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Êxodo 18:12

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 15 acessos
Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus; e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés diante de Deus.
Ao pé de um monte rochoso do deserto, junto a um altar de pedras brutas de onde sobe fumaça, um sacerdote midianita idoso preside uma refeição; Arão e os anciãos de Israel, sentados no chão em semicírculo, partem pão, enquanto Moisés, de pé atrás deles, segura uma bandeja.

Estudo


Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus; e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés diante de Deus.

1. Introdução

Depois da alegria, da bênção e da confissão, Jetro passa ao ato: toma um holocausto e sacrifícios "para Deus", e Arão e todos os anciãos de Israel vêm comer pão com ele "diante de Deus". É o primeiro holocausto efetivamente oferecido no livro do Êxodo, e quem o traz é um sacerdote estrangeiro. O texto diz que ele "tomou" as ofertas, e não diz quem as queimou no altar, nem que altar era. Moisés, que tinha saído ao encontro do sogro, não está entre os que comem. E a refeição dos chefes de Israel acontece como convidados de um midianita.

2. Contexto Histórico e Cultural

Antes do santuário, quem podia oferecer sacrifício? A Mishná (a primeira compilação da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Zevachim 14:4, responde com uma regra para a época anterior ao tabernáculo: os altares particulares eram permitidos, e o serviço era feito pelos primogênitos. Só depois de erguido o tabernáculo os altares particulares foram proibidos e o serviço passou aos sacerdotes, filhos de Arão. Na Bíblia, os exemplos são antigos e numerosos: Noé oferece holocaustos ao sair da arca (Gênesis 8:20); Jó, que não é israelita, oferece holocaustos pelos filhos (Jó 1:5); Balaão e Balaque erguem sete altares em Moabe (Números 23:1-2). Um chefe de família ou de clã oferecia, e um sacerdote de Midiã com mais razão.

O versículo nomeia duas espécies de oferta. O holocausto (em hebraico olah, "a que sobe") era queimado inteiro: ninguém comia. Os "sacrifícios", aqui, são os de comunhão, cuja gordura ia para o altar e cuja carne era comida pelos ofertantes e convidados. Os dois juntos fazem a cena: uma parte inteira para Deus, outra para a mesa.

Essa combinação provocou uma discussão no Talmude Babilônico (Zevachim 116a). Os mestres se perguntam se os não israelitas — os "filhos de Noé", na linguagem rabínica — ofereciam sacrifícios de comunhão, ou só holocaustos. Rabi Elazar e Rabi Yossi bar Chanina divergem. Quem diz que não ofereciam encontra uma objeção neste versículo: Jetro, antes de ser israelita, trouxe "sacrifícios", isto é, ofertas de comunhão. A resposta depende de quando a visita aconteceu: se foi depois da entrega da Torá no Sinai, Jetro já estaria sob a lei de Israel, e a objeção cai; se foi antes, os filhos de Noé ofereciam sacrifícios de comunhão. O Talmude registra a divergência sobre a data sem decidi-la.

A lei judaica posterior foi além. No tratado Menachot 73b, Rav Huna ensina que, quando um não judeu oferecia sacrifício de comunhão no Templo de Jerusalém, a oferta era queimada inteira, como holocausto: a intenção dele, diz o Talmude, era que tudo fosse para o céu, e não que uma parte fosse comida. Pela regra do Templo, a refeição de Êxodo 18:12 não poderia acontecer com as ofertas de um estrangeiro. É por isso que comentaristas como Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) e Malbim (Meir Leibush Weisser, comentarista do século XIX) entenderam que Jetro, ao oferecer, já tinha entrado na aliança — pela circuncisão, pelo banho ritual e pelo sangue de uma oferta, os três passos que o Talmude (Keritot 9a) exige do prosélito no tempo do santuário.

Por fim, a refeição. Comer pão juntos depois de um sacrifício era, no Oriente antigo e na própria Bíblia, uma forma de selar relações entre partes — Jacó e Labão encerram a disputa assim. A refeição de aliança e os seus exemplos bíblicos estão no estudo de Gênesis 31:54.

