E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto.
1. Introdução
O versículo tem dez palavras em hebraico e diz uma coisa só: toda a congregação murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto.
O que ele traz de novo em relação à primeira queixa, em Mara, está nos detalhes: ali "o povo" murmurou; aqui, "toda a congregação". Ali o alvo era Moisés; aqui, Moisés e Arão.
Também não diz por quê. Em Mara e em Refidim o texto conta primeiro a falta e depois a queixa; aqui a queixa vem sozinha, e o motivo só aparece na boca de quem reclama.
E a última palavra, "no deserto", parece desnecessária, a ponto de a tradução grega antiga a ter deixado de fora — mas os comentaristas judeus viram nela o próprio objeto da queixa.
Por trás de tudo isso há uma pergunta que atravessa o versículo: como uma multidão inteira chega a falar com uma só voz?
2. Contexto Histórico e Cultural
A assembleia como instituição
A palavra que o versículo usa para o povo não é a mais comum. "Povo" seria o termo de etnia e de pertença. "Congregação" designa outra coisa: o povo enquanto corpo reunido, capaz de agir e de falar como sujeito. É palavra de instituição, e a instituição tem história no mundo em que o Êxodo foi escrito.
A assembleia nas cidades da Mesopotâmia
Em 1943, Thorkild Jacobsen (assiriólogo dinamarquês radicado nos Estados Unidos, professor em Chicago e em Harvard) publicou um artigo que ficou clássico, "Primitive Democracy in Ancient Mesopotamia" ("Democracia primitiva na Mesopotâmia antiga"). A tese era que, antes de os reis concentrarem o poder, as cidades sumérias decidiam os assuntos graves numa assembleia de homens livres, que os textos acadianos chamam de puḫrum ("reunião", "assembleia").
A prova principal dele vinha de um poema sumério, Gilgamesh e Aga. A cidade de Kish exige a submissão de Uruk. Gilgamesh, rei de Uruk, leva a questão primeiro aos anciãos, que aconselham ceder; depois leva à assembleia dos homens da cidade em idade de guerra, que decidem resistir. O rei precisa das duas instâncias para agir. Jacobsen viu ali a memória de um governo em que a palavra da reunião pesava.
A mesma estrutura aparece no céu. Nos mitos mesopotâmicos os deuses também decidem em assembleia, debatem e aclamam um líder. E em Ugarite (cidade da costa da Síria cujos textos, do século XIII antes de Cristo, são os mais próximos da língua e da cultura de Israel), o poema de Kirta fala da "assembleia dos deuses" com a mesma palavra hebraica do versículo, 'dt. O Salmo 82:1 conserva o uso: "Deus está de pé na congregação divina".
A tese de Jacobsen foi discutida e corrigida desde então; ninguém sustenta hoje uma "democracia" suméria no sentido moderno. Mas ficou o dado de que, no Oriente antigo, a assembleia era uma forma reconhecida de um grupo existir politicamente — e de falar contra quem o governava.
Quem é "toda a congregação" em Israel
No Pentateuco, a congregação é o conjunto dos homens adultos contados no censo (Números 1:2), que se reúne à porta da tenda, é convocada por trombetas (Números 10:2-3) e tem chefes próprios — "os príncipes da congregação", que aparecem neste mesmo capítulo, em Êxodo 16:22.
Jacob Milgrom (estudioso judeu norte-americano do século XX, autor de um grande comentário ao Levítico) defendeu em 1978 que essa congregação podia agir por meio dos seus representantes: quando o texto diz que "toda a congregação" fez algo, às vezes quem age é o corpo dos chefes em nome de todos. A tradução judaica norte-americana revisada de 2023 incorporou a possibilidade numa nota a este versículo: "toda a congregação" ou "a liderança, em nome de todos", com remissão ao versículo 22. É hipótese, e o texto não decide.
Milgrom tirou dessa palavra também um argumento de data. A congregação como corpo político some da Bíblia depois do começo da monarquia; os livros posteriores preferem a outra palavra, "assembleia" — justamente a que o povo usa para si mesmo no versículo seguinte. Para ele, isso indicaria que o vocabulário destas passagens é antigo. O argumento é discutido: outros estudiosos atribuem a mesma distribuição a escolha de estilo, e não a idade.
