Como ele se demorasse, os homens o pegaram pela mão, e à sua mulher e às suas duas filhas, porque o SENHOR teve misericórdia dele; e o levaram e o puseram fora da cidade.
1. Introdução
A cidade está para ser destruída, o aviso já foi dado, e Ló se demora.
Então os enviados o pegam pela mão. E à mulher, e às duas filhas. Quatro pessoas, arrastadas para fora.
O texto explica por que isso acontece — e a razão que dá não tem nada a ver com o que Ló fez.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Como ele se demorasse"
O verbo indica hesitação, demora, arrastar os pés. É a última coisa que se esperaria de quem acaba de ser avisado.
"Os homens o pegaram pela mão"
Contato físico. Não é persuasão: é condução forçada.
Quatro pessoas
Ele, a mulher, e as duas filhas. O texto conta uma a uma.
"Porque o SENHOR teve misericórdia dele"
Aqui está a explicação. Não se diz que Ló mereceu, nem que foi rápido, nem que obedeceu.
"E o puseram fora da cidade"
O verbo é o de depositar, assentar. Eles o carregam e o largam do lado de fora.
O que fica
A salvação acontece contra a inércia do salvo, e o texto não disfarça isso.
3. Análise Teológica do Versículo
"Como ele se demorasse"
Convém começar por este verbo, porque ele é raro, é forte, e a tradução portuguesa o alisa.
A forma hebraica é intensiva e reduplicada — uma construção que a língua usa para prolongar a ideia da raiz. A raiz significa demorar, tardar, hesitar.
O sentido é de alguém que fica, que arrasta os pés, que não se move.
Vale pesar o que isso significa no ponto da narrativa em que aparece.
Ló acaba de ser informado, no versículo 13, de que o lugar será destruído. No versículo 14 tentou avisar os genros, e foi tratado como quem brinca. No versículo 15, ao romper da aurora, os enviados o apressaram expressamente: "levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas, para que não pereças".
E aqui ele se demora.
O narrador não explica por quê. E convém não preencher esse silêncio com certeza.
As leituras possíveis são várias, e todas plausíveis. Pode ser incredulidade — o mesmo descrédito que os genros demonstraram. Pode ser apego: ele escolheu aquela planície em 13:10-11, construiu vida ali, tem casa, tem genros, tem posição no portão da cidade. Pode ser paralisia diante do irreparável, que é uma reação humana comum e não exige explicação teológica. Pode ser luto antecipado pelo que fica para trás.
O texto não decide, e registro assim.
Mas o que ele deixa registrado, sem comentar, é que a demora acontece depois do aviso, depois da cegueira dos homens da cidade, depois de a porta ter sido forçada.
Ló viu tudo isso. E ainda assim se demorou.
"os homens o pegaram pela mão"
Aqui a narrativa muda de registro, e a mudança é física.
Até o versículo 15, os enviados falam: avisam, ordenam, apressam. A partir daqui, agem com as mãos.
Vale observar que esta é a segunda vez no capítulo que eles estendem a mão. Em 19:10, foi para puxar Ló para dentro de casa, quando a multidão forçava a porta. Agora é para puxá-lo para fora da cidade.
O mesmo gesto, duas vezes, salvando-o das duas ameaças opostas — a de dentro e a de fora.
E convém reter o que o gesto implica sobre a vontade dele. Pegar alguém pela mão para tirá-lo de um lugar não é convencer: é conduzir. O verbo pressupõe que Ló não estava indo por si.
"e à sua mulher e às suas duas filhas"
O texto conta as pessoas, e a contagem merece atenção.
São quatro: Ló, a mulher, e duas filhas.
Vale confrontar isso com a história inteira. Ló chegou a Sodoma com rebanhos, servos e tendas — o capítulo 13 descreve possessões grandes o bastante para tornar impossível a convivência com Abraão. Do portão da cidade em 19:1, ele tinha posição. Do versículo 14, ele tinha genros.
Saem quatro pessoas, sem nada.
