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Êxodo 12:39

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✍️ Por Alberto Adriano·25 de setembro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 24 acessos
E cozeram a massa que tinham tirado do Egito, em bolos sem fermento, porque ela não tinha levedado; pois foram expulsos do Egito e não puderam demorar-se, nem fizeram provisão para si.
Discos finos de massa assando sobre pedras quentes cobertas de cinza, à beira de uma estrada de terra, com trouxas e pés de caminhantes ao fundo.

Estudo


E cozeram a massa que tinham tirado do Egito, em bolos sem fermento, porque ela não tinha levedado; pois foram expulsos do Egito e não puderam demorar-se, nem fizeram provisão para si.

1. Introdução

O pão sem fermento já tinha sido mandado no mesmo capítulo, como lei para sempre. Aqui ele aparece outra vez — e agora com um motivo.

O motivo é prosaico: a massa não levedou porque não houve tempo, e não houve tempo porque o povo foi posto para fora do Egito.

É o verbo anunciado em Êxodo 11:1 se cumprindo. O rei prometera soltar e escorraçar; a segunda metade da promessa é esta frase, no passivo, sem dizer quem escorraçou.

O versículo fecha com uma linha que quase ninguém lê: não fizeram provisão nenhuma para a viagem.

Daí nasce a pergunta que os comentaristas disputam há séculos — o pão sem fermento nasce deste atropelo, ou o atropelo apenas explica por que ele foi assado na estrada?

2. Contexto Histórico e Cultural

Assar sem forno

A cena do versículo tem um problema material que o texto não comenta: onde se assa pão no meio de uma estrada?

A resposta é conhecida e continua sendo praticada no Oriente Médio. Faz-se fogo, deixa-se a brasa aquecer uma pedra chata ou uma camada de areia, varre-se a brasa para o lado e põe-se o disco de massa sobre a superfície quente, cobrindo-o com cinza. Em poucos minutos está pronto. É a técnica de quem não tem forno e não vai parar.

A Bíblia registra o método com precisão num lugar só. Quando Elias foge para o deserto e acorda com comida ao lado da cabeça, 1 Reis 19:6 diz literalmente que havia ali um "bolo de pedras quentes" — a expressão hebraica nomeia o suporte, não o pão. É exatamente o que Êxodo 12:39 descreve sem nomear.

Há uma consequência de vocabulário. O texto não chama o resultado de pão: chama de bolos. Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII, neto de Rashi) explica por quê — para ele, pão é o que sai do forno; o que foi assado de outro jeito recebe outro nome. O Targum de Pseudo-Jônatas, tradução aramaica antiga com acréscimos explicativos, vai mais longe e diz que a massa assou com o calor do sol, carregada na cabeça.

O que era uma provisão de viagem

A última frase do versículo depende de uma prática comum que o leitor moderno não conhece: existia um item chamado "provisão para o caminho", com conteúdo mais ou menos fixo.

Era pão assado, grão tostado — cereal torrado no fogo, que não estraga e se come sem preparo —, às vezes figos ou passas prensadas, e um odre de água. A Bíblia mostra a montagem dessa bagagem várias vezes. José manda encher os sacos dos irmãos e acrescenta a provisão do caminho (Gênesis 42:25). Jessé manda Davi levar ao acampamento pão e grão tostado (1 Samuel 17:17). E, em Josué 9:12, os moradores de Gibeão usam justamente esse tipo de bagagem como prova falsificada de viagem longa: exibem o pão seco e esfarelado que teriam tirado quente de casa.

O ponto dessa última cena é útil aqui. Pão de viagem é pão que se leva assado, e assado de véspera. Quem sai com a massa crua no ombro não preparou viagem nenhuma.

Daí a força da frase final do versículo. Ela não é um detalhe sentimental: é a constatação de que um contingente enorme entrou no deserto sem a bagagem padrão de qualquer viajante da época. A consequência aparece um mês depois, em Êxodo 16, quando a comida acaba e o povo se volta contra Moisés.

3. Análise Teológica do Versículo

"E cozeram a massa que tinham tirado do Egito"

A massa é a de cinco versículos antes, carregada nas amassadeiras sobre o ombro. Entre um versículo e outro passou-se uma noite, uma manhã e uma marcha.

