O povo ficou de longe, e Moisés se aproximou da escuridão espessa onde Deus estava.
1. Introdução
O versículo fecha a cena com duas pessoas indo em direções opostas: o povo fica de longe, e Moisés se aproxima da escuridão espessa "onde Deus estava". É a frase mais ousada do trecho, porque dá a Deus um endereço, e o endereço é um lugar onde não se vê nada. Os leitores discutiram se Moisés só se aproximou ou se entrou, o que o levou até ali, e o que significa dizer que Deus está na escuridão. A resposta mais radical a essa última pergunta veio da filosofia medieval, para a qual o que se pode saber de Deus é sobretudo o que ele não é.
2. Contexto Histórico e Cultural
O grego que pôs Moisés dentro da treva
O hebraico diz que Moisés "se aproximou" da escuridão. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) diz outra coisa: Mōysēs de eisēlthen eis ton gnophon, "Moisés entrou na treva, onde estava Deus". Onde o original deixa Moisés na beira, o grego o põe lá dentro. A palavra grega para a escuridão, gnophos, é a mesma que a Septuaginta usou para a praga das trevas no Egito (Êxodo 10:22).
A mudança teve uma descendência enorme. Os leitores cristãos de língua grega, que liam o Êxodo nessa tradução, fizeram da entrada de Moisés na treva o modelo da subida da alma a Deus: quanto mais perto se chega, mais escuro fica, porque Deus excede tudo o que se pode ver e entender. Essa linha da teologia mística, que tem em Gregório de Nissa e no autor conhecido como Pseudo-Dionísio os seus nomes mais influentes, foi apresentada no estudo de Êxodo 16:10. O que interessa aqui é a origem textual: toda essa tradição repousa sobre um verbo que não está no hebraico. No texto massorético, Moisés não entra; ele se aproxima.
A arquitetura da escuridão
A ideia de que a divindade mora no escuro não era estranha ao mundo antigo, e estava inscrita na arquitetura. Nos grandes templos do Egito, o visitante passava de um pátio aberto ao sol para salas com colunas cada vez mais fechadas, e daí para a câmara do santuário, pequena e sem luz, onde ficava a imagem do deus. O piso subia, o teto descia e a luz diminuía a cada porta. Só o sacerdote encarregado entrava na última sala.
Israel construiu o seu templo com a mesma lógica de luz, ainda que sem imagem. O santuário de Salomão tinha janelas na sala maior (1 Reis 6:4), mas a sala do fundo, o Santo dos Santos, era um cubo fechado, sem abertura. E, na dedicação do templo, quando a nuvem enche a casa, Salomão diz uma frase que ecoa este versículo: "O SENHOR disse que habitaria na escuridão espessa" (1 Reis 8:12), com a mesma palavra hebraica do Sinai. O lugar mais santo de Israel era, de propósito, o lugar mais escuro. O Sinai é a primeira vez que essa escuridão aparece como morada; o templo vai fixá-la em pedra.
Os três véus da Mekhilta
A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III) desenha o lugar como uma sequência de camadas, a partir de Deuteronômio 4:11, que lembra o monte "com trevas, nuvem e escuridão espessa". As três palavras seriam três divisórias concêntricas: por fora, as trevas; depois, a nuvem; no centro, a escuridão espessa. Moisés, diz a Mekhilta, entrou para dentro das três. É uma planta de santuário desenhada sobre o monte, como as salas do templo, e Rashi a repete. Nessa leitura, a escuridão não é ausência de forma: é a câmara mais interna.
3. Análise Teológica do Versículo
"O povo ficou de longe"
A frase repete quase palavra por palavra o fim de Êxodo 20:18. Por que dizer de novo? Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII) responde: para mostrar que Moisés fez o contrário. A repetição existe para servir de fundo ao contraste.
Há uma segunda leitura, que dá à repetição um peso maior. Entre os dois "de longe" estão o pedido do povo e o "não temam" de Moisés. Se o povo ficou de longe depois de ouvir Moisés, a tranquilização não teve efeito. É o que Nachmânides (Moisés ben Nachman, chamado Ramban, rabino catalão do século XIII) lê: "apesar de todas as suas palavras, não quiseram se aproximar do limite". O povo ouviu que não precisava temer e, mesmo assim, não se moveu. O texto não o censura; registra.
