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Êxodo 3:10

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 33 acessos
Vá agora: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel.”
Moisés de pé diante da sarça em chamas, com o cajado na mão e o olhar voltado para o horizonte a oeste, em direção ao Egito.

Estudo


Vá agora: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel.”

1. Introdução

Aqui o capítulo vira, e vira numa palavra: "vá".

Nos quatro versículos anteriores, todos os verbos eram de Deus. Eu vi, eu ouvi, eu conheço, eu desci, eu farei subir. Não havia sujeito humano em nenhuma das orações, e o programa estava inteiro descrito sem que ninguém precisasse fazer nada.

Neste versículo aparece um imperativo, e ele é dirigido a um homem.

O versículo levanta três pontos. O primeiro é o próprio corte: o texto não explica por que quem desceu precisa de quem vá, e é preciso registrar isso sem resolver. O segundo é o destino do envio — Moisés não é mandado ao povo, é mandado a Faraó, que aparece aqui pela primeira vez no capítulo. O terceiro está no fim da frase: o povo continua sendo "o meu povo", mas quem vai tirá-lo do Egito passa a ser Moisés.

E há o que não vem junto. Nenhum poder, nenhum argumento, nenhum sinal, nenhuma garantia de que dará certo. Moisés recebe uma ordem e mais nada — e a primeira coisa que ele dirá, no versículo seguinte, é exatamente sobre isso.

2. Contexto Histórico e Cultural

O que era ser enviado a um rei

No mundo em que a cena se passa, "enviar alguém a um rei" descrevia uma função reconhecida, com regras próprias. Vale conhecê-las para medir o que a frase pede de Moisés.

O enviado não tinha autoridade própria. Ele levava a palavra de quem o mandava, e a fórmula com que essa palavra era introduzida — "assim diz fulano" — está tratada no estudo de Gênesis 44:6. Juridicamente, o enviado valia o que valia o remetente: ofendê-lo era ofender o rei que o mandara, e o que ele dizia comprometia o outro, não a si mesmo.

Na prática, isso tinha um lado sombrio. As cartas de Amarna mostram que reter o mensageiro do outro era instrumento corrente de pressão. O rei da Babilônia queixou-se de que o seu enviado ficara seis anos retido no Egito. O rei de Mitani reclamou do mesmo e, em resposta, passou a reter os enviados egípcios. Um mensageiro em corte estrangeira estava, portanto, exposto: ele era o único ponto de contato entre dois reis e a maneira mais barata de ferir um deles.

Como um enviado chegava

A prática era razoavelmente uniforme na região, e as cartas a documentam com precisão.

Um enviado chegava com uma tabuinha, isto é, uma carta selada que provava de quem ele vinha. Chegava com presentes, arrolados item por item no próprio texto da carta. Chegava com comitiva — escribas, tradutores, condutores, guardas. E chegava por um caminho negociado, muitas vezes com salvo-conduto pedido de antemão às autoridades do percurso.

Nada disso acompanha Moisés. Ele não tem carta, não tem presente, não tem comitiva, não tem intérprete e não tem salvo-conduto — e é preciso lembrar que ele saiu do Egito fugido, depois de matar um homem. O que ele levará, o livro dirá adiante, é um cajado.

E quem podia chegar ao rei do Egito

Duas coisas foram tratadas antes e não se repetem. A palavra "Faraó" é um título, não um nome, e a formação dela está no estudo de Êxodo 1:11. E o acesso à presença do rei egípcio, que era favor concedido e registrado como honra, está no estudo de Gênesis 46:30.

Cabe aqui apenas a consequência: o pedido que Moisés levará é o de um particular sem posto. A corte egípcia tinha procedimento para receber embaixada de rei estrangeiro; não tinha procedimento para receber um pastor de Midiã.

A ressalva de método

As cartas de Amarna são de um período determinado e a data do êxodo é assunto em disputa, de modo que não se pode afirmar que descrevam a corte exata desta cena. O que elas estabelecem é como funcionava o ofício de enviado na região, e é contra esse pano de fundo que a ordem deste versículo se lê.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vá agora"

Esta é a virada do capítulo, e ela cabe numa palavra.

