Moisés subiu a Deus, e o SENHOR o chamou do monte, dizendo: “Assim você dirá à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel:
1. Introdução
Moisés sobe em direção a Deus antes de ser chamado, e só então a voz o alcança, vinda do monte. A mensagem que recebe começa com uma ordem de transmissão — “assim você dirá” — e com dois nomes para o mesmo povo: “casa de Jacó” e “filhos de Israel”. A Mekhilta leu nos dois nomes dois públicos, as mulheres e os homens, e Rashi acrescentou dois tons de voz. O versículo abre o discurso mais denso do capítulo, a proposta de aliança dos versículos 4 a 6, e é o primeiro dos muitos movimentos de subida e descida de Moisés no Sinai.
2. Contexto Histórico e Cultural
Quando Moisés subiu
O texto diz só “Moisés subiu”. A Mekhilta põe esta primeira subida no segundo dia do mês, depois de um dia de descanso da viagem, e Rashi a coloca de madrugada; a regra rabínica de que Moisés subia e descia sempre cedo está no estudo de Êxodo 19:14.
A subida que virou peregrinação
Ao menos desde o século IV, cristãos refizeram esta subida a pé. O relato mais antigo que sobreviveu é o de Egéria, peregrina provavelmente da Galícia ou do sul da Gália, que esteve no Sinai por volta de 383 e escreveu para as irmãs que tinham ficado em casa. Ela chegou ao vale num sábado à tarde e subiu no domingo bem cedo. A descrição da escalada é a de quem sofreu: não se sobe em curvas, devagar, “mas direto, como se subisse uma parede”. No alto havia uma pequena igreja, e ali, como em cada lugar da viagem, o grupo lia em voz alta o trecho do livro de Moisés correspondente, rezava e descia.
O costume de ler o texto no lugar do texto mostra como a cena foi recebida: não como episódio de um passado distante, mas como gesto que se pode refazer. Mais tarde, monges talharam na rocha milhares de degraus no caminho para o cume, e a subida noturna, para ver o sol nascer lá de cima, é até hoje o modo mais comum de visitar o monte. Tudo isso pressupõe a identificação do Sinai com o Jebel Musa, que não está no texto e é discutida.
Jacó e Israel: um par da poesia hebraica
Os dois nomes do versículo não estão juntos por acaso. Na poesia hebraica, “Jacó” e “Israel” formam um par fixo: quando um aparece na primeira metade do verso, o outro vem na segunda, dizendo a mesma coisa com outra palavra. Os oráculos de Balaão fazem isso o tempo todo: “Venha, amaldiçoe para mim Jacó; venha, denuncie Israel” (Números 23:7). O Salmo 114 abre do mesmo modo: “Quando Israel saiu do Egito, a casa de Jacó, de um povo de língua estranha”. E Isaías usa o par dezenas de vezes (“Por que você diz, ó Jacó, e fala, ó Israel…”, Isaías 40:27).
Isso diz algo sobre o tom do versículo. A partir de “assim você dirá”, o texto sai da narrativa simples e entra numa fala de registro elevado, quase poético, que vai até o fim do versículo 6. A Cambridge Bible (“Bíblia de Cambridge”, série de comentários da universidade inglesa) nota que esta é uma das pouquíssimas vezes em que “casa de Jacó” aparece no Pentateuco, e atribui a expressão justamente ao estilo solene da passagem. É contra esse pano de fundo que a leitura rabínica dos “dois públicos” precisa ser avaliada: na poesia, dois nomes costumam ser um povo só.
3. Análise Teológica do Versículo
“Moisés subiu a Deus”
A ordem dos fatos é inesperada: primeiro Moisés sobe, depois Deus o chama. Ninguém mandou Moisés subir. Por que ele foi?
Primeira leitura: Deus já o tinha chamado antes. É a de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista espanhol do século XII). Moisés não subiria sem permissão; a frase “e o SENHOR o chamou” deve ser entendida como passado anterior — “o SENHOR o tinha chamado” —, e o texto conta a subida antes do chamado só porque a subida é o que se vê.
