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Êxodo 12:38

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✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 26 acessos
Subiu também com eles uma grande mistura de gente, com rebanhos e gado, muitíssimo numerosos.
Coluna de pessoas e animais atravessando uma faixa de terra seca ao amanhecer, com rostos de tipos diferentes lado a lado e ovelhas e bois entre elas.

Estudo


Subiu também com eles uma grande mistura de gente, com rebanhos e gado, muitíssimo numerosos.

1. Introdução

Israel não saiu do Egito sozinho.

Logo depois de dar o único número que o livro oferece sobre o tamanho do povo, o texto acrescenta uma frase curta: junto com eles subiu uma multidão de gente misturada — sem nome, sem povo declarado e sem contagem.

O hebraico chama esse grupo por duas palavras que dizem apenas isto: mistura, e muita.

Quem eram essas pessoas o Êxodo não informa, e foi essa lacuna que a tradição passou dois mil anos tentando preencher, ora com elogio, ora com acusação.

O que fica registrado é que o grupo que sai do Egito já é, desde a primeira hora, um grupo misturado.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que esperava, na prática, quem saía agarrado ao povo de outro

Que o Egito abrigasse muita gente de fora não é novidade nem precisa ser demonstrado aqui: as listas administrativas de servidores domésticos com nomes estrangeiros são conhecidas, e o estudo de Gênesis 39:1 examina a principal delas. A pergunta deste versículo é outra, e é material: o que acontecia com essas pessoas do lado de fora da fronteira?

Numa sociedade organizada por casa paterna, clã e tribo, o problema de quem vem de fora não é de simpatia — é de registro. Sem casa paterna não há lote de terra, não há herança, não há quem responda por você diante dos anciãos e não há lugar na lista quando o povo se conta. É exatamente a situação da gente deste versículo, que sai no mesmo dia e fica de fora do censo do versículo anterior.

A categoria que Israel tinha para essa gente

A Lei não fingiu que o problema não existia. Ela criou uma posição.

Deuteronômio 29:10-11 descreve a assembleia inteira diante de Deus e enumera quem está presente: os cabeças das tribos, os anciãos, os oficiais, todos os homens de Israel, as crianças, as mulheres — e "o teu estrangeiro que está no meio do teu arraial, desde o teu rachador de lenha até o teu tirador de água". Os dois ofícios citados são os mais braçais que uma comunidade tem: partir lenha e carregar água.

Duas coisas ficam claras nessa lista. A primeira é que havia, dentro do acampamento, um contingente estável de gente de fora fazendo o serviço pesado. A segunda é que esse contingente foi nomeado dentro da cerimônia, e não deixado do lado de fora dela.

Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) fazem essa ligação de modo direto ao comentar Êxodo 12:38: a multidão que subiu junto teria ocupado justamente essas posições.

Como um grupo estrangeiro era absorvido: o caso documentado

A Bíblia narra uma vez, com detalhe, a incorporação de um povo inteiro nessa condição. Josué 9 conta que os moradores de Gibeão obtiveram um tratado por engano e, descoberta a farsa, não foram mortos nem expulsos: foram designados rachadores de lenha e tiradores de água para a congregação e para o altar, e ali ficaram.

O arranjo é duro e é revelador. Serviço permanente e posição baixa, sim — mas dentro, com função no culto e sob a proteção de um juramento que Israel se recusou a quebrar. Séculos depois, em 2 Samuel 21, essa mesma proteção ainda é tratada como obrigação em vigor.

É o único retrato completo que se tem do destino de um grupo que se agregou a Israel de fora, e é o pano de fundo realista para imaginar o que teria sido da gente de Êxodo 12:38.

De quem eram os animais

A segunda metade do versículo registra rebanhos e gado em quantidade grande, e não diz de quem. Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) os atribui à gente misturada. Shadal (Samuel David Luzzatto, hebraísta italiano do século XIX) os atribui a Israel, porque o versículo vinha listando primeiro as pessoas e só depois os bens, e registra ainda uma terceira posição, dos alunos dele: de uns e de outros.

A pergunta não é ociosa. Um grupo que atravessa a fronteira conduzindo os próprios animais chega ao outro lado com patrimônio, e patrimônio muda a posição de quem negocia um lugar. Em qualquer das três leituras, porém, o quadro material é o mesmo — uma coluna grande de gente a pé, com animais no meio, saindo ao mesmo tempo de um país que normalmente controlava quem passava por ali.

