E disse ao povo: “Estejam prontos dentro de três dias; não se aproximem de mulher.”
1. Introdução
Moisés repassa ao povo a ordem de estar pronto e acrescenta uma regra que Deus não tinha dito: "não se aproximem de mulher". A frase pergunta, sem querer, a quem Moisés está falando, porque quem recebe a proibição de se aproximar de mulher são os homens — e esse é o ponto de partida da crítica feminista de Judith Plaskow e das respostas rabínicas que já tinham sentido o problema. O prazo também muda de forma: "para o terceiro dia" vira "dentro de três dias", e o Talmude discute se Moisés estendeu a preparação por conta própria. Do versículo saíram ainda uma regra de pureza da Mishná, a separação definitiva de Moisés e da mulher e um argumento cristão a favor do celibato.
2. Contexto Histórico e Cultural
A regra que estava por trás
A abstinência do Sinai pressupõe uma regra que o Levítico escreverá depois: "Quando um homem se deitar com uma mulher e houver emissão de sêmen, os dois se banharão em água e ficarão impuros até a tarde" (Levítico 15:18). A impureza aqui não é pecado; é um estado temporário que impede a aproximação do santuário e se desfaz com banho e espera. E é, nesse versículo, simétrica: homem e mulher ficam impuros juntos e se purificam do mesmo modo. É uma das poucas leis de pureza da Torá em que os dois estão na mesma frase, com o mesmo verbo.
O acampamento santo
Israel conhecia uma situação em que a abstinência valia por dias seguidos: a guerra. Quando Davi, fugindo de Saul, pede pão ao sacerdote de Nobe e só há pão consagrado, o sacerdote pergunta se os homens "se guardaram de mulher", e Davi responde que sim, "como sempre que saio em campanha" (1 Samuel 21:4-5). O Deuteronômio manda sair do acampamento de guerra quem teve emissão noturna, "porque o SENHOR anda no meio do seu acampamento" (Deuteronômio 23:10-14). E Urias, chamado do front, recusa ir para casa e deitar-se com a mulher enquanto a arca e o exército estão em tendas (2 Samuel 11:11) — a recusa que derruba o plano de Davi.
O Sinai empresta essa lógica e a estende. O acampamento de guerra era santo porque Deus marchava com ele; o acampamento do Sinai é santo porque Deus vai descer diante dele. A diferença é de público: no exército só havia homens, e a regra era dita a eles sem problema nenhum. No Sinai havia famílias inteiras, e a regra continuou formulada como se fosse dita a soldados.
O que faziam os vizinhos
A ideia de que a relação sexual afasta, por algum tempo, do lugar sagrado era comum no mundo antigo. Hesíodo (poeta grego do século VIII ou VII a.C.), em Os trabalhos e os dias (versos 733-734), aconselha não se expor junto ao fogo da casa, que era sagrado, sujo de sêmen. Tibulo (poeta romano do século I a.C.) manda afastar-se dos altares, numa festa do campo, "aquele a quem Vênus deu alegrias na noite passada" (Elegias II.1). Uma lei sagrada gravada em pedra no santuário de Atena em Pérgamo, provavelmente do século II a.C., fixa até os prazos: quem esteve com o próprio cônjuge pode entrar no mesmo dia, depois de se lavar; quem esteve com outra pessoa, só no dia seguinte.
O paralelo mostra que a regra do Sinai não tem nada de exótico para a época. E mostra a diferença: nos textos gregos e romanos a exigência vale para quem entra no templo num dia de festa; no Sinai ela vale para um povo inteiro, durante três dias, para um encontro que não se repete.
O versículo que virou lei de pureza
A Mishná (a primeira grande compilação da lei oral judaica, fechada por volta do ano 200) usa este versículo para resolver uma questão de pureza. No tratado Shabbat 9:3, pergunta de onde se sabe que a mulher que expele sêmen no terceiro dia depois da relação ainda está impura, e responde com o Sinai: se menos dias bastassem, Moisés não teria pedido três. O Talmude (Shabbat 86a) mostra que a questão não estava fechada. Numa tradição antiga, Rabi Elazar ben Azarias dizia que no terceiro dia ela já está pura; Rabi Ishmael, que ainda está impura; e Rabi Aquiba contava em períodos de doze horas, não em dias. Cada posição foi ligada a uma contagem diferente dos dias de separação no Sinai.
