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Êxodo 20:18

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✍️ Por Alberto Adriano·6 de outubro de 2026·⏱️ 24 min de leitura·👁 18 acessos
Todo o povo via os trovões e as tochas, o som da trombeta e o monte fumegando; o povo viu, tremeu e ficou de longe.
Ao longe, um monte escuro coberto de fumaça, cortado por relâmpagos que parecem tochas; em primeiro plano, uma multidão de israelitas em túnicas simples recua de costas, alguns cobrindo os ouvidos, outros abraçando crianças, todos olhando para o alto com espanto.

Estudo


Todo o povo via os trovões e as tochas, o som da trombeta e o monte fumegando; o povo viu, tremeu e ficou de longe.

1. Introdução

Deus acabou de falar, e o texto vira a câmera para o povo. Ninguém fala no versículo: só há coisas que se percebem — trovões, tochas, trombeta, fumaça — e uma reação em três tempos: o povo viu, tremeu e ficou de longe. Duas perguntas atravessam a frase. A primeira é de ordem: esse recuo aconteceu depois das Dez Palavras, como o texto parece contar, ou antes delas, como sustentou Nachmânides? A segunda é de palavra: as "tochas" que aparecem no lugar dos relâmpagos e o verbo do tremor, que uns leem como estremecer e outros como sair do lugar.

2. Contexto Histórico e Cultural

Trovão no terceiro mês

O Sinai acontece "no terceiro mês" (Êxodo 19:1), o mês que o calendário judaico chama de Sivã, entre maio e junho. Para quem morava em Canaã, essa é a estação da colheita do trigo, e é estação seca: as chuvas param em abril e só voltam em outubro. Trovão nessa época era coisa fora do lugar.

A Bíblia registra essa estranheza duas vezes. O livro de Provérbios usa a chuva na colheita como imagem do que não combina: "Como neve no verão e como chuva na colheita, assim não convém honra ao tolo" (Provérbios 26:1). E em 1 Samuel 12:17-18, quando Samuel quer dar ao povo um sinal que ninguém possa atribuir ao acaso, ele pergunta: "Não é hoje a colheita do trigo? Vou clamar ao SENHOR, e ele mandará trovões e chuva". O trovão vem, e "todo o povo temeu muito ao SENHOR e a Samuel". O sinal funciona justamente porque, naquele mês, trovão não era esperado.

O monte Sinai não fica em Canaã, e as tempestades nas montanhas do sul da península seguem outro regime. Mas o leitor para quem o Êxodo foi escrito era agricultor da terra prometida, e ele ouvia "trovões no terceiro mês" com o ouvido de quem colhe trigo debaixo de céu limpo. A cena de Samuel, aliás, termina como a do Sinai: o povo, apavorado, pede ao intermediário que fale com Deus por ele, "para que não morramos" (1 Samuel 12:19).

O que era uma tocha

A palavra que a ABC traduz por "tochas" não é a dos relâmpagos de Êxodo 19:16. É o nome de um objeto que todo israelita tinha na mão: o archote, um pau com a ponta envolta em pano ou fibra embebida em óleo ou resina, aceso para andar no escuro. Não era luz de casa — para isso havia a lamparina de barro com azeite. A tocha era luz de quem sai, de quem marcha, de quem ataca à noite.

É o que mostram os dois usos narrativos mais conhecidos. Os trezentos homens de Gideão levam tochas escondidas dentro de jarros vazios; no meio da noite quebram os jarros, e o acampamento inimigo acorda cercado de fogo (Juízes 7:16-20). Sansão amarra tochas acesas às caudas de raposas e as solta nos campos dos filisteus, queimando trigo ceifado, trigo em pé, vinhas e olivais (Juízes 15:4-5) — e isso, diz o texto, "nos dias da colheita do trigo" (Juízes 15:1). Nos dois casos, tocha é fogo que se move, carregado, de um ponto para outro.

