Moisés disse ao povo: “Não temam, porque Deus veio para pôr vocês à prova, e para que o temor dele esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.”
1. Introdução
Moisés responde ao pedido do povo com uma frase que parece se contradizer: "Não temam", e logo depois, "para que o temor dele esteja diante de vocês". O versículo pede que um medo vá embora e que outro fique. Ele também explica a aparição inteira do Sinai com um propósito: Deus veio "pôr vocês à prova" — e os leitores divergem sobre o sentido dessa prova. E termina com o objetivo prático de tudo: "a fim de que não pequem".
2. Contexto Histórico e Cultural
A prova de iniciação: uma leitura do século XIX
Em 1864, Shadal (Samuel David Luzzatto, rabino e estudioso de Pádua) propôs uma explicação para o "pôr à prova" que não estava em nenhum comentarista antes dele. Deus queria fazer de Israel "um reino de sacerdotes" (Êxodo 19:6). E, escreve Shadal, "era costume entre os egípcios, quando admitiam alguém nos seus segredos para fazê-lo consagrado aos seus deuses", submetê-lo a provas e ameaças; quem tinha medo e não as suportava era recusado. Israel teve muito medo, "mas não voltou às tendas": ficou ali para ouvir a palavra de Deus, e com isso se mostrou digno do sacerdócio. Shadal usa até a palavra latina, initiatus, "iniciado".
A leitura é engenhosa e diz muito sobre a época dele. A ideia de que os sacerdotes egípcios submetiam os candidatos a provas aterrorizantes não vem dos documentos egípcios. Vem, em parte, de autores gregos e romanos que escreveram sobre os mistérios de Ísis — o mais conhecido é Apuleio (escritor latino do século II), que no livro XI de O asno de ouro faz Lúcio, o protagonista, contar, sem revelar o segredo, que na iniciação "chegou aos limites da morte" e viu "o sol brilhar à meia-noite". E vem, sobretudo, de um romance francês de 1731, Séthos, do abade Jean Terrasson, que inventou com riqueza de detalhes as provas do fogo, da água e do ar a que um príncipe egípcio teria sido submetido nos subterrâneos das pirâmides. O romance foi lido como se fosse história, inspirou rituais da maçonaria e chegou ao palco em 1791, nas provas do fogo e da água de A flauta mágica, de Mozart.
Shadal lia o Êxodo com o Egito que a Europa do seu tempo imaginava. Isso não invalida a intuição dele — o Sinai tem, de fato, a estrutura de uma admissão: purificação, espera, limite, uma experiência que assusta e um povo que fica. Mas o paralelo egípcio que ele invoca não tem apoio nas fontes do Egito antigo, e é como hipótese de leitura que ele deve ser tomado.
O temor como vergonha no rosto
Os mestres antigos leram a frase "para que o temor dele esteja diante de vocês" pela letra: o hebraico diz "sobre os seus rostos". Um ensinamento citado no Talmude Babilônico, tratado Nedarim 20a, e já presente na Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), conclui: "isto é a vergonha", porque a vergonha é o temor que aparece no rosto, o rubor. "A fim de que não pequem" ensina, então, que a vergonha leva ao temor do pecado. E o texto do Talmude tira daí um juízo sobre as pessoas: "é bom sinal no homem ser capaz de vergonha"; e quem não tem essa capacidade, "sabe-se que os seus antepassados não estiveram no monte Sinai".
A frase reflete uma sociedade em que a honra e a vergonha regiam a vida pública, e em que o rosto era o lugar onde o caráter se mostrava. Corar era sinal de que a pessoa ainda reconhecia um limite. A Mekhilta apoia a leitura em Jeremias 6:15, onde o profeta acusa o povo de não ter se envergonhado das suas abominações: "nem sequer sabiam corar". Para esses mestres, o Sinai deixou no rosto do povo uma marca hereditária — a capacidade de sentir vergonha —, e quem não a tem desmente a própria linhagem.
3. Análise Teológica do Versículo
"Moisés disse ao povo: 'Não temam'"
A resposta de Moisés não atende ao pedido. O povo pediu que Deus não falasse mais; Moisés não diz "está bem", diz "não temam". Ele trata o pedido como sintoma e responde ao medo. A Mekhilta vê aqui a habilidade de Moisés, capaz de acalmar milhares, e cita Eclesiastes 7:19: "a sabedoria dá ao sábio mais força do que dez governantes". Nachmânides (Moisés ben Nachman, chamado Ramban, rabino catalão do século XIII), que põe a cena antes das Dez Palavras, nota que a tranquilização não funcionou: no versículo seguinte, o povo continua de longe.
