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Êxodo 20:17

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 22 min de leitura·👁 16 acessos
Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”
Um homem parado à beira de uma estrada de terra olha por cima de um muro baixo de pedras para a casa do vizinho, com um boi e um jumento no pátio e uma mulher à porta; a luz do fim de tarde alonga a sombra dele sobre o caminho.

Estudo


Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”

1. Introdução

O último mandamento é o mais longo da segunda tábua e o único que não nomeia um ato que outros possam ver: "não cobiçarás". Por isso a pergunta que o acompanha desde a Antiguidade é se ele proíbe um sentimento ou o que se faz por causa dele. A Mekhilta (o comentário rabínico antigo ao Êxodo) e Maimônides (filósofo e jurista judeu nascido em Córdoba, século XII) exigem um ato; Ibn Ezra (poeta e comentarista nascido na Espanha, século XII) sustenta que o próprio desejo pode ser educado e, portanto, proibido. A lista de bens — casa, mulher, servos, animais — mostra para quem a lei falava, e o Deuteronômio a reordena, põe a mulher à parte e troca o verbo. Na leitura em colunas, este mandamento fica diante de "Honra o teu pai e a tua mãe".

2. Contexto Histórico e Cultural

A casa como unidade

"Casa", aqui, não é o edifício. Na língua da Bíblia, a casa de alguém é tudo o que depende dele: a família, os servos, os animais, os bens. Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX) observam que, no Êxodo, a "casa" vem primeiro e é depois desdobrada em mulher, servos, gado e o resto, como um título seguido do seu conteúdo. A lista é o inventário de uma propriedade rural, e as categorias são as que o Gênesis já usava para dizer "tudo o que alguém possui" — o estudo de Gênesis 32:5 mostra a lista em ação, num recado de Jacó a Esaú.

Quem ouve o mandamento é, portanto, o chefe de uma casa: o homem que tem ou pode ter mulher, servos e gado, e que pode cobiçar os do vizinho. O texto não prevê o caso inverso. Não há "não cobiçarás o marido da tua vizinha", porque a lei fala ao proprietário, e a mulher aparece entre os bens da casa, e não entre os que ouvem.

O que muda no Deuteronômio

A segunda versão do Decálogo (Deuteronômio 5:21) põe a mulher antes da casa, usa outro verbo para o resto da lista — "não desejarás a casa do teu próximo" — e acrescenta "nem o seu campo".

O campo é a diferença que mais revela. Um povo que acabou de sair do Egito e vive em tendas não tem campos para cobiçar; um povo assentado na terra, sim. A cobiça da terra virou problema social em Israel, e os profetas a denunciam com o verbo do mandamento: "Cobiçam campos e os tomam, e casas, e as levam" (Miqueias 2:2). Isaías amaldiçoa os que "juntam casa a casa e campo a campo, até que não haja mais lugar" (Isaías 5:8). O Deuteronômio fala a esse mundo.

Há ainda uma promessa curiosa, ligada às festas de peregrinação. Os homens deviam subir três vezes por ano ao santuário, deixando as terras sem guarda, e a lei garante: "ninguém cobiçará a tua terra quando subires" (Êxodo 34:24). Sforno (Obadias Sforno, médico e rabino italiano do século XVI) lê essa promessa ao lado do décimo mandamento, como prova de que a cobiça pode ser contida: o que se tem por inalcançável deixa de ser cobiçado.

Comprar também pode ser cobiçar

Um texto do Talmude mostra como o mandamento era entendido no cotidiano. No tratado Bava Metzia (5b), discute-se o caso de quem guardava um bem alheio em depósito e, em vez de devolvê-lo, ficava com ele e pagava o valor ao dono. Um dos mestres objeta que isso viola "não cobiçarás", porque obter o bem do outro contra a vontade dele, mesmo pagando, é cobiça. A resposta do Talmude é reveladora: a maioria das pessoas entende "não cobiçarás" como "não tomarás sem pagar". O mandamento, na compreensão popular, já era sobre o ato; os mestres o liam como mais exigente.

