Os filhos de Israel lhes disseram: “Quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR na terra do Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne, quando comíamos pão até nos fartar! Pois vocês nos trouxeram a este deserto para matar de fome toda esta assembleia.”
1. Introdução
É a primeira vez que o povo fala bem do Egito: lá havia uma panela de carne e pão até fartar, e aqui, no deserto, só a fome.
A fala começa por um desejo de morte — "quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR" — e termina com uma acusação de homicídio contra Moisés e Arão.
Entre uma coisa e outra, o país da escravidão vira o país da mesa farta, com palavras que a Bíblia costuma reservar para a bênção da terra prometida.
Os intérpretes discutem de quem era essa memória, se tinha base e o que significa preferir a mão de Deus no Egito ao caminho no deserto.
E a arqueologia oferece um dado incômodo: trabalhadores do Estado egípcio podiam, de fato, comer carne.
2. Contexto Histórico e Cultural
O que comia quem trabalhava para o faraó
A fala do povo descreve uma dieta: pão à vontade e carne cozida numa panela comum. Para saber se isso era plausível, é preciso saber o que comia, no Egito, a gente que trabalhava para o Estado. A resposta vem de três tipos de fonte, e elas não dizem a mesma coisa.
O que a arqueologia achou em Gizé
Ao sul da Esfinge, junto a um grande muro de pedra que em árabe se chama Heit el-Ghurab ("o Muro do Corvo"), foi escavado desde 1988 o povoado dos trabalhadores das pirâmides, que ficou conhecido pelo nome do muro. O povoado e o cemitério vizinho estão apresentados no estudo de Êxodo 6:9; aqui interessa o que se comia ali.
O povoado tinha padarias industriais. Os arqueólogos acharam fileiras de fornos com os moldes de pão ainda no lugar: potes grossos de cerâmica em forma de sino, chamados pelos egiptólogos de bedja, que eram aquecidos nas brasas, enchidos de massa e cobertos. Cada um produzia um pão grande e cônico. Hanan Mahmoud e Rabee Eissa publicaram o estudo dessas padarias. Era o pão padrão das equipes do Estado.
O dado mais surpreendente veio dos ossos. Richard Redding (zooarqueólogo — especialista em restos de animais — da Universidade de Michigan e da equipe que escava o sítio) analisou cerca de cento e setenta e cinco mil fragmentos de ossos de animais do povoado. A maior parte é de bois, ovelhas e cabras, com uma parcela pequena de porcos. Pelas contas dele, o povoado consumia em média, todos os dias, algo como mil e oitocentos quilos de carne. Os animais não eram criados ali: vinham tocados de propriedades do delta do Nilo, num sistema administrativo montado para abastecer as obras. A conclusão de Redding foi direta: aqueles trabalhadores provavelmente comiam melhor do que se comia nas aldeias, e com certeza comiam mais carne.
O que esses dados permitem dizer
Três ressalvas acompanham o achado.
A primeira é de data. O povoado de Gizé é do Império Antigo, por volta de 2500 a.C. — mais de mil anos antes de qualquer data proposta para a saída do Egito.
A segunda é de condição. Os trabalhadores de Gizé eram equipes convocadas e mantidas pelo Estado, não escravos. O Êxodo descreve outra coisa: um povo estrangeiro submetido a trabalho forçado "com brutalidade" (Êxodo 1:13-14).
A terceira é de distribuição. Os números de Redding são médias do povoado inteiro. Eles não dizem quanto cabia ao supervisor e quanto ao carregador de pedra, e é plausível que a carne de boi fosse sobretudo de quem mandava.
Feitas as ressalvas, fica o dado que importa: o Estado egípcio alimentava a sua mão de obra, e às vezes com carne. A panela do versículo tem fundo real.