3. Análise Teológica do Versículo
"E toda a congregação dos filhos de Israel"
Na primeira queixa do deserto, em Mara, o sujeito era "o povo" (Êxodo 15:24). Agora é "toda a congregação dos filhos de Israel", o nome mais solene e mais completo que o livro tem para o grupo. O versículo anterior já o usou para a chegada; este o usa para a queixa.
Todos reclamaram mesmo? Os intérpretes deram três respostas.
Primeira leitura: sim, todos, porque agora a falta era de outra natureza. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) diz que em Mara só uma parte reclamou e que aqui reclamou o povo inteiro. O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) explica a diferença: em Mara ninguém tinha chegado a passar sede de verdade, e havia esperança de que Deus os sustentasse sem água, como nos três dias anteriores; sem comida, porém, ninguém vive por natureza, e por isso todos se queixaram. Malbim (Meir Leibush Weisser, rabino e comentarista ucraniano do século XIX) acrescenta que a palavra inclui os anciãos: em Mara reclamou a massa; aqui, também os que tinham autoridade.
Segunda leitura: a liderança falou em nome de todos. É a possibilidade, levantada por estudiosos modernos, de que "toda a congregação" designe aqui o corpo dos chefes (item 2). Ela teria apoio no versículo 22, em que "os príncipes da congregação" vêm a Moisés. O versículo seguinte complica a leitura, porque quem fala ali são "os filhos de Israel".
Terceira leitura: a unanimidade foi feita de duas queixas diferentes. É a do Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII). Ele acha improvável que uma multidão tão grande estivesse de acordo em se queixar de Deus e do profeta. Para ela parecer uma só voz, diz ele, foram precisos dois grupos: um pequeno, de gente que no Egito comia carne, e um grande, que comia pão; um pedia uma coisa, o outro pedia outra, e a soma deu "toda a congregação". O versículo seguinte, de fato, junta as duas queixas, a carne e o pão.
O texto diz "toda" e não explica. O que se pode afirmar é que a palavra marca uma escala nova: a queixa deixou de ser de uma parte e passou a ser do corpo inteiro, ou de quem falava por ele.
"murmurou"
O verbo é o mesmo de Mara. A história dele, o ciclo de queixas que ele abre e a divergência entre o texto escrito e a leitura tradicional neste versículo estão no estudo de Êxodo 15:24.
O que é próprio daqui é o que falta antes do verbo. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) aponta: em Mara o texto diz primeiro que as águas eram amargas e só depois que o povo murmurou; em Refidim diz primeiro que não havia água (Êxodo 17:1) e só depois que o povo contendeu. Aqui não há a frase "e não havia pão". A queixa vem sem causa narrada.
A consequência é que o leitor só fica sabendo do problema pela boca de quem reclama, no versículo 3 — e lá o problema vem misturado com a idealização do Egito. O texto não certifica a fome com a sua própria voz. Nachmânides tem uma explicação: o milagre escondido da massa que durou um mês não tinha sido narrado, e por isso o fim dela também não. A explicação é engenhosa e depende da tradição dos trinta e um dias. Fica de pé, de qualquer modo, o dado do texto: aqui, quem diz que falta pão é o povo.
A Mekhilta (a mais antiga coletânea de comentário rabínico ao Êxodo) repete para este versículo as duas opiniões que dera para Mara — a de que o povo devia ter pedido conselho, e a de que já estava acostumado a reclamar — e acrescenta só uma frase: "e não apenas contra Moisés, mas também contra Arão".
"contra Moisés e contra Arão"
É a primeira vez que Arão é alvo. O hebraico repete a preposição antes de cada nome — "contra Moisés e contra Arão" —, como se cada um fosse acusado por si. Por que ele entra agora?
Ibn Ezra responde pela responsabilidade: em Mara a queixa foi só contra Moisés porque era ele quem conduzia a marcha; aqui é contra os dois porque os dois os tinham tirado do Egito. Malbim responde pelo conteúdo: em Mara o povo pedia água e achava que bastava a oração de Moisés para obtê-la; aqui o povo se arrepende da própria saída, e a saída foi obra dos dois. O Haamek Davar vai mais longe: a queixa seria de que Moisés e Arão tinham arrastado para fora do Egito uma multidão que Deus não pretendia levar — e, com ela, condenado todos a morrer de fome.