Segunda leitura: Moisés subiu porque a Glória já estava lá. É a de Nachmânides (Ramban, rabino catalão do século XIII), que discorda de Ibn Ezra. Desde o dia em que Israel chegou, a nuvem cobria o monte e a Glória de Deus estava sobre ele — é o que Êxodo 24:16 dirá, “a nuvem o cobriu por seis dias”. Moisés subiu até a borda, para estar pronto, sem entrar na escuridão onde Deus estava. E então foi chamado. Para Ramban, “subiu a Deus” quer dizer “subiu em direção à Glória”, e o chamado é a resposta a quem se pôs à disposição.
Terceira leitura: Moisés foi ao encontro, e Deus veio ao encontro dele no caminho. É a dos comentaristas cristãos do século XIX. Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano) entende que a voz alcançou Moisés durante a subida, não no cume; Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano, organizador de um comentário bíblico do século XIX) faz disso uma lição: Deus encontra no meio do caminho quem se levanta e vai até ele.
As três concordam num ponto que o texto sustenta: a iniciativa da subida é de Moisés. É a primeira vez no livro que ele vai a Deus sem ser mandado. Na sarça, foi Deus que o chamou do meio do fogo (Êxodo 3:4).
A expressão “subiu a Deus” incomodou os tradutores antigos, porque parece pôr Deus num lugar a que se chega a pé. A Septuaginta (a tradução grega da Torá, feita no Egito no século III antes de Cristo) escreveu “subiu ao monte de Deus”. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da sinagoga) escreveu “subiu diante do SENHOR”. Ibn Ezra lê do mesmo modo que a Septuaginta e avisa que Moisés não subiu além do monte, como querem alguns midrashim que o levam ao céu. Todos protegem a mesma coisa: Deus não está no alto do Sinai como alguém está numa casa.
“e o SENHOR o chamou do monte”
Na mesma frase, o nome de Deus muda. Moisés sobe a “Deus” (ha-Elohim, o termo genérico, com artigo) e quem o chama é “o SENHOR”, o nome próprio. Ramban vê nisso um movimento: Moisés se aproxima da Glória e quem lhe fala é o Nome, como Deus fala com Moisés “boca a boca” (Números 12:8). A crítica moderna vê duas tradições costuradas, cada uma com o seu nome divino. As duas leituras descrevem o mesmo dado; o versículo não decide entre elas.
E Deus chama “do monte”. Mais tarde, no versículo 20, o texto dirá que o SENHOR “desceu” sobre o monte. Se desce depois, de onde chama agora? Ibn Ezra responde que a descida do versículo 20 é contada do ponto de vista do povo, que só então viu o fogo; para Moisés, a voz já vinha do monte. Uma leitura que o próprio Deuteronômio apoia: “do céu ele fez você ouvir a sua voz… e você ouviu as palavras dele do meio do fogo” (Deuteronômio 4:36).
“Assim você dirá”
A ordem é de mensageiro. Moisés não vai explicar, nem resumir, nem negociar: vai repetir. A Mekhilta de Rabi Ishmael (comentário rabínico ao Êxodo, compilado por volta do século III) desdobra a palavra “assim” em quatro exigências: na língua sagrada; nesta ordem; sobre este assunto; e sem tirar nem acrescentar. E fecha o bloco, no versículo 6, com a mesma insistência: “estas são as palavras” — nem menos, nem mais. O que Moisés vai levar ao povo é um texto, não uma impressão.
Ao mesmo tempo, a mesma Mekhilta e Rashi (Salomão ben Isaac, comentarista francês do século XI) dizem que Moisés deve falar de dois modos a dois públicos. É uma tensão que a tradição não resolveu e que o próprio versículo contém: “dirá” e “anunciará” são dois verbos diferentes para a mesma mensagem.
“à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel”
Por que dois nomes para o mesmo povo? Há quatro respostas.