3. Análise Teológica do Versículo

"Não cobiçarás a casa do teu próximo"

A ordem dos bens foi lida como retrato da vida. Abraão ibn Ezra, citado por Nachmânides (Moisés ben Nachman, rabino catalão do século XIII), diz que o Êxodo segue o curso natural das coisas: o homem sensato primeiro arranja uma casa, depois toma uma mulher para levá-la a ela, e só então adquire servos. O Deuteronômio põe a mulher primeiro porque os jovens querem primeiro casar. Nachmânides propõe outra explicação para o Deuteronômio: a mulher vem à frente porque cobiçá-la é o mais grave da lista.

Cobiçar é ato ou sentimento?

É a pergunta que acompanha o mandamento desde a Antiguidade. Há três respostas.

Primeira leitura: só há transgressão quando há ato. A Mekhilta pergunta se a cobiça expressa em palavras já violaria o mandamento, e responde com Deuteronômio 7:25: "não cobiçarás a prata nem o ouro que estão sobre elas, nem os tomarás para ti". Lá, cobiçar vem junto com tomar; aqui também, conclui a Mekhilta, só há transgressão quando há um ato. Maimônides fixou a regra no seu código: viola "não cobiçarás" quem pressiona o dono, com pedidos e com amigos, até que ele aceite vender o que não queria vender — "mesmo que pague muito dinheiro". A transgressão está no ato de obter, não no preço.

Segunda leitura: o mandamento alcança o coração. Ibn Ezra registra o espanto de muitos: "como pode alguém não cobiçar no seu coração uma coisa bela que lhe agrada aos olhos?" A resposta dele é uma parábola. Um camponês de juízo, que vê uma princesa bonita, não a deseja para si, porque sabe que isso é impossível; não é como os loucos, que desejam ter asas para voar. Do mesmo modo, ninguém deseja a própria mãe, por bela que seja, porque foi educado desde criança a saber que ela lhe é proibida. Assim o sensato, sabendo que a mulher do próximo lhe foi proibida por Deus, a terá por mais inalcançável do que a princesa para o camponês, e se alegrará com a sua parte. Para Ibn Ezra, o desejo não é um movimento cego: ele depende do que a pessoa julga possível, e por isso pode ser educado. O mandamento proíbe o sentimento porque o sentimento pode ser formado.

Os comentaristas cristãos foram na mesma direção, com outra ênfase. O Pulpit Commentary ("Comentário do Púlpito", obra coletiva inglesa do século XIX) diz que aqui a lei de Moisés dá um passo que nenhum código antigo deu: os códigos param no ato, alguns chegam à palavra, nenhum tenta governar o pensamento. Albert Barnes (comentarista norte-americano do século XIX) resume a série: os mandamentos anteriores proíbem ferir o próximo pelo ato; o nono, pela palavra; o décimo, pelo pensamento. É o último degrau da escada que Lutero via na segunda tábua.

Terceira leitura: duas proibições em cadeia. A Mekhilta, numa passagem atribuída a Rabi Yehuda ha-Nasi (o editor da Mishná, por volta do ano 200), compara as duas versões: o Êxodo diz "não cobiçarás"; o Deuteronômio acrescenta "não desejarás". Não são duas maneiras de dizer a mesma coisa. Há culpa no desejo por si e culpa na cobiça por si; e uma leva à outra: quem deseja acaba cobiçando, e quem cobiça acaba tomando à força, "como está escrito: cobiçam campos e os tomam" (Miqueias 2:2). Maimônides desenvolveu a cadeia. No livro em que enumera os mandamentos da Torá, conta duas proibições distintas: "não desejarás", que se viola no coração, quando a pessoa pensa em como obter o que é do outro; e "não cobiçarás", que se viola quando ela age para obtê-lo. No código, acrescenta o fim da cadeia: se o dono resiste, o que deseja chega a roubar, e se o dono defende o que é seu, chega a matar — e dá o exemplo de Acabe e Nabote. Quem só deseja viola um mandamento; quem compra sob pressão, dois; quem rouba, três.

