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Êxodo 20:4

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 28 min de leitura·👁 15 acessos
Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.
Na penumbra de uma oficina antiga, um artesão de túnica simples segura um formão diante de um bloco de madeira apenas desbastado, ainda sem rosto; ao fundo, por uma porta aberta, vê-se o acampamento de tendas ao pé de um monte coberto de nuvens.

Estudo


Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

1. Introdução

Depois de proibir outros deuses, o Decálogo proíbe fabricar imagens: nem estátua talhada, nem figura de nada que exista no céu, na terra ou nas águas. O versículo usa duas palavras diferentes para a imagem e percorre o mundo inteiro em três andares, sem deixar nenhuma criatura de fora. A pergunta que ele deixou para os leitores é se o que se proíbe é fazer a imagem ou adorá-la, e o próprio Êxodo complica a resposta, porque cinco capítulos adiante manda esculpir dois querubins de ouro. Judeus, cristãos bizantinos, latinos e reformados responderam de modos diferentes, e a briga chegou a derrubar ícones e a depor patriarcas. O texto hebraico não decide essa briga, mas mostra onde cada lado se apoiou.

2. Contexto Histórico e Cultural

Um deus sem estátua, num mundo de estátuas

No Oriente antigo, todo templo importante tinha no fundo uma sala com a imagem do deus. Era ela que recebia comida, roupa e incenso, e era ela que saía em procissão nos dias de festa. Um santuário sem imagem seria, para um egípcio ou um babilônio, uma casa sem morador. A proibição deste versículo vai contra o costume de todos os vizinhos de Israel.

O sueco Tryggve Mettinger (estudioso do Antigo Testamento da Universidade de Lund) deu à questão a forma que ela tem hoje, no livro No Graven Image? ("Nenhuma imagem esculpida?"), de 1995. Ele separou o culto sem imagem de fato — o deus venerado numa pedra erguida ou num trono vazio, sem que ninguém precise proibir estátuas, como faziam vários povos semitas — do culto sem imagem por princípio, que proíbe e destrói. O segundo é raro, e é o deste versículo. A tese de Mettinger é que Israel começou com o costume e só depois fez dele lei. É hipótese, e a data da passagem não tem consenso.

O lugar vazio entre as asas

A forma típica desse culto é o trono sem ocupante. Os querubins sobre a arca formam um assento ladeado por seres alados, e a Bíblia chama o SENHOR de "o que se senta sobre os querubins" (1 Samuel 4:4). Tronos ladeados por esfinges aladas eram mobília real comum na Fenícia e em Canaã; em Israel, ninguém está sentado neles.

Em 1968, o arqueólogo norte-americano Paul Lapp encontrou em Taanaque, no vale de Jezreel, um suporte de culto de argila do século X a.C., com quatro andares de figuras. Num deles, duas esfinges aladas ladeiam um espaço vazio. Ruth Hestrin (curadora do Museu de Israel) e J. Glen Taylor (biblista canadense) propuseram que o vazio representa o deus que não se mostra; outros veem ali só a entrada de um santuário. A leitura é possível, não demonstrável — e mostra o tamanho do problema: até o vazio precisa ser interpretado.

O general que entrou na sala

O testemunho estrangeiro mais antigo sobre o santuário sem imagem é romano. Em 63 a.C., Pompeu tomou Jerusalém e entrou no Santo dos Santos. Tácito (historiador romano, morto por volta de 120), que não gostava dos judeus, registra o resultado como curiosidade: "daí se divulgou que lá dentro não havia nenhuma imagem de deus, que a sede estava vazia e os segredos eram nada" (Histórias 5.9). Para um romano, o vazio era decepção. Para o leitor do Êxodo, era o versículo cumprido na arquitetura.

Sinagogas cheias de figuras

Em 1932, uma expedição franco-americana em Dura-Europos, guarnição romana à beira do Eufrates, na atual Síria, encontrou uma sinagoga com as paredes inteiramente pintadas, datada por inscrição de 244 ou 245 da era comum. Os afrescos mostram Moisés diante da sarça, a travessia do mar, a visão dos ossos secos de Ezequiel. Deus aparece de um só modo: uma mão que sai das nuvens. Três séculos depois, a sinagoga de Beit Alfa, no vale de Jezreel, recebeu um piso de mosaico com o sacrifício de Isaque, os doze signos do zodíaco e, no centro, o deus-sol grego no seu carro. No sacrifício de Isaque, de novo, Deus é só uma mão.