E o texto não comenta a perda. Apenas conta quem sai.
Note-se também que a mulher é mencionada aqui sem nome, como será mencionada no versículo 26, quando olhar para trás. Ela existe no relato como esposa e como advertência, e o narrador nunca a nomeia.
"porque o SENHOR teve misericórdia dele"
Este é o coração do versículo, e convém tratá-lo com precisão, porque é aqui que o texto diz o que está fazendo.
A frase é uma explicação. O narrador interrompe a ação para dizer por que aquilo aconteceu.
E a razão que ele dá não é o mérito de Ló.
O termo hebraico designa compaixão, pena, o sentimento de quem poupa. É a palavra do gesto de quem se contém diante de alguém que poderia ser atingido.
Vale medir o contraste com o que o versículo acaba de narrar.
A frase imediatamente anterior descreve um homem que se demora. A frase seguinte diz que ele foi salvo por compaixão.
O narrador põe as duas coisas lado a lado, na mesma sentença, e não as reconcilia.
Convém ser honesto sobre o que isso faz com uma leitura devocional comum. A pregação frequentemente apresenta Ló como o justo resgatado, e há base para isso na tradição posterior — uma carta do Novo Testamento o chamará de justo, e a tradição judaica também discutiu o assunto.
Mas o texto do Gênesis, aqui, não diz que ele foi salvo por ser justo. Diz que foi salvo porque houve compaixão sobre ele.
E o versículo 29 dará ainda outra razão, também externa a Ló: "lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição".
Duas explicações, nenhuma delas nele.
Registro isso pelo que é. Não como julgamento sobre Ló — o texto não o julga — mas como observação sobre onde o relato coloca a causa.
"e o levaram e o puseram fora da cidade"
Convém fechar por este verbo, porque ele tem uma nuance que a tradução perde.
O termo hebraico é o de assentar, depositar, fazer repousar. Não é "expulsaram" nem "empurraram": é o gesto de quem carrega alguma coisa e a põe no chão.
Vale reter a imagem, porque ela completa o quadro do versículo. Ló é conduzido pela mão como quem não anda sozinho, e é depositado do lado de fora como quem é transportado.
A gramática toda da cena é de passividade. Ele é o objeto dos verbos, não o sujeito.
E vale notar o contraste com o que virá em seguida. No versículo 17 os enviados dirão: "escapa por tua vida, não olhes para trás". No versículo 18 Ló responderá — e o que ele dirá é uma negociação, pedindo para não ir ao monte.
Ou seja: o homem que precisou ser carregado para fora da cidade recupera a fala imediatamente depois, e a usa para discutir o destino.
O texto não comenta isso. Põe as duas coisas em sequência e segue.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Ló — hesita depois do aviso e é retirado à força, conduzido pela mão.
A mulher de Ló — mencionada sem nome, aqui e no versículo 26.
As duas filhas — as mesmas que Ló oferecera à multidão em 19:8.
Os dois mensageiros — estendem a mão pela segunda vez no capítulo, agora para tirá-lo.
O SENHOR — a compaixão dele é a razão que o narrador dá para o resgate.
5. Pontos de Ensino
O verbo da demora é intensivo e reduplicado. Indica arrastar os pés, não apenas atrasar.
A hesitação vem depois de tudo. Depois do aviso, da cegueira, da porta forçada.
O texto não explica a demora. Incredulidade, apego, paralisia — nada é decidido.
É a segunda mão estendida do capítulo. Em 19:10 para puxá-lo para dentro; aqui, para fora.
Saem quatro pessoas. De uma casa que tinha rebanhos, servos, genros e posição.
A razão do resgate é a compaixão. O texto não diz que Ló mereceu.
O versículo 29 dará outra razão externa. Deus se lembrou de Abraão.
O verbo final é o de depositar. Ló é carregado e posto no chão do lado de fora.
Ele é objeto dos verbos, não sujeito. E no versículo 18 já está negociando.
