E Moisés disse a Josué: “Escolha homens para nós e saia para lutar contra Amaleque. Amanhã eu estarei de pé no alto da colina, com o cajado de Deus na mão.”
1. Introdução
Amaleque atacou, e Moisés dá a primeira ordem de guerra do livro a um homem que o leitor ainda não conhece: Josué, que entra em cena sem pai, sem tribo, sem história e já no comando. A ordem não manda convocar um exército, porque não há exército; manda escolher homens, e escolhê-los "para nós". Moisés reserva para si outro lugar: de pé, no alto da colina, com o cajado de Deus na mão — três versículos depois de Deus ter dito que estaria "de pé" diante dele, sobre a rocha. A palavra "amanhã" ficou presa entre as duas metades da frase, e os leitores antigos discutiram a qual delas ela pertence. Na tradição judaica, o pequeno "para nós" virou regra sobre como um mestre deve tratar o seu aluno.
2. Contexto Histórico e Cultural
Um texto sem vírgulas: onde fica o "amanhã"
Os rolos antigos da Torá não tinham pontuação. Não havia vírgula, ponto, sinal de pausa nem vogais escritas. Quem lia em voz alta decidia, pelo sentido e pela tradição que tinha recebido, onde uma frase terminava e a outra começava.
Na maior parte dos casos o sentido resolve. Em alguns, não. Os rabinos guardaram a lista desses casos, e ela é atribuída a Issi ben Judá, sábio do século II: há na Torá cinco versículos em que não se pode decidir a que lado pertence uma palavra. São se'et ("erguer", que ali pode ser perdão ou castigo) em Gênesis 4:7, "maldita" em Gênesis 49:7, "amêndoas" em Êxodo 25:34, "se levantará" em Deuteronômio 31:16 — e "amanhã", neste versículo. A lista está em dois lugares: na Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado provavelmente entre os séculos III e IV, com material mais antigo), no tratado Amaleque, seção 1; e no Talmude da Babilônia, tratado Yoma, folhas 52a-52b.
As duas leituras possíveis da frase são estas. Primeira: "saia para lutar contra Amaleque amanhã; eu estarei de pé no alto da colina". Segunda: "saia para lutar contra Amaleque; amanhã eu estarei de pé no alto da colina". O Talmude tira a consequência da segunda: Josué deveria sair já, e Moisés só subiria no dia seguinte — como quem diz "hoje você não precisa da minha oração". Na primeira, a batalha inteira fica para o dia seguinte, e a noite serve de preparação.
Quem decidiu, no fim, não foram os comentaristas, mas os massoretas — as gerações de escribas de Tiberíades, na Galileia, que entre os séculos VII e X fixaram por escrito as vogais e os sinais de leitura do texto hebraico. Eles puseram o sinal de pausa principal do versículo, o que corta a frase em duas metades, debaixo de "Amaleque", e um sinal de pausa menor depois de "amanhã", amarrando-o ao que vem depois. A tradução ABC segue essa divisão: "Amanhã eu estarei de pé".
Séculos antes deles, a Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) tinha escolhido o outro lado. O grego diz: "saia e forme a linha de batalha contra Amaleque amanhã; e eis que eu estou no alto do outeiro". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) ficou com a divisão hebraica: cras ego stabo ("amanhã eu estarei de pé").
A diferença parece mínima, e não é. Ela decide se Israel lutou na mesma tarde do ataque ou no dia seguinte, e se Moisés subiu junto com a saída da tropa ou depois dela. A pontuação que hoje parece parte do texto é uma leitura — mais antiga que qualquer comentário impresso, mas leitura. Pela gramática, não é possível decidir.
O ajudante que vira sucessor
Josué entra em cena como comandante. Só mais adiante o Êxodo diz qual era a posição dele ao lado de Moisés: "o seu servidor" (Êxodo 24:13), "o jovem" que não se afastava da tenda (Êxodo 33:11). Números 11:28 o chama de "servidor de Moisés desde a sua juventude". A palavra hebraica designa o assistente pessoal de alguém importante, não o escravo — é o termo usado para os que serviam no santuário e para os funcionários de um rei.