A filologia moderna reabriu a questão. Estudiosos do início do século XX sustentaram que o verbo hebraico do mandamento inclui, por si, a maquinação para tomar o objeto, e não apenas o desejo — o que aproximaria o texto da leitura da Mekhilta. Contra isso pesa um versículo de Provérbios, que usa o mesmo verbo para o que se passa por dentro: "Não cobices a sua beleza no teu coração" (Provérbios 6:25). O uso bíblico cobre as duas coisas, e o versículo não permite decidir qual delas está em primeiro plano aqui.

"não cobiçarás a mulher do teu próximo"

A mulher aparece entre a casa e os servos, o que levou muitos leitores modernos a dizer que o mandamento a trata como propriedade. A leitura tem apoio: a lista é um inventário, e a mulher está nele. Keil e Delitzsch preferem outra explicação: no Êxodo, a "casa" inclui a mulher, que é depois nomeada como a parte principal dela; no Deuteronômio, ela é separada e posta à frente, "como a coroa do marido". As duas observações descrevem o mesmo texto de pontos de vista diferentes, e é provável que as duas sejam verdadeiras em parte: a mulher era um membro da casa sob a autoridade do marido, e o Deuteronômio já a distingue do gado e dos servos.

A Mekhilta traz um detalhe que mostra até onde ia a precisão rabínica. Aplicando as regras de interpretação ao fim da lista — "nem coisa alguma do teu próximo" —, ela conclui que só se proíbe cobiçar o que pode passar de um dono a outro com o consentimento do dono. E tira daí uma exceção: desejar a filha do vizinho como esposa para o próprio filho não é cobiça, porque um casamento não se adquire como uma coisa.

Diante de "Honra o teu pai e a tua mãe"

Na leitura em colunas da Mekhilta, cada mandamento da segunda tábua corresponde a um da primeira, e este fica diante do quinto. A explicação é dura: quem cobiça acaba gerando um filho que amaldiçoa o próprio pai e honra quem não é seu pai. A cobiça da mulher do próximo leva ao adultério, e o adultério à confusão sobre a origem dos filhos. É o mesmo argumento que Nachmânides usava para o adultério, agora aplicado à raiz dele.

O mandamento ampliado

O Targum de Pseudo-Jônatas (tradução aramaica antiga, com acréscimos explicativos) dá a este mandamento a forma dos anteriores — não ser cobiçoso, nem companheiro nem sócio dos cobiçosos — e a consequência mais política da série: por causa da cobiça, "o governo avança sobre os bens das pessoas para tomá-los, os ricos empobrecem, e o exílio vem sobre o mundo". A cobiça privada vira, no fim, a rapina do poder.

O limite

O texto diz "não cobiçarás" e enumera objetos. Não diz se o desejo, sem ato, já é transgressão. A leitura do ato tem a seu favor Deuteronômio 7:25 e a natureza de lei do Decálogo; a do sentimento tem a seu favor Provérbios 6:25 e o próprio fato de este mandamento existir ao lado dos que já proíbem furtar e adulterar. Não é possível decidir pelo texto, e a solução de Maimônides — duas proibições em cadeia — é provavelmente a que melhor preserva as duas intuições.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Pessoas

O "tu" do mandamento: o chefe de uma casa, que tem o que perder e o que cobiçar.

O próximo, nomeado três vezes no versículo — a casa do teu próximo, a mulher do teu próximo, tudo o que é do teu próximo. Em nenhum outro mandamento a palavra aparece tanto. A cobiça, no texto, não é desejo de coisas em geral; é desejo das coisas de alguém próximo.