A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) troca a negação por um imperativo positivo: tharseite, "tenham coragem". O hebraico proíbe o medo; o grego manda ter ânimo.
O padrão já apareceu no livro. Diante do mar, Moisés disse ao povo: "Não tenham medo" (Êxodo 14:13); e, depois da travessia, "o povo temeu ao SENHOR" (Êxodo 14:31). Ali, o medo dos egípcios dá lugar ao temor de Deus ao longo de um capítulo inteiro. Aqui, as duas coisas cabem numa só frase.
"porque Deus veio para pôr vocês à prova"
Moisés explica a aparição inteira por um propósito. O verbo é o mesmo da prova de Abraão, e o campo dele — testar, experimentar, acostumar — está desenvolvido no estudo de Gênesis 22:1. O que é próprio deste versículo são as leituras sobre que prova seria esta. São cinco.
Primeira leitura: Deus veio para engrandecer vocês. É a da Mekhilta, adotada por Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI). Rashi liga o verbo a nes ("estandarte", a bandeira erguida no alto), como em Isaías 62:10, "levantem um estandarte". "Pôr à prova" seria, aqui, "erguer como bandeira": Deus se revelou na sua glória para que o povo ganhasse nome entre as nações. Nesta leitura não há teste nenhum; há exaltação.
Segunda leitura: a prova é agora. É a de Nachmânides, que rejeita a de Rashi. Para ele, a revelação tirou de vez as dúvidas do povo sobre a existência de Deus; daqui em diante, ninguém poderá dizer que não sabia. A prova começa exatamente neste ponto: Deus vai ver se o povo, sem desculpa, guarda os mandamentos. Nachmânides compara com o senhor que trata bem o servo para ver se ele retribui com fidelidade, e cita o profeta Amós: "só a vocês conheci entre todas as famílias da terra; por isso pedirei contas a vocês" (Amós 3:2). Quanto mais perto, mais cobrado.
Terceira leitura: a prova é para o futuro. É a de Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo judeu nascido em Córdova, 1138-1204), no Guia dos Perplexos (parte III, capítulo 24). Ele lê o versículo junto com Deuteronômio 13:3, onde Deus permite que surja um falso profeta com sinais "para provar vocês". Moisés estaria dizendo: vocês viram a verdade com os próprios olhos; quando um dia aparecer alguém dizendo o contrário do que ouviram, com milagres, não vacilarão. "Se eu tivesse vindo como mensageiro, como vocês queriam", escreve Maimônides na voz de Moisés, "talvez vocês dessem crédito a outro que viesse me contradizer". O Sinai não é a prova; é a vacina contra as provas que virão.
Quarta leitura: a prova é de iniciação. É a de Shadal, apresentada no item 2. O povo foi assustado para mostrar se ficava; ficou, e passou.
Quinta leitura: a prova foi perdida. É a do Or ha-Chaim (Chaim ibn Attar, comentarista marroquino do século XVIII): Deus tentou elevar o povo inteiro à condição de profeta, e o povo, ao pedir que Deus se calasse, mostrou que achava esse peso grande demais. Se um dia alguém reclamar que nem todo israelita é profeta, a resposta está aqui.
As cinco leituras dão sentidos opostos à mesma frase: exaltação, teste moral, proteção contra o engano, rito de passagem, fracasso. O texto não permite decidir entre elas. A de Nachmânides é a que mais se apoia no resto do versículo, porque liga a prova ao "a fim de que não pequem".
"e para que o temor dele esteja diante de vocês"
Aqui está a contradição aparente. Moisés acabou de dizer "não temam" e agora quer que o temor fique. O hebraico usa a mesma raiz nas duas frases; não há duas palavras, uma para o pavor e outra para a reverência. A diferença tem de vir de outro lugar, e as leituras discordam sobre de onde.
Primeira leitura: são dois medos com dois objetos. É a dos comentaristas cristãos clássicos, como Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) e Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX): o medo a ser afastado é o de morrer, servil; o temor a ser guardado é a reverência diante de Deus. O que separa os dois é o objeto: um teme pela própria vida, o outro teme "a ele".