3. Análise Teológica do Versículo

"Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus"

É o primeiro holocausto do Êxodo que alguém de fato oferece. Moisés tinha exigido de Faraó "sacrifícios e holocaustos" (Êxodo 10:25); a saída se fez com a Páscoa, que é outra coisa; Moisés ergueu um altar depois da vitória sobre Amaleque, mas o texto não registra sacrifício sobre ele (Êxodo 17:15). O primeiro holocausto queimado depois do Egito vem das mãos de um midianita. O próximo será o da aliança no Sinai, oferecido por jovens israelitas (Êxodo 24:5).

A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), tratado Amaleque, seção 3, lê o versículo como espanto do próprio texto: "a Escritura se admira dele: um homem que servia, sacrificava, queimava incenso, derramava libações e se prostrava diante da sua idolatria, agora traz holocausto e sacrifícios ao SENHOR!"

O verbo é "tomou", não "ofereceu". Quem queimou o holocausto no altar? Há três respostas.

Primeira leitura: o próprio Jetro, como sacerdote. É a de Ellicott (Charles John Ellicott, bispo anglicano do século XIX), de Benson (Joseph Benson, metodista inglês do século XVIII), de Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX), de Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e do Pulpit Commentary (“Comentário do Púlpito”, obra coletiva inglesa do século XIX). Ele era sacerdote, nenhum outro oficiante é nomeado, e vários deles o comparam a Melquisedeque, o sacerdote de Salém que abençoou Abrão (Gênesis 14:18-20).

Segunda leitura: Jetro forneceu os animais, e outros ofereceram. É a de Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII), para quem a prática do Antigo Testamento era que o ofertante entregasse os animais aos encarregados do culto. Arão, que chega logo depois, seria o candidato óbvio — mas o texto o traz para comer, não para oficiar.

Terceira leitura: "tomou" quer dizer que providenciou. O Haamek Davar (“Aprofundar a palavra”, comentário de Naftali Tzvi Yehuda Berlin, lituano do século XIX) explica o verbo assim: Jetro adquiriu e trouxe os animais. A pergunta sobre quem os queimou fica sem resposta.

As traduções antigas decidiram por conta própria. A aramaica de Ônquelos escreve "ofereceu"; a Vulgata latina, obtulit, "ofereceu". A Septuaginta, mais fiel ao hebraico, mantém "tomou". O texto hebraico não diz, e é esse silêncio — um sacerdote estrangeiro no centro de um culto ao Deus de Israel, sem uma palavra de ressalva — que está examinado no estudo de Êxodo 2:16.

As ofertas são duas e em números diferentes: "um holocausto", no singular, e "sacrifícios", no plural. O holocausto é a parte inteira de Deus. Os sacrifícios de comunhão são a carne da refeição, e o plural indica que houve muita. Or ha-Chaim (“A luz da vida”, comentário de Chaim ibn Attar, rabino marroquino do século XVIII) tira daí um detalhe de cortesia: Jetro ofereceu tantos animais que os anciãos vieram sem precisar de convite, porque a carne consagrada não podia sobrar. Sforno (Ovadia Sforno, comentarista italiano do século XVI) lê o gesto como sinal de que Jetro aceitava o jugo do céu, e o compara ao pedido de Naamã de nunca mais oferecer holocausto a outro deus (2 Reis 5:17).

E há o destinatário: "para Deus". Nos versículos 10 e 11 Jetro falou do SENHOR, pelo nome próprio. Aqui, o texto diz que ofereceu "a Deus", com a palavra comum. O Kli Yakar (“O vaso precioso”, comentário de Shlomo Efraim de Luntschitz, Praga, início do século XVII) e o Haamek Davar registram que isso intrigou os comentaristas, porque, segundo uma regra antiga do Sifra (comentário rabínico ao Levítico) repetida no fim do tratado Menachot, a Torá nunca usa outro nome além do SENHOR para os sacrifícios. As explicações divergem. Para Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII), "para Deus" quer dizer que daquele dia em diante o Deus venerado seria o Deus de Jetro. Para o Haamek Davar, a palavra aponta para Deus como juiz, e o sacrifício abre o trecho seguinte, em que o assunto será justamente julgar. Ônquelos resolveu à sua maneira: escreve "diante do SENHOR".

Os estudiosos que dividem a Torá em fontes literárias de origem diferente têm outra explicação, mais simples: o capítulo 18, em grande parte, usaria "Deus" porque pertenceria à fonte que eles chamam de eloísta, que prefere essa palavra ao nome próprio. É uma hipótese, discutida, e não explica por que os versículos 9 a 11, no mesmo capítulo, usam o nome.

