Os dois anjos chegaram a Sodoma ao cair da tarde, e Ló estava sentado à porta da cidade. Assim que os viu, Ló levantou-se para recebê-los e inclinou-se com o rosto até o chão,
1. Introdução
Duas mudanças de vocabulário abrem este capítulo, e as duas dizem muito.
No capítulo anterior o texto falava de três homens. Agora fala de dois anjos — e é a primeira vez que emprega essa palavra nesta história.
E Ló não está à porta da tenda, como Abraão. Está sentado à porta da cidade — que era onde os anciãos se sentavam para julgar.
2. Contexto Histórico e Cultural
Agora são anjos
O capítulo 18 usou a palavra corrente para seres humanos. Este usa malakhim, mensageiros — o termo que as nossas versões traduzem por anjos.
E são dois, não três.
Ao cair da tarde
A cena do capítulo anterior era ao meio-dia. Esta é ao entardecer.
À porta da cidade
O portão era o espaço público das cidades antigas: mercado, tribunal, assembleia. Ali se sentavam os anciãos.
O gesto
Ló se levanta e se inclina até o chão — o mesmo verbo que Abraão empregou.
Mas Abraão correu.
O que o capítulo vai fazer
O texto põe as duas cenas lado a lado, com os mesmos visitantes passando de uma para a outra, e não comenta.
3. Análise Teológica do Versículo
"Os dois anjos"
Convém começar pela palavra, porque ela muda em relação ao capítulo anterior e a mudança é verificável.
Em Gênesis 18:2, o texto disse que Abraão viu três homens. A palavra ali era a corrente para seres humanos do sexo masculino, sem qualquer qualificativo que os distinguisse de viajantes comuns.
Aqui o texto emprega outra: malakhim, plural de malakh.
Esse termo significa, na origem, mensageiro — aquele que é enviado com um recado. É usado na Bíblia para mensageiros humanos, enviados de reis, e também para os seres celestes que as nossas versões traduzem por anjos.
Ou seja: a designação muda de capítulo para capítulo, e muda para o termo mais explícito.
Vale registrar também a mudança de número. Eram três; agora são dois.
O versículo 22 do capítulo anterior explicou a diferença: dois seguiram para Sodoma, e Abraão ficou diante do terceiro.
Convém dizer o que essa alternância permite e o que não permite concluir.
Ela mostra que, na composição final do texto, os dois que chegam a Sodoma são seres enviados, e que o terceiro permaneceu com Abraão.
O que ela não resolve é a questão levantada no capítulo 18 — a relação entre o SENHOR e os três, que o texto nunca articula. Ver aqui a confirmação de que os três eram anjos é ir além do que se pode afirmar, porque o capítulo 18 chama todos de homens e este chama dois de mensageiros.
Não é possível decidir, e a alternância é dado.
"chegaram a Sodoma ao cair da tarde"
Uma observação sobre a hora, porque ela contrasta com a cena anterior.
O capítulo 18 abriu no calor do dia — meio-dia, a hora em que ninguém viaja. Este abre ao entardecer.
Vale reter o que isso significa em termos práticos. Chegar a uma cidade ao anoitecer, sem lugar para dormir, era situação de risco: os portões se fechavam à noite, e quem ficasse fora, ou na rua, estava exposto.
É por isso que a oferta de abrigo, no versículo seguinte, não é cortesia acessória. É o que separa um viajante do perigo.
"e Ló estava sentado à porta da cidade"
Aqui está o dado mais denso do versículo, e ele exige explicação, porque a expressão soa banal em português.
O portão de uma cidade antiga não era apenas uma passagem.
Era o espaço público por excelência. Escavações no Levante mostram portões com câmaras laterais, bancos de pedra corridos, praças internas — arquitetura feita para reunir gente.
Ali se fazia comércio. Ali se davam os anúncios. E ali, sobretudo, se administrava justiça.
