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Êxodo 20:6

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 25 min de leitura·👁 16 acessos
e uso de bondade com milhares, com os que me amam e guardam os meus mandamentos.
Um ancião de cabelos brancos, sentado à porta de uma casa de pedra, abençoa com a mão estendida uma longa fila de descendentes de todas as idades que se perde ao longe numa estrada de terra ao pôr do sol.

Estudo


e uso de bondade com milhares, com os que me amam e guardam os meus mandamentos.

1. Introdução

A frase que começou no versículo anterior com a culpa visitada até a quarta geração termina aqui com a bondade "com milhares". O hebraico não diz milhares de quê: de pessoas, como leram a Septuaginta e a Vulgata, ou de gerações, como leram o Targum, Rashi e o Deuteronômio, que fala em "mil gerações". Os rabinos fizeram a conta e chegaram a uma proporção de um para quinhentos entre o castigo e a recompensa. E os beneficiários são definidos por dois verbos, amar e guardar, que a tradição leu de modos muito diferentes, até o martírio.

2. Contexto Histórico e Cultural

Amar como verbo de vassalo

"Os que me amam" soa, para o leitor de hoje, como linguagem de sentimento. Em 1963, o assiriólogo e biblista norte-americano William L. Moran publicou um artigo curto que mudou a leitura da expressão: "O pano de fundo do amor a Deus no Deuteronômio no Oriente antigo", na revista Catholic Biblical Quarterly ("Revista Bíblica Católica"). Moran, que depois editaria a tradução de referência das cartas de Amarna, mostrou que "amar" era vocabulário técnico da diplomacia antiga.

Nas cartas de Amarna (correspondência de reis cananeus e de grandes reinos com o faraó, do século XIV a.C.), o vassalo fiel é o que "ama" o rei, e o faraó "ama" o vassalo que o serve. Setecentos anos depois, o tratado de sucessão do rei assírio Assaradon, de 672 a.C., impõe aos vassalos um juramento com esta cláusula: vocês amarão Assurbanípal, o príncipe herdeiro, "como a vocês mesmos". Amar, nesses textos, é ser leal: servir com exclusividade, não conspirar, não trocar de senhor. E "odiar" é o contrário: romper, passar para o lado do inimigo.

A consequência para este versículo é direta. O par "os que me odeiam" (versículo 5) e "os que me amam" (versículo 6) é o par dos tratados: os desleais e os leais. E o segundo verbo, "guardar os meus mandamentos", não acrescenta outra coisa; explica o primeiro. Amar o suserano é cumprir as cláusulas. Por isso o Deuteronômio pode mandar amar (Deuteronômio 6:5): ninguém ordena um sentimento, mas se ordena lealdade.

A tese de Moran foi aceita em linhas gerais e corrigida nos detalhes. Estudos posteriores lembraram que o vocabulário do amor no Deuteronômio também tem tom de família — Deus ama Israel como um pai ama o filho — e que reduzir tudo a lealdade política apaga a emoção que os textos às vezes expressam. Hoje se lê a palavra com os dois registros: o da aliança e o do afeto.

Os que deram a vida: a Judeia de Adriano

A leitura rabínica mais forte deste versículo nasceu de um acontecimento histórico. Entre 132 e 135 da era comum, a Judeia se levantou contra Roma sob o comando de Simão bar Kosiba, o Bar Kokhba. A guerra terminou com a queda da fortaleza de Betar e com uma devastação que os próprios romanos registraram. A História Augusta (coleção de biografias imperiais escrita no fim do século IV) diz que a revolta começou porque Adriano proibira a circuncisão; o historiador Dião Cássio, do século III, atribui a revolta à fundação de uma cidade romana, Aelia Capitolina, sobre as ruínas de Jerusalém. As duas explicações são discutidas, e podem ter somado.

Depois da guerra veio a repressão. A literatura rabínica guarda a memória de decretos que proibiam circuncidar, estudar a Torá em público, ordenar mestres e guardar as festas, e de mestres executados por desobedecer — entre eles Rabi Akiva. O alcance exato desses decretos e o tempo que duraram não são claros; a fonte é quase só rabínica, e escrita depois. Mas foi nessa memória que a Mekhilta leu "os que me amam e guardam os meus mandamentos": as pessoas que eram levadas à execução por ter circuncidado um filho, lido a Torá, comido pão sem fermento na Páscoa ou segurado o ramo de palmeira na festa das Tendas. As penas que o texto enumera — a espada, a fogueira, a cruz, o açoite — são as do direito penal romano.

