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Êxodo 20:20

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 21 min de leitura·👁 15 acessos
Moisés disse ao povo: “Não temam, porque Deus veio para pôr vocês à prova, e para que o temor dele esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.”
Moisés, de pé sobre uma pedra ao pé de um monte envolto em fumaça, estende as duas mãos abertas para uma multidão de israelitas assustados, como quem acalma; alguns começam a erguer o rosto, outros ainda o escondem, e a luz de um relâmpago ilumina as faces de todos.

Estudo


Moisés disse ao povo: “Não temam, porque Deus veio para pôr vocês à prova, e para que o temor dele esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.”

1. Introdução

Moisés responde ao pedido do povo com uma frase que parece se contradizer: "Não temam", e logo depois, "para que o temor dele esteja diante de vocês". O versículo pede que um medo vá embora e que outro fique. Ele também explica a aparição inteira do Sinai com um propósito: Deus veio "pôr vocês à prova" — e os leitores divergem sobre o sentido dessa prova. E termina com o objetivo prático de tudo: "a fim de que não pequem".

2. Contexto Histórico e Cultural

A prova de iniciação: uma leitura do século XIX

Em 1864, Shadal (Samuel David Luzzatto, rabino e estudioso de Pádua) propôs uma explicação para o "pôr à prova" que não estava em nenhum comentarista antes dele. Deus queria fazer de Israel "um reino de sacerdotes" (Êxodo 19:6). E, escreve Shadal, "era costume entre os egípcios, quando admitiam alguém nos seus segredos para fazê-lo consagrado aos seus deuses", submetê-lo a provas e ameaças; quem tinha medo e não as suportava era recusado. Israel teve muito medo, "mas não voltou às tendas": ficou ali para ouvir a palavra de Deus, e com isso se mostrou digno do sacerdócio. Shadal usa até a palavra latina, initiatus, "iniciado".

A leitura é engenhosa e diz muito sobre a época dele. A ideia de que os sacerdotes egípcios submetiam os candidatos a provas aterrorizantes não vem dos documentos egípcios. Vem, em parte, de autores gregos e romanos que escreveram sobre os mistérios de Ísis — o mais conhecido é Apuleio (escritor latino do século II), que no livro XI de O asno de ouro faz Lúcio, o protagonista, contar, sem revelar o segredo, que na iniciação "chegou aos limites da morte" e viu "o sol brilhar à meia-noite". E vem, sobretudo, de um romance francês de 1731, Séthos, do abade Jean Terrasson, que inventou com riqueza de detalhes as provas do fogo, da água e do ar a que um príncipe egípcio teria sido submetido nos subterrâneos das pirâmides. O romance foi lido como se fosse história, inspirou rituais da maçonaria e chegou ao palco em 1791, nas provas do fogo e da água de A flauta mágica, de Mozart.

Shadal lia o Êxodo com o Egito que a Europa do seu tempo imaginava. Isso não invalida a intuição dele — o Sinai tem, de fato, a estrutura de uma admissão: purificação, espera, limite, uma experiência que assusta e um povo que fica. Mas o paralelo egípcio que ele invoca não tem apoio nas fontes do Egito antigo, e é como hipótese de leitura que ele deve ser tomado.

O temor como vergonha no rosto

Os mestres antigos leram a frase "para que o temor dele esteja diante de vocês" pela letra: o hebraico diz "sobre os seus rostos". Um ensinamento citado no Talmude Babilônico, tratado Nedarim 20a, e já presente na Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), conclui: "isto é a vergonha", porque a vergonha é o temor que aparece no rosto, o rubor. "A fim de que não pequem" ensina, então, que a vergonha leva ao temor do pecado. E o texto do Talmude tira daí um juízo sobre as pessoas: "é bom sinal no homem ser capaz de vergonha"; e quem não tem essa capacidade, "sabe-se que os seus antepassados não estiveram no monte Sinai".

A frase reflete uma sociedade em que a honra e a vergonha regiam a vida pública, e em que o rosto era o lugar onde o caráter se mostrava. Corar era sinal de que a pessoa ainda reconhecia um limite. A Mekhilta apoia a leitura em Jeremias 6:15, onde o profeta acusa o povo de não ter se envergonhado das suas abominações: "nem sequer sabiam corar". Para esses mestres, o Sinai deixou no rosto do povo uma marca hereditária — a capacidade de sentir vergonha —, e quem não a tem desmente a própria linhagem.