Chamar o relâmpago de "tochas", então, é descrever o que se vê de baixo: fogo que corre pelo alto como se alguém o carregasse. Os profetas usarão a mesma imagem para os carros de guerra que "parecem tochas" e correm como relâmpagos (Naum 2:4). No Sinai, o fogo que corre está sobre o monte, e o povo o vê de onde está.

3. Análise Teológica do Versículo

"Todo o povo via os trovões e as tochas"

O versículo abre com uma visão que dura. O primeiro "via" não é um instante: é um estado contínuo, o povo estava vendo, enquanto as coisas aconteciam. Só no fim da frase aparece o "viu" pontual, que marca o momento em que a percepção vira reação. São dois tempos do mesmo olhar: um que assiste e outro que conclui. Sforno (Ovádia Sforno, comentarista italiano do século XVI) dá ao segundo "viu" o sentido de "entendeu": o povo entendeu o que devia fazer, e o que fez foi recuar.

Os trovões são, literalmente, "as vozes". O debate sobre como se veem vozes — se é milagre dos sentidos ou modo hebraico de dizer "perceber" — pertence ao estudo de Êxodo 19:11.

As tochas são outra conversa, porque a palavra muda. Em Êxodo 19:16, a manhã do terceiro dia teve "relâmpagos", com o termo comum. Aqui, a mesma luz do céu ganha o nome de um objeto de mão. Há três modos de ler a mudança.

Primeira leitura: é a mesma coisa dita com outra imagem. É a posição de Keil e Delitzsch (dupla de hebraístas alemães do século XIX), para quem as "tochas" são relâmpagos vivos, em lampejos seguidos. O Targum de Ônquelos (a tradução aramaica oficial da Torá na sinagoga) conserva o sentido de chamas, sem explicar.

Segunda leitura: as tochas apontam para outra cena da Bíblia. Rabi Natan, na Mekhilta de Rabi Ishmael (coleção de interpretações rabínicas do Êxodo, por volta do século III), lê Gênesis 15:17 como uma visão antecipada do Sinai dada a Abraão. Na noite da aliança entre os animais partidos, Abraão viu "um forno fumegante e uma tocha de fogo". Aqui o povo vê "tochas" e "o monte fumegando". O par fumaça e tocha aparece nos dois lugares, e em nenhum outro ponto da Torá. A ligação é dos mestres; o Êxodo não cita o Gênesis. Mas o par de palavras é real, e quem o nota lê o Sinai como a aliança de Abraão ampliada: lá, um homem viu de noite o fogo passar entre as partes; aqui, um povo inteiro vê o fogo de dia.

Terceira leitura: as tochas são as próprias palavras. Rabi Akiva, na mesma seção da Mekhilta, cita o Salmo 29:7, "a voz do SENHOR talha chamas de fogo", e diz que nada saiu da boca de Deus que não tenha sido gravado nas tábuas. Nessa leitura, a luz que o povo via era a escrita acontecendo — fogo que corta pedra. É leitura de pregador, e não tem apoio no Êxodo, que só fala das tábuas muito depois (Êxodo 24:12).

"o som da trombeta e o monte fumegando"

A lista retoma os fenômenos de Êxodo 19:16-18, mas não todos. Faltam a nuvem pesada e o tremor do monte, e o que ficou é o que se percebe de longe: o som, o fogo no céu, a fumaça. A lista é a de quem já está recuando.

"o povo viu, tremeu"

O verbo traduzido por "tremeu" é outro, e não o que Êxodo 19:16 usou para o estremecimento do acampamento. E é ambíguo. O hebraico vayanu'u ("e se abalaram") serve tanto para o corpo que treme quanto para quem sai do lugar. As leituras se dividem exatamente aí.

Primeira leitura: tremeram. É a da Mekhilta, repetida por Rashi (Rabi Shlomo Yitzchaki, França, século XI): "este verbo não é senão estremecer". Shadal (Samuel David Luzzatto, Itália, século XIX) a defende com Isaías 7:2, onde o coração do rei e do povo "se agitou como as árvores do bosque se agitam com o vento". O movimento é no lugar, como o da árvore.