A carne no cotidiano
Fora das obras do Estado, a base da comida egípcia era pão e cerveja, com cebola, legumes e peixe seco. Carne de boi era comida de festa e de oferenda: os templos recebiam os animais sacrificados e redistribuíam a carne ao pessoal ligado a eles. Cenas de cozinha pintadas e esculpidas em túmulos mostram carne cortada e cozida em grandes caldeirões sobre o fogo. É exatamente a palavra que a Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) usa neste versículo: não "panela", mas "caldeirões de carnes".
3. Análise Teológica do Versículo
"Os filhos de Israel lhes disseram"
No versículo anterior o sujeito era "toda a congregação"; agora são "os filhos de Israel", e a fala é dirigida "a eles", Moisés e Arão. É a primeira fala longa do povo no deserto, e tudo o que o leitor sabe da fome, neste ponto, sabe por ela.
"Quem dera tivéssemos morrido"
A expressão hebraica é uma fórmula de desejo, "quem dará", e o desejo é estranho: não é morrer agora, é ter morrido antes. O povo não pede a morte; lamenta não ter morrido no lugar e no momento certos.
Sforno (Obadias Sforno, médico e comentarista italiano do século XVI) lê assim: eles não queriam morrer; queriam dizer que, se Deus planejava matá-los, devia tê-lo feito enquanto ainda estavam saciados da última refeição. E cita Lamentações 4:9: "mais felizes foram os mortos pela espada do que os mortos pela fome". A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo) põe o mesmo versículo na boca de Rabi Josué ben Karcha: não há morte pior do que a fome.
"pela mão do SENHOR"
De que morte o povo está falando? Os intérpretes deram quatro respostas.
Primeira leitura: as pragas, sobretudo a última. É a de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e do Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX): quem dera Deus nos tivesse ferido com uma morte sem dor, como fez com os primogênitos do Egito. A Septuaginta torna isso explícito e traduz "quem dera tivéssemos morrido feridos pelo Senhor" — o verbo grego é o das pragas. A Mekhilta propõe uma variante: os três dias de escuridão, em que, segundo a tradição rabínica, morreram os israelitas que não queriam sair.
Segunda leitura: a morte natural. É a de Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII), que remete a Jó 5:26, "você chegará à sepultura em idade madura". Morrer "pela mão do SENHOR" seria morrer a morte comum, a que Deus manda a todos, e não a morte de fome que os homens provocam. Nessa leitura não há alusão às pragas: há o contraste entre a morte normal e a morte imposta.
Terceira leitura: morrer culpado, em vez de inocente. É a do Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII). Se tivessem ficado no Egito, recusando-se a sair, teriam morrido pela mão de Deus como castigo; preferiam essa morte merecida a morrer de fome no deserto sem ter pecado. É uma leitura dura e coerente: a queixa denuncia que a obediência deu em fome.
Quarta leitura: a mão é só uma figura, e convém evitá-la. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) não traduz "mão": escreve "diante do SENHOR". O Targum de Pseudo-Jônatas escreve "pela Palavra do SENHOR". As duas traduções aramaicas evitam atribuir a Deus um membro do corpo, e com isso apagam a imagem.
Qualquer que seja a morte, a expressão tem peso dentro do livro. "A mão do SENHOR" é, no Êxodo, a mão que pesou sobre o Egito — "a mão do SENHOR virá sobre os seus rebanhos" (Êxodo 9:3) — e a mão que tirou Israel de lá: "com mão forte o SENHOR os tirou daqui" (Êxodo 13:3); "Israel viu a grande mão" (Êxodo 14:31). O povo invoca a mesma mão, mas do lado de quem morreu. Prefere ter recebido o golpe com os egípcios a ter sido conduzido por ela até aqui.
E há uma divisão de papéis na fala que passa despercebida. A morte boa, no Egito, seria obra do SENHOR. A morte ruim, no deserto, é obra de Moisés e Arão — "vocês nos trouxeram". O povo não acusa Deus. Atribui a Deus o que teria sido melhor e aos líderes o que está acontecendo.