A Bíblia registra isso repetidamente. O livro de Rute mostra Boaz subindo ao portão e convocando dez anciãos para resolver a questão do resgate. O Deuteronômio manda levar ao portão as causas a serem julgadas. Provérbios descreve o homem respeitável como conhecido nas portas, sentado entre os anciãos da terra. Amós denuncia os que oprimem o justo na porta.
Estar sentado à porta, portanto, não é estar de passagem. É ocupar posição.
Convém agora medir o contraste com o capítulo anterior, porque ele é notável.
Abraão estava sentado à entrada da tenda. Ló está sentado à porta da cidade.
Um está no limiar da própria casa, no acampamento, em terra que pertence a outros. O outro está no espaço institucional de uma cidade.
Vale registrar a observação e o seu limite. O texto não diz que Ló era ancião, juiz ou autoridade — a expressão indica presença habitual, e não cargo.
Mas o versículo 9 dará um dado que ilumina isto: os homens da cidade o acusarão justamente de querer bancar o juiz, lembrando que ele veio de fora. Ou seja, algo na posição dele autorizava essa acusação.
E vale registrar a ironia que o capítulo vai construir: o homem sentado no lugar onde se julga será, poucos versículos adiante, alguém a quem se nega qualquer autoridade para julgar.
"Assim que os viu, Ló levantou-se para recebê-los"
Convém comparar com cuidado, porque as duas cenas são espelhadas e a diferença está nos verbos.
De Abraão, o capítulo anterior disse que ele correu ao encontro dos visitantes — e que correu de novo, até o rebanho, cinco versículos depois. Duas corridas, aos noventa e nove anos, ao meio-dia.
De Ló diz-se que levantou-se.
Vale registrar a diferença sem transformá-la em julgamento. Levantar-se para receber alguém é gesto de respeito, e a cena é outra — não é um homem sentado à sombra que avista viajantes ao longe, é alguém no portão de uma cidade ao anoitecer.
Mas o texto usou verbos diferentes, e quem lê os dois capítulos em sequência percebe.
"e inclinou-se com o rosto até o chão"
Aqui o verbo é o mesmo do capítulo anterior.
Trata-se da forma que designa prostrar-se, curvar-se até o solo — a mesma que a Bíblia usa tanto para adoração a Deus quanto para reverência a superiores humanos, como já se examinou em Gênesis 18:2.
Vale reter, portanto, que o gesto de Ló é exatamente o mesmo de Abraão.
E vale registrar que, aqui como lá, ele não decide sozinho o que a pessoa sabia. Ló acabou de ver dois desconhecidos chegando ao portão; o gesto é o esperado diante de estranhos de aparência respeitável.
O desenho que o capítulo começa a montar
Convém fechar apontando para o que vem, porque este versículo é a abertura de um espelho.
O capítulo 18 mostrou hospitalidade cumprida: água, sombra, uma refeição desproporcional, e um anfitrião de pé enquanto os hóspedes comiam.
O capítulo 19 mostrará o que acontece com forasteiros numa cidade — e o que acontece é a ruptura de tudo aquilo.
Os mesmos visitantes atravessam de uma cena à outra. É o texto que os faz atravessar.
E o narrador, aqui como lá, não estabelece a comparação. Põe os dois capítulos em sequência e passa adiante.
Registro como leitura do encadeamento. Mas ela é difícil de não ver, e o próprio fim do capítulo 18 já a preparou, quando Abraão perguntou se a cidade seria varrida junto com os justos.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os dois anjos — chamados aqui de mensageiros, palavra que o capítulo 18 não usou para eles.
Ló — sentado à porta da cidade; levanta-se e se prostra.
Sodoma — a cidade cujo clamor subira, segundo 18:20.
A porta da cidade — espaço público das cidades antigas: comércio, anúncios e administração da justiça.
O terceiro visitante — ficou com Abraão, segundo 18:22.