Segunda leitura: saíram do lugar. É a de Ibn Ezra (Abraão ibn Ezra, Espanha, século XII), com um argumento de lógica: se o povo não tivesse se movido, como poderia "ficar de longe"? Para ele, o verbo é o do errante de Gênesis 4:12, Caim "errante e fugitivo pela terra": cada um deu as costas ao ponto em que estava e foi para trás.

Terceira leitura: as duas coisas. Nachmânides (Moisés ben Nachman, chamado Ramban, rabino catalão do século XIII) junta as anteriores: o povo foi sacudido e, por causa do abalo, recuou. Nessa leitura o versículo descreve dois movimentos, um do corpo e outro dos pés.

A diferença não é só de gramática. Se o verbo é tremor, o recuo vem depois, como decisão. Se o verbo já é deslocamento, o recuo não foi decidido: o medo empurrou o povo para trás antes que alguém escolhesse.

"e ficou de longe"

Aqui está a pergunta maior do versículo: quando isso aconteceu? Na ordem do texto, o povo recua depois das Dez Palavras. Mas o texto hebraico conta muitas vezes fora de ordem, e a dúvida é antiga.

Primeira posição: depois do Decálogo. É a leitura de Ibn Ezra e de Rashbam (Samuel ben Meir, neto de Rashi, França, século XII), que escreve sobre o versículo seguinte: "depois de terem ouvido as Dez Palavras". E o Deuteronômio, ao recontar a cena, põe o pedido do povo depois da voz (Deuteronômio 5:22-27). É também a leitura de quase todos os comentaristas cristãos, de Ellicott (Charles Ellicott, bispo anglicano do século XIX) a Keil e Delitzsch.

Segunda posição: antes do Decálogo. É a de Nachmânides, que a defende com quatro argumentos tirados do texto. Primeiro: aqui o povo diz "que Deus não fale conosco", sem "mais"; no Deuteronômio diz "se continuarmos a ouvir", o que supõe uma fala anterior. Segundo: aqui Moisés responde "não temam", como quem corrige; no Deuteronômio é Deus quem responde, e aprova. Terceiro: aqui o medo é dos trovões, das tochas e da fumaça; no Deuteronômio é da voz que sai do fogo. Quarto: aqui Moisés "se aproximou" da escuridão, e o texto não diz que entrou nela, como dirá em Êxodo 24:18. Para Nachmânides, portanto, há dois episódios. No primeiro, de manhã, o povo vê o espetáculo, recua além do limite que Moisés traçara e se recusa a voltar, apesar do "não temam"; Moisés se aproxima da escuridão, e só então Deus pronuncia as Dez Palavras. O segundo episódio, contado no Deuteronômio, acontece depois do Decálogo, com os chefes das tribos. O Êxodo, diz ele, primeiro registrou as palavras de Deus em sequência e depois voltou atrás para contar o que o povo dissera.

Terceira posição: o recuo é a própria saída ao encontro de Deus. Shadal, citando um aluno, David Chazak, e lembrando que Bahya ben Asher (comentarista de Saragoça, século XIII) pensava parecido, lê o versículo como a continuação de Êxodo 19:17: o povo saiu do acampamento, viu as tochas, estremeceu e parou longe, sem chegar sequer até onde o limite permitia.

As consequências são grandes. Se o recuo é posterior, o povo ouviu as Dez Palavras de perto e só depois pediu distância: o medo é da voz e do conteúdo. Se é anterior, o Decálogo foi ouvido de longe, por um povo que já tinha fugido do fogo: o medo é do espetáculo, e não das palavras. Não é possível decidir pelo Êxodo. A gramática dá um pequeno apoio a Nachmânides: o versículo não abre com a forma verbal que, em hebraico, encadeia um fato depois do outro, e sim com o sujeito seguido de um particípio — "todo o povo estava vendo" —, construção que descreve uma situação em curso e pode recuar no tempo. O Deuteronômio, por outro lado, apoia a primeira posição. Nenhum dos dois argumentos fecha a questão.

