Moisés disse a Arão: “Diga a toda a congregação dos filhos de Israel: ‘Aproximem-se diante do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês.’”
1. Introdução
Moisés manda Arão convocar toda a congregação: "Aproximem-se diante do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês". A ordem usa a linguagem do culto — aproximar-se diante do SENHOR é o que se faz no santuário —, mas no deserto de Sim ainda não há santuário, nem arca, nem tenda. Diante de quê, então, o povo devia se pôr? Os rabinos responderam com o lugar onde a nuvem desceria, ou com um chamado a prestar contas; a crítica moderna respondeu que o relato do maná foi escrito, ou estava posto, depois da construção do santuário. E o versículo marca também a primeira vez, no deserto, em que Arão fala ao povo como porta-voz de Moisés.
2. Contexto Histórico e Cultural
Santuários que andavam
A pergunta do versículo — como se está "diante" de uma divindade sem templo — tinha respostas concretas no mundo de onde o texto vem. Povos em movimento carregavam a presença do seu deus, e a arqueologia encontrou pelo menos um caso no próprio caminho do Êxodo.
Em Timna, no sul do vale do Arabá, junto às minas de cobre exploradas pelo Egito, o arqueólogo israelense Beno Rothenberg escavou a partir de 1969 um pequeno santuário egípcio dedicado à deusa Hathor, protetora dos mineiros. Na última fase de uso, já no século XII antes de Cristo, o santuário mudou de mãos e de forma. As imagens de Hathor foram apagadas, uma fileira de pedras erguidas foi posta no lugar, e ao longo de duas paredes apareceram montes de tecido de lã vermelha e amarela, com contas tecidas na trama, além de dezenas de argolas de cobre que serviam para pendurar cortinas. Rothenberg concluiu que o templo de pedra tinha sido convertido num santuário de tenda, e atribuiu essa fase aos midianitas. No mesmo lugar apareceu uma pequena serpente de cobre com a cabeça dourada.
A identificação dos ocupantes como midianitas é discutida, assim como a data exata. Mas o dado material é firme: no deserto do sul, na época em que muitos situam o Êxodo, um povo marcou a presença do sagrado com uma tenda de tecido colorido, e não com paredes. É o paralelo arqueológico mais próximo da tenda do encontro descrita no fim do livro.
A tenda que ia à frente
O segundo paralelo vem de muito mais tarde e deve ser usado com cautela. Relatos árabes do período islâmico e de viajantes posteriores descrevem a qubba ("cúpula", "tenda") das tribos árabes antes do Islã: uma pequena tenda de couro vermelho, levada no dorso de um camelo, que guardava os objetos sagrados do clã e acompanhava a tribo nas migrações e nas guerras. Julian Morgenstern, estudioso do Hebrew Union College, em Cincinnati, reuniu esse material num longo estudo publicado entre 1942 e 1945 e o comparou com a arca e a tenda de Israel.
A distância de tempo é enorme, e ninguém sustenta hoje que Israel copiou a qubba. O que a comparação mostra é a lógica de um povo nômade: a presença do deus não espera a terra; viaja com a tribo, num objeto ou numa tenda, e "estar diante dele" é estar diante desse objeto, onde quer que o acampamento esteja. No Êxodo 16, nem esse objeto existe ainda.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés disse a Arão:"
A ordem passa por três bocas: Moisés fala a Arão, Arão fala à congregação, e no versículo seguinte é "enquanto Arão falava" que a glória aparece. É a divisão de papéis anunciada na sarça, quando Deus disse que Arão seria a boca de Moisés (Êxodo 4:16), e é a primeira vez que ela funciona no deserto.
Por que Moisés não fala ele mesmo? John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) dá a resposta mais simples: Arão era o porta-voz, e falaria aos chefes do povo, que repassariam aos demais. O Haamek Davar (comentário do rabino Naftali Tsvi Yehuda Berlin, Lituânia, século XIX) acrescenta que Moisés precisava ficar livre para ouvir a Deus — e, de fato, o versículo 11 começa com Deus falando a Moisés.
O Or HaChaim (Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) levanta uma terceira possibilidade, que mexe na cronologia: talvez esta ordem não tenha sido dada no mesmo dia da fala dos versículos 6 a 8, mas no dia seguinte. O texto não marca o tempo entre os versículos, e a sugestão mostra quanto a sequência do capítulo incomoda os leitores atentos.
