E você procurará dentre todo o povo homens capazes, que temam a Deus, homens fiéis, que odeiem o lucro desonesto; e os porá sobre eles como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez.
1. Introdução
Jetro deixa o diagnóstico e entra no desenho. Antes de dizer como o tribunal vai funcionar, ele diz quem pode sentar nele: homens capazes, que temam a Deus, fiéis e que odeiem o lucro desonesto. O verbo que abre a frase não é "escolha", é "verá", e os leitores antigos discutiram que tipo de olhar é esse. Depois vem a escala de chefes de mil, de cem, de cinquenta e de dez, que a tradição rabínica fez virar uma conta de 78.600 juízes, e que outros comentaristas acharam grande demais para ser verdade. O versículo trata de caráter antes de tratar de estrutura, e é nessa ordem que vale a pena lê-lo.
2. Contexto Histórico e Cultural
A conta do Talmude
O Talmude, no tratado Sanhedrin 18a, faz a soma da escala de Jetro com o mesmo cálculo da Mekhilta de Rabi Ishmael (a coletânea rabínica mais antiga de comentário ao Êxodo, com material dos séculos II e III). Parte dos 600 mil homens do censo e divide: 600 chefes de mil, 6.000 de cem, 12.000 de cinquenta, 60.000 de dez. Total, 78.600 juízes. E fecha com uma frase curta: "e foram achados homens à altura". O Talmude não discute se havia tanta gente íntegra; afirma que havia. A dúvida veio com os comentaristas medievais (item 3).
A conta aparece ali no meio de uma discussão sobre o tamanho mínimo de uma cidade para ter tribunal próprio, em que o "chefe de dez" serve de unidade de cálculo. O que interessa a este versículo é a premissa da soma: para os rabinos, as quatro qualidades de Jetro não eram um ideal inalcançável, eram um perfil que dezenas de milhares de israelitas preenchiam.
O juiz que não deve nada a ninguém
A exigência de que o juiz "odeie o lucro desonesto" gerou, no direito rabínico, regras sobre a independência material de quem julga. Duas delas aparecem nos comentários deste versículo.
No tratado Bava Batra 58b, Rabi Bena'a encontrou numa inscrição pública a frase "todo juiz que é chamado a juízo não é juiz", e a corrigiu: um juiz pode ser processado e absolvido sem culpa nenhuma. O certo é "todo juiz de quem se tira dinheiro por sentença não é juiz". Quem só devolve o que deve quando um tribunal o obriga não tem autoridade para obrigar os outros. Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI, o mais lido da tradição) usa essa regra para explicar o versículo.
No tratado Ketubot 105b, o Talmude proíbe de julgar o juiz que vive pedindo coisas emprestadas sem ter o que emprestar em troca, "porque é como se recebesse salário". Na mesma página, o mestre babilônico Rava explica por que o suborno é proibido mesmo quando o juiz pretende decidir com justiça: quem recebe presente de uma das partes passa a vê-la como vê a si mesmo, "e ninguém enxerga culpa em si mesmo". Ele lê a palavra hebraica para suborno, shochad, como she-hu chad, "porque ele é um só" com o litigante.
O espelho em que os reis se olham
Na Mekhilta, Rabi Elazar de Modiim explica o verbo do começo do versículo ("você verá") com um objeto do seu mundo: Moisés deve olhar o povo "com a aspaklaria, como o espelho em que os reis se olham". A palavra vem do latim specularia, as lâminas de pedra transparente que os romanos usavam como vidraça; Plínio, o Velho, descreve no livro 36 da História Natural essa "pedra especular", tirada sobretudo da Hispânia e cortada em folhas finas que deixavam passar a luz.
Na língua dos rabinos a palavra ganhou outro uso. O Talmude, no tratado Yevamot 49b, diz que todos os profetas viram "por uma aspaklaria que não brilha", e Moisés "por uma que brilha": os outros viram por imagens, ele viu claro. Aplicada à escolha dos juízes, a palavra diz que essa escolha exige o tipo de visão que só Moisés tinha.