Os achados dizem a mesma coisa de dois jeitos. A recusa de representar o Deus de Israel foi firme: nenhuma sinagoga antiga conhecida mostra o seu rosto ou o seu corpo. A recusa de representar criaturas variou com o lugar e a época, de comunidades que não toleravam nem moeda com efígie a outras que pintavam profetas nas paredes.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não farás para ti"

O verbo é o de fabricar. A frase não diz "não adorarás imagem"; diz "não farás". A adoração só aparece no versículo seguinte. Daí a pergunta que a tradição inteira fez: o pecado está em fazer a imagem, ou em fazê-la para adorar?

Primeira leitura: fazer já é proibido. Sforno (Ovadia Sforno, rabino italiano do século XVI) diz isso em meia linha: não farás imagem "mesmo que não pretendas usá-la como objeto de culto". A Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, compilada por volta do século III) vai pelo mesmo caminho com uma enumeração que não acaba: nem figura em relevo, nem plana, nem de madeira, nem de pedra, nem de prata, nem de ouro, nem de chumbo, nem de homem, de animal, de peixe, de astro ou de anjo. E fecha: "a tal ponto o Santo, bendito seja, perseguiu a má inclinação, para não lhe deixar pretexto de licença". Maimônides (jurista e filósofo judeu do século XII), nas suas leis sobre a idolatria, codificou uma versão moderada dessa leitura: proibiu esculpir a figura humana em relevo mesmo para enfeite, e permitiu a pintura plana e as figuras de animais.

Segunda leitura: fazer para adorar. É a dos comentaristas cristãos que o Bible Hub reúne. Matthew Poole (puritano inglês do século XVII) diz que a lei visa imagens feitas "para serem adoradas"; Ellicott (Charles Ellicott, bispo inglês do século XIX) manda ler os dois versículos como uma frase só, e acusa os intérpretes judeus posteriores de um "literalismo estreito" que o próprio Moisés não praticou.

A tradição rabínica conheceu essa segunda leitura e a pôs na boca de um mestre. A Mishná (a primeira compilação escrita da lei oral judaica, por volta do ano 200), no tratado Avodá Zará ("Culto estrangeiro", 3:4), conta que um certo Proclo encontrou Rabban Gamaliel nas termas de Aco, onde havia uma estátua de Afrodite, e o acusou de contradizer a própria Torá. Gamaliel respondeu que não tinha entrado no território da deusa; ela é que tinha entrado no dele. Ninguém diz "vamos fazer um banho para enfeitar Afrodite"; diz-se "vamos fazer uma Afrodite para enfeitar o banho". Ali os homens passavam nus diante dela e urinavam ao lado. E a regra: o que é tratado como deus é proibido; o que não é tratado como deus é permitido.

As duas leituras convivem até hoje. A primeira lê o versículo sozinho; a segunda o lê junto com o seguinte. O hebraico admite as duas, e não é possível decidir pela gramática.

O problema dos querubins

Quem fica com a primeira leitura esbarra no próprio Êxodo. Cinco capítulos adiante, Deus manda fazer dois querubins de ouro batido sobre a tampa da arca (Êxodo 25:18-20). Querubins são seres do céu, exatamente o que este versículo proíbe figurar "em cima no céu". O templo de Salomão terá ainda doze bois de bronze sustentando o tanque (1 Reis 7:25). O mesmo livro que proíbe figuras manda fazê-las.

John Gill (teólogo batista inglês do século XVIII) responde que aqueles objetos não foram feitos para receber culto. A Mekhilta responde que o objeto prescrito é culto e o mesmo objeto alterado vira ídolo. E João Calvino tem a resposta mais engenhosa, nas Institutas da Religião Cristã (I.11.3): os querubins cobriam o propiciatório com as asas. Não mostravam Deus; escondiam o lugar dele. A figura permitida era uma figura que vedava a vista.

"imagem esculpida, nem figura alguma"

São duas palavras somadas. A primeira é a da estátua talhada: Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI) explica o nome por "ter sido cortada" a golpes de ferramenta. A segunda é a forma visível de uma coisa, aquilo pelo qual ela é reconhecida; Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) a definem como "a forma que se vê", e não a que se fabrica.

