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Êxodo 20:3

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 26 min de leitura·👁 11 acessos
Não terás outros deuses diante de mim.
No acampamento ao pé do Sinai, ao entardecer, um homem israelita de túnica de lã segura nas mãos uma pequena estatueta de barro de uma deusa, trazida do Egito, e a olha em silêncio, enquanto ao fundo o monte permanece coberto por uma nuvem escura iluminada por clarões.

Estudo


Não terás outros deuses diante de mim.

1. Introdução

Depois da apresentação vem a primeira proibição, e ela não proíbe fazer nem crer: proíbe "ter" outros deuses. A frase fala desses deuses sem dizer que não existem, e os comentaristas tiveram de explicar por que um texto que exige exclusividade os chama de deuses. A expressão final, "diante de mim", admite pelo menos quatro sentidos — na minha presença, além de mim, contra mim, enquanto eu existir —, e cada um muda o alcance da ordem. É também a partir deste versículo que judeus, católicos, luteranos, reformados e ortodoxos passam a contar os mandamentos de modos diferentes, todos com algum apoio no próprio texto.

2. Contexto Histórico e Cultural

Pergunte a um judeu, a um católico e a um presbiteriano qual é o segundo mandamento, e as respostas serão três. O judeu dirá "não terás outros deuses, nem farás imagem". O católico dirá "não tomarás em vão o nome do Senhor". O presbiteriano dirá "não farás para ti imagem esculpida". Os três leem o mesmo texto, Êxodo 20:2-17. O que muda é onde cada um corta.

O número dez não está em discussão: a Bíblia o dá em Êxodo 34:28 e em Deuteronômio 4:13. A divisão, sim, porque o texto não numera as frases, e o conjunto tem mais de dez proibições e ordens se cada verbo for contado. São três grandes sistemas.

A contagem judaica. A primeira palavra é "Eu sou o SENHOR, o teu Deus, que te tirei da terra do Egito" (Êxodo 20:2). A segunda reúne "não terás outros deuses" e a proibição das imagens, de Êxodo 20:3 a 20:6, como um mandamento só: a proibição da idolatria. A décima é Êxodo 20:17 inteiro, a casa, a mulher e os bens do próximo juntos. É a divisão que a Mekhilta e o Talmude pressupõem. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) a defende com um argumento de conteúdo: ter outros deuses e fazer imagens são "um só assunto, em segredo ou em público, na fé do coração ou no ato".

A contagem reformada e ortodoxa. Êxodo 20:2 é prefácio. O primeiro mandamento é "não terás outros deuses" (Êxodo 20:3); o segundo, a proibição das imagens (Êxodo 20:4-6); o décimo, de novo, o versículo 17 inteiro. É a divisão das Igrejas ortodoxas e a das Igrejas reformadas, presbiterianas e anglicanas. Entre os cristãos, ela tem o testemunho mais antigo: Orígenes (mestre cristão de Alexandria e Cesareia, século III), nas suas Homilias sobre o Êxodo (8), separa expressamente os outros deuses das imagens e critica quem os junta. João Calvino (reformador de Genebra, século XVI), nas Institutas da Religião Cristã (II.8), retomou a separação e criticou a divisão do último versículo em dois.

A contagem católica e luterana. Também aqui Êxodo 20:2 é prefácio, mas o primeiro mandamento abrange Êxodo 20:3-6 inteiro, como na contagem judaica: outros deuses e imagens formam uma só proibição. Para chegar a dez, o último versículo é dividido em dois. A divisão vem de Agostinho (bispo de Hipona, no norte da África, morto em 430), que nas suas Questões sobre o Heptateuco (II, 71) prefere três mandamentos sobre Deus e sete sobre o próximo, e vê no três uma imagem da Trindade. Católicos e luteranos, no entanto, não cortam o versículo 17 do mesmo jeito. O catecismo católico segue a ordem de Deuteronômio 5:21: o nono mandamento é não desejar a mulher do próximo, e o décimo, não cobiçar os seus bens. O Catecismo Menor de Lutero (1529) segue a ordem do Êxodo: o nono é a casa; o décimo, a mulher, os servos, os animais e o resto.

