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Êxodo 18:20

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✍️ Por Alberto Adriano·4 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 18 acessos
Esclareça-lhes os estatutos e as leis, e faça-lhes conhecer o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer.
Ao ar livre, ao pé de uma montanha, Moisés, de pé sobre uma pedra baixa, fala com o braço estendido a uma grande assembleia de homens, mulheres e crianças sentados no chão; a luz da manhã ilumina o seu rosto e as primeiras filas, enquanto o resto do acampamento ainda está na sombra.

Estudo


Esclareça-lhes os estatutos e as leis, e faça-lhes conhecer o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer.

1. Introdução

Depois de devolver a Moisés a função de levar as questões a Deus, Jetro lhe devolve a de ensinar. O verbo que a ABC traduz por "esclareça" tem dois sentidos em hebraico, advertir e iluminar, e só aparece aqui em toda a Torá. Ao lado das leis, Jetro põe uma segunda coisa a ensinar: "o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer". O Talmude leu nessa frase um programa de conduta que vai além do que a lei exige, e um dos seus mestres disse que Jerusalém caiu por não o cumprir. O ensino deixa de responder a cada caso e passa a vir antes dos casos.

2. Contexto Histórico e Cultural

"O caminho" como nome de uma forma de vida

No mundo judaico do período do Segundo Templo, "o caminho" deixou de ser só metáfora e virou nome de uma forma de vida. O exemplo mais claro está nos manuscritos achados nas cavernas de Qumran, junto ao mar Morto, entre 1947 e 1956. A Regra da Comunidade, o estatuto do grupo que vivia ali, copiada por volta de 100 a.C., explica por que os seus membros se retiraram para o deserto citando Isaías 40:3: "no deserto preparem o caminho do SENHOR". E logo em seguida diz o que é esse caminho: "é o estudo da lei que ele ordenou por meio de Moisés" (coluna VIII, linhas 13 a 15). Em outras passagens, os membros são chamados "os que escolheram o caminho" e "os perfeitos de caminho".

É a mesma equivalência que a Mekhilta atribui a Rabi Yehoshua ao comentar este versículo: "o caminho" é o estudo da Torá (item 3). Grupos que não se entendiam em quase nada, os sectários do deserto e os mestres que deram origem à tradição rabínica, liam a palavra do mesmo modo. O caminho em que Israel devia andar era, antes de tudo, o estudo daquilo que Moisés ensinou.

A forma de ensinar que este versículo propõe, ensino ao povo inteiro e não só às partes de uma causa, tem desdobramentos posteriores em Israel, com levitas e sacerdotes percorrendo as cidades; esse percurso está traçado no estudo de Êxodo 18:16.

O que cada época pôs dentro de "o caminho e as obras"

A segunda metade do versículo é vaga: "o caminho" e "as obras" não dizem quais. As traduções antigas preencheram a lacuna, e o que cada uma pôs ali mostra a religião do seu tempo.

O Targum Pseudo-Jônatas (tradução aramaica livre do Pentateuco, com acréscimos explicativos, fixada entre os séculos IV e VII) faz Jetro dizer: "faça-lhes conhecer a oração que devem rezar na sua sinagoga, o caminho por onde devem visitar os doentes e ir enterrar os mortos, e praticar a bondade, e a obra da lei e o que devem fazer além da linha"; a frase ainda termina com uma menção aos perversos, de sentido obscuro. Moisés, no deserto, aparece ensinando a oração da sinagoga, uma instituição que só existiria muitos séculos depois.

Jerônimo, na Vulgata (a sua tradução latina da Bíblia, feita por volta de 400), foi para o lado oposto e leu o culto: "mostre ao povo as cerimônias e o rito de culto, o caminho por onde devem entrar e a obra que devem fazer". Para ele, os estatutos e as leis de Jetro eram liturgia.

A tradição rabínica foi a mais concreta. Fez de cada palavra uma obrigação social: ganhar o sustento, visitar doentes, enterrar mortos, praticar a bondade. Essas práticas viraram, no judaísmo, instituições comunitárias, com nome próprio e regras próprias. A Mishná abre o tratado sobre a colheita deixada aos pobres com uma lista de "coisas que não têm medida", deveres que não se esgotam por nenhuma quantidade fixa, e a prática da bondade está entre elas (Mishná Peá 1:1). A leitura que fez desses deveres o sentido deste versículo é desenvolvida no item 3.