O efeito dessa leitura é que a regra do Sinai, formulada para os homens, passa a ser lida a partir do corpo das mulheres. A preocupação da lei rabínica não é com o homem que se aproxima, e sim com a mulher que precisava estar pura "para receber a Torá" — a expressão é de Rashi, que resume a Mishná no comentário ao versículo.
3. Análise Teológica do Versículo
"E disse ao povo"
Começa como todas as falas do capítulo: Moisés fala "ao povo". O leitor só descobre a quem ele está falando no fim da frase, quando vem a proibição de se aproximar de mulher. A palavra "povo" tinha parecido incluir todos; a última frase mostra que, aqui, quer dizer os homens.
A tradução da Jewish Publication Society (a editora judaica norte-americana responsável pela tradução da Bíblia hebraica mais usada nas sinagogas de língua inglesa), na edição de 2023, decidiu tornar isso visível: escreve "disse aos homens" e explica em nota que o hebraico diz "o povo", mas que, pela convenção da sociedade israelita, só o homem era tratado como agente nas relações sexuais. A nota descreve uma convenção; não diz que as mulheres estavam fora do Sinai.
Judith Plaskow (teóloga judia norte-americana, nascida em 1947) tirou do versículo uma conclusão mais dura, no livro que fundou a teologia feminista judaica, De pé outra vez no Sinai (Standing Again at Sinai, 1990). Moisés, escreve ela, "se dirige à comunidade só como homens" no exato momento em que o povo inteiro vai entrar na aliança. Ele não diz "homens e mulheres, não se aproximem uns dos outros". E ela conclui: "no momento central da história judaica, as mulheres são invisíveis". O que ela faz com isso está no item 6. Outras leitoras foram além: Athalya Brenner-Idan (biblista israelense e holandesa) vê no versículo não uma omissão, mas uma exclusão deliberada, e recusa o argumento de que o masculino gramatical "inclui" as mulheres.
O que Deus disse e o que Moisés acrescentou
Há um dado do próprio texto que a discussão costuma deixar de lado. Nos versículos 10 a 13, Deus manda santificar o povo, lavar as roupas, estar pronto e não tocar o monte. Não fala de mulheres nem de relações sexuais. A frase que põe as mulheres do lado de fora é de Moisés.
A Mekhilta de Rabi Ishmael (o comentário rabínico mais antigo ao Êxodo, compilado na terra de Israel por volta do século III) notou isso e se incomodou: "não ouvimos o Senhor dizer a ele que se separassem das mulheres". A resposta dela é que a ordem estava implícita, e dá dois caminhos para encontrá-la: a palavra "prontos" aparece na ordem de Deus (versículo 11) e na de Moisés (versículo 15), e o que vale para uma vale para a outra; e Rabi Yehudá, o Príncipe, a deduz do "hoje e amanhã" do versículo 10 — se fosse só banho, um dia bastaria, e o segundo dia só se explica pela separação dos casais. As duas respostas preservam a autoridade de Moisés. Mas o próprio fato de os rabinos precisarem delas mostra que o texto, lido de perto, põe a abstinência na boca de Moisés e não na de Deus.
Isso não desfaz a crítica de Plaskow; desloca-a. O que fica invisível no versículo 15 não é uma exclusão decretada no alto do monte, mas o modo como um mediador traduziu para a sua sociedade uma ordem que, na origem, não distinguia ninguém.
As leituras rabínicas, aliás, já tinham posto as mulheres de volta no Sinai por outros caminhos. Rashi (Salomão ben Isaque, comentarista judeu francês do século XI) explica a abstinência inteira em função delas: era preciso que "as mulheres se banhassem no terceiro dia e estivessem puras para receber a Torá". A Mekhilta, no versículo 13, estende o "homem" da proibição à mulher. E a leitura de "casa de Jacó" como as mulheres, chamadas antes dos homens, está no estudo de Êxodo 19:3. Plaskow conhecia esses textos, e a resposta dela é que eles provam o problema: os rabinos precisaram reescrever as mulheres para dentro de uma cena que, contada ao pé da letra, as deixava de fora.
"Estejam prontos dentro de três dias"
Deus tinha dito "estejam prontos para o terceiro dia" (Êxodo 19:11). Moisés diz "dentro de três dias". É a mesma coisa?