O que o texto garante é a imagem final: um povo inteiro parado longe do lugar onde Deus fala. A mesma expressão volta três versículos adiante (Êxodo 20:21), e é ela que vai separar o povo de Moisés.

4. Pessoas, Lugares e Eventos

Todo o povo

O sujeito do versículo, nomeado duas vezes: "todo o povo via" e "o povo viu". Ibn Ezra entende que, no versículo seguinte, quem fala são os chefes e os sacerdotes que estavam perto de Moisés; aqui, ao contrário, a reação é de todos. A Mekhilta tira do "todo" uma conclusão de pregador: no Sinai não havia um único cego, porque "todo o povo via".

Moisés

Ausente do versículo. Não é mencionado nem ao lado do povo, nem no monte. Onde ele estava durante as Dez Palavras é a pergunta do estudo de Êxodo 19:25; aqui, a ausência deixa o povo sozinho diante dos fenômenos, e o versículo seguinte começa justamente com o povo procurando por ele.

Deus

Também ausente como sujeito. O versículo não tem nenhuma ação de Deus: tem trovões, fogo, trombeta e fumaça. Deus está implícito em tudo e não é nomeado em nada. Só reaparece no versículo seguinte, na boca do povo, como aquele que não deve falar.

O monte Sinai

Descrito agora só pela fumaça. É o mesmo monte de Êxodo 19:18, que fumegava "como uma fornalha" porque o SENHOR descera sobre ele em fogo.

O lugar "de longe"

Não é um lugar com nome. É a distância entre o povo e o pé do monte, maior do que a que o limite exigia. Para Nachmânides, o povo recuou para além da linha que Moisés tinha marcado e, mesmo chamado de volta, não quis se aproximar dela.

O momento

Em disputa. Na ordem do texto, logo depois das Dez Palavras; para Nachmânides, na manhã do terceiro dia, antes delas (item 3).

5. Pontos de Ensino

1. O texto registra o medo sem censurá-lo. Nenhuma palavra do versículo chama o recuo de covardia ou de falta de fé. O povo vê, treme e se afasta, e o Êxodo deixa a reação como está.

2. O mesmo povo que corria o risco de avançar agora recua. Dois capítulos antes, Deus mandou advertir duas vezes para que o povo não rompesse o limite (Êxodo 19:21-24). A advertência acabou não sendo necessária: o próprio espetáculo pôs o povo mais longe do que a cerca.

3. Ver e ouvir vêm juntos. A lista mistura o que se vê (tochas, fumaça) e o que se ouve (trovões, trombeta) debaixo de um único verbo de ver. O versículo descreve uma experiência inteira, e não um sentido isolado.

4. A ordem dos acontecimentos não está garantida. O Êxodo conta o recuo depois do Decálogo; Nachmânides o põe antes. Quem lê a Torá precisa contar com a possibilidade de que a sequência das frases não seja a sequência dos fatos.

5. A distância vira forma. O que começa como fuga se transforma em estrutura: o povo longe, Moisés perto. Esse desenho vai governar o resto do encontro e, depois, a arquitetura do santuário.

6. Aspectos Filosóficos

Por que o povo foi para longe

Diante de algo insuportável de ver, fecham-se os olhos ou vira-se o rosto. Diante de algo insuportável de ouvir, não há o que fechar. O versículo mostra um povo que percebe com todos os sentidos ao mesmo tempo e reage do único modo que o corpo tem contra o som: afastando-se. Essa diferença entre o ver e o ouvir foi o tema de um filósofo norte-americano.