6. Aspectos Filosóficos
Um verbo que a tradução alisa
Cabe abrir pela forma verbal, rara e enfática, que o português suaviza. O hebraico emprega uma construção intensiva e reduplicada — recurso com que a língua prolonga a ideia da raiz —, e a raiz significa tardar, hesitar. Descreve alguém que fica parado, que não se desloca.
Pesa notar em que ponto isso aparece. No versículo 13 Ló soubera que o lugar seria arrasado; no 14 tentara avisar os genros e fora tomado por gracejador; no 15, à aurora, ouvira ordem expressa de levantar-se e sair com a mulher e as filhas para não perecer. E agora tarda.
O motivo não é dado, e não convém inventá-lo. Cabem várias hipóteses igualmente razoáveis: descrença, a mesma dos genros; apego, pois ele escolhera aquela planície em 13:10-11 e ali construíra casa, parentela e lugar no portão; paralisia diante do irreparável, reação humana corriqueira que dispensa explicação teológica; ou luto antecipado. Nenhuma se impõe.
O que o relato deixa assentado, sem comentar, é a cronologia: a hesitação vem depois do aviso, depois da cegueira que atingiu os homens da cidade, depois de a porta ter sido arrombada. Ló presenciou tudo isso, e ainda assim tardou.
Da palavra ao contato
Aqui a narrativa troca de registro, e a troca é corporal. Até o versículo 15 os enviados falavam — avisavam, ordenavam, apressavam. Daqui em diante usam as mãos.
É a segunda vez no capítulo que estendem a mão. Da primeira, em 19:10, foi para puxá-lo para dentro de casa, com a multidão forçando a porta; agora, para arrancá-lo da cidade. Mesmo gesto, duas vezes, contra as duas ameaças opostas — a de dentro e a de fora.
E o gesto informa sobre a vontade dele: tomar alguém pela mão para retirá-lo de um lugar não é persuadir, é conduzir. Supõe que ele não iria por conta própria.
Quatro pessoas
A contagem do texto merece atenção: ele, a esposa, duas filhas.
Confronte-se com a história inteira. Ló chegara àquela região com rebanhos, criados e tendas — o capítulo 13 descreve bens tão volumosos que inviabilizaram a convivência com Abraão. Em 19:1 tinha assento no portão; em 19:14, genros.
Saem quatro, sem nada. E o relato não lamenta a perda: limita-se a contar quem sai.
Observe-se ainda que a esposa figura sem nome, como voltará a figurar no versículo 26, ao olhar para trás. Ela existe na narrativa como cônjuge e como advertência, e jamais é nomeada.
Onde o relato põe a causa
Chega-se ao centro do versículo, e é aqui que o texto declara o que está fazendo.
A oração é explicativa: o narrador suspende a ação para dizer por que aquilo se dá. E a razão apresentada não é o mérito do resgatado. O vocábulo hebraico designa compaixão, pena — o sentimento de quem poupa, de quem se contém diante de alguém que poderia ser alcançado.
Meça-se o contraste. A oração anterior retrata um homem que tarda; a seguinte declara que ele foi salvo por compaixão. As duas ficam lado a lado, na mesma sentença, sem reconciliação.
Convém ser franco sobre o que isso faz com certa leitura devocional. A pregação costuma apresentar Ló como o justo resgatado, e há base para isso na tradição posterior — uma epístola do Novo Testamento o chamará de justo, e a tradição judaica também debateu o ponto. Só que o Gênesis, aqui, não afirma que ele escapou por ser justo: afirma que escapou porque houve compaixão sobre ele. E o versículo 29 fornecerá outra razão, igualmente externa — que Deus se lembrou de Abraão.
Duas explicações, e nenhuma delas nele. Registro pelo que é, não como sentença contra Ló, que o texto não julga, mas como observação sobre onde a causa é colocada.
Carregado e depositado
Resta o verbo final, cuja nuance a tradução perde. O termo hebraico é o de assentar, pousar, fazer repousar — não "expulsar" nem "empurrar", e sim o gesto de quem transporta algo e o coloca no chão.