Primeira leitura: não, e Moisés acrescentou um dia. É a de Rabi Yossi, no Talmude (Shabbat 87a). Deus falou com Moisés de manhã e disse "hoje e amanhã". Moisés raciocinou que "hoje" deveria valer como "amanhã", isto é, um dia inteiro com a noite anterior; como a noite daquele dia já tinha passado, o "hoje" não contava inteiro, e ele mandou separar-se três dias completos. O Talmude põe o caso numa lista: Moisés fez três coisas por conta própria e Deus concordou com as três — acrescentou um dia, separou-se da mulher para sempre e quebrou as tábuas. A prova de que Deus concordou com o dia a mais seria que a Presença só desceu na manhã do sábado, como Moisés tinha calculado. A data da revelação passa a ser o sétimo dia do mês, e não o sexto.
Segunda leitura: sim, é a mesma coisa, e Moisés não acrescentou nada. É a dos outros sábios do Talmude e a que Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) defende como "o sentido simples". Ele traz "duas testemunhas fiéis", ambas do Gênesis: José prende os irmãos "por três dias" e fala com eles "ao terceiro dia" (Gênesis 42:17-18); o copeiro ouve que "dentro de três dias" Faraó o restaurará, e "ao terceiro dia" é restaurado (Gênesis 40:19-20). No hebraico bíblico, "três dias" e "o terceiro dia" designam o mesmo prazo. O Chizkuni (Ezequias ben Manoá, comentarista francês do século XIII) adota a mesma solução.
A ABC traduz "dentro de três dias", a mesma fórmula de Gênesis 40:19: a palavra de Moisés fica diferente da de Deus, como no hebraico, e a semelhança apontada por Ibn Ezra continua visível.
"não se aproximem de mulher"
"Aproximar-se" é o modo bíblico, discreto, de falar de relação sexual: Abimeleque "não tinha se aproximado" de Sara (Gênesis 20:4), e Isaías "se aproximou da profetisa", que concebeu (Isaías 8:3). O versículo proíbe as relações, não a convivência. Ninguém é mandado sair de casa.
Por que a proibição? Os leitores deram três respostas.
Primeira: pureza. A relação torna os dois impuros até a tarde (item 2), e a Mishná e Rashi calculam os três dias para que ninguém chegue impuro ao terceiro. É a leitura que explica o número.
Segunda: atenção. Matthew Poole (pastor puritano inglês do século XVII) dá a pureza como primeira razão e acrescenta outra: que a mente se afastasse dos prazeres dos sentidos para se ocupar só da obra santa.
Terceira: superioridade da continência. Jerônimo (o tradutor da Vulgata, morto em 420), na polêmica contra Joviniano, um monge que defendia que o casamento valia tanto quanto a virgindade, usou este versículo (Contra Joviniano I.20, de 393): se o povo inteiro precisou afastar-se das mulheres para ouvir a voz de Deus no Sinai, a continência é o estado mais próximo de Deus. Poole, doze séculos depois, recusa expressamente essa conclusão: a abstinência foi ordenada por três dias, não para sempre, e não serve de base para o celibato perpétuo do clero.
A objeção de Poole tem apoio no próprio Pentateuco. Quando a revelação termina, Deus manda dizer ao povo: "voltem às suas tendas" (Deuteronômio 5:30). A abstinência tinha prazo, como a proibição de tocar o monte. A única exceção que a tradição judaica admite é a de Moisés, a quem o versículo seguinte do Deuteronômio diz "você, fique aqui comigo" (Deuteronômio 5:31) — e é dessa exceção que nasce a separação definitiva que o Talmude lhe atribui (item 4).
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Os homens
São os destinatários diretos da proibição. O texto não os distingue do "povo", e é essa coincidência que o item 3 discute.
As mulheres
Estão no acampamento, lavaram as roupas e vão estar ao pé do monte no versículo 17, mas neste versículo só aparecem como objeto: "mulher", no singular, sem artigo. Nenhuma delas fala no capítulo. A tradição rabínica, como se viu, as pôs de volta na cena; o texto, sozinho, não lhes dá voz.