"na terra do Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne"
A cena é de repouso. Sentar-se junto à panela é a postura de quem espera a comida, não de quem trabalha. Rashbam esclarece a preposição: "junto a", ao lado, como em Números 2:20. O hebraico diz "a panela", no singular: a imagem é a de uma panela comum, em volta da qual se senta um grupo.
Essa memória tinha base? A resposta divide os comentaristas em dois campos.
Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Poole (Matthew Poole, comentarista puritano inglês do século XVII) tratam a frase como exagero: escravos sob trabalho pesado não teriam carne na panela com frequência, e o povo aumenta o passado para agravar o presente. Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) e o Pulpit Commentary dizem o contrário: os egípcios alimentavam bem quem empregavam em trabalho forçado, e a dieta incluía carne, peixe, pão e verduras. O item 2 mostra que a segunda posição tem apoio arqueológico, com as ressalvas de data e de condição.
A tradição judaica achou um terceiro caminho: perguntar quem está falando. A Mekhilta põe na boca de Rabi Elazar de Modiim uma reconstrução: os israelitas eram servos do rei, e quando iam ao mercado podiam pegar pão, carne e peixe sem que ninguém os impedisse. O Or HaChaim vai na direção oposta: a frase mostra que quem disse isso não era o trabalhador braçal, que no Egito só comia pão sem fermento, e sim os capatazes israelitas — talvez, arrisca ele, os notórios Datã e Abirão. A panela de carne seria a lembrança de uma minoria privilegiada, que deu voz à queixa de todos.
O texto do Êxodo tem um dado que pesa nessa discussão e quase nunca é notado. Nos capítulos 1 a 12, a opressão no Egito é descrita como trabalho brutal, vida amargurada, tijolos sem palha, açoites e meninos lançados ao rio. A fome nunca aparece. O livro não diz em nenhum momento que os israelitas passavam fome no Egito. A fala do povo, portanto, não contradiz o relato: ela escolhe dele a única coisa que não doía. A idealização não está em inventar a panela. Está em lembrar só dela.
"quando comíamos pão até nos fartar"
A expressão "comer pão até fartar" não é neutra na Bíblia hebraica. É a fórmula da bênção da terra prometida: "comerão o seu pão até se fartarem e habitarão seguros na sua terra" (Levítico 26:5; também Levítico 25:19). O povo aplica ao Egito, a casa da servidão, a frase que a aliança reserva para Canaã.
E a resposta de Deus aceita a medida da queixa. Em Êxodo 16:8, Moisés anuncia "de manhã pão até se fartarem"; em Êxodo 16:12, Deus diz "de manhã se fartarão de pão". A palavra da reclamação volta, na promessa, sem correção.
Que a fome era real, e não só retórica, decorre da saída sem provisão, assunto do estudo de Êxodo 12:39.
"Pois vocês nos trouxeram a este deserto"
O verbo é o da saída do Egito, e o sujeito é "vocês", no plural: Moisés e Arão. O povo atribui aos dois o ato que o livro inteiro atribui a Deus.
O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) lê aqui uma acusação precisa. O povo não nega que Deus quisesse libertar Israel; acha que Deus queria levar só um grupo pequeno, os anciãos e os justos, que se sustentariam com os rebanhos até chegar à terra. Moisés e Arão teriam arrastado também a massa que não queria sair — e agora todos morreriam. É leitura do comentarista, sem apoio direto no texto; mostra uma queixa que reconhece a vontade de Deus e acusa o excesso dos seus agentes.
Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) fica com o adjetivo: "este deserto" e "esta assembleia". Uma multidão tão grande, num deserto tão grande, vai morrer de fome. A queixa é de escala.
"para matar de fome toda esta assembleia"
O povo não diz "para morrermos", como junto ao mar (Êxodo 14:11). Diz "para matar". O verbo atribui intenção: Moisés e Arão teriam trazido o povo ao deserto com o objetivo de matá-lo.