Segunda leitura: é o mesmo medo, guardado como lembrança. Nachmânides sugere que Moisés pode estar dizendo: o temor "deste grande fogo" ficará diante de vocês, e vocês não pecarão por causa dele. Nesta leitura, o medo não é transformado em outra coisa; é apenas desligado do perigo imediato e conservado na memória. O povo não precisa morrer de medo agora, mas deve lembrar do fogo para sempre.
Terceira leitura: o temor é vergonha. É a da Mekhilta e do Talmude (item 2), que leem "sobre os seus rostos" como o rubor de quem se envergonha.
Quarta leitura: o temor é conhecimento. Rashi explica que, ao ver que Deus é temido assim, o povo saberá que não há outro além dele, e por isso o temerá. O temor vem da conclusão, e não do susto.
O "dele" também é ambíguo. "O temor dele" pode ser o temor que se tem por ele ou o temor que ele inspira. A Septuaginta escreve "o temor dele esteja em vocês", trocando o rosto pelo interior; a mudança desloca o temor do que se mostra para o que se sente.
"a fim de que não pequem"
A última palavra dá o propósito de tudo, e o propósito é moral, e não emocional. O versículo não quer que o povo sinta alguma coisa diante de Deus; quer que o povo não faça certas coisas. O temor, nesta frase, é um freio. E a frase estabelece uma ordem: primeiro a experiência, depois o temor, e só então a conduta. O povo não é mandado temer no abstrato; é mandado guardar o temor nascido de algo que viu.
4. Pessoas, Lugares e Eventos
Moisés
Fala pela primeira vez no capítulo 20. Não responde ao pedido do povo com sim ou não; responde ao medo, e dá uma explicação para a aparição de Deus. É ele quem interpreta o Sinai para o povo, antes mesmo de ser oficialmente o intermediário.
O povo
Destinatário da fala, ainda de longe. No versículo seguinte, o texto registra que continuou onde estava.
Deus
O sujeito do verbo "veio", com o artigo: ha-Elohim, literalmente "o Deus". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) escreve "a glória do SENHOR se revelou a vocês", evitando dizer que Deus se deslocou. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista italiano do século XVI) entende "veio" como a chegada do cortejo de anjos que acompanha Deus.
Os comentaristas
Rashi e a Mekhilta (a prova como exaltação), Nachmânides (a prova como cobrança), Maimônides (a prova como proteção contra o falso profeta), Shadal (a prova como iniciação), o Or ha-Chaim (a prova perdida).
O momento
Logo depois do pedido do povo. Se se aceita a ordem do texto, depois das Dez Palavras; na leitura de Nachmânides, antes delas, quando o povo ainda só tinha visto o espetáculo.
5. Pontos de Ensino
1. O versículo afasta um medo e conserva outro. "Não temam" e "o temor dele" estão na mesma frase, com a mesma raiz. O texto não pede ausência de medo, pede um medo com outro objeto ou outra função.
2. A revelação tem propósito declarado. Moisés não diz só o que aconteceu; diz para quê. O Sinai, nesta frase, existe para provar o povo e para que ele não peque.
3. O fim do temor é a conduta. A última palavra não é "adorem" nem "sintam", é "não pequem". A frase mede o temor pelo que ele impede.
4. A palavra "prova" admite sentidos opostos. Para uns, Deus veio engrandecer o povo; para outros, cobrá-lo; para outros, protegê-lo de enganos futuros. Quem lê o versículo precisa saber que a palavra não tem um sentido só.
5. Moisés interpreta antes de mediar. Antes de levar ao povo qualquer lei, Moisés explica o que o povo viveu. A primeira tarefa do intermediário é dizer o sentido da experiência.
6. Aspectos Filosóficos
Dois medos numa frase
"Não temam… para que o temor dele esteja diante de vocês." A frase supõe que o medo não é um bloco único: há um medo que deve ir embora e um que deve ficar. Ela também supõe que o medo pode ser usado — que um povo com o temor certo peca menos. As duas suposições estão no centro da obra de um filósofo norueguês.
Lars Svendsen e a filosofia do medo
Lars Svendsen (nascido em 1970, professor da Universidade de Bergen, na Noruega) publicou em 2007 Filosofia do medo, traduzido para várias línguas. O ponto de partida é um diagnóstico do presente: as sociedades ricas, mais seguras do que qualquer outra na história, vivem mergulhadas num medo de baixa intensidade, difuso, que não se dirige a nada em especial e serve de pano de fundo para tudo. Esse medo constante, diz Svendsen, não protege; ele corrói a confiança entre as pessoas e faz com que elas aceitem perder liberdade em troca de uma segurança que nunca chega.