"Diga a toda a congregação dos filhos de Israel:"
"Toda a congregação" é o mesmo sujeito que, em Êxodo 16:2, murmurou contra Moisés e Arão. Os acusadores são chamados, todos, ao mesmo lugar. Não há separação entre os que reclamaram e os que se calaram, nem entre chefes e povo. A convocação é tão ampla quanto foi a queixa.
"Aproximem-se diante do SENHOR"
A expressão é de culto. "Aproximar-se" é o verbo de quem traz uma oferta e entra no espaço sagrado; "diante do SENHOR" é, no resto da Torá, o lugar à frente da tenda do encontro ou da arca. Levítico 9:5 tem a mesma frase com as mesmas palavras: "toda a congregação se aproximou e ficou de pé diante do SENHOR" — no dia da inauguração do santuário. Aqui a ordem é dada no deserto de Sim, um mês depois da saída do Egito, sem santuário, sem sacerdócio, sem altar. A pergunta é inevitável: diante de quê o povo devia se pôr?
Primeira leitura: diante do lugar onde a nuvem vai descer. É a de Rabi Josué na Mekhilta de Rabi Ishmael (a mais antiga coletânea de comentários rabínicos ao Êxodo, com material dos séculos II e III): "aproximem-se do lugar da revelação". Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) a adota quase com as mesmas palavras: "ao lugar onde a nuvem vai descer". A leitura respeita a ordem do texto — no versículo seguinte, a glória aparece na nuvem — e tem uma consequência curiosa: o povo é chamado a um lugar que ainda não está marcado, e só descobre onde ele fica quando a glória aparece.
Segunda leitura: diante da coluna de nuvem que já estava ali. Sforno (Ovadia Sforno, rabino e médico italiano do século XVI), Gill e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem que a nuvem que guiava o povo desde a saída (Êxodo 13:21-22) era a presença visível de Deus no acampamento. Aproximar-se diante do SENHOR seria sair das tendas e ir até onde a coluna estava. Essa leitura dá ao Êxodo 16 um santuário móvel antes do santuário: a nuvem cumpre a função que a tenda cumprirá depois.
Terceira leitura: para fora do acampamento. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII) explica a frase com duas palavras: "voltem-se para o deserto". O lugar diante do SENHOR estaria fora do acampamento, na direção do ermo. A leitura combina com a tenda que Moisés armava "fora do acampamento" (Êxodo 33:7), mas o Êxodo 16 não menciona tenda nenhuma.
Quarta leitura: aproximem-se para prestar contas. É a de Rabi Elazar, na mesma Mekhilta, e é a que mais muda o tom do versículo: "aproximem-se para o julgamento". O verbo "aproximar-se" tem, de fato, um uso jurídico. Na lei do depósito, quem é acusado de se apropriar do bem alheio "se aproxima de Deus", isto é, comparece ao tribunal (Êxodo 22:8). Em Josué 7:14, depois do saque proibido em Jericó, o povo recebe a ordem de "se aproximar pela manhã, tribo por tribo", para que o culpado seja descoberto. Na revolta de Corá, a ordem de "estar diante do SENHOR amanhã" (Números 16:16) prepara uma decisão que acaba em morte. Lido assim, o chamado de Êxodo 16:9 é uma convocação ao tribunal, logo depois de uma acusação feita pelo próprio Moisés — "não contra nós, mas contra o SENHOR".
O que torna a leitura de Rabi Elazar forte é o que vem depois: nada. Ninguém é julgado, ninguém é apontado, ninguém morre. A glória aparece, Deus fala, e o que ele anuncia é carne e pão. Se o chamado tinha forma de tribunal, o desfecho não teve.
Quinta leitura: o santuário já existia quando o texto foi escrito. A crítica moderna partiu da mesma observação de vocabulário e chegou a outra explicação. S. R. Driver, na Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa), lembra que "diante do SENHOR" normalmente significa diante da arca ou da tenda do encontro, e que o relato do maná, pelo que se vê no fim do capítulo, provavelmente estava situado, numa das fontes do Pentateuco, depois da construção do santuário. O mesmo problema reaparece no fim do capítulo, com o jarro de maná posto "diante do Testemunho", e é lá que ele é tratado por inteiro (Êxodo 16:34). A leitura explica o vocabulário e paga um preço: obriga a admitir que o capítulo, na forma em que o lemos, foi composto a partir de material deslocado.