"e Moisés se aproximou"
A frase em hebraico põe o nome de Moisés antes do verbo, como se dissesse "quanto a Moisés, ele se aproximou". É a construção do contraste e da simultaneidade: enquanto o povo ficava, Moisés ia. As duas ações não vêm uma depois da outra; acontecem ao mesmo tempo, em direções opostas.
O que levou Moisés até lá? O texto não diz, e as respostas são três.
Primeira leitura: a humildade. É a da Mekhilta, que liga a cena a Números 12:3, "Moisés era um homem muito humilde, mais do que todos os homens sobre a terra". Foi a humildade, dizem os mestres, que o aproximou da escuridão, e citam Isaías 57:15: Deus, que mora no alto, mora também "com o abatido e humilde de espírito". E concluem o oposto: o soberbo afasta a presença de Deus da terra. Nessa leitura, o caminho para o lugar mais alto passa pelo que é mais baixo.
Segunda leitura: Moisés foi levado. Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Benson (Joseph Benson, comentarista metodista inglês do século XIX) leem o verbo como passivo: Moisés "foi feito chegar perto", não foi por conta própria. A leitura protege Moisés da acusação de ousadia; mas a gramática não a sustenta (item 10).
Terceira leitura: Moisés foi chamado e obedeceu. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) entendem que Moisés subiu para receber as leis que vêm a seguir, como já tinha sido anunciado em Êxodo 19:24. Nessa leitura, não há heroísmo nem humildade especial: há uma tarefa.
Aproximou-se até onde? Nachmânides insiste no verbo: o texto diz que Moisés "se aproximou", e não que "entrou", como dirá em Êxodo 24:18. Moisés ficou na beira da escuridão. O Targum que leva o nome de Jônatas (tradução aramaica com acréscimos, de redação tardia) escreve que ele chegou "ao alto da escuridão", e a Mekhilta o faz passar pelas três camadas (item 2). A pergunta divide os leitores até hoje.
"da escuridão espessa"
A palavra é rara e quase sempre poética. Não é a escuridão da noite; é a nuvem negra e densa das tempestades e da aparição de Deus. A relação dela com a "espessura da nuvem" anunciada em Êxodo 19:9 está desenvolvida no estudo daquele versículo.
Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo judeu nascido em Córdova, 1138-1204) dá à escuridão uma leitura que inverte o quadro. No Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 9), ele escreve que a escuridão não está em volta de Deus, que é incorpóreo e em quem não há trevas; está em volta de nós. O que impede o ser humano de compreender Deus é a matéria do próprio corpo, "uma divisória e um véu". Por isso os profetas dizem que Deus está "em nuvens e escuridão": a imagem descreve o limite de quem olha, e não o lugar de quem é olhado. A revelação no Sinai aconteceu numa nuvem espessa justamente para ensinar isso. E Maimônides acrescenta um dado curioso: havia entre os judeus uma tradição de que o dia do Sinai foi "nublado, com névoa e um pouco de chuva".
"onde Deus estava"
A frase dá um lugar a Deus, e isso incomodou os tradutores. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) não escreve "onde Deus estava", e sim "onde estava a glória de Deus". A troca evita dizer que Deus ocupa um ponto do espaço.
Mas o texto hebraico diz, e a ousadia tem uma consequência que os filósofos levaram a sério. Se o lugar onde Deus está é um lugar onde não se vê nada, então a aproximação de Deus não aumenta o que se vê; diminui. Maimônides construiu sobre isso a sua doutrina dos atributos negativos (Guia dos Perplexos, parte I, capítulos 58 e 59). Nada de positivo se pode dizer com propriedade sobre Deus; o que se pode é negar: dizer que ele não é corpo, não é afetado, não é múltiplo. Cada negação demonstrada, escreve ele, aproxima mais do conhecimento de Deus do que qualquer afirmação, e quem acumula afirmações "segue a imaginação e se afasta". A essa forma de pensar se dá o nome de teologia negativa.