3. Análise Teológica do Versículo

"Moisés disse ao povo: 'Não temam'"

A resposta de Moisés não atende ao pedido. O povo pediu que Deus não falasse mais; Moisés não diz "está bem", diz "não temam". Ele trata o pedido como sintoma e responde ao medo. A Mekhilta vê aqui a habilidade de Moisés, capaz de acalmar milhares, e cita Eclesiastes 7:19: "a sabedoria dá ao sábio mais força do que dez governantes". Nachmânides (Moisés ben Nachman, chamado Ramban, rabino catalão do século XIII), que põe a cena antes das Dez Palavras, nota que a tranquilização não funcionou: no versículo seguinte, o povo continua de longe.

A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) troca a negação por um imperativo positivo: tharseite, "tenham coragem". O hebraico proíbe o medo; o grego manda ter ânimo.

O padrão já apareceu no livro. Diante do mar, Moisés disse ao povo: "Não tenham medo" (Êxodo 14:13); e, depois da travessia, "o povo temeu ao SENHOR" (Êxodo 14:31). Ali, o medo dos egípcios dá lugar ao temor de Deus ao longo de um capítulo inteiro. Aqui, as duas coisas cabem numa só frase.

"porque Deus veio para pôr vocês à prova"

Moisés explica a aparição inteira por um propósito. O verbo é o mesmo da prova de Abraão, e o campo dele — testar, experimentar, acostumar — está desenvolvido no estudo de Gênesis 22:1. O que é próprio deste versículo são as leituras sobre que prova seria esta. São cinco.

Primeira leitura: Deus veio para engrandecer vocês. É a da Mekhilta, adotada por Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI). Rashi liga o verbo a nes ("estandarte", a bandeira erguida no alto), como em Isaías 62:10, "levantem um estandarte". "Pôr à prova" seria, aqui, "erguer como bandeira": Deus se revelou na sua glória para que o povo ganhasse nome entre as nações. Nesta leitura não há teste nenhum; há exaltação.

Segunda leitura: a prova é agora. É a de Nachmânides, que rejeita a de Rashi. Para ele, a revelação tirou de vez as dúvidas do povo sobre a existência de Deus; daqui em diante, ninguém poderá dizer que não sabia. A prova começa exatamente neste ponto: Deus vai ver se o povo, sem desculpa, guarda os mandamentos. Nachmânides compara com o senhor que trata bem o servo para ver se ele retribui com fidelidade, e cita o profeta Amós: "só a vocês conheci entre todas as famílias da terra; por isso pedirei contas a vocês" (Amós 3:2). Quanto mais perto, mais cobrado.

Terceira leitura: a prova é para o futuro. É a de Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo judeu nascido em Córdova, 1138-1204), no Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 24). Ele lê o versículo junto com Deuteronômio 13:3, onde Deus permite que surja um falso profeta com sinais "para provar vocês". Moisés estaria dizendo: vocês viram a verdade com os próprios olhos; quando um dia aparecer alguém dizendo o contrário do que ouviram, com milagres, não vacilarão. "Se eu tivesse vindo como mensageiro, como vocês queriam", escreve Maimônides na voz de Moisés, "talvez vocês dessem crédito a outro que viesse me contradizer". O Sinai não é a prova; é a vacina contra as provas que virão.

Quarta leitura: a prova é de iniciação. É a de Shadal, apresentada no item 2. O povo foi assustado para mostrar se ficava; ficou, e passou.

Quinta leitura: a prova foi perdida. É a do Or ha-Chaim (Chaim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII): Deus tentou elevar o povo inteiro à condição de profeta, e o povo, ao pedir que Deus se calasse, mostrou que achava esse peso grande demais. Se um dia alguém reclamar que nem todo israelita é profeta, a resposta está aqui.

As cinco leituras dão sentidos opostos à mesma frase: exaltação, teste moral, proteção contra o engano, rito de passagem, fracasso. O texto não permite decidir entre elas. A de Nachmânides é a que mais se apoia no resto do versículo, porque liga a prova ao "a fim de que não pequem".

"e para que o temor dele esteja diante de vocês"

Aqui está a contradição aparente. Moisés acabou de dizer "não temam" e agora quer que o temor fique. O hebraico usa a mesma raiz nas duas frases; não há duas palavras, uma para o pavor e outra para a reverência. A diferença tem de vir de outro lugar, e as leituras discordam sobre de onde.