Moisés e Zípora
O versículo teve uma consequência na vida do próprio Moisés, segundo a tradição. O Talmude (Shabbat 87a; também Yevamot 62a) conta que Moisés raciocinou assim: se Israel, com quem a Presença falou uma vez só e com hora marcada, teve de se separar das mulheres, eu, com quem ela fala a qualquer hora e sem aviso, devo separar-me sempre. E separou-se da mulher. Deus teria concordado ao dizer ao povo "voltem às suas tendas" e a Moisés "você, fique aqui comigo".
Quem viveu a consequência foi Zípora, a mulher midianita de Moisés, que acabara de ser trazida de volta por Jetro (Êxodo 18:2-6). O Sifrei (comentário rabínico ao livro de Números, compilado na terra de Israel por volta do século III), na seção 99, é o único texto antigo que lhe dá uma fala sobre o assunto. Miriã, irmã de Moisés, nota que Zípora já não se enfeita como as outras mulheres casadas e pergunta por quê. Zípora responde: "o seu irmão não se importa com isso". Miriã conta a Arão, e os dois falam contra Moisés — é assim que o Sifrei explica a queixa de Números 12:1 "por causa da mulher cuxita". Miriã, diz o Sifrei, falou para que houvesse mais filhos em Israel, e mesmo assim foi castigada.
A cena é inteiramente do midrash; o Êxodo e os Números não dizem nada disso. Mas é a única vez, em toda a cadeia de leituras deste versículo, em que uma mulher aparece falando da abstinência na primeira pessoa.
Os mestres da discussão
Rabi Yossi ben Halafta (século II) sustenta que Moisés acrescentou um dia; os "sábios", que não. Rabi Elazar ben Azarias, Rabi Ishmael e Rabi Aquiba discutem a lei de pureza tirada do versículo. Jerônimo (c. 347-420) traduziu a Bíblia para o latim em Belém; Matthew Poole (1624-1679) foi pastor presbiteriano em Londres.
Judith Plaskow
Nascida em 1947, ensinou estudos religiosos no Manhattan College, em Nova York, por mais de três décadas e ajudou a fundar, em 1985, o primeiro periódico acadêmico de estudos feministas da religião. O livro de 1990 nasceu de um ensaio de 1986 com o mesmo título.
5. Pontos de Ensino
A abstinência do Sinai tinha prazo. Três dias, e depois "voltem às suas tendas". O texto não faz da renúncia um estado superior; faz dela uma preparação para um encontro marcado. A leitura que a transformou em ideal permanente é posterior e foi contestada dentro da própria tradição cristã.
O prazo de Deus e o de Moisés podem não coincidir. Se Rabi Yossi tem razão, Moisés estendeu o tempo por cálculo próprio e Deus o acompanhou. A tradição não viu nisso insubordinação, mas iniciativa — e guardou o caso numa lista de decisões de Moisés que Deus confirmou.
A Torá não esconde a costura. O texto põe lado a lado a ordem de Deus e a fala de Moisés, e deixa ver a diferença entre elas. Quem procura nele uma voz única encontra duas, e foi dessa diferença que nasceram as leituras mais fecundas do versículo.
6. Aspectos Filosóficos
Uma tradição pode corrigir o próprio texto fundador sem abandoná-lo?
A pergunta que este versículo deixa não é só sobre uma frase. Se no momento em que Israel recebe a Torá as mulheres não são interpeladas, o que isso diz da Torá inteira? E o que pode fazer quem pertence a essa tradição e não aceita a ausência?
Judith Plaskow respondeu a essas perguntas em De pé outra vez no Sinai (1990). O ponto de partida dela é que o versículo 15 não é um acidente. A Torá, como texto, foi escrita a partir da experiência dos homens: são eles que falam, são eles os destinatários das leis no masculino, é a eles que as genealogias seguem. "Não foi a experiência delas que interessou ao cronista", escreve, "nem a que formou e moldou o texto." O versículo do Sinai apenas mostra isso no lugar em que mais dói.
Plaskow recusa duas saídas. A primeira é abandonar a tradição, como fizeram outras teólogas feministas do seu tempo, que concluíram que uma religião com esse texto no centro não tinha conserto. A segunda é a apologética: dizer que o masculino "inclui" as mulheres, ou que os rabinos já resolveram o problema. Para ela, os midrashim (as interpretações rabínicas que recontam e completam as cenas bíblicas) que põem as mulheres no Sinai são valiosos justamente porque mostram que o problema foi sentido — mas não o desfazem.