"e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés"

Arão aparece pela primeira vez no capítulo. Vem com "todos os anciãos de Israel", a liderança do povo. Quem convida é Jetro: os chefes de Israel são os convidados, e quem preside a refeição sagrada é o sogro estrangeiro. O texto chama Jetro duas vezes, no mesmo versículo, pela relação com Moisés — "sogro de Moisés" —, e não pelo cargo de sacerdote de Midiã.

E Moisés? Ele não está na lista. A Mekhilta faz a pergunta: "e Moisés, aonde foi? Não foi ele quem saiu primeiro ao encontro do sogro?" E responde: ele estava de pé, servindo. Aprendeu com Abraão, que ficou de pé junto aos três visitantes enquanto eles comiam (Gênesis 18:8). A Mekhilta conta, para mostrar que a regra continua, um banquete em que Rabban Gamliel, o chefe dos sábios, se levantou para servir os convidados. Os sábios protestaram; Rabi Yehoshua citou Abraão, que serviu a quem pensava serem viajantes idólatras; e Rabi Tsadoq foi mais longe: o próprio Deus serve a mesa de todos os viventes, inclusive dos maus e dos idólatras. O Targum que leva o nome de Jônatas (uma tradução aramaica antiga e livre) põe a leitura dentro do próprio versículo: "e Moisés estava de pé, servindo diante deles". Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI) a adota.

A explicação simples é outra. Rashbam (Rabi Shmuel ben Meir, França, século XII), Ibn Ezra e Shadal (Samuel David Luzzatto, Itália, século XIX) dizem que a refeição era na tenda de Moisés, que era o anfitrião, e por isso não precisava ser nomeado. As duas leituras são possíveis. A primeira dá a Moisés um papel; a segunda só explica uma ausência.

Nachmânides lê a refeição como festa de entrada na aliança. Se Jetro já tinha se tornado israelita, aquele era o dia do casamento dele com o povo, e ele cita o Cântico dos Cânticos 3:11, "no dia das suas bodas". Os anciãos comem com ele como se come com um noivo, ou com uma criança recém-circuncidada.

"diante de Deus"

Onde? Não há tabernáculo — ou ainda não há, se a cena é anterior ao Sinai. Sforno entende que comeram diante do altar em que as ofertas foram queimadas, e não sabe dizer se era o altar que Moisés ergueu depois de Amaleque ou outro, que o texto não menciona. Ibn Ezra, que põe a cena depois do Sinai, diz que a tenda de Moisés ficava diante da entrada do tabernáculo. Shadal observa que "diante de Deus" é a expressão própria para comer carne consagrada: em Deuteronômio 12:7 o povo come as ofertas "diante do SENHOR".

A Mekhilta e Rashi tiraram da expressão uma regra que ficou famosa: quem participa de uma refeição em que estão sábios é como quem se alimenta do esplendor da presença divina (Berakhot 64a). A refeição dos anciãos com Jetro, nessa leitura, não ficou "diante de Deus" por causa de um altar, e sim por causa de quem estava sentado à mesa.

O texto não diz qual das duas coisas faz a refeição ser "diante de Deus" — o altar, o sacrifício ou a companhia. Diz que foi, e com isso põe o primeiro banquete sagrado do povo no deserto sob a presidência de um estrangeiro.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Jetro

Chamado aqui, duas vezes, de "sogro de Moisés". Depois de falar nos versículos 10 e 11, ele age: providencia as ofertas e preside a refeição. É a última vez, no capítulo, que ele aparece como sujeito de um ato de culto.

Arão

Irmão mais velho de Moisés, levita, o porta-voz que Deus lhe deu diante de Faraó (Êxodo 4:14-16). É a primeira vez que aparece no capítulo 18. Mais tarde será consagrado sumo sacerdote (Êxodo 28-29); aqui, ainda sem esse cargo, vem como convidado à refeição de outro sacerdote.

Os anciãos de Israel

Os chefes das famílias e das tribos, que representavam o povo desde o Egito (Êxodo 3:16, 4:29, 12:21). Comem com Jetro aqui; comerão e beberão de novo, no Sinai, depois de "verem a Deus" (Êxodo 24:11).

Moisés

Ausente da lista dos que comem, embora o versículo o nomeie duas vezes, como referência do sogro. A ausência é explicada pela tradição como serviço à mesa ou como papel de anfitrião (item 3).