Primeira leitura: são dois medos com dois objetos. É a dos comentaristas cristãos clássicos, como Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX): o medo a ser afastado é o de morrer, servil; o temor a ser guardado é a reverência diante de Deus. O que separa os dois é o objeto: um teme pela própria vida, o outro teme "a ele".

Segunda leitura: é o mesmo medo, guardado como lembrança. Nachmânides sugere que Moisés pode estar dizendo: o temor "deste grande fogo" ficará diante de vocês, e vocês não pecarão por causa dele. Nesta leitura, o medo não é transformado em outra coisa; é apenas desligado do perigo imediato e conservado na memória. O povo não precisa morrer de medo agora, mas deve lembrar do fogo para sempre.

Terceira leitura: o temor é vergonha. É a da Mekhilta e do Talmude (item 2), que leem "sobre os seus rostos" como o rubor de quem se envergonha.

Quarta leitura: o temor é conhecimento. Rashi explica que, ao ver que Deus é temido assim, o povo saberá que não há outro além dele, e por isso o temerá. O temor vem da conclusão, e não do susto.

O "dele" também é ambíguo. "O temor dele" pode ser o temor que se tem por ele ou o temor que ele inspira. A Septuaginta escreve "o temor dele esteja em vocês", trocando o rosto pelo interior; a mudança desloca o temor do que se mostra para o que se sente.

"a fim de que não pequem"

A última palavra dá o propósito de tudo, e o propósito é moral, e não emocional. O versículo não quer que o povo sinta alguma coisa diante de Deus; quer que o povo não faça certas coisas. O temor, nesta frase, é um freio. E a frase estabelece uma ordem: primeiro a experiência, depois o temor, e só então a conduta. O povo não é mandado temer no abstrato; é mandado guardar o temor nascido de algo que viu.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Moisés

Fala pela primeira vez no capítulo 20. Não responde ao pedido do povo com sim ou não; responde ao medo, e dá uma explicação para a aparição de Deus. É ele quem interpreta o Sinai para o povo, antes mesmo de ser oficialmente o intermediário.

O povo

Destinatário da fala, ainda de longe. No versículo seguinte, o texto registra que continuou onde estava.

Deus

O sujeito do verbo "veio", com o artigo: ha-Elohim, literalmente "o Deus". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) escreve "a glória do SENHOR se revelou a vocês", evitando dizer que Deus se deslocou. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista italiano do século XVI) entende "veio" como a chegada do cortejo de anjos que acompanha Deus.

Os comentaristas

Rashi e a Mekhilta (a prova como exaltação), Nachmânides (a prova como cobrança), Maimônides (a prova como proteção contra o falso profeta), Shadal (a prova como iniciação), o Or ha-Chaim (a prova perdida).

O momento

Logo depois do pedido do povo. Se se aceita a ordem do texto, depois das Dez Palavras; na leitura de Nachmânides, antes delas, quando o povo ainda só tinha visto o espetáculo.

5. Pontos de Ensino

1. O versículo afasta um medo e conserva outro. "Não temam" e "o temor dele" estão na mesma frase, com a mesma raiz. O texto não pede ausência de medo, pede um medo com outro objeto ou outra função.

2. A revelação tem propósito declarado. Moisés não diz só o que aconteceu; diz para quê. O Sinai, nesta frase, existe para provar o povo e para que ele não peque.

3. O fim do temor é a conduta. A última palavra não é "adorem" nem "sintam", é "não pequem". A frase mede o temor pelo que ele impede.

4. A palavra "prova" admite sentidos opostos. Para uns, Deus veio engrandecer o povo; para outros, cobrá-lo; para outros, protegê-lo de enganos futuros. Quem lê o versículo precisa saber que a palavra não tem um sentido só.

5. Moisés interpreta antes de mediar. Antes de levar ao povo qualquer lei, Moisés explica o que o povo viveu. A primeira tarefa do intermediário é dizer o sentido da experiência.

6. Aspectos Filosóficos

Dois medos numa frase

"Não temam… para que o temor dele esteja diante de vocês." A frase supõe que o medo não é um bloco único: há um medo que deve ir embora e um que deve ficar. Ela também supõe que o medo pode ser usado — que um povo com o temor certo peca menos. As duas suposições estão no centro da obra de um filósofo norueguês.