Para chegar a esse diagnóstico, Svendsen percorre o que a filosofia disse sobre as emoções e separa duas coisas. O medo propriamente dito tem objeto: tem-se medo de algo, e por isso ele orienta — mostra o perigo, sugere a fuga ou a defesa. A angústia, ao contrário, não tem objeto definido: é um estado que tinge tudo, e por isso paralisa. Ele também examina como pensadores políticos como Maquiavel e Hobbes fizeram do medo um instrumento de governo: o súdito que teme o soberano obedece.
O que a análise ilumina no versículo
O povo do versículo 18 vive algo próximo do medo difuso de Svendsen. Trovões, fogo, fumaça, som por todos os lados: o medo não tem um objeto preciso, tem um ambiente. E produz exatamente o que Svendsen descreve — paralisia e recuo. A frase de Moisés pode ser lida como uma operação sobre esse medo: dissolver o pavor que envolve ("não temam") e pôr no lugar um temor com objeto definido ("o temor dele") e com função clara ("a fim de que não pequem"). Na distinção de Svendsen, é a passagem de um medo que paralisa para um medo que orienta.
A objeção que Svendsen faria
A mesma análise levanta uma suspeita incômoda. Usar o medo para que as pessoas "não pequem" é, na forma, o que Svendsen critica no uso político do medo: governar a conduta pelo temor. Um leitor de Svendsen perguntaria se o versículo não funda uma obediência por medo, com tudo o que ela custa à liberdade.
O texto oferece duas respostas parciais. A primeira é que o temor pedido não vem de uma ameaça fabricada: vem de uma experiência que o povo de fato viveu e que o próprio Moisés manda não temer. A segunda é que a leitura de Nachmânides, em que a prova é uma cobrança feita a quem já não tem dúvida, desloca o peso do medo para a responsabilidade. Mas nenhuma das duas anula a objeção. O versículo põe, sim, o temor a serviço da conduta, e Svendsen ajuda a ver que isso é uma escolha com preço — e não uma obviedade religiosa.
7. Aplicações Práticas
Distinguir o medo que paralisa do que orienta. O versículo trata como coisas diferentes o pavor que faz o povo recuar e o temor que o impede de errar. Na vida comum, a distinção é útil: o medo difuso de tudo — da saúde, do futuro, do dinheiro — raramente ajuda a decidir; o receio concreto de uma consequência específica costuma ajudar. O texto não ensina técnica nenhuma, mas a separação que faz é real.
A vergonha como sinal de limite. A leitura rabínica que vê no "temor sobre os rostos" a capacidade de corar não está no texto, mas aponta para algo verificável: quem ainda se envergonha do que faz errado tem um freio que quem perdeu a vergonha não tem. Os mestres faziam disso um sinal de saúde moral, e não de fraqueza.
8. Perguntas e Respostas Reflexivas
Se Moisés manda não temer, por que ele mesmo tinha medo?
O Êxodo não diz que Moisés teve medo no Sinai. O medo dele aparece em outros momentos: na sarça, quando cobre o rosto "porque teve medo de olhar para Deus" (Êxodo 3:6), e depois do bezerro de ouro, quando diz que temeu a ira do SENHOR (Deuteronômio 9:19). Barnes (Albert Barnes, comentarista norte-americano do século XIX) lembra que quem consola os outros nem sempre está livre do medo que acalma. No versículo, porém, Moisés fala como quem não tem medo, e o versículo seguinte o mostra indo em direção à escuridão.
A prova do Sinai foi aprovada ou reprovada?
Depende de qual prova. Se é a de Nachmânides — guardar os mandamentos sem desculpa —, o bezerro de ouro, quarenta dias depois, é a primeira reprovação. Se é a de Shadal — ficar diante do fogo —, o povo passou. Se é a do Or ha-Chaim, o povo falhou no próprio pedido do versículo anterior.
Por que o versículo não fala de amor?
Porque o Êxodo, neste ponto, não fala. O vocabulário do amor a Deus aparece no Decálogo de passagem ("os que me amam", Êxodo 20:6) e será desenvolvido no Deuteronômio (Deuteronômio 6:5). O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chama o temor de "motivo baixo", próprio de um povo ainda criança; é leitura de comentarista, e não juízo do texto, que não hierarquiza os dois.