A mulher, o servo e a serva, que aparecem como parte da casa e não como destinatários da lei.

Acã. Depois da tomada de Jericó, ele confessa: "vi entre os despojos uma bela capa babilônica, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro; cobicei-os e tomei-os" (Josué 7:21). Ver, cobiçar, tomar: a sequência que a Mekhilta e Maimônides descrevem.

Acabe e Nabote. O rei quer a vinha do vizinho, oferece outra em troca ou o valor em dinheiro, e Nabote recusa porque é a herança dos pais (1 Reis 21:2-3). Acabe volta para casa "desgostoso e irritado", deita-se e não come. A cobiça, nessa cena, ainda é só sentimento; Jezabel a transforma em processo e em morte. É o exemplo que Maimônides dá para a cadeia que vai do desejo ao homicídio.

Eventos

A contagem dos mandamentos. Para judeus, reformados e ortodoxos, este versículo é um mandamento só; para católicos e luteranos, são dois, cortados em lugares diferentes. A história dessa divisão está no estudo de Êxodo 20:3.

5. Pontos de Ensino

1. É o único mandamento cujo objeto não se vê. Por isso a pergunta sobre se ele proíbe um sentimento ou um ato acompanha a sua leitura desde a Antiguidade.

2. A tradição rabínica exigiu um ato para "cobiçar". A Mekhilta e Maimônides leem "não cobiçarás" como agir para obter o que é do outro, mesmo pagando, e "não desejarás", do Deuteronômio, como o movimento interior.

3. Ibn Ezra sustentou que o desejo pode ser educado. A parábola do camponês e da princesa mostra que não se deseja o que se tem por impossível.

4. A cobiça é uma cadeia. Desejo, pressão, roubo, homicídio: a Mekhilta e Maimônides descrevem os elos, e a Bíblia narra a cadeia inteira em Acabe e Nabote.

5. A lista mostra a quem a lei falava. O destinatário é o chefe da casa; a mulher aparece entre os bens, e o Deuteronômio já a põe à parte.

6. O Deuteronômio fala a um povo assentado. O campo entra na lista, e os profetas denunciam a cobiça da terra com o verbo do mandamento.

6. Aspectos Filosóficos

Por que o último mandamento insiste tanto no "próximo"? Ele não proíbe desejar uma casa, uma mulher ou um boi; proíbe desejar os do vizinho. E Ibn Ezra, com a parábola do camponês e da princesa, já notara que o desejo não se acende diante do inalcançável. O que se cobiça é o que está perto — o que o vizinho tem e eu poderia ter.

Essa intuição é o ponto de partida da teoria do desejo mimético, segundo a qual desejamos as coisas porque outros as desejam e as têm; o estudo de Gênesis 26:14 expõe a teoria e a distinção antiga entre inveja e emulação. O filósofo francês Jean-Pierre Dupuy (nascido em 1941, professor na École Polytechnique de Paris e na Universidade Stanford) foi um dos que mais a desenvolveram fora da antropologia, aplicando-a à economia e à teoria da justiça.

A economia "contém" a violência

Em L'enfer des choses ("O inferno das coisas", 1979), escrito com Paul Dumouchel, Dupuy propôs uma fórmula que ficou: a economia moderna contém a violência — nos dois sentidos do verbo. Ela a segura, porque transforma a rivalidade em concorrência e a disputa pelo mesmo objeto em troca; e ela a carrega dentro de si, porque vive de multiplicar os objetos de desejo e de comparação. A escassez, nessa leitura, não é só falta de bens. É produzida pelo próprio olhar sobre o vizinho: sempre falta o que o outro tem.

O Targum de Pseudo-Jônatas, ao dizer que a cobiça faz o governo avançar sobre os bens e empobrece os ricos, descreve o lado em que a contenção falha. Dupuy descreve por que ela é sempre precária.