Vale reler a sequência inteira antes de comentá-la, porque o efeito depende do acúmulo. Êxodo 3:7: eu vi, eu ouvi, eu conheço. Êxodo 3:8: eu desci, para livrar e para fazer subir. Êxodo 3:9: eu vi outra vez. São cinco verbos em primeira pessoa, três versículos seguidos, e em nenhum deles há sujeito humano. Um leitor que parasse ali concluiria, com toda a razão, que a libertação é assunto exclusivamente divino.

Aí vem o versículo 10, e a primeira palavra é um imperativo endereçado a um homem.

O texto não explica a emenda. Isso precisa ser dito com todas as letras, porque é o dado mais importante do versículo e o mais fácil de encobrir.

Não há aqui nenhuma frase que articule as duas coisas. Não está escrito "desci, e por isso preciso de você". Não está escrito "desci, mas escolhi agir por meio de gente". Não está escrito que Deus não pudesse fazer sozinho, nem que preferisse não fazer, nem que a presença de um homem acrescentasse alguma coisa. As duas afirmações — eu desci para livrar; vá você — ficam encostadas uma na outra, sem conector que as explique.

A tradição encheu esse vazio de muitas maneiras, e todas são acréscimos. Que Deus age por meio de pessoas é doutrina defensável e tem apoio em outros textos; não está neste. Que Moisés precisava ser preparado, que o povo precisava de um rosto, que a liderança humana honra a criatura — tudo isso é leitura. Aqui há uma ordem sem justificativa.

E há um detalhe de forma que reforça o corte: a frase abre com o mesmo conectivo que abriu o versículo anterior. Em Êxodo 3:9 ele introduzia a razão; aqui introduz a ordem. É o mesmo degrau usado duas vezes — e o segundo cai sobre outra pessoa.

"eu o envio a Faraó"

Repare no destino, porque ele contraria o que se espera.

Moisés não é enviado ao povo. A conversa toda, até aqui, foi sobre Israel — a aflição, o grito, as dores, a opressão. Seria natural que a ordem fosse "vá ao meu povo". Não é. O envio é a Faraó.

Isso muda a natureza da tarefa. Moisés não vai consolar ninguém, não vai anunciar boas notícias a escravos, não vai organizar o povo. Vai negociar com um rei. A missão, na primeira formulação que recebe, é diplomática antes de ser religiosa.

O envio aos anciãos existe, e vem depois — em Êxodo 3:16, seis versículos adiante, e nessa ordem: primeiro Faraó, aqui; depois os anciãos, lá. Vale notar também que Faraó aparece neste versículo pela primeira vez no capítulo. Até agora o adversário eram "os egípcios", no plural. A partir daqui há um homem no trono, e é com ele que se vai tratar.

Uma observação de tempo

O hebraico é mais estranho do que a tradução deixa ver, e vale registrar uma vez.

A ordem não diz "estou o enviando, portanto vá". A construção é a inversa: vá, e eu o enviarei. Primeiro o imperativo, depois o envio, na forma que o hebraico usa para o que vem em seguida.

É defensável ler aí apenas uma construção idiomática, sem peso — a língua encadeia assim com frequência, e a discussão da forma está no item 10. Mas, lida ao pé da letra, a frase põe o movimento de Moisés antes da credencial: ele não é mandado e depois vai; ele vai, e é aí que se torna enviado.

"para que você tire do Egito o meu povo"

Aqui está a segunda coisa que este versículo faz, e ela é precisa.

Dois versículos antes, quem tirava o povo do Egito era Deus: "desci para livrá-lo da mão dos egípcios e para fazê-lo subir daquela terra". O sujeito das duas orações era ele.

Agora o sujeito do verbo de extrair é Moisés. É ele quem tira, e o objeto do verbo dele é "o meu povo" — o possessivo continua sendo de Deus.

A frase, portanto, distribui as coisas assim: o povo é de Deus, o ato é de Moisés. E o livro não vai desfazer essa duplicidade. Em Êxodo 20:2, na abertura dos dez mandamentos, Deus dirá: "eu sou o SENHOR teu Deus, que te tirei da terra do Egito" — o mesmo verbo, com ele como sujeito. As duas afirmações convivem no mesmo livro, e o Êxodo em momento nenhum as concilia.