3. Análise Teológica do Versículo

"e uso de bondade"

A frase continua a do versículo anterior, e a gramática faz questão de mostrar o paralelo. Lá, Deus é "o que visita"; aqui, "o que faz bondade". As duas formas são particípios, isto é, descrevem um modo de agir constante, não um ato isolado. O versículo põe lado a lado duas maneiras de Deus ser, com a mesma construção, e só então mede o alcance de cada uma.

A palavra traduzida por "bondade" é a da lealdade devida dentro de um vínculo; no Êxodo, ela só aparece quatro vezes, e o seu sentido está desenvolvido no estudo de Êxodo 15:13. Aqui o que importa é a direção: depois de dizer até onde vai a cobrança, o Decálogo diz até onde vai a bondade, e a resposta não tem a mesma escala.

Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) diz aqui que a cobrança das gerações conta entre os atributos de misericórdia, e a razão já está no que ele escreveu sobre o versículo anterior: a demora é paciência. O Deus que cobra só na quarta geração deu três para a mudança.

"com milhares"

Milhares de quê? O hebraico diz só "para milhares". O versículo anterior falava de gerações sem dizer a palavra "geração", e a pergunta é se ela continua subentendida aqui.

Primeira leitura: milhares de gerações. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas) acrescenta a palavra que falta: "para milhares de gerações". Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI), Rashbam (Rabi Samuel ben Meir, neto de Rashi) e os comentaristas cristãos Ellicott, Barnes e Gill (comentaristas ingleses e norte-americano dos séculos XVIII e XIX) leem do mesmo modo, e as traduções judaicas e protestantes modernas costumam escrever "até a milésima geração". O apoio mais forte está na própria Torá: Deuteronômio 7:9 diz, com todas as letras, que Deus "guarda a aliança e a bondade, para mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos". O paralelo com "terceira e quarta" do versículo anterior também pede gerações: contam-se gerações dos dois lados, e de um lado são quatro, do outro, milhares.

Segunda leitura: milhares de pessoas. A Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria antes de Cristo) escreveu "para milhares", sem geração; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400), in milia, "em milhares"; a tradição inglesa do rei Jaime, unto thousands. A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) defende essa leitura e trata o "mil gerações" do Deuteronômio como "amplificação retórica, e não interpretação exata". Nessa leitura, o contraste não é de tempo, mas de alcance: a cobrança fica dentro de uma família; a bondade se estende a uma multidão.

Terceira leitura: um número sem número. A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) faz o raciocínio passo a passo. Se a cobrança vai até quatro gerações, a bondade também iria só até quatro? Não: está escrito "para milhares". Mas o menor número que cabe em "milhares" é dois mil. Então são só dois mil? Não: o Deuteronômio diz "para mil gerações", e isso quer dizer gerações "sem limite e sem número". O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) chega ao mesmo lugar por outro caminho: os números não são para tomar ao pé da letra, e o que importa é o contraste. Ibn Ezra também: "para milhares" quer dizer "sem fim, para sempre".

As três leituras são compatíveis com o hebraico. A primeira tem a seu favor o paralelo com o versículo anterior e o Deuteronômio; a segunda, as traduções mais antigas; a terceira não escolhe entre elas, porque lê o número como figura. Não é possível decidir.

A conta de um para quinhentos

A Tosefta (coletânea de tradições rabínicas paralela à Mishná, por volta do século III), no tratado Sotá (4:1), levou a primeira leitura até a aritmética. A medida do castigo vai até a quarta geração; a da bondade vai a "milhares", isto é, no mínimo dois mil. Dois mil dividido por quatro: a medida do bem é quinhentas vezes maior que a do castigo. Rashi repete a conta ao comentar a fórmula dos atributos (Êxodo 34:7), com uma precisão que muda a leitura: a bondade é "a que o homem faz", guardada por Deus para ser paga até a duomilésima geração. Não é só que Deus seja bom; é que o bem feito por alguém rende aos seus descendentes por mais tempo do que o mal.