5. Pontos de Ensino
Agora o texto diz anjos. No capítulo 18 dizia homens.
E são dois, não três. O terceiro ficou com Abraão.
Isso não resolve a questão do capítulo anterior. A relação entre o SENHOR e os três segue sem articulação.
A hora mudou. Era meio-dia; agora é o entardecer.
Chegar de noite sem abrigo era perigo. Os portões se fechavam.
A porta da cidade era onde se julgava. Rute, Deuteronômio, Provérbios e Amós registram isso.
Abraão estava à porta da tenda; Ló, à da cidade. Um no acampamento, outro na instituição.
Abraão correu; Ló levantou-se. O gesto de prostrar-se é o mesmo.
O texto não compara os dois capítulos. Põe em sequência e segue.
6. Aspectos Filosóficos
A palavra que muda
Convém começar pelo vocabulário, porque a mudança em relação ao capítulo anterior é verificável e significativa.
Em 18:2, o texto disse que Abraão viu três homens — palavra corrente para seres humanos, sem qualquer qualificativo.
Aqui emprega-se outra: o termo que significa mensageiro, aquele que é enviado com um recado, e que as nossas versões traduzem por anjo.
A designação muda de capítulo para capítulo, e muda para o termo mais explícito. E o número também: eram três, agora são dois — porque, segundo 18:22, dois seguiram para Sodoma enquanto Abraão ficava diante do terceiro.
Convém dizer o que isso permite concluir e o que não permite.
Permite afirmar que, na composição final, os dois que chegam a Sodoma são seres enviados.
Não resolve a questão levantada no capítulo 18 — a relação entre o SENHOR e os três, que o texto nunca articula. Ler aqui a confirmação de que os três eram anjos é ir além do que se pode dizer, porque um capítulo chama todos de homens e o outro chama dois de mensageiros.
Não é possível decidir, e a alternância é dado.
A hora e o risco
O capítulo anterior abriu no calor do dia; este abre ao entardecer.
Vale reter o que isso significa na prática. Chegar a uma cidade ao anoitecer, sem lugar para dormir, era situação de risco — os portões se fechavam à noite, e quem ficasse fora, ou na rua, estava exposto.
É por isso que a oferta de abrigo, no versículo seguinte, não é cortesia acessória: é o que separa um viajante do perigo.
O que era a porta da cidade
Chega-se então ao ponto de maior peso, que a tradução em português achata sem querer.
O portão de uma cidade antiga não era apenas passagem. Era o espaço público por excelência — escavações no Levante mostram portões com câmaras laterais, bancos de pedra corridos e praças internas, arquitetura feita para reunir gente.
Ali se fazia comércio, ali se davam os anúncios, e ali sobretudo se administrava justiça.
A Bíblia registra isso repetidamente: Boaz sobe ao portão e convoca dez anciãos para a questão do resgate; o Deuteronômio manda levar ao portão as causas a julgar; Provérbios descreve o homem respeitável como conhecido nas portas, sentado entre os anciãos; e Amós denuncia os que oprimem o justo na porta.
Estar sentado ali não é estar de passagem: é ocupar posição.
Dois limiares
Convém medir o contraste com o capítulo anterior.
Abraão estava sentado à entrada da tenda. Ló está sentado à porta da cidade.
Um no limiar da própria casa, num acampamento, em terra alheia. O outro no espaço institucional de uma cidade.
Vale registrar o limite: o texto não diz que Ló era ancião, juiz ou autoridade. A expressão indica presença habitual, e não cargo.
Mas o versículo 9 trará um dado que ilumina isto — os homens da cidade o acusarão justamente de querer bancar o juiz, lembrando que veio de fora. Algo na posição dele autorizava a acusação.
E o capítulo construirá a ironia: o homem sentado no lugar onde se julga será, poucos versículos adiante, alguém a quem se nega toda autoridade para julgar.
Levantar-se e correr
As duas cenas são espelhadas, e a diferença está nos verbos.