3. Análise Teológica do Versículo

"Subiu também com eles"

O versículo anterior tinha acabado de dar um número: cerca de seiscentos mil homens a pé, sem contar as crianças. É a única cifra que o livro oferece para o tamanho do povo que saiu.

E a frase seguinte começa por "também".

A palavra é pequena e faz um trabalho grande. Ela acrescenta um grupo à cena sem acrescentá-lo à conta. Os seiscentos mil ficam sendo os seiscentos mil; esta gente entra depois do total, do lado de fora dele. O texto teve a oportunidade de somar, não somou — e também não disse quantos eram.

"uma grande mistura de gente"

Duas palavras em hebraico. A primeira significa mistura; a segunda, muita.

O que não está escrito pesa mais. O texto não diz de que povo eram, não diz egípcios, não diz se eram livres ou escravos, não diz se foram convidados ou se simplesmente foram atrás. Num capítulo que nomeia Ramessés, Sucote, Faraó, Moisés e Arão, este é o único grupo humano identificado apenas por uma propriedade: a de ser misturado — um nome que não informa origem nenhuma, só informa que não há origem única.

Quem eram: quatro leituras, e nenhuma decidida

Primeira leitura: eram convertidos. É a de Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI): uma mistura de nações que se tornaram prosélitos. O Midrash Êxodo Rabbá 18:10 desenvolve a cena — Deus teria convidado à festa quem gostasse do seu filho, e "os íntegros do Egito vieram, fizeram a Páscoa com Israel e subiram com eles". Aqui o versículo registra a primeira adesão de gente de fora, e registra com aprovação.

Segunda leitura: eram famílias já misturadas. Shadal recusa a primeira com dois argumentos de texto. Israel, oficialmente, não tinha dito que ia embora para sempre: tinha pedido três dias para sacrificar e voltar, e ninguém emigra de vez com base nisso. E o próprio capítulo estabelece que incircunciso não come da Páscoa, o que torna improvável uma adesão em massa e de última hora à festa. Para ele, então, eram pessoas já misturadas a Israel de antes — egípcios casados com israelitas e israelitas casadas com egípcios. O apoio vem de Neemias 13:3, onde a mesma palavra hebraica reaparece num contexto explicitamente de casamento misto.

Terceira leitura: eram grupos de pastores das franjas. Isaac Samuel Reggio (rabino e estudioso italiano do século XIX) observa que a mesma palavra aparece na Bíblia designando populações que vivem em tendas e se deslocam com os rebanhos atrás de pasto — e aparece justamente ao lado do Egito, em Jeremias 25:20 e em Ezequiel 30:5. Nessa leitura o grupo não é nem convertido nem parente: é gente da periferia pastoril do país aproveitando a oportunidade. Os rebanhos da segunda metade do versículo pesam a favor dela.

Quarta leitura: era o fundo da sociedade egípcia. É a linha dominante entre os comentaristas ingleses do século XIX. Jamieson, Fausset e Brown traduzem por "uma grande ralé" e falam em escravos fugindo da miséria. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) supõe restos de uma população semítica mais antiga, malvista pelos egípcios. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) arrola egípcios casados com israelitas, outros povos semitas e prisioneiros de guerra empregados no trabalho forçado.

Não é possível decidir. As quatro são compatíveis com o hebraico, porque as duas palavras não dizem origem, condição nem motivo. O que resta quando se retiram todas: um contingente humano grande saiu do Egito junto com Israel sem ser Israel, e o texto o registrou.

O que o registro faz com a ideia de povo

O Êxodo vinha construindo Israel como uma família que virou povo: setenta pessoas descem, doze tribos crescem, uma genealogia sustenta a linha. Tudo isso é linhagem. E, no instante exato da saída — o momento fundador, aquele que a festa vai lembrar para sempre —, o texto informa que o grupo que partiu não era só a linhagem.

E há uma consequência prática dez versículos adiante, quando o capítulo tiver de legislar sobre quem pode comer da Páscoa (Êxodo 12:48). A pergunta que aquele estatuto responde não é abstrata: nasce desta multidão, que já estava dentro quando a lei foi escrita.