A segunda palavra tem uma história no resto da Torá. É a que o Deuteronômio usa para dizer que no Horebe o povo não viu "forma alguma", só ouviu a voz. E é a mesma que o livro de Números usa para o privilégio de Moisés: "ele contempla a forma do SENHOR" (Números 12:8). A palavra que este versículo proíbe produzir é a que a Torá reserva para o que Moisés, e só ele, viu. O povo não viu a forma; Moisés a viu e não a desenhou. Lida assim, a proibição não diz que Deus não tem aparência: diz que ninguém está autorizado a fixá-la.

O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas) traduz as duas palavras por "imagem" e "semelhança", os dois termos de Gênesis 1:26: "Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança". A imagem de Deus que o versículo proíbe fazer já existe, feita por Deus: é o ser humano.

"do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra"

Três andares: o céu, a terra e as águas abaixo do nível do chão. A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) resume: "o universo material inteiro". Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) corrige a imagem dos andares com geografia: as águas estão "debaixo da terra" só porque o mar fica abaixo do chão; terra e mar formam um único globo.

A Mekhilta percorre os andares um a um. "Em cima no céu" inclui anjos, querubins e as rodas celestes da visão de Ezequiel. "Nas águas debaixo da terra", diz Rabi Akiva (mestre da Judeia, morto por volta de 135), inclui o reflexo, a imagem que a água devolve a quem se debruça. É a leitura mais fina do conjunto: até a imagem que ninguém fabrica pode ser tomada por deus. Nachmânides (rabino catalão do século XIII) acrescenta que nada disso recebe culto "mesmo que o adorador não pretenda sair da autoridade" de Deus.

O que o mandamento proíbe aos cristãos?

Se Deus se fez homem em Jesus, ainda vale a proibição de representá-lo? Nenhum versículo da Bíblia hebraica provocou tanta destruição material na história cristã. Foram quatro respostas.

Primeira: os ícones são ídolos. É a dos imperadores iconoclastas ("quebradores de imagens") de Constantinopla. A tradição atribui a Leão III, por volta de 726-730, o início da campanha; historiadores recentes, como Leslie Brubaker e John Haldon (2011), mostraram que boa parte disso vem de fontes escritas depois, pelos vencedores. Certo é o concílio de Hieria, em 754, sob Constantino V. O argumento não era bíblico, era sobre Cristo: quem o pinta ou separa a natureza humana da divina, ou pretende pintar a divindade, que não se pinta. A única imagem verdadeira de Cristo seria a eucaristia.

Segunda: a encarnação mudou as condições da lei. É a do segundo concílio de Niceia, em 787. O decreto distingue o que o versículo seguinte junta: às imagens se deve "prostração de honra", e não a adoração que só cabe a Deus. As duas palavras gregas são as da Septuaginta (a tradução grega feita em Alexandria antes de Cristo) para "não te prostrarás" e "nem as servirás" — o concílio separou o que a lei tinha unido. E citou Basílio de Cesareia (bispo do século IV): "a honra prestada à imagem passa ao modelo". Teodoro Estudita (759-826) levou o argumento ao fim, nas suas Refutações dos inimigos das imagens: Moisés proibiu figurar Deus porque Deus não tinha sido visto; em Cristo, foi. Se Cristo não pode ser representado, não tem contorno; se não tem contorno, não é homem de verdade. E o ícone se parece com Cristo sem ser feito da matéria dele, como o retrato do imperador não é o imperador. A disputa terminou em 843, com a restauração dos ícones.

Terceira: nem destruir nem adorar. O Ocidente latino ficou no meio. O papa Gregório Magno escreveu, por volta de 600, a um bispo de Marselha que tinha quebrado as imagens da sua igreja: não se adora a pintura, mas "o que a escrita oferece a quem lê, a pintura oferece aos que não sabem ler". Os teólogos de Carlos Magno, nos chamados Livros Carolinos (por volta de 790), recusaram tanto a destruição quanto o culto.

Quarta: as imagens de Deus falsificam Deus. É a da Reforma suíça. Calvino (Institutas I.11) não condena a arte — "a escultura e a pintura são dons de Deus" —, mas só se deve pintar "o que os olhos são capazes de ver" (I.11.12), e Deus não é visível. É dele a frase mais citada sobre o assunto: "o espírito humano é, por assim dizer, uma fábrica perpétua de ídolos" (I.11.8). Lutero, ao contrário, conteve a quebra de imagens que o colega Andreas Karlstadt incitou em Wittenberg em 1522: imagens de memória e de ensino não eram mandadas nem proibidas.

