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Êxodo 18:16

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 23 min de leitura·👁 22 acessos
Quando eles têm uma questão, ela vem a mim, e eu julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os estatutos de Deus e as suas leis.”
Diante de uma tenda no deserto, um homem de barba grisalha, sentado, fala erguendo a mão a dois homens de pé à sua frente, um de cada lado, que o escutam; atrás deles, outras pessoas observam e ouvem a explicação.

Estudo


Quando eles têm uma questão, ela vem a mim, e eu julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os estatutos de Deus e as suas leis.”

1. Introdução

Moisés completa a resposta ao sogro descrevendo o que faz: recebe as questões, decide entre as partes e, ao decidir, ensina as leis de Deus. O versículo junta numa só pessoa duas funções que Jetro vai separar — julgar e ensinar. Ele também levanta uma pergunta que atravessa a tradição: que "estatutos" e que "leis" Moisés podia ensinar antes de o povo chegar ao Sinai? E põe em circulação a palavra hebraica que a ABC aqui traduz por "questão", a mesma que no capítulo vira "isto", "tarefa" e "causa", conforme quem fala. A tradição rabínica leu na frase dois tipos de justiça, a que corta e a que reconcilia, e discutiu qual delas cabia a Moisés.

2. Contexto Histórico e Cultural

O juiz que ensina: uma função de sacerdote

No Israel antigo, ensinar a lei e julgar estavam ligados, e ligados sobretudo aos sacerdotes. A bênção de Moisés sobre a tribo de Levi diz: "Eles ensinarão os teus juízos a Jacó e a tua lei a Israel" (Deuteronômio 33:10). O profeta Malaquias descreve o sacerdote ideal: "Os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da boca dele se deve buscar a instrução, porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos" (Malaquias 2:7). E Ezequiel, ao desenhar o templo futuro, dá aos sacerdotes as duas tarefas na mesma frase: ensinar ao povo a diferença entre o santo e o comum, e, "nas disputas, eles se apresentarão para julgar" (Ezequiel 44:23-24).

Como era esse ensino na prática aparece num episódio do profeta Ageu. Ele manda perguntar aos sacerdotes uma questão concreta: se alguém leva carne consagrada na dobra da roupa e a roupa toca pão, o pão fica santo? Os sacerdotes respondem que não. E se alguém impuro por contato com um morto toca o pão, o pão fica impuro? Respondem que sim (Ageu 2:11-13). A palavra hebraica que ali se traduz por "instrução" é a mesma que neste versículo a ABC traduz por "leis": não um código, mas a resposta a um caso. Os sacerdotes "faziam conhecer" a lei respondendo a perguntas.

O texto histórico mais claro de um ensino organizado da lei é de séculos depois. O rei Josafá, de Judá, mandou chefes, levitas e sacerdotes percorrerem as cidades levando "o livro da lei do SENHOR" e ensinando o povo (2 Crônicas 17:7-9). O episódio vem antes da reforma dos tribunais do mesmo rei, e o cronista separa as duas coisas — primeiro ensinar, depois pôr juízes. Em Êxodo 18:16, as duas ainda estão na mesma boca.

Julgar ou reconciliar: a discussão dos rabinos

A Mekhilta de Rabi Ishmael (comentário rabínico ao Êxodo, de material dos séculos II e III) lê a frase "eu julgo entre um homem e o seu companheiro" em duas metades. "Entre um homem" é o julgamento sem acordo, em que uma parte ganha e a outra perde. "E o seu companheiro" é o julgamento com acordo: aquele em que as partes saem "como companheiros" uma da outra. A palavra hebraica para esse acordo é pesharah ("compromisso, meio-termo" — a solução em que cada parte cede alguma coisa). Para a Mekhilta, Moisés fazia as duas coisas.