A saída que ela propõe passa pela memória. "Não podemos redefinir o judaísmo no presente sem redefinir o nosso passado, porque o nosso presente nasce da história." O trabalho, então, é recuperar a história das mulheres judias — o que se pode reconstruir dos textos, da arqueologia, das práticas — e escrever novos midrashim, que contem o Sinai do ponto de vista de quem estava lá e não foi chamada. O método vem de Elisabeth Schüssler Fiorenza (teóloga católica de formação alemã, radicada nos Estados Unidos), que, em Em memória dela (1983), chamou de "hermenêutica da memória" o esforço de reconstruir, nas margens dos textos cristãos, a presença das mulheres que eles silenciaram.
O título do livro de Plaskow é um argumento. A tradição rabínica ensina que todas as gerações de Israel estavam no Sinai, também as que ainda não tinham nascido — leitura que o estudo de Êxodo 19:9 expõe. Se cada judeu esteve no Sinai, cada judia também esteve. "Estar de pé outra vez no Sinai" é reivindicar esse lugar e, com ele, o direito de ouvir de novo o que foi dito ali — inclusive o que não foi dito.
A proposta tem um custo filosófico, e as críticas o apontaram. Se a Torá escrita é parcial e precisa ser completada por novas memórias, o que distingue a revelação da interpretação? Tamar Ross (filósofa israelense, ortodoxa) aceitou boa parte do diagnóstico de Plaskow e propôs outra resposta em Expandindo o palácio da Torá (2004): a revelação seria cumulativa, desdobrando-se na história da sua leitura, de modo que a inclusão das mulheres não corrige a Torá de fora, mas realiza algo que ela já continha. Do outro lado, leitores tradicionais lembram que a própria Torá oral rabínica sempre fez esse trabalho — e que a diferença entre um midrash antigo e um midrash feminista está menos no método do que na autoridade de quem o escreve.
O versículo dá argumentos aos dois lados. A Plaskow, porque a exclusão aparece na voz humana que repassou a ordem, e o que um mediador estreitou outro pode alargar. Aos críticos, porque a tradição percebeu a lacuna desde a Mekhilta e respondeu a ela por dentro. O texto não decide a questão; mostra que ela já estava aberta no próprio Sinai.
7. Aplicações Práticas
O versículo tem duas aplicações com relação real com ele.
A primeira é para quem repassa ordens. Moisés recebeu uma instrução que valia para todos e a transmitiu numa forma que só se dirigia a uma parte. Isso acontece toda vez que alguém traduz uma regra geral para o grupo que tem diante de si: um aviso "a todos os funcionários" escrito como se todos fossem de um setor, uma orientação "aos pais" que só fala com as mães. Antes de repassar uma instrução, vale perguntar se a forma que eu dei a ela ainda alcança todos os que a ordem original alcançava.
A segunda é a renúncia com prazo. O Sinai pede que se deixe de lado, por três dias, uma parte boa e legítima da vida, para que a atenção esteja inteira no que vem. E, terminado o encontro, manda voltar às tendas. Há momentos em que pôr algo bom de lado por um tempo é o modo de estar presente para uma coisa maior; o versículo não transforma isso em regra permanente nem em mérito.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
As mulheres também deviam se abster?
Na prática, sim: uma proibição de relações dirigida aos homens alcança as mulheres casadas com eles. E a lei de pureza que está por trás (Levítico 15:18) torna impuros os dois. O que o versículo não faz é dirigir a palavra a elas. A pergunta não é sobre o que as mulheres fizeram nos três dias, mas sobre quem foi interpelado.
Moisés tinha autoridade para acrescentar uma regra?
O texto não se coloca a pergunta; apresenta a fala de Moisés como cumprimento da ordem. A Mekhilta, ao contrário, se coloca, e responde que a abstinência estava implícita no que Deus disse. O Talmude, na leitura de Rabi Yossi, vai mais longe e aceita que Moisés decidiu por si — e que Deus concordou depois. As duas soluções supõem que o mediador interpreta, e divergem sobre quanto.
E as mulheres que não eram casadas?
O versículo pressupõe casais. Moças, viúvas e escravas não aparecem em nenhuma das leituras antigas. O silêncio mostra o quanto a regra foi pensada a partir da casa, do homem chefe de família e da mulher dele, e não a partir de cada pessoa do acampamento.
