Josué fez como Moisés lhe tinha dito e lutou contra Amaleque; e Moisés, Arão e Hur subiram ao alto da colina.
1. Introdução
Josué faz o que Moisés mandou e luta contra Amaleque; ao mesmo tempo, Moisés, Arão e Hur sobem ao alto da colina. O versículo parte a cena em duas — o vale e o alto — e da batalha não conta nada além do verbo. Hur aparece pela primeira vez, sem pai nem apresentação, e sumirá da história poucos capítulos depois; a tradição judaica preencheu esse silêncio com parentescos e com uma morte. Moisés tinha dito "eu estarei"; sobem três, e os leitores antigos tiraram do número uma regra de oração pública.
2. Contexto Histórico e Cultural
Guerra com jejum e súplica
Em Israel, como entre os povos vizinhos, uma batalha não era só assunto de armas. Antes ou durante o combate, alguém orava, jejuava, oferecia sacrifício. A própria Bíblia registra o costume em vários momentos. Em Mispá, enquanto os filisteus avançavam contra o povo reunido, Samuel oferecia um cordeiro e clamava ao SENHOR, e a batalha foi decidida por trovões (1 Samuel 7:9-10). Antes da guerra contra Moabe e Amom, o rei Josafá "proclamou um jejum em todo o Judá" (2 Crônicas 20:3). Na guerra contra Benjamim, as tribos subiram a Betel, choraram, jejuaram até a tarde e ofereceram holocaustos (Juízes 20:26).
Os leitores judeus antigos leram a subida de Moisés, Arão e Hur dentro desse quadro. O Targum Pseudo-Jônatas (paráfrase aramaica da Torá, de redação tardia) faz Moisés dizer, no versículo anterior: "amanhã estarei de pé, preparado com jejum". A Mekhilta de Rabi Ismael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado provavelmente entre os séculos III e IV), no tratado Amaleque, conclui que os três passaram o dia em jejum até o pôr do sol.
Três diante da arca
Dessa leitura saiu uma regra. A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) descreve no tratado Taanit 2:1-2 como se fazia um jejum público em tempo de calamidade, como uma seca: tirava-se a arca dos rolos da sinagoga para a praça da cidade, punha-se cinza sobre ela e sobre a cabeça dos líderes, o mais velho fazia um discurso de repreensão, e um homem experiente descia "diante da arca" para conduzir a oração, com seis bênçãos acrescentadas às dezoito de todos os dias.
A Mekhilta, a partir dos três nomes — Moisés, Arão e Hur —, diz que daqui se aprende que, num jejum público, não se põem menos de três pessoas diante da arca. Rashi (Rabi Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) repete a regra no comentário a este versículo. Os Capítulos de Rabi Eliezer (obra narrativa judaica do século VIII ou IX), no capítulo 44, dão outra versão do mesmo costume: quem conduz a oração da comunidade não deve ficar sozinho, mas com um à direita e outro à esquerda — como Arão e Hur ao lado de Moisés.
O caminho da leitura é o inverso do da história. A prática da sinagoga existia, e os rabinos encontraram no Êxodo uma cena que a explicava e a autorizava. O versículo não fala de jejum, nem de oração, nem de arca. O que ele dá é o número três e o lugar alto — e foi o bastante para que gerações de comunidades vissem, no homem que conduzia a oração num dia de jejum, Moisés no alto da colina.
3. Análise Teológica do Versículo
"Josué fez como Moisés lhe tinha dito"
O primeiro ato de Josué na Bíblia é obedecer, e ele obedece calado. Em todo o capítulo 17 ele não diz uma palavra. A Mekhilta resume a frase com uma observação seca: "ele não transgrediu a ordem de Moisés". Nenhum comentário sobre coragem, hesitação ou estratégia — só a execução.
A primeira frase que Josué diz no livro vem muito depois, ao descer do monte com Moisés: "Há barulho de guerra no acampamento" (Êxodo 32:17). E está errada. Moisés responde que não é grito de vitória nem de derrota, é canto — o povo estava dançando diante do bezerro. O homem que estreou na Bíblia lutando ouve guerra onde há festa. O texto não comenta a coincidência.