A imagem completa o quadro: conduzido pela mão como quem não anda sozinho, e depositado do lado de fora como quem é levado. A gramática inteira da cena é passiva — ele é objeto dos verbos, nunca sujeito.
E vale o contraste com o que vem logo depois. No versículo 17 os enviados mandarão que escape por sua vida e não olhe para trás; no 18 Ló responderá, e a resposta será uma negociação, pedindo dispensa de subir ao monte. O homem que precisou ser carregado recupera a fala de imediato, e a emprega para discutir o destino. O relato não comenta: dispõe as duas coisas em sequência e prossegue.
7. Aplicações Práticas
Saber não é o mesmo que se mover
Ló já tinha o aviso, já vira a multidão cegada e a porta forçada, já ouvira a ordem expressa de sair. E ainda assim tardou — o verbo hebraico é intensivo, descreve alguém que fica parado.
O texto não explica: descrença, apego, paralisia diante do irreparável, tudo cabe e nada se decide.
O que vale reter é o desencontro entre a informação e a ação, porque ele é frequente e não depende de burrice. Pessoas informadas travam. A distância entre saber que é preciso sair e efetivamente sair costuma ser maior do que qualquer um admite antes de estar nela.
Quem escolheu a planície tinha razões
Ló não caiu ali por acaso: escolheu aquela terra em 13:10-11, porque era bem regada. Construiu casa, teve genros, ganhou lugar no portão da cidade.
É isso que ele está sendo arrancado de dentro.
A demora fica menos estranha quando se conta o que estava sendo perdido — e isso vale como correção a um hábito de julgar a lentidão alheia sem inventariar o que a pessoa larga ao se mexer. O custo de sair raramente é visível de fora.
A mesma mão que puxa para dentro puxa para fora
Em 19:10 os enviados estenderam a mão para trazer Ló para dentro de casa, quando a porta cedia. Aqui estendem de novo, para tirá-lo da cidade.
O gesto é idêntico; a direção, oposta.
Serve de aviso contra ler o socorro como direção fixa. O que protege num momento é exatamente o que precisa ser abandonado no seguinte, e quem confunde o abrigo com o lugar acaba defendendo a casa quando devia estar fora dela.
O relato não credita a salvação ao salvo
A explicação que o texto dá é a compaixão — o termo hebraico designa a pena de quem poupa. E o versículo 29 dará outra razão, também externa: que Deus se lembrou de Abraão.
Duas explicações, nenhuma delas em Ló. A pregação costuma apresentá-lo como o justo resgatado, e a tradição posterior deu base a isso, mas o Gênesis aqui não diz isso.
Vale sustentar a diferença sem transformá-la em acusação. O texto não julga Ló — apenas põe a causa fora dele. E há uma sobriedade nisso que se perde quando se converte todo resgate em prêmio.
Alguém foi lembrado, e outro foi salvo
O resgate de Ló será explicado, treze versículos adiante, por Deus ter se lembrado de Abraão — que a esta altura não aparece na narrativa há dezesseis versículos e não sabe de nada.
O texto não faz disso lição; apenas registra.
Mas o mecanismo merece ser notado: o efeito de um gesto pode recair sobre alguém que nunca ficará sabendo de onde veio, e o beneficiado pode atribuir a si o que foi feito por outro. Quem intercede raramente vê o resultado, e quem é alcançado raramente sabe a origem.
A gramática da cena é passiva — e dura pouco
Ló é conduzido pela mão e depositado fora, com o verbo de quem carrega algo e o põe no chão. Ele é objeto dos verbos, nunca sujeito.
Dois versículos depois, já está negociando o destino, pedindo dispensa de subir ao monte.
O relato não comenta a troca, e é justamente por isso que ela salta. A capacidade de argumentar volta muito antes da capacidade de agir — e a fala recuperada costuma ser usada primeiro para discutir condições, não para agradecer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que Ló se demora, se já sabia da destruição?