Não é possível decidir, com o texto na mão, se ele considera as duas frases equivalentes, complementares ou apenas indiferentes uma à outra. O que se pode registrar é o fato: o mesmo ato é atribuído aos dois, e ninguém no livro acha isso digno de comentário.

"os filhos de Israel"

A frase podia terminar em "o meu povo". Acrescenta a identificação.

Há uma leitura útil e modesta: o acréscimo diz quem é o povo de que se fala. Para Deus, "o meu povo" basta; para quem vai transmitir a mensagem a um rei estrangeiro, o nome é necessário. É a única concessão do versículo ao fato de que a conversa vai ter uma terceira pessoa.

O que a ordem não traz

Convém enumerar, porque a lista é longa e o versículo seguinte depende dela.

Não traz poder. Não traz método — não se diz o que Moisés deve falar, nem como. Não traz garantia de êxito; ao contrário, Êxodo 3:19 dirá adiante que o rei não deixará o povo ir. Não traz sinal: o sinal só será oferecido em Êxodo 3:12, e mesmo ele só se verifica depois. E não traz nome — Moisés ainda não sabe como chamar quem o manda, e é isso que ele perguntará em Êxodo 3:13.

Moisés recebe um imperativo, um destinatário e um objetivo. Nada mais.

É por isso que a resposta dele, no versículo seguinte, não é impertinente: "quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?" é, palavra por palavra, a devolução desta frase em forma de pergunta.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Faraó

Primeira aparição no capítulo, e ele aparece como destino de uma viagem.

O Êxodo nunca dá nome a nenhum rei do Egito, e o silêncio sobre os nomes já foi tratado no estudo de Êxodo 2:1. Também não se diz aqui se este é o mesmo rei de quem Moisés fugiu — Êxodo 2:23 registrou que aquele morreu, e Êxodo 4:19 confirmará que os que procuravam a morte de Moisés já não vivem. Quem está no trono agora, o texto não informa.

Vale reter o dado de posição: até este versículo, o opressor do capítulo era coletivo — "os egípcios". A partir daqui há um interlocutor.

Moisés

Recebe aqui a primeira ordem da vida dele no livro, e é bom medir a distância entre ela e a situação dele.

Ele é pastor do rebanho do sogro, num monte a leste. Saiu do Egito fugido depois de matar um homem. Não tem cargo, não tem posses, não tem gente sob o seu comando e não voltou àquele país há décadas. A ordem é para ir falar com o rei.

Ele ainda não disse uma palavra neste capítulo — a única coisa que fez até agora foi cobrir o rosto, em Êxodo 3:6. Falará no versículo seguinte.

"O meu povo, os filhos de Israel"

O possessivo, que tinha saído em Êxodo 3:9, volta — e volta acompanhado do nome. É a designação mais completa que o capítulo dá ao grupo até aqui.

O Egito

Neste versículo é ponto de partida, e nada mais: o lugar de onde se tira. Não há descrição, não há geografia e não há menção às cidades onde o trabalho acontece.

5. Pontos de Ensino

A ordem vem depois do anúncio

Deus passa quatro versículos dizendo o que viu e o que fará, e só então manda. Quando o pedido chega, Moisés já sabe de quem parte, por quê e para quê. Nenhuma dessas informações teria vindo se a ordem tivesse vindo primeiro.

O texto não explica por que é preciso um homem

É o ponto de ensino mais honesto deste versículo, e ele consiste em não ensinar. Deus disse que desceu para livrar; em seguida manda Moisés ir. Entre as duas frases não há explicação nenhuma, e todas as que a pregação costuma oferecer vêm de fora do texto.

Quem for pregar sobre isto pode dizer que a Bíblia mostra Deus agindo por meio de pessoas — é verdade e tem apoio em outros lugares. O que não se pode é apresentar isso como se fosse o que Êxodo 3:10 diz.