O que a tradição fez com essa gente depois

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) identifica a multidão deste versículo com um grupo que reaparece em Números 11:4 sob outro nome — o "ajuntamento" que sentiu desejo de carne no deserto e arrastou Israel a chorar por comida. A identificação é defensável: os dois nomes hebraicos se aproximam, e a tradução aramaica mais antiga usa praticamente o mesmo termo para os dois.

De uma frase que diz apenas "subiram com eles" saiu uma doutrina inteira sobre o elemento impuro que entrou junto e estragou o que veio depois.

O limite disso

Êxodo 12:38 não atribui nada a essa gente. Não os acusa, não os elogia, não diz por que subiram, não diz o que fizeram depois e não os liga a episódio nenhum. A frase é descritiva do começo ao fim: subiram junto, e havia muitos animais.

Tudo o que veio a ser dito contra eles foi construído em cima de outras passagens e projetado para trás sobre esta. É leitura, e leitura tardia. Quem lê o versículo sozinho não encontra ali nem vilão nem herói: encontra gente sem nome saindo do Egito ao mesmo tempo que Israel.

"com rebanhos e gado, muitíssimo numerosos"

Quem conduz animais possui alguma coisa. Possuía antes de sair, teve tempo de reunir e tinha gente para tocar. Se o grupo fosse só de escravos fugidos na última hora, esta metade do versículo ficaria sem explicação.

Há ainda um detalhe de continuidade. Faraó tinha exigido que os rebanhos ficassem, em Êxodo 10:24, e acabou mandando que fossem levados, em Êxodo 12:32. O que era moeda de barganha do rei atravessa a fronteira com quem sai — e atravessa também com gente que não era do povo dele nem do povo de Moisés.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Um versículo sem nenhum nome próprio

Num capítulo povoado de nomes — Faraó, Moisés, Arão, Ramessés, Sucote, os filhos de Israel —, este versículo não traz nenhum. Nem pessoa, nem povo, nem lugar. É a única frase do bloco da saída em que ninguém é chamado por um nome.

Os que subiram

O grupo aparece aqui e some. O Êxodo não volta a mencioná-lo: não diz se atravessou o mar, se estava no Sinai, se foi contado nos recenseamentos, se recebeu terra. A partir deste versículo, tudo o que se sabe dele vem de outros livros e de identificações propostas por leitores posteriores.

O filho da israelita e do egípcio

Levítico 24:10 registra um caso concreto de família misturada dentro do acampamento: "o filho de uma mulher israelita, que era filho de um homem egípcio, saiu entre os filhos de Israel". O episódio termina mal, mas o dado que interessa é anterior a ele. A existência de alguém com pai egípcio e mãe israelita no deserto é tratada pelo texto como fato, não como anomalia a explicar — e é exatamente o tipo de pessoa que a leitura de Shadal tem em mente.

Os "misturados" no resto da Bíblia hebraica

A mesma palavra reaparece em pelo menos três lugares, sempre designando gente de origem indefinida ou mista. Em Jeremias 25:20 e 25:24 nomeia reis e povos arrolados ao lado do Egito e da Arábia. Em Ezequiel 30:5 fecha uma lista de aliados do Egito. Em Neemias 13:3, depois da leitura pública da Lei, "separaram de Israel toda a gente misturada".

A cena

A coluna em movimento entre Ramessés e Sucote, na manhã seguinte à noite da décima praga. Não há discurso, não há autorização e não há registro de ninguém ter perguntado a essa gente quem era. A fronteira oriental do Egito, normalmente vigiada, é atravessada por uma massa que inclui quem estava na lista e quem não estava.

5. Pontos de Ensino

O povo fundador não era puro, e a Bíblia é quem diz isso

A informação não vem de um crítico moderno nem de um adversário do texto. Vem do próprio Êxodo, no versículo seguinte ao censo, sem pedido de desculpas e sem tentativa de explicação. Quem quiser sustentar que Israel saiu do Egito como linhagem fechada terá de fazê-lo contra esta frase.

O que uma fonte antiga escolhe não medir também é informação

Seiscentos mil homens a pé estão contados; a multidão misturada não está. Um livro que se dá ao trabalho de numerar o povo deixa este grupo sem número — e a Mekhilta, séculos depois, tentou consertar a omissão com três cifras diferentes, provando com isso que não havia número nenhum a recuperar.