O texto não diz. E a demora vem depois de tudo: depois do aviso do versículo 13, depois de os genros o terem tomado por gracejador, depois da cegueira que atingiu os homens da cidade, depois da ordem expressa de 19:15.
Quais explicações são possíveis?
Várias, e todas razoáveis: descrença, a mesma dos genros; apego ao que construiu, já que ele escolhera aquela planície em 13:10-11 e ali tinha casa, parentela e lugar no portão; paralisia diante do irreparável, reação humana corriqueira; luto antecipado. Nenhuma se impõe, e o narrador não escolhe.
O verbo hebraico é forte?
É. A forma é intensiva e reduplicada — construção com que a língua prolonga a ideia da raiz, que significa tardar, hesitar. Descreve alguém que fica parado, não apenas alguém que se atrasa.
O que muda quando os enviados pegam Ló pela mão?
O registro da narrativa. Até o versículo 15 eles falavam — avisavam, ordenavam, apressavam. Daqui em diante agem fisicamente. E é a segunda vez no capítulo: em 19:10 estenderam a mão para puxá-lo para dentro de casa; aqui, para tirá-lo da cidade. Mesmo gesto, ameaças opostas.
Quantas pessoas saem?
Quatro: Ló, a mulher e as duas filhas. Ele chegara à região com rebanhos, criados e tendas — bens tão volumosos, segundo o capítulo 13, que inviabilizaram a convivência com Abraão. Saem quatro, sem nada, e o texto não lamenta a perda.
Por que a mulher de Ló não é nomeada?
O texto nunca a nomeia, aqui nem no versículo 26, quando ela olhará para trás. Ela figura na narrativa como esposa e como advertência.
Ló foi salvo por ser justo?
Não é isso que este versículo diz. A razão que o narrador dá é a compaixão — o termo hebraico designa a pena de quem poupa. E o versículo 29 dará outra razão, também externa a ele: que Deus se lembrou de Abraão. A tradição posterior o chamou de justo, inclusive uma epístola do Novo Testamento, mas o Gênesis aqui coloca a causa fora dele.
O que significa "o puseram fora da cidade"?
O verbo hebraico é o de assentar, pousar, depositar — não "expulsar" nem "empurrar", e sim o gesto de quem transporta algo e o coloca no chão. Toda a gramática da cena é passiva: Ló é objeto dos verbos, nunca sujeito.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 19:15 — Levanta-te, toma tua mulher e tuas duas filhas que aqui estão, para que não pereças na punição da cidade.
A ordem que precede a demora.
Gênesis 19:10 — Aqueles homens estenderam a mão e fizeram entrar Ló em casa, e fecharam a porta.
A primeira mão estendida, na direção contrária.
Gênesis 13:10-11 — Ló levantou os olhos e viu toda a campina do Jordão, que era toda bem regada... e escolheu para si toda a campina.
A escolha que ele está sendo obrigado a desfazer.
Gênesis 19:14 — Mas pareceu aos seus genros como quem zombava.
A descrença dos que ficam.
Gênesis 19:29 — Lembrou-se Deus de Abraão, e tirou a Ló do meio da destruição.
A segunda razão, também externa a Ló.
Gênesis 19:26 — E a mulher de Ló olhou para trás e ficou convertida numa estátua de sal.
A esposa mencionada aqui, ainda sem nome.
Gênesis 19:18-20 — E Ló disse-lhes: Não, meu Senhor... não posso escapar ao monte.
A fala que ele recupera dois versículos depois.
Êxodo 12:33 — E os egípcios apertavam ao povo, apressando-se em lançá-los da terra.
Outra saída sob pressa, com o mesmo desenho.
Salmo 78:38 — Ele, porém, compassivo, perdoou a sua iniquidade e não os destruiu.
A mesma raiz da compaixão que poupa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Como ele se demorasse, os homens o pegaram pela mão, e à sua mulher e às suas duas filhas, porque o SENHOR teve misericórdia dele; e o levaram e o puseram fora da cidade.
