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Êxodo 3:16

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✍️ Por Alberto Adriano·8 de setembro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 35 acessos
Vá, reúna os anciãos de Israel e diga-lhes: ‘O SENHOR, o Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, apareceu a mim e disse: Eu os visitei, e vi o que se faz com vocês no Egito.
Homens de barba grisalha sentados em círculo à sombra, junto a um muro de tijolos, ouvindo um homem de pé que fala com as mãos abertas.

Estudo


Vá, reúna os anciãos de Israel e diga-lhes: ‘O SENHOR, o Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, apareceu a mim e disse: Eu os visitei, e vi o que se faz com vocês no Egito.

1. Introdução

Deus acabou de dar o seu nome. A primeira ordem depois disso é convocar uma reunião.

É esse o contraste que abre o versículo. O capítulo vinha subindo — a sarça, a terra santa, o nome que dura para sempre — e agora desce para uma instrução prática: vá, junte os anciãos, diga a eles o seguinte. O que se revela no monte tem de virar recado.

Três coisas merecem leitura devagar. A primeira é a quem Moisés deve falar: não ao povo, e sim aos anciãos — há um corpo de gente responsável entre ele e a massa, e é por ele que a mensagem entra. A segunda é o que Moisés tem de dizer sobre si mesmo: que Deus apareceu a ele. Tudo o que os anciãos vão ouvir se apoia no testemunho de um homem só, e o versículo não manda Moisés provar nada. A terceira é o tempo do verbo: Deus não diz "eu vou visitar vocês", diz "eu os visitei", no passado — antes de qualquer egípcio perceber que alguma coisa mudou.

E o versículo tem uma nota fina que só aparece quando se compara com o que veio antes: a fórmula do Deus dos pais, dita duas vezes de forma completa a Moisés, vem aqui encurtada. A versão que se recita não é igual à versão que se ouve.

2. Contexto Histórico e Cultural

Os anciãos: o que era essa instituição

"Ancião" traduz uma palavra que quer dizer, ao pé da letra, "barbado" — o homem de idade. Mas o uso corrente não é o de faixa etária. É o de cargo.

No mundo em que a cena se passa, quase toda povoação tinha um grupo assim: os chefes das casas principais, reunidos para decidir o que dizia respeito a todos. Não eram eleitos, não eram nomeados pelo rei e não tinham um número fixo. A autoridade vinha do peso de cada casa dentro da comunidade — quem tinha terra, gado, gente e memória falava pelos que não tinham.

O que se sabe fora da Bíblia

A instituição está documentada muito antes de Israel existir. Os arquivos de Mari, no médio Eufrates, do começo do segundo milênio antes de Cristo, trazem os shibutum ("os anciãos", em acádio) como um corpo com agenda própria: decidem sobre guerra e paz, tratam de disputas entre famílias, dispõem de bens da cidade e falam pela população diante da administração do rei — em várias cartas ao lado do prefeito local, e não abaixo dele.

O detalhe que importa aqui é este: era com os anciãos que se falava quando se queria falar com um grupo inteiro. Um rei que precisasse de alguma coisa de uma cidade não convocava a cidade; mandava chamar os anciãos dela. E um forasteiro que quisesse ser ouvido por uma população começava por eles.

Como funcionava em Israel

A Bíblia mostra o mesmo desenho e mostra onde ele acontecia: no portão da cidade, o único espaço coberto e público de uma povoação antiga, onde se fazia o que hoje se faria num cartório e num fórum. Rute 4:1-2 traz a cena inteira: Boaz senta-se ao portão, chama dez homens dentre os anciãos e só então trata do negócio — porque sem eles o ato não valia.

As leis confirmam a função. Deuteronômio 21:19 põe diante dos anciãos o caso do filho rebelde; Deuteronômio 25:7-9, a recusa do cunhado em assumir a viúva do irmão. Em ambas, eles são quem ouve, quem decide e quem responde.

Uma distinção vale marcar. Os anciãos não eram sacerdotes e não eram profetas. Não representavam Deus diante do povo; representavam o povo diante de quem quer que fosse. É por isso que a instrução deste versículo é política, e não religiosa: Moisés vai falar ao órgão que fala pelos hebreus.

E no Egito?