O que o próprio texto hebraico mostra. Cada sistema tem um apoio, e os apoios não coincidem. O rolo hebraico divide o Decálogo em parágrafos por espaços em branco, e esses espaços produzem exatamente dez blocos: Êxodo 20:2-6 forma um só parágrafo, sem divisão entre "Eu sou" e "não terás"; e no versículo 17 há um espaço entre "não cobiçarás a casa do teu próximo" e "não cobiçarás a mulher do teu próximo". Os dez parágrafos do texto massorético (o texto hebraico padronizado pelos escribas da Idade Média) correspondem à divisão de Agostinho, não à judaica. A entonação usada na leitura pública solene, por sua vez, também lê Êxodo 20:2-6 como uma frase única.

A contagem judaica, que separa Êxodo 20:2 de Êxodo 20:3, tem a seu favor o nome do conjunto — "palavras", e não "mandamentos", o que permite contar uma apresentação — e a tradição rabínica inteira. A contagem católica e luterana tem a favor dela os parágrafos do rolo e o Deuteronômio, que usa dois verbos diferentes no último versículo, um para a mulher e outro para a casa, como se fossem duas proibições. A contagem reformada e ortodoxa tem a favor dela a diferença entre os verbos — "ter" deuses e "fazer" imagens são atos distintos — e a antiguidade do testemunho de Orígenes.

Ibn Ezra conhecia as alternativas, o que mostra que elas circulavam também no mundo dele. Havia quem, diz ele, contasse "não terás" como primeiro e "não farás imagem" como segundo; e havia os que dividissem a cobiça em duas, uma "que sai para o ato", como a de quem toma a casa à força, e outra "no coração". Ele recusa as duas posições. À segunda responde com o próprio Deuteronômio: se a cobiça da casa fosse o roubo e a da mulher fosse o desejo, Moisés teria invertido as coisas ao recontar o mandamento. O debate sobre onde terminam as dez palavras é tão antigo quanto a leitura delas, e nenhum dos três sistemas pode alegar que o texto o impõe.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não terás"

Ao pé da letra, o hebraico diz "não haverá para ti". A ordem não usa o verbo "crer", nem "adorar", nem "fazer". Ela fala de uma relação de posse e pertença: o que alguém "tem" como deus. O que exatamente isso proíbe foi discutido desde cedo.

Primeira leitura: proíbe guardar ídolos já feitos. É a da Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), seguida por Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI). O versículo seguinte proíbe fazer imagens; mas e quem já tem uma, herdada ou comprada? Para isso, dizem, foi escrito "não haverá para ti": nem fazer, nem conservar.

Segunda leitura: proíbe tomar como deus. Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII) observa que a leitura anterior é a opinião isolada de um mestre, Rabi Yossi, contra a maioria. O sentido simples, para ele, é o de Gênesis 28:21, em que Jacó diz "então o SENHOR será o meu Deus" — com o mesmo verbo "ser" e a mesma preposição "para". "Ter um deus" é aceitar alguém como senhor, dizer-lhe "tu és o meu Deus". A proibição alcança, para Nachmânides, não só as estátuas, mas qualquer ser a que se possa atribuir esse lugar, inclusive os anjos e os astros, que a própria Bíblia às vezes chama de "deuses".

Terceira leitura: proíbe uma adesão interior, e por isso é única. Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, comentarista judeu espanhol do século XII) nota que este é o único mandamento negativo da Torá que se cumpre ou se viola no coração e na boca, e não só no ato. Quem diz diante de testemunhas que vai matar ou adulterar não é executado por ter dito; mas quem diz "vamos servir a outros deuses" é condenado pela lei de Deuteronômio 13:6-10 sem ter feito mais nada. A fala basta.