Há uma razão mais simples, que está no próprio livro. Desde o capítulo 4, Arão é a boca de Moisés diante do povo: foi ele quem repetiu as palavras do SENHOR aos anciãos e fez os sinais (Êxodo 4:30). Quem anunciou a libertação foi Arão. Agora que ela custa caro, o anunciador entra na conta. O povo cobra também de quem trouxe a mensagem.
"no deserto"
À primeira vista, as duas palavras finais são inúteis. Onde mais estariam? A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo) deixa a expressão de fora: em grego, a congregação murmura contra Moisés e Arão, e a frase acaba. O tradutor pode tê-la achado redundante, ou pode ter tido diante de si um texto hebraico sem ela. Não é possível decidir.
Os comentaristas judeus fizeram o contrário: leram a expressão como o conteúdo da queixa.
Para Nachmânides, "no deserto" quer dizer que o povo não murmurou ao chegar, mas depois de acampar ali e ver que não saía daquela vastidão — a queixa é contra o deserto, e por isso o versículo seguinte fala em "este deserto". Para Malbim, a palavra indica o ressentimento de estar ali. Para o Or HaChaim, a queixa é contra o caminho: o povo conhecia a estrada para Canaã e esperava que Moisés a tomasse; quando Moisés os levou pelo deserto, acharam que a rota estranha era escolha dele. O leitor do Êxodo sabe que não era — Deus os desviou de propósito do caminho dos filisteus, "para que o povo não se arrependa ao ver guerra e volte ao Egito" (Êxodo 13:17). O povo não sabe disso. A queixa nasce de uma decisão que lhe foi escondida.
A leitura do Or HaChaim tem uma ironia que o texto não comenta e que está lá: Deus evitou a estrada curta para que o povo não quisesse voltar ao Egito, e o povo, na estrada longa, quer voltar ao Egito.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
A congregação dos filhos de Israel — o povo inteiro como corpo reunido, ou, numa leitura possível, os seus chefes falando por ele (itens 2 e 3). Os "príncipes da congregação" aparecerão em Êxodo 16:22.
Moisés — alvo pela segunda vez. Na primeira queixa ele clamou ao SENHOR (Êxodo 15:25); nesta, quem fala primeiro é Deus (Êxodo 16:4), e Moisés só responde ao povo depois, junto com Arão.
Arão — alvo pela primeira vez. Irmão mais velho de Moisés, nomeado porta-voz dele (Êxodo 4:14-16), foi quem transmitiu ao povo as palavras e os sinais do começo (Êxodo 4:30). No capítulo 16 ele volta a ter função de fala: é ele quem convoca a congregação diante do SENHOR (Êxodo 16:9-10).
O deserto — o deserto de Sim, do versículo anterior. A palavra hebraica não designa areia, e sim a terra de fora, sem cultivo nem cidade.
O acontecimento — a segunda murmuração do deserto, a primeira por comida e a primeira de "toda a congregação". O versículo registra o fato; a fala só vem no versículo seguinte.
5. Pontos de Ensino
A queixa sobe de escala
Em Mara reclamou "o povo"; no deserto de Sim, "toda a congregação". Entre um episódio e outro passaram poucas semanas, e o grupo que reclama ficou maior e mais formal. O texto registra a escalada pela troca de uma palavra.
A falta não é narrada pela voz do texto
O versículo não diz "não havia pão". Quem diz isso é o povo, no versículo seguinte. O leitor recebe a fome por meio da queixa, e não como fato atestado — e é o mesmo discurso que vai exagerar o passado.
Quem anuncia também responde
Arão entra no alvo depois de ter sido a voz da promessa. A responsabilidade que o povo atribui segue a fala: quem disse que Deus ia libertar é cobrado quando a libertação dói.
A decisão escondida
O povo reclama do deserto sem saber que o deserto foi escolha de Deus para protegê-lo (Êxodo 13:17). A queixa é feita com informação incompleta. O texto não usa isso para desculpar nem para condenar; põe o leitor numa posição que o povo não tem.
6. Aspectos Filosóficos
Como uma multidão chega a uma só voz
"Toda a congregação murmurou." A frase descreve como unânime a atitude de uma multidão enorme. O Or HaChaim estranhou isso no século XVIII: é improvável que tanta gente pense igual, e ele supôs dois grupos com queixas diferentes que, somadas, viraram uma só. A pergunta dele é a mesma da psicologia social: como opiniões individuais se convertem numa posição coletiva — e por que, nesse processo, ela costuma sair mais extrema do que a média das pessoas que a formam?