O peso que a contagem dos mandamentos teve nessa briga está no estudo de Êxodo 20:3. O que o hebraico permite dizer é limitado: o versículo proíbe fabricar figuras para culto, e muito provavelmente qualquer figura de Deus. Uma encarnação está fora do seu horizonte. As respostas cristãs são leituras do versículo à luz de uma fé que ele não conhece, e cada uma escolheu qual metade da frase pesava mais.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

Rabban Gamaliel II — chefe da academia de Yavne, perto da costa da Judeia, no fim do século I e começo do II, depois da destruição do Templo. "Rabban" ("nosso mestre") era o título dos patriarcas da sua família. A Mishná o mostra várias vezes em conversa com pagãos e filósofos; a Mekhilta o põe respondendo a outro filósofo sobre o "Deus zeloso" do versículo seguinte.

Constantino V — imperador bizantino de 741 a 775, que transformou a campanha contra os ícones em doutrina e perseguiu os monges que a recusaram. Os inimigos o apelidaram de "Coprônimo" ("nome de esterco"), e quase tudo o que se sabe dele foi escrito por esses inimigos.

Teodoro Estudita — abade do mosteiro de Estúdio, em Constantinopla. Reformou a vida dos mosteiros bizantinos, deixou centenas de cartas e foi exilado três vezes, a última por desobedecer ao imperador Leão V na segunda fase da disputa, aberta em 815.

Andreas Karlstadt — colega de Lutero na Universidade de Wittenberg. O seu panfleto Sobre a remoção das imagens, de 1522, provocou a quebra de imagens na cidade, e Lutero deixou o esconderijo onde estava para contê-la.

Lugares

Taanaque — cidade cananeia na borda sul do vale de Jezreel, a poucos quilômetros de Meguido, onde se achou o suporte de culto de quatro andares.

Dura-Europos — cidade fundada pelos sucessores de Alexandre à beira do Eufrates, depois guarnição romana na fronteira com a Pérsia. Foi abandonada depois do cerco persa de por volta de 256, e o aterro feito às pressas pelos defensores contra a muralha soterrou e conservou a sinagoga pintada.

Beit Alfa — kibutz no vale de Jezreel, junto ao monte Gilboa, onde lavradores, ao abrir um canal de irrigação em 1928, toparam com o mosaico da sinagoga do século VI.

5. Pontos de Ensino

1. O mandamento proíbe um ato de fabricação. O verbo é "fazer"; a adoração vem no versículo seguinte. Toda a história da leitura gira em torno da relação entre os dois verbos.

2. Não se limita a deuses estrangeiros. O versículo não diz "imagem de outros deuses"; diz "figura de qualquer coisa". A proibição alcança também a tentativa de representar o próprio SENHOR.

3. A forma de Deus não é negada; é vedada. O texto não afirma que Deus não tenha aparência: afirma que ninguém pode produzi-la.

4. A Torá convive com figuras prescritas. Quem lê o versículo como proibição de toda arte precisa explicar os querubins e os bois do templo, e a própria Bíblia não os trata como exceções a justificar.

5. Três critérios disputam a fronteira. O uso (Gamaliel: o que é tratado como deus), o conteúdo (Calvino: só o que os olhos veem) e a encarnação (Teodoro: o Deus que foi visto pode ser pintado). Cada um responde a uma parte do texto, e nenhum o esgota.

6. Prática e princípio não coincidiram sempre. Nenhuma estátua do Deus de Israel foi identificada com segurança num santuário israelita, mas sinagogas antigas tinham profetas, astros e animais pintados. A fidelidade ao versículo não significou sempre a mesma prática.

6. Aspectos Filosóficos

O que separa uma imagem de um ídolo? Um retrato do avô na parede e uma estátua no altar podem ser feitos da mesma madeira pelas mesmas mãos. A diferença não está no objeto; está no que se espera dele.

Marie-José Mondzain, filósofa francesa nascida em 1944, pesquisadora do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França, passou a vida fazendo essa pergunta, e foi buscar a resposta num lugar inesperado: nos tratados bizantinos a favor dos ícones. O livro em que ela a desenvolve se chama Image, icône, économie ("Imagem, ícone, economia"), de 1996, com o subtítulo "As fontes bizantinas do imaginário contemporâneo". A tese é que a nossa maneira de pensar as imagens, inclusive as do cinema e da televisão, foi formada naquela disputa sobre este versículo.