3. Análise Teológica do Versículo

"Esclareça-lhes os estatutos e as leis"

O verbo hebraico tem dois sentidos que o português não junta numa palavra só. Num, é "advertir", alertar alguém de um perigo, como faz a sentinela que vê a espada chegando. No outro, de uma raiz igual, é "brilhar", "iluminar". A ABC escolheu "esclarecer", que guarda um pouco dos dois: tornar claro e prevenir.

O que Jetro pede, então: que Moisés avise ou que Moisés ilumine? As leituras se dividem.

Primeira leitura: advertir. É a de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista e gramático judeu da Espanha, século XII), que compara com Ezequiel 33:5 ("não se deixou advertir"). E Ibn Ezra diz o que Moisés devia advertir: os mandamentos que se cumprem no coração, como amar a Deus, apegar-se a ele, temê-lo, não odiar o irmão, não se vingar, não guardar rancor. "São os mandamentos mais importantes", escreve. Os juízes cuidariam das causas; Moisés cuidaria do que nenhum tribunal alcança.

Segunda leitura: advertir com firmeza porque Moisés não vai mais julgar. É a de Ramban (Nachmânides, rabino catalão do século XIII): como Moisés deixará de executar a lei nos casos comuns, precisa avisar o povo com mais força dos mandamentos e das punições. O ensino preventivo substitui a presença do juiz.

Terceira leitura: supervisionar. O Netziv (Rabi Naftali Zvi Yehuda Berlin, chefe da academia de Volozhin, século XIX), no Haamek Davar ("Aprofundar a palavra"), observa que em Êxodo 18:16 Moisés dizia só que "fazia conhecer" os estatutos; aqui Jetro acrescenta "advertir", que é zelar para que sejam cumpridos. E vê na forma alongada do verbo hebraico um sinal de ênfase: esta parte, só Moisés pode fazer, porque sem a autoridade dele o trabalho dos outros não teria efeito.

Quarta leitura: iluminar. Os comentaristas cristãos do século XIX, como Albert Barnes (comentarista norte-americano) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães), preferem o sentido de luz: Moisés deve "esclarecer" o povo, fazê-lo entender. A tradução da ABC vai nessa direção.

As leituras não se excluem. O que todas registram é a mudança em relação ao versículo 16. Lá, Moisés fazia conhecer os estatutos dentro de cada processo, depois que a briga já tinha acontecido. Aqui, o ensino vem antes, para todos, e não depende de haver causa. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) diz o efeito prático: o povo, conhecendo a lei, poderia aplicá-la aos próprios casos e resolver sozinho as suas diferenças. O que Moisés fazia ao julgar e ao ensinar no tribunal, e o que a Mekhilta entende por "estatutos" e "leis", está no estudo de Êxodo 18:16.

Há um detalhe na expressão: em 18:16 eram "os estatutos de Deus e as suas leis"; aqui, só "os estatutos e as leis", sem dono declarado. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria nos séculos III e II a.C.) sentiu a falta e acrescentou: "os mandamentos de Deus e a sua lei".

"e faça-lhes conhecer o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer"

Agora a frase sai da lei. "Caminho" e "obras" não são palavras jurídicas: o caminho é a direção geral da vida, as obras são os atos concretos. Albert Barnes resume a sequência inteira do versículo em quatro níveis: os estatutos, que são normas específicas; as leis, que são regras gerais; o caminho, que é o rumo do dever; e as obras, que são as ações particulares.

A tradição rabínica foi mais longe, e leu cada palavra como uma obrigação diferente. A Mekhilta guarda duas versões.

Rabi Yehoshua lê de modo sóbrio: "o caminho" é o estudo da Torá; "as obras" são as boas ações.

Rabi Elazar de Modiim desmonta a frase palavra por palavra: "faça-lhes conhecer" é ensinar-lhes o sustento da vida; "o caminho" é visitar os doentes; "devem andar" é enterrar os mortos; "em que" é praticar a bondade; "as obras" é a linha da lei; "que devem fazer" é ir além da linha da lei.