Serge Moscovici (psicólogo social nascido na Romênia em 1925 e morto em Paris em 2014) dedicou a vida a essa pergunta. Judeu, sofreu as leis antissemitas romenas durante a guerra, foi submetido a trabalho forçado e emigrou para a França em 1948, onde se tornou um dos fundadores da psicologia social europeia.
O grupo como polarizador
Em 1969, com Marisa Zavalloni, Moscovici publicou um estudo com um título que já diz o resultado: "O grupo como polarizador de atitudes". Estudantes franceses davam individualmente a sua opinião sobre De Gaulle e sobre os norte-americanos; depois discutiam em grupo até chegar a uma posição comum; depois respondiam de novo, sozinhos. A opinião favorável a De Gaulle saiu do grupo mais favorável; a desfavorável aos norte-americanos, mais desfavorável. A discussão não puxou as pessoas para o meio. Empurrou-as na direção em que já se inclinavam.
É o fenômeno que ficou conhecido como polarização de grupo. Um grupo que conversa sobre uma insatisfação tende a sair da conversa mais insatisfeito do que cada um entrou.
A minoria que arrasta
A segunda contribuição de Moscovici vai contra a ideia de que a maioria sempre impõe a sua posição. Num experimento de 1969, grupos de seis pessoas viam projeções de cor azul e diziam a cor. Duas das seis eram cúmplices do pesquisador e diziam "verde", sempre, sem hesitar. Cerca de 8% das respostas dos participantes verdadeiros passaram a ser "verde", e cerca de um terço deles disse "verde" pelo menos uma vez. Quando os cúmplices eram inconsistentes, o efeito praticamente sumia.
Daí a tese que ele desenvolveu no livro Psychologie des minorités actives ("Psicologia das minorias ativas", 1979): uma minoria coerente, firme e repetitiva muda a opinião da maioria — não por pressão de número, mas por obrigar os outros a reconsiderar o que pareciam saber. A mudança, notou ele, muitas vezes aparece depois e em privado, e não no momento da discussão.
Moscovici também reconstruiu, em L'Âge des foules ("A era das multidões", 1981), a velha psicologia das massas do século XIX, que via na multidão um ser irracional e sugestionável. A posição dele é mais fina: o grupo não perde a razão; ele a usa para radicalizar o que já trazia.
Lido ao lado do versículo
As duas teses iluminam as leituras antigas. A do Or HaChaim é, em termos modernos, uma teoria de minoria ativa: um grupo pequeno, os que tinham comido carne no Egito, dá forma à queixa, e a maioria, que só queria pão, adere. E a sequência de Mara a Sim tem o desenho da polarização: o que em Mara foi pergunta de parte do povo vira, em poucas semanas, a queixa do corpo inteiro, já com a fala mais dura do versículo seguinte — "quem dera tivéssemos morrido".
O limite
O texto não descreve o processo. Não diz quem começou, nem se houve discussão, nem quantos discordaram. Moscovici trabalha com estudantes num laboratório do século XX, e transferir as conclusões dele para uma multidão do deserto é leitura possível, não explicação demonstrada. O que a comparação mostra é que a palavra "toda" não precisa ser tomada nem como exagero retórico nem como prova de que cada indivíduo pensava igual: há modos conhecidos pelos quais um grupo passa a falar com uma voz que nenhum dos seus membros, sozinho, teria usado.
7. Aplicações Práticas
A voz coletiva costuma ser mais dura que as individuais
Em grupos de trabalho, de família, de igreja, a insatisfação discutida em conjunto tende a sair maior do que entrou. Quem lidera e ouve "todo mundo está reclamando" ganha em perguntar quem começou, quantos de fato concordam e o que cada um pediria sozinho. A queixa unânime pode ser real e, ao mesmo tempo, a soma de pedidos diferentes, como supôs o Or HaChaim.
O mensageiro é cobrado pela mensagem
Arão é alvo porque foi ele quem anunciou. Quem transmite uma decisão que não tomou — o gerente que comunica a mudança, o médico que dá o diagnóstico — costuma receber a reação dirigida a quem decidiu. O versículo registra isso sem comentário; reconhecer o mecanismo ajuda a não personalizar o que não é pessoal, dos dois lados.
