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Êxodo 9:20

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✍️ Por Alberto Adriano·19 de setembro de 2026·⏱️ 13 min de leitura·👁 22 acessos
Quem, dentre os servos de Faraó, temeu a palavra do SENHOR fez os seus servos e os seus rebanhos fugirem para dentro das casas.
Um funcionário egípcio de túnica de linho, à porta de sua casa, apressando escravos que conduzem bois e cabras para dentro, sob um céu que começa a escurecer.

Estudo


Quem, dentre os servos de Faraó, temeu a palavra do SENHOR fez os seus servos e os seus rebanhos fugirem para dentro das casas.

1. Introdução

Alguns homens da corte de Faraó acreditaram no aviso e agiram: puseram os seus escravos e os seus animais dentro de casa.

São os primeiros egípcios do livro que obedecem a uma palavra do SENHOR, e são servos do próprio rei.

O texto diz que eles "temeram a palavra", não que temeram a Deus nem que mudaram de lado.

E a corte, que até aqui aparecia como um bloco junto de Faraó, se divide pela primeira vez.

2. Contexto Histórico e Cultural

Servo de Faraó e servo do servo

O versículo usa a mesma palavra duas vezes para duas pessoas de condição oposta. Os "servos de Faraó" são os homens da corte e da administração — ministros, escribas, chefes de repartição, gente com terras e rebanhos. Os "servos" deles são os que trabalhavam nessas terras e cuidavam desses rebanhos: escravos, trabalhadores dependentes, pastores. O hebraico chama os dois de eved ("servo", palavra que cobre do ministro ao escravo).

O egípcio fazia o mesmo. A palavra comum para servo era usada também pelos funcionários mais altos quando se referiam a si mesmos diante do rei ou de um superior: nas cartas, o remetente se chama "este servo" e fala do destinatário na terceira pessoa. Ao mesmo tempo, as casas desses funcionários tinham os seus próprios servos, registrados em listas de propriedade, e o funcionário respondia por eles.

O Egito era uma escada de servidão: todos eram servos de alguém, menos o rei.

O que isso significa para a cena

Quem recebeu o aviso, no versículo 19, foi o rei. Quem agiu foram homens do escalão logo abaixo. E quem estava no campo, exposto, era o escalão de baixo.

Há um detalhe de narração. O texto não conta que Moisés foi ao palácio e repetiu o discurso; passa direto da fala de Deus, nos versículos 13 a 19, para a reação dos servos. Nachmanides já observava que é por este versículo que o leitor fica sabendo que o recado foi entregue.

A decisão desceu dois degraus. O funcionário que "temeu a palavra" decidiu por pessoas que não foram consultadas e que provavelmente nem ouviram o aviso. O texto não diz como a notícia chegou a eles — por ordem, por mensageiro, por boato —, mas o prazo de um dia era suficiente para que uma ordem chegasse às propriedades próximas.

Há ainda um dado de poder. Um funcionário egípcio dependia do favor do rei para o cargo, as terras e a sepultura. Agir por conta de um aviso que o rei não tinha acatado era, no mínimo, sair da linha. O texto não diz que houve risco para quem agiu; mas quem conhecia uma corte antiga sabia que ele existia.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quem, dentre os servos de Faraó"

Até aqui, os servos de Faraó apareciam sempre junto com ele, como um bloco: as rãs entrariam "na casa dos seus servos" (Êxodo 8:3), os enxames encheram "as casas dos seus servos" (Êxodo 8:24). Eles sofriam as pragas; não decidiam nada.

Aqui, pela primeira vez, a corte se divide. O versículo não diz quantos, nem quem. Diz "quem, dentre", o que supõe que foram alguns — nem todos, nem nenhum.

E são os primeiros egípcios do livro a fazer o que uma palavra do SENHOR manda. Os magos tinham reconhecido o "dedo de Deus" em Êxodo 8:19, mas reconhecer não levou a nada. Estes não dizem nada: agem.

"temeu a palavra do SENHOR"

O objeto do temor é a palavra, não Deus. A diferença é pequena na frase e grande no sentido.

