Ele falará por você ao povo: ele será a sua boca, e você será para ele como Deus.
1. Introdução
O arranjo se fecha aqui, e se fecha com a frase mais forte de todo o trecho: "você será para ele como Deus."
Antes dela vêm duas outras, e as três formam uma escada. Arão falará ao povo por Moisés. Arão será a boca de Moisés. E Moisés será, para Arão, como Deus.
A última frase não é explicada em lugar nenhum. O Êxodo a diz, não a comenta, e volta a dizê-la três capítulos adiante, em Êxodo 7:1, com o mesmo desenho e outras palavras. Entre as duas ocorrências não há uma linha de esclarecimento sobre o que ela significa.
Que ela incomodava já no mundo antigo, há prova: o Targum de Onquelos — a tradução aramaica usada nas sinagogas — não traduziu a palavra. Escreveu "e você será para ele mestre", trocando "Deus" por "senhor". O item 3 mostra o que isso indica.
Há ainda um detalhe que fecha uma costura de sete versículos. A palavra "boca", que começou no versículo 10 como o defeito de Moisés, aparece aqui pela última vez — e aparece nomeando uma pessoa. O órgão que faltava virou gente, e o item 10 traz a conta inteira.
E há um preço nisto, que o texto não anuncia e o capítulo mostra: quem fala ao povo, do versículo 30 em diante, é Arão. Quem faz os sinais também.
2. Contexto Histórico e Cultural
"Boca" era um cargo, e não uma metáfora
Dizer de uma pessoa que ela é "a boca" de outra soa, hoje, como imagem. No Egito era um título de verdade, escrito em pedra.
A administração egípcia usava a palavra "boca" na designação de funções. O caso mais conhecido é o do título que se lê como "Boca de Nekhen" — Nekhen, a cidade que os gregos chamariam de Hieracômpolis, foi um dos centros antigos do sul do país, e o título tinha carga judiciária. Homens que o portaram estão documentados em inscrições, e alguns chegaram depois ao cargo de vizir, o mais alto da administração abaixo do rei.
Não convém sobrecarregar o dado — a etimologia e o alcance exato do título são discutidos entre egiptólogos, e a tradução por "boca" é a mais corrente sem ser unânime. O que interessa é o princípio, e esse é firme: naquele mundo, ser a voz de alguém era uma função reconhecida, com nome próprio e com posição na hierarquia.
O que a função pressupunha
Convém saber as regras do arranjo, porque o versículo as usa sem enunciá-las.
Primeiro: quem fala não decide. A "boca" pronuncia o que lhe cabe pronunciar, e a autoridade permanece com quem a instituiu.
Segundo: quem fala é visto. Isto é o outro lado, e é o que o versículo não menciona. Numa cultura oral, o público conhece pela voz — e quem se apresenta, quem é ouvido e quem fica na memória da assembleia é aquele que fala, mesmo que não seja o autor.
Terceiro: a distância entre o autor e a voz era normal e não era vista como fraqueza. Um rei que falasse por um arauto não estava sendo poupado; estava exercendo o cargo como se exercia.
O peso da palavra que fecha o versículo
Uma última nota de contexto, e ela é importante para não anacronizar a frase final.
No Egito, chamar um homem de deus não era hipérbole nem blasfêmia: era doutrina de Estado. O rei era tratado como divino, com títulos, culto e teologia própria. O leitor egípcio antigo não estranharia a expressão — estranharia o destinatário, porque aqui ela não é dita de um rei, e sim de um pastor que acabou de recusar uma incumbência.
Em Israel, a mesma expressão teria outro peso, e o item 3 trata dela. O que este item pode acrescentar é apenas o cenário: a frase é dita num relato ambientado no mundo em que a divindade do governante era o pressuposto normal — e é dita, no relato, a caminho da corte desse governante.
3. Análise Teológica do Versículo
"Ele falará por você ao povo"
A primeira frase define o destinatário, e é a primeira vez que o povo aparece nesta cadeia.
Repare no desenho completo, porque ele só fica visível agora. Deus fala a Moisés. Moisés fala a Arão e põe as palavras na boca dele, segundo o versículo 15. E Arão fala ao povo. Entre a origem da mensagem e quem a ouve há duas pessoas.