Não é possível decidir entre as cinco. O que o texto, tal como está, afirma é que a fórmula do culto aparece antes do culto. O povo é chamado a se pôr "diante do SENHOR" num lugar que não tem nada que o distinga do resto do deserto, e é a aparição da glória, no versículo seguinte, que transforma aquele ponto em lugar sagrado. Primeiro vem a presença; o lugar vem depois.
"porque ele ouviu as murmurações de vocês"
Pela terceira vez em três versículos, a mesma notícia: ele ouviu. Agora o verbo está no passado concluído — já ouviu. E é o motivo da convocação. O povo não é chamado por ter pecado, nem para se arrepender, nem para oferecer algo; é chamado porque foi ouvido.
Há um detalhe de ordem que os comentaristas notaram. Moisés diz que Deus ouviu antes que o texto mostre Deus dizendo isso: o "Ouvi as murmurações" divino só vem em Êxodo 16:12. Como Moisés sabia? Sforno responde com uma história do Talmude (Berakhot 34b): Rabi Chanina ben Dosa orava pelos doentes e depois dizia "este vive, este morre"; perguntado como sabia, respondia que, quando a oração lhe saía fluente da boca, sabia que tinha sido aceita. Moisés, para Sforno, sabia da mesma maneira. A explicação é piedosa e não está no texto. A outra resposta é a da crítica, já mencionada: os versículos 9 a 12 estariam fora de ordem, e a fala de Deus viria antes da de Moisés.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Dá a ordem, mas não a transmite. É a Moisés que Deus falará no versículo 11.
Arão
Recebe a ordem e a transmite. É a primeira vez, depois da saída do Egito, que ele fala ao povo na função de porta-voz que Êxodo 4:16 e 7:1 lhe tinham dado. O versículo seguinte registra a cena: a glória aparece "enquanto Arão falava".
A congregação dos filhos de Israel
O povo inteiro, tratado como assembleia. É o mesmo grupo que murmurou em Êxodo 16:2, agora convocado em bloco.
"Diante do SENHOR"
O lugar da convocação, que o versículo não descreve. Pela sequência, fica na direção do deserto, onde a nuvem está ou para onde ela vai descer (Êxodo 16:10).
O evento
A primeira convocação do povo inteiro à presença de Deus depois da travessia do mar. A próxima convocação de todos, com outra solenidade, será ao pé do Sinai (Êxodo 19:17).
5. Pontos de Ensino
1. A presença vem antes do lugar. O povo é chamado a se pôr diante do SENHOR antes que exista santuário. O versículo não faz da presença de Deus uma consequência do edifício.
2. Quem reclamou é chamado para perto. A convocação vai para "toda a congregação", a mesma que murmurou. O texto não manda os queixosos para longe; manda que se aproximem.
3. O motivo da convocação é ter sido ouvido. Não é o pecado nem o arrependimento. A frase final diz só: "porque ele ouviu".
4. A forma de tribunal não garante desfecho de tribunal. Se a ordem tem o tom de convocação para julgamento, como lia Rabi Elazar, o que se segue é provisão. O texto deixa a ameaça na forma e a resposta no pão.
5. A palavra passa de boca em boca. Moisés a Arão, Arão ao povo. O versículo mostra que a autoridade não depende de quem pronuncia a ordem, e que o porta-voz não é menos do que quem o envia no momento em que fala.
6. Aspectos Filosóficos
Estar diante de Deus sem templo: Teresa de Ávila
Teresa de Ahumada nasceu em Ávila, na Espanha, em 1515, e morreu em 1582. Monja carmelita, reformou a sua ordem, fundou dezessete conventos e escreveu, a pedido dos confessores, alguns dos livros mais lidos da espiritualidade cristã. Escreveu sob vigilância. Em 1559, o Índice de livros proibidos da Inquisição espanhola tirou de circulação quase todos os livros de oração em língua comum, inclusive os que ela usava. Ela conta, no Livro da vida, que sentiu a perda e ouviu em oração: "Não tenha pena, que eu lhe darei livro vivo". O apoio material foi tirado; a presença, diz ela, ficou.
A pergunta que Teresa enfrentou é a mesma que o Êxodo 16:9 levanta: onde se está "diante de Deus", quando falta o lugar próprio para isso? A resposta dela tem duas partes, e as duas iluminam o versículo por contraste.