Em Israel, e no mundo em volta, esse era um caminho comum de sucessão. O ajudante aprendia o ofício pela convivência, e um dia recebia o lugar do chefe. O caso mais conhecido é o de Eliseu, apresentado em 2 Reis 3:11 como aquele "que derramava água sobre as mãos de Elias", e que depois recebe a capa do mestre (2 Reis 2:13-14). Josué recebe o cargo por um gesto público parecido: Moisés põe as mãos sobre ele diante de toda a congregação (Números 27:18-23).
O Êxodo 17 inverte a ordem desse caminho: antes de aparecer como o jovem que guarda a tenda, Josué aparece comandando uma guerra.
3. Análise Teológica do Versículo
"E Moisés disse a Josué"
Josué aparece pela primeira vez na Bíblia nesta frase, e aparece como se o leitor já o conhecesse. Não tem o nome do pai (o "filho de Num" só vem em Êxodo 33:11), não tem tribo, não tem idade, nem uma linha que diga por que foi ele o escolhido. Moisés chegou ao livro com o nascimento, Arão com o parentesco, Jetro com o cargo. Josué chega com uma ordem.
E chega com um nome que, pela própria Torá, ainda não tinha. Em Números 13:8 o espião de Efraim se chama Oseias, filho de Num, e só em Números 13:16 Moisés o chama de Josué. Por que ele já é Josué aqui, um ano antes? Há três respostas.
Primeira: o texto usa o nome pelo qual o personagem ficou conhecido. Quem lia o Êxodo sabia quem era Josué, o conquistador de Canaã. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) aceita essa saída e conclui que o relato foi escrito depois dos fatos.
Segunda: o nome já era Josué desde o começo. Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista judeu catalão do século XIII) argumenta que Moisés chamava o ajudante assim desde que ele passou a servi-lo, e que Números 13:16 apenas identifica o Oseias da lista com esse homem — ou registra o dia em que o nome foi oficializado diante da assembleia. Ele se apoia no Talmude (Sotá 34b), que lê o nome como uma oração de Moisés: "que o SENHOR te salve do conselho dos espiões".
Terceira: as duas passagens vêm de tradições diferentes que não foram harmonizadas. É a hipótese da crítica moderna; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) atribui Números 13:16 a uma fonte em que Josué só recebe o nome em Cades. Não é possível decidir.
"Escolha homens para nós"
Não há exército em Refidim. Há uma multidão com mulheres, crianças e rebanhos, que poucos versículos antes brigava por água. A primeira ordem militar do livro, por isso, não é "reúna o povo", e sim "escolha". E quem escolhe é Josué, não Moisés: o primeiro ato de guerra de Moisés é transferir o comando.
O "para nós" chamou a atenção dos rabinos. A Mekhilta, no tratado Amaleque, comenta que Moisés "igualou Josué a si mesmo": não disse "escolha para mim". Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI, o mais lido da tradição) liga isso à frase de Rabi Elazar ben Shamua na Mishná, tratado Avot 4:12: "que a honra do seu aluno seja tão querida para você quanto a sua própria". Uma regra sobre o respeito ao discípulo saiu, segundo eles, deste pronome.
Abraão ibn Ezra (comentarista judeu espanhol do século XII) não põe tanto peso na palavra. Para ele é só um jeito de falar do hebraico, que acrescenta "para você" ou "para nós" a verbos de escolher e de esperar, como em 2 Samuel 24:12 e em Êxodo 24:14 ("esperem-nos aqui"). As duas leituras são possíveis, e a dos rabinos depende de uma palavra que as traduções antigas não conservaram (item 10).
Que tipo de homem? O versículo diz só "homens". A Mekhilta registra dois mestres: para Rabi Josué, "escolha guerreiros"; para Rabi Eliezer de Modiim, "escolha os que temem o pecado". Rashi junta as duas coisas e acrescenta uma terceira: homens capazes de desfazer feitiçaria, "porque os filhos de Amaleque eram feiticeiros". Cada leitor preencheu o vazio com a qualidade que mais valorizava. O texto não diz qual era o critério.
"e saia para lutar contra Amaleque"
No mar, a ordem tinha sido o contrário: "O SENHOR pelejará por vocês, e vocês ficarão calados" (Êxodo 14:14). Agora o povo vai lutar. E a guerra que Deus quis evitar ao não levar Israel pelo caminho dos filisteus — "para que o povo não se arrependa ao ver guerra" (Êxodo 13:17) — chega assim mesmo, no deserto, por outro inimigo. Ramban usa exatamente esse versículo para explicar o cuidado de Moisés: Israel nunca tinha visto guerra e estava cansado da viagem.