De Abraão o texto disse que correu ao encontro dos visitantes — e que correu de novo, até o rebanho. Duas corridas, aos noventa e nove anos, ao meio-dia.
De Ló diz-se que levantou-se.
Convém registrar sem transformar em julgamento. Levantar-se para receber é gesto de respeito, e a cena é outra — não é alguém à sombra avistando viajantes ao longe, é alguém no portão de uma cidade ao anoitecer.
Mas os verbos são diferentes, e quem lê os dois capítulos em sequência percebe.
Já o gesto seguinte é idêntico: a forma que designa prostrar-se até o solo, a mesma que a Bíblia usa tanto para adoração quanto para reverência a superiores humanos, como se examinou em 18:2. Aqui, como lá, o gesto não informa o que a pessoa sabia.
O espelho que começa
Convém fechar apontando para o que vem.
O capítulo 18 mostrou hospitalidade cumprida: água, sombra, refeição desproporcional, e um anfitrião de pé enquanto os hóspedes comiam.
Este mostrará o que acontece com forasteiros numa cidade — e o que acontece é a ruptura de tudo aquilo.
Os mesmos visitantes atravessam de uma cena à outra, e é o texto que os faz atravessar.
O narrador não estabelece a comparação: põe os dois capítulos em sequência e passa adiante.
Registro como leitura do encadeamento — difícil de não ver, e já preparada pelo fim do capítulo anterior, quando Abraão perguntou se a cidade seria varrida junto com os justos.
7. Aplicações Práticas
Repare quando o vocabulário muda
O capítulo anterior falou de três homens, sem qualificativo. Este fala de dois mensageiros — a palavra que traduzimos por anjos. A designação mudou de capítulo para capítulo, e para o termo mais explícito.
Isso permite dizer que os dois enviados a Sodoma são seres enviados; não resolve a questão de quem eram os três.
Vale como disciplina de leitura em qualquer texto longo: quando o autor troca a palavra para a mesma coisa, a troca costuma carregar informação. E vale a contenção — troca de palavra não autoriza qualquer conclusão que a gente queira tirar dela.
O portão era onde se decidia a vida das pessoas
Não era só passagem. Escavações mostram portões com câmaras laterais, bancos corridos e praças internas — arquitetura feita para reunir. Ali se comerciava, se anunciava e se julgava: Boaz convoca dez anciãos no portão, o Deuteronômio manda levar as causas ali, Amós denuncia os que oprimem o justo na porta.
Estar sentado ali não é estar de passagem — é ocupar posição.
Vale a pergunta sobre os seus próprios espaços. Onde as decisões que afetam você são tomadas, e você está presente nesse lugar? Estar na sala é diferente de ser informado depois — e a diferença raramente é acidental.
Posição conquistada de fora é sempre contestável
O texto não diz que Ló era ancião ou autoridade; a expressão indica presença habitual, não cargo. Mas poucos versículos adiante os homens da cidade o acusarão de querer bancar o juiz, lembrando que ele veio de fora.
Algo na posição dele autorizava a acusação — e a acusação basta para desfazê-la.
Quem constrói lugar num ambiente onde chegou depois costuma descobrir que esse lugar tem um limite invisível, que só aparece no primeiro conflito sério. Saber disso antes evita surpresa, e às vezes evita a exposição.
Chegar de noite sem abrigo era perigo real
Os portões se fechavam, e quem ficasse fora, ou na rua, estava exposto. É por isso que a oferta de abrigo não é cortesia acessória: é o que separa um viajante do perigo.
A cena do capítulo anterior era ao meio-dia; esta é ao entardecer.
Isso muda o peso do que se oferece. Há gentilezas que apenas agradam e há gentilezas que resolvem — e a diferença quase sempre está na hora e na circunstância de quem recebe, não na intenção de quem dá.