A primeira parte está no Castelo interior (também chamado As moradas), escrito em 1577. Teresa descreve a alma como um castelo feito de um único diamante, ou de um cristal muito claro, com muitos aposentos; no centro, no aposento principal, está o próprio Deus. Aproximar-se dele não é ir a um lugar fora: é entrar. No Caminho de perfeição, ela diz que não são precisas asas para ir buscá-lo — basta pôr-se em solidão e olhá-lo dentro de si. O santuário, para Teresa, é interior e não depende de edifício.
A segunda parte é mais prosaica e mais surpreendente. No Livro das fundações, consolando as monjas a quem a obediência mandava para a cozinha em vez da oração, ela escreve a frase que ficou famosa: "entre as panelas anda o Senhor". A presença não se limita ao momento de recolhimento; está também no trabalho com a comida.
O Êxodo 16 está, curiosamente, no meio das duas. É um capítulo sobre comida — as panelas de carne do Egito, o pão que cai de manhã — e é nele que a Bíblia, pela primeira vez, convoca o povo inteiro a se pôr "diante do SENHOR" sem templo. Mas o movimento que o versículo pede é o oposto do de Teresa. Ela manda entrar; o Êxodo manda sair. O povo é chamado para fora das tendas, voltado para o deserto, e a presença aparece numa nuvem que todos veem ao mesmo tempo. É uma presença pública, coletiva, exterior — vista, e não contemplada.
O contraste ajuda a ver o que o versículo afirma e o que não afirma. Ele concorda com Teresa num ponto: o lugar não é condição da presença. O deserto de Sim não tem nada de sagrado até que a glória apareça nele. Mas ele não diz o que Teresa diz sobre a interioridade. O Êxodo não conhece a alma como castelo; conhece um povo com fome que olha para o mesmo ponto do horizonte. A presença que o texto descreve é um acontecimento que se dá diante de todos, e não uma experiência que cada um encontra em si.
Ler o Êxodo pela chave de Teresa seria, portanto, cristianizá-lo e interiorizá-lo ao mesmo tempo, e o texto resiste às duas coisas. O que se pode tirar da aproximação é uma pergunta comum: a presença de Deus depende do lugar onde se está? O versículo e a monja de Ávila respondem que não — cada um a seu modo, e por caminhos que não se confundem.
7. Aplicações Práticas
Não esperar o lugar certo
Há quem adie a oração, a reconciliação ou a conversa difícil até ter o lugar adequado: a igreja, o retiro, a ocasião solene. O versículo convoca o povo a se pôr diante de Deus num ponto qualquer do deserto, numa tarde comum, no meio de uma crise de fome. O lugar não era condição, e o texto não o espera.
Chamar para perto quem reclamou
Em famílias, comunidades e equipes, a reação natural a quem se queixou é afastar: deixar de fora, ignorar, esperar que passe. Aqui a ordem é a contrária: os que murmuraram são chamados, todos, para o mesmo lugar. O versículo não diz que a queixa estava certa; diz que quem a fez foi convocado, e não excluído.
Saber delegar a palavra
Moisés tinha acabado de falar ao povo, e com força. Para a convocação, usa outra voz. Quem lidera nem sempre precisa ser quem anuncia; às vezes a mesma mensagem é mais bem recebida quando vem de outra boca, e o líder fica livre para o que só ele pode fazer.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O povo chegou a se deslocar?
O texto não diz. O versículo seguinte registra apenas que, enquanto Arão falava, eles "se voltaram para o deserto" e viram a glória. Ibn Ezra entende que a convocação se cumpriu ali mesmo, no gesto de se virar; Keil e Delitzsch supõem que saíram das tendas até onde estava a nuvem. As duas leituras são possíveis.
Aproximar-se de Deus depois de murmurar não era perigoso?
Em outros lugares da Torá, era. Os filhos de Arão morrem "quando se aproximaram diante do SENHOR" de modo indevido (Levítico 16:1), e Corá e o seu grupo morrem depois de se apresentarem diante do SENHOR (Números 16). Aqui, o povo inteiro, recém-acusado de murmurar contra Deus, é chamado à presença e sai dela com promessa de comida. O Êxodo não explica a diferença; a explicação mais comum é que, antes do Sinai, ainda não havia a lei que tornaria a aproximação regulada e perigosa.
Por que a convocação vem antes da fala de Deus?