A escala de mil, cem, cinquenta e dez também era divisão de tropa, como mostra o estudo de Êxodo 13:18.
3. Análise Teológica do Versículo
"E você procurará"
O verbo que a ABC traduz por "procurará" quer dizer, ao pé da letra, "verá". E não é o verbo comum de ver: é o da visão de profeta, o que dá nome ao "vidente" (item 10). Jetro poderia ter dito "escolha", como Moisés disse a Josué em Êxodo 17:9. Disse "verá". Que tipo de olhar é esse? Há três leituras.
Primeira: é visão profética. É a de Rabi Josué na Mekhilta ("você os verá por profecia") e a de Rashi, que escreve "pelo espírito santo que está sobre você". Moisés não faz entrevistas; enxerga no povo quem tem as qualidades, porque elas não estão à vista.
Segunda: é clareza, não profecia. Rabi Elazar de Modiim, na mesma Mekhilta, fala do espelho em que os reis se olham (item 2). A ênfase cai na nitidez do olhar, não num dom sobrenatural.
Terceira: é o sentido comum de examinar com atenção, e o verbo raro seria só um jeito mais forte de dizer "olhe bem". É o que fazem as traduções antigas e modernas. Or ha-Chaim (Chaim ben Attar, comentarista marroquino do século XVIII) acrescenta um limite: Moisés acha os candidatos, mas não deve nomeá-los antes que o povo os aceite.
O texto não decide entre elas. O que se pode afirmar é que o verbo põe a escolha do lado da percepção, e não do procedimento: Jetro não manda fazer eleição, sorteio ou prova. Manda olhar.
"dentre todo o povo"
Jetro não diz "dentre os anciãos", que já existiam e tinham acabado de comer com ele (Êxodo 18:12). Não diz "dentre os levitas" nem "dentre os chefes das tribos". Nenhuma linhagem garante o lugar e nenhuma o impede. Os critérios que vêm a seguir são todos de caráter, nenhum de nascimento.
"homens capazes"
A palavra que a ABC traduz por "capazes" serve para força, valentia, riqueza, exército e competência (item 10). Cada comentarista puxou para um lado, e cada lado diz uma coisa diferente sobre o que um juiz precisa ter.
Rashi e Rashbam (Rabi Samuel ben Meir, neto de Rashi, do século XII) leem riqueza: homens que não precisam bajular ninguém, porque não dependem de ninguém. Abraão ibn Ezra (comentarista judeu da Espanha, século XII) lê vigor físico, como os jovens "capazes de servir no palácio do rei" de Daniel 1:4. Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) lê força de personalidade: gente que aguenta a pressão do povo e não se dobra a ameaças.
Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista catalão do século XIII) dá a leitura mais completa. A palavra nomeia a aptidão própria de cada ofício: na guerra, o homem forte que sabe dispor a tropa; na casa, a "mulher de valor" de Provérbios 31:10; no tribunal, o homem sábio, ágil e reto. Por isso Jetro não precisou dizer "sábios": a sabedoria já está dentro da primeira qualidade, e as outras três detalham o que ela exige.
Maimônides (Moisés ben Maimon, jurista e filósofo judeu do século XII), nas leis do Sinédrio do seu código, acrescenta a coragem "para livrar o oprimido da mão do opressor", e dá como modelo Êxodo 2:17: "Então Moisés se levantou, defendeu-as". Se a leitura for aceita, a primeira qualidade que Jetro pede é a que ele mesmo viu em Moisés no poço de Midiã, quando um estrangeiro enfrentou os pastores para defender as filhas dele. O texto não faz a ligação; Maimônides faz.
"que temam a Deus"
Ibn Ezra lê pelo avesso: são os que não temem os homens, só a Deus. O temor de Deus funciona como imunidade contra o medo do poderoso, do vizinho, da parte que ameaça. Rabi Elazar, na Mekhilta, dá uma explicação inesperada: os que temem a Deus são os que "fazem acordo no julgamento", que preferem conciliar as partes a impor uma sentença seca. O temor aparece como cautela diante do próprio poder de condenar.