Texto hebraico
וַיִּתְמַהְמָהּ וַיַּחֲזִיקוּ הָאֲנָשִׁים בְּיָדוֹ וּבְיַד־אִשְׁתּוֹ וּבְיַד שְׁתֵּי בְנֹתָיו בְּחֶמְלַת יְהוָה עָלָיו וַיֹּצִאֻהוּ וַיַּנִּחֻהוּ מִחוּץ לָעִיר
Transliteração
wayyitmahmah wayyaḥaziqu haanashim beyado uveyad-ishto uveyad shetei venotav beḥemlat YHWH alav wayyotsiuhu wayyanniḥuhu miḥuts lair
Palavra por palavra
וַיִּתְמַהְמָהּ (wayyitmahmah) — "e ele se demorou"
A forma é reduplicada e reflexiva, construída sobre a raiz mahah, tardar.
A reduplicação intensifica: não é apenas atrasar-se, é ficar, prolongar-se, não sair do lugar.
O verbo é raro. Reaparece, entre outros lugares, em Êxodo 12:39, justamente para explicar por que os israelitas não puderam fazer o pão fermentar — "porque não se puderam deter".
וַיַּחֲזִיקוּ (wayyaḥaziqu) — "e eles agarraram"
Do verbo ḥazaq, ser forte, agarrar com firmeza, segurar.
Não é tocar nem tomar delicadamente. O verbo carrega força.
בְּיָדוֹ ... וּבְיַד ... וּבְיַד (beyado ... uveyad ... uveyad) — "pela mão dele ... e pela mão ... e pela mão"
Note-se a repetição.
O hebraico não diz "pelas mãos deles"; diz "pela mão dele, e pela mão da mulher, e pela mão das duas filhas".
Três construções idênticas em sequência, uma para cada. O texto conta pessoa por pessoa.
בְּחֶמְלַת יְהוָה עָלָיו (beḥemlat YHWH alav) — "na compaixão do SENHOR sobre ele"
Ḥemlah, da raiz ḥamal, ter pena, poupar, compadecer-se.
É o verbo de quem se contém e não destrói o que poderia destruir.
A preposição inicial indica causa ou circunstância: foi por essa compaixão que aconteceu.
וַיֹּצִאֻהוּ (wayyotsiuhu) — "e o fizeram sair"
Causativo do verbo yatsa, sair. Literalmente: fizeram-no sair.
O causativo é decisivo: Ló não sai, é feito sair.
וַיַּנִּחֻהוּ (wayyanniḥuhu) — "e o depositaram"
Do verbo nuaḥ, repousar, assentar, pousar.
É o gesto de quem carrega alguma coisa e a coloca no chão.
Nota — a cadeia de verbos causativos
Vale fechar observando a sequência inteira, porque ela é construída sobre uma escolha gramatical consistente.
O único verbo em que Ló é sujeito é o primeiro — e é o verbo de não se mover.
Todos os demais têm como sujeito os enviados: eles agarraram, eles fizeram sair, eles depositaram. E os dois últimos estão no causativo, a forma que a língua usa quando alguém faz outro fazer alguma coisa.
Ou seja: o hebraico constrói o versículo de modo que Ló apareça, do começo ao fim, como aquilo sobre o que se age.
Convém não moralizar o dado gramatical. A construção é natural e descreve um resgate, não emite juízo.
Mas ela é coerente com a explicação que o próprio versículo dá. Se a causa do resgate está na compaixão do SENHOR, e não em Ló, faz sentido que Ló não seja o sujeito de nenhum dos verbos de salvamento.
A gramática e a explicação dizem a mesma coisa, e o narrador não precisa comentar nenhuma das duas.