O lugar

O acampamento junto ao "monte de Deus" (Êxodo 18:5). O versículo não menciona altar nem tenda; diz só "diante de Deus".

Rabban Gamliel, Rabi Yehoshua e Rabi Tsadoq

Os personagens do banquete que a Mekhilta conta ao comentar este versículo. Rabban Gamliel de Yavne foi o chefe dos sábios depois da destruição do Templo, no fim do século I; Rabi Yehoshua ben Chananiah, o seu colega e muitas vezes opositor; Rabi Tsadoq, um sacerdote idoso que tinha vivido os últimos anos do Templo. A história é contada para mostrar que até o maior dos sábios deve servir a mesa — e que Moisés, nesta cena, estaria fazendo isso.

5. Pontos de Ensino

1. O primeiro holocausto do Êxodo é de um estrangeiro. Israel pediu para sacrificar, celebrou a Páscoa, ergueu um altar; o primeiro holocausto queimado depois do Egito vem das mãos de Jetro. O texto não comenta.

2. Os chefes de Israel são convidados. Arão e os anciãos vão à refeição de um sacerdote de Midiã. O texto não inverte os papéis para preservar a honra de Israel; registra a cena como foi.

3. O que o texto não diz não deve ser preenchido como se dissesse. Quem queimou as ofertas, que altar era, se Jetro já tinha entrado na aliança, onde estava Moisés — tudo isso foi respondido pela tradição, e nada disso está no versículo.

4. A refeição faz parte do culto. O holocausto vai inteiro para Deus; os sacrifícios de comunhão vão para a mesa. Comer junto, "diante de Deus", é parte do ato religioso, e não um apêndice dele.

5. Servir pode ser uma forma de presença. Na leitura dos mestres, Moisés não comeu porque estava servindo. É leitura, não texto; mas a tradição a usou para ensinar que a honra não impede ninguém de servir a mesa.

6. Aspectos Filosóficos

Pode um culto ser ao mesmo tempo de um povo e de todos? A cena levanta a pergunta sem formulá-la: um sacerdote de outro povo oferece ao Deus de Israel, e os chefes de Israel comem com ele "diante de Deus". A pertença nacional e a abertura a quem vem de fora sentam-se à mesma mesa.

Abraham Isaac Kook (1865-1935), nascido na Letônia, rabino em Jafa a partir de 1904 e primeiro rabino-chefe asquenazita da terra de Israel sob o mandato britânico, desde 1921, pensou essa pergunta mais do que qualquer outro pensador judeu do seu tempo. Os seus textos mais conhecidos foram reunidos depois da morte dele, por discípulos, sob o título Orot ha-Kodesh (“As luzes da santidade”).

Um dos trechos mais citados desses volumes descreve o que Kook chamou de "canção quádrupla". Há quem cante a canção da própria alma, e encontre nela tudo o que precisa. Há quem cante a canção do seu povo, sai do círculo estreito de si mesmo e se liga à comunidade inteira. Há quem cante a canção da humanidade, e se alegre com a dignidade e a esperança de toda a espécie humana. E há quem cante a canção do mundo inteiro, de todas as criaturas. Por fim, diz Kook, há quem cante as quatro juntas — e essa é, para ele, a canção da santidade.

O ponto decisivo da imagem é que as canções não se excluem. Para Kook, a canção do povo não precisa calar a da humanidade, nem a da humanidade precisa dissolver a do povo. As duas são degraus de uma mesma subida, e a mais alta não anula as de baixo: reúne-as. Essa recusa de escolher entre o particular e o universal fez dele uma figura discutida dos dois lados — suspeito para os que achavam que ele concedia demais ao mundo de fora, e para os que achavam que ele concedia demais ao nacionalismo.

Lido com Kook, o versículo é uma cena em que duas canções se cruzam. Jetro chega cantando a canção da humanidade: é de fora, bendisse o Deus de outro povo e agora oferece a ele. Arão e os anciãos representam a canção do povo: são os chefes de Israel, e Arão será o sacerdote da nação. A refeição "diante de Deus" é o lugar em que as duas se encontram sem que nenhuma desapareça. Jetro não deixa de ser "o sogro de Moisés", vindo de Midiã, e os anciãos não deixam de ser os anciãos de Israel.