"Amanhã"
Seja qual for a metade da frase a que a palavra pertence (item 2), ela marca uma demora. No mesmo capítulo em que a água sai da rocha na hora, a guerra fica para o dia seguinte. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) supõe que o ataque tenha vindo no fim da tarde. Para Rabi Eliezer de Modiim, na Mekhilta, "amanhã" quer dizer "amanhã decretaremos um jejum e nos apoiaremos nos feitos dos pais". O texto não menciona jejum.
"eu estarei de pé no alto da colina"
Em Êxodo 17:6, Deus disse a Moisés: "eu estarei de pé diante de você, ali, sobre a rocha". Agora é Moisés quem diz "eu estarei de pé", e diz sobre a colina. A imagem é a mesma: alguém posto num ponto alto, diante de quem age embaixo. Na rocha, Deus estava diante de Moisés enquanto ele feria a pedra; na colina, Moisés estará diante do povo enquanto o povo luta. O hebraico usa dois verbos diferentes (item 10), e por isso o eco é de imagem, não de palavra.
O verbo daqui é o de quem se posta e fica, como sentinela. Numa forma reflexiva, é o de Êxodo 2:4: "a irmã dele ficou de longe, para saber o que lhe aconteceria". O menino vigiado de longe na beira do Nilo é agora o homem que vigia de longe os que lutam. O texto não aponta o eco, e ele pode ser só o vocabulário comum para "ficar à vista".
Moisés não vai lutar. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) atribui isso à idade — oitenta anos, segundo Êxodo 7:7. Ramban dá outro motivo: ele subiu para ver os combatentes e ser visto por eles. O texto não explica.
"com o cajado de Deus na mão"
Moisés anuncia o objeto, não o gesto. Não diz o que fará com o cajado; diz só que o terá na mão. A Mekhilta lhe põe na boca uma oração que explica a escolha: "com este cajado tiraste Israel do Egito, com este cajado dividiste o mar; com este cajado faze por eles milagres agora".
Ramban percebe uma tensão que só aparece dois versículos adiante: se Moisés ia orar com as palmas abertas, como segurava o cajado? Ele responde que o cajado foi estendido contra Amaleque na chegada ao alto, e que depois, na oração, as mãos ficaram vazias. É harmonização; o texto não descreve a sequência. A expressão "cajado de Deus" nasceu em Êxodo 4:20, e o que ela pode significar está no estudo daquele versículo.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Josué
Da tribo de Efraim, filho de Num (Números 13:8). A genealogia mais longa está em 1 Crônicas 7:20-27, que desce de Efraim até "Num, seu filho; Josué, seu filho" por cerca de dez gerações. Ibn Ezra diz que ele era neto de Elisama, filho de Amiúde, o chefe de Efraim na contagem do deserto (Números 1:10) — ligação que a lista de Crônicas permite, mas não afirma.
O nome de nascimento era Oseias, "salvação"; Moisés o muda para Josué, "o SENHOR salva" (Números 13:16). A carreira, pela ordem do texto: comanda em Refidim (Êxodo 17:9-13); sobe parte do monte com Moisés, como servidor (Êxodo 24:13); ao descer, diz "Há barulho de guerra no acampamento", e Moisés o corrige — é canto, não guerra (Êxodo 32:17-18); não se afasta da tenda do encontro (Êxodo 33:11); quer impedir Eldade e Medade de profetizar (Números 11:28-29); é espião e, com Calebe, um dos dois que não desanimam o povo, e por isso um dos dois adultos daquela geração que entram na terra (Números 14:6-9, 30); recebe a imposição das mãos (Números 27:18-23); comanda a conquista; morre com cento e dez anos e é sepultado em Timnate-Sera, nas montanhas de Efraim (Josué 24:29-30).
Ellicott calcula que ele teria uns quarenta e cinco anos em Refidim. É conta feita de trás para frente; o texto não dá idade.