A inveja e a justiça

No livro Le sacrifice et l'envie ("O sacrifício e a inveja", 1992), Dupuy examina as teorias liberais da justiça, que tentam organizar uma sociedade em que as desigualdades sejam aceitáveis porque justificadas. A tese dele é desconfortável: quanto mais justa parece a distribuição, mais dolorosa pode ser a inveja. Numa sociedade de castas, o camponês não se compara à princesa; a distância é dada pelo nascimento e não fere. Numa sociedade em que todos são iguais em direito e as posições dependem do mérito, cada um pode se comparar com cada um, e quem fica embaixo já não tem a desculpa do acaso — a desigualdade passa a parecer um juízo sobre a pessoa. Para Dupuy, as teorias da justiça tratam a inveja como um sentimento irracional a ser posto de lado; ele sustenta que ela é a paixão que a modernidade, ao fazer de todos vizinhos de todos, liberou e não sabe nomear.

O camponês, a princesa e o vizinho

Posta ao lado do mandamento, a análise de Dupuy faz a parábola de Ibn Ezra ganhar um sentido que o próprio Ibn Ezra não pretendia. Ele queria mostrar que o desejo se educa: quem sabe que algo lhe é proibido deixa de desejá-lo, como o camponês diante da princesa. Dupuy mostra o reverso: o mundo moderno tirou as princesas do lugar inalcançável e pôs todos ao alcance de todos. O pedido do mandamento — tratar o que é do próximo como se estivesse tão longe quanto o que é do rei — fica mais difícil justamente quando a distância social diminui.

O limite

Dupuy é um filósofo da economia e da técnica, e não comentou o Decálogo. A teoria mimética, além disso, é contestada: muitos psicólogos e economistas a consideram uma generalização excessiva, que explica todo desejo pela imitação. A aproximação é do comentarista, e serve a um ponto estreito: a insistência do texto no "próximo" — três vezes num versículo — coincide com a observação de que a cobiça mais forte é a que se volta para quem está perto.

7. Aplicações Práticas

A comparação. O mandamento não condena querer uma casa; condena querer a do vizinho. A relação prática é imediata num mundo em que a vida dos outros está exposta o tempo todo, e em que boa parte da publicidade funciona mostrando o que alguém parecido com você já tem.

A pressão para comprar. Maimônides considera transgressão insistir com o dono, com pedidos e com amigos, até que ele venda o que não queria vender. É uma descrição exata de um tipo de negociação que passa por legítima porque termina em pagamento: o vizinho que não queria vender o terreno, o sócio pressionado a ceder a parte.

A educação do desejo. A parábola de Ibn Ezra supõe que o desejo depende do que a pessoa considera possível e permitido, e que isso se forma desde a infância. Não é uma técnica de controle; é a observação de que o que uma pessoa aprende a julgar fora do seu alcance deixa de atormentá-la.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

1. Pode uma lei mandar num sentimento?

A objeção é antiga, e o próprio Ibn Ezra a registra. As respostas vão em duas direções. A rabínica desloca a transgressão para o ato, e mesmo assim com cautela: Maimônides observa que nem a cobiça que chega à compra sob pressão é punida com açoites pelo tribunal, porque a lei não a classifica como ato punível. A outra resposta diz que o mandamento não é uma regra de tribunal, e sim uma orientação para a formação da pessoa. Nenhuma das duas está escrita no versículo.

2. É proibido querer ter o que o vizinho tem, sem querer tirá-lo dele?

O texto proíbe cobiçar "a casa do teu próximo", e não "uma casa". Muitos leitores distinguiram, por isso, o desejo de ter algo semelhante — legítimo, e que pode levar ao trabalho — do desejo da coisa do outro, que só se realiza tirando-a dele. A distinção não está no versículo, mas é coerente com a insistência dele no possessivo.