O Talmude Babilônico, no tratado Bava Metzia 30b, retoma a lista numa versão um pouco diferente, ensinada por Rav Yosef (mestre babilônico do século IV), e discute por que ela repete coisas. Se praticar a bondade já inclui visitar doentes e enterrar mortos, por que os dois são listados à parte? A resposta mostra o que estava em jogo. A visita ao doente é nomeada separadamente por causa do visitante da mesma idade, que, segundo uma crença da época, "leva consigo um sessenta avos da doença": mesmo assim, deve ir. O enterro é nomeado separadamente por causa do ancião para quem carregar um morto seria indigno da sua posição: mesmo assim, deve ir.

E "que devem fazer", a última expressão do versículo, é "além da linha da lei" (lifnim mi-shurat ha-din, literalmente "para dentro da linha do direito"): fazer mais do que o tribunal poderia exigir. O Talmude dá um exemplo. Rabi Ishmael, filho de Rabi Yosei, ancião respeitado, encontra na estrada um homem que tinha posto no chão um feixe de lenha e lhe pede ajuda para recolocá-lo nas costas. Pela lei, um ancião estava dispensado desse tipo de ajuda quando ela fosse indigna da sua posição. Rabi Ishmael pergunta quanto vale a lenha, paga meio denário, compra o feixe e o declara sem dono. Não estava obrigado; fez além da linha.

A página termina com uma frase de Rabi Yochanan (mestre da terra de Israel, século III): "Jerusalém só foi destruída porque julgaram nela segundo a lei da Torá". O próprio Talmude estranha: deviam ter julgado por arbítrio? E corrige: "porque firmaram os seus julgamentos na lei da Torá e não foram além da linha da lei".

O peso da leitura está no lugar onde ela foi posta. Êxodo 18 é o capítulo da organização dos tribunais. E justamente no versículo que descreve o que Moisés deve ensinar, a tradição encontrou a advertência de que um povo que só cumpre o que o tribunal pode cobrar não se sustenta.

É leitura rabínica, não o sentido simples do texto. O sentido simples é o de Barnes: o caminho e as obras são a conduta geral e os atos particulares. Mas a leitura rabínica percebe algo que o texto tem: Jetro não pôs só "estatutos e leis" no programa de ensino. Pôs também uma categoria que não é jurídica, ao lado das jurídicas. O que se ensina ao povo não se esgota no que se julga.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés, mestre do povo

Neste versículo Moisés recebe de Jetro a segunda das funções que continuam sendo dele: ensinar. A primeira, no versículo anterior, era voltada para Deus; esta é voltada para o povo. A tradição judaica vai chamá-lo justamente assim, Moshe Rabbenu, "Moisés, nosso mestre", e não "nosso rei" ou "nosso juiz".

O povo

Os destinatários são todos, "eles", sem distinção. O ensino não se dirige aos juízes que serão escolhidos no versículo seguinte, mas ao povo inteiro. Os juízes julgarão; o povo precisa saber.

Os mestres da Mekhilta

Rabi Yehoshua ben Chananiá e Rabi Elazar de Modiim, que a Mekhilta põe em debate do começo ao fim do comentário a Êxodo 18. Rabi Yehoshua, levita que tinha servido no templo como cantor, viveu em Peqiin, perto de Yavne, no fim do século I. Rabi Elazar era de Modiim, a cidade dos Macabeus, e a tradição o faz morrer no cerco de Betar, na revolta de Bar Kokhba (132-135). As leituras dele são as mais ousadas do trecho.

Os mestres do Talmude

Rav Yosef, chefe da academia de Pumbedita, na Babilônia, no século IV, cego na velhice e conhecido pela memória das tradições antigas, que ele recitava; é dele a versão da lista de Bava Metzia 30b. Rabi Ishmael, filho de Rabi Yosei, mestre da terra de Israel no fim do século II, protagonista da história da lenha. E Rabi Yochanan, chefe da academia de Tiberíades no século III, o mais citado dos mestres da terra de Israel no Talmude Babilônico, autor da frase sobre a queda de Jerusalém.

5. Pontos de Ensino

1. Ensinar antes é diferente de ensinar durante. No versículo 16, Moisés fazia conhecer a lei dentro de cada processo. Aqui, o ensino vem antes de qualquer causa. A mudança desloca o centro da justiça do tribunal para a instrução.

2. Advertir e iluminar andam juntos. O verbo hebraico guarda os dois sentidos. Ensinar a lei é avisar de um risco e, ao mesmo tempo, tornar visível o que estava escuro.