A frase também não diz quando Josué saiu. Se o "amanhã" do versículo anterior pertencia à batalha, ele esperou a manhã; se pertencia a Moisés, saiu logo. "Como Moisés lhe tinha dito" cobre as duas leituras, e o texto não desempata.
"e lutou contra Amaleque"
É toda a descrição da batalha. Não há número de homens, terreno, armas, manobra, nem um ferido nomeado. Os relatos de guerra do Oriente antigo, quando celebram uma vitória, contam carros, cidades, prisioneiros e mãos cortadas; este reduz o combate inteiro a um verbo e passa a outra cena. O interesse do texto está no alto da colina, não no vale.
Também não há aqui a palavra que o leitor espera depois do mar: nenhuma intervenção de Deus no campo. Em Êxodo 14, o SENHOR lutou e o povo ficou parado; em Êxodo 17, o povo luta, e o que acontece no alto é que vai decidir. A relação entre as duas coisas é o assunto do versículo seguinte.
"e Moisés, Arão e Hur"
No hebraico, a frase muda de forma neste ponto: o sujeito vem antes do verbo. É o modo de dizer "enquanto isso". As duas metades do versículo acontecem ao mesmo tempo — Josué no vale, os três no alto. A pausa principal do versículo cai exatamente entre elas.
Moisés tinha dito "eu estarei de pé no alto da colina", no singular. Sobem três. O texto não diz quem chamou Arão e Hur, nem quando se decidiu que iriam. Por que três? A tradição deu quatro respostas.
Primeira: os dois são nomeados porque serão necessários adiante. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) diz que Arão e Hur aparecem aqui só porque o versículo 12 vai contar que eles sustentaram as mãos de Moisés; sem a menção agora, a cena de depois ficaria sem explicação. É a leitura mais simples, e talvez a mais segura.
Segunda: os três eram velhos demais para lutar. Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) supõe que, inúteis no combate, eles foram fazer o que podiam fazer. Arão tinha oitenta e três anos segundo Êxodo 7:7; a idade de Hur não é dada.
Terceira: três é o número da oração comunitária. É a leitura da Mekhilta e de Rashi, que tiram daqui a regra de três diante da arca num jejum público (item 2).
Quarta: os três representam o povo. Ao comentar o versículo 12, a Mekhilta diz que Arão lembrava o mérito de Levi e Hur o de Judá. O sacerdócio e a tribo da realeza sobem com Moisés. É leitura simbólica, possível só porque Crônicas faz de Hur um homem de Judá.
"Hur"
Ele entra sem apresentação, como Josué no versículo anterior, e sem nem o nome do pai. O texto o trata como alguém que o leitor conhece e em quem Moisés confia o bastante para levá-lo ao lugar mais exposto da batalha. Quem ele era está no item 4. O que importa aqui é a ordem da lista: Moisés, Arão, Hur. O irmão sacerdote vem antes; o homem sem genealogia vem depois, mas vem.
"subiram ao alto da colina"
No versículo anterior Moisés diz que estará "no" alto da colina; aqui eles sobem "ao" alto, e o hebraico dispensa até a preposição (item 10). Subir é o verbo do monte de Deus no resto do livro: "Moisés subiu a Deus" (Êxodo 19:3), "Moisés subiu ao monte" (Êxodo 24:15).
E a subida do Sinai repete esta cena, mas com as posições trocadas. Em Êxodo 24:13-14, Moisés sobe ao monte com Josué, o seu servidor, e deixa embaixo, no comando do povo, exatamente Arão e Hur: "Arão e Hur estão com vocês; quem tiver alguma questão, procure-os". Em Refidim, Josué fica no vale e Arão e Hur sobem com Moisés; no Sinai, Josué sobe e Arão e Hur ficam no vale. E é nesse segundo arranjo, com os dois cuidando do acampamento, que o povo faz o bezerro de ouro. O texto não estabelece a comparação, mas as duas cenas usam as mesmas quatro pessoas em posições opostas.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Hur no texto
Este Hur aparece em seis versículos da Torá. Dois são deste capítulo: sobe a colina (Êxodo 17:10) e sustenta, com Arão, as mãos de Moisés (Êxodo 17:12). No terceiro, divide com Arão o governo do povo enquanto Moisés está no monte (Êxodo 24:14). Os outros três o citam só como avô: Bezalel, o artesão encarregado do santuário, é "filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá" (Êxodo 31:2; 35:30; 38:22). Depois de Êxodo 24:14, Hur não faz mais nada. Quando Moisés desce e encontra o bezerro, só Arão responde.