"outros deuses"

O texto os chama de deuses e não diz que não existem. Para leitores que tinham por certo que só há um Deus, a expressão era um problema, e as respostas formam uma pequena história da interpretação.

A Mekhilta começa pela objeção: "E existem outros deuses? Não está escrito que eles 'não são deuses' (Isaías 37:19)?" A resposta é que são deuses "que outros chamam de deuses". Rashi vai além e recusa a tradução "deuses outros que não eu": seria uma ofensa ao Altíssimo pô-los na mesma classe que ele. "Outros", então, não quer dizer "outros além de Deus", e sim deuses que outros fizeram para si.

A Mekhilta guarda ainda leituras de jogo de palavras. Para uns, eles são "outros" porque são estranhos aos próprios fiéis: o adorador clama e eles não respondem, como diz Isaías 46:7. Para Rabi Eliezer, são "outros" porque são trocados todo dia: quem tinha um deus de ouro e precisava de ouro, fundia-o e fazia um de prata; quem precisava da prata, fazia um de cobre. O deus muda conforme a necessidade do dono.

Ibn Ezra resolve de outro modo: a Bíblia fala "segundo o pensamento dos que os servem", como fala de Hananias chamando-o de "profeta" sem que ele o fosse (Jeremias 28:10). Nachmânides, ao contrário, leva a palavra a sério: "deuses" seriam os seres celestes, os anjos e os exércitos do céu, a quem os povos atribuíam poder sobre as nações, e a proibição é de aceitá-los como senhores. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica da Torá lida nas sinagogas) escreve "outro deus além de mim", no singular.

Os estudiosos modernos acrescentaram uma pergunta histórica: quem formulou esta frase acreditava que os outros deuses existiam? Uma ordem de não ter outros deuses é compatível com a ideia de que eles existem e não devem ser servidos — a posição que se costuma chamar de monolatria — e o próprio versículo não diz mais do que isso. Os textos que negam a existência deles com todas as letras são outros: "o SENHOR é Deus; não há outro além dele" (Deuteronômio 4:35) e a segunda parte de Isaías. Se o Decálogo já pressupunha essa negação ou se ela veio depois é questão discutida, sem consenso. A diferença entre os "outros deuses" do Decálogo e os "deuses estrangeiros" que Jacó mandou retirar da sua casa está no estudo de Gênesis 35:2.

"diante de mim"

A expressão hebraica soma uma preposição que significa "sobre", "junto a" ou "contra" e a palavra "face". O resultado admite quatro leituras, e cada uma muda o alcance da proibição.

Primeira leitura: na minha presença, à minha vista. É a de Ibn Ezra e de Nachmânides, que buscam a expressão em outros lugares. Em Gênesis 11:28, Harã morre "diante de" Terá, o pai — isto é, com o pai vivo e presente, vendo. Em Números 3:4, Eleazar e Itamar exercem o sacerdócio "diante de" Arão, o pai, que estava ali. Daí a leitura: estou presente sempre e em toda parte, e vejo o que você faz; não convém pôr outros deuses comigo. Matthew Poole (comentarista puritano inglês do século XVII) completa a imagem com a da esposa que trai o marido diante do rosto dele. Nessa leitura, não há canto privado em que a proibição deixe de valer, porque não há lugar fora da presença.

Segunda leitura: além de mim, ao meu lado. É a das traduções antigas. A Septuaginta escreve "exceto eu"; Ônquelos, "além de mim". Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) e Ellicott (Charles Ellicott, bispo e comentarista inglês do século XIX) entendem "em acréscimo a mim", "lado a lado comigo". A proibição, nessa leitura, não visa quem troca o SENHOR por outro deus, mas quem o soma a outros. Ibn Ezra dá os exemplos bíblicos: os povos levados para Samaria, que "temiam o SENHOR e serviam aos seus próprios deuses" (2 Reis 17:33); os judeus do Egito que queimavam incenso à Rainha do Céu (Jeremias 44:17-18); Naamã, que pede licença para continuar se inclinando no templo de Rimom (2 Reis 5:18). Em todos, o SENHOR é reconhecido — e outro é acrescentado.