Lido assim, o versículo encena a doutrina: o povo, que quer ver e ouvir, fica longe; Moisés, que vai até o lugar onde não se vê, fica perto. É leitura de filósofo, e não de Moisés: o Êxodo não faz teoria sobre o conhecimento de Deus. E o próprio Êxodo complica a imagem, porque poucos capítulos depois os anciãos "viram o Deus de Israel" e comeram e beberam (Êxodo 24:10-11). A escuridão do versículo 21 não é a última palavra do livro sobre ver a Deus; é a de este momento.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
O povo
Parado no mesmo lugar do versículo 18, mesmo depois de ouvir Moisés dizer "não temam". O verbo agora está no singular: o povo como um bloco imóvel.
Moisés
O único que se move em direção a Deus. Sozinho: Arão, que em Êxodo 19:24 recebera ordem de subir com ele, não é mencionado. O que Moisés ouvirá na escuridão é o bloco de leis que começa no versículo seguinte.
Deus
Nomeado como ha-Elohim, "o Deus", e localizado: "onde Deus estava". É a única vez no trecho em que Deus tem um lugar definido, e o lugar é a escuridão.
A escuridão espessa
A nuvem densa que cobria o alto do monte. Em Deuteronômio 4:11, o monte arde "com trevas, nuvem e escuridão espessa"; em Deuteronômio 5:22, Deus fala "do meio do fogo, da nuvem e da escuridão espessa".
O momento
Na ordem do texto, depois das Dez Palavras e da conversa entre o povo e Moisés, e antes do Código da Aliança. Na reconstrução de Nachmânides, antes das Dez Palavras: Moisés se aproxima da escuridão e só então Deus fala (ver o estudo de Êxodo 20:18).
5. Pontos de Ensino
1. O mesmo lugar produz dois movimentos. Diante do mesmo monte, o povo fica e Moisés vai. O versículo não explica a diferença; põe uma ao lado da outra.
2. Deus está onde não se vê. O texto localiza Deus numa escuridão espessa. A aproximação de Deus, aqui, não é aproximação da luz.
3. Aproximar-se não é entrar. O hebraico diz que Moisés chegou perto; a entrada fica para Êxodo 24:18. Há graus de proximidade, e o versículo marca um deles.
4. A tranquilização não mudou o povo. Depois do "não temam", o povo continua onde estava. O texto não diz que Moisés insistiu, nem que Deus reprovou.
5. A escuridão é o lugar da lei. O que Moisés ouve ali é o bloco de leis do capítulo 21 em diante. A legislação de Israel, no relato, sai de um lugar onde nada se vê.
6. Aspectos Filosóficos
Longe e perto ao mesmo tempo
O versículo tem duas distâncias: o povo "de longe" e Moisés que "se aproximou". A leitura comum as opõe — uns longe, outro perto. Mas a escuridão onde Moisés chega é um lugar onde ele continua sem ver nada. Estar perto de Deus, ali, se parece muito com estar longe. Uma escritora medieval deu a esse paradoxo um nome.
Marguerite Porete
Marguerite Porete era uma beguina — uma das mulheres leigas que, nos séculos XII a XIV, viviam em comunidade ou sozinhas uma vida religiosa sem fazer votos de freira — da região de Hainaut, entre a França e a atual Bélgica. Por volta de 1300, escreveu em francês antigo O espelho das almas simples, um diálogo entre personagens como o Amor, a Razão e a Alma. O livro foi condenado e queimado em público pelo bispo de Cambrai. Ela continuou a fazê-lo circular. Presa pela Inquisição em Paris, recusou-se a responder às perguntas durante um ano e meio e foi queimada viva na praça de Grève, em 1º de junho de 1310. O livro, porém, sobreviveu: circulou por séculos sem nome de autor, em latim, italiano e inglês, lido inclusive em mosteiros, até que em 1946 a estudiosa italiana Romana Guarnieri identificou a autora.