E quem pede homens que temam a Deus é um sacerdote de Midiã, antes do Sinai, antes de existir um código para aplicar. A qualidade exigida não é conhecer a lei, porque ainda não há lei escrita. É uma disposição.
"homens fiéis"
Rabi Josué explica: "gente em quem se pode confiar". Rashi completa com o motivo: a palavra dessas pessoas merece crédito, e por isso as sentenças delas serão acatadas. A fidelidade do juiz não é só virtude privada; é a fonte da autoridade dele. Uma sentença justa dada por alguém em quem ninguém confia não encerra a briga. Rabi Elazar prefere um exemplo a uma definição: "como Rabi Hanina ben Dosa e os seus companheiros" (item 4).
"que odeiem o lucro desonesto"
Jetro não diz "que não aceitem suborno". Diz "que odeiem". Não aceitar é conduta; odiar é inclinação. Os rabinos leram a frase em duas direções.
Rabi Josué: são os que odeiam receber dinheiro quando julgam. Ramban observa que o Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga antiga) escreveu "dinheiro", e não "suborno", e conclui que a regra vai além do suborno: o juiz não deve aceitar das partes nem presente nem empréstimo, nada que crie gratidão antes da sentença.
Rabi Elazar: são os que odeiam o próprio dinheiro; se não se apegam nem ao que é deles, menos ainda cobiçarão o dos outros. Ramban cita uma versão mais concreta, de uma coletânea antiga que ele chama Yelamdenu: são os que dizem "ainda que este homem queime o meu feixe de trigo, ainda que destrua a minha plantação, eu julgarei com retidão". Odiar o próprio dinheiro é aceitar perdê-lo. O juiz ameaçado de prejuízo não deixa a ameaça entrar na sentença.
E Ramban dá, por fim, o que considera o sentido simples: são os que amam a verdade e odeiam a opressão, e não suportam ver a violência sem livrar a vítima. O campo da palavra hebraica para o lucro tirado de alguém está no estudo de Gênesis 37:26.
As quatro qualidades: uma lista ou uma escada?
Se a primeira qualidade inclui as outras (Ramban), a lista é um título seguido de três detalhes. Se as quatro valem juntas para todos, Moisés precisa de dezenas de milhares de pessoas que tenham tudo ao mesmo tempo. Or ha-Chaim propõe uma terceira saída: a lista é uma escada descendente, uma qualidade para cada nível de chefia. O chefe de mil precisa ser "capaz" no sentido pleno; o de cem, temente a Deus; o de cinquenta, homem de palavra; ao de dez basta odiar o lucro desonesto. O argumento dele é que as qualidades vêm soltas, sem "e" entre elas. É leitura isolada, e o texto não a exige; mas mostra que a pergunta é real.
"e os porá sobre eles como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez"
A soma da Mekhilta e do Talmude dá 78.600 juízes (item 2). Ibn Ezra achou o número impossível. Um povo com tantos chefes é um povo castigado, diz ele, citando Provérbios 28:2: "pela transgressão de uma terra, muitos são os seus príncipes". E como uma geração que acabava de sair do Egito teria quase oitenta mil homens com essas virtudes, se quarenta anos depois Moisés ainda lhe diz que o SENHOR não lhe dera "coração para entender" (Deuteronômio 29:4)?
A saída de Ibn Ezra é ler a escala de outra maneira. "Chefe de mil" seria um homem com mil pessoas sob a sua dependência, servos e empregados; "chefe de cinquenta", quem tinha cinquenta homens à sua frente, como Absalão com os seus "cinquenta homens que corressem adiante dele" (2 Samuel 15:1). A escala mediria o peso social de quem foi escolhido, e não o número de pessoas que cada um julgaria.