Primeira: são dois públicos, as mulheres e os homens. É a da Mekhilta: “casa de Jacó” são as mulheres; “filhos de Israel”, os homens. “Dirá” é o verbo do falar comum, e Moisés deve dar às mulheres “os princípios gerais”; “anunciará” é o verbo da exposição, e aos homens ele explicará os detalhes. Rashi acrescenta uma nuance de tom: às mulheres, “com palavras brandas”; aos homens, os castigos e as minúcias, palavras “duras como gidin” — termo aramaico que uns traduzem por “nervos” e outros por “absinto”. É um trocadilho, tomado do Talmude (Shabbat 87a), entre essa palavra e o verbo hebraico de “anunciar”, que tem as mesmas consoantes. O Midrash Rabá do Êxodo (Shemot Rabá 28:2, coleção medieval de interpretações rabínicas) pergunta por que as mulheres vêm primeiro e dá três respostas: porque são mais prontas para cumprir os mandamentos; porque são elas que vão encaminhar os filhos para a Torá; e, na de Rabi Tachlifa de Cesareia, porque na criação Deus deu a ordem só a Adão, Eva a recebeu de segunda mão e o mundo se estragou — desta vez, as mulheres seriam chamadas antes.
A leitura põe as mulheres expressamente dentro do público da aliança, e em primeiro lugar. Tem também um custo: a divisão entre “princípios gerais” para elas e “detalhes” para eles é a mesma que, mais tarde, justificaria afastar as mulheres do estudo da lei. A pergunta sobre quem é o “vocês” das ordens deste capítulo é tratada no estudo de Êxodo 19:15.
Segunda: são dois níveis de autoridade. Ibn Ezra diz que “casa de Jacó” é o povo todo, os vivos e os que ainda vão nascer, e “filhos de Israel”, aqui, são os anciãos, que vão repassar a mensagem — e de fato, no versículo 7, Moisés chama os anciãos. No mesmo Midrash Rabá, Rabi Yochanan propõe algo parecido: “casa de Jacó” é o Sanhedrin, o tribunal supremo.
Terceira: são duas fases da história do mesmo povo. Benson e Gill (Joseph Benson, metodista inglês, e John Gill, batista inglês, ambos do século XVIII) leem “Jacó” como o nome da origem humilde — o homem que fugiu para Padã-Arã com um cajado — e “Israel” como o nome da grandeza recebida depois. Deus lembraria ao povo de onde ele veio e o que se tornou.
Quarta: é só paralelismo poético. Os dois nomes formam um par fixo da poesia hebraica e dizem a mesma coisa duas vezes, como “dirá” e “anunciará” (item 2). Esta é a leitura que a gramática mais apoia, e a que os comentaristas críticos preferem.
Nenhuma das quatro se exclui. O paralelismo explica a forma; as outras três dizem o que os leitores encontraram dentro dela.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Volta à cena depois de dois versículos ausente. Sobe sozinho, por iniciativa própria, e desce como portador de uma mensagem que não pode alterar. É o começo do papel que o capítulo inteiro vai lhe dar: o único que circula entre o povo embaixo e Deus em cima. Até o versículo 25, ele vai subir e descer o monte várias vezes.
Deus e o SENHOR
Os dois nomes aparecem na mesma frase: Moisés sobe “a Deus” e “o SENHOR” o chama. Não há dois personagens. Há um só, nomeado de dois modos, e as explicações para a troca estão no item 3.
O monte
Ainda sem nome próprio neste versículo, como no anterior. É o lugar de onde vem a voz. A Septuaginta o nomeia, “o monte de Deus”, o mesmo título que o Êxodo dá ao Horebe (Êxodo 3:1; 4:27; 18:5).
A casa de Jacó
No Gênesis, a expressão nomeava uma família de setenta pessoas que desceu ao Egito. Aqui ela nomeia um povo. A passagem de um sentido ao outro está descrita no estudo de Gênesis 46:27. Depois deste versículo, a expressão some do Pentateuco e reaparece com força nos profetas, sobretudo em Isaías.
Os filhos de Israel
O nome mais comum do povo no Êxodo, desde o primeiro versículo do livro. Para a Mekhilta, aqui designa os homens; para Ibn Ezra, os anciãos que repassariam a mensagem.
Os anciãos, na sombra
Não são nomeados, mas o versículo 7 mostra que foram eles os primeiros a ouvir: Moisés “chamou os anciãos do povo e expôs diante deles todas estas palavras”. A mensagem endereçada à casa de Jacó e aos filhos de Israel chega ao povo por meio deles.
O acontecimento
A primeira das subidas de Moisés no Sinai. Na leitura rabínica, acontece no segundo dia do terceiro mês, depois de um dia de descanso.