Onde ela foi assada o texto não diz, e os comentaristas preencheram de dois modos. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, gramático e comentarista espanhol do século XII) diz que só assaram ao acampar em Sucote. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) diz que assaram na estrada, porque não podiam esperar para assar na cidade e levar o pão pronto. A diferença é pequena na cena e grande no argumento: para o primeiro, houve uma parada; para o segundo, nem isso.

Há um detalhe de construção que passa despercebido em português. O verbo usado para dizer que eles "tiraram" a massa do Egito é o mesmo verbo que o livro inteiro reserva para Deus tirando Israel do Egito. Aqui o sujeito é o povo e o objeto é um pedaço de massa crua. A libertação inteira cabe no mesmo verbo que a bagagem.

"em bolos sem fermento, porque ela não tinha levedado"

E aqui aparece a costura do capítulo.

Vinte e quatro versículos antes, o mesmo capítulo já tinha ordenado o pão sem fermento: sete dias, como estatuto perpétuo, sob a pena mais grave do código. Aquela ordem não dá motivo nenhum. Ela manda e pronto.

Agora o motivo aparece — e é um motivo histórico, acidental e sem nada de sagrado. A massa não levedou porque ninguém teve tempo de esperar.

O mesmo alimento, portanto, tem duas contas no mesmo capítulo: uma lei sem razão e uma razão sem lei. E a ordem em que elas aparecem cria o problema, porque a lei vem primeiro.

Qual das duas explica a outra? Três respostas

Primeira resposta: a pressa é a origem, e a lei comemora a pressa. É a leitura direta e a que o próprio Pentateuco endossa em outro lugar: Deuteronômio 16:3 manda comer pão sem fermento "porque saíste apressadamente do Egito". Nessa conta, o versículo 39 registra o fato bruto, e o estatuto dos sete dias existe para repeti-lo todo ano.

O custo dessa leitura está no arranjo do capítulo: a ordem foi dada antes de a pressa acontecer. Ou a lei foi escrita depois e colocada antes, ou Deus mandou comemorar de antemão um acontecimento que ainda não tinha ocorrido.

Segunda resposta: a lei é a origem, e a pressa só explica o lugar onde assaram. É a de Nachmânides, e é mais engenhosa do que parece. Para ele, eles assaram sem fermento porque tinham sido proibidos de ter fermento em casa; a expulsão não explica o tipo de pão, explica apenas por que o forno foi a estrada. Jacó ben Asher (rabino alemão do século XIV, autor do código conhecido como Tur) reproduz o argumento e registra ao lado a possibilidade contrária, sem escolher.

Terceira resposta: a massa deveria ter levedado, e não levedou. Isaac Samuel Reggio (rabino e estudioso italiano do século XIX) reconstrói a cena inteira. O povo amassou de noite, sabendo que sairia no dia seguinte, com a intenção de assar pão sem fermento ali mesmo, como provisão de viagem — e é por isso que Êxodo 12:34 diz que a massa foi tomada "antes que levedasse". Antes da assadura, porém, vieram Faraó e os egípcios e empurraram todo mundo para fora.

A partir daí as condições eram as de uma massa que cresce: envolvida em pano, encostada no corpo quente de gente andando depressa, por horas. Ela deveria ter levedado, e o versículo registra que não levedou — a frase, nessa leitura, não explica um azar, anota um prodígio. A fórmula da Hagadá de Pessach ("a massa dos nossos pais não teve tempo de fermentar antes que o Rei dos reis se revelasse e os redimisse") anda nessa direção, e Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) a cita ao comentar o versículo.

Não é possível decidir entre as três. O texto é econômico demais: diz que assaram, diz que não tinha levedado e dá a causa em uma linha. O que se pode afirmar é que a leitura mais difundida — a de que o pão sem fermento nasce aqui, naquela manhã — não é a única leitura antiga, e não é a que a estrutura do capítulo favorece.

"pois foram expulsos do Egito"

Esta é a frase em que o livro fecha uma promessa feita dois capítulos antes.

Em Êxodo 11:1 o SENHOR dissera que Faraó não apenas deixaria o povo ir: de vez o expulsaria. Os dois verbos estavam lá, um de soltura e outro de escorraçamento, e o estudo daquele versículo trata da diferença entre eles. Aqui o que o texto registra é o cumprimento, e a forma em que ele vem.

O verbo está no passivo. O texto não diz que Faraó os expulsou, nem que os egípcios os expulsaram. Diz que foram expulsos, sem nomear quem. Quem lê o capítulo inteiro sabe: seis versículos antes, os egípcios apertavam o povo para apressá-lo a sair, dizendo "estamos todos mortos". A expulsão não é ato de governo — é pânico de população.