A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) aponta outra dificuldade: se a escala é de indivíduos, cada israelita pertence ao mesmo tempo a um grupo de dez, a um de cinquenta, a um de cem e a um de mil. A qual dos quatro chefes ele levava a sua causa? Sforno (Obadias Sforno, comentarista italiano do século XVI) responde que a causa subia de degrau em degrau, como num recurso. O texto não descreve recurso nenhum.
Não é possível decidir entre a contagem literal e as leituras que a reduzem. O que o versículo deixa claro é a proporção: no degrau de baixo, um chefe para cada dez. A justiça que Jetro desenha fica ao alcance da mão.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Jetro
Sacerdote de Midiã e sogro de Moisés, ainda no meio da fala que começou em Êxodo 18:17. Neste versículo ele passa da crítica à proposta. Não tem cargo em Israel, não foi consultado e não tem autoridade para mandar; o que ele diz vale como conselho, e o versículo seguinte e Êxodo 18:23 deixam isso claro.
Moisés
O destinatário. Todo o versículo está na segunda pessoa: "você verá", "você os porá". A escolha e a nomeação ficam com ele. O que Jetro tira de Moisés é o julgamento das causas comuns, não o poder de escolher quem julga.
Os "chefes"
A palavra hebraica que a ABC traduz por "chefes" é a mesma que nomeia os oficiais da corte do Egito — o "chefe dos copeiros" e o "chefe dos padeiros" de Gênesis 40:2 — e os comandantes de exército. Não é título religioso, é de função. O texto não diz se os juízes de Jetro eram os mesmos homens que comandavam a marcha.
Rabi Josué e Rabi Elazar de Modiim
Os dois mestres que a Mekhilta põe lado a lado em quase cada frase deste capítulo. Rabi Josué ben Hananias, aluno de Rabi Yohanan ben Zakai, viveu entre o fim do século I e o começo do II. Rabi Elazar de Modiim, do mesmo período, era conhecido pelas leituras alegóricas e morreu, segundo a tradição, no cerco de Betar, na revolta de Bar Kochba (132-135). Neste versículo eles discordam em quase tudo.
Rabi Hanina ben Dosa
Mestre da Galileia do século I, lembrado pela pobreza extrema e pela fama de que as suas orações eram atendidas. Rabi Elazar o escolhe como definição viva de "homem fiel", embora ele não seja lembrado como juiz, e sim como homem de oração: a fidelidade que se pede a um juiz é a que se reconhece num santo.
O acontecimento
Ainda nenhum. O versículo é proposta; quem escolhe e nomeia de fato é Moisés, em Êxodo 18:25. A outra versão da cena, em que é o povo que indica os nomes, está no estudo de Êxodo 18:24.
5. Pontos de Ensino
1. A pessoa vem antes da estrutura. Jetro poderia ter começado pela escala de chefes. Começou pelas qualidades. No desenho dele, a pirâmide sem as pessoas certas não resolve nada; a ordem das frases já diz o que é mais importante.
2. Nenhuma das quatro qualidades é técnica. Jetro não pede conhecimento da lei, experiência, idade ou linhagem. Pede capacidade, temor de Deus, confiabilidade e desapego. Antes do Sinai não havia lei escrita para dominar; o que se exigia de quem julgava era caráter.
3. Duas qualidades são negativas por dentro. Temer a Deus e odiar o lucro funcionam como imunidades: contra o medo dos homens e contra o interesse. Um juiz é, antes de tudo, alguém que não pode ser comprado nem intimidado.
4. Odiar não é o mesmo que resistir. A frase não diz "que não aceitem lucro desonesto". Diz "que o odeiem". A exigência alcança a inclinação, não só o ato. A leitura rabínica mais exigente estende o ódio ao próprio dinheiro: quem tem medo de perder o que é seu já está exposto.
5. Quem pede temor de Deus é um estrangeiro. Um sacerdote de Midiã define o perfil moral dos primeiros juízes de Israel, e Moisés não corrige nenhuma palavra. O texto não trata isso como problema.