O envio é ao adversário, não ao aflito

A primeira tarefa de Moisés não é cuidar do povo: é ir falar com quem manda. A missão começa pelo lado do poder, e só depois passa aos anciãos, em Êxodo 3:16.

Nada acompanha a ordem

Nem método, nem poder, nem garantia, nem sinal, nem o nome de quem envia. É preciso ver o tamanho do que está sendo pedido para entender o versículo seguinte, que não é falta de fé — é a resposta previsível a uma ordem sem nenhum apoio.

O povo continua sendo de Deus

Moisés tira; o povo é "o meu povo". A tarefa é dele, a posse não. O livro manterá as duas coisas até o fim, e em Êxodo 20:2 dirá que quem tirou o povo do Egito foi Deus — com o mesmo verbo que aqui está no imperativo dirigido a Moisés.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo põe um problema que ele mesmo não trata: o de quem faz a ação, quando duas frases seguidas atribuem a mesma ação a dois sujeitos diferentes.

Dois versículos antes, quem livra é Deus. Aqui, quem tira o povo do Egito é Moisés. Não há aqui divisão de tarefas — não é que um planeje e o outro execute, nem que um comece e o outro termine. É o mesmo ato, dito duas vezes, com sujeitos diferentes.

Há três saídas possíveis, e vale enumerá-las porque cada uma custa alguma coisa.

A primeira é dizer que Moisés é instrumento: quem age de verdade é Deus, e o homem é o meio. Resolve a contradição e paga um preço alto — se Moisés é instrumento, as objeções dele não são objeções de ninguém, e o capítulo inteiro, que é uma discussão, vira encenação.

A segunda é dizer que Deus age por dentro: ele decide e sustenta, e o homem faz. É a saída mais comum e a mais difícil de examinar, porque não é possível verificar em que ponto uma ação deixaria de ser inteiramente do homem. Ela funciona como explicação e não se deixa testar.

A terceira é registrar que o texto simplesmente diz as duas coisas e não as reconcilia. É a mais desconfortável e a mais fiel ao que está escrito.

Vale reparar que a dificuldade não é exclusiva de textos religiosos. Ela reaparece toda vez que se atribui um resultado a uma causa geral e a um agente concreto ao mesmo tempo — "a economia fez", "o governo fez", "aquele homem fez" —, e nunca se resolve por análise da frase, mas por escolha de ponto de vista.

O Êxodo não escolhe. Ele diz "eu desci para livrar" e diz "vá, e tire", e segue adiante sem notar nada. Quem quiser um sistema terá de construí-lo por conta própria — e deve saber que o está construindo.

7. Aplicações Práticas

Ser mandado fazer o que não se tem como fazer

A ordem chega sem poder, sem método, sem garantia e sem credencial. Moisés tem de ir falar com o homem mais poderoso que conhece, pedindo a soltura de um povo inteiro, e não recebe nada além do imperativo.

A situação é reconhecível fora de qualquer contexto religioso: a tarefa que cabe a alguém é maior do que os recursos que essa pessoa tem. Acontece com quem cuida de um parente doente sozinho, com quem assume uma dívida que não fez, com quem herda um problema que não criou.

O que o texto oferece a quem está nessa posição é pouco e é honesto: não oferece garantia, e a resposta de Moisés — perguntar "quem sou eu?" — não é tratada pelo livro como falha. Ela recebe resposta, e a resposta também não fala de recursos.

Começar pelo lado do poder

Chama a atenção que a primeira ordem seja "vá a Faraó" e não "vá ao povo". Quem quer mudar a situação de quem sofre acaba tendo de falar com quem decide, e essa parte do trabalho costuma ser a menos gratificante: é feita longe de quem se quer ajudar, com gente que não quer ouvir, e não produz resultado visível de imediato.

O versículo não recomenda isso — descreve um caso. Mas o caso é instrutivo justamente pela ordem em que as coisas vêm.

Fazer o que é de outro

Moisés vai tirar do Egito um povo que o versículo chama de "o meu povo". A tarefa é dele; o povo não é.