Kook escreveu também, num comentário ao livro de orações (Olat Re'iyah, “A oferta de Re'iyah”, nome formado com a sigla do próprio Kook), uma frase muito discutida sobre os próprios sacrifícios: num futuro de conhecimento pleno, as ofertas de animais dariam lugar às ofertas de cereais. A passagem é breve e foi lida de modos diferentes, e não se pode afirmar que ela represente um programa. Mas ela mostra que, para Kook, o sacrifício era uma forma histórica de aproximação entre o humano e Deus, e não o fim dela. A carne que Jetro e os anciãos comem pertence a essa forma.

O limite precisa ficar claro. Kook não comentou este versículo nos textos citados, e a "canção quádrupla" é uma descrição de caminhos interiores, não uma leitura do Êxodo. O texto bíblico não fala de humanidade nem de universalismo; fala de um sogro, de uma oferta e de uma refeição. A aproximação serve para dar nome a algo que a cena mostra e não explica: à mesa diante de Deus cabem, ao mesmo tempo, o povo e quem não é do povo.

7. Aplicações Práticas

Aceitar o convite de quem é de fora. Os chefes de Israel foram à mesa de um sacerdote de Midiã. Aceitar a hospitalidade de quem não pertence ao nosso grupo, sem exigir que a festa seja na nossa casa e com as nossas regras, é uma forma de reconhecimento que o versículo mostra sem comentar.

Comer junto como ato de respeito. A refeição "diante de Deus" não foi um apêndice da oferta. Em famílias, comunidades e igrejas, a mesa partilhada continua sendo o lugar onde se diz, sem discurso, que o outro é bem-vindo.

Servir a mesa sem perder a honra. A tradição judaica tirou da ausência de Moisés a imagem de um líder que serve os convidados. É leitura dos mestres, não do texto; mas é uma aplicação que a história do banquete de Rabban Gamliel tornou concreta: quem preside também pode servir.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Jetro precisava ter se convertido para oferecer?

Pelo texto, não: os não israelitas oferecem holocaustos em vários lugares da Bíblia. Pela lei posterior do Templo, a refeição com as suas ofertas de comunhão seria um problema, e foi isso que levou Nachmânides e Malbim a supor uma conversão. O Êxodo não fala em conversão. Ele não diz nem que Jetro entrou na aliança nem que não entrou.

A cena aconteceu antes ou depois do Sinai?

O Talmude registra as duas opiniões, e os comentaristas medievais também se dividiram. A questão da ordem do capítulo está no estudo de Êxodo 18:5. Para este versículo, ela muda a pergunta sobre o lugar: antes do Sinai, não havia tabernáculo; depois, havia.

Por que Arão, futuro sumo sacerdote, não oficia?

O texto o traz "para comer pão", não para oferecer. Arão ainda não foi consagrado; isso só acontecerá em Êxodo 29. Mas, mesmo como primogênito ou chefe de família, ele poderia oferecer, e não o faz. A cena deixa a oferta com Jetro.

Moisés comeu?

O versículo não o inclui entre os que vieram comer. Se ele era o anfitrião, comeu com eles na própria tenda; se estava servindo, como diz a Mekhilta, talvez não. O texto não decide, e as duas leituras têm defensores antigos.

Que altar foi usado?

Não se sabe. O único altar mencionado antes é o que Moisés ergueu depois da batalha contra Amaleque, em Refidim (Êxodo 17:15). Se Jetro chegou ao acampamento junto ao monte de Deus, pode ter sido outro. Sforno já fazia a pergunta e a deixava em aberto.

9. Conexão com Outros Textos

Os primeiros holocaustos, fora de Israel

Gênesis 8:20 — "Então Noé edificou um altar ao SENHOR e, tomando de todos os animais limpos e de todas as aves limpas, ofereceu holocaustos sobre o altar."

O primeiro holocausto da Bíblia, oferecido por quem não é israelita nem podia ser. É também o texto que o Talmude (Zevachim 116a) usa para discutir o que os "filhos de Noé" podiam oferecer.

Jó 1:5 — "Quando terminavam os dias de festa, Jó mandava chamá-los e os purificava; levantava-se de madrugada e oferecia holocaustos segundo o número de todos eles, pois dizia: 'Talvez os meus filhos tenham pecado e amaldiçoado a Deus no coração.'"

Outro homem de fora de Israel que oferece holocaustos como chefe de família, sem sacerdote.