5. Pontos de Ensino
A iniciativa da subida é de Moisés. O texto narra a subida antes do chamado. Seja qual for a ordem real dos fatos — Ibn Ezra acha que o chamado veio antes —, o versículo põe em primeiro plano o homem que vai ao encontro.
“Subir a Deus” foi atenuado por quem traduziu. A Septuaginta pôs “ao monte de Deus”; Ônquelos, “diante do SENHOR”. Os tradutores antigos evitavam a impressão de que Deus estivesse num ponto do mapa ao alcance das pernas.
A mensagem tem forma fixa. “Assim você dirá” faz de Moisés um porta-voz. A Mekhilta lê no “assim” a proibição de tirar ou acrescentar, e o versículo 6 fecha o bloco com “estas são as palavras”.
Dois nomes para o povo, várias leituras. Mulheres e homens (Mekhilta, Rashi), povo e anciãos (Ibn Ezra), origem humilde e grandeza (Benson, Gill), ou simples paralelismo poético. A última explica a forma; as outras, o que a tradição viu nela.
A leitura rabínica inclui as mulheres, e em primeiro lugar. O Midrash Rabá chega a dar a razão: na primeira vez, a ordem foi dada só a Adão. A mesma leitura, porém, distribui os conteúdos de modo desigual.
O registro muda. A partir de “assim você dirá”, a fala ganha ritmo de poema. Os versículos 4 a 6 devem ser lidos como texto solene, e não como conversa.
6. Aspectos Filosóficos
“Assim você dirá.” Deus fala a Moisés, Moisés falará aos anciãos, os anciãos ao povo — e, segundo a Mekhilta, de um jeito às mulheres e de outro aos homens. Mas a mesma Mekhilta exige que nada se tire nem se acrescente. É possível repetir uma palavra sem traduzi-la? E, se toda transmissão é tradução, o que sobra do “assim”? O pensador que pôs essa pergunta no centro de tudo foi Johann Georg Hamann.
Quem foi
Hamann (1730-1788) viveu em Königsberg, na Prússia Oriental. Era funcionário modesto da alfândega, escrevia textos curtos, cheios de citações e enigmas, e ganhou dos contemporâneos o apelido de “Mago do Norte”. Em 1758, numa crise pessoal em Londres, leu a Bíblia de ponta a ponta e saiu dela convencido de que Deus é, antes de tudo, alguém que fala. O resto da obra dele é uma longa reflexão sobre o que isso significa.
Falar é traduzir
Na Aesthetica in nuce (“Estética em resumo”, 1762), Hamann escreve a frase que o resume: “falar é traduzir — de uma língua de anjos para uma língua de homens, isto é, pensamentos em palavras, coisas em nomes, imagens em sinais”. Não existe, para ele, um pensamento puro que depois se veste de palavras. O pensamento já nasce traduzido, e toda fala é passagem de um registro a outro.
Daí vem a crítica que ele fez à Crítica da razão pura, do seu vizinho e amigo Immanuel Kant, num texto curto chamado Metacrítica (1784): a razão pura não existe, porque não há razão fora da linguagem. A linguagem é, nas palavras dele, “o primeiro e o último instrumento” da razão. Querer purificar o pensamento das palavras é como querer purificar a música dos sons.
E daí vem também a leitura que ele fez da Bíblia. Deus, para Hamann, se rebaixa ao falar: aceita a gramática dos homens, as metáforas dos pastores, as repetições, os nomes duplos. Ele chamava isso de condescendência divina. A Escritura não é um texto ditado em língua celeste e depois mal traduzido; é a tradução que Deus mesmo escolheu fazer.
Aplicado a este versículo
Hamann não comentou Êxodo 19:3, mas o versículo é quase uma cena da tese dele. Há uma cadeia de traduções: de Deus a Moisés, de Moisés aos anciãos, dos anciãos ao povo. Há dois verbos, “dizer” e “anunciar”, para a mesma mensagem. Há dois nomes para o mesmo destinatário. E há a leitura rabínica que, sem conhecer filosofia nenhuma, chegou à mesma conclusão: a mesma palavra precisa ser dita de modos diferentes a ouvintes diferentes. O “assim” da Mekhilta e os dois registros de Rashi não se contradizem, na perspectiva de Hamann. A fidelidade não está em repetir os mesmos sons; está em traduzir sem trair.