O tema do Espelho é o caminho da alma até um estado que Porete chama de aniquilação. A alma passa por sete estados. No começo, ela obedece a mandamentos, faz boas obras, busca virtudes, tudo sob o comando da Razão. Mais adiante, descobre que tudo isso ainda é dela — a vontade dela, o mérito dela, o conhecimento dela —, e que é justamente isso que a separa de Deus. A alma aniquilada, diz Porete, "nada sabe, nada quer e nada tem". Não por desprezo, mas porque deixou de pôr a si mesma entre ela e Deus.
É nesse percurso que aparece o nome de que este versículo precisa. Porete chama Deus de Loingprès, o "Longe-Perto". Num dos estados mais altos, a alma é tocada por uma abertura breve, como um clarão, que vem de Deus e se fecha logo; quem a provoca é esse Longe-Perto, perto o bastante para tocar, longe o bastante para não ser possuído. Para Porete, a proximidade verdadeira de Deus inclui a distância — e quem quer eliminar a distância, agarrando-se ao que sente ou entende, se afasta.
O que o Longe-Perto ilumina no versículo
Com o nome de Porete, as duas metades do versículo deixam de ser simples oposição. O povo fica longe porque quer manter o que tem: a vida, a capacidade de ver, a segurança. Moisés se aproxima de um lugar onde não terá nada disso — nem visão, nem controle, nem garantia —, e é ali que Deus está. A proximidade a que ele chega é feita de escuridão, isto é, de distância mantida. E a Mekhilta, ao dizer que foi a humildade que levou Moisés até lá, fala uma língua muito parecida com a de Porete: chega perto quem deixa de ocupar o centro.
Onde a leitura para
Porete não escreve sobre o Êxodo, e seria abusivo fazer de Moisés uma "alma aniquilada": o Moisés do texto discute com Deus, argumenta, recusa, intercede, tem vontade forte. A aproximação dele leva a leis muito concretas, e não a um estado de alma. E a condenação de Porete lembra o outro lado: as autoridades viram no seu livro a ideia perigosa de que a alma, num certo ponto, já não precisaria da Igreja nem das virtudes — e o Êxodo, ao contrário, faz da escuridão o lugar de onde sai a lei. O que o Espelho oferece ao versículo é uma palavra para o paradoxo, e não uma chave para o personagem.
7. Aplicações Práticas
Ir aonde não se vê. O versículo descreve alguém que avança em direção a uma situação em que não enxerga nada, enquanto todos ficam onde podem ver. Há momentos da vida assim: aceitar um trabalho cujo resultado não se pode prever, cuidar de alguém numa doença de desfecho incerto, entrar numa conversa difícil sem saber como vai terminar. O texto não promete que a escuridão se dissipa; diz que Deus estava nela. Para quem crê, isso muda o sentido do avanço sem tirar a escuridão.
Não exigir de todos a mesma proximidade. O povo fica longe e não é repreendido; Moisés vai perto e não é elogiado. O texto aceita que, diante da mesma experiência, pessoas diferentes fiquem em lugares diferentes. Em comunidades religiosas, isso costuma ser esquecido: a medida de um vira cobrança sobre os outros.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
O que Moisés viu dentro da escuridão?
Nada que o texto registre. O que vem a seguir é só o que ele ouviu: "Então o SENHOR disse a Moisés…" (Êxodo 20:22). A cena é inteiramente auditiva, e isso combina com a escuridão.
Por que Arão não foi junto?
Em Êxodo 19:24, Deus dissera que Moisés subiria "e Arão com você". Aqui Moisés vai sozinho. Os comentaristas leem a ordem como cumprida mais tarde, em Êxodo 24:9, ou como sinal de que o relato foi composto de partes diferentes; a discussão está no estudo de Êxodo 19:24.
Se Deus estava na escuridão, onde estava o fogo?
O monte ardia em fogo (Êxodo 19:18) e, ao mesmo tempo, estava coberto de escuridão espessa. O Deuteronômio junta as duas coisas sem explicar: Deus falou "do meio do fogo, da nuvem e da escuridão" (Deuteronômio 5:22). Uma explicação possível é que o fogo era visto dentro e acima da nuvem negra, como um relâmpago numa tempestade. Maimônides prefere a leitura figurada: a escuridão é o limite de quem olha, e o fogo, a luz que vem de Deus. O texto não dá a física da cena.