O sacerdote estrangeiro e o pão

Gênesis 14:18 — "Então Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho. Ele era sacerdote do Deus Altíssimo,"

O outro sacerdote de fora que, num encontro com o ancestral de Israel depois de uma vitória, traz o pão e bendiz a Deus. Jetro bendisse no versículo 10; aqui é ele quem dá a refeição.

As refeições sagradas do deserto

Êxodo 24:5 — "E enviou alguns jovens dos filhos de Israel, os quais ofereceram holocaustos e sacrificaram novilhos como sacrifícios de comunhão ao SENHOR."

Êxodo 24:11 — "Ele não estendeu a mão contra os chefes dos filhos de Israel; eles viram a Deus, e comeram e beberam."

A segunda refeição dos anciãos "diante de Deus", no Sinai, com as mesmas duas espécies de oferta. Lá o oferente é Israel e o sacerdote ainda não é Arão: são jovens israelitas. Aqui o oferente é Jetro.

Gênesis 31:54 — "Então Jacó ofereceu um sacrifício no monte e convidou os seus parentes para comerem pão; eles comeram pão e passaram a noite no monte."

Também entre sogro e genro, também com sacrifício e "comer pão". Lá quem convida é o genro; aqui é o sogro.

Comer "diante do SENHOR"

Deuteronômio 12:7 — "E ali vocês comerão diante do SENHOR, o seu Deus, e se alegrarão, vocês e as suas famílias, em tudo o que tiverem empreendido, no que o SENHOR, o seu Deus, os tiver abençoado."

A expressão que Shadal lembra: comer a carne consagrada é comer "diante do SENHOR". E vem acompanhada de alegria — a palavra com que este bloco começou, na reação de Jetro.

A oferta de quem vem de fora, na lei

Levítico 22:18 — "Qualquer homem da casa de Israel, ou dos estrangeiros em Israel, que apresentar a sua oferta, seja por algum voto, seja como oferta voluntária, que apresentarem ao SENHOR em holocausto..."

O versículo de onde o Talmude (Menachot 73b) tira que a oferta de um não judeu vira holocausto. A lei admite a oferta do estrangeiro; discute só o que se faz com ela.

Isaías 56:7 — "Também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha casa de oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos."

"Holocaustos e sacrifícios" de estrangeiros, aceitos no altar e seguidos de alegria. O profeta descreve como futuro o que Êxodo 18 conta como acontecido.

Quem serve a mesa

Gênesis 18:8 — "Tomou também coalhada e leite, e o bezerro que preparara, e pôs tudo diante deles; e ficou de pé junto a eles, debaixo da árvore, enquanto comiam."

O versículo de que a Mekhilta tira o lugar de Moisés na cena: de pé, servindo, como Abraão.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Então Jetro, sogro de Moisés, tomou um holocausto e sacrifícios para Deus; e Arão e todos os anciãos de Israel vieram comer pão com o sogro de Moisés diante de Deus.

Texto hebraico

וַיִּקַּ֞ח יִתְר֨וֹ חֹתֵ֥ן מֹשֶׁ֛ה עֹלָ֥ה וּזְבָחִ֖ים לֵֽאלֹהִ֑ים וַיָּבֹ֨א אַהֲרֹ֜ן וְכֹ֣ל ׀ זִקְנֵ֣י יִשְׂרָאֵ֗ל לֶאֱכָל־לֶ֛חֶם עִם־חֹתֵ֥ן מֹשֶׁ֖ה לִפְנֵ֥י הָאֱלֹהִֽים׃

Transliteração

va-yiqqach Yitro choten Moshe olah u-zevachim l'Elohim; va-yavo Aharon ve-khol ziqnei Yisrael le-ekhol-lechem im-choten Moshe lifnei ha-Elohim.

Análise palavra por palavra

וַיִּקַּח — va-yiqqach, "e tomou".

Do verbo laqach, "tomar, pegar, levar", na forma que encadeia a narrativa. Não é um verbo de culto. Quando a Bíblia quer dizer "oferecer", usa outros: he'elah, "fazer subir" (o holocausto), ou hiqriv, "aproximar". Em Gênesis 22:13 os dois tempos aparecem separados — Abraão "tomou o carneiro e o ofereceu em holocausto". Aqui só há o primeiro. A Septuaginta mantém "tomou" (elaben); Ônquelos escreve ve-qariv, "e ofereceu"; a Vulgata, obtulit, "ofereceu".