A Mekhilta diz que quem não tem vergonha não descende do Sinai. Isso é literal?
Não no sentido de genealogia. É uma forma rabínica de dizer que a vergonha é traço de caráter que o Sinai deveria ter deixado em todos os herdeiros dele. Usada como acusação, a frase exclui; usada como exame de si, ela cobra.
9. Conexão com Outros Textos
"Não temam" e depois "temam"
Êxodo 14:13 — Moisés disse ao povo: "Não tenham medo. Fiquem firmes e vejam a salvação do SENHOR, que ele fará hoje por vocês; porque os egípcios que vocês veem hoje, nunca mais os verão."
Êxodo 14:31 — E Israel viu a grande mão com que o SENHOR agiu contra os egípcios; e o povo temeu ao SENHOR, e creram no SENHOR e em Moisés, seu servo.
O mesmo movimento do Sinai, espalhado por um capítulo: o medo dos egípcios afastado, o temor de Deus instalado. A construção que distingue os dois está no estudo de Êxodo 14:31.
1 Samuel 12:20, 24 — "Samuel disse ao povo: 'Não temam. Vocês fizeram todo esse mal; mas não se desviem de seguir o SENHOR…' Somente temam o SENHOR e sirvam-no com fidelidade, de todo o coração."
Depois dos trovões fora de estação, Samuel repete a fórmula de Moisés: "não temam" e, poucos versículos depois, "temam o SENHOR". É o paralelo mais exato da frase do Sinai fora da Torá.
Aprender a temer
Deuteronômio 4:10 — "o dia em que você esteve diante do SENHOR, seu Deus, em Horebe, quando o SENHOR me disse: 'Reúna o povo diante de mim, e eu os farei ouvir as minhas palavras, para que aprendam a me temer todos os dias que viverem sobre a terra, e as ensinem aos seus filhos.'"
O versículo que Ibn Ezra cita para explicar "o temor dele diante de vocês". O temor, aqui, se aprende e se ensina.
O medo do falso profeta
Deuteronômio 13:3 — "não dê ouvidos às palavras desse profeta ou desse sonhador, porque o SENHOR, seu Deus, está provando vocês, para saber se amam o SENHOR, seu Deus, de todo o coração e de toda a alma."
O texto que Maimônides lê junto com este versículo: a prova do Sinai prepara para esta.
Os que não sabiam corar
Jeremias 6:15 — "Ficaram envergonhados por terem cometido abominação? Não, não se envergonharam de modo nenhum, nem sabiam corar."
O versículo que a Mekhilta cita para ligar a vergonha ao temor do pecado.
O temor e o tremor juntos
Salmos 2:11 — "Sirvam ao SENHOR com temor e alegrem-se com tremor."
O salmo põe numa só linha o temor e a alegria, como a frase de Moisés põe numa só linha o "não temam" e o "temor dele".
Engrandecer como um estandarte
Isaías 62:10 — "Passem, passem pelas portas, preparem o caminho do povo; aterrem, aterrem a estrada, tirem as pedras; levantem um estandarte sobre os povos."
O versículo em que Rashi apoia a leitura de "pôr à prova" como "erguer como bandeira".
10. Original Hebraico e Análise
Texto em português
Moisés disse ao povo: “Não temam, porque Deus veio para pôr vocês à prova, e para que o temor dele esteja diante de vocês, a fim de que não pequem.”
Texto hebraico
וַיֹּ֨אמֶר מֹשֶׁ֣ה אֶל־הָעָם֮ אַל־תִּירָ֒אוּ֒ כִּ֗י לְבַֽעֲבוּר֙ נַסּ֣וֹת אֶתְכֶ֔ם בָּ֖א הָאֱלֹהִ֑ים וּבַעֲב֗וּר תִּהְיֶ֧ה יִרְאָת֛וֹ עַל־פְּנֵיכֶ֖ם לְבִלְתִּ֥י תֶחֱטָֽאוּ׃
Transliteração
va-yomer Moshe el-ha'am: al-tira'u, ki le-va'avur nassot etkhem ba ha-Elohim, u-va'avur tihyeh yir'ato al-peneikhem le-vilti techeta'u.
Na Bíblia hebraica, este é o versículo 17 do capítulo 20.