Lars Svendsen e a filosofia do medo

Lars Svendsen (nascido em 1970, professor da Universidade de Bergen, na Noruega) publicou em 2007 Filosofia do medo, traduzido para várias línguas. O ponto de partida é um diagnóstico do presente: as sociedades ricas, mais seguras do que qualquer outra na história, vivem mergulhadas num medo de baixa intensidade, difuso, que não se dirige a nada em especial e serve de pano de fundo para tudo. Esse medo constante, diz Svendsen, não protege; ele corrói a confiança entre as pessoas e faz com que elas aceitem perder liberdade em troca de uma segurança que nunca chega.

Para chegar a esse diagnóstico, Svendsen percorre o que a filosofia disse sobre as emoções e separa duas coisas. O medo propriamente dito tem objeto: tem-se medo de algo, e por isso ele orienta — mostra o perigo, sugere a fuga ou a defesa. A angústia, ao contrário, não tem objeto definido: é um estado que tinge tudo, e por isso paralisa. Ele também examina como pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes fizeram do medo um instrumento de governo: o súdito que teme o soberano obedece.

O que a análise ilumina no versículo

O povo do versículo 18 vive algo próximo do medo difuso de Svendsen. Trovões, fogo, fumaça, som por todos os lados: o medo não tem um objeto preciso, tem um ambiente. E produz exatamente o que Svendsen descreve — paralisia e recuo. A frase de Moisés pode ser lida como uma operação sobre esse medo: dissolver o pavor que envolve ("não temam") e pôr no lugar um temor com objeto definido ("o temor dele") e com função clara ("a fim de que não pequem"). Na distinção de Svendsen, é a passagem de um medo que paralisa para um medo que orienta.

A objeção que Svendsen faria

A mesma análise levanta uma suspeita incômoda. Usar o medo para que as pessoas "não pequem" é, na forma, o que Svendsen critica no uso político do medo: governar a conduta pelo temor. Um leitor de Svendsen perguntaria se o versículo não funda uma obediência por medo, com tudo o que ela custa à liberdade.

O texto oferece duas respostas parciais. A primeira é que o temor pedido não vem de uma ameaça fabricada: vem de uma experiência que o povo de fato viveu e que o próprio Moisés manda não temer. A segunda é que a leitura de Nachmânides, em que a prova é uma cobrança feita a quem já não tem dúvida, desloca o peso do medo para a responsabilidade. Mas nenhuma das duas anula a objeção. O versículo põe, sim, o temor a serviço da conduta, e Svendsen ajuda a ver que isso é uma escolha com preço — e não uma obviedade religiosa.

7. Aplicações Práticas

Distinguir o medo que paralisa do que orienta. O versículo trata como coisas diferentes o pavor que faz o povo recuar e o temor que o impede de errar. Na vida comum, a distinção é útil: o medo difuso de tudo — da saúde, do futuro, do dinheiro — raramente ajuda a decidir; o receio concreto de uma consequência específica costuma ajudar. O texto não ensina técnica nenhuma, mas a separação que faz é real.

A vergonha como sinal de limite. A leitura rabínica que vê no "temor sobre os rostos" a capacidade de corar não está no texto, mas aponta para algo verificável: quem ainda se envergonha do que faz errado tem um freio que quem perdeu a vergonha não tem. Os mestres faziam disso um sinal de saúde moral, e não de fraqueza.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se Moisés manda não temer, por que ele mesmo tinha medo?

O Êxodo não diz que Moisés teve medo no Sinai. O medo dele aparece em outros momentos: na sarça, quando cobre o rosto "porque teve medo de olhar para Deus" (Êxodo 3:6), e depois do bezerro de ouro, quando diz que temeu a ira do SENHOR (Deuteronômio 9:19). Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lembra que quem consola os outros nem sempre está livre do medo que acalma. No versículo, porém, Moisés fala como quem não tem medo, e o versículo seguinte o mostra indo em direção à escuridão.

A prova do Sinai foi aprovada ou reprovada?

Depende de qual prova. Se é a de Nachmânides — guardar os mandamentos sem desculpa —, o bezerro de ouro, quarenta dias depois, é a primeira reprovação. Se é a de Shadal — ficar diante do fogo —, o povo passou. Se é a do Or ha-Chaim, o povo falhou no próprio pedido do versículo anterior.