O Talmude Babilônico, no tratado Sanhedrin, folha 6b, mostra que a questão dividiu os sábios. Rabi Eliezer, filho de Rabi Yossi, o Galileu, dizia que é proibido fazer acordo depois de iniciado o processo: o juiz deve deixar que "o julgamento atravesse a montanha", porque "o julgamento pertence a Deus" (Deuteronômio 1:17). E acrescentava uma imagem que interessa diretamente a este versículo: Moisés dizia "que o julgamento atravesse a montanha"; Arão, que não era juiz, amava a paz, buscava a paz e fazia paz entre um homem e o seu companheiro. Rabi Yehoshua ben Korchá dizia o contrário: fazer acordo é um mandamento, porque o profeta Zacarias manda executar "julgamento de verdade e de paz" nas portas (Zacarias 8:16) — e onde há julgamento estrito não há paz; o julgamento que traz paz dentro de si é o acordo.

As duas tradições dão retratos opostos de Moisés. No Talmude, ele é o juiz que não cede, e a reconciliação é coisa de Arão. Na Mekhilta, a própria frase de Moisés já contém a reconciliação. O versículo, no hebraico, diz só "eu julgo entre um homem e o seu companheiro", e a divisão da frase em dois tipos de justiça é leitura rabínica, não dado gramatical.

3. Análise Teológica do Versículo

"Quando eles têm uma questão, ela vem a mim"

A frase começa no plural e termina no singular: "eles" têm uma questão, e "ela vem". O hebraico permite duas leituras do segundo verbo. Rashi entende que o sujeito é a pessoa: "aquele que tem a questão vem a mim". A ABC entendeu que o sujeito é a própria questão, e traduziu "ela vem". Na tradução, quem chega a Moisés é o caso, e não o litigante — o que combina com o tom da resposta: Moisés não fala de gente que o procura, fala de causas que lhe chegam.

A palavra traduzida por "questão" é a mesma com que Jetro perguntou, no versículo 14, "que é isto?". Jetro chamou de "isto" o sistema inteiro — o homem sozinho e a fila; Moisés responde falando das "questões", uma a uma. Os dois usam a mesma palavra e falam de coisas diferentes: o sogro pergunta pelo modo de trabalhar, o genro responde pelo trabalho. Essa diferença de escala explica por que Jetro, no versículo seguinte, não discute nenhum caso e vai direto ao veredito sobre o sistema.

Que tipo de questão era? A Mekhilta diz: questões "entre impuro e puro", isto é, de pureza ritual. O Targum de Ônquelos (tradução aramaica do Pentateuco, dos primeiros séculos da era comum) traduz a palavra por "processo", termo de tribunal. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista italiano do século XVI) entende que se trata de desavenças entre os próprios chefes do povo. O versículo diz só "uma questão", e a continuação, "entre um e outro", indica disputa entre duas partes.

"e eu julgo entre um e outro"

O hebraico diz "entre um homem e o seu companheiro" — a mesma dupla com que o capítulo descreveu Moisés e Jetro perguntando "um ao outro" como estavam, como mostra o estudo de Êxodo 18:7. A expressão é a forma comum de dizer "um e outro" em hebraico, mas o substantivo escolhido, "companheiro", é o do vizinho e do próximo. O versículo chama de companheiros as duas pessoas que estão brigando. A Mekhilta leva isso a sério e faz do "companheiro" o sinal do acordo (item 2): o bom julgamento é o que devolve as partes à condição de vizinhas.

"Julgar entre" é decidir quem tem razão numa disputa. É uma função diferente da do versículo 13, em que Moisés "julgava o povo" — lá, o verbo tinha o sentido amplo de governar; aqui, o sentido estrito de arbitrar.

"e lhes faço conhecer os estatutos de Deus e as suas leis"

Esta é a frase nova do versículo. Moisés não diz apenas que decide; diz que, ao decidir, ensina. A sentença não fica entre as duas partes: vira norma conhecida. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) resumem: toda decisão se apoiava numa lei vinda de Deus, mesmo que ainda não escrita, e assim cada processo dava a conhecer ao povo as ordenanças divinas. Ramban (Moisés ben Nachman, rabino e comentarista da Catalunha, século XIII) separa as tarefas: "além disso, eu lhes ensino a Torá".

A quem é dirigido o "lhes"? Às partes, que ficam sabendo a regra que decidiu o seu caso; ao povo, que fica sabendo pela notícia do caso; ou, na leitura de Sforno, aos chefes que traziam as questões públicas. O texto não especifica.