E note uma consequência que o texto não enuncia: Moisés não falará ao povo. A ordem original, em Êxodo 3:16, mandava que ele fosse e dissesse aos anciãos. A partir daqui, isso passa a outro.
"ele será a sua boca"
Aqui uma palavra fecha um percurso, e vale acompanhá-lo.
No versículo 10, "boca" foi o que faltava: Moisés se declarou pesado dela. No 11, foi o exemplo da obra divina: quem pôs a boca no ser humano? No 12, foi o destinatário de uma promessa: estarei com ela. No 15, foram duas, a dele e a de Arão. E aqui a palavra deixa de designar um órgão e passa a designar uma pessoa.
A conta completa está no item 10. O que importa registrar é o movimento: o problema do capítulo era uma boca, e a solução do capítulo é chamada pelo mesmo nome.
E há um dado de composição que segue daí: depois deste versículo a palavra desaparece do capítulo. Ela domina os versículos 10 a 16 e não volta mais. O assunto foi encerrado ao ganhar um nome próprio.
Uma nota sobre o que a frase não diz. Não se diz que Arão substituirá Moisés, e sim que será a boca dele — o que, no vocabulário do cargo, mantém a autoridade onde estava. O item 2 mostra que essa distinção era corrente naquele mundo.
"e você será para ele como Deus"
Chegamos à frase, e o primeiro trabalho é ver o que ela tem de estranho.
A palavra hebraica é Elohim, e a construção é a mesma da metade anterior: assim como Arão será "para boca", Moisés será "para Deus". As duas metades da frase são simétricas, e é essa simetria que impede tratar a segunda como exagero de linguagem — ela é construída exatamente como a primeira.
Ela volta. Em Êxodo 7:1 o mesmo arranjo é enunciado de novo, com o vocabulário completo: Moisés posto como deus sobre Faraó, e Arão como profeta dele. Ali a relação recebe o nome de profecia; aqui só o desenho é dado.
E o Êxodo não a explica. Não diz em que sentido, não diz até onde, não diz se é comparação ou atribuição. Duas ocorrências, três capítulos de distância, e nenhuma linha de esclarecimento.
A prova de que a frase incomodava
Este é o dado mais interessante do versículo, e ele é verificável.
O Targum de Onquelos — a tradução aramaica antiga, lida nas sinagogas — não traduziu a palavra. Onde o hebraico traz "para Deus", ele escreveu "para mestre", "para senhor". A troca é deliberada e é do mesmo tradutor que, no versículo 10, converteu o defeito de Moisés em qualidade.
Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) registram a operação e a chamam pelo nome: o Targum abranda a palavra "Deus" para "mestre, professor".
O que isso prova é limitado e é firme: a frase era dura o bastante para que um tradutor antigo, judeu e cuidadoso, preferisse não a passar adiante como estava. A dificuldade não é invenção moderna.
As leituras que existem
Três saídas circulam, e vale expor o que cada uma custa.
A leitura da autoridade. Elohim, em hebraico, pode designar quem exerce poder de julgar — o uso aparece na legislação do próprio Êxodo, e o assunto tem tratamento no estudo de Gênesis 50:19. Nessa leitura a frase diria: você terá sobre ele a autoridade de quem decide.
A favor: é uso hebraico real e documentado. Contra: nas passagens legais o termo designa juízes no exercício de uma função pública; aqui se trata da relação entre dois irmãos, e a comparação não é evidente.
A leitura da fonte da palavra. Nessa, a frase descreve o lugar de cada um na cadeia: Arão receberá de Moisés como um profeta recebe de Deus. Não é uma afirmação sobre o que Moisés é, e sim sobre de onde vem o que Arão dirá.
A favor: é a leitura que Êxodo 7:1 favorece, ao completar o par com a palavra "profeta". Contra: o versículo diz "você será para ele", com o verbo de ser, e não "você fará as vezes de".
A leitura mínima. Nessa, a frase é comparação, e a partícula que a introduz basta para desfazer o problema — Moisés será como Deus para Arão, isto é, ocupará uma posição análoga.
A favor: é a mais econômica. Contra: o hebraico não traz aqui uma partícula de comparação; traz a mesma preposição que aparece na metade anterior da frase, a mesma que fez de Arão "a boca". Se essa metade não é comparação, a outra também não deveria ser. O item 10 detalha.