Análise palavra por palavra
אַל־תִּירָאוּ — al-tira'u, "não temam".
Verbo yare, "temer", na segunda pessoa do plural, com a negação al, a das proibições de momento e dos pedidos, diferente do lo das proibições permanentes. Moisés não legisla contra o medo; pede que ele cesse agora. A mesma fórmula, no singular, abre os oráculos de encorajamento dirigidos aos patriarcas ("Não tenha medo, Abrão", Gênesis 15:1).
כִּי לְבַעֲבוּר — ki le-va'avur, "porque para".
Ba'avur é uma preposição de finalidade, "por causa de, a fim de". Aqui vem com um le- a mais na frente, que não acrescenta sentido. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII) o chama de supérfluo e compara com outros casos de le- sem função, como em 1 Crônicas 15:13. A forma reforçada é rara, e alguns leitores veem nela só ênfase.
נַסּוֹת אֶתְכֶם — nassot etkhem, "pôr vocês à prova".
Infinitivo do Piel (a forma intensiva do verbo hebraico) de nasah, "provar, testar". O verbo e os seus sentidos estão no estudo de Gênesis 22:1. A leitura de Rashi, que liga a palavra a nes, "estandarte", não se sustenta pela gramática: nes vem de outra raiz (nss), e nassot é a forma normal do verbo de provar. Nachmânides faz exatamente essa objeção. A Septuaginta traduz por peirasai, "pôr à prova", o mesmo verbo grego que usa em Gênesis 22:1.
בָּא הָאֱלֹהִים — ba ha-Elohim, "Deus veio".
Ba é o verbo "vir" no perfeito, terceira pessoa do singular: uma vinda já acontecida. Ha-Elohim, com artigo, "o Deus", é a forma que o Êxodo usa na cena do Sinai com frequência (Êxodo 19:17, 19:19 e o versículo 21). A ordem é invertida: o verbo vem depois da finalidade, e o sujeito no fim, o que dá à frase o peso de uma explicação.
וּבַעֲבוּר תִּהְיֶה יִרְאָתוֹ — u-va'avur tihyeh yir'ato, "e para que o temor dele esteja".
Yir'ah é o substantivo da mesma raiz de tira'u: a frase usa a raiz duas vezes, primeiro para negar e depois para afirmar. O sufixo -o, "dele", deixa em aberto se é o temor que se tem por Deus ou o temor que Deus provoca. O verbo tihyeh está no feminino porque yir'ah é feminino.
עַל־פְּנֵיכֶם — al-peneikhem, "diante de vocês", literalmente "sobre os seus rostos".
A expressão pode ter o sentido comum de "diante de", "à vista de" — é assim que a ABC traduz, e é assim que a maioria das traduções a entende. Mas a preposição al quer dizer "sobre", e panim é "rosto". Foi a leitura literal, "sobre os seus rostos", que levou os mestres a ver ali o rubor da vergonha (item 2). A Septuaginta escreve en hymin, "em vocês".
לְבִלְתִּי תֶחֱטָאוּ — le-vilti techeta'u, "a fim de que não pequem".
Le-vilti é a negação de finalidade, "para não". Techeta'u é o verbo chata, "errar o alvo, pecar", segunda pessoa do plural. O sentido básico da raiz é o de errar o alvo: em Juízes 20:16 descreve os fundeiros de Benjamim que atiravam pedra num fio de cabelo "e não erravam". Pecar, na imagem da palavra, é não acertar.
11. Conclusão
Com base no que foi visto, o versículo leva a uma conclusão sobre o medo: no Sinai, ele não é eliminado nem glorificado, é redirecionado. O pavor diante do fogo deve passar; um temor com objeto e com função deve ficar. A mesma raiz cobre os dois, e a diferença está no que cada um faz — um paralisa, o outro impede o erro.
Leva também a uma conclusão sobre o sentido da revelação. Moisés a explica por um propósito, e esse propósito é ambíguo de propósito: prova pode ser exaltação, cobrança, proteção ou iniciação. O que todas as leituras têm em comum é que o Sinai não termina em si mesmo; ele é feito para ter efeito depois, na conduta de quem esteve lá.
E, por fim, o versículo mostra que a primeira tarefa de Moisés como intermediário não é transmitir uma lei, e sim dar sentido a uma experiência que assustou. Antes de "o que vocês devem fazer", vem "o que vocês viveram".