A conta é rabínica, não bíblica, e é um modo de ler. Mas ela põe em número a assimetria que o versículo tem por inteiro: a culpa e o bem não são tratados com a mesma régua. O Decálogo, que proíbe e ameaça, termina a sua primeira grande frase pela parte maior.

"com os que me amam e guardam os meus mandamentos"

São um grupo ou dois? O hebraico repete a preposição — "para os que me amam e para os que guardam" —, e a repetição permitiu ler duas categorias.

Primeira leitura: dois tipos de fiéis. A Mekhilta: "os que me amam" é Abraão "e os que são como ele"; "os que guardam os meus mandamentos" são os profetas e os anciãos. Ibn Ezra faz a mesma divisão com outras palavras: os que amam são os piedosos; os que guardam, os justos. O amor estaria acima da guarda.

Segunda leitura: os que dão a vida. Na mesma passagem, Rabi Natan (mestre do século II, vindo da Babilônia para a terra de Israel) recusa a divisão e lê a expressão inteira como a descrição de um único grupo: os judeus da terra de Israel que "entregam a vida pelos mandamentos". E dá voz a eles num diálogo seco: "Por que você vai ser morto? Porque circuncidei meu filho. Por que vai ser queimado? Porque li a Torá. Por que vai ser crucificado? Porque comi pão sem fermento. Por que leva cem açoites? Porque peguei o ramo de palmeira." E termina com Zacarias 13:6, lido como "estas feridas com que fui ferido na casa dos que me amam": foram estes golpes que me fizeram amado pelo meu Pai no céu.

Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) parte de Rabi Natan para uma leitura própria. A promessa, diz ele, está presa ao assunto destes versículos, a idolatria. "Os que me amam" são os que recusam outro deus mesmo diante da morte, e é por isso que Deuteronômio 6:5 manda amar "de toda a alma": amar com a alma é estar disposto a entregá-la. Abraão é chamado "meu amigo" (Isaías 41:8) porque, segundo uma tradição antiga, arriscou a vida em Ur para não adorar ídolos. Os outros justos são "os que guardam os meus mandamentos".

Terceira leitura: os que servem sem esperar salário. Nachmânides registra, para recusá-la, a leitura de outros eruditos: "os que me amam" seriam os que servem a Deus sem interesse em recompensa, conforme a máxima da Mishná que manda servir "como servos que não servem para receber o salário". Ele prefere a da Mekhilta. A tensão entre as duas é real, e o próprio versículo a contém: ele promete bondade a quem ama, e a promessa transforma o amor desinteressado num amor que tem retorno anunciado.

Quarta leitura: amar é guardar. É a leitura que o fundo de aliança sugere (item 2) e que Matthew Poole (puritano inglês do século XVII) defende em termos de doutrina: a conjunção das duas coisas desmente tanto quem diz amar a Deus sem guardar os seus mandamentos quanto quem os guarda sem amor. Nessa leitura, não há dois grupos; há uma única fidelidade descrita por dentro e por fora.

A pergunta que sobra é a de Ibn Ezra: a bondade para milhares alcança qualquer descendente dos que amaram, ou só os que se parecem com eles? Ele responde que só os segundos — o versículo diz "aos que me amam", e o neto que não ama não entra na conta. Sforno (Ovadia Sforno, rabino italiano do século XVI) responde o contrário: o mérito dos pais pode fazer Deus suportar com paciência os erros dos filhos. A primeira resposta é simétrica à leitura rabínica do versículo 5 — paga e recebe quem repete —; a segunda é simétrica à de Shadal — a herança passa, para o bem ou para o mal.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Rabi Natan — mestre do século II, filho de um líder da comunidade judaica da Babilônia, que se estabeleceu na terra de Israel e foi vice-presidente da academia no tempo de Rabban Simão ben Gamaliel. A tradição lhe atribui uma das versões do tratado Avot ("Ética dos pais"). Na Mekhilta, é ele quem lê este versículo como descrição dos mártires.

Abraão, "o amigo" — Isaías 41:8 chama Abraão de "aquele que me ama", com o mesmo verbo deste versículo; as traduções escrevem "meu amigo". Para a Mekhilta, ele é o primeiro dos "que me amam".