Textos vizinhos se comentam sem dizer nada
O capítulo anterior mostrou hospitalidade cumprida; este mostrará a ruptura de tudo aquilo — e são os mesmos visitantes que atravessam de uma cena à outra.
O narrador não estabelece a comparação. Põe os dois capítulos em sequência e passa adiante.
É assim que narrativas longas argumentam: por justaposição, sem declarar. Vale treinar o olho para isso, porque o mesmo recurso opera fora dos livros — o que se põe ao lado de quê, numa reunião ou num relatório, costuma dizer mais do que o que se afirma.
O mesmo gesto, verbos diferentes
De Abraão o texto disse que correu — duas vezes, aos noventa e nove anos, ao meio-dia. De Ló diz-se que se levantou. E a prostração seguinte é idêntica nos dois.
Convém não transformar isso em julgamento: as cenas são diferentes, e levantar-se para receber é gesto de respeito.
Mas os verbos são diferentes, e quem lê em sequência percebe. Serve de lembrete sobre como somos lidos: as pessoas comparam o que você fez com o que outros fizeram na mesma situação, mesmo quando ninguém diz nada.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Por que agora o texto diz "anjos", se no capítulo anterior dizia "homens"?
Porque a palavra muda mesmo. Em 18:2 o termo era o corrente para seres humanos, sem qualificativo. Aqui é o que significa mensageiro — aquele enviado com um recado —, que as nossas versões traduzem por anjo.
E por que são dois, e não três?
Porque, segundo 18:22, dois seguiram para Sodoma enquanto Abraão ficou diante do terceiro.
Isso não resolve quem eram os três do capítulo 18?
Não. Permite afirmar que os dois que chegam a Sodoma são seres enviados, mas não articula a relação entre o SENHOR e os três — questão que o texto nunca resolve. Ler aqui a confirmação de que os três eram anjos é ir além do que se pode dizer, já que um capítulo chama todos de homens e o outro chama dois de mensageiros.
Por que a hora é mencionada?
Porque muda o risco. O capítulo anterior abriu no calor do dia; este, ao entardecer. Chegar a uma cidade ao anoitecer sem lugar para dormir era perigoso — os portões se fechavam, e quem ficasse fora, ou na rua, estava exposto. Por isso a oferta de abrigo não é cortesia acessória.
O que era "a porta da cidade"?
O espaço público por excelência. Escavações no Levante mostram portões com câmaras laterais, bancos de pedra corridos e praças internas — arquitetura feita para reunir. Ali se fazia comércio, se davam anúncios e, sobretudo, se administrava justiça: Boaz sobe ao portão e convoca dez anciãos, o Deuteronômio manda levar ali as causas, Provérbios descreve o homem respeitável como conhecido nas portas, e Amós denuncia os que oprimem o justo na porta.
Então Ló era juiz da cidade?
O texto não diz isso. A expressão indica presença habitual, e não cargo. Mas o versículo 9 mostrará os homens da cidade acusando-o de querer bancar o juiz, lembrando que veio de fora — o que sugere que algo na posição dele autorizava a acusação.
Há contraste com Abraão?
Há, e é do próprio texto. Abraão estava sentado à entrada da tenda, num acampamento, em terra alheia; Ló está sentado à porta de uma cidade. E os verbos diferem: Abraão correu ao encontro dos visitantes, e correu de novo até o rebanho; de Ló diz-se que levantou-se. O gesto de prostrar-se, porém, é idêntico nos dois.
Esse contraste é julgamento do texto contra Ló?
O narrador não julga. As cenas são diferentes — uma é ao meio-dia, sob a sombra, com viajantes avistados ao longe; outra é ao anoitecer, no portão de uma cidade. Registro os verbos, que são diferentes, sem transformar isso em sentença.
9. Conexão com Outros Textos
Gênesis 18:2 — Abraão levantou os olhos e viu três homens de pé, diante dele.
A palavra que este capítulo troca.