Por que o versículo não fala de amor?

Porque o Êxodo, neste ponto, não fala. O vocabulário do amor a Deus aparece no Decálogo de passagem ("os que me amam", Êxodo 20:6) e será desenvolvido no Deuteronômio (Deuteronômio 6:5). O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chama o temor de "motivo baixo", próprio de um povo ainda criança; é leitura de comentarista, e não juízo do texto, que não hierarquiza os dois.

A Mekhilta diz que quem não tem vergonha não descende do Sinai. Isso é literal?

Não no sentido de genealogia. É uma forma rabínica de dizer que a vergonha é traço de caráter que o Sinai deveria ter deixado em todos os herdeiros dele. Usada como acusação, a frase exclui; usada como exame de si, ela cobra.

9. Conexão com Outros Textos

"Não temam" e depois "temam"

Êxodo 14:13 — Moisés disse ao povo: "Não tenham medo. Fiquem firmes e vejam a salvação do SENHOR, que ele fará hoje por vocês; porque os egípcios que vocês veem hoje, nunca mais os verão."

Êxodo 14:31 — E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo.

O mesmo movimento do Sinai, espalhado por um capítulo: o medo dos egípcios afastado, o temor de Deus instalado. A construção que distingue os dois está no estudo de Êxodo 14:31.

1 Samuel 12:20, 24 — "Samuel disse ao povo: 'Não temam. Vocês fizeram todo esse mal; mas não se desviem de seguir o SENHOR…' Somente temam o SENHOR e sirvam-no com fidelidade, de todo o coração."

Depois dos trovões fora de estação, Samuel repete a fórmula de Moisés: "não temam" e, poucos versículos depois, "temam o SENHOR". É o paralelo mais exato da frase do Sinai fora da Torá.

Aprender a temer

Deuteronômio 4:10 — "o dia em que você esteve diante do SENHOR, seu Deus, em Horebe, quando o SENHOR me disse: 'Reúna o povo diante de mim, e eu os farei ouvir as minhas palavras, para que aprendam a me temer todos os dias que viverem sobre a terra, e as ensinem aos seus filhos.'"

O versículo que Ibn Ezra cita para explicar "o temor dele diante de vocês". O temor, aqui, se aprende e se ensina.

O medo do falso profeta

Deuteronômio 13:3 — "não dê ouvidos às palavras desse profeta ou desse sonhador, porque o SENHOR, seu Deus, está provando vocês, para saber se amam o SENHOR, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma."

O texto que Maimônides lê junto com este versículo: a prova do Sinai prepara para esta.

Os que não sabiam corar

Jeremias 6:15 — "Ficaram envergonhados por terem cometido abominação? Não, não se envergonharam de modo nenhum, nem sabiam corar."

O versículo que a Mekhilta cita para ligar a vergonha ao temor do pecado.

O temor e o tremor juntos

Salmos 2:11 — "Sirvam ao SENHOR com temor e alegrem-se com tremor."

O salmo põe numa só linha o temor e a alegria, como a frase de Moisés põe numa só linha o "não temam" e o "temor dele".

Engrandecer como um estandarte

Isaías 62:10 — "Passem, passem pelas portas, preparem o caminho do povo; aterrem, aterrem a estrada, tirem as pedras; levantem um estandarte sobre os povos."

O versículo em que Rashi apoia a leitura de "pôr à prova" como "erguer como bandeira".

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Moisés disse ao povo: “Não temam, porque Deus veio para pôr vocês à prova, e para que o temor dele esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.”

Texto hebraico

וַיֹּ֨אמֶר מֹשֶׁ֣ה אֶל־הָעָם֮ אַל־תִּירָ֒אוּ֒ כִּ֗י לְבַֽעֲבוּר֙ נַסּ֣וֹת אֶתְכֶ֔ם בָּ֖א הָאֱלֹהִ֑ים וּבַעֲב֗וּר תִּהְיֶ֧ה יִרְאָת֛וֹ עַל־פְּנֵיכֶ֖ם לְבִלְתִּ֥י תֶחֱטָֽאוּ׃

Transliteração

va-yomer Moshe el-ha'am: al-tira'u, ki le-va'avur nassot etkhem ba ha-Elohim, u-va'avur tihyeh yir'ato al-peneikhem le-vilti techeta'u.

Na Bíblia hebraica, este é o versículo 17 do capítulo 20.