E o que eram esses "estatutos" e essas "leis"? A Mekhilta registra duas respostas. Rabi Yehoshua: os "estatutos" são as interpretações — o que se deduz da palavra de Deus —, e as "leis" são as instruções práticas, as respostas dadas aos casos. Rabi Elazar de Modiim: os "estatutos" são as leis sobre as uniões proibidas, porque Levítico 18:30 chama as práticas sexuais dos povos de Canaã de "estatutos abomináveis"; as "leis" são as instruções. A primeira leitura vê em Moisés um intérprete; a segunda, um legislador de matéria específica. Nenhuma das duas está no texto, que só diz "estatutos de Deus e as suas leis" — duas palavras, ambas no plural, ambas atribuídas a Deus e não a Moisés.

Esta atribuição é o limite que Moisés põe a si mesmo. Ele julga, mas os estatutos são "de Deus" e as leis são "dele". Na resposta inteira (versículos 15 e 16), Moisés se descreve como quem leva as pessoas a Deus e traz a elas o que é de Deus. Jetro vai aproveitar exatamente essa divisão: no versículo 19 deixa com Moisés o que é "diante de Deus", e no versículo 20 manda que ele "esclareça os estatutos e as leis" — o ensino fica com Moisés; o julgamento das causas comuns passa a outros. O que Moisés fazia junto, Jetro separa.

A ordem das três ações tem consequência. Primeiro vem a questão, depois a decisão, depois o ensino. A lei aparece aqui como fruto do caso, e não como código prévio aplicado ao caso. É possível ler daí que em Israel, como em muitas sociedades antigas, a lei cresceu por decisões. Mas o versículo não diz que Moisés criava a lei ao julgar; diz que a fazia conhecer, e que ela era de Deus. As duas leituras convivem no texto, e não é possível decidir entre elas só por ele.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés — descrevendo-se em três funções: recebe as questões, julga e ensina. É a primeira vez que o livro o mostra como mestre da lei, papel que dará a ele, na tradição judaica, o título de "Moisés, nosso mestre".

"Eles" — os israelitas com questões. O versículo não distingue tribo, sexo nem posição.

"Um e outro" — as partes, chamadas no hebraico de "homem" e "companheiro". Não há advogado, testemunha nem escrivão no quadro.

Rabi Yehoshua e Rabi Elazar de Modiim — os dois sábios do século II cujas leituras sobre "estatutos" e "leis" a Mekhilta registra lado a lado neste versículo. Rabi Elazar de Modiim é o mesmo que interpreta tantos versículos do Êxodo na Mekhilta.

Rabi Eliezer, filho de Rabi Yossi, o Galileu, e Rabi Yehoshua ben Korchá — os dois sábios que o Talmude opõe sobre o acordo no tribunal (item 2): o primeiro contra, o segundo a favor.

Arão — ausente do versículo, mas presente na tradição do Talmude como o contraponto de Moisés: o que faz paz entre as pessoas, enquanto o irmão julga.

5. Pontos de Ensino

1. Julgar e ensinar começaram juntos. Moisés decide os casos e, ao decidir, ensina a regra. A separação das duas funções é a reforma que Jetro vai propor.

2. A lei vem de Deus, e não de quem julga. Moisés diz "estatutos de Deus" e "as suas leis". Mesmo o maior dos juízes do texto não se apresenta como autor da norma que aplica.

3. Uma sentença é também uma lição. A decisão de um caso ensina a todos o que é justo. Por isso o juiz não serve só às partes, serve ao povo inteiro.

4. As partes são "companheiros". O hebraico não chama os litigantes de adversários. A leitura rabínica tirou daí o ideal de um julgamento que devolva as pessoas à convivência.

5. Antes de qualquer código escrito, já havia lei a ensinar. O versículo supõe estatutos e leis conhecidos e transmitidos, sem dizer de onde vinham. O texto não resolve a questão; apenas a pressupõe.