Don Ihde e a fenomenologia do som

Don Ihde (nascido em 1934, professor da Universidade Estadual de Nova York em Stony Brook) publicou em 1976 Listening and Voice (“Escuta e voz”), um estudo do que acontece quando ouvimos, feito pelo método da fenomenologia — a descrição cuidadosa da experiência tal como ela aparece, antes de qualquer teoria sobre ela. A tese de partida é polêmica: a filosofia ocidental pensou quase sempre com os olhos. Conhecer virou "ver", a verdade virou "evidência" (o que se vê), a ideia, em grego, é "aquilo que se viu". Ihde chama isso de visualismo e propõe descrever o mundo também pelo ouvido.

Quando faz isso, encontra diferenças de estrutura. O campo da visão tem frente e tem fundo: vejo o que está diante de mim, e o que está atrás simplesmente não existe para o olhar. O campo da audição envolve: o som vem de todos os lados, inclusive de trás, e eu estou no meio dele. A visão permite distância e escolha — desvio os olhos, fecho as pálpebras. A audição não tem pálpebras. E o som forte não fica só no ouvido: o trovão e a nota grave entram no corpo inteiro, sentidos no peito e no chão.

Há ainda uma observação que Ihde repete: o som revela o que a vista não alcança. Batendo numa caixa fechada, sei se está vazia; ouvindo uma voz, sei que há alguém onde nada vejo. O som dá notícia de uma presença invisível.

O que isso ilumina no versículo

Lido assim, o recuo do povo deixa de parecer só pânico e passa a parecer lógico. Contra o espetáculo visual bastaria olhar para o chão. Contra o trovão e a trombeta, que envolvem, atravessam o corpo e não se deixam bloquear, a única defesa é a distância — o som diminui à medida que se vai para longe. O povo "ficou de longe" porque não havia outro modo de baixar o volume.

E a segunda observação de Ihde explica o tipo de medo. O que o povo vê no monte é fumaça, isto é, algo que esconde. O que o povo ouve é sinal de presença. A combinação é exatamente a que Ihde descreve: uma presença anunciada pelo som e escondida para os olhos. O versículo seguinte confirma que o medo é do ouvir: o povo não pede para deixar de ver; pede que Deus não fale.

Onde a leitura para

Ihde descreve a audição comum — o trânsito, a música, a voz de alguém na sala. O versículo descreve uma experiência que o próprio texto apresenta como única. Aplicar a análise do som cotidiano a um som que o Êxodo trata como incomparável é usar uma ferramenta fora da sua medida. E o versículo, além disso, não separa os sentidos como Ihde separa: põe tudo debaixo do verbo "ver". O que a fenomenologia oferece é uma hipótese sobre o gesto final — ficar longe —, e não uma explicação do acontecimento.

7. Aplicações Práticas

A distância não é, por si, falta. O versículo descreve gente que se afasta de algo grande demais para ela, e não a acusa. Quem já recuou diante de uma notícia, de um diagnóstico, de uma responsabilidade que parecia maior do que as próprias forças pode reconhecer o gesto. O texto não transforma esse recuo em regra, nem em virtude; registra que ele aconteceu e que a história continuou a partir dele.

O medo coletivo tem forma própria. "Todo o povo" viu e "todo o povo" recuou. O versículo descreve uma reação de multidão, em que ninguém decide sozinho. Quem já esteve numa situação de pânico coletivo sabe que a decisão de recuar raramente é tomada por alguém; ela acontece. O texto registra isso com o verbo de duplo sentido — tremer e sair do lugar — e deixa em aberto se houve escolha.

8. Perguntas e Respostas Reflexivas

O povo ouviu as Dez Palavras de perto ou de longe?

Depende da posição sobre a ordem dos acontecimentos (item 3). Se o recuo é posterior, ouviu de perto. Se é anterior, como quer Nachmânides, ouviu de longe, e Moisés estava entre o povo e a escuridão. O Deuteronômio diz que Deus falou "do meio do fogo" a "toda a assembleia" (Deuteronômio 5:22), o que não resolve a distância.

Por que a lista não traz a nuvem?