Análise palavra por palavra

אַל־תִּירָאוּ — al-tira'u, "não temam".

Verbo yare, "temer", na segunda pessoa do plural, com a negação al, a das proibições de momento e dos pedidos, diferente do lo das proibições permanentes. Moisés não legisla contra o medo; pede que ele cesse agora. A mesma fórmula, no singular, abre os oráculos de encorajamento dirigidos aos patriarcas ("Não tenha medo, Abrão", Gênesis 15:1).

כִּי לְבַעֲבוּר — ki le-va'avur, "porque para".

Ba'avur é uma preposição de finalidade, "por causa de, a fim de". Aqui vem com um le- a mais na frente, que não acrescenta sentido. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII) o chama de supérfluo e compara com outros casos de le- sem função, como em 1 Crônicas 15:13. A forma reforçada é rara, e alguns leitores veem nela só ênfase.

נַסּוֹת אֶתְכֶם — nassot etkhem, "pôr vocês à prova".

Infinitivo do Piel (a forma intensiva do verbo hebraico) de nasah, "provar, testar". O verbo e os seus sentidos estão no estudo de Gênesis 22:1. A leitura de Rashi, que liga a palavra a nes, "estandarte", não se sustenta pela gramática: nes vem de outra raiz (nss), e nassot é a forma normal do verbo de provar. Nachmânides faz exatamente essa objeção. A Septuaginta traduz por peirasai, "pôr à prova", o mesmo verbo grego que usa em Gênesis 22:1.

בָּא הָאֱלֹהִים — ba ha-Elohim, "Deus veio".

Ba é o verbo "vir" no perfeito, terceira pessoa do singular: uma vinda já acontecida. Ha-Elohim, com artigo, "o Deus", é a forma que o Êxodo usa na cena do Sinai com frequência (Êxodo 19:17, 19:19 e o versículo 21). A ordem é invertida: o verbo vem depois da finalidade, e o sujeito no fim, o que dá à frase o peso de uma explicação.

וּבַעֲבוּר תִּהְיֶה יִרְאָתוֹ — u-va'avur tihyeh yir'ato, "e para que o temor dele esteja".

Yir'ah é o substantivo da mesma raiz de tira'u: a frase usa a raiz duas vezes, primeiro para negar e depois para afirmar. O sufixo -o, "dele", deixa em aberto se é o temor que se tem por Deus ou o temor que Deus provoca. O verbo tihyeh está no feminino porque yir'ah é feminino.

עַל־פְּנֵיכֶם — al-peneikhem, "diante de vocês", literalmente "sobre os seus rostos".

A expressão pode ter o sentido comum de "diante de", "à vista de" — é assim que a ABC traduz, e é assim que a maioria das traduções a entende. Mas a preposição al quer dizer "sobre", e panim é "rosto". Foi a leitura literal, "sobre os seus rostos", que levou os mestres a ver ali o rubor da vergonha (item 2). A Septuaginta escreve en hymin, "em vocês".

לְבִלְתִּי תֶחֱטָאוּ — le-vilti techeta'u, "a fim de que não pequem".

Le-vilti é a negação de finalidade, "para não". Techeta'u é o verbo chata, "errar o alvo, pecar", segunda pessoa do plural. O sentido básico da raiz é o de errar o alvo: em Juízes 20:16 descreve os fundeiros de Benjamim que atiravam pedra num fio de cabelo "e não erravam". Pecar, na imagem da palavra, é não acertar.

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a uma conclusão sobre o medo: no Sinai, ele não é eliminado nem glorificado, é redirecionado. O pavor diante do fogo deve passar; um temor com objeto e com função deve ficar. A mesma raiz cobre os dois, e a diferença está no que cada um faz — um paralisa, o outro impede o erro.

Leva também a uma conclusão sobre o sentido da revelação. Moisés a explica por um propósito, e esse propósito é ambíguo de propósito: prova pode ser exaltação, cobrança, proteção ou iniciação. O que todas as leituras têm em comum é que o Sinai não termina em si mesmo; ele é feito para ter efeito depois, na conduta de quem esteve lá.

E, por fim, o versículo mostra que a primeira tarefa de Moisés como intermediário não é transmitir uma lei, e sim dar sentido a uma experiência que assustou. Antes de "o que vocês devem fazer", vem "o que vocês viveram".

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