A imagem como relação

O autor que Mondzain lê com mais cuidado é Nicéforo, patriarca de Constantinopla no começo do século IX, contemporâneo de Teodoro Estudita e, como ele, deposto e exilado por defender os ícones. Nicéforo respondia aos iconoclastas, que acusavam o ícone de pretender conter Cristo, com uma distinção: o ícone não tem a substância do que mostra; tem apenas uma relação com ele. A imagem é semelhante ao modelo e, por isso mesmo, diferente dele. Ela aponta para alguém que não está nela.

Para Mondzain, essa distinção é o achado filosófico de toda a disputa. A imagem verdadeira, diz ela, é feita de uma ausência: mostra alguém que não está ali e mantém a distância entre o espectador e o que é mostrado. O ídolo é o contrário. O ídolo é a imagem que pretende estar cheia, que se dá como a própria presença, que não aponta para nada além de si. Os iconoclastas, curiosamente, pensavam a imagem verdadeira como imagem "cheia": por isso só aceitavam a eucaristia, que tem a substância de Cristo.

Num livro posterior, L'image peut-elle tuer? ("A imagem pode matar?"), de 2002, Mondzain resume a distinção em dois verbos franceses que o português também tem: a imagem "encarna", o ídolo "incorpora". Encarnar é dar corpo visível a alguém sem confundir-se com ele. Incorporar é engolir: o espectador é absorvido na coisa, e a distância desaparece.

A economia

A palavra do título é a mais original do livro. Em grego, oikonomía ("administração da casa") foi usada pelos teólogos para o plano de Deus na história e, em especial, para a encarnação. Os defensores dos ícones a usaram para dizer que a imagem pertence a esse plano: Deus se fez visível, e a imagem participa do modo como ele se deu a ver. Mondzain mostra que, ao ganhar a disputa, a Igreja bizantina ganhou também o direito de administrar o visível: decidir que imagens se fazem, como se fazem, quem as olha e com que gestos. O poder sobre as imagens, conclui ela, nasceu como teologia antes de virar política e mercado.

O que isso tem a ver com o Sinai

O versículo hebraico não conhece a solução de Nicéforo. Ele não distingue imagem boa de imagem má: proíbe fabricar. Mas a pergunta de Mondzain ajuda a ler o que ele pressupõe. Os povos vizinhos de Israel não achavam que a estátua fosse uma lembrança do deus; achavam que o deus habitava nela. A estátua era, na linguagem de Mondzain, imagem que incorpora, presença cheia. A proibição do Sinai corta isso pela raiz: se nenhuma figura pode ser feita, nenhuma pode pretender conter.

E a leitura de Rabi Akiva sobre o reflexo na água entra na mesma conversa por outro lado. Um reflexo é a imagem mais leve que existe, a que ninguém fabrica e que some quando a água se agita. Se até ela pode ser tomada por deus, o problema não está na matéria nem no artesão; está no olhar que transforma o que vê em presença. É exatamente o lugar onde Mondzain põe a diferença entre ícone e ídolo.

O limite

Mondzain escreve sobre Bizâncio e sobre a cultura visual moderna, não sobre o Êxodo, e a sua leitura dos padres gregos é de filósofa, não de historiadora da Igreja; especialistas em teologia bizantina contestam parte dela. A aproximação com o versículo é deste estudo. E ela tem um ponto cego que o próprio texto expõe: a distinção entre imagem e ídolo, por mais fina que seja, é uma distinção que o Decálogo não fez. O Sinai não confiou que o fiel saberia manter a distância diante de uma figura bem feita. Proibiu a figura. Quem fica com Nicéforo e Mondzain está apostando que essa confiança é possível; o versículo, lido na letra, aposta que não.

7. Aplicações Práticas

O versículo toca a vida comum num ponto preciso: o que se faz com uma imagem que representa algo sagrado. Para quem vive numa tradição religiosa, a questão não é teórica. Há casas com imagens de santos, casas com versículos emoldurados e casas sem nada nas paredes, e as três costumam se olhar com desconfiança.