Reclamar sem saber o motivo da rota
O povo reclama do caminho sem saber por que o caminho é aquele. Boa parte das queixas contra decisões alheias nasce de informação que não se tem. Isso não torna a queixa ilegítima; torna razoável perguntar antes de concluir.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Arão se defendeu?
Não no versículo. Ele não fala aqui, e a primeira resposta ao povo é dada por "Moisés e Arão" juntos (Êxodo 16:6), mas é Moisés quem formula o argumento de que a queixa não é contra eles (Êxodo 16:7-8). Arão volta a falar no versículo 10, convocando a congregação. O texto não registra nenhuma reação dele à acusação.
Por que Deus responde com comida, e não com repreensão?
Porque, neste ponto do caminho, a queixa por comida não é tratada como pecado punível. O Êxodo responde com provisão e com uma regra; o castigo por murmuração só aparece depois do Sinai, em Números. A diferença entre as duas fases tem dono no estudo de Êxodo 15:24. Aqui basta notar que o versículo seguinte à queixa é uma promessa (Êxodo 16:4), e não uma sentença.
Quantas pessoas são "toda a congregação"?
O texto não dá número aqui. Os seiscentos mil homens de Êxodo 12:37 fariam do grupo uma multidão de mais de dois milhões, e o Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) observa que sem o maná uma população dessas não sobreviveria no Sinai. O problema do número é antigo e discutido; para este versículo, o que importa é que o texto trata o grupo como um corpo só.
A queixa era justa?
A fome provavelmente era real, e o texto não a nega. Mas o versículo não a afirma com a sua própria voz, e a fala que a expressa vem carregada de outras coisas. O versículo permite dizer que havia motivo e que a forma da queixa foi a de uma acusação; não permite separar as duas coisas com precisão.
9. Conexão com Outros Textos
A queixa anterior
Êxodo 15:24 — "E o povo murmurou contra Moisés, dizendo: 'Que beberemos?'"
"O povo" e só Moisés. Três semanas depois, "toda a congregação" e os dois irmãos.
O caminho que o povo não entendeu
Êxodo 13:17 — "E aconteceu que, quando Faraó deixou o povo ir, Deus não os conduziu pelo caminho da terra dos filisteus, embora fosse mais perto; porque Deus disse: 'Para que o povo não se arrependa ao ver guerra e volte ao Egito.'"
É a decisão que explica o deserto e que o povo não conhecia. A leitura do Or HaChaim faz do "no deserto" de Êxodo 16:2 a queixa contra essa rota.
Arão como voz diante do povo
Êxodo 4:30-31 — "Arão falou todas as palavras que o SENHOR tinha dito a Moisés, e fez os sinais diante do povo. E o povo acreditou. Quando ouviram que o SENHOR tinha visitado os filhos de Israel e que vira a aflição deles, inclinaram-se e adoraram."
No começo, o povo acreditou no que Arão anunciou. No deserto, Arão é cobrado pelo anúncio.
A mesma fórmula, depois do Sinai
Números 14:2 — "Todos os filhos de Israel murmuraram contra Moisés e contra Arão, e toda a congregação lhes disse: 'Quem dera tivéssemos morrido na terra do Egito, ou neste deserto!'"
Números 16:41 (17:6 no hebraico) — "No dia seguinte, toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão, dizendo: 'Vocês mataram o povo do SENHOR.'"
A frase de Êxodo 16:2 reaparece quase palavra por palavra. Em Números 16:41 a acusação é a inversa da do deserto de Sim: lá o povo diz que Moisés e Arão o trouxeram para morrer; aqui diz que eles já mataram.
A congregação sem água, e de novo os dois
Números 20:2 — "Não havia água para a congregação; e eles se ajuntaram contra Moisés e contra Arão."
Aqui o texto narra a falta antes da queixa — exatamente o que Êxodo 16:2 não faz.
A congregação dos deuses
Salmo 82:1 — "Deus está de pé na congregação divina; no meio dos deuses ele julga."
A mesma palavra, aplicada à assembleia celeste, como no poema ugarítico de Kirta. A congregação é uma forma de reunião que o Oriente antigo atribuía tanto a homens quanto a deuses.
A congregação que precisa de pastor
Números 27:16-17 — "Que o SENHOR, Deus dos espíritos de toda carne, ponha um homem sobre a congregação, que saia e entre diante deles, e que os faça sair e entrar, para que a congregação do SENHOR não seja como ovelhas que não têm pastor."