Não é possível decidir entre as três, e este estudo não decide.
O que se pode afirmar
Convém separar o firme do disputado, porque a frase se presta a exageros nos dois sentidos.
É firme que a frase não faz de Moisés um deus no sentido próprio. O Êxodo inteiro trabalha contra isso, e o próprio versículo o mantém como enviado, que recebe de outro o que vai dizer. Nenhuma leitura séria propõe divinização.
E é firme que a frase não é um elogio nem uma promoção. Ela vem no meio de uma instrução prática, sem cerimônia e sem qualquer marca de solenidade — dita, aliás, dois versículos depois de a ira ter se acendido.
O que fica em disputa é o alcance: se descreve autoridade, posição na cadeia ou analogia. Sobre isso, o texto não diz.
O preço que o versículo não anuncia
Uma última observação, e ela vem do próprio capítulo.
Este arranjo nasce de um pedido negado: Moisés quis sair e ficou. O que recebeu foi companhia, e a companhia veio com um custo que só se enxerga no fim do capítulo.
No versículo 30, quem fala todas as palavras ao povo é Arão. E quem faz os sinais diante do povo é Arão — os sinais que, no roteiro dos versículos 2 a 9, eram para as mãos de Moisés. O texto registra a troca e não a comenta.
Não convém transformar isso em lição moral, porque o Êxodo não a formula. Convém apenas notar que a divisão prometida aqui — ele fala, você é a fonte — não ficou nesses termos na primeira vez em que foi posta em prática.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O povo, que entra aqui pela primeira vez neste bloco
Desde o versículo 10 a conversa tratava de duas pessoas e, a partir do 14, de três. Aqui aparece o destinatário: o povo.
É a palavra que o Êxodo vinha usando desde o capítulo 3 — "o meu povo", na ordem original de Êxodo 3:10 — e ela reaparece agora sem o possessivo, designando quem vai ouvir. O item 3 do versículo 11 daquele capítulo trata da queda do possessivo na boca de Moisés.
Repare em quem, no arranjo final, terá contato com o povo: Arão. Moisés não.
Arão, no lugar em que o texto o coloca
Dois versículos depois de ser nomeado pela primeira vez, Arão já tem função definida, promessa dirigida à boca e posição na hierarquia. E continua sem ter aparecido.
Vale a lista do que se sabe dele até aqui, porque é curta: é irmão de Moisés, é chamado de levita, fala bem, está a caminho, vai se alegrar ao chegar, receberá as palavras e falará ao povo. Nada sobre a vida dele, nada sobre o que pensa, nada sobre ter aceitado.
Moisés, e o que ele acabou de se tornar
Do começo do capítulo até aqui, Moisés passou de candidato relutante a fonte da palavra de outro homem.
É uma mudança de posição notável em sete versículos, e ela acontece sem que ele diga uma palavra depois do versículo 13. Tudo o que se decide dos versículos 14 a 17 é decidido em cima dele e sem a participação dele.
Onde estamos, e o que ainda falta
Falta um versículo para a conversa terminar, e ele é curto: a ordem de levar o cajado.
Depois disso Moisés desce do monte, volta a Jetro e pede licença para partir. O que este trecho estabeleceu — a boca de Arão, a posição de Moisés, a promessa dobrada — só será posto em prática no fim do capítulo, e o resultado está nos versículos 30 e 31.
5. Pontos de Ensino
O problema virou pessoa
É o ensino que a leitura atenta do trecho oferece, e ele é sobre composição.
A palavra "boca" abre o bloco como defeito, atravessa cinco versículos e fecha nomeando um homem. O que faltava a Moisés é agora alguém que caminha na direção dele.
Ensina-se daí um modo de ler que serve para o resto do livro: acompanhar uma palavra é acompanhar um argumento. Quem lê o versículo 16 sem lembrar do 10 recebe uma instrução administrativa; quem acompanha a palavra vê o desfecho de uma queixa.
Uma frase difícil não precisa ser resolvida para ser lida
"Você será para ele como Deus" não tem leitura consensual, e teve, na antiguidade, um tradutor que preferiu trocá-la.