É a posição de quem cuida sem ser dono: professor, médico, gestor, quem trabalha com filhos alheios ou com dinheiro alheio. A frase separa as duas coisas com clareza — responsabilidade inteira, posse nenhuma —, e a separação é útil nos dois sentidos: impede a omissão e impede a apropriação.

O que não cabe tirar daqui

Não cabe a garantia de que quem obedece consegue. O próprio capítulo dirá, em Êxodo 3:19, que o rei não deixará o povo ir — e o livro conta um primeiro encontro com Faraó que piora a situação de todo mundo (Êxodo 5:6-9). A ordem não vem acompanhada de promessa de resultado imediato, e transformá-la nisso é dizer o que o texto não diz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Deus desceu para livrar, por que Moisés precisa ir?

O texto não diz. É a pergunta central do versículo e a única resposta honesta é essa.

Vale insistir no ponto, porque a tentação de preencher é grande. As explicações correntes — que Deus escolhe agir por meio de gente, que o povo precisava de um líder visível, que Moisés precisava da experiência — são leituras razoáveis e têm apoio em outros textos. Nenhuma delas está aqui. Entre "desci para livrá-lo" e "vá agora" não há uma palavra de articulação.

Por que a Faraó, e não ao povo?

O versículo não explica, mas a ordem dos envios é observável: primeiro o rei, aqui; os anciãos só em Êxodo 3:16. E a tarefa, como formulada, é de negociação — o pedido concreto que Moisés deverá fazer aparece em Êxodo 3:18.

Quem tira o povo do Egito, afinal?

O livro diz as duas coisas. Aqui, Moisés; em Êxodo 20:2, Deus, com o mesmo verbo. Nunca reconcilia as duas afirmações e nunca as trata como problema.

Não é possível decidir se o Êxodo as considera equivalentes. O que se pode dizer é que ele não vê contradição — e que qualquer sistema que as harmonize é construção posterior. As leituras possíveis estão no item 6.

Moisés já não conhecia o palácio?

O Êxodo não usa esse argumento em nenhum momento. Ele conta que Moisés foi criado como filho da filha de Faraó (Êxodo 2:10) e não volta a mencionar o fato aqui, nem quando Moisés objeta, nem quando Deus responde.

Que essa criação facilitasse o acesso é hipótese razoável e é do leitor. O texto não a levanta, e Moisés, ao responder no versículo seguinte, também não.

Que autoridade Moisés tinha para falar com um rei?

Nenhuma que o versículo mencione. O que a diplomacia da época exigia de um enviado — carta selada, presentes, comitiva, salvo-conduto — está no item 2, e Moisés não tem nada disso. A autoridade que ele receberá será outra, e virá depois, em Êxodo 4.

A ordem foi obedecida?

Não de imediato. O restante deste capítulo e o capítulo 4 inteiro são feitos de objeções — "quem sou eu?", "qual é o teu nome?", "e se não acreditarem?", "não sou homem de palavras" — até a recusa final de Êxodo 4:13, que Deus atende em parte enviando Arão junto.

Vale registrar como o Êxodo trata isso: sem condenar e sem elogiar. A discussão é longa e o livro a narra inteira.

9. Conexão com Outros Textos

A resposta imediata

Êxodo 3:11 — "Mas Moisés disse a Deus: 'Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?'"

A objeção devolve a frase deste versículo quase palavra por palavra — ir a Faraó, tirar do Egito, os filhos de Israel. Muda apenas o começo: onde havia um imperativo, passa a haver uma pergunta.

O mesmo verbo, com Deus por sujeito

Êxodo 20:2 — "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito, da casa da servidão."

A abertura dos dez mandamentos usa o verbo que aqui está no imperativo dirigido a Moisés. É a mesma ação, atribuída a outro sujeito, no mesmo livro — e o assunto está nos itens 3 e 6.

Êxodo 32:7 — "Vai, desce; porque o teu povo, que fizeste subir da terra do Egito, se corrompeu."

Um caso notável e desagradável. Depois do bezerro de ouro, Deus atribui a Moisés não só o ato — "que tu fizeste subir" — mas também a posse: "o teu povo". A repartição de Êxodo 3:10, que dava o ato a Moisés e o povo a Deus, é invertida no momento da ira.