3. O programa de ensino não é só jurídico. Jetro põe "o caminho" e "as obras" ao lado dos "estatutos" e das "leis". O que o povo precisa saber inclui a conduta que nenhum tribunal cobra.

4. A tradição leu aqui o dever de ir além da lei. Para o Talmude, as últimas palavras do versículo ensinam a fazer mais do que se pode exigir. É leitura, não sentido simples, mas apoiada numa distinção que o versículo faz.

5. O ensino fica com Moisés. Os chefes julgarão as causas pequenas; ninguém recebe a tarefa de ensinar a lei ao povo. A autoridade do mestre não é dividida no capítulo 18.

6. Cada época encheu "o caminho" com a sua religião. O Targum pôs ali a oração da sinagoga; Jerônimo, as cerimônias do culto; os rabinos, a visita aos doentes e o enterro dos mortos. A vagueza da frase permitiu as três leituras.

6. Aspectos Filosóficos

Uma lei ensinada basta para que um povo viva em ordem? O versículo responde, sem dizer, que não: ao lado dos estatutos, põe o caminho e as obras. A pergunta foi tratada com rara precisão por Xunzi (c. 310-c. 235 a.C.), filósofo chinês do período dos Reinos Combatentes, professor na academia de Jixia, no reino de Qi, e mestre de dois homens, um teórico e um ministro, que se tornariam os defensores mais duros do governo pela lei penal.

"Há homens que põem ordem; não há leis que ponham ordem"

No capítulo do livro que leva o seu nome dedicado ao caminho do governante (Jun Dao, "O caminho do senhor"), Xunzi escreve: "Há senhores que produzem a desordem; não há Estados desordenados por si mesmos. Há homens que põem ordem; não há leis que ponham ordem por si mesmas". E explica: "A lei não pode ficar de pé sozinha, e as normas não se aplicam por conta própria; com o homem certo, elas sobrevivem; sem ele, desaparecem". E ainda: "A lei é o começo da ordem; o homem nobre é a fonte da lei".

Para Xunzi, o código é necessário e insuficiente. Quem o faz funcionar é a pessoa formada, que sabe aplicá-lo, e que sabe o que fazer onde ele não chega.

Os ritos: o que a lei não cobre

O que preenche o espaço entre a lei e a vida, para Xunzi, são os ritos (li, as formas corretas de conduta: as cerimônias, as cortesias, os deveres de luto, os modos de tratar os pais, os mais velhos e os mortos). Ele explica a origem deles com realismo: os homens têm desejos; desejos sem medida levam à disputa; a disputa leva à desordem; os antigos reis, para evitar a desordem, criaram os ritos, que dão a cada um a sua medida. Os ritos não são punidos como a lei; são aprendidos, praticados e imitados.

E aprende-se com gente, não com livros. "No aprender, nada é mais rápido do que se aproximar da pessoa certa", diz o primeiro capítulo, o "Exortação ao estudo". A natureza humana, para ele, não produz a conduta correta sozinha: precisa de mestre e de modelo.

O que o Êxodo tem em comum

Êxodo 18:20 faz o mesmo movimento em duas frases. A primeira trata da lei: estatutos e leis, que Moisés deve esclarecer. A segunda trata do que a lei não cobre: o caminho e as obras. E quem ensina as duas é uma pessoa, Moisés, que não delega essa tarefa a ninguém. A lei não fica de pé sozinha; o caminho precisa de alguém que o mostre.

A leitura do Talmude reforça a semelhança. Visitar o doente, enterrar o morto, praticar a bondade, ir além do que o tribunal exige: é exatamente o tipo de conduta que Xunzi põe nos ritos e não na lei. E a frase de Rabi Yochanan, de que Jerusalém caiu por se apoiar só na lei estrita, diria a Xunzi o que ele já pensava: o Estado que só tem leis está à mercê de quem as aplica.

Onde os dois se separam

Para Xunzi, os ritos e a lei são obra humana, criação dos antigos reis sábios, que olharam para os desejos dos homens e lhes deram forma. Em Êxodo 18:16, os estatutos são "de Deus", e o caminho em que Israel deve andar será, no restante da Torá, "o caminho do SENHOR". A autoridade da norma vem de fora da sociedade, não da sabedoria dos fundadores.