O que se pode ensinar aqui é o método: expor as leituras, mostrar o que cada uma custa, dizer que não é possível decidir, e seguir. O leitor sai sabendo mais do que sairia com uma explicação confortável — sai sabendo que a frase é dura, que sempre foi, e por quê.
Quem fala é quem aparece
Este é o ensino desconfortável, e ele vem do próprio capítulo, não de fora.
O arranjo prevê que Moisés seja a fonte e Arão a voz. Quando ele é executado, no versículo 30, quem o povo vê falando é Arão — e quem faz os sinais também é Arão, embora os sinais tivessem sido dados a Moisés.
O Êxodo não moraliza a troca, e este estudo também não. Registra-se apenas que a delegação da voz teve efeito sobre a posição de quem delegou, e que o texto mostra isso sem dizer.
A autoridade não vem da capacidade
Moisés recebe a posição mais alta do arranjo — ser, para Arão, o que Deus é para ele — sendo justamente aquele que não sabe falar.
É observável e vale como ensino: neste texto, o lugar de alguém na cadeia não é determinado pelo que ele faz bem. Arão tem a competência e ocupa o degrau de baixo. Convém marcar o limite: o texto não explica por que a distribuição é essa, e não a apresenta como princípio.
6. Aspectos Filosóficos
O que é ocupar, para alguém, o lugar de outro
A frase final do versículo levanta uma questão que sobrevive fora da Bíblia, e ela não é sobre divindade: é sobre relações de posição.
O que o texto descreve é uma estrutura de três níveis em que cada um recebe de cima e entrega para baixo. E o que ele diz, ao dizer que Moisés será para Arão como Deus, é que a relação entre os dois homens tem a mesma forma da relação entre Deus e Moisés.
Aqui está o problema. Se a forma é a mesma, a diferença entre os níveis é apenas de posição — e não de natureza. E se é apenas de posição, então o que distingue quem manda de quem obedece não é o que cada um é, mas onde cada um está na cadeia.
É uma consequência forte e o Êxodo não a assume. Ele não diz que a semelhança seja completa, e a construção da frase — Arão será "para boca", Moisés será "para Deus" — descreve funções, não essências. Que a estrutura implique mais do que isso é leitura possível, e é do comentarista.
A palavra que a tradução recusou
Há um segundo ponto, e ele é sobre o ato de traduzir.
O Targum de Onquelos escreveu "mestre" onde o hebraico tinha "Deus". Isso não é erro nem descuido: é uma decisão, tomada por quem entendia perfeitamente o original e julgou que a palavra, dita em voz alta na sinagoga, produziria um efeito que não devia produzir.
A questão que fica é geral e é séria: um tradutor deve entregar o que o texto diz ou o que ele acha que o texto quer dizer? As duas posições têm defensores, e a escolha aparece exatamente nos lugares em que o original é duro. A nossa versão escreveu "como Deus", e a escolha fica declarada — quem traduz também decide, sempre, e o mínimo que deve é dizer quando decidiu.
7. Aplicações Práticas
Delegar a voz e continuar respondendo
É a aplicação direta, e ela é prática.
O arranjo divide o trabalho de um modo específico: um formula, o outro pronuncia. A autoridade e a responsabilidade não se dividem junto — permanecem com quem formula.
Para quem trabalha assim, o versículo oferece um desenho utilizável e uma advertência. O desenho é a distinção entre a origem do conteúdo e a voz que o entrega. A advertência vem do próprio capítulo: no versículo 30, quem o povo vê é quem fala.
Quem fala ocupa o lugar aos olhos de quem ouve
Este é o efeito que o versículo não menciona e o capítulo mostra.
Numa reunião, numa negociação, numa apresentação, quem pronuncia é quem fica associado ao que foi dito. Não é injustiça nem má-fé: é como a percepção funciona. Quem delega a voz precisa contar com isso.
O Êxodo não diz se Moisés contava. Diz o que aconteceu.
Sobre a posição que se recebe sem ter pedido
Moisés não pediu para ser a fonte da palavra de outro homem. Pediu para sair. Recebeu uma posição mais alta do que a que tinha antes de resistir.
É útil como observação sobre o que se ganha e se perde numa negociação que não deu certo. O que ele queria não veio; o que veio não é pouco, e não é o que ele queria. O texto não informa se ele achou bom.