Sair junto não é a mesma coisa que pertencer

O versículo diz que subiram "com eles". A preposição é a do acompanhamento: lado a lado, na mesma estrada, no mesmo dia. Ela não diz "no meio deles", que é a expressão hebraica para estar dentro de um grupo. Estar na mesma saída não resolvia a questão da mesa — e é por isso que o capítulo precisou legislar sobre ela.

Culpar o recém-chegado é hábito posterior, não leitura do versículo

Do "subiu também com eles" saíram, ao longo dos séculos, o desejo de carne no deserto, o bezerro de ouro e até um insulto de uso corrente no Talmude para descrever ricos sem compaixão.

Nada disso está em Êxodo 12:38. É uma cadeia de atribuições construída passagem por passagem e projetada para trás sobre uma frase que não acusa ninguém. Distinguir o que o texto diz do que a tradição construiu em cima dele é o exercício mais útil que este versículo oferece, e serve de modelo para dezenas de outros.

Ler o versículo inteiro muda a conclusão

A imagem da "ralé", que atravessou os comentários do século XIX e chegou às traduções, se apoia só na primeira metade da frase. A segunda descreve um grupo que sai conduzindo ovelhas, cabras e bois em quantidade chamada de pesada — e isso não é bagagem de quem nada tem.

6. Aspectos Filosóficos

O que faz de um grupo um povo

Se Israel é definido por descendência, essa gente não é Israel — e no entanto sai na mesma coluna, no mesmo dia, pela mesma porta. Se Israel é definido pelo acontecimento de ter sido tirado do Egito, então ela é Israel, porque passou exatamente pelo mesmo acontecimento. O versículo põe os dois critérios em choque e não escolhe nenhum.

Renan: a nação não é a raça, nem a língua, nem a religião

A formulação clássica do problema é de Ernest Renan (filólogo e historiador francês do século XIX), numa conferência de 1882 intitulada Qu'est-ce qu'une nation? ("O que é uma nação?"). Ele a organiza eliminando candidatos.

O que sobra são duas coisas. Uma está no passado: a posse comum de uma herança de lembranças, e sobretudo de sofrimentos compartilhados — ele chega a dizer que os lutos valem mais que as vitórias, porque impõem deveres. A outra está no presente: a vontade de continuar junto. Daí a fórmula que ficou — a existência de uma nação é "um plebiscito de todos os dias".

A tese incômoda, e onde o texto bíblico faz outra coisa

No mesmo texto há uma afirmação bem menos citada, e é ela que interessa aqui. Renan sustenta que o esquecimento é condição de existência de uma nação, e acrescenta que o erro histórico também. Toda nação nasceu de violência e de mistura; a unidade foi sempre feita à força e às custas de alguém. Por isso, diz ele, o progresso dos estudos históricos costuma ser um perigo para a identidade nacional: quanto mais se apura a origem, mais se descobre que ela não era pura nem pacífica.

Ponha essa tese ao lado de Êxodo 12:38 e aparece uma assimetria difícil de ignorar. O texto está exatamente no ponto que Renan diz ser o perigoso: o momento fundador. E o que faz ali é anotar a mistura — sem apagá-la, sem justificá-la, sem isolá-la num apêndice.

A contraprova, sem a qual isto vira propaganda

As genealogias que atravessam o Gênesis e reaparecem em Êxodo 6 transformam um povo inteiro numa árvore de família — e árvore de família é justamente o instrumento que apaga a mistura. Números 11:4 dá à mesma gente um nome separado, mantendo-a fora do sujeito "Israel" mesmo dentro do acampamento. E a leitura que, séculos depois, lhe atribuirá o bezerro de ouro faz o movimento clássico: o erro da nação é imputado ao elemento que veio de fora.

Um limite, para não atribuir ao texto o que ele não diz

Renan pensa a nação moderna, nascida das revoluções europeias; "nação" e "povo" não são a mesma categoria, e aplicar a moldura dele a um texto antigo é leitura possível, não afirmação do Êxodo. O que se pode sustentar é mais modesto e mais firme: o problema que ele formula — descendência contra acontecimento — é um problema que este versículo cria sozinho, com duas palavras de hebraico e um "também".

E fica a pergunta, que é do versículo: quando um grupo se conta e descobre que saiu mais gente do que ele contou, o que fazer com o excedente? Êxodo 12:38 apenas anota. A resposta prática virá adiante em forma de lei, e será desconfortável para as duas tradições que hoje disputam este texto — porque não fecha a porta nem a deixa aberta sem condição.