A colina
Não tem nome. A palavra designa uma elevação menor que um monte, e o texto a trata como conhecida, "a colina", como se fosse a única à vista. Onde ficava depende de onde ficava Refidim, que é questão aberta. Arthur Stanley (deão de Westminster, que percorreu o Sinai em 1853) apontou um morro na margem sul do vale de Feiran, ou o Jebel Tahuneh, ao norte; Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), um planalto mais perto do Horebe; Ibn Ezra identifica a colina com o próprio Horebe. Nenhuma proposta pode ser verificada.
Amaleque
O inimigo do versículo anterior. Quem ele é — neto de Esaú, filho da concubina Timna, e o povo que leva o nome dele — está no estudo de Gênesis 36:12.
5. Pontos de Ensino
A primeira decisão de guerra é uma delegação. Moisés decide que haverá batalha e, na mesma frase, entrega a outro a escolha dos homens e o comando. O homem que fala com Deus não reivindica a espada.
Dividir a tarefa não divide a responsabilidade. "Escolha para nós": quem manda continua dentro do plural. A tradição judaica tirou daí uma regra sobre o respeito ao aluno, e a frase, lida pelo simples, diz pelo menos isto — Moisés não fala de "seus homens", fala de homens "nossos".
O sucessor é apresentado pela tarefa, não pela linhagem. Josué entra sem pai e sem tribo, já fazendo o que fará no fim da história de Moisés: levar Israel a lutar. O texto deixa a genealogia para depois.
A guerra evitada chega por outro caminho. Deus desviou o povo da estrada dos filisteus para que ele não visse guerra (Êxodo 13:17). No deserto, a guerra veio assim mesmo, e o povo que ficou calado no mar agora tem de sair e lutar.
O tempo da guerra não é o tempo do milagre. A água saiu da rocha na hora; a batalha é marcada para o dia seguinte. O mesmo capítulo mostra os dois ritmos sem comentar.
6. Aspectos Filosóficos
Este versículo monta, em uma frase, a primeira divisão de trabalho da guerra em Israel. Um decide e fica no alto; outro escolhe os homens e desce; os homens lutam. A pergunta que essa divisão levanta é antiga e ficou mais aguda no século XX: quando uma ação é repartida entre quem decide, quem comanda e quem executa, a quem pertence o resultado?
Günther Anders e a distância entre o ato e o efeito
Günther Anders (1902-1992), filósofo alemão formado com Husserl, dedicou a vida a pensar o que a técnica moderna faz com a consciência moral. No primeiro volume de A obsolescência do homem (Die Antiquiertheit des Menschen, 1956), ele descreveu o que chamou de "desnível prometeico": a distância entre o que somos capazes de fazer e o que somos capazes de imaginar e de sentir a respeito do que fazemos. Produzimos efeitos grandes demais para a imaginação, e por isso não os sentimos como nossos.
Anders deu a essa ideia um rosto. A partir de 1959, ele se correspondeu com Claude Eatherly, o piloto do avião de reconhecimento meteorológico que sobrevoou Hiroshima em agosto de 1945 e informou que o céu sobre o alvo estava limpo. Eatherly não lançou a bomba; transmitiu uma informação. E passou o resto da vida sem conseguir se considerar inocente, entre pequenos delitos e internações psiquiátricas. As cartas saíram em livro em 1961 (Off limits für das Gewissen, "Fora do alcance da consciência"; em inglês, Burning Conscience, "Consciência em chamas").
Para Anders, Eatherly era o caso exemplar de um tipo novo de agente. Quanto mais uma ação é repartida, mais cada participante pode dizer, com verdade, que fez apenas a sua parte — pequena, técnica, distante do resultado. A divisão do trabalho produz gente que age sem ver o que faz. O escândalo de Eatherly, aos olhos do filósofo, não era a culpa que ele sentia; era que quase ninguém mais na cadeia sentia culpa alguma.
O que a ideia ilumina no versículo
A estrutura que Anders descreve está aqui, em miniatura. Moisés decide e não combate; Josué comanda e escolhe; os homens lutam e morrem. Cada um tem a sua parte, e a de Moisés é a mais distante do sangue.
Mas o versículo tem dois traços que vão na direção contrária à que Anders temia.