Terceira leitura: contra mim, em afronta a mim. A preposição pode ter sentido hostil, e Gill (John Gill, teólogo batista inglês do século XVIII) inclui esse matiz: ter outros deuses "em oposição a ele, contra a sua vontade". Keil e Delitzsch recusam explicitamente essa leitura, e ela é a menos apoiada pelos paralelos.

Quarta leitura: enquanto eu existir. É a da Mekhilta, que Rashi resume: "todo o tempo em que eu existo". A expressão foi acrescentada, dizem, para que ninguém pensasse que a proibição valia só para a geração que saiu do Egito. Como Deus vive para sempre, a ordem vale "para vocês, para os seus filhos e para os filhos dos seus filhos, até o fim de todas as gerações". A leitura dá à preposição um sentido temporal que ela raramente tem, e é mais teologia que gramática.

A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) escolheu a primeira: coram me ("na minha presença"). As traduções em português oscilam entre "diante de mim" e "além de mim". Não é possível decidir pelo hebraico, e as quatro leituras somadas mostram o que está em jogo: o espaço (em toda parte), a exclusividade (nenhum acréscimo), a hostilidade (nenhuma afronta) e o tempo (nenhuma geração dispensada).

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Os "outros deuses" que a Bíblia nomeia

O versículo não dá nomes, mas o resto da Bíblia hebraica dá: Baal e Astarote, cultuados pelos cananeus e fenícios; Camos, deus de Moabe; Milcom, dos amonitas; Moloque, a quem se "faziam passar" crianças; Dagom, dos filisteus; a Rainha do Céu, a quem as mulheres de Judá ofereciam bolos no Egito, no tempo de Jeremias. Nenhum deles é mencionado no Êxodo; o texto os deixa todos dentro da palavra "outros".

Orígenes

Mestre cristão nascido em Alexandria por volta de 185 e morto em Tiro por volta de 254, depois de ser torturado na perseguição de Décio. Foi o maior leitor da Bíblia da Igreja antiga e escreveu homilias sobre quase todo o Antigo Testamento. Na oitava homilia sobre o Êxodo, defende que os outros deuses e as imagens são dois mandamentos.

Agostinho

Bispo de Hipona, no norte da África (354-430), o autor cristão mais influente do Ocidente latino. Propôs a divisão em três mandamentos sobre Deus e sete sobre o próximo, que a Igreja latina adotou.

Martinho Lutero

Reformador alemão (1483-1546). O seu Catecismo Menor, de 1529, manteve a contagem agostiniana herdada da Igreja medieval, mas seguiu a ordem do Êxodo na divisão do último mandamento.

João Calvino

Reformador francês radicado em Genebra (1509-1564). Adotou a contagem que separa as imagens dos outros deuses, e foi por meio dele que ela se tornou a das Igrejas reformadas.

O Targum de Ônquelos

Tradução aramaica da Torá, a mais literal das antigas, lida nas sinagogas ao lado do texto hebraico e atribuída pela tradição a um prosélito chamado Ônquelos, do século II. A sua versão deste versículo, "não terás outro deus além de mim", dá à expressão final o sentido de exclusividade.

5. Pontos de Ensino

1. A primeira proibição trata de pertença, não de opinião. O verbo é "ter", não "crer". O que se proíbe é tomar outro como deus — a quem servir, a quem recorrer, a quem chamar de senhor.

2. O texto não afirma nem nega a existência dos outros deuses. Ele regula o comportamento de Israel diante deles. As leituras que os declaram inexistentes são posteriores, rabínicas ou de outros livros bíblicos, e são legítimas como leituras.

3. A proibição pode visar a soma, e não só a troca. Lida como "além de mim", ela atinge quem conserva o SENHOR e acrescenta outros.

4. "Diante de mim" não tem uma tradução única. Presença, acréscimo, afronta e duração são sentidos possíveis, e o versículo pode ser lido com qualquer um deles sem violentar o hebraico.