Aqui é preciso marcar o limite. O Êxodo pressupõe que os hebreus no Egito tinham anciãos, mas nenhum documento egípcio conhecido descreve essa organização entre trabalhadores estrangeiros no Delta, e o livro não explica como um povo em trabalho forçado conservou um corpo de representantes. É plausível que tenha conservado, porque a administração que explora um grupo precisa de alguém com quem tratar — só que isso é raciocínio, não documento.

O que se pode afirmar é mais modesto e mais interessante: o texto trata a existência dos anciãos como óbvia. Não os apresenta, não explica quem são, não diz quantos são. Dá por sabido — e essa naturalidade é, ela mesma, um dado sobre o mundo que o livro pressupõe.

3. Análise Teológica do Versículo

"Vá, reúna os anciãos de Israel"

A primeira palavra é um verbo de movimento, e é a segunda vez no capítulo que Deus manda Moisés ir. A primeira foi em Êxodo 3:10, e mandava ir a Faraó; esta manda ir aos seus. Deus deu primeiro a missão maior e só depois informou por onde ela começa — por uma reunião de gente do próprio povo.

E repare em quem fica de fora. Deus não manda Moisés falar ao povo. Manda falar aos anciãos. O povo entra depois: em Êxodo 4:29-31 são Moisés e Arão que ajuntam os anciãos, Arão fala, os sinais são feitos à vista do povo, e o povo crê.

A saída do Egito, no plano que Deus expõe, não começa com uma comoção popular: começa com uma conversa fechada entre um homem e um punhado de responsáveis. É um dado de método, e o texto não o comenta.

"O SENHOR, o Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó"

Aqui está uma diferença que só se vê comparando. Em Êxodo 3:6 e outra vez em Êxodo 3:15, a fórmula vem com o título repetido diante de cada nome: "o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó". Neste versículo ele aparece uma vez só, e os três nomes vêm enfileirados depois dele.

Não é diferença de tradução: está no hebraico. E ela cai exatamente no ponto em que a fala deixa de ser dirigida a Moisés e passa a ser um texto para recitar. A versão longa é a que Deus diz a um homem que está ouvindo; a versão curta é a que esse homem vai levar na boca.

Não é possível decidir se o encurtamento é intencional. O que se registra é o fato: a fórmula fica mais leve na hora de virar recado.

Quanto ao conteúdo da fórmula em si — por que Deus se apresenta pelos três patriarcas e o que isso faz —, o assunto está desenvolvido nos estudos de Gênesis 28:13 e Gênesis 50:24, e não se reabre aqui.

"apareceu a mim"

Esta é a parte do versículo que mais pesa e a que menos se comenta.

Moisés tem de chegar aos anciãos e dizer que Deus apareceu a ele. Não "falou ao meu coração", não "tive uma impressão": apareceu, no sentido de foi visto. E não havia mais ninguém no monte.

Não há testemunha, não há sinal na mão, não há carta de apresentação. Tudo o que a mensagem tem para se sustentar é a palavra de um homem que sumiu do Egito depois de matar um egípcio e que agora volta com um recado divino.

O mais notável é que Deus não trata isso como problema: diz "eles ouvirão a sua voz" no versículo seguinte e não oferece mais nada. Os sinais — o bastão, a mão, a água — só entram em Êxodo 4:1-9, e entram porque Moisés levanta a objeção "eles não vão acreditar em mim". A prova, no Êxodo, não é iniciativa de Deus: é concessão a uma dúvida do enviado.

"Eu os visitei"

O verbo está no passado, e é aí que está o peso.

No fim do Gênesis, José morrendo disse aos irmãos que Deus "certamente os visitaria", no futuro, e fez com que jurassem levar os seus ossos quando isso acontecesse. A fórmula hebraica é a mesma, e o estudo de Gênesis 50:24 a trata por inteiro.

O que muda aqui é o tempo. Deus não diz que vai visitar; diz que já visitou. E diz isso num momento em que, no Egito, nada tinha mudado: os hebreus continuavam sob a mesma carga, o rei continuava no trono e ninguém lá sabia que um homem tinha parado diante de uma sarça no deserto.

É a mesma lógica de Êxodo 2:24-25, onde Deus ouve, lembra, vê e conhece — quatro verbos, nenhum efeito visível. A visita, na linguagem do texto, é decisão tomada, não acontecimento percebido.

"e vi o que se faz com vocês no Egito"

A frase final tem uma delicadeza que passa despercebida: ela não tem sujeito.