E há a diferença sobre a natureza humana. Xunzi diz que ela é má e que o bem é produto do esforço. O Êxodo não formula nenhuma tese desse tipo neste capítulo. Supõe só que o povo precisa saber, e que alguém precisa ensinar. A coincidência entre os dois está no diagnóstico prático, não na antropologia.

7. Aplicações Práticas

Explicar as regras antes do conflito. Em casa, numa escola, numa equipe, as regras costumam ser explicadas no meio da briga, quando ninguém está disposto a ouvir. O conselho de Jetro inverte a ordem: ensinar antes, para todos, e deixar o julgamento para quando o ensino não bastar.

Cumprir a lei não esgota o dever. A leitura do Talmude tem uma aplicação muito concreta: há obrigações que ninguém pode cobrar e que fazem a vida em comum funcionar. Visitar quem está doente, mesmo com algum risco ou incômodo. Ir ao enterro, mesmo quando a posição social parece dispensar. Ajudar quem pede, mesmo quando a regra isenta.

Ir além da linha em vez de ficar na linha. Em qualquer disputa, de herança, de vizinhança, de contrato, é possível ter razão pela lei e, ainda assim, fazer menos do que a situação pedia. A frase de Rabi Yochanan sobre Jerusalém é exagerada de propósito, para que se lembre: a comunidade que só exige o que é devido se desfaz.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Havia leis para ensinar antes do Sinai?

O versículo pressupõe que sim, e o capítulo 16 já falava dos "mandamentos" e das "leis" de Deus a propósito do maná e do sábado. Mas o conjunto que a Torá chama de lei ainda não tinha sido dado. Uma resposta é que o capítulo 18 aconteceu depois do Sinai e foi posto aqui fora de ordem; essa discussão está no estudo de Êxodo 18:5. Outra é que havia um núcleo de normas anterior, conhecido e transmitido oralmente. O texto não diz quais eram.

Moisés podia ensinar pessoalmente a um povo inteiro?

Se não podia julgar a todos, como ensinaria a todos? O texto não explica o meio. Uma possibilidade é o ensino coletivo, em assembleia, que é o que acontece depois em Êxodo 24:3 e no Deuteronômio inteiro. Outra é que os chefes nomeados no versículo seguinte também transmitissem o ensino. O versículo só diz que a responsabilidade é de Moisés.

A leitura do Talmude é legítima?

Como sentido simples, não: "o caminho" não quer dizer "visitar os doentes". Como desenvolvimento, é defensável, porque se apoia numa distinção real do versículo entre o que é lei e o que é conduta. Os próprios rabinos sabiam a diferença entre o sentido simples de um texto e a leitura que dele se extrai, e o Talmude apresenta esta como ensino de um mestre, não como tradução.

Jerusalém foi mesmo destruída por excesso de rigor legal?

A frase de Rabi Yochanan é uma das várias explicações rabínicas para a queda do templo; outras páginas do Talmude falam de idolatria, de derramamento de sangue, de ódio sem motivo. Nenhuma pretende ser explicação histórica no sentido moderno. São leituras morais de uma catástrofe, e cada uma aponta a falha que o seu autor queria corrigir.

Por que "obras" está no singular?

O hebraico diz "a obra", no singular, como nome coletivo: o conjunto do que se faz. A ABC põe "as obras" porque o português o pede. O singular pode sugerir uma prática única, a vida inteira como uma obra só. É uma leitura possível, sem apoio decisivo no texto.

9. Conexão com Outros Textos

A sentinela que adverte

Ezequiel 33:7 — "Quanto a você, filho do homem, eu o pus como sentinela da casa de Israel; você ouvirá a palavra da minha boca e os advertirá da minha parte."

O mesmo verbo de Êxodo 18:20, na mesma forma verbal e com o mesmo objeto, "eles". Ezequiel recebe de Deus a função que Jetro propõe a Moisés: avisar antes que a espada chegue. E o capítulo inteiro de Ezequiel 33 (como já Ezequiel 3:17-21) diz que quem adverte e não é ouvido salva a própria vida; quem não adverte responde pelo sangue dos outros. O verbo carrega responsabilidade.

O outro sentido: brilhar

Daniel 12:3 — "Os sábios brilharão como o brilho do firmamento, e os que conduzem muitos à justiça, como as estrelas, para sempre."