6. A justiça fica perto. No degrau de baixo há um chefe para cada dez. Seja qual for a leitura dos números, o desenho põe quem julga ao alcance de quem precisa de julgamento.
7. O número exato está em disputa. A tradição rabínica contou 78.600 juízes; Ibn Ezra achou impossível e propôs outra leitura. O ensino não depende da conta, e não é honesto fingir que ela está resolvida.
6. Aspectos Filosóficos
Como saber se um homem é honesto antes de lhe dar poder? Jetro responde com uma lista de qualidades e um verbo de ver. Do outro lado do mundo antigo, outro conselheiro de governantes respondeu com o método oposto.
Kautilya e o teste dos ministros
O Arthashastra ("Tratado do governo e da prosperidade") é o grande manual indiano de política e administração. A tradição o atribui a Kautilya, também chamado Chanakya, ministro de Chandragupta Maurya, que fundou um império no norte da Índia por volta de 320 a.C. Estudiosos de hoje, como Patrick Olivelle, que o traduziu, pensam que o texto que chegou até nós foi compilado mais tarde, entre o século I a.C. e o II d.C., sobre material mais antigo.
No livro 1, capítulo 10, o tratado ensina o rei a verificar "por meio de tentações" a pureza dos seus ministros. São quatro provas, feitas por espiões, sem que o ministro saiba que está sendo testado: uma religiosa (um sacerdote demitido propõe trocar o rei ímpio por um justo), uma de dinheiro (um general dispensado oferece riqueza pela morte do rei), uma de desejo (uma espiã diz que a rainha está apaixonada por ele) e uma de medo (o ministro é preso sob pretexto e incitado à revolta). Quem recusa, passa. E os cargos são distribuídos segundo a prova vencida: quem resistiu à tentação religiosa vai para os tribunais; quem resistiu ao dinheiro, para a arrecadação; quem passou em todas pode ser primeiro-ministro.
O que coincide e o que separa
A semelhança com Jetro é real. Os dois pensam que quem julga precisa de uma integridade de ordem religiosa: Kautilya manda para os tribunais o aprovado na prova da piedade, e Jetro pede homens que temam a Deus. Os dois isolam o dinheiro como prova à parte. E os dois sabem que o medo corrompe tanto quanto a cobiça.
A diferença está no que cada um supõe sobre o ser humano. Kautilya não acredita em caráter visível. No livro 2, capítulo 9, escreve: "assim como é impossível não provar o mel ou o veneno que está na ponta da língua, é impossível que um servidor do governo não coma ao menos um pouco da receita do rei"; e "como não se sabe se o peixe que nada na água está bebendo água, não se sabe se os servidores estão tirando dinheiro". A corrupção é o estado normal; a honestidade é exceção que só aparece sob teste.
Jetro supõe o contrário: que há no povo homens que odeiam o lucro, e que é possível vê-los. Não há espiões, não há armadilhas, não há vigilância depois da nomeação. E o próprio Kautilya registra o ponto fraco do seu método: não se deve usar o rei ou a rainha como isca, porque a tentação, uma vez semeada, pode corromper quem era puro, "e uma coisa manchada dificilmente volta ao estado original". O teste pode estragar o que pretendia medir.
Isso não faz do Êxodo um texto ingênuo. A execução, logo adiante, retém só a primeira das quatro qualidades, e a Bíblia registra juízes que se venderam, a começar pelos filhos de Samuel (1 Samuel 8:3). Mas a aposta é outra. Kautilya desenha um Estado à prova de ministros; Jetro, um tribunal que depende deles. Qual dos dois é mais realista continua em aberto, e cada época tende a responder com o seu próprio pessimismo ou otimismo.
7. Aplicações Práticas
O versículo fala de juízes, e é a quem decide sobre a vida de outros que ele se aplica com mais força: quem julga, arbitra, fiscaliza, avalia, aprova ou reprova. Para essas posições há três coisas que ele ensina sem esforço de adaptação.