A escuridão era castigo?
Não há nada no texto que o sugira. No Egito, a escuridão foi praga (Êxodo 10:22); aqui é morada. A mesma imagem muda de sentido conforme quem está dentro dela.
9. Conexão com Outros Textos
A escuridão como morada
1 Reis 8:12 — "Então Salomão disse: 'O SENHOR disse que habitaria na escuridão espessa.'"
Na dedicação do templo, a mesma palavra do Sinai. O lugar mais santo de Israel herda a escuridão do monte.
Salmos 18:11 — "Fez das trevas o seu esconderijo; ao seu redor, como tenda, as águas escuras e as nuvens espessas."
O versículo que Maimônides cita para mostrar que a escuridão é figura do limite humano. No mesmo salmo, Deus "inclinou os céus e desceu, e havia escuridão espessa debaixo dos seus pés" (Salmos 18:9), frase que a Mekhilta usa para dizer que Deus dobrou os céus sobre o monte.
Salmos 97:2 — "Nuvens e escuridão espessa o rodeiam; justiça e direito são a base do seu trono."
A escuridão ao redor e a justiça embaixo: o mesmo par do Sinai, onde da escuridão sai a lei.
A escuridão vista do outro lado
Jó 22:13 — "E você diz: 'Que sabe Deus? Pode ele julgar através da escuridão espessa?'"
A objeção que Elifaz põe na boca de Jó: se Deus está na escuridão, ele não vê. O Sinai responde pelo avesso — quem está na escuridão é quem fala.
Entrar, mais tarde
Êxodo 24:18 — "Moisés entrou no meio da nuvem e subiu ao monte; e Moisés esteve no monte quarenta dias e quarenta noites."
A entrada que o versículo 21 ainda não registra. Nachmânides usa a diferença entre os dois verbos para separar os dois momentos.
O humilde que chega perto
Números 12:3 — "Moisés era um homem muito humilde, mais do que todos os homens que havia sobre a terra."
Isaías 57:15 — "Porque assim diz o Alto e Sublime, que habita a eternidade e cujo nome é Santo: 'Habito no lugar alto e santo, e também com o abatido e humilde de espírito.'"
Os dois versículos com que a Mekhilta explica por que Moisés pôde se aproximar.
O verbo da aproximação
Êxodo 3:5 — E Deus disse: "Não se aproxime daqui. Tire as sandálias dos pés, porque o lugar em que você está é terra santa."
Na sarça, Moisés recebe ordem de não chegar perto. No Sinai, chega. O mesmo verbo marca o começo e o ponto mais alto da relação dele com Deus no livro.
A treva do Egito
Êxodo 10:22 — Moisés estendeu a mão para o céu, e houve trevas de escuridão em toda a terra do Egito, por três dias.
A outra grande escuridão do Êxodo, traduzida na Septuaginta com a mesma palavra grega que este versículo. Lá, castigo sobre o Egito; aqui, o lugar de Deus.
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
O povo ficou de longe, e Moisés se aproximou da escuridão espessa onde Deus estava.
Texto hebraico
וַיַּעֲמֹ֥ד הָעָ֖ם מֵרָחֹ֑ק וּמֹשֶׁה֙ נִגַּ֣שׁ אֶל־הָֽעֲרָפֶ֔ל אֲשֶׁר־שָׁ֖ם הָאֱלֹהִֽים׃
Transliteração
va-ya'amod ha'am me-rachoq, u-Moshe niggash el-ha-arafel asher-sham ha-Elohim.
Na Bíblia hebraica, este é o versículo 18 do capítulo 20. Depois dele, o texto massorético marca uma pausa de seção (a letra samekh, que indica um espaço em branco na mesma linha): o relato do Sinai termina aqui, e a fala de Deus que começa no versículo seguinte é uma unidade nova.
Análise palavra por palavra
וַיַּעֲמֹד הָעָם מֵרָחֹק — va-ya'amod ha'am me-rachoq, "o povo ficou de longe".