A raiz homônima, a do brilho, em dobro: "brilharão como o brilho". E o sujeito são justamente os que ensinam, os "sábios" e os que "conduzem muitos à justiça". O versículo de Daniel junta, sem querer, os dois sentidos que Êxodo 18:20 separa por acaso de língua: quem adverte também ilumina.

Quem é advertido

Salmo 19:11 — "Também por eles o teu servo é advertido; em guardá-los há grande recompensa."

O mesmo verbo, agora do lado de quem recebe o aviso. O salmo fala dos preceitos de Deus, e diz que eles advertem. No Êxodo, quem adverte é Moisés; no salmo, a própria lei.

O caminho e o fazer

Gênesis 18:19 — "Pois eu o escolhi, para que ordene aos seus filhos e à sua casa depois dele que guardem o caminho do SENHOR, praticando a justiça e o juízo, a fim de que o SENHOR faça vir sobre Abraão o que dele falou."

O par "caminho" e "fazer" já estava no Gênesis, também como matéria de ensino: Abraão deve ordenar aos filhos que guardem "o caminho do SENHOR", "praticando" (literalmente, "fazendo") a justiça e o juízo. Jetro, sem citar Abraão, propõe a Moisés o mesmo programa para um povo inteiro.

Andar no caminho

Deuteronômio 5:33 — "Andem em todo o caminho que o SENHOR, o seu Deus, lhes ordenou, para que vivam, para que tudo lhes vá bem e prolonguem os seus dias na terra que vão possuir."

No Deuteronômio, "o caminho em que devem andar" deixa de ser indicação vaga e passa a ser a fórmula da obediência inteira. A expressão de Jetro, "o caminho em que devem andar", volta aqui com o mesmo verbo.

O que Moisés lembra ter ordenado

Deuteronômio 1:18 — "Naquele tempo, ordenei a vocês todas as coisas que deveriam fazer."

No relato do Deuteronômio sobre a reforma, a frase final ecoa a de Jetro: "as coisas que deveriam fazer" responde a "as obras que devem fazer". Moisés conta que cumpriu essa parte do conselho. O que significa o Deuteronômio narrar a reforma sem o nome de Jetro é discutido no estudo de Êxodo 18:24.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Esclareça-lhes os estatutos e as leis, e faça-lhes conhecer o caminho em que devem andar e as obras que devem fazer.

Texto hebraico

וְהִזְהַרְתָּה אֶתְהֶם אֶת־הַחֻקִּים וְאֶת־הַתּוֹרֹת וְהוֹדַעְתָּ לָהֶם אֶת־הַדֶּרֶךְ יֵלְכוּ בָהּ וְאֶת־הַמַּעֲשֶׂה אֲשֶׁר יַעֲשׂוּן׃

Transliteração

ve-hizhartah ethem et-ha-chuqqim ve-et-ha-torot, ve-hoda'ta lahem et-ha-derekh yelekhu vah, ve-et-ha-ma'aseh asher ya'asun.

Análise palavra por palavra

וְהִזְהַרְתָּה — ve-hizhartah, "e esclareça", "e advirta".

Do verbo zahar, na forma causativa (o Hiphil, que em hebraico expressa "fazer alguém" fazer ou ser algo): "fazer alguém ficar atento", "advertir". A forma é a do perfeito com "e" inicial, que no hebraico bíblico continua uma ordem: depois do "seja" e do "leve" do versículo 19, vem "e advirta".

Duas particularidades. A primeira é a letra final: a forma normal seria ve-hizharta; o texto escreve com um he a mais no fim, uma grafia longa e antiga da segunda pessoa que aparece algumas vezes na Bíblia. O Netziv viu nela ênfase. A segunda é a raridade: em toda a Torá, o verbo só aparece aqui. Fora dela, concentra-se em Ezequiel (3:17-21; 33:3-9), onde é o verbo da sentinela, e aparece em 2 Reis 6:10, 2 Crônicas 19:10, Salmo 19:11 e Eclesiastes 4:13 e 12:12.