5. A numeração dos mandamentos é tradição de leitura, não dado do texto. O número dez é bíblico; a divisão, não. Judeus, católicos e luteranos, reformados e ortodoxos dividem o mesmo texto de modos diferentes, e cada divisão tem apoio em algum traço do próprio texto hebraico.

6. Aspectos Filosóficos

O versículo usa linguagem de corte. Na Mekhilta, a frase é comentada com parábolas de rei; "diante de mim" é a posição de quem está na presença de um soberano; e "não terás outros" é o que um senhor exige de um vassalo. A pergunta filosófica que daí nasce é antiga e perigosa: se há um só Deus no céu, deve haver um só senhor na terra? A fé num Deus único sustenta, por analogia, o poder de um único governante?

Erik Peterson (1890-1960) dedicou a essa pergunta um livro curto que teve longa vida. Teólogo alemão de formação luterana, professor em Göttingen e em Bonn, converteu-se ao catolicismo em 1930 e foi viver em Roma. O seu primeiro grande trabalho acadêmico tratara das aclamações "Um só Deus" (Heis Theós, em grego) gravadas em inscrições e amuletos da Antiguidade. Em 1935, em plena Alemanha nazista, publicou Der Monotheismus als politisches Problem ("O monoteísmo como problema político").

O livro reconstrói a história de uma ideia que ele chamou de "monarquia divina". Começa por Aristóteles, que fecha o livro XII da Metafísica citando um verso de Homero — "não é bom o governo de muitos; seja um só o senhor" — para dizer que o universo tem um único princípio. Passa por um tratado grego anônimo, Sobre o mundo, que compara Deus ao grande rei da Pérsia, governando por meio de funcionários sem precisar fazer tudo por si. Passa pelos escritores judeus de língua grega de Alexandria, que apresentaram o Deus de Israel nesses termos aos leitores pagãos. E chega a Eusébio de Cesareia, bispo e historiador do século IV, que ligou o monoteísmo cristão ao império romano: segundo Eusébio, foi sob Augusto, quando um só imperador passou a governar o mundo, que o politeísmo das nações começou a acabar; um só Deus, um só império, uma só paz.

A tese de Peterson é que essa teologia política foi derrotada por dentro do próprio cristianismo. A doutrina da Trindade, formulada no século IV, tornou impossível usar a unidade de Deus como modelo de monarquia humana: não há na criação nada que corresponda a um Deus que é um e três. E Agostinho, ao separar a cidade de Deus de qualquer império terreno, retirou a paz romana do plano da salvação. O livro termina com a frase que o tornou famoso: o monoteísmo como problema político foi "liquidado". O alvo, nas entrelinhas, eram os teólogos que em 1935 davam ao Reich alemão uma sagração religiosa, e em particular o jurista Carl Schmitt, que tinha escrito em 1922 que os conceitos da política moderna são conceitos teológicos secularizados. Schmitt respondeu só em 1970, com um livro inteiro chamado "a lenda da liquidação de toda teologia política".

O versículo do Sinai entra nessa discussão de um modo que nem Peterson nem Schmitt exploraram. A exclusividade que ele exige é formulada em linguagem de soberania, mas o "tu" a quem se dirige não é um rei: é um povo que acabou de sair de debaixo de um rei que se apresentava como deus. A frase não diz "terás um só deus, como terás um só senhor na terra"; diz que nenhum outro ocupará o lugar diante daquela face. O efeito político possível é o oposto da monarquia divina descrita por Peterson: se só o SENHOR é Deus, nenhum faraó pode sê-lo. A própria Torá, quando trata do rei de Israel, o limita em cavalos, mulheres e prata, e o põe debaixo da lei (Deuteronômio 17:14-20).