No texto, Moisés convoca o povo (versículo 9), a glória aparece (versículo 10) e só então Deus fala (versículos 11-12). A ordem permite ler que a reunião foi convocada para ouvir a resposta divina, e não depois dela. Se os versículos estão fora de lugar, como sugere a crítica, a ordem original seria outra; o texto que temos, porém, põe o povo na presença antes da palavra.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase, no dia da inauguração
Levítico 9:5-6 — "Trouxeram o que Moisés tinha ordenado para diante da tenda do encontro; e toda a congregação se aproximou e ficou de pé diante do SENHOR. Moisés disse: 'Isto é o que o SENHOR ordenou que vocês façam, e a glória do SENHOR aparecerá a vocês.'"
A sequência é a mesma de Êxodo 16:9-10: toda a congregação se aproxima diante do SENHOR, e a glória aparece. Lá, há tenda, altar e sacerdotes; aqui, só o deserto. É o paralelo mais forte para a leitura de que o vocabulário do Êxodo 16 é o do santuário.
Aproximar-se e morrer
Levítico 16:1 — "O SENHOR falou a Moisés depois da morte dos dois filhos de Arão, quando se aproximaram diante do SENHOR e morreram."
A mesma expressão, com o desfecho oposto. A aproximação regulada pela lei pode matar; a de Êxodo 16:9, sem regra nenhuma, não mata ninguém.
Aproximar-se para ser julgado
Josué 7:14 — "Pela manhã vocês se aproximarão, tribo por tribo; a tribo que o SENHOR tomar se aproximará, clã por clã."
Êxodo 22:8 — "Se o ladrão não for achado, o dono da casa se aproximará de Deus, para jurar que não estendeu a mão aos bens do seu próximo."
Os dois textos que dão apoio à leitura de Rabi Elazar: o verbo de aproximar-se como verbo de comparecimento ao julgamento.
Números 16:16 — "E Moisés disse a Corá: 'Você e todo o seu grupo, estejam amanhã diante do SENHOR: você, eles e Arão.'"
Outra convocação de quem se queixou à presença de Deus, desta vez com morte no fim.
A presença que já ia com eles
Êxodo 13:21-22 — "E o SENHOR ia adiante deles, de dia numa coluna de nuvem, para guiá-los pelo caminho, e de noite numa coluna de fogo, para iluminá-los, a fim de que caminhassem de dia e de noite. A coluna de nuvem não se afastava do povo de dia, nem a coluna de fogo de noite."
O texto em que se apoia a leitura de que "diante do SENHOR" era diante da coluna. Se a nuvem não se afastava, o povo tinha onde se pôr.
A tenda fora do acampamento
Êxodo 33:7 — "Moisés tomava a tenda e a armava fora do acampamento, longe dele, e a chamava tenda do encontro; e todo aquele que buscava o SENHOR saía à tenda do encontro, que ficava fora do acampamento."
A outra possibilidade de lugar, compatível com a leitura de Ibn Ezra, "voltem-se para o deserto".
Do "não se aproxime" ao "aproximem-se"
Êxodo 3:5 — "E Deus disse: 'Não se aproxime daqui. Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa.'"
Na sarça, a primeira palavra de Deus a Moisés foi uma proibição de aproximar-se, dirigida a um homem só. No deserto de Sim, a ordem é a inversa, e dirigida ao povo inteiro.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés disse a Arão: “Diga a toda a congregação dos filhos de Israel: ‘Aproximem-se diante do SENHOR, porque ele ouviu as murmurações de vocês.’”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־אַהֲרֹן אֱמֹר אֶל־כָּל־עֲדַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל קִרְבוּ לִפְנֵי יְהוָה כִּי שָׁמַע אֵת תְּלֻנֹּתֵיכֶם׃
Transliteração
va-yomer Moshe el-Aharon: emor el-kol-adat benei Yisrael: qirvu lifnei YHWH, ki shama et telunnoteikhem.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־אַהֲרֹן — va-yomer Moshe el-Aharon, "e Moisés disse a Arão".
O verbo amar, "dizer", na forma narrativa, com a preposição el, "a, para". É a fórmula comum de discurso, aqui de irmão para irmão.
אֱמֹר — emor, "diga".
Imperativo Qal (a forma simples do verbo hebraico), masculino singular, do mesmo verbo amar. O versículo usa o verbo duas vezes seguidas: Moisés "disse" a Arão que "dissesse". A cadeia de transmissão está na própria gramática.
אֶל־כָּל־עֲדַת בְּנֵי יִשְׂרָאֵל — el-kol-adat benei Yisrael, "a toda a congregação dos filhos de Israel".