Uma cautela sobre a frase forte
Uma última nota, porque "você será para ele como Deus" é frase que se presta a mau uso.
Ela é dita a uma pessoa determinada, sobre outra pessoa determinada, num arranjo de transmissão de mensagem. Não é possível decidir sequer o que ela significa ali, quanto mais estendê-la a qualquer relação de autoridade. Quem a usar para sustentar que alguém ocupa, diante de outro, o lugar de Deus está fazendo com o versículo exatamente o que este estudo recusa.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Em que sentido Moisés é "como Deus" para Arão?
O Êxodo não diz, e a pergunta atravessou dois mil anos sem resposta aceita.
O item 3 expõe as três leituras — autoridade de quem julga, posição de fonte na cadeia da palavra, e comparação simples — e mostra o que cada uma custa. Não há consenso.
O que se pode afirmar é o que a frase não faz: não divide Moisés, não o promove a objeto de culto, e não altera o fato de que ele recebe de outro o que vai dizer. Duas linhas antes ele estava recebendo instruções.
Por que o Targum trocou a palavra?
Porque a considerou forte demais para ser lida em voz alta como estava — é a explicação óbvia, e não há outra que se sustente melhor.
Vale notar que a troca não é isolada: o mesmo Targum, no versículo 10, converteu "pesado de boca" em "grave de fala", transformando o defeito de Moisés em qualidade. As duas decisões vão na mesma direção, a de proteger a figura de Moisés.
Isso é informação útil sobre o tradutor e sobre o texto. Sobre o tradutor, mostra um método. Sobre o texto, mostra onde ele incomoda — e ele incomoda exatamente nos dois pontos que este bloco de versículos tem de mais duro.
Arão aceitou o arranjo?
O texto não registra resposta dele em nenhum momento. No versículo 27 ele vai, encontra Moisés e o beija — sem uma palavra.
E convém lembrar o que o item 2 do versículo 14 mostrou: Arão é o irmão mais velho, e numa casa antiga isso lhe daria precedência. O arranjo o põe abaixo do mais novo, e o Êxodo não comenta a inversão nem registra qualquer reação a ela.
Se Arão fala tudo, o que sobra para Moisés?
Segundo este versículo, sobra o principal: ser a origem do que Arão dirá.
Segundo o fim do capítulo, sobra menos do que isso. No versículo 30 é Arão quem fala ao povo e é Arão quem faz os sinais — e os sinais tinham sido dados a Moisés, na mão dele, nos versículos 2 a 9. O texto registra a troca sem comentar, e o leitor fica com a distância entre o que foi combinado aqui e o que aconteceu lá.
Este versículo tem relação com Êxodo 7:1?
Tem, e é a mesma coisa dita duas vezes. Lá a fórmula é completa: Moisés posto como deus sobre Faraó, Arão como profeta dele.
Duas diferenças merecem nota. A primeira: lá o destinatário é Faraó, aqui é o povo. A segunda: lá aparece a palavra "profeta", que aqui não aparece — e é ela que permite ler a relação entre os dois irmãos com o vocabulário do profetismo. Quem quiser trazer esse vocabulário para cá está usando um texto posterior, o que é defensável e é bom que seja dito.
9. Conexão com Outros Textos
A mesma frase, três capítulos adiante
Êxodo 7:1 — "Então disse o SENHOR a Moisés: Eis que te tenho posto por deus sobre Faraó, e Arão, teu irmão, será o teu profeta."
É a única outra ocorrência da fórmula, e ela completa o par com a palavra que falta aqui: profeta. Note a mudança de destinatário — ali a relação vale diante de Faraó; aqui, diante do povo.
Onde a palavra designa homens
Salmo 82:6 — "Eu disse: Vós sois deuses, e todos vós filhos do Altíssimo."
O salmo aplica o termo a quem julga, e o contexto é de repreensão por julgar mal. É o paralelo mais discutido para o uso da palavra fora do sentido próprio — e o assunto, na legislação do Êxodo, tem tratamento no estudo de Gênesis 50:19.
Quem foi porta-voz de outro
Jeremias 15:19 — "Se tu tornares, então te farei voltar, e estarás diante de mim; e se apartares o precioso do vil, serás como a minha boca."