O preço
A primeira objeção é de método: se toda fala é tradução e não há original a que se possa voltar, como se distingue a tradução fiel da infiel? A Mekhilta tem um critério — “estas são as palavras”, nem menos nem mais. Hamann, levado até o fim, dissolve o critério; por isso ele é lido hoje como um dos primeiros adversários do Iluminismo.
A segunda é de estilo e de substância. Hamann escrevia de propósito de modo obscuro, como se a obscuridade fosse prova de profundidade, e muitos dos seus leitores nunca souberam ao certo o que ele afirmava. O texto do Êxodo, ao contrário, insiste na clareza: a mensagem tem forma fixa e deve chegar inteira. O que se pode tirar de Hamann para este versículo é a percepção de que transmitir a palavra é sempre um ato de tradução — e que o versículo sabe disso, porque já nasce com dois nomes e dois verbos.
7. Aplicações Práticas
Ir antes de ser chamado. O texto põe Moisés subindo antes de registrar o chamado. Seja qual for a ordem exata, o gesto é de quem se põe à disposição sem esperar convocação formal. Na vida religiosa e fora dela, há encontros que só acontecem porque alguém subiu primeiro, sem garantia de que haveria alguém lá em cima.
Transmitir sem acrescentar. A Mekhilta exige que Moisés diga “assim”: nesta ordem, sem tirar nem pôr. Quem transmite uma mensagem que não é sua — um recado de família, uma decisão de outra pessoa, um texto que vai ler em público — é tentado a melhorá-la. O versículo descreve o oposto: o porta-voz que se contém.
Adaptar o tom sem trocar o conteúdo. A mesma tradição pede a Moisés que fale de um modo a uns e de outro a outros. Não muda a mensagem; muda o jeito de fazê-la chegar. Quem ensina, prega ou explica a crianças e a adultos conhece a diferença. O limite está na leitura rabínica mesma: quando o tom diferente vira conteúdo menor para um dos grupos, a adaptação deixou de ser fidelidade.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Moisés subiu ao cume do monte?
O versículo não diz até onde ele foi. Ramban acha que subiu só até a borda da área coberta pela nuvem, sem entrar nela; Ibn Ezra insiste que ele não foi “além do monte”, contra os midrashim que o levam ao céu. O cume só aparece no versículo 20, quando o SENHOR chama Moisés “ao alto do monte”. A primeira subida pode ter sido curta.
Quanto tempo Moisés ficou no monte desta vez?
O texto não informa. Na cronologia rabínica, ele sobe e desce no mesmo dia — o segundo do mês —, e no dia seguinte leva ao SENHOR a resposta do povo. É uma reconstrução a partir da data da revelação; nada no versículo mede o tempo.
Os anciãos que ouvem no versículo 7 são os “filhos de Israel” do versículo 3?
É a leitura de Ibn Ezra, e ela tem a seu favor a sequência: Deus manda “anunciar aos filhos de Israel”, e Moisés chama os anciãos. Contra ela, o versículo 8 diz que “todo o povo” respondeu, o que supõe que a mensagem chegou a todos. Os anciãos seriam o primeiro elo, não o destino final.
A Mekhilta queria dizer que as mulheres entendem menos?
O texto da Mekhilta diz que às mulheres se dão “os princípios gerais” e aos homens “os detalhes”, e o Midrash Rabá explica que cada grupo recebe “o que é capaz de entender”. Lido hoje, isso soa como hierarquia de capacidade, e há quem o leia assim. Mas o mesmo Midrash põe as mulheres em primeiro lugar e dá como uma das razões que são elas que conduzem os filhos à Torá — um papel que supõe compreensão. A leitura rabínica reflete a divisão de funções da sociedade em que nasceu, e não chega a afirmar inferioridade. Não há consenso sobre o peso de cada uma dessas coisas.
Por que o Pentateuco quase não usa “casa de Jacó”?