Desconfie de quem precisa da sua decisão. A regra do Talmude sobre o juiz que vive pedindo emprestado é muito prática. Quem vai decidir sobre alguém não deve estar devendo favores a essa pessoa — nem dinheiro, nem gratidão, nem dependência. Se você vai avaliar o trabalho de alguém a quem deve algo, o versículo pede que você se afaste da decisão, mesmo que se julgue capaz de ser imparcial. O argumento de Rava é que ninguém enxerga culpa em si mesmo, e quem recebeu de uma das partes passa a vê-la como a si mesmo.
O medo de perder é tão perigoso quanto a vontade de ganhar. A leitura de Rabi Elazar — odiar o próprio dinheiro — trata do juiz que não aceita nada, mas teme o que pode perder: o emprego, a amizade, a paz com o vizinho, a plantação que alguém ameaçou queimar. Quem ocupa um lugar de decisão precisa saber de antemão o que está disposto a perder por uma decisão justa. Se a resposta é "nada", a decisão já não é livre.
Na hora de escolher alguém para julgar, olhe o caráter antes do currículo. Jetro pediu quatro qualidades e nenhuma delas é competência técnica. Isso não autoriza desprezar a competência, que Ramban põe dentro da primeira qualidade. Mas a ordem é dele: a capacidade sem integridade não serve para quem decide sobre os outros.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés achou homens com as quatro qualidades?
O texto não diz que sim. Quando relata a execução, ele menciona só uma: Moisés "escolheu homens capazes" (Êxodo 18:25). As outras três desaparecem. Por que isso aconteceu — se Moisés não achou, se a primeira qualidade incluía as outras, ou se a escolha foi feita com o que havia — é a pergunta do estudo daquele versículo. Aqui basta registrar que a proposta e a execução não coincidem.
Por que um sacerdote de Midiã pede juízes que temam a Deus, e não que temam o SENHOR?
O versículo usa a palavra geral para Deus, e não o nome próprio do Deus de Israel. Pode ser a linguagem natural de um estrangeiro, ainda que ele tenha acabado de bendizer o SENHOR (Êxodo 18:10). Pode ser também que "temer a Deus" fosse uma expressão fixa para a integridade moral comum, compreensível para qualquer povo — é o uso que aparece na boca de José diante dos irmãos, em Gênesis 42:18. Or ha-Chaim propõe uma explicação mais sutil: "Deus" é o nome que a tradição associa à justiça que pune, e o juiz precisa temer exatamente esse lado. É leitura do comentarista; o texto não explica a escolha.
9. Conexão com Outros Textos
"Homens capazes" postos como chefes
Gênesis 47:6 — "A terra do Egito está diante de você; instale seu pai e seus irmãos no melhor da terra. Que habitem na terra de Gósen; e, se você sabe que há entre eles homens capazes, ponha-os como chefes do meu gado."
As mesmas palavras, "homens capazes" e "chefes", na boca de Faraó. Lá a capacidade serve para cuidar de rebanho; aqui, para julgar. A expressão é a da competência para um encargo, e o encargo muda.
O conselho de outro estrangeiro
Gênesis 41:33 — "Portanto, escolha Faraó agora um homem prudente e sábio, e ponha-o sobre a terra do Egito."
José aconselha Faraó a procurar alguém pelas qualidades e "pôr" esse alguém sobre a terra. O verbo de "pôr" é o mesmo do fim de Êxodo 18:21. A diferença é de escala: José pede um homem; Jetro pede milhares.
"Odiar o lucro" em outros lugares
Provérbios 28:16 — "O príncipe falto de entendimento multiplica as opressões, mas quem odeia o lucro desonesto prolongará os seus dias."
É a mesma expressão hebraica de Jetro, aplicada ao governante. O provérbio põe lado a lado a opressão e a cobiça, como Ramban faz ao explicar este versículo.
Os juízes que falharam
1 Samuel 8:3 — "Porém os filhos dele não andaram nos caminhos dele; desviaram-se atrás do lucro, aceitaram suborno e perverteram o direito."