7. Aplicações Práticas

Quem já estava dentro quando a regra foi escrita

A ordem dos fatos no capítulo é essa: primeiro a multidão sai, depois o estatuto é escrito. Nenhuma comunidade consegue legislar antes de existir o caso. O que ela pode escolher é o que faz quando descobre que o caso já está dentro: expulsar, tolerar em silêncio ou estabelecer um caminho de entrada. O capítulo escolhe o terceiro, e paga o preço de ter de ser explícito sobre a condição.

A tentação de explicar o fracasso pelo recém-chegado

Durante séculos, o que deu errado no deserto foi creditado a "aquela gente que veio junto": o desejo de carne, o bezerro, a falta de fé. É um raciocínio confortável porque preserva intacta a imagem do grupo original, e é falso pelo mesmo motivo — Êxodo 32 não diz que foram eles, e o desejo de carne, segundo o próprio Números 11:4, contaminou os filhos de Israel, que choraram junto.

Estar junto e pertencer

O versículo distingue, na própria preposição, subir "com" alguém e estar "no meio" de alguém. A distinção não é cruel: é honesta.

Sobre chamar as pessoas pelo que elas não são

O nome que o texto dá a esse grupo informa apenas que ele não tem origem única. É um nome feito de negação.

Quem trabalha com gente conhece o efeito. "Os agregados", "o pessoal do outro setor", "os de fora": rótulos que descrevem a ausência de uma qualidade em vez de descrever a pessoa. São práticos e são o primeiro degrau de um problema, porque um nome de negação não tem como virar elogio — mas tem como virar acusação, e foi o que aconteceu com este.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que o Êxodo se deu ao trabalho de registrar isso?

Era possível não escrever a frase: nada na narrativa exige esta informação, e ela complica o retrato do povo em vez de simplificá-lo. A resposta que mais se sustenta é de composição — o estatuto que vem no fim do capítulo precisa de um caso para regular, e sem esta multidão a legislação sobre estrangeiro, residente e assalariado ficaria sem objeto. O texto não diz por que registrou.

Eles ficaram?

O Êxodo não responde. O grupo aparece nesta frase e não é mencionado outra vez no livro: não está no atravessamento do mar, não está no Sinai, não aparece nos recenseamentos.

Há três destinos possíveis, e nenhum demonstrável. Podem ter sido absorvidos, passando a ser contados como Israel — e nesse caso o silêncio posterior é o próprio sinal da absorção. Podem ter permanecido como grupo à parte, e aí a identificação com o "ajuntamento" de Números 11:4 seria o único rastro. Ou podem ter se dispersado no caminho. As três permanecem em aberto.

A expressão é elogiosa, neutra ou pejorativa?

Em Êxodo 12:38, neutra. A frase constata; não qualifica. O peso negativo veio depois e veio de fora do versículo: a tradução por "ralé", o uso talmúdico como insulto, a atribuição do bezerro de ouro pela mística medieval. Nenhuma dessas camadas está no hebraico, que diz duas palavras: mistura, muita.

Eles comeram a Páscoa daquela noite?

Esta é a pergunta mais espinhosa do versículo, e não tem resposta no texto.

A favor de que sim está o Midrash Êxodo Rabbá 18:10, que descreve os egípcios íntegros fazendo a Páscoa com Israel e subindo com eles no dia seguinte. Contra está o próprio capítulo, que estabelece que nenhum incircunciso come dela — e uma circuncisão em massa na véspera não é mencionada em lugar nenhum.

Shadal usa exatamente esse argumento para descartar a conversão de última hora. É forte, mas não é definitivo: a regra que ele invoca está escrita no fim do capítulo, isto é, depois do acontecimento que se narra. Se a lei foi formulada para resolver o problema criado naquela noite, ela não pode ser usada para provar o que aconteceu antes dela.

Por que o texto conta uns e não conta outros?

Seiscentos mil homens a pé é um número de tribos e famílias: pessoas com genealogia, com casa paterna, com lugar definido no arranjo. A gente que subiu junto não tinha nada disso, e não por acaso não entra na soma. A contagem não mede a população que saiu do Egito naquele dia; mede a população que o texto já reconhecia como sujeito. A diferença entre as duas coisas é justamente o versículo 38.