O hebraico usa uma forma passiva — "o que é feito a vocês" — e não nomeia quem faz. Não diz "o que os egípcios fazem", não diz "o que Faraó ordenou", não diz "o que os feitores impõem". Diz que alguma coisa está sendo feita, e para aí.

A comparação mostra que a escolha não é aleatória. Sete versículos antes, em Êxodo 3:9, Deus tinha dito a Moisés: "vi a opressão com que os egípcios os oprimem" — com o culpado nomeado duas vezes na mesma frase. Na mensagem que vai ser recitada aos anciãos, o culpado desaparece da gramática.

O que fazer com isso? Menos do que se gostaria. O texto não explica a diferença, e qualquer razão que se ofereça é leitura de comentarista. O observável é isto: a versão pública da mensagem é menos acusatória que a versão particular, e a mesma discrição volta no versículo seguinte, que fala da "aflição do Egito" sem pôr o Egito como quem age.

Há uma coisa que a frase faz, e faz bem: ela não pergunta. Deus não diz aos anciãos que soube por ouvir dizer. Diz que viu. O que se faz com eles no Egito não é informação de segunda mão.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os anciãos de Israel

É a primeira vez que eles aparecem no livro do Êxodo. O texto não os apresenta: manda reuni-los, como se o leitor já soubesse quem são.

Daqui em diante eles voltam com regularidade, e vale ver o percurso, porque ele é irregular de um jeito que interessa:

Em Êxodo 4:29-31 são reunidos e ouvem — e a cena termina com o povo crendo. Em Êxodo 5:1, quando Moisés e Arão vão finalmente ao rei do Egito, os anciãos não estão lá, embora Êxodo 3:18 tenha mandado que fossem. Em Êxodo 12:21 recebem as instruções da Páscoa. Em Êxodo 17:5-6 alguns acompanham Moisés como testemunhas da água na rocha. Em Êxodo 18:12 comem com Jetro diante de Deus. Em Êxodo 24:1 e 24:9 setenta deles sobem parte do monte. Em Êxodo 24:14 ficam encarregados das questões do povo.

São, portanto, o corpo estável do lado de Israel: recebem a mensagem, testemunham, julgam e comem. O que eles quase nunca fazem é falar. Em nenhuma dessas cenas o texto registra uma frase dita por eles.

Moisés

Neste momento ele é um pastor a serviço do sogro, morando em Midiã, fora do Egito havia muito tempo. A última vez que esteve entre hebreus, em Êxodo 2:14, foi recebido com uma pergunta hostil: "quem o pôs por príncipe e juiz sobre nós?".

É esse homem que recebe a ordem de reunir os responsáveis do povo. O texto não diz que ele os conhecia, não diz que eles o conheciam e não diz como ele os encontraria — e não registra receio nenhum dele quanto a isso. A objeção que Moisés levantará é outra, e vem em Êxodo 4:1.

Abraão, Isaque e Jacó

Os três patriarcas, nomeados na ordem das gerações. A fórmula é a credencial da mensagem: liga o Deus que apareceu no monte ao Deus das histórias que aquele povo conservava. O que ela significa está tratado nos estudos de Gênesis 28:13 e Gênesis 50:24.

5. Pontos de Ensino

1. A revelação termina em instrução

O capítulo mostra fogo, terra santa e um nome que dura para sempre. E o que Deus manda fazer com tudo isso é convocar uma reunião. A cena mais alta do livro desemboca numa tarefa organizacional, e o texto não trata isso como queda de nível.

2. Deus fala com quem tem responsabilidade antes de falar com todos

A mensagem não é despejada sobre a multidão. Vai primeiro ao corpo de gente que responde pelo povo, e é dele que se espera a passagem adiante. Quem quiser tirar disso uma regra de método deve reparar que o texto descreve um caso, e não dá uma norma.

3. O testemunho vem antes da prova

Moisés é mandado dizer que Deus lhe apareceu — sem sinal, sem documento, sem outra testemunha. Os sinais só entram no capítulo seguinte, e entram porque ele os pede. É um dado incômodo e é o que está escrito.

4. "Eu os visitei" é dito antes de qualquer mudança

Nada tinha melhorado no Egito. A carga era a mesma, o rei era o mesmo. O verbo no passado não descreve o que se pode ver; descreve o que foi decidido. Entre a decisão e o efeito há, no livro, vários capítulos de piora.