O limite é duplo. Peterson escreveu sobre a passagem do helenismo ao cristianismo, não sobre o Decálogo, e a sua reconstrução histórica foi contestada — por Schmitt e por historiadores que mostraram que a teologia imperial cristã sobreviveu muito bem à doutrina da Trindade, em Bizâncio e nas monarquias europeias. E a Bíblia hebraica, por sua vez, conheceu a sagração do rei: o Salmo 2 chama o rei de filho de Deus. O que a aproximação permite ver é que a exclusividade de Deus pode servir a dois usos opostos — sagrar um poder ou desautorizar todos —, e que este versículo, dito a escravos libertos e não a um soberano, foi redigido do segundo lado.

7. Aplicações Práticas

Desconfiar das garantias paralelas. Raramente alguém renega abertamente aquilo em que diz crer. O mais comum é manter a confissão e, ao lado dela, cultivar a garantia em que de fato se confia — o dinheiro guardado para o pior, o protetor influente, o amuleto discreto, a fórmula que "não custa nada" repetir. A leitura de "diante de mim" como "além de mim" (item 3) descreve esse movimento com precisão, e é nele, mais do que na apostasia declarada, que a proibição tem uso cotidiano.

Não há compartimento fora da presença. Na primeira leitura, a de Ibn Ezra e Nachmânides, a proibição vale porque não existe lugar em que a presença não esteja. A consequência prática é a recusa da vida em compartimentos — uma lealdade para o culto, outra para os negócios, outra para a vida privada —, que o versículo, lido assim, não admite.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

A proibição vale também para quem não é de Israel?

O versículo fala a Israel, no singular, e não diz nada sobre os outros povos. Nachmânides vai mais longe e afirma que o zelo de Deus contra os outros deuses, anunciado nos versículos seguintes, só se aplica a Israel, porque os outros povos receberam os exércitos do céu como sua parte. Ele se apoia em Deuteronômio 4:19, que fala do sol, da lua e das estrelas "que o SENHOR, o seu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu". A tradição rabínica, por outro caminho, incluiu a proibição da idolatria entre as poucas leis que considera obrigatórias para toda a humanidade. As duas posições convivem, e o Êxodo não arbitra entre elas.

Se a proibição é de "ter", ela alcança a posse de uma estátua antiga numa coleção ou num museu?

Pela leitura da Mekhilta, que vê aqui a proibição de conservar ídolos, a pergunta é real, e a lei judaica posterior desenvolveu regras sobre objetos de culto pagão, sobre quando deixam de sê-lo e sobre o que se pode aproveitar deles. Pela leitura de Nachmânides, que entende "ter como deus", a posse de um objeto sem culto não é atingida. O versículo, por si, não resolve.

Por que a numeração importa, se o conteúdo é o mesmo?

Porque a numeração decide o que aparece como mandamento autônomo e o que fica dentro de outro. Na contagem que separa as imagens, a proibição de fazer imagens ganha um número próprio e entra nos catecismos com destaque; na que as une aos outros deuses, ela aparece como parte do primeiro, e alguns catecismos abreviados nem a transcrevem. A disputa entre reformados e católicos sobre o uso de imagens no culto passou, em parte, por essa diferença de contagem.

9. Conexão com Outros Textos

A mesma frase na segunda versão

Deuteronômio 5:7 — "Não terás outros deuses diante de mim."

Idêntica ao Êxodo. Também no Deuteronômio não há divisão de parágrafo entre esta frase e a anterior.

"Ter" um deus

Gênesis 28:21 — "e se eu voltar em paz à casa de meu pai, então o SENHOR será o meu Deus."

O voto de Jacó usa a construção que Nachmânides lê no Decálogo: "ser para alguém como Deus". Ter um deus é tomá-lo como o seu.

"Diante de": a presença de quem vê

Gênesis 11:28 — "Harã morreu antes de seu pai Terá, na terra do seu nascimento, em Ur dos caldeus."

A ABC traduz por "antes de seu pai" a mesma expressão que Êxodo 20:3 traz como "diante de mim". Ibn Ezra lê nela a presença: Harã morreu com o pai vivo, à vista dele.