Kol, "todo", e adat, forma de ligação de edah, "congregação", a palavra para o povo reunido como assembleia. É o mesmo sintagma, "toda a congregação dos filhos de Israel", de Êxodo 16:1, 16:2 e 16:10. A Septuaginta o traduz por pasē synagōgē, "a toda a sinagoga", a palavra grega que daria nome à casa de reunião judaica.
קִרְבוּ — qirvu, "aproximem-se".
Imperativo Qal, masculino plural, de qarav, "aproximar-se, chegar perto". É a raiz de que vem qorban, "oferta", e que no Levítico organiza todo o vocabulário do sacrifício. Também é a raiz do comparecimento em juízo (Êxodo 22:8 no português, 22:7 no hebraico; Josué 7:14), o que sustenta a leitura de Rabi Elazar na Mekhilta. A Septuaginta traduz por proselthate, "venham para perto", verbo que ela usa tanto para quem se aproxima do altar quanto para quem se aproxima de um juiz.
לִפְנֵי יְהוָה — lifnei YHWH, "diante do SENHOR".
A preposição le- com penei, forma de ligação de panim, "rosto, face": literalmente "para a face do SENHOR". É a expressão mais comum da Torá para o espaço do culto, e a sua presença aqui, antes de qualquer santuário, é o centro da discussão do item 3. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) traduz por qodam YHWH, "diante do SENHOR", sem acréscimo.
A Septuaginta escreve enantion tou theou, "diante de Deus", e não "diante do Senhor". É a terceira vez seguida que ela faz essa troca neste trecho: em Êxodo 16:7 escreveu "contra Deus", em Êxodo 16:8 também "contra Deus", e aqui "diante de Deus" — sempre que o hebraico tem o nome divino como destinatário da queixa ou da aproximação. Nas mesmas frases, ela mantém "Senhor" quando Deus é sujeito ("o Senhor ouviu", "o Senhor der") e em "a glória do Senhor". Pode ser só variação de estilo do tradutor; pode ser um cuidado de não pôr o nome próprio de Deus como alvo de murmuração. Não é possível decidir com três ocorrências, e em outros livros a Septuaginta escreve sem problema "diante do Senhor".
כִּי שָׁמַע — ki shama, "porque ele ouviu".
Ki, "porque"; shama, Qal perfeito, terceira pessoa do masculino singular, de "ouvir". Nos dois versículos anteriores, o mesmo verbo vinha no infinitivo, "no ouvir dele"; aqui está no perfeito, a forma da ação concluída. O sujeito não é nomeado: subentende-se o SENHOR da frase anterior. Ônquelos troca a forma ativa pela passiva, "foram ouvidas diante dele", como fez nos versículos 7 e 8.
אֵת תְּלֻנֹּתֵיכֶם — et telunnoteikhem, "as murmurações de vocês".
O objeto direto, com o substantivo plural que estreou em Êxodo 16:7. É a quarta das cinco ocorrências dele no capítulo.
A raiz qarav no vocabulário do culto, e o seu derivado qorban, estão analisados no estudo de Êxodo 12:48.
11. Conclusão
Com base no que foi examinado, o versículo leva a três conclusões.
A linguagem do santuário chega antes do santuário. "Aproximar-se diante do SENHOR" é fórmula de culto, e aparece aqui num deserto sem tenda, sem arca e sem altar. Seja qual for a explicação — a nuvem que já estava ali, o lugar onde ela desceria, a tenda fora do acampamento, ou um relato composto quando o santuário já existia —, o texto como o temos põe o povo diante de Deus num lugar que só se torna sagrado quando a glória aparece. A presença antecede o espaço.
A convocação tem forma de tribunal e desfecho de provisão. O verbo de aproximar-se serve também para comparecer em juízo, e o chamado vem logo depois de Moisés declarar que a queixa foi contra Deus. Tudo prepara uma sentença. O que vem é carne e pão. O versículo mantém o povo diante de um juiz que, desta vez, responde dando de comer.
A palavra começa a circular pela cadeia que o livro tinha previsto. Moisés diz a Arão que diga ao povo. A divisão de funções anunciada na sarça entra em operação no deserto, e é durante a fala de Arão que a glória aparece. O porta-voz não é um degrau abaixo: é na voz dele que o encontro acontece.
Conclui-se que Êxodo 16:9 é o primeiro ensaio, no deserto, de uma reunião do povo diante de Deus, feito antes de existirem as condições que a lei exigirá depois — e feito com um povo que acabava de murmurar.