9. Conexão com Outros Textos

A lei que este versículo torna necessária

Êxodo 12:48 — "E, quando um estrangeiro morar com você e quiser celebrar a Páscoa ao SENHOR, seja circuncidado todo macho da sua casa; então ele se aproximará para celebrá-la e será como o natural da terra. Mas nenhum incircunciso comerá dela."

Dez versículos separam a constatação da regra, e a ordem importa: a multidão sai primeiro, a lei vem depois. E a lei não a expulsa nem a ignora — estabelece uma condição e, cumprida ela, equipara.

O nome que reaparece no deserto

Números 11:4 — "E o ajuntamento de gente que havia no meio deles teve grande desejo; e os filhos de Israel também tornaram a chorar e disseram: 'Quem nos dará carne a comer?'"

Foi por esta ponte que a fama ruim chegou ao versículo do Êxodo. Repare, porém, no que a frase faz: distingue o ajuntamento dos filhos de Israel e, na mesma linha, diz que os filhos de Israel choraram também. A separação entre culpados e inocentes não sobrevive à segunda metade do versículo.

A mesma palavra, invertida de sinal

Neemias 13:3 — "E aconteceu que, ouvindo eles a lei, separaram de Israel toda a gente misturada."

O termo é o mesmo do Êxodo; a ação é a oposta. No Egito essa gente sobe junto e o texto apenas anota; em Jerusalém, depois do exílio, ela é retirada do meio do povo como consequência direta de uma leitura pública da Lei.

Os aliados do Egito

Ezequiel 30:5 — "Cuxe, Pute e Lude, e toda a gente misturada, e Cube, e os filhos da terra da aliança cairão com eles à espada."

O verbo da mistura, com sentido de condenação

Salmo 106:35 — "Antes, se misturaram com as nações e aprenderam as obras delas."

O salmo usa o verbo da mesma raiz para descrever a assimilação de Israel aos povos de Canaã, e o usa como acusação. Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII, neto de Rashi) cita justamente este versículo para explicar a palavra do Êxodo. A aproximação é filologicamente correta e tem um efeito colateral: quem lê o Êxodo com o Salmo 106 na cabeça já chega ao versículo 38 com a palavra carregada de culpa — que é como boa parte da tradição o leu.

O egípcio que pode entrar

Deuteronômio 23:7-8 — "Não abominarás o egípcio, pois foste estrangeiro na terra dele. Os filhos que lhes nascerem na terceira geração entrarão na assembleia do SENHOR."

A Lei prevê explicitamente a incorporação de egípcios — com prazo, mas sem impedimento definitivo, e com um motivo dado: Israel também foi estrangeiro. Se a multidão do Êxodo 12:38 incluía egípcios, como a maior parte dos comentaristas supõe, este é o texto que trata do destino dos descendentes dela.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Subiu também com eles uma grande mistura de gente, com rebanhos e gado, muitíssimo numerosos.

Texto hebraico

וְגַם־עֵרֶב רַב עָלָה אִתָּם וְצֹאן וּבָקָר מִקְנֶה כָּבֵד מְאֹד׃

Transliteração

ve-gam erev rav alah ittam, ve-tson u-vaqar miqneh kaved me'od.

Análise palavra por palavra

וְגַם — ve-gam, "e também".

Partícula de adição. Ela liga esta frase ao que veio antes e assinala que se está acrescentando um item a uma lista já dada. O que veio antes era o número: seiscentos mil homens a pé. A partícula acrescenta o grupo à cena sem incorporá-lo ao total — acrescentar e somar não são a mesma operação, e o hebraico deixa isso visível na escolha da palavra.

עֵרֶב — erev, "mistura".

Substantivo masculino, da raiz de três letras que significa misturar, entrelaçar, combinar. É preciso separá-lo de dois homônimos que se escrevem com as mesmas consoantes e vêm de raízes distintas nos léxicos: erev no sentido de "tarde, entardecer", que aparece neste mesmo capítulo na expressão sobre a hora do abate, e eravon no sentido de "penhor, garantia", de Gênesis 38:17. A grafia coincide; o campo de sentido, não.

O sentido de mistura humana é confirmado por Jeremias 25:20 e 25:24, onde a palavra designa reis e populações arroladas ao lado do Egito e da Arábia; por Ezequiel 30:5, onde fecha uma lista de aliados do Egito; e por Neemias 13:3, onde nomeia o grupo separado de Israel depois da leitura da Lei. O verbo da mesma raiz aparece no Salmo 106:35, "se misturaram com as nações".