6. Aspectos Filosóficos

O problema de quem fala por outro

Este versículo cria, em duas linhas, uma cadeia de três elos: Deus fala a Moisés, Moisés fala aos anciãos, os anciãos falam ao povo. Cada elo é um lugar onde a mensagem pode ser deformada, e nenhum deles tem verificação.

A questão que isso levanta é antiga e continua sem solução limpa: com que direito alguém fala em nome de outro? Há duas maneiras clássicas de responder, e o versículo não usa nenhuma delas.

A primeira é a da prova: quem alega falar por outro mostra um sinal que só o mandante poderia ter dado. É a resposta da credencial, e é a que Moisés vai exigir para si mesmo um capítulo adiante. Aqui ela não é oferecida.

A segunda é a do reconhecimento: a mensagem se autentica pelo conteúdo, porque quem ouve reconhece nela algo que já sabia. É o que a fórmula "o Deus dos seus pais" parece fazer.

Mas essa segunda resposta tem um custo: ela só funciona quando a mensagem confirma o que se espera. Serve para autenticar quem traz notícia boa a quem quer ouvi-la, e não serve para nada quando a mensagem contraria. É um teste fraco.

O versículo deixa a pergunta aberta, e o livro registra a ironia: o que foi aceito sem prova em Êxodo 4:31 será recusado em Êxodo 6:9, depois que a situação piorar. A credencial que bastou uma vez não bastou na segunda — não porque mudou o mensageiro, mas porque mudou o preço de acreditar nele.

7. Aplicações Práticas

Falar primeiro com quem responde

A instrução do versículo tem uma aplicação prática direta e pouco romântica: quando alguma coisa precisa mudar num grupo, o caminho não começa pela plateia. Começa por quem tem responsabilidade sobre ela.

Convencer trinta pessoas ao mesmo tempo é quase sempre pior do que convencer três que têm peso — não porque a maioria não importe, mas porque uma mensagem que chega a todos sem passar por ninguém responsável não tem quem a sustente no dia seguinte. Vale a ressalva: o texto descreve um caso, não enuncia uma regra de liderança.

Dizer o que se viu, sabendo que não se pode provar

Moisés é mandado afirmar uma experiência que ninguém presenciou. A aplicação aqui não é "acredite em quem diz ter visto Deus" — seria irresponsável. É outra, e mais útil: quem carrega uma convicção que não pode demonstrar precisa saber que está pedindo confiança, não apresentando prova, e precisa dizer isso com todas as letras.

A honestidade da posição de Moisés está justamente em ele não fingir prova. Ele diz o que aconteceu com ele. Cabe a quem ouve decidir.

Notícia boa dita antes de a situação mudar

"Eu os visitei" foi dito a gente cuja carga logo aumentaria. Anunciar que a coisa vai virar, quando ainda não virou, é assumir o risco de ser desmentido pelos fatos por um tempo — e o Êxodo mostra isso acontecendo em Êxodo 5:21, quando o povo se volta contra Moisés.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Por que os anciãos, e não o povo?

O texto não explica. Registra a instrução e segue. O que se pode observar é que era assim que se falava com um grupo inteiro no mundo antigo — pelo corpo que respondia por ele — e que o próprio Êxodo mostra o povo entrando na cena logo depois, em Êxodo 4:30-31.

Os anciãos acreditaram?

Sim, segundo Êxodo 4:31 — mas com um detalhe. O versículo diz que o povo creu, depois de ouvir e de ver os sinais. Sobre a reação dos anciãos em si, o texto não diz nada. É mais uma vez o padrão do livro: eles ouvem e não falam.

Se Deus já tinha visitado, por que a escravidão continuou?

O versículo não responde. A visita é anunciada no passado e os efeitos demoram capítulos — e, antes de melhorar, a situação piora, porque em Êxodo 5:6-9 o rei aumenta a carga por causa do pedido de Moisés. O livro não explica o intervalo: registra os dois fatos.

Por que a mensagem não nomeia os egípcios?

Não é possível decidir. A forma hebraica é passiva e sem agente, e a diferença em relação a Êxodo 3:9 é real e observável. As razões que se propõem — prudência, foco na dor e não no culpado, economia de linguagem — são todas hipóteses de leitor.