Adriano — imperador romano de 117 a 138. Viajou por todo o império, mandou erguer a muralha que leva o seu nome na Britânia e reconstruiu Jerusalém como colônia romana com o nome de Aelia Capitolina. A memória rabínica o guarda como o perseguidor por excelência.

Simão bar Kosiba — chefe da revolta de 132-135, chamado pelos seguidores de Bar Kokhba ("filho da estrela"). Cartas assinadas por ele foram achadas em cavernas do deserto da Judeia.

William L. Moran — padre jesuíta, assiriólogo e professor em Harvard (1921-2000), autor da tradução de referência das cartas de Amarna e do artigo de 1963 sobre o amor a Deus como lealdade de aliança.

Lugares

Betar — fortaleza a sudoeste de Jerusalém, último reduto da revolta, tomada pelos romanos em 135. A tradição judaica a lembra entre as desgraças do dia 9 do mês de Av.

5. Pontos de Ensino

1. Ameaça e promessa formam uma só frase. A cobrança do versículo 5 e a bondade do versículo 6 são ditas com a mesma forma verbal e no mesmo fôlego. Uma não se lê sem a outra.

2. As duas medidas são desiguais. Quatro gerações de um lado, milhares do outro. Qualquer que seja a leitura de "milhares", a desproporção é o que o versículo afirma.

3. "Amar" é palavra de aliança. No vocabulário dos tratados antigos, amar o senhor é ser leal a ele. "Os que me amam" e "os que me odeiam" são os fiéis e os traidores.

4. A bondade tem destinatários definidos. O versículo não fala de bondade para todos, mas para os que amam e guardam. A tradição discutiu se os descendentes de quem amou herdam a promessa mesmo sem amar.

5. A leitura mais extrema nasceu de uma perseguição real. Rabi Natan leu os mártires da repressão romana neste versículo. A promessa de bondade, nessa leitura, é dita a quem perdeu tudo por guardar os mandamentos.

6. Aspectos Filosóficos

Se Deus faz o bem "aos que me amam e guardam os meus mandamentos", esse bem é um salário? Rashi diz que é: Deus guarda o bem que o homem faz "para pagar a recompensa" até a duomilésima geração. Mas um salário que paga quinhentas vezes o trabalho, e paga a quem não trabalhou — os descendentes —, já não é salário. A pergunta é que tipo de troca o versículo descreve.

Três dons

Marcel Hénaff (1942-2018), filósofo e antropólogo francês que ensinou na Universidade da Califórnia em San Diego, dedicou a essa pergunta o livro Le prix de la vérité ("O preço da verdade"), de 2002. O ponto de partida é antigo: por que os filósofos gregos, a começar por Sócrates, se recusavam a cobrar pelo ensino, enquanto os sofistas cobravam? A resposta de Hénaff é que há coisas que não têm preço, não porque valham pouco ou muito, mas porque pertencem a outra ordem — a ordem do reconhecimento entre pessoas, que o dinheiro não alcança.

Para descrever essa outra ordem, Hénaff distingue três tipos de dom. O primeiro é o dom cerimonial, recíproco e público: o presente que um grupo dá a outro para selar uma aliança, e que exige resposta. Ele não serve para enriquecer ninguém; serve para que as partes se reconheçam e fiquem ligadas. O segundo é o dom gracioso, unilateral: o que se dá sem esperar volta, por generosidade. O terceiro é o dom solidário, a ajuda mútua dentro de um grupo. O erro moderno, diz ele, é ler o primeiro com os olhos do mercado, como se o presente cerimonial fosse uma forma primitiva de pagamento. Não é. O mercado quita a dívida e encerra a relação; o dom cerimonial cria uma dívida que ninguém quer quitar, porque é ela que mantém as partes ligadas.

O que o quadro mostra no versículo

Os dois versículos, lidos juntos, têm a forma do dom cerimonial e recusam a forma do mercado. Há reciprocidade: a bondade é dita a "os que me amam", e amar, no vocabulário da aliança, é responder com lealdade (item 2). Mas a reciprocidade não é proporcional. Quatro gerações de cobrança, milhares de bondade: nenhum contador fecharia essa conta. A desproporção é justamente o sinal de que não se trata de pagamento. Um salário mede o trabalho; um dom cerimonial mede a aliança, e a aliança não tem medida.