Só aqui e em Gênesis 46:27. Nos outros lugares, a Torá prefere “filhos de Israel” ou “Israel”. A expressão é mais frequente nos profetas, sobretudo em Isaías, e nos Salmos. A raridade é um dos argumentos da Cambridge Bible para ver nos versículos 3 a 6 um trecho de estilo próprio, solene. Se esse estilo indica outra mão ou só outro registro é discutido.
9. Conexão com Outros Textos
A casa de Jacó, de família a povo
Gênesis 46:27 — “E os filhos de José, que lhe nasceram no Egito, eram duas pessoas. Todas as pessoas da casa de Jacó que entraram no Egito eram setenta.”
A outra ocorrência da expressão no Pentateuco. Lá, setenta pessoas contadas uma a uma; aqui, um povo inteiro. A passagem de um sentido ao outro está no estudo de Gênesis 46:27.
Êxodo 1:1 — “E estes são os nomes dos filhos de Israel que entraram no Egito com Jacó, cada um com a sua família:”
Os dois nomes do versículo 3 — Jacó e os filhos de Israel — já estavam juntos na abertura do livro.
O par na poesia
Salmo 114:1 — “Quando Israel saiu do Egito, a casa de Jacó, de um povo de língua estranha,”
O mesmo par, em ordem inversa à de Êxodo 19:3, e no mesmo assunto: a saída do Egito.
Números 23:7 — “De Arã me trouxe Balaque, o rei de Moabe, dos montes do oriente: ‘Venha, amaldiçoe para mim Jacó; venha, denuncie Israel.’”
O par fixo na boca de um estrangeiro, num oráculo em verso.
Isaías 2:5 — “Casa de Jacó, venham, e andemos na luz do SENHOR.”
O versículo com que Rabi Yochanan, no Midrash Rabá do Êxodo, identifica a “casa de Jacó” com o tribunal supremo.
A subida e a Glória
Êxodo 24:16 — “A glória do SENHOR pousou sobre o monte Sinai, e a nuvem o cobriu por seis dias; no sétimo dia, ele chamou Moisés do meio da nuvem.”
O versículo em que Ramban se apoia para dizer que a Glória já estava no monte quando Moisés subiu pela primeira vez. A mesma sequência: a nuvem, a espera, o chamado.
Êxodo 3:4 — “Quando o SENHOR viu que ele se desviara para ver, Deus o chamou do meio da sarça: ‘Moisés! Moisés!’ Ele respondeu: ‘Eis-me aqui.’”
No mesmo monte, a ordem inversa: lá Deus chama primeiro; aqui Moisés sobe primeiro. E nos dois versículos os dois nomes de Deus se alternam.
Subir ao monte, em grego
A fórmula da Septuaginta, “subiu ao monte”, ecoa em Mateus 5:1 e 15:29; o que se pode e o que não se pode concluir disso está no estudo de Mateus 15:29.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés subiu a Deus, e o SENHOR o chamou do monte, dizendo: “Assim você dirá à casa de Jacó e anunciará aos filhos de Israel:
Texto hebraico
וּמֹשֶׁה עָלָה אֶל־הָאֱלֹהִים וַיִּקְרָא אֵלָיו יְהוָה מִן־הָהָר לֵאמֹר כֹּה תֹאמַר לְבֵית יַעֲקֹב וְתַגֵּיד לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל׃
Transliteração
u-Moshéh alá el-ha-Elohím va-yiqrá eláv YHWH min-ha-hár lemór: koh tomár le-veit Ya'aqóv ve-taggíd li-vnei Yisra'él.
Análise palavra por palavra
וּמֹשֶׁה עָלָה — u-Moshéh alá, “e Moisés subiu”. A ordem das palavras é o primeiro dado. A narrativa vinha encadeando verbos no começo das orações (“e partiram… e chegaram… e acamparam… e acampou”). Aqui o sujeito vem antes e o verbo, alah (raiz '-l-h, “subir”), está no perfeito do Qal (a forma simples do verbo hebraico). Essa construção interrompe a sequência: põe Moisés em contraste com o povo (“Israel acampou; Moisés, por sua vez, subiu”) ou marca uma ação que corre em paralelo, fora da linha principal. É ela que permite a Ibn Ezra ler a subida como fato à parte, e o chamado como anterior a ela.