Gênesis 32:21 — "Assim o presente passou adiante dele, mas ele mesmo passou aquela noite no acampamento."

Nachmânides cita este versículo: o presente de Jacó a Esaú passou "diante dele", isto é, à frente e à vista de Jacó.

O SENHOR somado a outros

2 Reis 17:33 — "Temiam o SENHOR e, ao mesmo tempo, serviam aos seus próprios deuses, segundo o costume das nações de onde tinham sido trazidos."

Jeremias 44:17-18 — "Faremos tudo o que dissemos: queimaremos incenso à Rainha do Céu e lhe ofereceremos libações, como fazíamos nós e os nossos pais… Desde que deixamos de queimar incenso à Rainha do Céu, temos tido falta de tudo."

2 Reis 5:18 — "Somente nisto o SENHOR perdoe o seu servo: quando o meu senhor entrar no templo de Rimom para ali se prostrar, apoiado no meu braço, e eu me prostrar no templo de Rimom, que o SENHOR perdoe o seu servo por isso."

Os três exemplos de Ibn Ezra de gente que reconhecia o SENHOR e acrescentava outros. São o caso que a segunda leitura de "diante de mim" tem em vista.

Os outros deuses e os outros povos

Deuteronômio 4:19 — "E, quando você levantar os olhos para o céu e vir o sol, a lua e as estrelas, todo o exército do céu, não se deixe levar a se prostrar diante deles e a servi-los, porque o SENHOR, o seu Deus, os repartiu a todos os povos debaixo de todo o céu."

O versículo em que Nachmânides apoia a ideia de que os astros foram dados às nações como sua parte.

A negação explícita

Deuteronômio 4:35 — "A você foi mostrado isso, para que soubesse que o SENHOR é Deus; não há outro além dele."

Isaías 45:5 — "Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus."

Os textos que dizem o que Êxodo 20:3 não diz: que os outros deuses não existem. O Decálogo proíbe tê-los; Deuteronômio e Isaías negam que existam.

A escolha diante do povo

Josué 24:14-15 — "Agora, pois, temam o SENHOR e sirvam-no com integridade e fidelidade; tirem do meio de vocês os deuses a quem os seus pais serviram além do Rio e no Egito, e sirvam ao SENHOR… Escolham hoje a quem vocês vão servir."

A proibição de Êxodo 20:3 transformada em decisão pública, no fim da conquista. Josué lembra que havia outros deuses servidos "no Egito" pelos próprios pais de Israel.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não terás outros deuses diante de mim.

Texto hebraico

לֹא יִהְיֶה־לְךָ אֱלֹהִים אֲחֵרִים עַל־פָּנָי׃

Transliteração

lo yihyeh-lekha elohim acherim al-panay.

Análise palavra por palavra

לֹא — lo, "não".

A negação das proibições permanentes. Com o verbo no imperfeito, forma a construção típica do Decálogo — "não matarás", "não furtarás" —, que proíbe sem prazo. A outra negação do hebraico, al, é a das proibições pontuais, do "não faça isso agora"; ela não aparece em nenhuma das dez palavras.

יִהְיֶה — yihyeh, "haverá".

Do verbo hayah, "ser, haver, existir", no imperfeito da terceira pessoa do singular. O sujeito gramatical não é "tu", e sim "outros deuses": ao pé da letra, "não haverá outros deuses para ti". O verbo está no singular embora o sujeito seja plural, concordância que o hebraico admite quando o verbo vem antes do sujeito. É o mesmo verbo de "o SENHOR será o meu Deus" (Gênesis 28:21), o paralelo de Nachmânides.

לְךָ — lekha, "para ti".

A preposição le, "para", com o sufixo de segunda pessoa do masculino singular. Com o verbo "haver", é o modo hebraico de exprimir posse: o hebraico não tem um verbo "ter", e diz "há para mim" onde o português diz "eu tenho". A tradução "não terás" é, portanto, exata quanto ao sentido.