E o povo se chama de "assembleia", não de "congregação", como no versículo anterior. São duas palavras hebraicas diferentes, e a tradução ABC as distingue; a Septuaginta usa a mesma palavra grega para as duas e apaga a diferença. "Assembleia" é o termo do povo reunido diante de Deus — "toda a assembleia da congregação de Israel" imola o cordeiro em Êxodo 12:6. O povo usa para si, na hora de dizer que vai morrer, a palavra da reunião sagrada.
A última palavra é "fome", e ela tem história. É a fome que levou Abraão ao Egito (Gênesis 12:10), e a que levou Jacó e os filhos para lá (Gênesis 42-47). Em todo o Gênesis, o Egito é o lugar para onde se vai quando há fome. Agora a fome aparece por ter saído dele. A frase inverte o mapa que o leitor trazia desde Abraão.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os filhos de Israel — quem fala. O versículo anterior dizia "toda a congregação"; aqui o sujeito é o povo como descendência. A tradição judaica perguntou quais deles falavam (item 3): os servos do rei, segundo a Mekhilta; os capatazes, segundo o Or HaChaim.
Moisés e Arão — os destinatários, chamados de "vocês" e acusados de ter trazido o povo ao deserto para matá-lo.
O SENHOR — mencionado uma só vez, e como autor da morte que o povo teria preferido. A acusação não é dirigida a ele; Moisés vai corrigir isso em Êxodo 16:8.
O Egito — descrito pela primeira vez, na boca do povo, como lugar de comida. Nos capítulos anteriores, só como lugar de trabalho brutal, de morte de meninos e de clamor.
A panela de carne — o grande pote de cozinhar, onde se cozia a carne em pedaços. A Septuaginta fala em "caldeirões". É o objeto que resume a memória do Egito nesta fala.
O deserto — "este deserto", o deserto de Sim, apontado com desprezo.
O acontecimento — a segunda queixa do deserto e a primeira com idealização do Egito. Segundo a tradição rabínica, aconteceu no dia em que acabou o pão trazido na saída; no dia seguinte, Deus responde com a promessa do pão do céu (Êxodo 16:4).
5. Pontos de Ensino
A memória escolhe
O povo não inventa que havia comida no Egito; o próprio Êxodo nunca diz que faltava. O que a fala faz é deixar de fora tudo o que não era comida. A idealização do passado raramente é mentira pura: é seleção.
A bênção atribuída ao lugar errado
"Pão até fartar" é a promessa da terra para onde o povo vai. Aplicá-la ao Egito é pôr no passado o que estava prometido para o futuro. O versículo mostra o povo de costas para a direção em que caminha.
A fome muda o sentido do Egito
Desde Abraão, o Egito era o lugar para onde se descia quando faltava pão. Sair dele e ter fome inverte a geografia da salvação que o Gênesis tinha montado. A queixa é dura, mas usa uma lógica que o próprio cânon ensinou.
6. Aspectos Filosóficos
A saudade de um lugar que talvez nunca tenha existido
Um mês depois de sair do Egito, o povo lembra dele como o lugar da panela de carne e do pão até fartar. O trabalho brutal, os tijolos, os açoites e os meninos jogados no rio não entram na lembrança. A pergunta que o versículo levanta é sobre a saudade: o que acontece com a memória de um lugar quando quem se lembra está sofrendo no presente? E por que a saudade, tão humana, pode se tornar perigosa?
Uma doença com data de nascimento
A palavra "nostalgia" foi inventada. Em 1688, Johannes Hofer, estudante de medicina suíço, apresentou em Basileia uma tese sobre uma doença que afetava soldados suíços servindo longe de casa: tristeza, insônia, perda de apetite, febre, às vezes morte. Juntou duas palavras gregas, nóstos ("volta para casa") e álgos ("dor"), e deu nome ao mal. A nostalgia nasceu como diagnóstico médico de quem não podia voltar.