Em Êxodo 19:16 havia "uma nuvem pesada sobre o monte". Aqui ela não aparece, e só volta, com outro nome, no versículo 21. Uma explicação possível é que o versículo lista o que provoca o recuo — luz, som e fumaça —, enquanto a nuvem é o lugar para onde Moisés vai. É hipótese de leitura; o texto não diz por que a omite.

A trombeta ainda soava depois das Dez Palavras?

Em Êxodo 19:19 ela "ia ficando cada vez mais forte". Se o recuo é posterior ao Decálogo, ela continuou soando durante toda a fala. Maimônides (Moisés ben Maimon, filósofo judeu nascido em Córdova, 1138-1204) entende que sim: os trovões e a trombeta continuaram enquanto Moisés subia e descia com o restante dos mandamentos.

Quantos ficaram perto?

O versículo diz "todo o povo". Ninguém é excetuado, nem mesmo os anciãos ou os sacerdotes mencionados em Êxodo 19:22. A exceção é Moisés, e ela só aparece no versículo 21. O recuo de doze milhas e o retorno a cada palavra, que Rabi Akiva conta, são leitura dos mestres, e estão no estudo de Êxodo 19:4.

O povo foi castigado por recuar?

Não. O versículo seguinte traz um pedido, e o Deuteronômio registra que Deus o aprovou (Deuteronômio 5:28). Se houve alguma perda, ela é discutida pelos comentaristas, e não pelo texto.

9. Conexão com Outros Textos

A tocha e a fumaça na aliança de Abraão

Gênesis 15:17 — E aconteceu que, depois do pôr do sol, quando já estava escuro, eis que apareceram um forno fumegante e uma tocha de fogo que passou por entre aquelas metades.

O único outro lugar da Torá em que fumaça e tocha aparecem juntas como sinal da presença de Deus numa aliança. A Mekhilta liga as duas cenas: Abraão teria visto o Sinai de antemão.

As tochas de Gideão

Juízes 7:20 — "As três companhias tocaram as trombetas e quebraram os jarros; seguraram as tochas na mão esquerda e as trombetas na mão direita, para tocar, e gritaram: 'Espada pelo SENHOR e por Gideão!'"

Tochas e trombetas juntas, como no Sinai. Lá, eram o susto que punha o inimigo em fuga; aqui, são o que faz o povo recuar.

O verbo do tremor

Isaías 6:4 — "Os batentes das portas se abalaram com a voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça."

Na visão de Isaías no templo, o mesmo verbo, provocado por uma voz, e a mesma fumaça. Ibn Ezra cita o versículo para mostrar que o verbo pode indicar deslocamento: para ele, os batentes se moveram do lugar.

Isaías 24:20 — "A terra cambaleia como um bêbado e balança como uma cabana."

O exemplo que Sforno usa para o sentido de movimento involuntário: o corpo que oscila sem conseguir parar.

O errante

Gênesis 4:12 — Quando você cultivar a terra, ela não lhe dará mais a sua força; você será errante e fugitivo pela terra.

A palavra de Caim que Ibn Ezra liga ao verbo do Sinai. Nessa leitura, o povo não tremeu no lugar: saiu do lugar.

A cena lembrada

Deuteronômio 4:11-12 — "Vocês se aproximaram e ficaram ao pé do monte, e o monte ardia em fogo até o coração do céu, com trevas, nuvem e escuridão espessa. E o SENHOR falou com vocês do meio do fogo: vocês ouviam o som das palavras, mas não viam forma nenhuma; havia só uma voz."

A recordação do Deuteronômio insiste no que foi ouvido e no que não foi visto. O Êxodo, aqui, põe tudo debaixo do verbo ver.

O povo de longe, outra vez

Êxodo 2:4 — E a irmã dele ficou de longe, para saber o que lhe aconteceria.

A mesma expressão no começo do livro. Lá, alguém fica de longe para ver o que vai acontecer a Moisés; aqui, o povo inteiro fica de longe enquanto Moisés vai em frente. A série completa de quem "fica de longe" na Bíblia está no estudo de Gênesis 22:4.