O critério de Rabban Gamaliel serve a todas elas: o que decide é o uso. Uma imagem que lembra, que ensina, que comove, é tratada como enfeite ou como livro. Uma imagem a quem se pede proteção, que se teme quebrar porque traria azar, a que se atribui poder por si mesma, já está sendo tratada como algo mais. Essa pergunta cada um pode fazer sobre os objetos da própria casa, inclusive os que não têm figura nenhuma: uma Bíblia aberta num salmo específico "para proteger", um amuleto, uma fita amarrada no pulso.

O mesmo critério ajuda a conviver com quem pensa diferente. Um protestante que entra numa igreja ortodoxa e vê fiéis beijando ícones vê, pela sua leitura, uma violação deste versículo. O ortodoxo vê uma confissão de que Deus se fez visível. Saber que a disputa tem mais de mil anos, e que os dois lados se apoiam no mesmo texto, não obriga ninguém a mudar de lado, mas tira da conversa o tom de quem descobriu sozinho o óbvio.

Há ainda a aplicação que Calvino tornou famosa. Se a mente humana é uma fábrica de ídolos, eles não precisam ser de madeira. A imagem mental de Deus que cada um carrega — o juiz severo, o avô bonachão, o fornecedor de favores — pode ocupar o lugar que o versículo proíbe às estátuas. O texto fala de objetos fabricados; a extensão às imagens interiores é leitura, mas é leitura antiga, e o leitor pode testá-la em si mesmo.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A fotografia está proibida por este versículo?

Pela lei judaica corrente, não. A proibição de fazer figuras humanas, como Maimônides a codificou, alcança a escultura em relevo, e a fotografia é imagem plana. Há comunidades ultraortodoxas que evitam fotografar ou expor retratos por outros motivos, como o recato, e houve rabinos que discutiram se a fotografia "faz" alguma coisa, já que quem a tira não desenha. Na prática, judeus observantes têm retratos em casa e fotografias em documentos.

Por que, nas sinagogas antigas, Deus aparece como uma mão?

Os pintores de Dura-Europos e os mosaicistas de Beit Alfa não deixaram explicação escrita, e qualquer resposta é hipótese. A mais provável junta duas coisas. A Bíblia fala da "mão" de Deus sem cessar, sobretudo no Êxodo, e a mão é a parte do corpo que indica ação, não aparência. Pintar a mão era pintar o que Deus fez — deter a faca de Abraão, abrir o mar —, e não como ele é. A solução fica exatamente na fronteira do versículo: mostra a intervenção e recusa a figura. Artistas cristãos dos primeiros séculos usaram o mesmo recurso antes de passarem a pintar o Pai como um ancião.

O versículo proíbe também imaginar Deus com forma humana?

A letra fala de fabricar. A tradição filosófica judaica, sobretudo com Maimônides, estendeu a preocupação ao pensamento: atribuir corpo a Deus, mesmo sem estátua, seria um erro do mesmo tipo. Mas a própria Bíblia hebraica fala de Deus com braço, mão, face e olhos, e Ezequiel descreve "uma figura com aparência de homem" sobre o trono (Ezequiel 1:26). A extensão do mandamento à imaginação é leitura filosófica, legítima, e não está escrita no versículo.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma proibição na segunda versão do Decálogo

Deuteronômio 5:8 — "Não farás para ti imagem esculpida, figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra."

No Deuteronômio falta o "e" entre "imagem esculpida" e "figura": ao pé da letra, "imagem esculpida de qualquer figura". A diferença é mínima e foi lida de dois modos — duas proibições somadas no Êxodo, uma só com o seu complemento no Deuteronômio.

A razão que o Êxodo não dá

Deuteronômio 4:15-16 — "Guardem bem as suas almas, pois vocês não viram forma alguma no dia em que o SENHOR falou com vocês em Horebe, do meio do fogo; para que não se corrompam e façam para si imagem esculpida, na forma de qualquer figura, semelhança de homem ou de mulher."

O Deuteronômio tira a proibição da experiência do Sinai: não houve forma para copiar. A lista que segue (Deuteronômio 4:17-19) desdobra os três andares deste versículo em animais, aves, répteis, peixes e astros.

A forma que Moisés viu

Números 12:8 — "Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas; e ele contempla a forma do SENHOR."

A palavra "forma" é a mesma "figura" proibida em Êxodo 20:4.