De um jeito ou de outro, o desfecho é este: o maior ato de libertação do Antigo Testamento é descrito, no seu momento decisivo, não como uma saída, mas como uma ejeção. Ninguém abriu a porta. Alguém empurrou.

"e não puderam demorar-se"

A frase parece repetir a anterior e não repete. A primeira diz o que os outros fizeram; esta diz o que Israel não pôde fazer.

O verbo escolhido é o de quem se atrasa por hesitação ou por apego — o mesmo que descreve Ló remanchando em Sodoma enquanto os mensageiros lhe tomam a mão. Não é o verbo de quem é impedido por obstáculo: é o de quem ficaria mais um pouco. Ao negá-lo, o texto informa que houve o impulso de ficar e que ele não teve vez.

"nem fizeram provisão para si"

A última frase é a mais ignorada do versículo, e ela se presta a duas leituras opostas.

Rashi (Shlomo Yitzhaki, rabino francês do século XI) a lê como elogio, e não como constatação: a frase estaria ali para mostrar o mérito de Israel, que não perguntou "como vamos para o deserto sem mantimento?", mas acreditou e foi. Ele fecha com Jeremias 2:2, onde Deus se lembra exatamente disso — "a afeição da tua mocidade, como andaste após mim no deserto, numa terra não semeada". Rabenu Bahya (comentarista espanhol do século XIV) desenvolve o mesmo argumento.

Rashbam lê ao contrário, e em uma linha: é por isso que em pouco tempo eles estariam reclamando de falta de pão e de água. A frase, para ele, não elogia nada — prepara Êxodo 16.

O texto não faz nem uma coisa nem outra. Ele encadeia causas: foram expulsos, não puderam demorar, não fizeram provisão. É explicação de uma falta, não juízo sobre ela. Quem quiser ler mérito ou imprevidência ali estará acrescentando — e a distância entre as duas leituras mede bem o quanto um versículo seco admite ser puxado.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

A massa, que é quase uma personagem

Ela entra no relato em Êxodo 12:34, amarrada nas amassadeiras sobre os ombros, e sai dele aqui, virada em bolos. Nesses cinco versículos a massa atravessa a meia-noite da décima praga, a capitulação de Faraó, o pedido de prata e ouro e a partida de Ramessés. É o único objeto do capítulo que o texto acompanha do começo ao fim.

Os que expulsaram

O versículo não os nomeia, e o capítulo já os tinha nomeado: em Êxodo 12:33 são os egípcios, apertando o povo para apressá-lo, convencidos de que morreriam todos. Faraó havia mandado sair de madrugada; a pressão que este versículo registra é a da população, não a do palácio.

O lugar

Entre Ramessés e Sucote, ou em Sucote. O texto não fixa o ponto, e é essa indefinição que gera a divergência entre Ibn Ezra e Nachmânides sobre se houve ou não uma parada antes da fornada.

O acontecimento seguinte, que este versículo prepara

Um mês depois da saída, em Êxodo 16:1-3, o povo acusa Moisés de tê-lo trazido ao deserto para matá-lo de fome. A queixa é normalmente lida como ingratidão. Êxodo 12:39 dá o dado material que falta a essa leitura: eles realmente tinham saído sem mantimento nenhum, e o texto explica por quê.

Uma tradição antiga fez a conta e ligou os dois pontos de modo explícito. O Targum de Pseudo-Jônatas acrescenta ao versículo que aquela massa bastou para comer até o dia quinze do mês de Iar — que é exatamente a data em que Êxodo 16:1 situa a chegada ao deserto de Sim, na véspera do maná. Ninguém pode verificar a conta, mas ela mostra um leitor antigo tratando as duas passagens como um só episódio de abastecimento.

5. Pontos de Ensino

A lei veio antes da razão da lei

O capítulo manda comer pão sem fermento no versículo 15 e só explica o pão sem fermento no versículo 39. Quem lê na ordem recebe primeiro a obrigação e depois o motivo — e o motivo, quando chega, é um acidente de logística.

Isso muda o modo de ler qualquer rito. A explicação que uma prática oferece de si mesma pode ser posterior à prática, e pode ser uma entre várias. Aqui, dentro de um mesmo capítulo, há duas contas do mesmo alimento, e o texto não as harmoniza.