אֶל־הָאֱלֹהִים — el-ha-Elohím, “a Deus”. A preposição de direção el e Elohim com artigo, “o Deus”. O artigo aparece com frequência quando a narrativa se refere a Deus como presença num lugar — “o monte do Deus” (Êxodo 3:1), “o anjo do Deus” (Êxodo 14:19). A Septuaginta trocou por eis tò óros toû theoû, “ao monte de Deus”, e Ônquelos, por qodam YY, “diante do SENHOR”.
וַיִּקְרָא אֵלָיו יְהוָה — va-yiqrá eláv YHWH, “e o SENHOR o chamou”. Raiz q-r-', “chamar”, na forma que encadeia a narrativa, com a preposição el e o sufixo “a ele”. A mesma construção abre o livro do Levítico: “e chamou a Moisés” (Levítico 1:1). O sujeito é o nome próprio, YHWH, que a ABC traduz por SENHOR, em maiúsculas. A Septuaginta, aqui, põe ho theós, “Deus”, e não “o Senhor”: o grego uniformizou o nome divino do versículo, apagando a alternância que o hebraico tem.
מִן־הָהָר — min-ha-hár, “do monte”. A preposição de origem min e har, “monte”, com artigo. A voz vem do monte; o texto não diz de que ponto dele.
לֵאמֹר — lemór, “dizendo”, literalmente “para dizer”. Infinitivo de 'amar com a preposição le-, a forma fixa que introduz uma fala direta, equivalente a abrir aspas. Ibn Ezra a lê em sentido mais pleno: “chamou-o para lhe dizer”.
כֹּה תֹאמַר — koh tomár, “assim dirás”, que a ABC traduz por “assim você dirá”. Koh é advérbio, “assim”, “deste modo”, e aponta para o que vem a seguir. Tomar é o imperfeito da segunda pessoa do singular de 'amar, “dizer”, usado com valor de ordem. É a mesma partícula de “assim diz o SENHOR”, a fórmula com que os mensageiros e os profetas introduzem a palavra de quem os enviou; a Mekhilta fez dela a regra de “nem tirar nem pôr”. A Septuaginta escreveu táde ereîs, “estas coisas dirás”, transformando o advérbio de modo num pronome de conteúdo: o grego lê “estas palavras”, não “deste jeito”.
לְבֵית יַעֲקֹב — le-veit Ya'aqóv, “à casa de Jacó”. Bayit, “casa”, em forma ligada, com a preposição le-, “a”, “para”. Casa, em hebraico, é ao mesmo tempo o edifício, a família e a descendência.
וְתַגֵּיד — ve-taggíd, “e anunciarás”. Hifil (a forma causativa do verbo hebraico) da raiz n-g-d, a mesma do neged, “diante”, do versículo 2: o povo acampou “diante” do monte, e Moisés vai “pôr diante” do povo a palavra. A proximidade das duas palavras, em versículos seguidos, é um dado do texto; se foi buscada, não há como saber. A análise do verbo e do seu par com o verbo “fazer voltar” está no estudo de Êxodo 19:9.
לִבְנֵי יִשְׂרָאֵל — li-vnei Yisra'él, “aos filhos de Israel”. A expressão mais comum para o povo no Êxodo. Na pausa do fim do versículo, o nome recebe o acento forte da leitura.
11. Conclusão
Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.
A primeira é que o encontro do Sinai começa com um gesto humano. O texto conta a subida antes do chamado, e por mais que os comentaristas reorganizem a ordem dos fatos, a frase dá a Moisés a iniciativa. A revelação não é aqui um raio que cai sobre alguém distraído, como foi a sarça: é a resposta a quem subiu.
A segunda é que a palavra que vem do monte já chega pensada para ser transmitida. Ela tem forma fixa (“assim”), destinatários nomeados duas vezes e dois verbos de entrega. A tradição leu nisso tanto a exigência de fidelidade literal quanto a necessidade de adaptar o tom aos ouvintes, e o versículo comporta as duas coisas.
A terceira é que os dois nomes do povo, que a poesia hebraica usa como um par, foram lidos pela tradição rabínica como dois grupos — e, nessa leitura, as mulheres entram expressamente na aliança, e entram primeiro. O texto, por si, não faz essa distinção; não a exclui.