O verbo amad, "ficar de pé, permanecer", agora no singular. No versículo 18 a mesma expressão vinha no plural (va-ya'amdu). O hebraico admite as duas concordâncias com um coletivo como "povo"; a troca, porém, faz diferença na leitura: no versículo 18, muitas pessoas recuam, cada uma por si; aqui, um bloco único permanece. Me-rachoq, "desde longe", é a mesma expressão, com a preposição que mede a distância a partir de quem está parado.
וּמֹשֶׁה נִגַּשׁ — u-Moshe niggash, "e Moisés se aproximou".
O nome vem antes do verbo, e o verbo está no perfeito, e não na forma que encadeia a narrativa. Essa construção marca contraste e simultaneidade: "enquanto isso, Moisés se aproximava". O verbo é nagash, "aproximar-se", e a forma niggash é a do Nifal (a forma que em geral é passiva ou reflexiva). Daí a leitura de Gill: "foi feito aproximar-se". Mas, com este verbo, a gramática hebraica usa o Nifal no lugar do perfeito simples, que praticamente não existe: quando se quer dizer "aproximou-se", em sentido ativo, a forma é justamente niggash. O mesmo vale em Gênesis 33:7, em que as mulheres e os filhos de Jacó "se aproximaram" de Esaú. A forma não permite, portanto, ler um Moisés passivo. O verbo é o de quem chega perto de alguém para falar ou para tocar: é o de Judá diante de José (Gênesis 44:18) e o de Êxodo 19:15, "não se aproximem de mulher", estudado naquele versículo. A Septuaginta traduz por eisēlthen, "entrou" (item 2).
אֶל־הָעֲרָפֶל — el-ha-arafel, "da escuridão espessa".
Arafel aparece cerca de quinze vezes na Bíblia hebraica, quase sempre em poesia ou em linguagem solene. Os contextos são de dois tipos. Um é a aparição de Deus: no Sinai (este versículo, Deuteronômio 4:11 e 5:22), no salmo da tempestade (Salmos 18:9, e o paralelo de 2 Samuel 22:10), na dedicação do templo (1 Reis 8:12) e no salmo do trono (Salmos 97:2). O outro é o dia terrível: "dia de nuvens e escuridão espessa" (Joel 2:2 e Sofonias 1:15), as trevas que cobrem os povos (Isaías 60:2), o dia escuro em que as ovelhas se dispersam (Ezequiel 34:12). Em Jó 38:9, é a faixa com que Deus envolve o mar recém-nascido. A palavra nunca designa a escuridão comum da noite. A Septuaginta usa gnophos, "treva densa", e a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400), caligo, "névoa escura".
אֲשֶׁר־שָׁם הָאֱלֹהִים — asher-sham ha-Elohim, "onde Deus estava".
Literalmente "que ali o Deus". O hebraico não tem verbo nesta oração: o "estava" é acrescentado pela tradução, porque o hebraico forma frases de lugar sem verbo de ligação. Sham, "ali", é o advérbio de lugar comum. Ha-Elohim, com artigo, é a forma que o relato do Sinai prefere (Êxodo 19:17, 19:19 e o versículo anterior). O Targum de Ônquelos acrescenta "a glória de", e o Targum que leva o nome de Jônatas também.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a uma conclusão sobre a distância: ela não foi resolvida no Sinai, foi organizada. O povo ficou onde estava, mesmo depois de ouvir "não temam", e o texto não o reprova. Moisés foi, e o texto não o elogia. A partir daqui, a relação de Israel com Deus terá esse desenho: um que se aproxima e muitos que ficam, sem que nenhum dos dois lugares seja declarado errado.
Leva também a uma conclusão sobre o lugar de Deus. O versículo ousa dizer onde Deus estava, e o endereço que dá é um lugar sem visão. Chegar perto de Deus, nesta cena, não é passar a ver mais; é aceitar ver menos. Os filósofos fizeram disso teoria; o texto se limita a pôr Moisés na beira da escuridão.
E leva, por fim, a uma observação sobre o que sai dali. Da escuridão não sai uma visão, sai uma fala, e a fala é lei: altar, escravo, propriedade, festas. O versículo liga o lugar mais escuro do relato à parte mais concreta da Torá.