יִתְרוֹ חֹתֵן מֹשֶׁה — Yitro choten Moshe, "Jetro, sogro de Moisés".

Choten é "sogro", o pai da esposa. A palavra aparece duas vezes no versículo: Jetro é definido pelo parentesco.

עֹלָה — olah, "holocausto".

Substantivo da raiz '-l-h, "subir": a oferta "que sobe", inteira, em fumaça. Está no singular: um holocausto só. A Septuaginta põe no plural, "holocaustos".

וּזְבָחִים — u-zevachim, "e sacrifícios".

Plural de zevach, o sacrifício de animal abatido cuja carne se come — a palavra e o seu campo estão estudados em Gênesis 31:54. Ibn Ezra, Rashi e Shadal concordam que aqui são as ofertas de comunhão, as que permitem a refeição. A ordem — holocausto primeiro, sacrifícios depois — é a inversa da de Êxodo 10:25, onde Moisés pede a Faraó "sacrifícios e holocaustos".

לֵאלֹהִים — l'Elohim, "para Deus".

A preposição le-, "para", com Elohim, "Deus", sem artigo. Ônquelos troca por "diante do SENHOR", usando o nome próprio.

וַיָּבֹא אַהֲרֹן — va-yavo Aharon, "e veio Arão".

O verbo está no singular, embora o sujeito seja composto — Arão "e todos os anciãos". Em hebraico, quando o verbo vem antes de um sujeito com vários membros, ele costuma concordar com o primeiro. A construção põe Arão em destaque, e os anciãos vêm em seguida, como acompanhamento.

וְכֹל זִקְנֵי יִשְׂרָאֵל — ve-khol ziqnei Yisrael, "e todos os anciãos de Israel".

Ziqnei é o plural de zaqen, "velho, ancião", ligado ao nome seguinte. A palavra vem de zaqan, "barba": o ancião é, na origem, o homem de barba. No texto hebraico com sinais de leitura, há entre ve-khol e ziqnei um traço vertical, o paseq, um sinal que manda fazer uma pequena pausa na leitura em voz alta: "e todos — os anciãos de Israel".

לֶאֱכָל־לֶחֶם — le-ekhol-lechem, "comer pão".

O infinitivo de akhal, "comer", com lechem, "pão". A expressão designa uma refeição inteira, não só o pão, e é a mesma de Gênesis 31:54.

עִם־חֹתֵן מֹשֶׁה — im-choten Moshe, "com o sogro de Moisés".

Im, "com", a preposição de companhia. A Vulgata simplifica para cum eo, "com ele", e perde a repetição do parentesco.

לִפְנֵי הָאֱלֹהִים — lifnei ha-Elohim, "diante de Deus".

Lifnei é, ao pé da letra, "diante da face de" (le- + panim, "rosto"). Desta vez Elohim leva artigo: ha-Elohim, "o Deus". O mesmo versículo usa a palavra duas vezes, sem artigo e com artigo, e é a forma com artigo que o capítulo usa para o "monte de Deus" (Êxodo 18:5) para os "estatutos de Deus" (Êxodo 18:16) e para o "diante de Deus" do conselho de Jetro (Êxodo 18:19). Ônquelos traduz "diante do SENHOR", e a Vulgata, coram Domino, "diante do Senhor".

11. Conclusão

Com base no que foi visto, conclui-se primeiro que o bloco de Jetro termina num ato, e não numa frase. Depois de se alegrar, bendizer e confessar, ele oferece. O Êxodo registra o primeiro holocausto depois do Egito nas mãos de um sacerdote de Midiã, e não acrescenta nem aprovação nem reserva.

Conclui-se também que o versículo deixa abertas todas as perguntas práticas — quem oficiou, em que altar, em que data, com que estatuto Jetro ofereceu — e que as respostas da tradição, por mais engenhosas, são acréscimos. O que o texto fixa é pouco e firme: houve oferta, houve refeição, e a refeição foi "diante de Deus".

E conclui-se, por fim, que a cena inverte a posição esperada entre o povo e o visitante. Os chefes de Israel vão como convidados à mesa de um estrangeiro, e a refeição sagrada que antecede a organização da justiça no acampamento é presidida pelo homem que, no dia seguinte, dirá a Moisés como julgar.

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%