O versículo apoia o celibato religioso?
Foi usado para isso, por Jerônimo, e recusado para isso, por Poole e pela tradição reformada. O texto, por si, prescreve uma abstinência de três dias, ligada a um encontro com hora marcada, terminada por uma ordem de voltar às tendas. Quem quiser tirar dele um estado de vida precisa de outros textos.
Plaskow pede que se reescreva a Bíblia?
Não. Ela não propõe mudar o texto de Êxodo 19:15; propõe ler ao lado dele outras memórias e escrever novas interpretações, como os rabinos fizeram. O que ela contesta é que o texto escrito, sozinho, seja a medida completa do que aconteceu no Sinai.
9. Conexão com Outros Textos
A ordem de Deus que Moisés repassa
Êxodo 19:11 — "e estejam prontos para o terceiro dia, porque no terceiro dia o SENHOR descerá à vista de todo o povo sobre o monte Sinai."
"Para o terceiro dia" na boca de Deus; "dentro de três dias" na de Moisés. E nenhuma palavra sobre mulheres.
As duas testemunhas de Ibn Ezra
Gênesis 42:17-18 — "E os manteve presos por três dias. Ao terceiro dia, José lhes disse: 'Façam isto e viverão, pois eu temo a Deus.'"
Gênesis 40:19-20 — "Dentro de três dias Faraó levantará a sua cabeça de sobre você e o pendurará numa árvore, e as aves comerão a sua carne. Ao terceiro dia, que era o aniversário de Faraó, ele deu um banquete a todos os seus servos…"
Os dois pares com que Ibn Ezra nega que Moisés tenha acrescentado um dia.
A lei de pureza por trás da regra
Levítico 15:18 — "Quando um homem se deitar com uma mulher e houver emissão de sêmen, os dois se banharão em água e ficarão impuros até a tarde."
"Os dois": a lei põe homem e mulher na mesma frase, coisa que Êxodo 19:15 não faz.
O acampamento de guerra
1 Samuel 21:5 — "Davi respondeu ao sacerdote: 'Na verdade, as mulheres nos foram vedadas, como antes, quando eu saía em campanha; e os corpos dos jovens são santos, mesmo numa viagem comum; quanto mais hoje.'"
A abstinência do exército em campanha, que o Sinai aplica a um povo inteiro (o caso de Urias, em 2 Samuel 11:11, foi lembrado no item 2).
O fim da abstinência
Deuteronômio 5:30-31 — "Vá e diga-lhes: 'Voltem às suas tendas.' Mas você, fique aqui comigo, e eu lhe direi todos os mandamentos, os estatutos e os juízos que você lhes ensinará."
A ordem de volta para casa e a exceção de Moisés, em dois versículos seguidos. O Talmude leu os dois juntos.
A queixa de Miriã
Números 12:1 — "Miriã e Arão falaram contra Moisés por causa da mulher cuxita com quem ele tinha se casado; pois ele tinha se casado com uma mulher cuxita."
O versículo em que o Sifrei pendura a fala de Zípora: o motivo da queixa seria a separação de Moisés.
As mulheres na aliança de Moabe
Deuteronômio 29:10-11 — "Hoje vocês estão todos de pé diante do SENHOR, o seu Deus: os chefes das suas tribos, os seus anciãos, os seus oficiais, todos os homens de Israel, as suas crianças, as suas mulheres e o estrangeiro que está no meio do seu acampamento, desde o que racha a lenha até o que tira a água."
Quarenta anos depois, quando a aliança é renovada nas planícies de Moabe, o texto nomeia as mulheres entre os que estão de pé. É o contraponto que a própria Torá oferece a Êxodo 19:15.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
E disse ao povo: “Estejam prontos dentro de três dias; não se aproximem de mulher.”
Texto hebraico
וַיֹּאמֶר אֶל־הָעָם הֱיוּ נְכֹנִים לִשְׁלֹשֶׁת יָמִים אַל־תִּגְּשׁוּ אֶל־אִשָּׁה׃
Transliteração
va-yomer el-ha-am: heyu nekhonim li-shloshet yamim; al-tiggeshu el-ishah.
Análise palavra por palavra
וַיֹּאמֶר — va-yomer, "e disse". O verbo amar, "dizer", no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa do masculino singular, com a partícula que encadeia a narrativa. O sujeito, Moisés, vem do versículo anterior.