O primeiro é o pronome. Moisés não diz "escolha homens e lute"; diz "escolha homens para nós". Quem manda não sai do plural. A frase não separa o que decide do que executa; põe os dois dentro do mesmo "nós", e a tradição judaica entendeu o gesto como uma equiparação.
O segundo é o lugar. O problema de Anders é o agente que não vê o efeito do que faz. Moisés escolhe exatamente o contrário: um ponto alto, de onde vê o vale inteiro e de onde todos o veem. A distância dele não é a do escritório nem a do avião acima das nuvens; é a de quem fica exposto à vista dos que lutam. Os versículos seguintes vão mostrar que essa posição tem um custo no próprio corpo dele.
Onde a leitura para
Anders escreve sobre a máquina industrial e a bomba atômica, sobre efeitos que nenhuma imaginação alcança. Uma escaramuça no deserto, decidida por um homem que vê o campo de batalha com os próprios olhos, está no extremo oposto dessa escala. Usá-lo aqui é leitura de quem comenta, não algo que o texto afirme.
E o Êxodo não discute a responsabilidade de ninguém pelo resultado. Não pergunta se quem fica no alto responde pelos mortos do vale, nem se quem escolhe os homens responde pela escolha. O texto apenas arma a cena e a deixa funcionar. A pergunta de Anders é feita ao texto de fora — mas o texto, ao fazer Moisés dizer "para nós", responde a ela antes de ser perguntado.
7. Aplicações Práticas
Quem delega continua dentro do "nós". Num trabalho de equipe, na família, numa empresa, entregar uma tarefa a alguém não é sair dela. A frase de Moisés é um modelo curto: ele dá ao outro a escolha e o comando, e continua falando na primeira pessoa do plural. Quem pede a um filho, a um funcionário ou a um colega que resolva algo difícil pode perguntar a si mesmo se disse "faça" ou "vamos fazer" — e se ficou num lugar de onde vê o que está acontecendo.
A escolha das pessoas vem antes da ação. A primeira ordem não é "lute", é "escolha". Antes de enfrentar um problema grande, a pergunta sobre quem vai enfrentá-lo junto costuma decidir mais do que a pergunta sobre como.
Há problemas que se resolvem no dia seguinte. Moisés não responde ao ataque na hora; marca para o dia seguinte e se prepara. Nem toda urgência pede resposta imediata, e a noite de preparação faz parte da resposta.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Josué tinha experiência militar?
O texto não diz. John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) afirma que ele era "homem de guerra desde a juventude, treinado na arte da guerra", mas isso é dedução a partir do que Josué fez depois. Na história contada até aqui, ninguém em Israel tinha lutado, e o próprio Êxodo diz que o povo não estava pronto para ver guerra (Êxodo 13:17).
Quantos homens foram escolhidos?
Nenhum número é dado, nem aqui nem no resto do relato — nem dos israelitas, nem dos amalequitas, nem dos mortos. Para um texto que conta com cuidado as pessoas em outros lugares (Êxodo 12:37; Números 1), o silêncio chama a atenção. A batalha é narrada sem nenhum dado militar.
Por que Deus não fala neste episódio até o fim?
Do versículo 8 ao 13, nenhuma palavra de Deus. Quem decide, quem planeja e quem dá as ordens é Moisés. Deus volta a falar só depois da vitória, no versículo 14, para mandar escrever. Nas pragas, no mar e na água, a iniciativa era sempre dele; aqui, a primeira guerra é organizada por um homem. O texto registra a diferença e não a explica.
9. Conexão com Outros Textos
O nome dado depois
Números 13:16 — "Estes são os nomes dos homens que Moisés enviou para espiar a terra. E Moisés chamou Oseias, filho de Num, de Josué."
A passagem que cria o problema do nome: o homem que comanda em Refidim só recebe o nome de Josué um ano depois, na lista dos espiões.
Números 11:28 — "Então Josué, filho de Num, servidor de Moisés desde a sua juventude, respondeu: 'Moisés, meu senhor, proíba-os.'"
A palavra traduzida por "desde a sua juventude" é da mesma raiz de "escolha" no nosso versículo; pode ser lida também como "um dos seus escolhidos". O homem a quem Moisés manda escolher é ele mesmo descrito com a palavra da escolha.