Svetlana Boym (1966-2015), ensaísta e professora de literatura comparada em Harvard, nascida em Leningrado e emigrada para os Estados Unidos em 1981, contou essa história e a levou adiante no livro The Future of Nostalgia ("O futuro da nostalgia", 2001). O ponto de partida foi a onda de saudade da União Soviética que tomou a Rússia nos anos 1990, quando muita gente passou a lembrar com carinho de um regime que a tinha oprimido. A definição dela é a frase mais citada do livro: a nostalgia é a saudade de um lar que não existe mais, ou que nunca existiu.
As duas nostalgias
Boym distingue dois tipos.
A nostalgia restauradora põe o peso na volta. Ela quer reconstruir o lar perdido, e reconstruí-lo como foi — ou como acha que foi. Não se vê como saudade, e sim como verdade e tradição. É a nostalgia dos movimentos que prometem devolver uma época de ouro, e é a que Boym considera perigosa, porque confunde o lar real com o imaginado e está disposta a sacrificar o presente para restaurá-lo.
A nostalgia reflexiva põe o peso na dor. Ela habita a saudade, sabe que o passado não volta, desconfia das próprias lembranças e se permite ironia. Não quer reconstruir; quer entender o que perdeu e o que a perda fez com ela.
O versículo diante das duas
A fala do povo tem os traços da nostalgia restauradora. O Egito lembrado é inteiro bom, sem ironia e sem dúvida, e a lembrança é usada como argumento contra o presente e contra quem o conduz. É o "lar que nunca existiu" de Boym: não um Egito falso em cada detalhe, mas um Egito montado com os detalhes certos e sem os outros.
Mas há uma diferença que o texto marca e que a categoria de Boym ajuda a ver. O povo, aqui, ainda não propõe voltar. Não diz "voltemos ao Egito"; diz "quem dera tivéssemos morrido lá". A saudade ainda não virou programa. Isso só acontecerá depois, em Números 14:4, quando o povo propõe escolher outro chefe e retornar. O deserto de Sim mostra a nostalgia na fase em que ela ainda é lamento — e o resto do Pentateuco mostra até onde ela pode ir.
A nostalgia como experiência do irreversível foi tratada, com Jankélévitch, no estudo de Gênesis 27:33; Boym acrescenta a dimensão coletiva e política — a saudade de um povo inteiro, usada contra quem o governa.
O limite
Boym escreve sobre a modernidade, sobre emigrantes e sobre a Rússia pós-soviética. O texto do Êxodo não conhece a palavra nem a categoria, e ler a fala do povo como "nostalgia restauradora" é leitura possível, não sentido do versículo. A aproximação serve para ver que a fala tem uma estrutura conhecida — o passado escolhido a dedo e posto contra o presente —, e que o texto não a trata com desprezo, mas com resposta.
7. Aplicações Práticas
Lembrar o passado inteiro
Em toda transição difícil — uma mudança de cidade, de emprego, de casamento, de país — o lugar de antes tende a voltar à memória com as partes boas e sem as outras. O versículo não condena a lembrança; mostra o que ela deixa de fora. Quem está no meio de uma travessia ganha em fazer a conta inteira: o que havia de bom e o que obrigou a sair.
Desconfiar da unanimidade da saudade
A tradição judaica perguntou quem, de fato, tinha comido carne no Egito, e a resposta provável é que nem todos. Quando um grupo idealiza um tempo passado, vale perguntar de quem é a lembrança — muitas vezes ela é de quem estava melhor, e é contada como se fosse de todos.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se tinham rebanhos, por que falavam em morrer de fome?