Gênesis 18:22 — Então viraram aqueles homens o rosto dali, e foram-se para Sodoma.
A partida que explica por que agora são dois.
Gênesis 18:1 — Sentado à entrada da tenda, no calor do dia.
O outro limiar, e a outra hora.
Rute 4:1-2 — E Boaz subiu à porta, e assentou-se ali... e tomou dez homens dos anciãos da cidade.
O portão como espaço de decisão jurídica.
Deuteronômio 21:19 — Levá-lo-ão aos anciãos da sua cidade, e à porta do seu lugar.
A mesma função, na lei.
Provérbios 31:23 — Conhecido é o seu marido nas portas, quando se assenta entre os anciãos da terra.
Estar no portão como marca de posição.
Amós 5:12 — Afligis o justo... e na porta pervertes o direito dos necessitados.
A denúncia dos que corrompem o julgamento no portão.
Gênesis 19:9 — Este aqui veio morar como estrangeiro, e já quer se fazer de juiz?
A acusação que ilumina a posição descrita aqui.
Gênesis 18:23 — Destruirás também o justo com o ímpio?
A pergunta que prepara este capítulo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os dois anjos chegaram a Sodoma ao cair da tarde, e Ló estava sentado à porta da cidade. Assim que os viu, Ló levantou-se para recebê-los e inclinou-se com o rosto até o chão,
Texto hebraico
וַיָּבֹאוּ שְׁנֵי הַמַּלְאָכִים סְדֹמָה בָּעֶרֶב וְלוֹט יֹשֵׁב בְּשַׁעַר־סְדֹם וַיַּרְא־לוֹט וַיָּקָם לִקְרָאתָם וַיִּשְׁתַּחוּ אַפַּיִם אָרְצָה
Transliteração
wayyavou shenei hammalakhim Sedomah baerev weLot yoshev beshaar-Sedom wayyar-Lot wayyaqam liqratam wayyishtachu appayim artsah
Palavra por palavra
שְׁנֵי הַמַּלְאָכִים (shenei hammalakhim) — "os dois mensageiros"
Aqui está a mudança de vocabulário.
Malakh significa mensageiro, enviado. É usado na Bíblia para emissários humanos — mensageiros de reis, por exemplo — e para os seres celestes que traduzimos por anjos.
Note-se o artigo definido: os dois mensageiros. O texto os trata como já conhecidos, remetendo ao capítulo anterior.
בָּעֶרֶב (baerev) — "ao entardecer"
O substantivo designa o fim da tarde, o começo da noite.
Contrasta com a expressão do capítulo 18, que situava a cena no calor do dia.
יֹשֵׁב בְּשַׁעַר־סְדֹם (yoshev beshaar-Sedom) — "sentado à porta de Sodoma"
O particípio indica situação em curso: estava sentado.
Shaar designa o portão da cidade — e, por extensão, o espaço público que ele abrigava.
Vale registrar que a mesma palavra aparece em contextos jurídicos: os anciãos "na porta", as causas levadas "à porta".
וַיָּקָם (wayyaqam) — "e levantou-se"
Do verbo qum, levantar-se, pôr-se de pé.
Compare-se com o verbo empregado para Abraão em 18:2, que é o de correr.
וַיִּשְׁתַּחוּ אַפַּיִם אָרְצָה (wayyishtachu appayim artsah) — "e prostrou-se, faces por terra"
O mesmo verbo de 18:2, com a expressão "faces por terra" acrescentada.
Designa prostração completa, e serve tanto para adoração quanto para reverência a superiores humanos.
Nota — o que os dois capítulos compartilham no hebraico
Vale fechar alinhando as duas aberturas, porque o paralelo é construído com vocabulário e não com comentário.
Em 18:2: Abraão viu, correu ao encontro deles, e prostrou-se por terra.
Aqui: Ló viu, levantou-se ao encontro deles, e prostrou-se, faces por terra.