A conta da Tosefta, um para quinhentos, ganha com isso outro sentido. À primeira vista, ela é aritmética de recompensa. Mas o que ela demonstra é que a conta não fecha: a medida do bem é tão maior que a do castigo que já não pode ser chamada de troca. E a leitura de Rabi Natan leva a lógica de Hénaff ao extremo. Os mártires da Mekhilta não recebem nada nesta vida pelo que deram; dão a vida e recebem o nome de "amados". É um dom que não espera resposta e uma resposta que não é pagamento — os dois movimentos que Hénaff separa do mercado.

Há ainda o terceiro tipo de dom, o solidário, que ilumina a questão de Ibn Ezra e Sforno sobre os descendentes. Se a bondade passa aos filhos de quem amou mesmo que eles não amem, ela funciona como herança de grupo: o que um membro conquistou beneficia os outros. Se passa só aos que amam, ela continua sendo um laço pessoal, renovado a cada geração. Hénaff não decide entre os dois; mostra que são lógicas diferentes, e que uma sociedade pode viver com as duas.

O limite

Hénaff escreve como antropólogo e filósofo sobre trocas entre seres humanos, e não trata do Decálogo; a aproximação é deste estudo. A relação entre Deus e Israel não é uma relação entre iguais, como a dos grupos que trocam presentes nas sociedades que ele estuda, e o versículo fala de um Deus que define sozinho os termos. Além disso, a categoria de dom unilateral, que ele chama de gracioso, tem no Ocidente uma história cristã que não se deve projetar no Êxodo. O que o quadro ajuda a ver é que o versículo não descreve um contrato de prestação de serviços. Descreve uma aliança, e a desproporção entre as duas medidas é a maneira de o texto dizer que ela não se reduz a uma conta.

7. Aplicações Práticas

O versículo tem uma consequência prática que o leitor pode reconhecer sem nenhuma teologia: o bem feito numa família dura mais do que se espera. Um avô que pagou as dívidas, uma mãe que ensinou a ler, alguém que foi honesto quando ninguém via — essas coisas viram reputação, hábito, confiança, e passam adiante por gerações. A desproporção que a Tosefta calcula, um para quinhentos, é exagero de rabino; a direção do exagero corresponde ao que muitos observam nas próprias famílias.

A leitura de Ibn Ezra acrescenta um aviso honesto: a herança do bem não é automática. Os netos de um justo recebem um capital de confiança, mas o versículo fala dos "que me amam". O nome da família abre portas; não as mantém abertas.

E a leitura de Rabi Natan deixa uma pergunta que cada geração responde de novo: o que se está disposto a perder para continuar fiel a uma convicção. Para os mártires da Judeia, a resposta era a vida. Para a maioria dos leitores, a pergunta vem em escala menor — um emprego, uma amizade, uma vantagem —, mas tem a mesma forma.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

Se a bondade é "para milhares de gerações", por que a história de Israel tem tantos desastres?

A pergunta é antiga, e a própria Bíblia a faz nos Salmos e em Jó. As respostas tradicionais são duas. A primeira é a de Ibn Ezra: a promessa vale para os que amam, e as gerações que deixaram de amar saíram dela. A segunda é que a bondade não se mede em prosperidade: o povo sobreviveu, e a Mekhilta chama de "amados" justamente os que foram mortos. Nenhuma das duas resolve o problema de quem sofre sendo fiel, e o Talmude, como se viu no versículo anterior, registra que nem a Moisés foi revelado o modo como Deus governa o mundo.

Se o Deuteronômio diz "mil gerações", por que o Êxodo diz "milhares"?

Os comentaristas judeus viram a diferença e propuseram harmonizações. Ibn Ezra separa os dois textos: o "mil gerações" do Deuteronômio seria o juramento feito aos patriarcas, e o "milhares" do Êxodo, uma promessa sem fim a quem ama. Rashbam (neto de Rashi, França, século XII) faz uma conta engenhosa: o Êxodo conta os filhos, netos e bisnetos e chega aos "milhares", isto é, aos filhos que vêm depois da milésima geração; o Deuteronômio, que não contou as gerações intermediárias, nomeia só a última, a milésima. As duas soluções mostram que a diferença incomodava. A mais simples é que os dois textos dizem a mesma coisa com números redondos de tamanho diferente.