6. Aspectos Filosóficos

Que lei se pode ensinar antes da lei? Richard Hooker

Moisés diz que faz conhecer "os estatutos de Deus e as suas leis" — e o faz antes de o livro narrar a entrega da lei no Sinai. A frase põe uma pergunta que a filosofia do direito discutiu por séculos: a lei de Deus é só o que Deus ordenou por revelação, ou existe uma lei de Deus que se conhece de outro modo?

Richard Hooker (1554-1600), teólogo inglês e sacerdote da Igreja da Inglaterra, deu a essa pergunta uma das respostas mais elaboradas do seu tempo. A obra dele, Das leis da política eclesiástica (os primeiros livros saíram em 1593-1594), foi escrita contra os puritanos ingleses, que exigiam que toda a organização da Igreja tivesse ordem expressa na Bíblia. Para responder, Hooker voltou ao começo: o que é uma lei?

Lei, para ele, é aquilo que dá a cada coisa o seu modo de agir e a medida da sua ação. E há uma escada de leis, todas vindas de Deus. No alto, a lei eterna, o plano de Deus para tudo. Abaixo, a lei da natureza, que rege as coisas que não escolhem, e a lei da razão, que os seres humanos podem conhecer pensando, sem revelação especial. Depois, a lei divina revelada na Escritura, que ensina o que a razão sozinha não alcança. E por fim as leis humanas, feitas pelas sociedades para aplicar as outras às circunstâncias. A razão humana, quando acerta, está lendo a lei de Deus; Hooker chega a dizer que a voz geral e constante dos homens é como a sentença do próprio Deus.

O que Hooker ajuda a ver em Êxodo 18:16

Primeiro: "estatutos de Deus" não precisa significar só "leis reveladas no Sinai". Na escada de Hooker, uma sentença justa entre dois vizinhos já é aplicação da lei de Deus, mesmo que nenhuma tábua de pedra tenha sido escrita. A pergunta "que leis havia antes do Sinai?" perde parte da força: havia a lei que a razão reconhece, e havia o que Deus já tinha dito a Moisés no caminho.

Segundo: o capítulo inteiro é um caso de lei humana bem-feita. A organização dos tribunais que vem nos versículos seguintes não é revelada; é proposta por um sacerdote de Midiã, com argumentos de prudência. Para os adversários puritanos de Hooker, nada na ordem da Igreja podia existir sem mandamento bíblico expresso; Hooker sustentava que a razão, guiada pelo bem comum, pode ordenar o que a Escritura não regulou. Êxodo 18 é a Escritura mostrando exatamente isso — e o próprio Jetro condiciona o conselho a que "Deus assim lhe ordenar" (Êxodo 18:23).

Terceiro: Hooker distinguia, nas leis dadas por Deus a Israel, as que valiam para sempre e as que serviam a um tempo e a um lugar, e por isso podiam mudar quando mudassem as circunstâncias. O versículo 16 descreve um arranjo que funcionava; o versículo 17 dirá que ele não serve mais. Um modo de julgar pode ter sido bom e deixar de ser.

Onde a comparação para

O Êxodo não conhece a distinção entre lei natural e lei revelada. Para o texto, os "estatutos" são "de Deus" e pronto, venham por onde vierem. A escada de Hooker é uma construção cristã, herdeira da teologia medieval, e aplicá-la a Moisés é ler o versículo com olhos do século XVI. Além disso, a tradição judaica tem a sua própria resposta para a mesma pergunta: os "estatutos" são, para a Mekhilta, interpretação da palavra de Deus (item 3), e não razão natural. O que Hooker e a Mekhilta têm em comum é a recusa de imaginar a lei como uma coisa só, escrita de uma vez — e o versículo 16, com o seu juiz que ensina caso a caso, dá razão a essa recusa.

7. Aplicações Práticas

Toda decisão ensina alguma coisa, queira-se ou não. Quem decide uma disputa em casa, na escola ou no trabalho está ensinando a todos o que vale ali. Moisés sabia disso e fazia do julgamento uma ocasião de ensino. Vale a pena decidir explicando o porquê, para que a próxima briga já encontre a regra conhecida.