O envio

Êxodo 3:12 — "E Deus respondeu: 'Eu estarei com você; e este será o sinal de que fui eu que o enviei.'"

O verbo de enviar deste versículo reaparece na resposta, e é ele que a resposta garante. O sinal oferecido é assunto do estudo daquele versículo.

Êxodo 3:16 — "Vá, reúna os anciãos de Israel e diga-lhes..."

O segundo envio, seis versículos adiante. A ordem dos dois — primeiro o rei, depois os anciãos — é do texto.

A fórmula do chamado noutros profetas

Isaías 6:8 — "Depois disto ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Então disse eu: Eis-me aqui, envia-me a mim."

O mesmo verbo, e a diferença salta: ali a pergunta é aberta e o homem se oferece; aqui a pessoa já está escolhida e a frase é uma ordem.

Jeremias 1:7 — "Mas o SENHOR me disse: Não digas: Eu sou um menino; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto te mandar falarás."

Também aqui o chamado vem antes da objeção, a objeção é de insuficiência pessoal, e a resposta não fala das qualidades do enviado.

A memória do envio

1 Samuel 12:8 — "Quando Jacó entrou no Egito, e vossos pais clamaram ao SENHOR, o SENHOR enviou Moisés e Arão, que tiraram vossos pais do Egito."

Séculos depois, o resumo oficial mantém as duas metades deste versículo: Deus enviou, e foram eles que tiraram.

Salmo 105:26 — "Enviou Moisés, seu servo, e Arão, a quem escolhera."

A mesma memória em forma de louvor, e com o mesmo verbo de enviar.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Vá agora: eu o envio a Faraó, para que você tire do Egito o meu povo, os filhos de Israel.”

Texto hebraico

וְעַתָּ֣ה לְכָ֔ה וְאֶֽשְׁלָחֲךָ֖ אֶל־פַּרְעֹ֑ה וְהוֹצֵ֛א אֶת־עַמִּ֥י בְנֵֽי־יִשְׂרָאֵ֖ל מִמִּצְרָֽיִם׃

Transliteração

ve-attáh lekháh ve-eshlachakhá el-Par'óh, ve-hotsé et-ammí venêi-Yisra'él mi-Mitsráyim.

Análise palavra por palavra

וְעַתָּה — ve-attáh, "e agora". O mesmo conectivo que abriu o versículo anterior, e com a mesma função: encerrar a exposição e passar à consequência.

É a segunda vez seguida que ele aparece. Em Êxodo 3:9 introduzia a razão; aqui introduz a ordem.

לְכָה — lekháh, "vá". Verbo halakh, "ir, andar", no imperativo masculino singular, com a terminação longa.

Duas notas. A primeira é sobre a forma: o hebraico tem um imperativo curto, lekh, e este, alongado por uma sílaba. A terminação longa costuma acrescentar insistência ou convite — algo entre "vá" e "vamos, vá" —, e há quem a considere apenas variação de estilo. Não é possível decidir pelo uso deste versículo.

A segunda é sobre o eco. É o mesmo imperativo com que Abrão foi mandado sair da terra dele, em Gênesis 12:1, ali seguido de um pronome que produz a expressão mais famosa daquele capítulo. Aqui a forma é a mesma e o pronome não vem: só o verbo, e o destino é dito na frase seguinte.

וְאֶשְׁלָחֲךָ — ve-eshlachakhá, "e eu o enviarei". Verbo shalach, Qal (forma simples e ativa), imperfeito, primeira pessoa singular, com sufixo de segunda pessoa masculina e o "e" prefixado.

Aqui está a construção que o item 3 comenta. Depois de um imperativo, o hebraico usa esta forma para o que decorre dele — a ordem primeiro, a consequência depois. Ao pé da letra: "vá, e eu o enviarei".

Traduções diferentes resolvem de modos diferentes: umas põem finalidade ("vá, para que eu o envie"), outras põem simultaneidade ("vá, pois eu o envio"). A ABC ficou com o presente, "eu o envio", que é o que o português faz naturalmente com uma comissão dada na hora. A ordem original das duas ações fica registrada aqui.