Uma observação de forma do texto merece registro. O Pentateuco Samaritano, outra forma do texto hebraico conservada por uma comunidade à parte, escreve as duas palavras juntas, como vocábulo único. Shadal chama a atenção para isso e propõe que se trate de uma formação com sílaba repetida, do mesmo tipo das palavras hebraicas para "esverdeado", "avermelhado" e "torto" — e do mesmo tipo do termo que Números 11:4 usa para o "ajuntamento". É hipótese, apoiada numa variante real de texto.

רַב — rav, "muito, numeroso".

Adjetivo, concordando com o substantivo anterior. Não qualifica o tipo de gente: qualifica o tamanho do contingente. A expressão inteira diz literalmente "mistura muita", e nada mais sobre quem são.

עָלָה — alah, "subiu".

Forma simples do verbo, no passado, terceira pessoa do singular masculino. O singular concorda com o substantivo coletivo, e não com as pessoas que ele designa — construção corrente em hebraico.

אִתָּם — ittam, "com eles".

Preposição de acompanhamento com sufixo de terceira pessoa do plural: o "junto de", "ao lado de".

Ela se distingue de outra construção que o hebraico tinha à disposição e não usou aqui: be-tokh, "no meio de", que é a expressão para estar dentro de um grupo. Números 11:4 usará exatamente essa segunda construção para dizer que o ajuntamento estava "no meio" de Israel. A diferença é pequena na aparência e grande no efeito: uma põe o grupo ao lado, a outra o põe dentro.

וְצֹאן וּבָקָר — ve-tson u-vaqar, "e rebanho e gado".

מִקְנֶה — miqneh, "gado, rebanho".

Substantivo derivado da raiz que significa adquirir, comprar, tomar posse. É a palavra que trata os animais como patrimônio: não é o bicho enquanto criatura, é o bicho enquanto bem que alguém comprou e possui. Funciona aqui como resumo dos dois termos anteriores.

כָּבֵד מְאֹד — kaved me'od, "muito pesado". Adjetivo do peso físico mais advérbio de intensidade; o hebraico o emprega com frequência para dizer "numeroso, de monta".

O que as versões antigas fizeram com a expressão

Ônquelos, a tradução aramaica oficial do Pentateuco, verte por "muitos estrangeiros": interpretação, e não tradução literal. O Targum de Pseudo-Jônatas vai adiante e escreve um número dentro do próprio texto traduzido. O Targum Jerusalém conserva a expressão sem interpretá-la, e a Septuaginta (versão grega do Antigo Testamento, iniciada no século III antes de Cristo) usa uma palavra que significa apenas "gente misturada". Três das quatro preservam a indeterminação do hebraico; uma a preenche — e é um bom retrato do que aconteceria com este versículo ao longo dos séculos.

11. Conclusão

Do que foi exposto, três conclusões se impõem.

A primeira é sobre o povo que sai. Israel deixa o Egito acompanhado de um contingente humano grande que não é Israel, e o próprio Êxodo é a fonte dessa informação. Isso desautoriza qualquer descrição do êxodo como movimento de uma linhagem pura, e desautoriza especialmente as que se apoiam na Bíblia para fazê-lo.

A segunda é sobre o que não está escrito. O versículo não diz quem eram, de onde vinham, por que foram, quantos eram nem o que fizeram depois. Cinco silêncios, e cada um preenchido pela tradição em direções opostas — convertidos exemplares para um Midrash, magos responsáveis pelo bezerro de ouro para a mística medieval, ralé de escravos para os comentaristas ingleses. Nenhuma dessas leituras é ilegítima como leitura; todas são ilegítimas como descrição do que o versículo afirma.

A terceira é sobre a ordem dos acontecimentos no capítulo. A multidão atravessa a fronteira no versículo 38; o estatuto sobre quem pode comer da Páscoa é escrito a partir do versículo 43. A realidade veio antes da regra, e a regra foi feita para dar conta dela.

Essa ordem é o que dá peso ao versículo. Ele não é curiosidade colada no meio do relato: é a condição que torna necessária a legislação que fecha o capítulo. Sem essa multidão no meio da estrada, a pergunta sobre o estrangeiro na mesa da Páscoa não teria por que ser feita.

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Êxodo 12:38

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