O povo saiu do Egito com "rebanhos e gado, muitíssimo numerosos" (Êxodo 12:38), e em Refidim ainda terá gado para dar de beber (Êxodo 17:3). Matthew Henry (pastor inglês do século XVIII, autor do comentário devocional mais lido em língua inglesa) acha a queixa absurda por isso. A resposta mais provável é a de quem conhece a vida pastoril: o rebanho é capital, não despensa. Dele se vive de leite, lã e crias; abater as matrizes é comer o futuro. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) diz que em trinta dias a maior parte já tinha sido consumida, e Gill lembra que parte estava reservada para os sacrifícios. O próprio Moisés, mais tarde, fará a conta e concluirá que o gado não bastaria para alimentar o povo (Números 11:22).
A fala é pecado?
O texto não a chama assim, e a resposta divina não traz castigo. Moisés dirá apenas que a queixa, no fundo, é contra o SENHOR (Êxodo 16:8). A dureza da fala está no desejo de morte e na acusação de homicídio; o Êxodo registra as duas e responde com comida.
O povo queria voltar ao Egito?
Não neste versículo. Ninguém propõe voltar; o desejo é ter morrido lá. A proposta de retorno aparece só depois do Sinai, em Números 14:4. A diferença importa para não fazer deste versículo uma rebelião que ele ainda não é.
Quem eram os que se sentavam junto à panela?
O texto não diz. A Mekhilta pensa nos servos do rei, com acesso livre ao mercado; o Or HaChaim, nos capatazes. As duas leituras têm em comum a ideia de que a lembrança da carne não era de todos. Não é possível decidir com o que o versículo oferece.
9. Conexão com Outros Textos
O que o Êxodo tinha dito do Egito
Êxodo 1:13-14 — "Por isso os egípcios escravizaram os filhos de Israel com brutalidade e amarguraram a vida deles com trabalho pesado: a argamassa, os tijolos e todo o serviço do campo. Todo o trabalho que lhes impunham era com brutalidade."
É o retrato que a fala de Êxodo 16:3 apaga. Não há comida nele, nem para dizer que havia, nem para dizer que faltava.
A promessa feita por Faraó a Jacó
Gênesis 45:18 — "tomem o seu pai e as suas famílias e venham a mim, que eu lhes darei o melhor da terra do Egito, e vocês comerão da fartura da terra."
Foi assim que Israel entrou no Egito: convidado a comer o melhor da terra. A palavra hebraica de "fartura", ali, é outra (a gordura da terra), mas a ideia é a mesma. A memória do povo no deserto guarda o Egito da chegada, não o da saída.
A bênção da terra prometida
Levítico 26:5 — "A debulha durará até a vindima, e a vindima durará até a semeadura; vocês comerão o seu pão até se fartarem e habitarão seguros na sua terra."
A mesma expressão de Êxodo 16:3, "pão até fartar", aplicada à terra de Canaã como recompensa da obediência.
A segunda saudade, com o cardápio inteiro
Números 11:18 — "…porque vocês choraram aos ouvidos do SENHOR, dizendo: 'Quem nos dará carne para comer? Porque estávamos bem no Egito.' Pois o SENHOR lhes dará carne, e vocês comerão."
A saudade do Egito volta depois do Sinai, com um cardápio inteiro (Números 11:5, cujo peixe é estudado em Êxodo 7:21) e já com a palavra "bem". Ali a resposta vem com castigo, o que não acontece no deserto de Sim.
A saudade que vira programa
Números 14:3-4 — "Por que o SENHOR nos traz a esta terra para cairmos à espada? As nossas mulheres e os nossos filhos serão presa. Não seria melhor voltarmos ao Egito?" E disseram uns aos outros: "Escolhamos um chefe e voltemos ao Egito."
O que em Êxodo 16:3 era desejo de ter morrido vira plano de retorno.
A panela e a carne em Ezequiel
Ezequiel 11:3 e 11:7 — "Eles dizem: 'Não está perto o tempo de construir casas; esta cidade é a panela, e nós somos a carne.' […] Por isso, assim diz o Senhor DEUS: 'Os mortos que vocês deixaram no meio dela, esses são a carne, e ela é a panela; mas vocês, eu os tirarei do meio dela.'"