3. Por que a lista não inclui o campo, como a do Deuteronômio?

O texto não explica. A hipótese mais comum é a de que a versão do Êxodo reflete a situação do deserto, sem terra cultivada, e a do Deuteronômio a de um povo já instalado. É uma leitura plausível, mas as duas versões estão nos livros como as conhecemos, e a ordem em que foram compostas é discutida.

9. Conexão com Outros Textos

A segunda versão

Deuteronômio 5:21 — "Não cobiçarás a mulher do teu próximo; não desejarás a casa do teu próximo, nem o seu campo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo."

A mulher primeiro, o verbo trocado para o resto, o campo acrescentado.

Cobiçar e tomar

Deuteronômio 7:25 — "As imagens dos deuses deles vocês queimarão no fogo; não cobiçarás a prata nem o ouro que estão sobre elas, nem os tomarás para ti, para que não sejas apanhado por eles."

O versículo da Mekhilta: cobiçar e tomar juntos.

Josué 7:21 — "Vi entre os despojos uma bela capa babilônica, duzentos siclos de prata e uma barra de ouro de cinquenta siclos de peso; cobicei-os e tomei-os."

Miqueias 2:2 — "Cobiçam campos e os tomam à força, e casas, e as levam; oprimem o homem e a sua casa, o homem e a sua herança."

O versículo com que a Mekhilta mostra a cobiça virando roubo.

Cobiçar no coração

Provérbios 6:25 — "Não cobices a sua beleza no teu coração, nem te deixes prender pelos olhos dela."

O mesmo verbo para o que acontece por dentro — o principal apoio da leitura que vê no mandamento um sentimento.

Gênesis 3:6 — "A mulher viu que a árvore era boa para comer, agradável aos olhos e desejável para dar entendimento. Então tomou do seu fruto e comeu."

"Desejável" é a mesma raiz de "cobiçar". Ver, desejar, tomar: a sequência já estava no jardim.

A terra

Êxodo 34:24 — "Expulsarei nações de diante de ti e alargarei as tuas fronteiras; ninguém cobiçará a tua terra quando subires para aparecer diante do SENHOR, o teu Deus, três vezes por ano."

O Novo Testamento

Romanos 7:7 — "Que diremos, então? Que a lei é pecado? De modo nenhum. Mas eu não teria conhecido o pecado senão pela lei; pois eu não saberia o que é a cobiça, se a lei não dissesse: 'Não cobiçarás'."

Paulo escolhe justamente este mandamento para falar da lei que revela o pecado, e o escolhe porque é o que alcança o interior: os outros podem ser cumpridos por quem nunca agiu; este, não.

Romanos 13:9 — "Pois os mandamentos 'Não adulterarás', 'Não matarás', 'Não furtarás', 'Não cobiçarás', e qualquer outro mandamento, se resumem nesta palavra: 'Amarás o teu próximo como a ti mesmo'."

A segunda tábua resumida no amor ao próximo — a palavra que o décimo mandamento repete três vezes.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Não cobiçarás a casa do teu próximo; não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem o seu servo, nem a sua serva, nem o seu boi, nem o seu jumento, nem coisa alguma do teu próximo.”

Texto hebraico

לֹא תַחְמֹד בֵּית רֵעֶךָ לֹא־תַחְמֹד אֵשֶׁת רֵעֶךָ וְעַבְדּוֹ וַאֲמָתוֹ וְשׁוֹרוֹ וַחֲמֹרוֹ וְכֹל אֲשֶׁר לְרֵעֶךָ׃

Transliteração

lo tachmod beit re'ekha; lo-tachmod eshet re'ekha, ve-avdo va-amato ve-shoro va-chamoro ve-khol asher le-re'ekha.

Análise palavra por palavra

לֹא תַחְמֹד — lo tachmod, "não cobiçarás".