Este é o paralelo mais próximo da expressão, e é notável: a mesma palavra, "boca", aplicada a uma pessoa que fala por outra. Ali quem é a boca é o profeta, e a fonte é Deus. Aqui quem é a boca é Arão, e a fonte é um homem.
Jeremias 36:4 — "Então Jeremias chamou a Baruque, filho de Nerias, e escreveu Baruque da boca de Jeremias todas as palavras do SENHOR."
Um segundo caso de duas pessoas entre a mensagem e o público, agora por escrito. E o mais próximo em resultado: quem foi ao templo ler o rolo diante do povo foi Baruque, não Jeremias.
O que aconteceu quando este arranjo foi executado
Êxodo 4:30 — "Arão falou todas as palavras que o SENHOR tinha dito a Moisés, e fez os sinais diante do povo."
É a prova prática, quatorze versículos depois, e ela vale por qualquer comentário: Arão fala e Arão faz os sinais — os sinais que tinham sido dados a Moisés.
A recusa de ocupar esse lugar
Atos 14:11-15 — "E as multidões, vendo o que Paulo fizera, levantaram a sua voz, dizendo em língua licaônica: Fizeram-se os deuses semelhantes aos homens, e desceram até nós… Barnabé e Paulo… rasgaram as suas vestes e saltaram para o meio da multidão, clamando: Senhores, por que fazeis isso? Nós também somos homens como vós."
A aproximação é do leitor e serve como contraprova. Diante de gente que os tratou como deuses, os apóstolos recusam com veemência. É o comportamento oposto ao que este versículo institui — e a diferença ajuda a medir o quanto a frase do Êxodo é excepcional.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português (ABC)
Ele falará por você ao povo: ele será a sua boca, e você será para ele como Deus.
Texto hebraico
וְדִבֶּר־הוּא לְךָ אֶל־הָעָם וְהָיָה הוּא יִהְיֶה־לְּךָ לְפֶה וְאַתָּה תִּהְיֶה־לּוֹ לֵאלֹהִים
Transliteração
we-dibber hu lekha el-ha-am; we-hayah hu yihyeh-lekha le-feh, we-attah tihyeh-lo le-Elohim.
Análise palavra por palavra
וְדִבֶּר־הוּא לְךָ — we-dibber hu lekha, "e falará ele por você". Verbo davar no Piel, perfeito com valor de futuro pela conjunção, terceira pessoa masculina do singular, com o pronome hu logo atrás para marcar quem.
A preposição lekha é a de vantagem: "para você", "em seu favor", e daí "por você". É a mesma que voltará duas vezes nas frases seguintes, e é ela que estrutura o versículo inteiro.
אֶל־הָעָם — el-ha-am, "ao povo". A palavra que o Êxodo usa desde o capítulo 3 para Israel, agora sem possessivo.
וְהָיָה הוּא יִהְיֶה־לְּךָ לְפֶה — we-hayah hu yihyeh-lekha le-feh, "e será: ele será para você por boca".
Aqui está o achado do item 10, e ele é de contagem.
Nesta única frase o verbo hayah — o verbo hebraico de ser e estar — aparece duas vezes, e reaparece uma terceira na frase seguinte. E este é o mesmo verbo de ehyeh, a palavra que Deus deu como nome em Êxodo 3:14 e que ele acabou de dizer no versículo 15.
Ponha em fila: no versículo 12, ehyeh — eu serei. No versículo 15, ehyeh de novo. Neste, três vezes o mesmo verbo, agora conjugado para os dois homens: hu yihyeh, ele será; attah tihyeh, você será.
O verbo do nome divino é o verbo com que o arranjo é montado. Um leitor de hebraico ouve a mesma raiz cinco vezes em cinco versículos, três delas neste. Um leitor de português lê "estarei", "será" e "será", e não tem como perceber que é a mesma palavra.
Convém marcar o limite, porque este é um caso em que se exagera com facilidade. Hayah é o verbo mais comum da língua para dizer que alguma coisa é ou vem a ser, e frases como esta não teriam como ser construídas sem ele. Que a concentração seja significativa é leitura possível e não é demonstrável. O que é demonstrável é a concentração.