Três verbos em cada, na mesma ordem, e dois deles idênticos. A expressão "ao encontro deles" é a mesma palavra nos dois lugares.
Ou seja: o narrador constrói as duas cenas com a mesma armação, muda um verbo no meio, e não diz nada a respeito.
Convém não extrair disso julgamento moral — o paralelismo de fórmulas é traço corrente da prosa hebraica, e cenas de acolhida tendem a se parecer porque o protocolo era o mesmo.
Mas a armação está lá, e quem lê os dois capítulos em sequência a reconhece. E o que vem depois de cada uma dessas aberturas é o que o capítulo tem a dizer.
11. Conclusão
Duas trocas de vocabulário abrem este capítulo, e ambas se verificam no original. A primeira diz respeito aos visitantes: o capítulo precedente falava de três homens, empregando o termo comum para seres humanos sem qualquer qualificação; aqui se lê o vocábulo que designa mensageiro, aquele que é despachado com um recado, e que nossas versões vertem por anjo. Reduziu-se também o número, de três para dois — coisa já explicada quando se disse que dois partiram rumo a Sodoma enquanto o patriarca permanecia diante do terceiro. Convém precisar o alcance dessa mudança: ela autoriza afirmar que os dois enviados à cidade são seres enviados, mas não desata o nó do capítulo anterior, onde a relação entre o SENHOR e os três jamais se articula. Enxergar aqui a confirmação de que os três seriam anjos excede o que os textos permitem, pois um chama todos de homens e o outro chama dois de mensageiros.
A segunda troca é de hora. Lá, o calor do meio-dia; aqui, o cair da tarde. E isso pesa mais do que parece: alcançar uma cidade ao anoitecer sem pouso configurava risco concreto, já que os portões se fechavam e quem permanecesse do lado de fora, ou na via pública, ficava exposto. Daí que a oferta de abrigo, no versículo seguinte, não seja delicadeza supérflua — é o que separa o viajante do perigo.
Resta o dado mais denso, que a tradução torna banal: Ló achava-se sentado à porta da cidade. Portões, no Levante antigo, não eram meras passagens; escavações revelam construções com câmaras laterais, bancos corridos de pedra e praças internas, arquitetura destinada a juntar gente. Negociava-se ali, davam-se ali os pregões, e ali sobretudo se administrava justiça — Boaz sobe ao portão e convoca dez anciãos para resolver o resgate; a legislação deuteronômica manda levar as causas ao portão; Provérbios retrata o homem de respeito como conhecido nas portas, assentado entre os anciãos; Amós fulmina os que na porta pervertem o direito dos necessitados. Sentar-se ali, portanto, não é passar por ali. É ocupar lugar. Cabe a ressalva de que o texto não atribui a Ló cargo algum, e a expressão indica frequência, não função; mas oito versículos adiante os homens da cidade o acusarão de pretender bancar o juiz, lembrando-lhe a condição de quem veio de fora — sinal de que algo naquela posição tornava a acusação possível. E o capítulo montará a ironia: quem se assenta onde se julga terá negada, em pouco tempo, qualquer autoridade para julgar.
Quanto ao acolhimento, as duas aberturas se espelham no hebraico com precisão notável. Naquela: viu, correu ao encontro deles, prostrou-se por terra. Nesta: viu, levantou-se ao encontro deles, prostrou-se com as faces em terra. Três verbos de cada lado, na mesma ordem, dois deles idênticos, e a locução "ao encontro deles" repetida palavra por palavra. Muda-se apenas o verbo do meio. Não convém extrair daí sentença moral — o paralelismo de fórmulas é próprio da prosa hebraica, e cenas de acolhida se parecem porque o protocolo era um só; ainda assim a armação existe, e quem percorre os dois capítulos em sequência a reconhece. O que cada uma dessas aberturas produz em seguida é, precisamente, o que este capítulo tem a dizer.