A negação das proibições permanentes com a segunda pessoa do masculino singular de chamad. A raiz e o seu sentido de "o que é precioso, o que se deseja" estão analisados no estudo de Gênesis 27:15. Aqui importa o par que o Deuteronômio cria: no lugar do segundo tachmod, Deuteronômio 5:21 usa titaveh, de avah, "desejar", na forma reflexiva — "desejar para si". Keil e Delitzsch reproduzem a distinção proposta por um hebraísta alemão do seu tempo: chamad seria o desejo despertado de fora, pela beleza do que se vê; hit'avah, o desejo que nasce de dentro, da própria falta. É sobre esse par que a Mekhilta e Maimônides constroem as duas proibições.

בֵּית רֵעֶךָ — beit re'ekha, "a casa do teu próximo".

Bayit, "casa", na forma que se liga ao substantivo seguinte, e re'a, "próximo", com o sufixo da segunda pessoa. A palavra re'ekha aparece três vezes no versículo e fecha cada uma das suas partes.

Depois destas três palavras, o rolo hebraico deixa um espaço em branco no meio da linha, uma das marcas de parágrafo do texto tradicional.

לֹא־תַחְמֹד אֵשֶׁת רֵעֶךָ — lo-tachmod eshet re'ekha, "não cobiçarás a mulher do teu próximo".

O verbo repetido, agora unido à negação pelo maqqef, o pequeno traço que junta palavras. Eshet é a forma de ishah, "mulher", ligada ao substantivo seguinte.

וְעַבְדּוֹ וַאֲמָתוֹ — ve-avdo va-amato, "e o seu servo e a sua serva".

Os dois com o sufixo da terceira pessoa, "dele". A partir daqui, o possessivo deixa de ser "do teu próximo" e passa a ser "dele" — o próximo já foi nomeado.

וְשׁוֹרוֹ וַחֲמֹרוֹ — ve-shoro va-chamoro, "e o seu boi e o seu jumento".

O animal de tração e o de carga, no singular, como categorias.

וְכֹל אֲשֶׁר לְרֵעֶךָ — ve-khol asher le-re'ekha, "e tudo o que é do teu próximo".

Literalmente, "tudo o que pertence ao teu próximo". A fórmula final transforma a lista em exemplo e fecha qualquer brecha.

As traduções antigas

A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) não traduziu o Êxodo como está: harmonizou-o com o Deuteronômio. Põe a mulher em primeiro lugar, depois a casa, acrescenta "nem o seu campo" e ainda "nem nenhum dos seus animais". O verbo grego é epithymeō, "desejar", o mesmo que Paulo cita em Romanos 7:7. A Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) segue a ordem hebraica, mas usa dois verbos diferentes onde o hebraico repete um só: non concupisces domum proximi tui, nec desiderabis uxorem eius, "não cobiçarás a casa do teu próximo, nem desejarás a mulher dele". O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) mantém o mesmo verbo nas duas vezes, como o hebraico.

11. Conclusão

Com base no que foi dito, a primeira conclusão é que o último mandamento desloca o Decálogo do que se faz para o que se quer — mas não se pode dizer, só pelo texto, até onde vai o deslocamento. A tradição rabínica exigiu um ato; Ibn Ezra e os comentaristas cristãos afirmaram que o próprio desejo é alcançado; e a solução de Maimônides, com duas proibições em cadeia, preserva as duas posições sem anular nenhuma.

A segunda é que o mandamento é menos sobre as coisas do que sobre a relação com quem as tem. A palavra "próximo", repetida três vezes, faz da cobiça um desejo voltado para o vizinho — e é por isso que as leituras antigas a ligaram ao roubo, ao adultério e ao homicídio, e as modernas, à inveja.

A terceira é que a lista diz para quem a lei falava: o chefe de uma casa com mulher, servos e gado. O Deuteronômio já mexe nessa lista, separando a mulher e acrescentando o campo. O texto guarda, assim, a marca do mundo em que nasceu e a de quem, dentro da própria Bíblia, começou a relê-lo.

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