10. Original Hebraico e Análise

Texto em português

Todo o povo via os trovões e as tochas, o som da trombeta e o monte fumegando; o povo viu, tremeu e ficou de longe.

Texto hebraico

וְכׇל־הָעָם֩ רֹאִ֨ים אֶת־הַקּוֹלֹ֜ת וְאֶת־הַלַּפִּידִ֗ם וְאֵת֙ ק֣וֹל הַשֹּׁפָ֔ר וְאֶת־הָהָ֖ר עָשֵׁ֑ן וַיַּ֤רְא הָעָם֙ וַיָּנֻ֔עוּ וַיַּֽעַמְד֖וּ מֵֽרָחֹֽק׃

Transliteração

ve-khol-ha'am ro'im et-ha-qolot ve-et-ha-lappidim ve-et qol ha-shofar ve-et-ha-har ashen; va-yar ha'am va-yanu'u va-ya'amdu me-rachoq.

Na Bíblia hebraica, este é o versículo 15 do capítulo 20. A numeração das Bíblias em português, que o site segue, separa o último mandamento em dois versículos a mais.

Análise palavra por palavra

וְכׇל־הָעָם — ve-khol-ha'am, "e todo o povo".

O sujeito vem antes do verbo, o que em hebraico interrompe o encadeamento da narrativa e abre uma cena nova. É o sinal gramatical de que o texto mudou de assunto depois das Dez Palavras.

רֹאִים — ro'im, "via", literalmente "vendo".

Particípio do verbo ra'ah, "ver", no plural masculino. O particípio hebraico descreve ação em curso, e a tradução de Cambridge propõe "estavam vendo". O sujeito é coletivo e singular ("o povo"), mas o verbo vai para o plural: o povo como soma de pessoas. Rashbam (comentarista francês do século XII) insiste que o verbo quer dizer ver com os olhos.

אֶת־הַקּוֹלֹת — et-ha-qolot, "os trovões", literalmente "as vozes".

Plural de qol, "voz, som". O uso do plural para trovões está no estudo de Êxodo 9:23. A Septuaginta (a tradução grega feita no Egito nos séculos III-II a.C.) escreve aqui tēn phōnēn, no singular: "a voz". Com isso, a tradução grega deixa de falar de trovões e passa a falar da voz de Deus.

וְאֶת־הַלַּפִּידִם — ve-et-ha-lappidim, "e as tochas".

Plural de lappid, "tocha, archote". O texto massorético (o texto hebraico padronizado pelos escribas medievais) escreve a palavra sem o yod, a letra que costuma aparecer antes do mem final do plural; é grafia abreviada, que não muda o sentido. A palavra aparece pouco mais de dez vezes na Bíblia hebraica. É a tocha de Gênesis 15:17; a dos homens de Gideão (Juízes 7:16 e 7:20); a das raposas de Sansão (Juízes 15:4-5); a dos carros de guerra que "parecem tochas" (Naum 2:4, no hebraico 2:5); a da salvação de Jerusalém que arde "como tocha" (Isaías 62:1); a dos olhos do homem vestido de linho, "como tochas de fogo" (Daniel 10:6); a dos seres vivos de Ezequiel, que pareciam "tochas" (Ezequiel 1:13). Em quase todas, é fogo em movimento. A Septuaginta traduz por lampadas, "tochas, lâmpadas", palavra da qual vem "lâmpada" em português.

וְאֵת קוֹל הַשֹּׁפָר — ve-et qol ha-shofar, "e o som da trombeta".

Agora qol no singular e ligado ao substantivo seguinte, "o som de". O mesmo substantivo que, no plural, era "trovões", no singular é o som do chifre de carneiro. Uma única palavra hebraica cobre a voz, o trovão e o instrumento, e o versículo usa as três acepções em sequência.

וְאֶת־הָהָר עָשֵׁן — ve-et-ha-har ashen, "e o monte fumegando".