אֶל־הָעָם — el-ha-am, "ao povo". Am é o termo comum para o povo como conjunto. Gramaticalmente é masculino singular, mas inclui, no uso bíblico, homens, mulheres e crianças (Deuteronômio 31:12 enumera os três ao falar do "povo" reunido). A palavra, sozinha, não exclui ninguém; é a frase final que restringe o alcance.
הֱיוּ — heyu, "estejam". Imperativo plural do verbo hayah, "ser, estar". O masculino plural é a forma gramatical normal para um grupo misto em hebraico; por si, não indica que só homens são interpelados.
נְכֹנִים — nekhonim, "prontos". O mesmo particípio que Deus usou no versículo 11, e que o estudo daquele versículo analisa. Moisés repete a palavra exata, e é nessa repetição que a Mekhilta apoia a ligação entre as duas ordens.
לִשְׁלֹשֶׁת יָמִים — li-shloshet yamim, "dentro de três dias". A preposição le ("para", "em vista de", "ao fim de") com o numeral "três" na forma que se liga ao substantivo seguinte, yamim, "dias". No versículo 11, Deus disse la-yom ha-shelishi, "para o terceiro dia" — mesma preposição, outro objeto: um ordinal com artigo em vez de um número de dias. A preposição le com uma expressão de tempo pode indicar o ponto final de um prazo ("ao fim de três dias", como lê Rashi seguindo Rabi Yossi) ou o prazo em si ("por três dias"); a gramática permite as duas leituras, e é desse intervalo que nasce a discussão do Talmude.
אַל־תִּגְּשׁוּ — al-tiggeshu, "não se aproximem". A negação al com o futuro: é a proibição de caso concreto, para agora, diferente da negação lo das proibições permanentes da lei ("não matarás"). A escolha da partícula confirma que a regra tem prazo. O verbo é nagash, "aproximar-se, chegar perto", no Qal, segunda pessoa do masculino plural. É o verbo de Judá que "se aproxima" de José (Gênesis 44:18) e de Moisés que "se aproximou da escuridão espessa onde Deus estava" (Êxodo 20:21). Para a relação sexual, o hebraico bíblico usa com mais frequência outro verbo de aproximação, qarav (Gênesis 20:4; Levítico 18:6; Isaías 8:3); nagash com esse sentido é raro, e o contexto é o que o fixa aqui.
Há uma ironia no verbo: em Êxodo 20:21, ele descreve o movimento de Moisés em direção a Deus. Aqui proíbe o movimento do homem em direção à mulher, para que o povo possa se aproximar de Deus. O mesmo verbo marca as duas aproximações que o capítulo põe em tensão.
אֶל־אִשָּׁה — el-ishah, "de mulher". A preposição el, "a, em direção a", com ishah, "mulher" ou "esposa" — o hebraico usa a mesma palavra para as duas coisas. Está sem artigo e no singular: não "das mulheres", nem "das suas mulheres", mas "de mulher", qualquer uma. A forma genérica reforça que a frase fala a quem se aproxima, e não a quem é aproximada.
11. Conclusão
O que se conclui do versículo é, primeiro, que no Sinai a palavra de Deus chegou ao povo por uma voz humana que a adaptou. Deus mandou estar pronto; Moisés disse como, e o "como" dele tem a forma da sociedade de onde ele vinha: um prazo que talvez tenha estendido e uma regra dirigida aos homens. O texto não esconde a diferença entre as duas falas, e quem lê de perto pode vê-la.
Conclui-se também que a crítica de Plaskow e a leitura rabínica não se anulam. É verdade, como ela diz, que a frase interpela só os homens no momento em que a aliança é feita com todos. É verdade também que a lei judaica, desde a Mishná, leu a regra a partir das mulheres, e que a Torá, quando renova a aliança em Moabe, as nomeia entre os que estão de pé. O versículo é o lugar em que as duas coisas se encontram, e nenhuma das duas o esgota.
E conclui-se, por fim, que a renúncia pedida tinha medida. Três dias, um encontro, e depois a volta às tendas. A tradição que fez dela um ideal de vida, e a que fez dela a separação permanente de Moisés, partiram deste versículo, mas foram além dele.













