei que resolve acertar as contas com os seus escravos.
O "Por isso" amarra a parábola à resposta dada a Pedro. Os "escravos" de um rei, no mundo antigo, podiam ser os seus maiores administradores. E a comparação é com o Reino dos céus, não com o rei: o que se compara é a história inteira.
2. Contexto Histórico e Cultural
Os "escravos" de um rei
Quando um rei antigo acertava contas com os seus escravos, não estava conferindo o trabalho de copeiros e cozinheiros. Estava chamando os homens que administravam o seu dinheiro.
No Império Persa, os governadores de província, os sátrapas, eram chamados nas inscrições reais de "servos" do rei. Na inscrição de Behistun, gravada numa rocha do Irã por ordem de Dario I, por volta de 520 a.C., o rei chama assim os generais e governadores que agiam em seu nome. O título não diminuía ninguém: dizia de quem era a autoridade.
Em Roma, no tempo de Jesus, a casa do imperador fazia o mesmo com escravos de fato. As finanças do imperador eram tocadas em boa parte por escravos e libertos da sua casa, a familia Caesaris ("a casa de César", o conjunto de escravos e ex-escravos do imperador). Alguns desses escravos administravam somas enormes e tinham, eles próprios, escravos sob o seu comando.
Os ouvintes da parábola, na Galileia, conheciam o modelo de perto. Herodes, o Grande, e os seus filhos governavam com homens da casa: administradores, cobradores, intendentes das terras reais. Ser "escravo do rei" podia querer dizer estar muito acima da gente comum. O versículo 24 mostra o tamanho da conta que um desses homens podia ter.
O uso da mesma palavra para o ministro e para o escravo de verdade não é só grego: o hebraico faz igual, como está no estudo de Êxodo 9:20, item 2.
"Acertar as contas"
A expressão grega do versículo pertence ao vocabulário do comércio e da administração. Ela aparece em papiros do Egito romano, em cartas e recibos, para o fechamento de contas entre um patrão e quem cuidava dos seus bens. O teólogo alemão Adolf Deissmann, que no começo do século XX comparou o grego do Novo Testamento com o dos papiros, apontou a expressão entre os casos em que os evangelhos falam a língua do escritório, e não a dos livros.
No Novo Testamento, só Mateus a usa: aqui, no versículo seguinte, e na parábola dos talentos, em Mateus 25:19.
3. Análise Teológica do Versículo
"Por isso"
A parábola não começa do nada. Ela é a continuação da resposta a Pedro. O "setenta vezes sete" do versículo 22 disse quantas vezes perdoar; a história vai dizer por quê.
O "Por isso" também avisa que a parábola deve ser lida inteira, até o versículo 35. Quem tira dela só o rei que perdoa, ou só o escravo que não perdoa, perde a ligação com a pergunta de Pedro.
"o Reino dos céus é como um rei"
É a fórmula de Mateus para abrir parábola: "o Reino dos céus é como…". A comparação não é com uma pessoa, e sim com o que acontece na história. O Reino é como tudo o que se passa entre este rei, este escravo e o companheiro dele.
Isso é importante para não alegorizar cada detalhe. O rei da parábola manda vender uma família (versículo 25), perdoa (versículo 27), volta atrás e entrega o escravo aos torturadores (versículo 34). Ler Deus em cada um desses gestos leva a conclusões que o próprio texto não tira. No fim, Jesus aplica a história com "assim também o meu Pai" (versículo 35), e é ali, e só ali, que a comparação com Deus é feita por ele.
Um rei como personagem também dá o tom. Os ouvintes não tinham como ver um rei por dentro, mas sabiam o que um rei podia fazer: cobrar, prender, vender, soltar. A história se passa num mundo em que um homem tem poder total sobre a vida de outros.
"que resolveu acertar as contas"
A iniciativa é do rei. Ninguém vem reclamar, ninguém denuncia ninguém. Ele "resolveu" — o grego diz "quis" — e as contas vão ser acertadas.
Acertar contas supõe que as contas estavam abertas. Havia dinheiro nas mãos dos escravos, e o rei decide saber quanto e onde. É a mesma cena de Mateus 25:19, onde o senhor volta de viagem e acerta as contas com os servos a quem confiou talentos.
O versículo não diz se o acerto era rotina ou exceção, nem se o rei desconfiava de alguém. Diz só que ele quis.
"com os seus escravos"
"Escravos", e não "servos": a ABC traduz ao pé da letra a palavra grega, que é a do escravo. A distância entre o rei e eles é total, e é essa distância que torna possível a ordem do versículo 25.
Mas, pelo que o item 2 mostrou, esses escravos podem ser homens de altíssimo cargo. As duas coisas são verdadeiras ao mesmo tempo, e a parábola usa as duas: o devedor do versículo 24 é poderoso diante dos outros e não é nada diante do rei.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O rei
Personagem da parábola, sem nome e sem país. Não é Herodes nem o imperador. Tem os traços de qualquer rei do mundo antigo: poder sobre as finanças, sobre os bens e sobre as pessoas dos seus súditos.
Os escravos do rei
Personagens coletivos. Deles, a parábola vai separar dois: o que deve dez mil talentos (versículo 24) e o companheiro que deve cem denários (versículo 28). Os outros voltam no versículo 31, como testemunhas.
O acerto de contas
O evento que abre a história e que ocupa os versículos 23 a 27: o rei chama os seus administradores para prestar contas.
5. Pontos de Ensino
A parábola explica a resposta a Pedro
O "Por isso" liga o "setenta vezes sete" à história que vem. Uma não se lê sem a outra.
O que se compara é a história, não o rei
"O Reino dos céus é como" abre a comparação com o conjunto da cena. O rei não é Deus em cada gesto.