11. Conclusão
A forma verbal que abre a sentença é rara, e o português a suaviza sem remédio: trata-se de uma construção reduplicada e reflexiva sobre a raiz que significa tardar, e a reduplicação prolonga a ideia — não é atrasar-se, é permanecer, não arredar. Convém situar onde isso comparece. No versículo 13 Ló fora informado da ruína iminente; no 14 tentara alertar os genros e passara por gracejador; no 15, ao romper da aurora, recebera ordem expressa de levantar-se e partir com a esposa e as filhas sob pena de perecer. E é então que fica. O relato não fornece o motivo, e não convém fabricá-lo: descrença, semelhante à dos genros; apego ao que edificou, pois escolhera aquela planície em 13:10-11 e ali tinha morada, parentela e assento no portão; paralisia diante do irreversível, coisa humana que dispensa explicação religiosa; ou pesar antecipado. Nada se decide. Fica assentada apenas a cronologia, e ela é dura: a hesitação sucede ao aviso, à cegueira dos que sitiavam a casa e ao arrombamento da porta. Ló assistiu a tudo, e ainda assim ficou.
Muda então o registro, e a mudança é corporal. Até ali os emissários falavam — avisavam, ordenavam, urgiam; daqui em diante empregam as mãos, e o verbo escolhido significa segurar com firmeza, agarrar, coisa distinta de tocar. É a segunda ocorrência do gesto no capítulo: em 19:10 haviam estendido a mão para recolher Ló ao interior da casa enquanto a porta cedia; agora estendem para arrancá-lo da cidade — idêntico movimento, direções contrárias, protegendo-o do perigo de dentro e do de fora. E o gesto informa sobre a vontade: conduzir alguém pela mão para fora de um lugar pressupõe que ele não iria sozinho. Observe-se ainda que o hebraico não abrevia em "pelas mãos deles": repete a mesma construção três vezes, uma por pessoa. Saem quatro — ele, a esposa, duas filhas —, e quem chegara àquela região com rebanhos, criados e tendas volumosos o bastante para inviabilizar a convivência com Abraão, segundo o capítulo 13, sai sem nada. O relato não deplora a perda; conta quem sai. A esposa, aliás, figura anônima aqui como voltará a figurar no versículo 26, ao olhar para trás: existe na narrativa como cônjuge e como advertência, e jamais recebe nome.
Vem então o centro, onde o texto declara o que está fazendo. A oração é explicativa — o narrador suspende a ação para dar a razão —, e a razão não é o merecimento do resgatado. O vocábulo designa a pena de quem poupa, o sentimento de quem se contém diante de alguém que poderia ser alcançado, e a preposição que o antecede marca causa. Meça-se o contraste: a oração precedente retrata um homem imóvel, a seguinte declara que ele foi salvo por compaixão, e as duas convivem na mesma frase sem qualquer conciliação. Cabe franqueza quanto ao efeito disso sobre certa leitura devocional: costuma-se apresentar Ló como o justo resgatado, e a tradição posterior deu apoio a essa imagem, inclusive uma epístola do Novo Testamento; o Gênesis, porém, neste ponto não afirma que ele escapou por justiça, e sim que houve compaixão sobre ele — e o versículo 29 acrescentará outra razão igualmente exterior, a lembrança de Abraão. Duas explicações, nenhuma nele. Registro sem transformar em condenação, porque o relato não o condena; apenas coloca a causa fora.
Resta o remate, cuja nuance a tradução perde. O último verbo é o de assentar, pousar, fazer repousar — não expulsar nem empurrar, mas o gesto de quem transporta e deposita. Some-se a isso que os dois verbos finais estão no causativo, forma reservada a quando alguém faz outro fazer algo, e que o único verbo do qual Ló é sujeito, do começo ao fim, é justamente o de não se mover. A língua constrói a cena inteira de modo que ele apareça como aquilo sobre o que se age. Não convém moralizar o dado gramatical, natural em si e descritivo de um socorro; mas ele coincide com a explicação dada — se a causa está na compaixão e não no resgatado, é coerente que o resgatado não seja sujeito de nenhum verbo de salvamento. Gramática e explicação dizem o mesmo, e o narrador dispensa comentário sobre ambas. Dois versículos adiante, contudo, esse mesmo homem estará argumentando, para pedir que o dispensem de subir ao monte: a fala retorna bem antes da iniciativa.