Temer a palavra, aqui, é levar a sério um aviso. É acreditar que a tempestade vem e que vem na hora dita. Isso não exige adesão ao Deus de Israel, nem abandono dos deuses do Egito, nem mudança de lealdade. Exige apenas que se aceite a previsão.

As parteiras de Êxodo 1:17 "temeram a Deus", e o livro fez disso um ato de desobediência ao rei. Aqui a expressão é mais estreita. O versículo 30 vai mostrar Moisés dizendo que Faraó e os seus servos "ainda não temem o SENHOR Deus" — e a frase não é desmentida por este versículo. Temer a palavra e temer o SENHOR não são a mesma coisa, e o capítulo põe as duas expressões a dez versículos de distância.

O mínimo que o texto afirma é suficiente: diante da mesma frase, alguns acreditaram o bastante para agir.

"fez os seus servos e os seus rebanhos fugirem para dentro das casas"

O verbo é o de fugir, na forma que faz outro fugir. Não é "recolheu" nem "guardou": é "fez fugir". A palavra dá à cena a pressa de quem corre de um perigo.

Repare na ordem: primeiro os servos, depois os rebanhos. O versículo 19 falava de "todo homem e todo animal"; o servo que temeu a palavra protegeu as duas coisas, e o texto nomeia as pessoas antes dos bens.

E repare em quem obedeceu. Não foi o rei, a quem o aviso foi dirigido. Foi um degrau abaixo — e foi por causa dessa decisão que gente do degrau de baixo ficou viva.

O que o versículo não diz

Não diz que esses homens se converteram, nem que passaram a apoiar Moisés, nem que tentaram convencer o rei. Não diz que foram recompensados. Registra só a ação e o seu motivo imediato.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os servos de Faraó

Os homens da corte e da administração. Aparecem desde o começo das pragas como testemunhas (Êxodo 7:20) e como atingidos. Aqui, pela primeira vez, uma parte deles age por conta própria.

Os servos dos servos

Os escravos e trabalhadores das propriedades desses funcionários. Não falam, não decidem, e a vida deles depende da decisão do senhor.

Os rebanhos

Os mesmos do versículo 19, com o problema que ali se discute.

Faraó

Ausente da ação. O aviso foi para ele, mas o texto não registra nada do que ele fez.

As casas

No plural: cada servo protegeu os seus nas suas próprias construções.

5. Pontos de Ensino

Acreditar numa palavra pode ser só isto: agir a tempo

O versículo não pede mais dos servos do que a ação diante do aviso. O texto chama isso de temer a palavra, e não finge que seja mais.

A mesma frase divide as pessoas

Todos ouviram o mesmo aviso, na mesma corte, no mesmo dia. A divisão não veio de informação diferente, e sim da resposta.

O inimigo não é um bloco

O Egito das pragas aparece aqui com gente que pensa diferente do rei. O Êxodo não trata todos os egípcios do mesmo modo.

6. Aspectos Filosóficos

Um risco que, por um dia, só existe como palavra

Durante vinte e quatro horas o granizo não existe. O texto não fala de nuvem nem de sinal no céu, de nada que os olhos possam conferir. Existe só uma frase: amanhã, a esta hora. E é diante dessa frase que a corte se divide.

Essa situação foi pensada com precisão pelo sociólogo alemão Ulrich Beck (1944-2015) em Sociedade de risco, livro publicado em 1986, o ano do desastre nuclear de Chernobil, que o prefácio menciona (edição brasileira: Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade, Editora 34).

Beck observou que os grandes riscos da sua época — radiação, contaminação química, poluição — têm uma característica em comum: não se veem. A pessoa não sente a radiação no ar nem o veneno na água. O risco existe primeiro como conhecimento: uma medição, uma previsão, um aviso. Por isso, dizia ele, a disputa sobre os riscos é uma disputa sobre o saber. Um mesmo aviso pode ser aumentado ou minimizado, aceito ou desprezado, e o que cada um faz depende de acreditar ou não em algo que não pode conferir com os próprios sentidos.