A libertação, no momento decisivo, é descrita como expulsão

Não há despedida, não há concessão solene, não há cortejo. Há gente empurrando gente para fora do país. A palavra que o texto usa é a de escorraçar, e o sujeito dela nem sequer é nomeado.

Quem prega a saída do Egito como triunfo tem de fazer alguma coisa com esta frase. Ela não desmente a libertação; desmente a estética dela.

Um detalhe material vale mais que uma explicação piedosa

A informação de que não houve provisão é do mesmo tipo das notas que um relato honesto guarda sem saber o que fazer com elas. Ela não serve a nenhuma tese: não engrandece o povo, não engrandece Deus, não acusa ninguém. Está ali porque aconteceu.

Reclamar no deserto tinha base de fato

A murmuração de Êxodo 16 costuma ser tratada como falta de fé pura e simples. Este versículo informa, antes que ela aconteça, que o povo entrou no deserto sem comida, e diz a causa. Não é justificativa da queixa; é o contexto dela, dado pelo próprio livro.

Ler os dois textos separados produz uma lição fácil sobre gratidão. Lê-los juntos produz uma pergunta mais difícil, que é a que o Êxodo vai passar quarenta anos examinando.

6. Aspectos Filosóficos

Explicar e compreender não são a mesma operação

O capítulo diz duas coisas sobre o mesmo pão, e elas não são do mesmo tipo.

Uma é uma cadeia de causas: foram expulsos, logo não puderam esperar, logo a massa não levedou, logo o pão saiu sem fermento. É um encadeamento que qualquer pessoa verifica pela física da fermentação e pela pressa de uma retirada.

A outra não explica nada. "Por sete dias comerão pães sem fermento" não tem causa: tem autoridade. Ninguém cumpre a ordem porque entendeu o mecanismo; cumpre porque está prescrita, e o que se espera de quem a cumpre não é entendimento de processo, é participação.

Dilthey e a divisão que ele propôs

A distinção entre esses dois modos de acesso ao mundo tem uma formulação clássica em Wilhelm Dilthey (filósofo alemão do século XIX, o principal teórico do que ele chamou de ciências do espírito, isto é, as disciplinas que estudam a vida humana e histórica).

A fórmula dele ficou conhecida numa frase curta: explicamos a natureza, compreendemos a vida. Explicar é subordinar um caso a uma lei geral — o pão não cresceu porque a fermentação exige horas. Compreender, para Dilthey, é outra coisa: é reconstruir por dentro uma experiência vivida, entrar na conexão de sentido em que ela estava inserida para quem a viveu. E ele insiste num ponto que interessa diretamente a este versículo: só se compreende o que já se viveu de algum modo, ainda que por transposição.

O que o Êxodo faz com o pão sem fermento é, nesses termos, um movimento do primeiro modo para o segundo. O versículo 39 explica. O estatuto dos sete dias não explica: manda repetir. Quem come pão sem fermento na data não está reproduzindo um experimento de padaria — está sendo colocado, todo ano, dentro da situação de quem teve de sair sem esperar.

O que essa leitura ganha e o que ela não pode afirmar

O ganho é enxergar por que as duas contas do capítulo não competem entre si. A pressa é a causa do pão; o rito é a forma de compreendê-lo por dentro. Uma resposta correta do primeiro tipo nunca dispensa a do segundo, e é por isso que explicar bem um rito raramente satisfaz quem o pratica.

O limite é grande e precisa ser dito. Dilthey escreve no século XIX, discutindo o estatuto das ciências humanas diante das ciências da natureza, e não tinha o Êxodo em vista. Usar a distinção dele para arrumar este capítulo é leitura possível, não afirmação do texto — o Êxodo não diz que a lei existe para produzir compreensão; ele simplesmente ordena.

Há ainda um risco no uso apressado dessa moldura, e ele merece registro. Dizer que o rito faz reviver a experiência pode virar desculpa para dispensar a pergunta histórica, como se o que aconteceu importasse menos que o efeito de lembrar. O próprio versículo 39 impede isso: ele é a frase mais seca e mais factual do capítulo, e está ali justamente informando o que houve.

7. Aplicações Práticas

A saída boa nem sempre tem forma boa

O povo não saiu do Egito com cerimônia. Saiu empurrado, com a comida pela metade e sem ter feito as contas da viagem. O texto registra a libertação e registra o modo indigno como ela se deu, sem tentar conciliar as duas coisas.