Os léxicos registram duas raízes com as mesmas letras. Uma dá "advertir"; a outra, "brilhar", de onde vem zohar, "brilho" (Ezequiel 8:2; Daniel 12:3), a palavra que no século XIII daria nome ao livro principal da Cabala. Se as duas são, na origem, uma só, é discutido; o aramaico conhece zehar com o sentido de "tomar cuidado", e é esse verbo que Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá) usa aqui (ve-tazhar). A ABC, com "esclareça", escolhe uma palavra portuguesa que toca as duas.

A Septuaginta traduz por diamartýrēi, "atestar solenemente", "declarar diante de testemunhas"; a Vulgata, por ostendas, "mostre".

אֶתְהֶם — ethem, "a eles".

Objeto direto da terceira pessoa do plural. A forma comum é otam; esta, ethem, é a partícula de objeto com o pronome "eles" acrescentado, como observa Ibn Ezra. É grafia rara; em Ezequiel 33:7, com o mesmo verbo, o profeta usa a forma comum.

אֶת־הַחֻקִּים וְאֶת־הַתּוֹרֹת — et-ha-chuqqim ve-et-ha-torot, "os estatutos e as leis".

Chuqqim, plural de choq, da raiz de "gravar", "fixar": a norma estabelecida. Torot, plural de torah, da raiz de "apontar", "indicar": a instrução. O par, sem o "de Deus" do versículo 16, e as suas leituras estão no item 3.

וְהוֹדַעְתָּ לָהֶם — ve-hoda'ta lahem, "e faça-lhes conhecer".

Do verbo yada, "conhecer", na forma causativa: "fazer conhecer", "informar", "ensinar". É o mesmo verbo do versículo 16 (ve-hoda'ti, "e lhes faço conhecer"), agora na boca de Jetro e na segunda pessoa. O que Moisés fazia, Jetro manda continuar, com outro objeto.

אֶת־הַדֶּרֶךְ יֵלְכוּ בָהּ — et-ha-derekh yelekhu vah, "o caminho em que devem andar".

Derekh, "caminho", é das palavras mais usadas da Bíblia hebraica para a conduta: o "caminho do SENHOR" (Gênesis 18:19), os "caminhos" dos justos e dos perversos (Salmo 1:6). Aqui é feminino, como mostra o pronome vah, "nela"; a palavra tem os dois gêneros na Bíblia. Yelekhu é o futuro de halakh, "andar", na terceira do plural: "andarão", com valor de dever, "devem andar". A oração relativa vem sem o pronome "que" (asher), coisa comum no hebraico: literalmente, "o caminho andarão nele".

É do verbo halakh que vem, séculos depois, a palavra halakhah, "o caminho em que se anda": o nome que a tradição rabínica deu à lei prática.

וְאֶת־הַמַּעֲשֶׂה אֲשֶׁר יַעֲשׂוּן — ve-et-ha-ma'aseh asher ya'asun, "e as obras que devem fazer".

Ma'aseh, "obra, ato, feito", substantivo da raiz asah, "fazer", no singular. A frase repete a raiz: "a obra que farão". Ya'asun é o futuro de asah, terceira do plural, com um nun final a mais (ya'asun em vez de ya'asu). Essa terminação longa é antiga e aparece sobretudo em fim de frase ou para dar peso. As formas verbais arcaicas do capítulo, que se acumulam no versículo 26, estão estudadas lá.

A Septuaginta põe tudo no plural: "os caminhos em que andarão e as obras que farão". A Vulgata escreve "o caminho por onde devem entrar e a obra que devem fazer".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira: no plano de Jetro, o ensino vem antes do julgamento. Moisés deixa de ensinar a lei dentro de cada causa e passa a ensiná-la ao povo inteiro, antes que as causas existam. A reforma não é só uma divisão de tribunais; é uma mudança de onde a justiça começa.

A segunda: o que se ensina não se reduz ao que se julga. Ao lado dos estatutos e das leis, Jetro põe o caminho e as obras, uma categoria que nenhum tribunal cobra. A tradição judaica tirou daí a obrigação de ir além da lei, e mesmo quem não aceita essa leitura como sentido do texto precisa admitir que ela se apoia numa distinção que o versículo faz.

A terceira: o ensino é a parte que Moisés não entrega. Os chefes que vêm no versículo seguinte julgarão; ninguém, no capítulo, recebe a tarefa de ensinar o povo. A autoridade que a reforma divide é a de decidir causas, não a de formar o povo.

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Êxodo 18:20

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