Hur nas Crônicas
1 Crônicas 2:18-20 dá a ele uma genealogia: Calebe, filho de Hezrom, da tribo de Judá, casou-se com Efrata, "que lhe deu à luz Hur"; Hur gerou Uri, e Uri gerou Bezalel. Em 1 Crônicas 2:50 e 4:4 ele aparece como primogênito de Efrata e "pai de Belém". Se este é o mesmo Hur do Êxodo, ele era de Judá, e o avô de Bezalel combatia — ou orava — no deserto ao mesmo tempo em que o neto já era artesão adulto. É possível, se Hur fosse velho; a Cambridge Bible ("Bíblia de Cambridge", série de comentários da universidade inglesa) acha mais provável que sejam dois homens. O nome Efrata e a ligação com Belém estão desenvolvidos no estudo de Gênesis 35:19.
Hur na tradição judaica
O Talmude da Babilônia (tratado Sotá, folha 11b) identifica Efrata com Miriã, a irmã de Moisés, e o Calebe de Crônicas com Calebe, o espião. Por essa conta, Hur era filho de Miriã e de Calebe — sobrinho de Moisés. Rashi reproduz a informação no comentário a este versículo. Comentaristas como Ellicott e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) registram uma tradição diferente, também antiga, que faz de Hur marido de Miriã, e portanto cunhado de Moisés. As duas tentam responder à mesma pergunta: por que um homem sem genealogia no Êxodo está no lugar mais próximo de Moisés? Nenhuma tem apoio no texto.
O mesmo Talmude explica o desaparecimento dele. No tratado Sanhedrin, folha 7a, Rabi Elazar lê Êxodo 32:5 — "Arão viu isso e construiu um altar diante dele" — com outra vocalização: Arão "viu" Hur "imolado diante dele". Hur teria resistido ao bezerro e sido morto pelo povo; Arão, vendo isso, cedeu para não ter o mesmo fim. É uma leitura feita sobre um jogo de letras e sobre um silêncio, e por isso mesmo diz mais sobre a pergunta dos rabinos do que sobre Hur.
O nome
A Septuaginta escreve Ōr, que soa como a forma grega de Hórus, o deus egípcio do céu. Uma origem egípcia é plausível num homem nascido no Egito, como os nomes egípcios de Moisés e de Fineias; não há como confirmar. Outros homens têm o mesmo nome: um dos cinco reis de Midiã mortos em Números 31:8, um governador de Salomão chamado Ben-Hur, "filho de Hur" (1 Reis 4:8), e o pai de um dos que reconstruíram o muro de Jerusalém (Neemias 3:9).
Arão
Irmão mais velho de Moisés, porta-voz dele diante de Faraó, ainda não consagrado sacerdote. Aqui ele não fala nem age sozinho: sobe e, no versículo seguinte, segura uma das mãos do irmão.
5. Pontos de Ensino
A batalha tem dois lugares. O versículo parte a cena: um homem e a sua tropa no vale, três homens no alto, as duas coisas ao mesmo tempo. Nenhuma das duas metades é apresentada como suficiente.
A obediência vem antes da fala. Josué estreia executando uma ordem sem responder. O texto o apresenta pela ação, e só muito depois lhe dá uma frase.
O texto é avaro com a guerra. Um verbo para o combate inteiro. O que o Êxodo quer que o leitor veja está em outro lugar.
Quem anuncia sozinho executa acompanhado. Moisés disse "eu estarei"; subiram três. O plano é de um; a execução é de vários.
Os nomes discretos importam. Hur não tem genealogia, quase não age e some da narrativa. Mesmo assim, está no ponto decisivo da primeira batalha e no governo do povo no Sinai. O texto confia a ele o que não explica.