Quem julga não é dono da regra. Moisés fala de "estatutos de Deus". Pais, chefes e líderes também aplicam regras que não inventaram — justiça, verdade, respeito. Lembrar isso protege contra o abuso de quem confunde a própria vontade com a lei.

Os que brigam continuam sendo "companheiros". O hebraico chama as partes de vizinhos. Numa disputa entre irmãos, sócios ou membros da mesma comunidade, o objetivo não é só saber quem tem razão, mas que as pessoas possam continuar convivendo depois da decisão. A tradição rabínica discutiu se o juiz deve buscar acordo; o versículo pelo menos lembra que as partes não deixam de ser próximas por estarem em conflito.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Que leis Moisés podia ensinar antes do Sinai?

O versículo pressupõe "estatutos" e "leis" já conhecidos. Até aqui o Êxodo registrou as regras da Páscoa e dos primogênitos, o "estatuto e direito" de Mara (Êxodo 15:25) e as regras do maná e do sábado. Para a discussão sobre as "leis" antes do Sinai, com Ibn Ezra e o Chizkuni, ver o estudo de Êxodo 16:28. O que o versículo 16 acrescenta é a forma: essas leis eram ensinadas por ocasião dos casos.

Moisés criava as leis ao julgar?

O texto diz que ele as "fazia conhecer" e que eram "de Deus". Nada indica que Moisés se considerasse autor. Mas, como nos casos suspensos da Torá (Levítico 24, Números 9, 15 e 27), uma lei podia aparecer pela primeira vez por causa de um processo. A fronteira entre aplicar e revelar não é nítida no texto.

Os juízes escolhidos depois também ensinariam?

Pelo desenho de Jetro, não: o ensino dos estatutos fica com Moisés (Êxodo 18:20), e os chefes julgam as causas pequenas. A separação é deliberada.

Por que dois termos, "estatutos" e "leis"?

Pode ser só o costume hebraico de dizer a mesma coisa com duas palavras, para dar peso. Pode ser distinção real, como querem Rabi Yehoshua e Rabi Elazar na Mekhilta. Os dois termos voltam juntos em Gênesis 26:5, para Abraão, e em Êxodo 18:20, na boca de Jetro. Não é possível decidir se o versículo distingue duas categorias.

9. Conexão com Outros Textos

Os mesmos termos antes do Sinai

Gênesis 26:5 — "porque Abraão obedeceu à minha voz e guardou os meus preceitos, os meus mandamentos, os meus estatutos e as minhas leis."

"Estatutos" e "leis" já estão na boca de Deus a respeito de Abraão, séculos antes de Moisés. O par de Êxodo 18:16 não é invenção do capítulo.

Êxodo 15:25 — "Ele clamou ao SENHOR, e o SENHOR lhe mostrou um lenho; ele o jogou nas águas, e as águas ficaram doces. Ali lhe pôs estatuto e direito, e ali o pôs à prova."

Em Mara, poucas semanas antes, o Êxodo registra que Deus "pôs estatuto" ao povo. O Chizkuni vê aqui o conteúdo do que Moisés ensinava.

A divisão que Jetro vai propor

Êxodo 18:20 — "Esclareça-lhes os estatutos e as leis, e faça-lhes conhecer o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer."

Jetro devolve a Moisés as mesmas palavras — "estatutos", "leis", "fazer conhecer" — e deixa com ele só essa parte. O julgamento das causas comuns passa a outros.

O sacerdote que ensina e julga

Malaquias 2:7 — "Os lábios do sacerdote devem guardar o conhecimento, e da boca dele se deve buscar a instrução, porque ele é o mensageiro do SENHOR dos Exércitos."

Ezequiel 44:24 — "Nas disputas, eles se apresentarão para julgar, e julgarão segundo os meus juízos; guardarão as minhas leis e os meus estatutos em todas as minhas festas fixas, e santificarão os meus sábados."

Os profetas atribuem aos sacerdotes as duas funções que Moisés descreve: ensinar a instrução e julgar as disputas. É a função que o versículo 16 concentrava num homem só.

A instrução como resposta a uma pergunta

Ageu 2:11 — "Assim diz o SENHOR dos Exércitos: Pergunte agora aos sacerdotes qual é a instrução sobre isto."