9. Conexão com Outros Textos

O que acontece com esta ordem

Êxodo 4:29-31 — "Foram Moisés e Arão e ajuntaram todos os anciãos dos filhos de Israel; Arão falou todas as palavras que o SENHOR havia dito a Moisés, e fez os prodígios à vista do povo. O povo creu; e, tendo ouvido que o SENHOR havia visitado os filhos de Israel e que tinha visto a aflição deles, inclinaram as suas cabeças e adoraram."

É o cumprimento da ordem deste versículo, e ele vem com duas diferenças. Quem fala não é Moisés, é Arão. E há sinais, que aqui não estavam previstos. A frase que o povo ouve — "havia visitado" e "tinha visto" — é a deste versículo, repetida quase palavra por palavra.

A promessa que este versículo dá por cumprida

Gênesis 50:24 — "Disse José a seus irmãos: Eu morro; mas Deus certamente vos visitará e vos fará subir desta terra para a terra que jurou a Abraão, a Isaque e a Jacó."

A mesma construção hebraica reforçada, no futuro, e com a mesma tríade de nomes no fim. O estudo daquele versículo trata a fórmula por inteiro; o que interessa aqui é que Êxodo 3:16 a devolve no passado.

O que Deus disse a Moisés, e não mandou dizer aos anciãos

Êxodo 3:9 — "Agora, pois, o grito dos filhos de Israel chegou até mim, e também vi a opressão com que os egípcios os oprimem."

Sete versículos antes, o culpado é nomeado e o verbo tem sujeito. Na versão para recitar, some.

Um caso em que a mesma cadeia falha

Êxodo 6:9 — "Assim falou Moisés aos filhos de Israel; mas eles não ouviram Moisés, por falta de fôlego e por causa da dura escravidão."

É a mesma mensagem, o mesmo mensageiro e o resultado oposto. Entre uma cena e outra, a carga aumentou.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Vá, reúna os anciãos de Israel e diga-lhes: ‘O SENHOR, o Deus dos seus pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, apareceu a mim e disse: Eu os visitei, e vi o que se faz com vocês no Egito.

Texto hebraico

לֵךְ וְאָסַפְתָּ אֶת־זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל וְאָמַרְתָּ אֲלֵהֶם יְהוָה אֱלֹהֵי אֲבֹתֵיכֶם נִרְאָה אֵלַי אֱלֹהֵי אַבְרָהָם יִצְחָק וְיַעֲקֹב לֵאמֹר פָּקֹד פָּקַדְתִּי אֶתְכֶם וְאֶת־הֶעָשׂוּי לָכֶם בְּמִצְרָיִם׃

Transliteração

lekh we-asafta et-ziqnei Yisrael we-amarta alehem: YHWH Elohei avoteikhem nir'ah elai, Elohei Avraham, Yitschaq we-Yaaqov, lemor: paqod paqadti etkhem we-et he-asuy lakhem be-Mitsrayim.

Análise palavra por palavra

לֵךְ — lekh, "vá". Imperativo do verbo halakh, andar, ir. É a mesma forma que abre a ordem a Abraão em Gênesis 12:1.

וְאָסַפְתָּ — we-asafta, "e você reunirá". Do verbo asaf, ajuntar, recolher, colher.

Asaf é verbo de recolher coisas dispersas: é o que se faz com a colheita em Êxodo 23:10 e com o animal perdido que se recolhe em casa, em Deuteronômio 22:2. Aplicado a pessoas, supõe que elas estejam espalhadas e que alguém vá buscá-las. Não é "convoque uma assembleia já existente"; é "junte quem está separado".

זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל — ziqnei Yisrael, "os anciãos de Israel".

Zaqen vem da raiz de zaqan, "barba": o sentido primeiro é "o barbado", o homem de idade, como em Gênesis 18:11. Mas o plural com um nome de grupo atrás — "anciãos de Israel", "anciãos da cidade" — funciona como título e designa os representantes, não os idosos. A palavra aparece cerca de 180 vezes no Antigo Testamento, e a grande maioria dessas ocorrências é institucional.

נִרְאָה אֵלַי — nir'ah elai, "apareceu a mim".

Do verbo ra'ah, ver, na forma Nifal — a forma passiva ou reflexiva do verbo hebraico. Ao pé da letra, "foi visto por mim" ou "deixou-se ver a mim": quem age é quem aparece, e quem recebe a ação é quem olha.