6. Aspectos Filosóficos
O versículo separa duas alturas. Embaixo, o combate; em cima, três homens que não combatem. A pergunta que isso levanta é antiga na filosofia: subir é sair do mundo ou é outro modo de estar nele? O alto é fuga do que acontece embaixo, ou é o lugar de onde aquilo se vê por inteiro?
Jean Wahl e os dois movimentos
Jean Wahl (1888-1974), filósofo francês que apresentou à França dos anos 1930 os pensadores da existência, escreveu em Existência humana e transcendência (Existence humaine et transcendance, 1944) uma distinção que ficou conhecida. Ele chamou de transcendência o movimento pelo qual alguém vai além de si mesmo, e notou que esse movimento pode ter duas direções. Há a "transascendência", o ir além para o alto — para o que é maior, mais claro, mais elevado. E há a "transdescendência", o ir além para baixo — para o que é mais denso, mais obscuro, mais elementar, o corpo, a terra, o que não se deixa pensar inteiro.
O ponto de Wahl não era escolher uma das duas. Era insistir que a transcendência é movimento, e não lugar. Quem sobe e se instala lá em cima, esquecendo de onde veio, deixou de transcender e passou a habitar outra imanência. Por isso ele falava da necessidade de uma "transcendência da transcendência": o movimento para o alto precisa, de algum modo, voltar ao concreto. O livro que o tornou conhecido, de 1932, tinha esse programa no título: Rumo ao concreto (Vers le concret).
O que a distinção ilumina
O versículo tem os dois movimentos ao mesmo tempo, e não deixa que um apague o outro. Josué desce ao combate; Moisés, Arão e Hur sobem. Nenhuma das duas metades é a batalha inteira. E a subida não é retiro. O alto da colina só tem sentido porque dali se vê o vale, e porque o vale vê o alto. Os três não sobem para ficar longe da guerra, nem para contemplar outra coisa: sobem para ficar ligados a ela de outro modo.
É, na linguagem de Wahl, uma transascendência que não corta o fio. O versículo seguinte vai mostrar que o que acontece no alto e o que acontece embaixo estão presos um ao outro a cada instante, e o versículo 12 mostrará o preço de manter essa ligação no corpo de quem subiu.
Onde a leitura para
Wahl fala de experiências interiores, de um movimento do pensamento e do sentimento. O Êxodo fala de três homens subindo um morro. Aplicar a distinção aqui é leitura de quem comenta; o texto não pensa em termos de transcendência, e a palavra "alto" designa só uma elevação de terreno. O que se pode afirmar é mais modesto: o versículo recusa a imagem de um alto separado do baixo. Ele põe as duas cenas na mesma frase, unidas por um "enquanto isso", e não diz qual delas vence a batalha.
7. Aplicações Práticas
Ninguém sobe sozinho. Moisés anunciou que estaria no alto; foi com dois. Quem assume uma tarefa pesada — cuidar de um doente, conduzir uma crise na família, carregar uma decisão difícil — costuma anunciá-la no singular. O versículo mostra o anúncio no singular e a execução no plural, sem que ninguém comente a mudança.
Quem está no vale e quem está no alto fazem parte da mesma luta. Numa casa, numa equipe, numa comunidade, há quem enfrente diretamente o problema e quem sustente de outro lugar. O versículo põe as duas coisas na mesma frase, sem hierarquia. Nenhum dos lados é o "verdadeiro" trabalho.
O nome sem destaque também conta. Hur não tem história, não fala e some da narrativa. Mas foi ele quem esteve no alto. Em qualquer grupo há pessoas assim, de quem pouco se sabe e de quem tudo depende num dia decisivo.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Os combatentes viam o alto da colina?
O texto não diz. Ramban (Moisés ben Nachman, comentarista judeu catalão do século XIII) supõe que sim — Moisés teria subido justamente para ser visto e animar a tropa —, e a Mishná, lendo o versículo seguinte, faz a vitória depender de os combatentes olharem para o alto. Mas a geografia não é conhecida, e uma batalha num vale pode perfeitamente esconder um morro de parte da tropa.
Onde estavam os anciãos?
Em Êxodo 17:5-6, alguns anciãos acompanharam Moisés à rocha como testemunhas. Na batalha, eles não aparecem: nem no vale, nem no alto. O texto escolhe para a colina duas pessoas que não pertencem a esse grupo, ou que pelo menos não são apresentadas como parte dele.