A "instrução" — a mesma palavra que Êxodo 18:16 traduz por "leis" — é aqui a resposta a uma dúvida concreta. É o sentido mais antigo da palavra, e o mais próximo do que Moisés fazia.

O ensino antes do tribunal

2 Crônicas 17:9 — "Eles ensinaram em Judá, levando consigo o livro da lei do SENHOR; percorreram todas as cidades de Judá e ensinaram o povo."

Séculos depois, o rei Josafá separa o ensino da lei da organização dos juízes, que virá no capítulo 19. A distinção que Jetro introduz no Êxodo 18 tornou-se, na história de Israel, a forma normal.

O juiz que não cede e o sacerdote que reconcilia

Malaquias 2:6 — "A instrução da verdade estava na boca dele, e não se achou injustiça nos seus lábios; andou comigo em paz e em retidão, e afastou muitos da iniquidade."

É o versículo com que o Talmude (Sanhedrin 6b) descreve Arão, o que fazia paz "entre um homem e o seu companheiro" — as mesmas palavras de Êxodo 18:16 —, em contraste com Moisés, o juiz que deixava o julgamento "atravessar a montanha".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Quando eles têm uma questão, ela vem a mim, e eu julgo entre um e outro e lhes faço conhecer os estatutos de Deus e as suas leis.”

Texto hebraico

כִּי־יִהְיֶה לָהֶם דָּבָר בָּא אֵלַי וְשָׁפַטְתִּי בֵּין אִישׁ וּבֵין רֵעֵהוּ וְהוֹדַעְתִּי אֶת־חֻקֵּי הָאֱלֹהִים וְאֶת־תּוֹרֹתָיו׃

Transliteração

ki-yihyeh lahem davar ba elai, ve-shafatti bein ish u-vein re'ehu, ve-hodati et-chuqqei ha-Elohim ve-et-torotav.

Análise palavra por palavra

כִּי־יִהְיֶה — ki-yihyeh, "quando houver". Ki aqui é temporal-condicional, "quando, sempre que"; yihyeh é o imperfeito de hayah, "ser, haver". É a forma com que as leis da Torá costumam começar os casos: "quando um homem…", "quando houver…". Moisés descreve a sua rotina com a sintaxe de uma lei.

לָהֶם — lahem, "para eles". A preposição le com o sufixo da terceira pessoa do plural. "Haver para alguém" é o modo hebraico de dizer "ter": "quando eles têm".

דָּבָר — davar, "uma questão". Sem artigo: "uma questão qualquer". O substantivo une "palavra" e "coisa" — o duplo sentido geral está estudado em Gênesis 18:14. O que cabe aqui é o que a palavra faz neste capítulo, e para isso é preciso vê-la inteira (abaixo).

בָּא — ba, "vem". Particípio do verbo bo, "vir", no masculino singular. O sujeito pode ser davar (masculino singular), "a questão vem", como entendeu a ABC, ou a pessoa que tem a questão, como entendeu Rashi. Ônquelos e a Septuaginta resolveram pelo plural: "eles vêm".

אֵלַי — elai, "a mim". A mesma palavra do versículo 15, de novo em posição de destaque.

וְשָׁפַטְתִּי — ve-shafatti, "e eu julgo". Perfeito do verbo shafat, "julgar", primeira pessoa, com o "e" que, nessa construção, dá ao perfeito valor de futuro ou de hábito. Encadeado ao "quando houver", descreve o que acontece sempre que um caso chega: "e então eu julgo".

בֵּין אִישׁ וּבֵין רֵעֵהוּ — bein ish u-vein re'ehu, "entre um e outro", literalmente "entre um homem e entre o seu companheiro". A preposição bein, "entre", repetida antes de cada termo, como é o costume hebraico. Ish é "homem, cada um"; re'a, "companheiro, próximo", com o sufixo "dele".

וְהוֹדַעְתִּי — ve-hodati, "e faço conhecer". Verbo yada, "saber, conhecer", na forma hifil (a forma causativa do verbo hebraico: "fazer saber"). O mesmo encadeamento de ve-shafatti: é parte da mesma rotina, e não uma atividade separada. É o verbo que Jetro vai repetir no versículo 20, "faça-lhes conhecer".