O versículo é recitado em alguma oração?

Não diretamente, mas a sua fórmula entrou na oração bíblica. Neemias (Neemias 1:5) e Daniel (Daniel 9:4) começam as suas súplicas chamando Deus de aquele "que guarda a aliança e a bondade para os que o amam e guardam os seus mandamentos". A promessa do Decálogo virou o modo de se dirigir a Deus em momentos de crise.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma promessa no Deuteronômio

Deuteronômio 5:10 — "e uso de bondade com milhares, com os que me amam e guardam os meus mandamentos."

Idêntico ao Êxodo na leitura, com uma diferença na escrita. O texto consonantal hebraico do Deuteronômio traz "os mandamentos dele", e a tradição de leitura manda ler "os meus mandamentos". Os escribas preservaram a forma escrita e indicaram na margem como se devia ler.

Deuteronômio 7:9 — "Saiba, pois, que o SENHOR, o seu Deus, é Deus, o Deus fiel, que guarda a aliança e a bondade, para mil gerações, aos que o amam e guardam os seus mandamentos."

O versículo que decide, para Ônquelos e Rashi, que os "milhares" são gerações. A frase do Decálogo passa da primeira para a terceira pessoa: o que Deus disse de si, Moisés repete como definição de quem Deus é.

A fórmula na segunda proclamação

Êxodo 34:7 — "que guarda a bondade para milhares, que perdoa a culpa, a transgressão e o pecado…"

No Sinai, depois do bezerro, o verbo muda: Deus não "faz" bondade; "guarda" bondade para milhares, como quem conserva um depósito. É deste verbo que Rashi tira a ideia de um bem guardado para os descendentes de quem o fez.

A fórmula na oração de um profeta

Jeremias 32:18 — "Tu usas de bondade com milhares e retribuis a culpa dos pais no colo dos filhos depois deles; ó Deus grande e poderoso, cujo nome é SENHOR dos Exércitos."

Jeremias reza com as duas metades do Decálogo na véspera da queda de Jerusalém, enquanto compra um campo que os babilônios vão tomar. A ameaça e a promessa estão na mesma oração, como estão na mesma frase do Sinai.

Os que amam

Deuteronômio 6:5 — "Amarás o SENHOR, o teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força."

O mandamento de amar, que Nachmânides lê junto com este versículo: "de toda a tua alma" seria a disposição de entregar a vida.

Isaías 41:8 — "Mas você, Israel, meu servo, Jacó, a quem escolhi, descendência de Abraão, meu amigo."

"Meu amigo" traduz "aquele que me ama", o mesmo particípio deste versículo. É a base da leitura da Mekhilta, que vê em Abraão o primeiro dos "que me amam".

As feridas dos amados

Zacarias 13:6 — "E se alguém lhe perguntar: 'Que feridas são essas nas suas mãos?', ele responderá: 'São as feridas com que fui ferido na casa dos que me amam.'"

No contexto de Zacarias, a frase é de um falso profeta que tenta explicar as marcas no corpo. Rabi Natan a arranca do contexto e a põe na boca dos mártires: os golpes recebidos por guardar os mandamentos são o que os torna amados. É um uso típico da leitura rabínica, que ouve uma frase da Escritura em outra situação.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

e uso de bondade com milhares, com os que me amam e guardam os meus mandamentos.

Texto hebraico

וְעֹשֶׂה חֶסֶד לַאֲלָפִים לְאֹהֲבַי וּלְשֹׁמְרֵי מִצְוֺתָי׃

Transliteração

ve-oseh chesed la-alafim le-ohavai u-le-shomrei mitsvotai.

Análise palavra por palavra

וְעֹשֶׂה — ve-oseh, "e uso".

O "e" com o particípio ativo de asah, "fazer", no Qal (a forma simples do verbo). Literalmente, "e o que faz". A forma é paralela a poqed, "o que visita", do versículo anterior: os dois particípios descrevem modos constantes de agir e dependem do mesmo "eu" do versículo 5. É também o mesmo verbo de "não farás para ti imagem esculpida" (Êxodo 20:4). Dois versículos depois de proibir ao ser humano que faça uma figura, o texto diz o que Deus faz: bondade. A ABC traduz "uso de", locução portuguesa antiga para "pratico", que conserva o verbo de ação.