O avesso exato da última qualidade de Jetro, nos filhos de um juiz. E é esse fracasso que leva o povo a pedir um rei.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E você procurará dentre todo o povo homens capazes, que temam a Deus, homens fiéis, que odeiem o lucro desonesto; e os porá sobre eles como chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez.
Texto hebraico
וְאַתָּה תֶחֱזֶה מִכׇּל־הָעָם אַנְשֵׁי־חַיִל יִרְאֵי אֱלֹהִים אַנְשֵׁי אֱמֶת שֹׂנְאֵי בָצַע וְשַׂמְתָּ עֲלֵהֶם שָׂרֵי אֲלָפִים שָׂרֵי מֵאוֹת שָׂרֵי חֲמִשִּׁים וְשָׂרֵי עֲשָׂרֹת׃
Transliteração
ve-attáh techezéh mi-kol-ha-ám anshei-cháyil yir'éi Elohím anshéi emét son'éi vátsa; ve-samtá alehém saréi alafím saréi me'ót saréi chamishím ve-saréi asarót.
Análise palavra por palavra
וְאַתָּה — ve-attáh, "e você".
O pronome vem escrito, quando o verbo sozinho já bastaria: é o "você" enfático que Jetro põe na frente de cada tarefa de Moisés desde Êxodo 18:19.
תֶחֱזֶה — techezéh, "verá", traduzido por "procurará".
Forma Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), no imperfeito, segunda pessoa do masculino singular. O imperfeito aqui não é previsão, é instrução: "você verá" equivale a "veja". O verbo é chazáh, e não o comum ra'áh. Chazáh é o verbo da visão profética: dele vêm chazón, "visão" (Isaías 1:1), e chozéh, "vidente", título de Gade em 2 Samuel 24:11. A Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) observa que o verbo é muito raro em prosa.
Mas há dois usos perto deste versículo. No Salmo 17:2: "que os teus olhos vejam com retidão" — o ver de quem julga. Em Provérbios 22:29: "Você vê um homem hábil no seu trabalho? Ele estará diante de reis" — o ver de quem descobre um homem capaz. É desse discernir que Jetro precisa.
O Targum de Ônquelos conservou o verbo aramaico de mesma raiz, que em aramaico é o ver comum, sem cor profética. O Targum chamado de Pseudo-Jônatas (outra tradução aramaica, mais livre e mais tardia) trocou por "escolha". A Septuaginta pôs sképsai seautô, "examine para você mesmo". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, do fim do século IV) escreveu provide, "providencie", e daí veio o "procura" das traduções portuguesas antigas.
מִכׇּל־הָעָם — mi-kol-ha-ám, "dentre todo o povo". A preposição min indica parte tirada de um todo.
אַנְשֵׁי־חַיִל — anshei-cháyil, "homens capazes".
Anshéi é o plural de ish, "homem", na forma ligada ao substantivo seguinte: "homens de". O hebraico forma muitos adjetivos assim, dizendo de que a pessoa é feita: "homens de força", "homens de verdade". Cháyil tem campo largo: força, vigor, riqueza, exército, competência. Na expressão éshet cháyil é a "mulher de valor" de Provérbios 31:10; em gibbór cháyil, o "valente". A mesma expressão deste versículo está em Gênesis 47:6 ("homens capazes"), e a ABC a traduziu igual nos dois lugares. A Septuaginta pôs ándras dynatoús, "homens poderosos"; a Vulgata, viros potentes.
יִרְאֵי אֱלֹהִים — yir'éi Elohím, "que temam a Deus".
Yir'éi é o plural, na forma ligada, de yaré, "que teme", adjetivo do verbo yaré, "temer". Elohím é a palavra geral para Deus. O Targum de Ônquelos troca a palavra pelo nome próprio: escreve "que temem o SENHOR". A Septuaginta condensou tudo num adjetivo, theosebéis, "piedosos".