O versículo mostra exatamente isso. Os servos de Faraó não tinham como verificar o granizo. Tinham uma palavra, vinda de um adversário do rei, e o histórico de seis pragas que tinham acontecido como anunciadas. Uns agiram; outros, no versículo seguinte, não deram atenção. A linha que os separa não é de classe nem de cargo — todos são servos de Faraó —, e sim de resposta ao aviso.

Beck tinha ainda uma segunda observação que cabe aqui. Numa sociedade de risco, quem decide sobre a proteção e quem fica exposto muitas vezes não são as mesmas pessoas. O versículo tem essa estrutura: o funcionário decide, o escravo e o animal estão no campo. A salvação dos que estavam lá fora dependeu de alguém acreditar por eles.

O limite da comparação

Beck escrevia sobre riscos que a própria sociedade industrial produz — os efeitos colaterais da ciência e da técnica —, e não sobre desastres anunciados por um deus. O aviso do Êxodo não vem de medição, vem de um profeta. A aproximação vale para uma coisa só: a situação de quem precisa decidir diante de um perigo que existe, por enquanto, apenas no que foi dito. É leitura do comentarista, e não algo que o texto proponha.

7. Aplicações Práticas

Agir diante do aviso

O versículo registra gente que fez o simples: recebeu um aviso crível e tomou providência antes da hora. Vale para os avisos de hoje que chegam com prazo — a evacuação antes de uma enchente, o exame que o médico pediu, o alerta de segurança numa obra. A providência tomada a tempo não exige certeza, exige que se leve o aviso a sério.

Proteger primeiro as pessoas

O texto nomeia os servos antes dos rebanhos. Quem tem gente sob a sua responsabilidade — empregados, filhos, pessoas que dependem de decisões suas — cuida delas antes do patrimônio.

Não esperar o chefe

O aviso foi dado ao rei, e os servos não esperaram a ordem dele. Há situações em que a pessoa que tem a informação e a responsabilidade não pode esperar que a hierarquia decida por ela.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Esses servos se converteram ao Deus de Israel?

O texto não diz, e o versículo 30 sugere que não: Moisés diz que Faraó e os seus servos "ainda não temem o SENHOR Deus". Temer a palavra, aqui, é agir para proteger o próprio rebanho; o texto não diz que eles mudaram de lado.

Quantos foram?

Não se sabe. A construção "quem, dentre os servos" indica uma parte, sem dizer se grande ou pequena.

Esses egípcios têm alguma relação com a "mistura de gente" que sai com Israel?

Êxodo 12:38 diz que saiu com Israel uma multidão misturada. Alguns leitores ligam os dois textos, sugerindo que parte dos egípcios que temeram a palavra acabou partindo com os hebreus. É hipótese; o texto não faz a ligação.

O rei soube do que os seus servos fizeram?

O texto não diz. Não há reação de Faraó à divisão da corte.

9. Conexão com Outros Textos

O temor diante da palavra de Deus em estrangeiros

Gênesis 20:8 — "De manhã cedo Abimeleque se levantou, chamou todos os seus servos e lhes contou tudo isso; e os homens ficaram muito amedrontados."

Outra corte estrangeira reage com medo a uma palavra de Deus — lá, o sonho do rei; aqui, o anúncio de Moisés. O estudo de Gênesis 20:8 aponta a ligação entre as duas cenas.

Jonas 1:16 — "Então os homens temeram grandemente o SENHOR, ofereceram sacrifícios ao SENHOR e fizeram votos."

Os marinheiros estrangeiros vão além deste versículo: temem o SENHOR e oferecem sacrifício.

O temor que leva a agir contra o rei

Êxodo 1:17 — "Mas as parteiras temeram a Deus e não fizeram o que o rei do Egito lhes tinha ordenado: deixaram os meninos viver."

O mesmo verbo, com outro objeto: lá, Deus; aqui, a palavra.