חֶסֶד — chesed, "bondade".

Substantivo masculino singular, sem artigo e sem sufixo: não "a minha bondade", mas bondade em geral. É a lealdade generosa que se pratica dentro de um vínculo, palavra analisada por inteiro no estudo de Êxodo 15:13. A Septuaginta traduziu por éleos, "misericórdia", e a Vulgata por misericordia; Ônquelos, por tivu, "bem, bondade".

לַאֲלָפִים — la-alafim, "com milhares".

A preposição le, "para", com o artigo e o plural de elef, "mil". O artigo está escondido na vogal da preposição: literalmente "para os milhares". A forma é a de plural comum; as mesmas consoantes, porém, com outras vogais, dariam alpayim, o dual hebraico, que quer dizer exatamente "dois mil". Os rabinos usaram a vizinhança das duas formas: o menor número que cabe em "milhares" é dois mil, e daí sai a conta de um para quinhentos. A palavra "gerações" não está no hebraico; Ônquelos a acrescenta (le-alfei darin, "para milhares de gerações"), a Septuaginta não (eis chiliádas, "para milhares"), nem a Vulgata (in milia).

לְאֹהֲבַי — le-ohavai, "com os que me amam".

A preposição le com o particípio plural de ahav, "amar", ligado ao sufixo de primeira pessoa: "para os amantes de mim". É o par exato de le-son'ai, "para os que me odeiam", do versículo anterior: mesma preposição, mesma forma, mesmo sufixo, verbo contrário. O particípio de ahav com sufixo divino reaparece em Isaías 41:8, "Abraão, meu amigo", literalmente "o que me ama". A Septuaginta escreveu tois agapṓsin me, com o verbo grego que daria a palavra agápē.

וּלְשֹׁמְרֵי — u-le-shomrei, "e guardam".

O "e", a preposição le repetida e o particípio plural de shamar, "guardar, vigiar, observar", na forma ligada ao substantivo seguinte: "e para os guardadores de". A repetição da preposição é o detalhe que permitiu à Mekhilta e a Ibn Ezra ler dois grupos — os que amam e os que guardam — em vez de um.

מִצְוֺתָי — mitsvotai, "os meus mandamentos".

Plural de mitsvah, "ordem, mandamento", da raiz tsavah, "ordenar", com o sufixo de primeira pessoa. É a primeira vez no Decálogo que aparece a palavra "mandamento"; até aqui, o texto se chamou "palavras". A Septuaginta traduziu por prostágmata, "ordens, determinações", e não por entolaí, a palavra que ela usa mais vezes para "mandamentos". No texto paralelo de Deuteronômio 5:10, as consoantes escritas dizem "os mandamentos dele", e a leitura tradicional corrige para "os meus". Com esta palavra, o motivo que começou no versículo 5 se fecha, e a primeira grande frase do Decálogo termina; na escrita do rolo, o espaço em branco que vem depois marca o fim do parágrafo.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que o Decálogo mede o bem e o mal com réguas diferentes, e diz isso de propósito. A frase que começou com a culpa visitada até a quarta geração termina com a bondade para milhares, na mesma forma verbal e no mesmo fôlego. Seja qual for o sentido de "milhares" — gerações, pessoas ou um número sem número —, a desproporção é o que o texto afirma, e é ela que impede de ler os dois versículos como uma tabela de retribuição.

A segunda é que os destinatários da bondade são definidos por uma relação, e não por um mérito contado. "Os que me amam e guardam os meus mandamentos" é linguagem de aliança: os leais. A tradição discutiu se eram um grupo ou dois, se o amor estava acima da guarda, se os descendentes herdavam a promessa sem amar. Em todas as respostas, a bondade fica ligada a um vínculo que precisa ser mantido, e não a uma dívida que se quita.

A terceira é que a leitura mais radical do versículo foi também a mais concreta. Quando a fidelidade aos mandamentos passou a custar a vida, a Mekhilta encontrou aqui os mártires, e Nachmânides, o amor que recusa outro deus diante da morte. O texto não diz isso; mas a escolha de ligar "os que me amam" à proibição da idolatria deixou o versículo pronto para ser lido assim quando a história o exigiu.

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