אַנְשֵׁי אֱמֶת — anshéi emét, "homens fiéis".
Literalmente "homens de verdade". Emét vem da raiz da firmeza, a mesma de "amém"; a ABC traduziu por "fiéis" para evitar que o leitor entenda "homens autênticos". A construção, que trata a verdade como qualidade da pessoa, está analisada no estudo de Gênesis 42:16. A Septuaginta escreveu "homens justos"; a Vulgata, in quibus sit veritas, "em quem haja verdade".
שֹׂנְאֵי בָצַע — son'éi vátsa, "que odeiem o lucro desonesto".
Son'éi é o particípio de saná, "odiar", no plural e na forma ligada: "odiadores de". O particípio descreve um traço permanente, não um ato. Vátsa é bétsa, "lucro tirado de alguém", com a primeira consoante suavizada depois de vogal e a vogal alongada pela pausa: debaixo desta palavra está o sinal que divide o versículo em duas metades.
Nas traduções antigas a palavra tomou três rumos. Ônquelos: "que odeiam receber dinheiro". Pseudo-Jônatas: "que odeiam receber o dinheiro da mentira", expressão aramaica parecida com o "dinheiro da injustiça" de Lucas 16:9. A Vulgata: qui oderint avaritiam, "que odeiem a avareza" — de onde vem o "aborreçam a avareza" das versões portuguesas antigas. E a Septuaginta: misoúntas hyperēphanían, "que odeiam a arrogância".
וְשַׂמְתָּ עֲלֵהֶם — ve-samtá alehém, "e os porá sobre eles".
Verbo sim, "pôr, colocar", na forma que encadeia uma instrução na outra: depois de "você verá", "e você porá". O objeto não está escrito — o hebraico diz só "e porás sobre eles", e o leitor entende "porás os escolhidos". Alehém, "sobre eles", vem escrito sem uma letra que a grafia completa teria, coisa comum no texto da Torá.
שָׂרֵי אֲלָפִים שָׂרֵי מֵאוֹת שָׂרֵי חֲמִשִּׁים וְשָׂרֵי עֲשָׂרֹת — saréi alafím saréi me'ót saréi chamishím ve-saréi asarót, "chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinquenta e chefes de dez".
Sar é o oficial, o encarregado; saréi, o plural na forma ligada, repetido quatro vezes, e só o último leva "e". Alafím, "milhares"; me'ót, "centenas"; chamishím, "cinquenta". Asarót é forma rara: não é o numeral "dez" comum, e sim um plural que designa grupos de dez, "dezenas". A Vulgata traduziu os quatro títulos pelos postos do exército romano: tribunos, et centuriones, et quinquagenarios, et decanos — tribunos, centuriões, comandantes de cinquenta e decanos.
11. Conclusão
Com base no que o versículo diz e no que os seus leitores fizeram com ele, chega-se a três conclusões.
A primeira: no desenho de Jetro, a justiça depende mais de quem julga do que da estrutura que organiza o julgamento. A escala de chefes vem no fim da frase, como consequência. O que vem primeiro são as pessoas, e as quatro qualidades pedidas são todas de caráter. Uma organização perfeita com juízes compráveis não cumpriria o que o versículo pede.
A segunda: a integridade exigida é uma defesa contra duas pressões, a do medo e a do interesse. Temer a Deus protege do medo dos homens; odiar o lucro protege da vontade de ganhar e, na leitura mais exigente, do medo de perder. As duas qualidades centrais da lista dizem o que o juiz não pode sentir quando decide.
A terceira: o versículo aposta que essas pessoas existem e podem ser vistas. Não propõe teste, vigilância nem punição. Essa aposta não é garantia — a execução, em Êxodo 18:25, já mostra a lista reduzida, e a história de Israel mostra juízes vendidos. Mas é a aposta do texto, e é ela que separa o conselho de Jetro de uma técnica de controle. O número exato de juízes continua em disputa; o critério para escolhê-los, não.