E Miriã?
Ela foi chamada de profetisa e conduziu o canto no mar (Êxodo 15:20-21), e alguns rabinos a fazem mãe ou esposa de Hur. Neste capítulo, ela não aparece. O texto não diz se havia mulheres no alto da colina ou no vale.
A batalha durou um dia só?
O versículo 12 diz que as mãos de Moisés ficaram firmes "até o pôr do sol", e o 13 traz o desfecho. Lido em sequência, foi um dia. O Targum Pseudo-Jônatas, porém, explica o cansaço de Moisés dizendo que "a guerra se prolongou até o dia seguinte". A leitura é dele; o texto não fala em segundo dia.
9. Conexão com Outros Textos
Os dois que ficam no comando
Êxodo 24:13-14 — "Então Moisés se levantou com Josué, o seu servidor, e Moisés subiu ao monte de Deus. E disse aos anciãos: 'Esperem-nos aqui até que voltemos a vocês. Arão e Hur estão com vocês; quem tiver alguma questão, procure-os.'"
As mesmas quatro pessoas de Refidim, em posições trocadas: Josué sobe com Moisés, Arão e Hur ficam embaixo, responsáveis pelo povo. É a última vez que Hur é visto vivo no texto.
O que Arão viu
Êxodo 32:5 — "Arão viu isso e construiu um altar diante dele, e Arão proclamou: 'Amanhã será festa ao SENHOR.'"
O versículo em que o Talmude (Sanhedrin 7a) lê a morte de Hur. No texto, "isso" é o bezerro, e o altar é construído diante dele.
A genealogia de Hur
1 Crônicas 2:19-20 — "Morreu Azuba, e Calebe tomou para si Efrata, que lhe deu à luz Hur. Hur gerou Uri, e Uri gerou Bezalel."
Êxodo 31:2 — "Veja: chamei pelo nome Bezalel, filho de Uri, filho de Hur, da tribo de Judá."
As duas passagens que fazem de Hur um homem de Judá e o avô do construtor do santuário. Se o Hur da batalha é o mesmo, o homem que sustentou as mãos de Moisés tem um neto que dará forma ao lugar onde Deus vai habitar.
Orar enquanto o outro luta
1 Samuel 7:10 — "Enquanto Samuel oferecia o holocausto, os filisteus se aproximaram para lutar contra Israel; mas o SENHOR trovejou naquele dia com grande estrondo sobre os filisteus e os pôs em confusão, e eles foram derrotados diante de Israel."
A cena bíblica mais próxima de Refidim: um líder ocupado com o culto, uma batalha acontecendo ao mesmo tempo, e a vitória atribuída ao que se fez longe das armas. Em Mispá, porém, o texto nomeia a ação de Deus; em Refidim, não.
O primeiro grito de Josué
Êxodo 32:17-18 — "Quando Josué ouviu o barulho do povo que gritava, disse a Moisés: 'Há barulho de guerra no acampamento.' Mas Moisés respondeu: 'Não é grito de vitória, nem grito de derrota; é som de canto que eu ouço.'"
As primeiras palavras de Josué na Bíblia. O homem que estreou lutando em Refidim reconhece guerra num barulho que é outra coisa.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Josué fez como Moisés lhe tinha dito e lutou contra Amaleque; e Moisés, Arão e Hur subiram ao alto da colina.
Texto hebraico
וַיַּעַשׂ יְהוֹשֻׁעַ כַּאֲשֶׁר אָמַר־לוֹ מֹשֶׁה לְהִלָּחֵם בַּעֲמָלֵק וּמֹשֶׁה אַהֲרֹן וְחוּר עָלוּ רֹאשׁ הַגִּבְעָה׃
Transliteração
vayyá'as Yehoshúa ka'ashér amar-ló Moshé le-hillachém ba-Amaléq; u-Moshé Aharón ve-Chúr alú rosh ha-giv'áh.
Análise palavra por palavra
וַיַּעַשׂ יְהוֹשֻׁעַ — vayyá'as Yehoshúa, "e Josué fez".