O limite do mesmo capítulo

Êxodo 9:30 — "Mas eu sei que você e os seus servos ainda não temem o SENHOR Deus."

A frase de Moisés, dez versículos depois, sobre os mesmos servos.

O prudente e o aviso

Provérbios 22:3 — "O prudente vê o mal e se esconde; mas os simples passam adiante e sofrem a pena."

O provérbio descreve, em uma linha, os versículos 20 e 21.

Os que saíram junto

Êxodo 12:38 — "Subiu também com eles uma mistura de gente, e ovelhas e bois, uma grande quantidade de gado."

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quem, dentre os servos de Faraó, temeu a palavra do SENHOR fez os seus servos e os seus rebanhos fugirem para dentro das casas.

Texto hebraico

הַיָּרֵא אֶת־דְּבַר יְהוָה מֵעַבְדֵי פַּרְעֹה הֵנִיס אֶת־עֲבָדָיו וְאֶת־מִקְנֵהוּ אֶל־הַבָּתִּים׃

Transliteração

ha-yare et-devar YHWH me-avdei Par'oh henis et-avadav we-et-miqnehu el-ha-battim.

Análise palavra por palavra

הַיָּרֵא — ha-yare, "aquele que temeu", "o que temia".

Forma adjetiva ou participial da raiz yare, temer, com artigo: "o temente", "aquele que teme". A construção funciona como sujeito da frase inteira: "o que temia… fez fugir".

Repare na ordem das palavras. O hebraico começa pelo temor e só depois diz de quem se trata. A frase se organiza a partir da atitude, não do cargo.

אֶת־דְּבַר יְהוָה — et-devar YHWH, "a palavra do SENHOR".

Et marca o objeto direto. Devar é a forma de ligação de davar, palavra, coisa dita, e também "assunto", "acontecimento". A expressão "palavra do SENHOR" é a mesma que depois introduzirá os oráculos dos profetas. Aqui ela designa o anúncio feito nos versículos 18 e 19.

A combinação "temer a palavra" é rara. O comum é "temer a Deus" ou "temer o SENHOR". Isaías 66:5 fala dos que "tremem diante da sua palavra", com outro verbo.

מֵעַבְדֵי פַּרְעֹה — me-avdei Par'oh, "dentre os servos de Faraó".

Me- é a preposição min, "de", aqui no sentido de parte de um todo: "dentre". Avdei, forma de ligação plural de eved, servo.

הֵנִיס — henis, "fez fugir".

Forma causativa — a que faz alguém provocar a ação — da raiz nus, fugir. "Fez fugir", "pôs em fuga para lugar seguro". Rashi glosa exatamente assim. É o verbo da fuga diante do perigo: o mesmo de quem foge de uma batalha ou de um animal.

אֶת־עֲבָדָיו וְאֶת־מִקְנֵהוּ — et-avadav we-et-miqnehu, "os seus servos e o seu gado".

Avadav, "os seus servos": a mesma palavra eved que acabou de designar os homens de Faraó, agora para os dependentes deles. Miqnehu, "o seu gado", com a forma do sufixo própria das palavras terminadas em -eh.

אֶל־הַבָּתִּים — el-ha-battim, "para dentro das casas".

El, "para"; ha-battim, "as casas", plural de bayit. O versículo 19 dizia "para casa" (ha-baytah, singular com terminação de direção); aqui é o plural, porque cada um levou os seus para as suas próprias construções.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A corte de Faraó deixa de ser um bloco. Pela primeira vez uma parte dos servos do rei age de modo diferente dele, e age a partir de uma palavra do SENHOR. O Egito das pragas passa a ter gente que escuta.

O que esses homens fizeram foi pouco e bastou. Temer a palavra não é temer o SENHOR, e o próprio capítulo marca a diferença. Mas acreditar no aviso a ponto de agir salvou vidas — e salvou sobretudo a vida de quem não tinha voz na decisão.

Diante de um perigo que por enquanto é só palavra, a resposta revela as pessoas. Todos ouviram o mesmo; o que os dividiu foi o que fizeram com isso.

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