אֶת־חֻקֵּי הָאֱלֹהִים — et-chuqqei ha-Elohim, "os estatutos de Deus". Chuqqei é o plural de choq, "estatuto", ligado ao nome seguinte. A raiz é a de "gravar", e o substantivo designa a regra fixada por autoridade. Ha-Elohim vem com artigo, ao contrário do Elohim do versículo 15.

וְאֶת־תּוֹרֹתָיו — ve-et-torotav, "e as suas leis". Torot é o plural de torah, "instrução", com o sufixo "dele". O plural é raro e indica instruções particulares, não a Lei como conjunto.

A palavra que percorre o capítulo

Davar aparece doze vezes no Êxodo 18, em nove versículos, e a ABC a traduz por seis palavras portuguesas diferentes. Os sentidos são sete, porque a mesma tradução, "questão", serve a dois sentidos distintos:

1. Êxodo 18:11 — "naquilo mesmo em que foram arrogantes": a matéria, o ponto exato de um acontecimento.
2. Êxodo 18:14 e 18:23 — "isto": uma prática inteira, o modo de fazer as coisas. Na boca de Jetro, primeiro como pergunta ("que é isto?"), depois como proposta ("se você fizer isto").
3. Êxodo 18:16 — "uma questão": o caso concreto entre duas partes.
4. Êxodo 18:17 — "o que você está fazendo": a conduta de Moisés, julgada por Jetro.
5. Êxodo 18:18 — "a tarefa": o trabalho como peso, o fardo.
6. Êxodo 18:19 — "as questões", no plural: os casos levados a Deus, não mais disputas entre partes, mas perguntas que só Deus responde.
7. Êxodo 18:22 e 18:26 — "causa" (quatro vezes): o processo como categoria, classificado por tamanho ou dificuldade — "grande", "pequena", "difícil".

A sequência conta a conversa. Jetro começa usando a palavra para o sistema ("isto"); Moisés responde usando-a para os casos ("questão"); Jetro devolve-a como veredito sobre o sistema ("não é bom o que você está fazendo") e como peso ("a tarefa"); e a reforma termina transformando-a em categoria administrativa ("causa grande", "causa pequena"). Nas mãos de Jetro, o caso individual de Moisés vira classe de casos, e é isso que permite dividir o trabalho: só se pode repartir o que se consegue classificar.

As versões antigas

A Septuaginta traduz davar aqui por antilogía, "contestação, disputa" — palavra de tribunal, que escolhe o sentido judicial. "E eu julgo entre um e outro" vira diakrínō hékaston, "decido sobre cada um", e "faço conhecer" vira symbibázō, verbo que significa "instruir", mas cujo sentido de base é "reunir, pôr de acordo". A tradução grega termina com "a lei dele", no singular, onde o hebraico tem o plural. O Targum de Ônquelos traduz davar por dina, "processo", põe o verbo no plural, "eles vêm", e troca "os estatutos de Deus" por "os estatutos do SENHOR", com o nome próprio. A Vulgata diz disceptatio, "disputa", e "mostrarei os preceitos de Deus e as suas leis".

11. Conclusão

A primeira conclusão é que Moisés, no versículo 16, descreve uma função dupla e não percebe que é dupla. Julgar entre as partes e ensinar os estatutos de Deus saem da boca dele como uma única atividade, encadeada na mesma frase. É Jetro quem vai ver as duas coisas e separá-las.

A segunda é que o versículo faz da lei algo que se ensina por ocasião dos casos. Os estatutos são de Deus, mas chegam ao povo pela porta do tribunal, um processo por vez. Essa forma explica por que a tradição judaica tratou o juiz como mestre e a sentença como ensino.

A terceira é que a palavra posta em circulação aqui, "questão", vai carregar o capítulo. A mudança que Jetro propõe é também uma mudança no modo de olhar os casos: de questões únicas, que só Moisés pode resolver, para causas classificáveis, que muitos podem julgar. O versículo 16 é o último momento em que todas as causas ainda são de um homem só.

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