Verbo asah, "fazer", na forma verbal que encadeia a narrativa. É o verbo dos relatos de cumprimento: alguém recebe uma ordem e "fez assim". Neste capítulo ele já apareceu com Moisés diante da rocha — "E Moisés fez assim" (Êxodo 17:6). Os dois homens são apresentados, em sequência, pela mesma fórmula de obediência.
כַּאֲשֶׁר אָמַר־לוֹ מֹשֶׁה — ka'ashér amar-ló Moshé, "como Moisés lhe tinha dito".
Ka'ashér é "conforme, do modo que". Amar está na forma do passado concluído. Nas fórmulas de obediência do Êxodo, quem disse costuma ser o SENHOR ("como o SENHOR tinha dito"); aqui é Moisés, como já tinha acontecido com o povo que "fez conforme a palavra de Moisés" na saída do Egito (Êxodo 12:35).
לְהִלָּחֵם בַּעֲמָלֵק — le-hillachém ba-Amaléq, "lutar contra Amaleque".
Infinitivo do mesmo verbo do versículo anterior, com a preposição le, "para". Ao pé da letra: "Josué fez como Moisés lhe disse, para lutar contra Amaleque". O infinitivo diz o conteúdo da ordem cumprida; a tradução ABC o converte em verbo pleno, "e lutou". Debaixo de "Amaleque" está, de novo, o sinal de pausa principal do versículo.
וּמֹשֶׁה אַהֲרֹן וְחוּר — u-Moshé Aharón ve-Chúr, "e Moisés, Arão e Hur".
A segunda metade começa pelo sujeito, e não pelo verbo, como seria normal na narrativa hebraica. A ordem invertida marca uma ação simultânea ou de contraste: "enquanto isso, Moisés…". O "e" aparece antes de Moisés e antes de Hur, mas não antes de Arão.
Chur (Hur) é nome curto, de origem discutida. Pode vir do egípcio Hor, Hórus, como sugere a forma grega Ōr; pode ligar-se ao hebraico chur, o linho branco que aparece em Ester 1:6 e 8:15. Não há como decidir.
עָלוּ רֹאשׁ הַגִּבְעָה — alú rosh ha-giv'áh, "subiram ao alto da colina".
Alú é o verbo alah, "subir", no plural. O detalhe está no que falta: em Êxodo 17:9 Moisés diz que estará al-rosh, "sobre o alto"; aqui eles sobem rosh, "o alto", sem preposição nenhuma. Com verbos de movimento, o hebraico pode pôr o destino direto, sem "a" ou "para". A ABC reconstrói a preposição em português.
As traduções antigas
A Septuaginta (a tradução grega da Bíblia hebraica, feita no Egito a partir do século III antes de Cristo) acrescenta uma frase: "e, saindo, formou a linha de batalha contra Amaleque". O grego repete a ordem do versículo anterior para mostrar que foi cumprida ponto por ponto, como se o "lutar" sozinho não bastasse. É o tipo de acréscimo que harmoniza ordem e execução.
O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá nas sinagogas antigas) traduz o lugar por reish ramata, "o alto do lugar elevado", e o verbo por seliqu, "subiram". A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) escreve ascenderunt super verticem collis, "subiram sobre o cume do outeiro", repondo a preposição que o hebraico dispensa.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que a batalha de Refidim acontece em dois lugares, e o texto não deixa nenhum deles sozinho. O combate tem um verbo; a subida tem três nomes. A frase inteira está construída para que o leitor olhe para o alto — e é por isso que, no versículo seguinte, a sorte do vale vai depender do que se passa lá em cima.
A segunda é que o texto confia peso a quem não apresenta. Josué obedece sem falar, Hur sobe sem genealogia. Os dois foram depois cercados de explicações — o nome de Josué, o parentesco e a morte de Hur —, todas posteriores ao Êxodo. O versículo os mostra só pelo que fazem.
A terceira é que a cena tem um espelho. No Sinai, as mesmas quatro pessoas aparecem com os lugares trocados, e é nesse arranjo que o povo se perde. Em Refidim, com Josué no vale e Arão e Hur ao lado de Moisés, o povo resiste. O texto não tira a lição, mas monta as duas cenas com as mesmas peças.