Deus de pé, Moisés de pé
Êxodo 17:6 — "Eis que eu estarei de pé diante de você, ali, sobre a rocha, em Horebe; você ferirá a rocha, e dela sairá água, e o povo beberá." E Moisés fez assim, diante dos olhos dos anciãos de Israel.
Três versículos antes, Deus anuncia a mesma postura que Moisés anuncia agora. Na rocha, Deus está no alto e Moisés age embaixo; na colina, Moisés está no alto e o povo age embaixo.
Êxodo 33:21 — "Há um lugar junto a mim; você ficará de pé sobre a rocha."
Mais adiante, no pedido para ver a glória, é Moisés quem é posto "de pé sobre a rocha" — e aqui o hebraico usa o mesmo verbo de Êxodo 17:9. O lugar onde Deus esteve em Refidim é o lugar onde Moisés estará no Sinai.
O cargo passado adiante
Números 27:18 — "O SENHOR disse a Moisés: 'Tome Josué, filho de Num, homem em quem há espírito, e ponha a mão sobre ele.'"
A designação formal do sucessor. A mão de Moisés, que em Refidim se levanta sobre a batalha, é a mesma que, no fim, se põe sobre a cabeça do comandante daquele dia.
O nome em grego
Hebreus 4:8 — "Porque, se Josué lhes tivesse dado descanso, Deus não teria falado depois disso de outro dia."
Na Septuaginta e no Novo Testamento, o nome de Josué é escrito Iēsous — exatamente a mesma forma grega do nome de Jesus. Por isso traduções antigas, como a King James inglesa de 1611, puseram "Jesus" aqui e em Atos 7:45, onde o assunto é Josué, filho de Num. É um dado de recepção, não de interpretação: o Êxodo não sabe nada disso, e os autores cristãos que exploraram a coincidência a leram de trás para a frente.
Neemias 8:17 — "Desde os dias de Jesua, filho de Num, até aquele dia, os filhos de Israel não tinham feito assim."
No hebraico tardio de Neemias, o nome aparece na forma abreviada Yeshua, a que se usava na época do Segundo Templo — e que é a forma hebraica e aramaica do nome de Jesus. O mesmo homem tem, na Bíblia, três formas de nome: Oseias, Josué e Jesua.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E Moisés disse a Josué: “Escolha homens para nós e saia para lutar contra Amaleque. Amanhã eu estarei de pé no alto da colina, com o cajado de Deus na mão.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־יְהוֹשֻׁעַ בְּחַר־לָנוּ אֲנָשִׁים וְצֵא הִלָּחֵם בַּעֲמָלֵק מָחָר אָנֹכִי נִצָּב עַל־רֹאשׁ הַגִּבְעָה וּמַטֵּה הָאֱלֹהִים בְּיָדִי׃
Transliteração
vayyómer Moshé el-Yehoshúa: bechar-lánu anashím ve-tsé hillachém ba-Amaléq; machár anokhí nitsáv al-rósh ha-giv'áh u-matté ha-Elohím be-yadí.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר מֹשֶׁה אֶל־יְהוֹשֻׁעַ — vayyómer Moshé el-Yehoshúa, "e Moisés disse a Josué".
O nome Yehoshúa tem duas partes. A primeira, Yeho-, é a forma que o nome divino toma no começo de nomes de pessoa. A segunda vem da raiz de "salvar". O sentido é "o SENHOR salva" ou "o SENHOR é salvação". O nome de nascimento, Hoshéa (Oseias), tem só a segunda parte. A Bíblia conhece ainda uma terceira forma, abreviada, Yeshúa (Neemias 8:17). Josué é um dos primeiros nomes de pessoa da Bíblia com o nome divino dentro; o outro, anterior no texto, é o da mãe de Moisés, Joquebede (Êxodo 6:20), cuja explicação é discutida.
בְּחַר־לָנוּ — bechar-lánu, "escolha para nós".
Imperativo de bachar, "escolher", seguido da preposição le, "para", com o pronome "nós". Da mesma raiz vem bachur, o rapaz na idade de lutar — em hebraico, o "escolhido" e o "jovem" são a mesma palavra. Números 11:28 diz que Josué servia a Moisés mi-bechuráv, que pode ser "desde a juventude" ou "dentre os seus escolhidos".
אֲנָשִׁים — anashím, "homens".