É o pedido de Moisés no fim da vida. A congregação que murmura contra os seus líderes é a mesma que não pode ficar sem eles.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E toda a congregação dos filhos de Israel murmurou contra Moisés e contra Arão no deserto.
Texto hebraico
וַיִּלּוֹנוּ כָּל־עֲדַת בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל עַל־מֹשֶׁה וְעַל־אַהֲרֹן בַּמִּדְבָּר׃
Transliteração
va-yillonu kol-adat benei-Yisra'el al-Moshe ve-al-Aharon ba-midbar.
Análise palavra por palavra
וַיִּלּוֹנוּ — va-yillonu, "e murmuraram". Raiz lun, terceira pessoa do plural, na forma verbal que encadeia a narrativa.
Neste versículo o texto escrito e a leitura tradicional divergem. As consoantes, sem vogais, são as de va-yallinu, a forma causativa (Hifil), que Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) preferem; a pronúncia transmitida pelos massoretas — os escribas que, entre os séculos VII e X, fixaram as vogais do texto hebraico — é va-yillonu, a forma reflexiva (Nifal), a mesma de Êxodo 15:24. A grafia acima segue a leitura tradicional. A raiz, os dois troncos e os quatro lugares em que essa divergência ocorre estão analisados no estudo de Êxodo 15:24.
O verbo está no plural e o sujeito, "toda a congregação", é singular e feminino: a concordância é com as pessoas, não com a palavra.
כָּל־עֲדַת — kol-adat, "toda a congregação". Kol, "todo", "a totalidade de", na forma de ligação. Adat é a forma de ligação de edah, "congregação", "comunidade convocada", de uma raiz ligada a marcar encontro. Na Torá a palavra aparece mais de cem vezes, quase toda no Êxodo, no Levítico e em Números; na Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria a partir do século III antes de Cristo), é quase sempre synagōgē.
בְּנֵי־יִשְׂרָאֵל — benei-Yisra'el, "dos filhos de Israel". Plural de ben, "filho", na forma de ligação, com o nome do patriarca. A expressão designa o povo como descendência de um homem.
עַל־מֹשֶׁה — al-Moshe, "contra Moisés". Al, "sobre", que com verbos de hostilidade vale "contra". É a preposição de todo o ciclo das murmurações.
וְעַל־אַהֲרֹן — ve-al-Aharon, "e contra Arão". A conjunção ve-, "e", e a preposição repetida. O hebraico poderia dizer "contra Moisés e Arão" com uma só preposição, e às vezes diz; aqui repete, e Números 14:2, 16:41 e 20:2 farão o mesmo. A repetição põe cada um dos dois, separadamente, como alvo.
בַּמִּדְבָּר — ba-midbar, "no deserto". A preposição be-, "em", com o artigo, que a absorve: "no deserto", este em que estão. A Septuaginta não traduz a palavra; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) a mantém, in solitudine, "na solidão" — escolha de palavra que já diz o que é o deserto para quem o atravessa.
11. Conclusão
Do que se examinou, o versículo leva a três conclusões.
A queixa mudou de tamanho. O que em Mara foi reclamação "do povo" contra Moisés é agora ação de "toda a congregação" contra Moisés e Arão. A palavra escolhida trata o grupo como corpo político, e é como corpo que ele se volta contra os líderes. Se a palavra significa cada indivíduo ou os chefes falando por todos, o texto não decide; em qualquer dos casos, a queixa deixou de ser de uma parte.
O texto não atesta a fome com a sua voz. Diferentemente de Mara e de Refidim, não há a frase que narra a falta. O motivo da queixa chega ao leitor pela fala de quem reclama, e o leitor deve pesá-la como fala, não como relato. Isso não significa que não houvesse fome; significa que o versículo deixa ao povo a responsabilidade de descrevê-la.
A queixa recai sobre quem se vê, não sobre quem decidiu. Arão entra no alvo por ter anunciado a libertação; o deserto é atacado sem que o povo saiba que foi escolha divina. O versículo mostra uma multidão cobrando dos rostos que tem diante de si o que, no livro, é decisão de outro — e é exatamente isso que Moisés vai apontar poucas linhas depois.