As mesmas duas palavras hebraicas, "panela" e "carne", numa imagem de segurança falsa: os chefes de Jerusalém se veem protegidos dentro da cidade como a carne na panela. E a resposta de Deus usa o verbo da saída do Egito, "eu os tirarei". Não há indício de que Ezequiel aluda ao Êxodo; o vocabulário, porém, é o mesmo, e nos dois textos o lugar da panela é o lugar de onde Deus tira o povo.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Os filhos de Israel lhes disseram: “Quem dera tivéssemos morrido pela mão do SENHOR na terra do Egito, quando nos sentávamos junto à panela de carne, quando comíamos pão até nos fartar! Pois vocês nos trouxeram a este deserto para matar de fome toda esta assembleia.”
Texto hebraico
וַיֹּאמְרוּ אֲלֵהֶם בְּנֵי יִשְׂרָאֵל מִי־יִתֵּן מוּתֵנוּ בְיַד־יְהוָה בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם בְּשִׁבְתֵּנוּ עַל־סִיר הַבָּשָׂר בְּאָכְלֵנוּ לֶחֶם לָשֹׂבַע כִּי־הוֹצֵאתֶם אֹתָנוּ אֶל־הַמִּדְבָּר הַזֶּה לְהָמִית אֶת־כָּל־הַקָּהָל הַזֶּה בָּרָעָב׃
Transliteração
va-yomeru aleihem benei Yisra'el: mi-yitten mutenu ve-yad-YHWH be-erets Mitsrayim, be-shivtenu al-sir ha-basar, be-okhlenu lechem la-sova'; ki-hotse'tem otanu el-ha-midbar ha-zeh le-hamit et-kol-ha-qahal ha-zeh ba-ra'av.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמְרוּ אֲלֵהֶם — va-yomeru aleihem, "e disseram a eles". Raiz amar, "dizer", no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa do plural; aleihem, a preposição de destinatário com o sufixo "eles": Moisés e Arão.
מִי־יִתֵּן — mi-yitten, literalmente "quem dará?". O pronome interrogativo mi, "quem", e o verbo natan, "dar", no imperfeito. A pergunta virou fórmula de desejo: "quem dera", "oxalá". Em Deuteronômio 28:67 serve para o que não se pode ter: "de manhã você dirá: quem dera fosse tarde!".
מוּתֵנוּ — mutenu, "o nosso morrer". Infinitivo de mut, "morrer", com o sufixo de primeira pessoa do plural. A vogal decide que é o ato de morrer, e não o substantivo "morte"; o ponto, levantado por Rashi (Salomão ben Isaac, França, século XI), está desenvolvido no estudo de Êxodo 14:12.
בְיַד־יְהוָה — ve-yad-YHWH, "pela mão do SENHOR". A preposição be-, aqui instrumental ("por meio de"), e yad, "mão", na forma de ligação com o nome divino. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) traduz por plēgentes hypo kyriou, "feridos pelo Senhor", com o verbo grego das pragas.
בְּאֶרֶץ מִצְרַיִם — be-erets Mitsrayim, "na terra do Egito".
בְּשִׁבְתֵּנוּ — be-shivtenu, "quando nos sentávamos", literalmente "no nosso sentar". Infinitivo de yashav, "sentar", "habitar", com a preposição be- em sentido de tempo, "quando". O mesmo verbo significa "morar".
עַל־סִיר הַבָּשָׂר — al-sir ha-basar, "junto à panela da carne".
Al é "sobre", mas Rashbam (Samuel ben Meir, comentarista francês do século XII) mostra que aqui vale "junto a", como em Números 2:20. Sir é o pote grande de cozinhar, de barro ou de metal. É a palavra da "panela fervente" de Jeremias 1:13, das panelas do altar (Êxodo 27:3) e do cozido de 2 Reis 4:38-40, em que se grita "há morte na panela". Basar, "carne", com o artigo: a carne, a de sempre.