Quem já saiu de um emprego, de uma casa ou de uma relação reconhece a cena. A saída podia ser necessária e correta, e mesmo assim ter acontecido do pior jeito possível — de repente, por pressão de fora, sem tempo de organizar nada. A qualidade da porta de saída não determina a qualidade do que estava do outro lado dela, e este versículo é o exemplo mais forte que a Bíblia oferece disso.

Sobre transformar em virtude o que foi falta de tempo

Rashi lê a ausência de provisão como prova de confiança. É uma leitura possível e tem apoio em Jeremias 2:2. Mas o versículo dá outra explicação, e a dá antes: não houve provisão porque não houve tempo.

Há um hábito parecido em qualquer história contada depois. O que foi improviso vira método; o que foi falta de opção vira coragem; a decisão tomada no susto vira visão de longo prazo. Nem sempre é mentira — às vezes o improviso deu mesmo certo. Mas quem conta a própria história ganha em precisão se conseguir separar as duas coisas, como o Êxodo aqui separou.

O que se come depressa e o que se come devagar

O pão sem fermento é o pão de quem não pode esperar. O pão levedado exige antecedência, guarda e um pedaço da massa de ontem.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O pão sem fermento nasce aqui ou já tinha sido mandado?

As duas coisas estão no mesmo capítulo, e essa é a dificuldade. A ordem aparece no versículo 15, sem justificativa; a justificativa aparece aqui, sem ordem.

Há leitores antigos dos dois lados. Nachmânides e o Tur leem a obediência: eles assaram sem fermento porque o fermento estava proibido. Deuteronômio 16:3 lê ao contrário e põe a pressa como razão do costume. Não é possível decidir com o material do texto — e essa impossibilidade é, ela mesma, um dado sobre como as festas antigas chegaram até nós: com mais de uma explicação anexada.

Por que o verbo está no passivo?

"Foram expulsos" não diz quem expulsou. Em um capítulo que nomeia Faraó a todo momento, a frase decisiva sobre a saída deixa o agente de fora.

A explicação mais simples está seis versículos antes: quem apertava o povo eram os egípcios em pânico, e não o rei. Faraó já tinha mandado sair. O que este versículo registra não é uma ordem cumprida, é uma população empurrando outra. Deixar o sujeito indeterminado descreve bem uma pressão que não tinha comando.

Não levedar é milagre ou é relógio?

A leitura corrente é a do relógio: faltou tempo. A de Reggio é a do prodígio, porque nas condições descritas a massa deveria ter crescido. Avaliar as duas exigiria um dado que o texto não dá — quantas horas separaram o amassar do assar —, e sem ele as duas continuam de pé, e a escolha entre elas se faz por razões que não são as do versículo.

Eles saíram mesmo sem nenhuma comida?

O texto diz que não fizeram provisão, e não que não tinham nada. Tinham a massa que carregavam, tinham os rebanhos que o versículo anterior menciona e tinham a prata, o ouro e as roupas dos versículos 35 e 36.

O que faltou foi a bagagem específica de viagem: pão já assado e grão tostado, preparados de véspera. É uma falta de preparo, não uma indigência absoluta — e é justamente por isso que Êxodo 16 acontece um mês depois, e não na primeira semana.

Por que o versículo termina com essa frase, e não com a expulsão?

Porque ela abre o próximo problema. Se o capítulo terminasse em "foram expulsos", a saída estaria completa e o assunto encerrado. A última frase deixa uma ponta solta: um povo inteiro no deserto, sem mantimento, e o livro sabe disso.

Ela é, nesse sentido, a primeira nota de um tema que dominará os capítulos seguintes — a comida, a água e a dependência diária. O versículo que fecha a saída do Egito já está olhando para o deserto.

9. Conexão com Outros Textos

A promessa que esta frase cumpre

Êxodo 11:1 — "O SENHOR disse a Moisés: 'Ainda uma praga trarei sobre Faraó e sobre o Egito; depois disso ele os deixará ir daqui. Quando os deixar ir, de vez os expulsará daqui.'"

O verbo é o mesmo, e é a segunda metade da promessa. Dois capítulos antes o texto anunciou que a soltura viria em forma de escorraçamento; aqui ele registra que assim foi, e usa a palavra anunciada.

A massa, cinco versículos antes

Êxodo 12:34 — "O povo tomou a massa antes que levedasse, com as amassadeiras atadas nas roupas sobre os ombros."