Quanto à raiz: shalach é o verbo comum de enviar e é o mesmo que dá o substantivo do "enviado". Ele volta na resposta de Deus em Êxodo 3:12, e é o verbo com que a Bíblia descreve o chamado dos profetas.

אֶל־פַּרְעֹה — el-Par'óh, "a Faraó". Preposição de direção com o título egípcio.

A palavra não é nome próprio: é a transposição para o hebraico de um título egípcio, e a formação dele está no estudo de Êxodo 1:11. O hebraico o trata como nome — sem artigo, como se fosse a designação de uma pessoa.

וְהוֹצֵא — ve-hotsé, "e tire". Verbo yatsa, "sair", no Hiphil (forma causativa), imperativo masculino singular.

Duas observações, e a segunda é a que importa.

A primeira é de tradução, e vai declarada. No hebraico há aqui um segundo imperativo: "vá... e tire". A ABC verteu por uma oração de finalidade, "para que você tire", porque em português a sequência de dois imperativos ligados por "e" soa como duas tarefas separadas, e o hebraico está encadeando uma na outra. A forma original é imperativa.

A segunda é sobre a raiz. Yatsa no Hiphil significa "fazer sair", e é o verbo do êxodo — o que dá nome ao acontecimento inteiro na Bíblia hebraica. Ele reaparece dezenas de vezes, e quase sempre com Deus por sujeito: "eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito" (Êxodo 20:2).

Aqui o sujeito é Moisés, e está no imperativo. É o mesmo verbo, na mesma ação, com outro agente — o ponto está desenvolvido nos itens 3 e 6.

אֶת־עַמִּי בְנֵי־יִשְׂרָאֵל — et-ammí venêi-Yisra'él, "o meu povo, os filhos de Israel". A partícula de objeto direto, o substantivo com sufixo de primeira pessoa, e a identificação em seguida.

A construção é a de duas expressões lado a lado que designam a mesma coisa, e a segunda explica a primeira. A partícula de objeto vem só uma vez, no começo, e cobre as duas.

Vale reter a repartição: o objeto do verbo de Moisés leva o possessivo de Deus.

מִמִּצְרָיִם — mi-Mitsráyim, "do Egito". Preposição min com o nome do país.

Note-se que este é o terceiro nome do Egito no bloco, e cada versículo o usou de um jeito: em Êxodo 3:7 era lugar onde o povo está; em Êxodo 3:9, sujeito de quem oprime; aqui, ponto de onde se sai.

11. Conclusão

Três conclusões, e a primeira é a que mais custa.

A primeira: o texto não explica a virada, e o estudo não a explica por ele. Cinco verbos divinos em três versículos — vi, ouvi, conheço, desci, farei subir — e então um imperativo dirigido a um homem, sem uma palavra de ligação entre as duas coisas. Não está escrito que Deus escolha agir por meio de gente, nem que não pudesse fazer sozinho, nem que Moisés acrescente alguma coisa. Está escrito "desci para livrá-lo" e está escrito "vá". Quem preencher esse espaço estará escrevendo, não lendo.

A segunda: a missão é para o lado do poder. Depois de quatro versículos sobre o sofrimento de Israel, a ordem não manda Moisés ao povo — manda a Faraó, que só aparece no capítulo neste momento. A primeira tarefa é de negociação com um rei, e é assim que ela permanecerá até Êxodo 3:16, quando os anciãos entram.

A terceira: o ato passa a Moisés e a posse fica com Deus. "Você tire... o meu povo": um verbo no imperativo de segunda pessoa e um possessivo de primeira, na mesma oração curta. O livro sustentará as duas coisas até o fim, e chegará a atribuir a mesma ação a Deus em Êxodo 20:2, com a mesma palavra, sem notar diferença nenhuma.

Fica registrado o que a ordem não traz: método, poder, garantia, sinal e nome. Moisés recebe um verbo, um destinatário e um objetivo, e é por isso que a pergunta do versículo seguinte não é falta de fé — é a leitura correta do que lhe foi dado.

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