Plural de ish, "homem", sem adjetivo e sem artigo. É a palavra comum. A Septuaginta acrescentou o que o hebraico não tem: ándras dynatoús, "homens fortes".
וְצֵא הִלָּחֵם — ve-tsé hillachém, "e saia, lute".
Dois imperativos colados, sem "e" entre eles: o segundo diz a finalidade do primeiro — "saia para lutar". Hillachém é do verbo lacham, "combater", na forma Niphal (a forma do verbo hebraico que muitas vezes é passiva, mas que neste verbo tem sentido ativo e de reciprocidade: travar combate com alguém).
בַּעֲמָלֵק — ba-Amaléq, "contra Amaleque".
A preposição be, que normalmente quer dizer "em", com verbos de guerra significa "contra". Debaixo desta palavra está o sinal de pausa principal do versículo, o que divide a frase em duas metades.
מָחָר — machár, "amanhã".
Advérbio de tempo. É a palavra da lista das cinco de Issi ben Judá (item 2). Os acentos da tradição massorética a ligam ao que vem depois; a Septuaginta a ligou ao que vem antes.
אָנֹכִי נִצָּב — anokhí nitsáv, "eu estarei de pé".
Anokhí é a forma longa do pronome "eu", que o hebraico usa quando quer pôr peso na pessoa: "eu, de minha parte". Nitsáv é o particípio Niphal de natsav, "estar posto, postar-se, ficar firme num lugar". O particípio com o pronome dá um futuro próximo e certo: "eu estarei". O mesmo particípio aparece com o SENHOR no alto da escada de Jacó (Gênesis 28:13). O "eu estarei de pé" de Deus em Êxodo 17:6 é outro verbo, omed, de amad, "estar de pé, parar"; a ABC traduz os dois do mesmo modo, e o leitor do hebraico ouve duas palavras.
עַל־רֹאשׁ הַגִּבְעָה — al-rósh ha-giv'áh, "no alto da colina".
Rosh é "cabeça", e daí "topo", "cume". Giv'áh é a elevação menor, o outeiro, distinta de har, "monte". O Targum de Ônquelos traduziu por ramata, "lugar alto"; a Septuaginta, por bounós, "outeiro".
וּמַטֵּה הָאֱלֹהִים בְּיָדִי — u-matté ha-Elohím be-yadí, "e o cajado de Deus na minha mão".
Frase sem verbo: "e o cajado de Deus — na minha mão". Matté é o cajado ou bastão; a mesma palavra designa também a tribo, o "ramo" de um povo. Ha-Elohím leva o artigo, como em Êxodo 4:20. Be-yadí, "na minha mão", no singular — e a mão será o assunto dos versículos seguintes.
As traduções antigas
A Septuaginta traz duas diferenças. Primeira: epílexon seautō, "escolha para você mesmo" — o "para nós" desaparece, e com ele a base da lição rabínica sobre o aluno. Segunda: em vez de "lutar", parátaxai, "forme a linha de batalha", termo técnico militar grego.
A Vulgata escreve Elige viros, "escolha homens", sem pronome nenhum — também ela perde o "para nós".
O Targum de Ônquelos troca "o cajado de Deus" por "o cajado com que se fizeram milagres diante do SENHOR". A paráfrase aramaica evita pôr o nome divino como dono de um objeto e transforma a posse em história: o cajado é "de Deus" porque Deus agiu por ele.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a guerra de Israel começa por uma partilha. O homem que fala com Deus não pega em armas; escolhe quem vai pegar — e faz isso sem sair do "nós". O que a tradição judaica leu como regra de respeito ao discípulo é, no plano da cena, a recusa de separar quem manda de quem luta.
A segunda é que o sucessor de Moisés entra no livro pela porta da tarefa, não pela da linhagem. O leitor vê Josué comandando antes de saber de quem é filho e que nome tinha.
A terceira é que Moisés ocupa, na colina, o lugar que Deus ocupava na rocha: alguém de pé, num ponto alto, diante de quem age embaixo. Mas até aqui ele só anunciou onde estaria e o que teria na mão. O que a postura produz fica em suspenso, e os versículos seguintes vão resolvê-lo de um modo que a frase não deixava prever.