A maldição sobre quem faz em segredo

Deuteronômio 27:15 — "Maldito o homem que fizer imagem esculpida ou de metal fundido, abominação para o SENHOR, obra de mãos de artesão, e a puser num lugar escondido. E todo o povo responderá: Amém."

A primeira das doze maldições pronunciadas no monte Ebal retoma a palavra deste versículo e acrescenta o segredo. A imagem guardada às escondidas, que nenhum tribunal veria, fica entregue à maldição pública.

O ídolo e quem o faz

Salmo 115:4-8 — "Os ídolos deles são prata e ouro, obra de mãos humanas. Têm boca e não falam, têm olhos e não veem… Tornem-se semelhantes a eles os que os fazem."

A última linha inverte a direção da imagem: quem faz o ídolo acaba parecido com ele. O salmo diz da idolatria o que Mondzain diz do ídolo, que ele absorve quem o olha.

A única imagem que Deus fez

Gênesis 1:27 — "Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou."

A Bíblia proíbe ao ser humano fazer uma imagem de Deus e diz que ele próprio é uma.

O que se via no templo, segundo Ezequiel

Ezequiel 8:10 — "Entrei e olhei: havia toda espécie de figura de répteis e de animais abomináveis, e todos os ídolos da casa de Israel, desenhados ao redor, na parede."

A visão do profeta mostra o versículo violado no próprio templo de Jerusalém, com figuras desenhadas, e não esculpidas. Para Ezequiel, a pintura na parede também caía na proibição.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não farás para ti imagem esculpida, nem figura alguma do que há em cima no céu, nem embaixo na terra, nem nas águas debaixo da terra.

Texto hebraico

לֹא־תַעֲשֶׂה־לְךָ פֶסֶל וְכׇל־תְּמוּנָה אֲשֶׁר בַּשָּׁמַיִם מִמַּעַל וַאֲשֶׁר בָּאָרֶץ מִתָּחַת וַאֲשֶׁר בַּמַּיִם מִתַּחַת לָאָרֶץ׃

Transliteração

lo-ta'aseh-lekha fesel ve-khol-temunah asher ba-shamayim mi-ma'al va-asher ba-arets mi-tachat va-asher ba-mayim mi-tachat la-arets.

Análise palavra por palavra

לֹא־תַעֲשֶׂה — lo-ta'aseh, "não farás".

A negação das proibições permanentes com o verbo asah, "fazer", no Qal (a forma simples do verbo hebraico), imperfeito, segunda pessoa do masculino singular. Asah é o verbo mais genérico de fabricação do hebraico, o de fazer uma arca, uma roupa, uma refeição. É também o verbo de Deus em Gênesis 1:26, "Façamos o homem à nossa imagem". A Bíblia usa a mesma palavra para o que Deus faz à sua imagem e para o que o ser humano é proibido de fazer à imagem de qualquer coisa.

לְךָ — lekha, "para ti".

A preposição le, "para", com o sufixo de segunda pessoa. Depois de verbos de ação, o hebraico usa esse "para ti" para marcar o interesse de quem age: fazer para si, para o próprio uso. Daí a leitura da iniciativa privada, em contraste com as figuras do santuário, feitas por ordem.

פֶסֶל — fesel, "imagem esculpida".

A forma de dicionário é pesel; o p vira f por vir logo depois de uma vogal, regra de pronúncia de seis consoantes hebraicas. A raiz p-s-l significa "talhar, desbastar", e o verbo aparece num lugar que pesa sobre a leitura deste: depois do bezerro de ouro, Deus diz a Moisés "Lavra duas tábuas de pedra como as primeiras" (Êxodo 34:1), e o verbo de lavrar é este. O verbo que produz o ídolo produz também as tábuas da lei.

O substantivo ocorre cerca de trinta vezes no singular, quase sempre para a estátua de culto, de madeira ou de pedra, às vezes recoberta de metal (Isaías 40:19; Juízes 17:3-4). O plural pesilim aparece nos profetas para os ídolos em geral. A Septuaginta traduziu aqui por eídōlon, palavra grega que antes significava "aparição, fantasma, imagem refletida"; foi por esta tradução que ela se tornou o "ídolo" das línguas modernas. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) traduz por sculptile, "coisa esculpida". O Targum de Ônquelos troca a palavra de ofício por uma palavra de sentido, tselem, "imagem", a mesma de Gênesis 1:26-27.