A frase "antes que levedasse" é o que permite a reconstrução de Reggio: a intenção já era de pão sem fermento, e o que se perdeu não foi a fermentação, foi a fornada em casa.

A lei, vinte e quatro versículos antes

Êxodo 12:15 — "Por sete dias comerão pães sem fermento. Já no primeiro dia tirarão o fermento das suas casas, porque toda pessoa que comer pão levedado, do primeiro dia até o sétimo, será eliminada de Israel."

A ordem não dá motivo. É esse silêncio que o versículo 39 preenche — e o preenche com uma razão que a lei não tinha invocado.

A versão de Deuteronômio, que escolhe um lado

Deuteronômio 16:3 — "Não comerás com ela pão levedado; por sete dias comerás com ela pães sem fermento, pão de aflição, porque apressadamente saíste da terra do Egito."

Aqui a pressa é a razão declarada do costume, e não apenas a circunstância de uma manhã. É o texto que sustenta a primeira das três leituras.

O que veio um mês depois

Êxodo 16:3 — "Os filhos de Israel lhes disseram: Quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR na terra do Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne, quando comíamos pão até nos fartar! Pois vocês nos trouxeram a este deserto para matar de fome toda esta assembleia."

A queixa é dura e o dado material que a antecede está aqui: eles não fizeram provisão. Ler os dois versículos juntos não absolve a murmuração, mas impede tratá-la como invenção.

A leitura que transforma a falta em elogio

Jeremias 2:2 — "Vai e clama aos ouvidos de Jerusalém: 'Assim diz o SENHOR: Lembro-me de ti, da afeição da tua mocidade e do amor do teu noivado, quando andavas após mim no deserto, numa terra não semeada.'"

É o texto em que Rashi se apoia. Séculos depois, um profeta trata a entrada num deserto sem semeadura como prova de confiança, e não como imprudência. A releitura é antiga, está dentro da própria Bíblia — e continua sendo releitura: Jeremias diz o que o Êxodo não disse.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

E cozeram a massa que tinham tirado do Egito, em bolos sem fermento, porque ela não tinha levedado; pois foram expulsos do Egito e não puderam demorar-se, nem fizeram provisão para si.

Texto hebraico

וַיֹּאפוּ אֶת־הַבָּצֵק אֲשֶׁר הוֹצִיאוּ מִמִּצְרַיִם עֻגֹת מַצּוֹת כִּי לֹא חָמֵץ כִּי־גֹרְשׁוּ מִמִּצְרַיִם וְלֹא יָכְלוּ לְהִתְמַהְמֵהַּ וְגַם־צֵדָה לֹא־עָשׂוּ לָהֶם׃

Transliteração

va-yofu et ha-batseq asher hotsi'u mi-Mitsrayim ugot matsot ki lo chamets, ki gorshu mi-Mitsrayim ve-lo yakhlu le-hitmahmeah, ve-gam tsedah lo asu lahem.

Análise palavra por palavra

וַיֹּאפוּ — va-yofu, "e assaram". Forma simples do verbo, terceira pessoa do plural. A raiz é a de assar pão, e dela sai o substantivo que nomeia o ofício: o padeiro-chefe de Faraó, em Gênesis 40, é literalmente "o que assa".

אֶת־הַבָּצֵק — et ha-batseq, "a massa".

Substantivo com artigo definido, precedido da partícula que marca objeto direto. O artigo é significativo: não é uma massa qualquer, é aquela massa, a que o leitor já conhece de Êxodo 12:34. A palavra é rara na Bíblia e aparece quase só aqui e naquele versículo.

אֲשֶׁר הוֹצִיאוּ מִמִּצְרַיִם — asher hotsi'u mi-Mitsrayim, "que tiraram do Egito".

O verbo está na forma causativa — "fizeram sair", "tiraram para fora". É a forma que o Êxodo emprega dezenas de vezes com Deus como sujeito e Israel como objeto: "eu os tirei da terra do Egito". Aqui o sujeito é o povo e o objeto é massa crua. A aproximação é leitura possível: o verbo é o corrente da língua para tirar de dentro de um lugar, e nada no texto assinala jogo de palavras.

עֻגֹת מַצּוֹת — ugot matsot, "bolos ázimos".

Dois substantivos femininos no plural, justapostos: o segundo qualifica o primeiro. Ugah designa um pão redondo e chato, feito para assar rápido — é a palavra usada quando Abraão manda Sara preparar às pressas comida para os visitantes, em Gênesis 18:6. Matsah é o pão não levedado, e é a palavra que dá nome à festa dos sete dias.