A Septuaginta põe o plural, "os caldeirões das carnes", e as traduções modernas costumam seguir com "panelas". O hebraico tem uma panela só.
בְּאָכְלֵנוּ לֶחֶם לָשֹׂבַע — be-okhlenu lechem la-sova', "quando comíamos pão até a saciedade".
Be-okhlenu repete a construção anterior: infinitivo de akhal, "comer", com be- e o sufixo "nós". Lechem é o pão, e também, em sentido largo, a comida. La-sova' é a preposição le- com o substantivo sova', "saciedade", "fartura": "até a fartura". A expressão completa, "comer pão até a fartura", reaparece em Levítico 26:5 e, com pequena variação, em Levítico 25:19, como bênção da terra. A raiz volta na resposta (Êxodo 16:8 e 16:12).
כִּי־הוֹצֵאתֶם אֹתָנוּ — ki-hotse'tem otanu, "pois vocês nos fizeram sair". Ki, "pois", "porque". O verbo é yatsa', "sair", no Hifil (a forma causativa, "fazer sair"), segunda pessoa do masculino plural. É o verbo do credo do Êxodo, cujo sujeito é Deus; aqui o sujeito são Moisés e Arão. Otanu, a partícula de objeto direto com o sufixo "nós".
אֶל־הַמִּדְבָּר הַזֶּה — el-ha-midbar ha-zeh, "a este deserto". O demonstrativo ha-zeh vem depois do substantivo, com artigo, como é regra em hebraico. Aparece duas vezes na frase: "este deserto", "esta assembleia".
לְהָמִית — le-hamit, "para fazer morrer", "para matar". Infinitivo de mut, "morrer", no Hifil: a forma causativa transforma "morrer" em "fazer morrer". É a mesma raiz do mutenu do começo do versículo. A frase abre com "o nosso morrer" pela mão de Deus e fecha com "fazer morrer" pela mão dos líderes.
אֶת־כָּל־הַקָּהָל הַזֶּה — et-kol-ha-qahal ha-zeh, "toda esta assembleia". Qahal é a assembleia convocada, a reunião, palavra de uma raiz que significa "reunir". Distingue-se de edah, "congregação", do versículo anterior, e as duas aparecem juntas em Êxodo 12:6. A Septuaginta traduz as duas por synagōgē. Em outros livros, traduz qahal por ekklēsia, de onde vem "igreja".
בָּרָעָב — ba-ra'av, "de fome", literalmente "com a fome". A preposição be-, instrumental, com o artigo e o substantivo ra'av, "fome", "carestia". É a palavra das fomes do Gênesis, de Abraão (Gênesis 12:10) a José (Gênesis 41).
11. Conclusão
Do que se examinou, o versículo leva a três conclusões.
A idealização do Egito é feita de seleção, não de invenção. O próprio Êxodo nunca diz que o povo passava fome no Egito, e a arqueologia mostra que o Estado egípcio alimentava a sua mão de obra, às vezes com carne. A fala do povo não mente sobre a panela. Ela mente pela omissão do resto: a brutalidade, os tijolos, os meninos no rio. A memória que o deserto produz é a do Egito sem o Egito.
A queixa distribui os papéis de modo calculado. A morte boa seria da mão do SENHOR; a ruim é obra de Moisés e Arão. O povo não acusa Deus — acusa os seus agentes e chama de homicídio o que o livro chama de libertação. Por isso a correção que virá não é "vocês ofenderam a Deus", mas "não é contra nós, é contra ele".
O passado é medido com a régua do futuro. "Pão até fartar" é a promessa da terra para onde o povo vai, e a fome, desde Abraão, era o motivo para descer ao Egito, não para sair dele. O povo usa o vocabulário da esperança para descrever o que deixou para trás. E Deus responde na mesma língua, prometendo o pão e a fartura sem discutir a lembrança — o que diz que, neste ponto do caminho, a necessidade conta mais do que a correção da memória.