לְפֶה — le-feh, "por boca". Preposição mais o substantivo, sem artigo.
A construção — a preposição le mais um substantivo, depois do verbo "ser" — é a fórmula hebraica corrente para dizer que alguém passa a exercer uma função ou a ocupar um papel. É a mesma que aparece quando um texto diz que alguém "será por mulher" ou "será por povo".
E aqui está a conta que fecha o bloco. A palavra peh, "boca", aparece sete vezes nos versículos 10 a 16: no 10, na queixa de Moisés; no 11, na pergunta sobre quem a pôs no ser humano; no 12, na promessa de companhia; três vezes no 15 — as palavras na boca de Arão, a boca de Moisés e a boca dele; e aqui, a última.
Depois deste versículo a palavra não volta no capítulo.
וְאַתָּה תִּהְיֶה־לּוֹ לֵאלֹהִים — we-attah tihyeh-lo le-Elohim, "e você será para ele por Deus".
A frase é rigorosamente simétrica à anterior, e é isso que a torna difícil de abrandar. Compare as duas construções: hu yihyeh-lekha le-feh e attah tihyeh-lo le-Elohim. Mesmo verbo, mesma preposição de vantagem com sufixo, mesma preposição le diante do último termo. A única diferença são as pessoas e a palavra final.
Isso tem uma consequência que o item 3 usa. Não há aqui partícula de comparação. O hebraico tem uma — a que significa "como", "à maneira de" — e ela não está no versículo. A nossa versão escreveu "como Deus", e a escolha fica declarada. O lamed que abre a palavra é a preposição de função e papel, e "como" é a maneira corrente de vertê-la em português — não é comparação inventada. Mas o efeito é real: em hebraico as duas metades são construídas igual, e em português a primeira sai sem "como" e a segunda com. A simetria do original se dilui, e o leitor deve saber disso.
Elohim é o substantivo plural que a Bíblia hebraica usa como designação corrente de Deus, com verbo no singular. O termo aparece também, na legislação, aplicado a quem exerce função de julgar — assunto tratado no estudo de Gênesis 50:19 e retomado no item 3.
Note ainda o que não está aqui: não é o nome próprio. O texto poderia ter usado o nome revelado em Êxodo 3:14, e usa o substantivo comum. Se isso atenua ou não a frase é discutido, e a diferença é visível no hebraico.
O que o hebraico faz e o português não faz
Três perdas, e as três importam.
A simetria das duas metades da frase, que em hebraico é perfeita e em português se dilui. A ausência da partícula de comparação, e o efeito que o nosso "como" produz. E a repetição do verbo de ser — três vezes aqui, cinco em cinco versículos, e sempre a mesma raiz que virou nome.
11. Conclusão
Quatro conclusões, e as duas primeiras são de leitura do original.
A frase final não é comparação, e o "como" é nosso. O hebraico tem uma partícula para dizer "como" e não a usa aqui: constrói as duas metades do versículo do mesmo modo, com a mesma preposição. Se Arão não é "como uma boca", mas é a boca, então a outra metade não deveria receber tratamento diferente. A nossa versão acrescentou o "como" porque a frase não se sustenta sem ele em português, e o acréscimo suaviza. Fica declarado.
O verbo que virou o nome de Deus monta o arranjo. Ele aparece três vezes neste versículo e cinco vezes nos cinco últimos, sempre a mesma raiz — "eu serei", "ele será", "você será". Isso não prova nada sobre o que a fórmula do nome significa, e o verbo é o mais comum da língua. Mas o leitor de português não tem como sequer notar a concentração, e ele deveria poder notá-la.
A palavra "boca" fecha aqui um percurso de sete versículos. Entrou como o defeito de Moisés, passou por pergunta e por promessa, e sai nomeando uma pessoa. Depois disso desaparece do capítulo. O que faltava a um homem virou o nome de outro.
E o arranjo teve um custo que este versículo não anuncia. Ele diz que Arão fala e Moisés é a fonte. Quatorze versículos adiante, quem fala ao povo é Arão — e quem faz os sinais também é Arão, embora eles tivessem sido dados a Moisés. O Êxodo registra a troca e não a comenta, e é honesto sair daqui sabendo que a divisão combinada não se manteve nos termos combinados.