וְכׇל־תְּמוּנָה — ve-khol-temunah, "nem figura alguma".

O "e" mais kol, "todo, qualquer", e temunah, "figura, forma". Em frase negativa, "e toda figura" equivale a "nem figura alguma", como a ABC traduz. Temunah é palavra rara: dez ocorrências na Bíblia hebraica. Sete falam deste assunto, todas no Pentateuco (aqui, Deuteronômio 4:12, 15, 16, 23, 25 e 5:8); uma descreve o que Moisés contempla (Números 12:8); as outras duas são poesia: o salmista que espera saciar-se, ao despertar, da "forma" de Deus (Salmo 17:15), e o vulto que passa diante de Elifaz numa visão noturna (Jó 4:16).

A origem da palavra é discutida. A proposta mais comum a liga a min, "espécie", a palavra de "segundo a sua espécie" em Gênesis 1: a temunah seria a forma característica de cada espécie, aquilo pelo qual se reconhece o que uma coisa é. Shadal (Samuel David Luzzatto, rabino e estudioso italiano do século XIX) examinou as dez ocorrências e concluiu que a palavra designa sempre uma forma que se parece com outra coisa, e não a forma natural de um ser. A Septuaginta escreveu homoíōma, "semelhança"; Ônquelos, demut, "semelhança", a segunda palavra de Gênesis 1:26.

אֲשֶׁר בַּשָּׁמַיִם מִמַּעַל — asher ba-shamayim mi-ma'al, "do que há em cima no céu".

Asher, "que, o que", o relativo comum. Ba-shamayim, "nos céus": a preposição be, "em", o artigo e shamayim, palavra que só existe em forma plural. Mi-ma'al, "de cima, acima": a preposição min, "de", com ma'al, "o alto".

וַאֲשֶׁר בָּאָרֶץ מִתָּחַת — va-asher ba-arets mi-tachat, "nem embaixo na terra".

O mesmo esquema: "e o que está na terra, de baixo". Arets é "terra" no sentido de chão e de mundo habitado. Mi-tachat, "de baixo", é min com tachat, "a parte de baixo". Nas edições cuidadosas, esta palavra traz duas vogais sobrepostas na segunda letra, porque o Decálogo é impresso com dois sistemas de entonação, e num deles a palavra fecha uma frase e toma a forma longa (ver o estudo de Êxodo 20:13).

וַאֲשֶׁר בַּמַּיִם מִתַּחַת לָאָרֶץ — va-asher ba-mayim mi-tachat la-arets, "nem nas águas debaixo da terra".

Ba-mayim, "nas águas", outro substantivo que só existe no plural. Mi-tachat la-arets, "debaixo da terra", literalmente "de baixo, em relação à terra". A mesma fórmula dos três andares volta, com a ordem das águas, em Deuteronômio 4:18 e 5:8. Não há outro verbo além do primeiro: toda a lista depende de "não farás".

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a proibição recai sobre a pretensão de fixar uma presença, e não sobre a arte. O mesmo Êxodo que proíbe figuras manda fazer querubins, e a Bíblia não sente necessidade de justificar a convivência. O que fica vedado é a figura fabricada por iniciativa própria para ocupar o lugar em que Deus se faz presente. A linha entre as duas coisas foi traçada de modos diferentes — pelo uso, como Gamaliel; pela matéria visível, como Calvino; pela encarnação, como Teodoro —, mas todos a procuraram dentro do texto, e não contra ele.

A segunda é que o versículo não nega que Deus tenha forma; reserva-a. A palavra proibida é a mesma que descreve o que Moisés contemplou. O Deus do Sinai não é apresentado como abstração sem aparência, e sim como alguém cuja aparência não está à disposição de ninguém. Daí a força da recusa: não se trata de que não haja nada para mostrar, mas de que ninguém recebeu licença para mostrar.

A terceira é que a pergunta deixada aberta — fazer ou adorar — não foi um descuido. Um texto que dissesse só "não adorarás imagens" teria deixado o objeto intacto e confiado no fiel. Um texto que dissesse só "não farás objeto nenhum" teria chocado com o santuário. O versículo diz "não farás" e o seguinte diz "não te prostrarás", e a distância entre os dois verbos é o espaço em que judeus e cristãos discutem há dois mil anos. A disputa sobreviveu porque o texto a contém.

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Êxodo 20:4

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