O acerto de contas parte de quem tem o direito de cobrar
O rei decide sozinho a hora de conferir. Os escravos não escolhem.
6. Aspectos Filosóficos
A cena põe na base da parábola uma relação de dívida entre desiguais: um rei com poder total e escravos que dependem dele. Toda a questão do perdão, a partir daqui, vai ser pensada nessa linguagem de contas, créditos e cobranças. Isso tem um custo: quando o perdão é descrito como cancelamento de dívida, ele parece coisa que se mede e se registra, justamente o que o versículo 22 recusou. A parábola usa a linguagem da conta para chegar a um ponto em que a conta deixa de funcionar.
7. Aplicações Práticas
A prestação de contas não pede licença
O rei resolve conferir quando quer. Quem administra o dinheiro, o tempo ou a confiança de outra pessoa — no emprego, numa sociedade, numa família — sabe que a conta pode ser pedida a qualquer momento. A parábola não moraliza sobre isso; só parte desse dado.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O rei da parábola é Deus?
Não em cada gesto. A parábola compara o Reino dos céus com a história inteira, e só no versículo 35 Jesus aplica a história ao Pai. Ler Deus no rei que manda vender mulher e filhos, por exemplo, é ir além do que o texto diz.
Por que um rei, e não um patrão comum?
O texto não explica. O tamanho da dívida do versículo 24 só cabe na conta de um rei, e isso pode ter pesado na escolha.
9. Conexão com Outros Textos
O mesmo acerto de contas em outra parábola
Mateus 25:19 — "Muito tempo depois, o senhor daqueles servos voltou e foi acertar as contas com eles."
Outro rei que abre uma parábola do Reino
Mateus 22:2 — "O reino dos céus é como um rei que preparou um banquete de casamento para o seu filho."
A aplicação que fecha esta parábola
Mateus 18:35 — "Assim também o meu Pai celestial fará a vocês, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão as ofensas dele."
Prestar contas ao patrão
Lucas 16:2 — "E ele, chamando-o, disse-lhe: Como ouço isto sobre ti? Presta contas de teu trabalho, porque não poderás mais ser meu mordomo."
10. Original Grego e Análise
Texto em português
Por isso o Reino dos céus é como um rei que resolveu acertar as contas com os seus escravos.
Texto grego (Textus Receptus)
διὰ τοῦτο ὡμοιώθη ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν ἀνθρώπῳ βασιλεῖ, ὃς ἠθέλησε συνᾶραι λόγον μετὰ τῶν δούλων αὐτοῦ.
Transliteração
dia touto hōmoiōthē hē basileia tōn ouranōn anthrōpō basilei, hos ēthelēse synarai logon meta tōn doulōn autou.
Diferenças entre manuscritos
Nenhuma que mude o sentido. O Textus Receptus (a edição grega impressa que a ABC segue) e os manuscritos mais antigos diferem só na grafia de um verbo (ēthelēse e ēthelēsen).
Análise palavra por palavra
διὰ τοῦτο — dia touto, "por causa disto", "por isso". Liga o que vem ao que foi dito. O "isto" é a resposta a Pedro no versículo 22.
ὡμοιώθη — hōmoiōthē, "foi comparado", "tornou-se semelhante". Aoristo passivo de homoioō, "tornar semelhante", "comparar". Mateus usa esta forma para abrir parábolas em Mateus 13:24 e Mateus 22:2. O tempo passado é curioso: não diz "o Reino é como", e sim "o Reino foi comparado" ou "ficou parecido". Há quem leia aí a ideia de que o Reino já começou a acontecer do modo que a parábola descreve; há quem veja só uma fórmula fixa. É discutido.
ἡ βασιλεία τῶν οὐρανῶν — hē basileia tōn ouranōn, "o Reino dos céus". A expressão de Mateus para o que Marcos e Lucas chamam de "Reino de Deus".
ἀνθρώπῳ βασιλεῖ — anthrōpō basilei, "a um homem rei". O grego diz, ao pé da letra, "a um homem, a um rei". O "homem" sobrando é um jeito de falar que se costuma atribuir à influência do hebraico e do aramaico, e que Mateus usa em outras parábolas ("um homem, um dono de casa", Mateus 13:52; 20:1). A tradução "um rei" dá o sentido. A palavra que mostra que é gente, e não Deus, está no original, e a tradução a deixa de lado.
ὃς ἠθέλησε — hos ēthelēse, "que quis". Aoristo de thelō, "querer". "Resolveu" traduz bem: é uma vontade que vira decisão.
συνᾶραι λόγον — synarai logon, "acertar a conta". Synairō é "levantar junto", "somar", e logos, aqui, não é "palavra", e sim "conta", o registro do que se deve — um dos sentidos comerciais da palavra. A expressão, "somar a conta", era o fechamento do balanço. Só Mateus a usa, aqui, no versículo 24 e em Mateus 25:19.
μετὰ τῶν δούλων αὐτοῦ — meta tōn doulōn autou, "com os seus escravos". Doulos é o escravo, a pessoa que pertence a outra. É a palavra de todo o trecho: o devedor é "escravo" (versículos 26, 27 e 32), e o outro é "companheiro de escravidão" (versículos 28, 29, 31 e 33).
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A parábola é a explicação do "setenta vezes sete". O "Por isso" põe as duas coisas numa mesma resposta. Quem quer entender o número precisa da história.
A comparação é com a história toda, e isso protege a leitura. O rei tem gestos que ninguém atribuiria a Deus sem desconforto. O texto só faz a ligação com o Pai no fim, e é ali que ela deve ser procurada.
Os escravos deste rei são grandes diante dos outros e nada diante dele. A parábola começa com essa dupla posição, e é dela que vai sair o contraste entre as duas dívidas.