É a fórmula fixa das aparições no Gênesis — Gênesis 12:7, 17:1, 26:2, 35:9 — sempre com o mesmo desenho: Deus se torna visível a alguém, por iniciativa dele. Não existe no Antigo Testamento o uso inverso, em que um homem consiga fazer Deus aparecer. E repare no pronome elai, "a mim": a frase que Moisés vai dizer aos anciãos põe a experiência inteira em primeira pessoa do singular.

אֱלֹהֵי אַבְרָהָם יִצְחָק וְיַעֲקֹב — Elohei Avraham, Yitschaq we-Yaaqov.

Aqui está a diferença que o item 3 aponta, e ela é visível na própria consoante. Em Êxodo 3:6 e em Êxodo 3:15 o hebraico traz Elohei repetido diante de cada nome: Elohei Avraham, Elohei Yitschaq we-Elohei Yaaqov. Neste versículo o título aparece uma única vez, e os três nomes vêm em sequência.

É a forma abreviada da mesma fórmula, e ela reaparece assim, sem repetição, em Êxodo 4:5 — outro lugar em que a frase é dita para ser repetida a terceiros. A observação é de tendência, não de regra: o número de casos é pequeno demais para afirmar mais do que isso.

פָּקֹד פָּקַדְתִּי — paqod paqadti, "visitar, eu visitei" — ou seja, "certamente eu os visitei".

São duas formas do mesmo verbo, uma atrás da outra: a primeira sem tempo nem pessoa, posta antes da segunda para reforçá-la. A construção e o campo semântico de paqad — atender, inspecionar, encarregar, sentir falta, punir — foram desenvolvidos no estudo de Gênesis 50:24, que é o dono do assunto no acervo.

O que é próprio daqui é o tempo e a pessoa. Em Gênesis 50:24 a construção está na terceira pessoa e no imperfeito: paqod yifqod, "ele certamente visitará". Aqui está na primeira pessoa e no perfeito: paqod paqadti, "eu certamente visitei". Mesma fórmula, do futuro para o passado, e da boca de José para a boca de Deus.

הֶעָשׂוּי לָכֶם — he-asuy lakhem, "o que é feito a vocês". Do verbo asah, fazer, no particípio passivo, precedido do artigo.

O particípio passivo é a forma que, em hebraico como em português, permite falar de uma ação sem dizer quem a pratica. Não há sujeito na frase, e não há a partícula que o hebraico usaria para introduzir o agente. Gramaticalmente, ninguém faz isso com eles: apenas está sendo feito.

A comparação com Êxodo 3:9 é imediata: lá o texto usa o verbo lachats, oprimir, na voz ativa, com "os egípcios" como sujeito explícito. A diferença entre as duas frases é de construção, não de tradução.

11. Conclusão

Do que foi visto, quatro conclusões.

A primeira: o que aconteceu no monte só existe para os outros se alguém contar. Não há registro, não há testemunha, não há prova. Deus organiza a transmissão como se organiza qualquer recado humano — vá, junte as pessoas certas, diga o seguinte — e entrega tudo à palavra de um homem. O versículo mostra que a revelação, para virar história de um povo, depende de um ato de fala tão frágil quanto qualquer outro.

A segunda: a ordem de Deus respeita uma estrutura que já existia. Ele não manda dissolver os anciãos nem passar por cima deles: manda usá-los. É por dentro do arranjo social que aquele povo tinha que a saída do Egito começa.

A terceira: a visita é anunciada antes de ser percebida. "Eu os visitei" é dito quando nada tinha mudado, e a mudança demora. Entre o verbo no passado e o primeiro efeito no chão existem, no livro, capítulos de piora — inclusive a carga aumentada de Êxodo 5. O texto não harmoniza as duas coisas, e este estudo não tenta harmonizá-las.

A quarta: a mensagem foi encurtada e suavizada ao passar de ouvido para boca. A fórmula dos pais perdeu duas repetições; o culpado perdeu o nome. As duas coisas estão no hebraico e nenhuma é comentada pelo texto. Não é possível decidir se houve intenção — mas a fala destinada a ser recitada não é idêntica à fala ouvida no monte, e essa diferença é do próprio Êxodo, não de quem o traduz.

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Êxodo 3:16

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