כִּי לֹא חָמֵץ — ki lo chamets, "porque não tinha levedado".

Verbo na forma simples, passado, terceira pessoa do singular masculino, concordando com a massa. A raiz é a do azedar e do fermentar, e dela vem o substantivo que designa o pão levedado no restante do capítulo. Rashbam observa que a construção tem aparência de adjetivo — "a massa estava não levedada" — mas funciona como descrição do processo: a massa não chegou a levedar.

כִּי־גֹרְשׁוּ — ki gorshu, "pois foram expulsos".

Esta é a palavra decisiva do versículo. A raiz é a de escorraçar, pôr para fora à força — a mesma de Gênesis 3:24, quando o homem é posto fora do jardim, e a mesma que descreve a expulsão dos povos de Canaã.

A forma é passiva de intensivo: uma conjugação que reforça a ação do verbo e, ao mesmo tempo, não nomeia quem a pratica. O hebraico tinha à disposição a forma ativa — "e os egípcios os expulsaram" — e não a usou. O sujeito da expulsão fica fora da frase.

É o mesmo verbo de Êxodo 11:1, onde ele aparece na voz ativa, anunciado como promessa. A passagem de uma voz para a outra é o que fecha o circuito entre as duas passagens.

וְלֹא יָכְלוּ לְהִתְמַהְמֵהַּ — ve-lo yakhlu le-hitmahmeah, "e não puderam demorar-se".

O primeiro verbo é o de poder, ser capaz. O segundo é um infinitivo na conjugação reflexiva, formado por uma raiz com sílaba repetida — recurso que o hebraico usa para dar ideia de prolongamento.

O sentido é o de retardar-se, remanchar, ficar enrolando. É o verbo de Gênesis 19:16, onde Ló se demora em Sodoma e os mensageiros precisam tomá-lo pela mão. Não descreve impedimento externo: descreve quem se atrasa por conta própria. Ao dizer que não puderam, o texto deixa implícito que teriam ficado.

וְגַם־צֵדָה לֹא־עָשׂוּ לָהֶם — ve-gam tsedah lo asu lahem, "e também provisão não fizeram para si".

Tsedah é termo técnico: comida preparada para uma viagem, e não comida em geral. Aparece em Gênesis 42:25, quando José manda dar aos irmãos provisão para o caminho, e em Josué 9:11, na farsa dos moradores de Gibeão, que exibem pão seco como prova de estrada longa.

O verbo é o de fazer, preparar, e a construção é a de quem prepara algo para si mesmo. A frase não diz que eles não tinham comida: diz que não a prepararam. É a diferença entre não ter e não ter arrumado.

11. Conclusão

Do que foi exposto, três conclusões se sustentam.

A primeira é sobre o verbo. A promessa de Êxodo 11:1 se cumpre aqui, e se cumpre na voz passiva e sem sujeito nomeado. O livro não escreve "Faraó os expulsou": escreve que foram expulsos. A saída do Egito, no seu instante decisivo, não é concedida por um rei — é produzida pelo pânico de um país inteiro, e o texto o registra sem suavizar a palavra.

A segunda é sobre as duas contas do pão sem fermento. O mesmo capítulo manda comê-lo por sete dias sem dar razão, e depois dá uma razão que não é litúrgica: faltou tempo. As duas coisas estão lá, nessa ordem, e o Êxodo não as concilia.

Quem conclui daí que a festa apenas comemora a pressa está escolhendo uma das três leituras antigas e ignorando as outras duas. Quem conclui o contrário, que o povo já estava obedecendo a uma ordem recebida, faz o mesmo em sentido inverso. A conclusão honesta é que o capítulo oferece duas explicações do mesmo alimento e deixa o leitor com as duas na mão — e que isso é a marca de um costume antigo ao qual mais de uma memória se prendeu.

A terceira é sobre a última frase. Um povo numeroso entrou no deserto sem a bagagem que qualquer viajante da época levava. O versículo dá o motivo e para.

Essa informação não serve a nenhuma tese devocional, e é justamente por isso que ela vale: um relato que só guardasse o que edifica não a teria conservado. Ela também não é neutra em consequências — um mês adiante o livro terá de lidar com a fome no deserto, e quem leu esta linha já sabe de onde ela vem.

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