Ashen é adjetivo, "fumegante", da raiz de ashan, "fumaça". Como adjetivo, a forma é rara: volta em Isaías 7:4, nos "dois tocos de tições fumegantes", com que o profeta descreve dois reis inimigos que não passam de lenha quase apagada. O mesmo adjetivo serve para o monte em que Deus está e para a brasa que já não queima. Em Êxodo 19:18, a ideia vinha em forma de verbo ("fumegava").

וַיַּרְא הָעָם — va-yar ha'am, "o povo viu".

Agora o verbo na forma que encadeia a narrativa, terceira pessoa do singular: uma ação pontual. Aqui está a principal variante do versículo. A Septuaginta traduz phobēthentes, "tendo temido"; a Vulgata (a tradução latina de Jerônimo, por volta do ano 400) escreve perterriti, "aterrorizados". As duas pressupõem um hebraico va-yire'u, "e temeram", que se escreve com quase as mesmas letras de "e viu". O Pentateuco Samaritano (a Torá conservada pela comunidade samaritana, com texto próprio) também lê "temeram". A Bíblia de Cambridge (série de comentários da universidade inglesa) considera essa leitura mais natural, porque evita repetir "via… viu". O texto massorético mantém "viu", e é ele que a ABC traduz. Com "viu", a frase descreve uma percepção que vira reação; com "temeram", nomeia a emoção.

וַיָּנֻעוּ — va-yanu'u, "e tremeu", literalmente "e se abalaram".

Verbo nu'a, no Qal (a forma simples e ativa do verbo hebraico), terceira pessoa do plural. O campo da raiz cobre dois movimentos. Um é o tremor no lugar: o coração do rei que se agita como as árvores ao vento (Isaías 7:2), a terra que cambaleia como bêbado (Isaías 24:20), os lábios de Ana que se mexem sem som (1 Samuel 1:13). O outro é o deslocamento: Caim, na va-nad, "errante e fugitivo" (Gênesis 4:12); Israel, que Deus "fez vaguear" quarenta anos no deserto (Números 32:13, na forma causativa); os filhos do ímpio que "andarão errantes" (Salmo 109:10). A Mekhilta escolhe o primeiro sentido ("não é senão estremecer"); Ibn Ezra, o segundo. A Septuaginta não traduz este verbo: junta "viu" e "tremeu" num só particípio, "tendo temido".

וַיַּעַמְדוּ מֵרָחֹק — va-ya'amdu me-rachoq, "e ficou de longe".

Amad, "ficar de pé, parar, permanecer", no plural. Me-rachoq, literalmente "desde longe", com a preposição de origem: o hebraico mede a distância a partir de onde a pessoa está. No versículo 21, a mesma expressão volta com o verbo no singular, "o povo ficou".

11. Conclusão

Com base no que foi visto, o versículo leva a uma primeira conclusão: o Êxodo não apresenta a revelação como algo que o povo suportou de perto. A resposta à voz de Deus é distância, e o texto a registra sem reprovação. O que poderia ser lido como falha vira o ponto de partida de tudo o que vem depois: o pedido de um intermediário, a resposta de Moisés, a aproximação dele sozinho.

A segunda conclusão é sobre a leitura. O versículo obriga a perguntar se a ordem das frases é a ordem dos fatos, e a pergunta não tem resposta segura. Isso muda o sentido do medo: medo da voz que falou, ou medo de um fogo que ainda nem tinha falado. Quem lê o Sinai precisa saber que os dois quadros são possíveis.

E a terceira é sobre o que o povo percebeu. A cena não tem forma de Deus: tem luz que corre, som que envolve e fumaça que esconde. O que o povo teve foi notícia de uma presença, forte o bastante para empurrá-lo para trás, e nenhuma imagem dela. É dessa experiência sem imagem que sai o pedido do versículo seguinte.

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Bíblia2.888 / 31.102 9,29%
Antigo Testamento2.114 / 23.145 9,13%
Novo Testamento774 / 7.957 9,73%