אֱלֹהִים — elohim, "deuses".

A mesma palavra que designa o Deus de Israel. Quando se refere a ele, leva verbo e adjetivo no singular; aqui, o adjetivo que a acompanha está no plural, e por isso a tradução é "deuses". A diferença entre o singular de majestade e o plural verdadeiro é marcada só pela concordância.

אֲחֵרִים — acherim, "outros".

Plural de acher, "outro". A expressão elohim acherim, "outros deuses", estreia aqui e se torna fórmula fixa, sobretudo no Deuteronômio e em Jeremias, para todo culto fora do SENHOR. Nachmânides observa que ela aparece quando o texto fala de aceitar ou servir um deus; quando fala de fabricar ídolos, a Bíblia prefere "deuses de metal fundido" (Êxodo 34:17), sem o "outros". Os jogos de palavras da Mekhilta sobre o adjetivo — estranhos, trocados, os "últimos" — dependem da raiz a-ch-r, que significa também "depois" e "atrasar".

עַל־פָּנָי — al-panay, "diante de mim".

A preposição al, cujo sentido básico é "sobre", e que pode significar também "junto a", "além de" e "contra", mais panay, "a minha face": panim é um plural sem singular, "face, rosto", com o sufixo de primeira pessoa. A mesma combinação aparece com outras pessoas em Gênesis 11:28 (Harã morreu "diante de" Terá), em Gênesis 32:21 (o presente passou "diante dele") e em Números 3:4. Em Jó 1:11 e 2:5, Satanás diz que Jó amaldiçoará Deus "na tua face", "abertamente". A Septuaginta traduz por plēn emoû, "exceto eu"; o Targum de Ônquelos, por bar minni, "além de mim"; a Vulgata, por coram me, "na minha presença".

As duas vogais da última palavra

Nas edições cuidadosas, a última palavra do versículo aparece com duas vogais sobrepostas, um qamats e um patach, que se leem "panay" e "panai". A duplicação vem dos dois sistemas de entonação com que o Decálogo é impresso, explicados no estudo de Êxodo 20:13. Na leitura de estudo, o versículo termina aqui, e a palavra toma a forma longa de fim de frase, "panay". Na leitura pública solene, o versículo não termina — a frase segue desde "Eu sou" até o fim de Êxodo 20:6 —, e a palavra conserva a forma comum, "panai". É uma exceção à regra geral da leitura pública, em que cada mandamento costuma formar um versículo: aqui, "Eu sou" e "não terás" ficam dentro da mesma frase. O ponto de corte entre os dois mandamentos está gravado, assim, na própria vocalização do texto, e a tradição judaica guardou ao mesmo tempo duas maneiras de dividir este trecho.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, o versículo leva a três conclusões.

A primeira é que a proibição recai sobre uma relação, e não sobre uma crença. "Não haverá para ti" é a linguagem da pertença: o que se proíbe é tomar outro como senhor. Por isso as leituras divergem sobre o alcance — guardar ídolos, aceitar seres celestes, aderir no coração e na boca —, mas convergem no objeto: o lugar de Deus na vida de quem ouve não admite segundo ocupante.

A segunda é que o texto não se compromete com a inexistência dos outros deuses. Ele os nomeia como deuses e proíbe tê-los. Que não existam é afirmação de outros textos bíblicos e da tradição posterior, e cada intérprete — a Mekhilta, Rashi, Ibn Ezra, Nachmânides — teve de encontrar o seu modo de ler a palavra "deuses" sem conceder o que ela parece conceder.

A terceira é que "diante de mim" e a divisão dos mandamentos são duas indeterminações do mesmo tipo: o texto as deixou abertas, e cada tradição as fechou de um modo. Presença, acréscimo, afronta ou perpetuidade; o primeiro mandamento começando no versículo 2 ou no 3; a cobiça como um ou como dois — o hebraico sustenta mais de uma solução, e os sinais do próprio texto massorético apontam em direções diferentes.

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Êxodo 20:3

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